De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma
Parte X
P A R T E X
O jornal havia fechado,
definitivamente, depois de várias tentativas de reerguê-lo. O senhor Rogério estava tirando verbas do seu restaurante para mantê-lo e chegou um momento em que precisou escolher. Foi uma decisão difícil, pois era a segunda vez que ele via o seu sonho desmoronar. Mas não desistiria, como nenhum sonhador o faz.
Gabi afeiçoou-se aquele generoso
e sorridente senhor, que através das sábias palavras, a incentivava e lhe impunha disciplina. Reconhecia o seu talento e o estimulava. Tanto que depois de alguns meses de trabalho, seu patrão lhe confiou o cargo de redatora do jornal e ela já não só exercia a função de buscar fatos e entrevistas, mas passou a ser sua única sócia no negócio, tendo uma página só sua e colaborando com opiniões, que eram, sempre, respeitosamente ouvidas e analisadas. Igualmente tratava a sua relação com Malu: com carinho e respeito. Por incontáveis vezes, era tolerante com seus ímpetos e imaturidade. Dizia serem "arroubos da juventude". Tornou-se para Gabi, um grande amigo e uma figura paterna que ela guardaria sempre com afeto e gratidão. Além do aprendizado que este trabalho trouxe a Gabi, também lhe proporcionara amizades sinceras e verdadeiras, como por exemplo, Adriano, o fotógrafo talentosíssimo que a acompanhava durante as suas entrevistas. Tornaram-se confidentes e o levaria sempre no coração. Sentiria saudades.
Sem o jornal, Gabriela sentia-se
desmotivada. Passava os seus dias em casa, apática, sem nada que a estimulasse ou a deixasse animada.
Nos dias que sucederam à
descoberta da traição, Gabi sentia-se como se estivesse em uma montanha-russa, em um total sobe e desce de emoções. Ora armava-se de orgulho e rancor, decidida a ser forte e esquecer Malu, ora pegava-se frágil e incapaz de suportar tudo aquilo.
Não bastasse ter que conviver com a presença constante daquela mulher em sua cidade e nos ambientes em que frequentava, ainda tinha que enfrentar a perturbadora insistência de Malu em lhe procurar todo o tempo para lhe dar explicações, que nem ela mesma sabia argumentar. Lhe cercava por onde andava, usava intermédios de amigos, preparava encontros inesperados e com isso Gabriela sentia-se ainda mais confusa, pois no momento em que Malu estava com ela, Gabi conseguia ver em seus olhos um misto de amor e desespero. Um tanto por magoa-la e outro maior por não conseguir deixar de fazê-lo.
O fato é que Malu havia se
apaixonado por Laura e ao mesmo tempo, não queria desvincular-se de Gabi, pois ainda a amava. Mas esse contato só aumentava o sofrimento de Gabi, pois depois de declarar-se entre lágrimas e pedidos de perdão, corria para Laura, quando ela aparecia. Não resistia à sua presença, cedia aos seus caprichos e manipulações. Parecia enfeitiçada.
Gabi pensou em não sair mais de
casa, para não ter que deparar-se com as duas, em todos os lugares aonde ia. Nem ter que ver no olhar das pessoas surpresa e pena. Malu havia assumido aquela relação para toda a cidade, colocando a sua amante entre os amigos que tinha com Gabi, substituindo tudo o que era dela e isso foi chocante para Gabriela. De repente, não era mais ela e Malu, como antes. Era Malu e Laura. E aquela exposição estava sendo humilhante demais para suportar.
Aconteceu tudo de forma
repentina e brusca. Apesar disso, Gabriela tentava manter a elegância, sorrindo quando estava em público e buscando dentro de si um pouco de dignidade. Mas quando chegava em casa, se jogava na cama e desabava.
O que a mantinha de pé naquele
momento eram os seus amigos. Carol e Bianca, principalmente, reafirmavam a sua lealdade com atitudes de apoio e indignação. Não aceitaram conviver com a nova parceira de Malu, apesar de não ter cortado relações com a mesma. Helena havia se casado e ido morar em São Paulo, mas sempre que podia ligava, para saber como estava a sua amiga.
Gabriela foi atender à porta e viu
Bruno, que fechava o moletom para se proteger do frio. Ao erguer a cabeça, viu Gabriela e então perguntou:
— Podemos conversar?
— Sim, claro. Você quer entrar?
— Não, prefiro falar com você a
sós. — olhou ao redor — que tal aqui? — perguntou, apontando para a calçada.
— Sem problemas. — Gabriela
sentou com as pernas cruzadas e também fechou o seu casaco.
— Pode falar.
— Como é que você está?
— Como pode ver, estou viva. —
sorriu forçadamente.
— Gabi... — começou — eu não
te procurei antes porque sei que você precisava de um tempo para se refazer de tudo isso. Espero que tenha conseguido.
— Bruno, olha só...você sabe que
eu não sou uma pessoa rancorosa. Tenho todos os motivos para ser, mas sei lá, acho que percebi que sobrevivo melhor sem isso. — sorriu amargamente — mas foi muito duro para mim descobrir que você sabia de tudo e não me contou...
— Mas Gabi, entenda: eu não
tinha esse direito. É muita responsabilidade para uma pessoa destruir um relacionamento...
— Mas você poderia não querer
conviver com as duas...compartilhar...
— Deixe de ciúme bobo! —
Bruno exclama, enquanto balança o ombro de Gabriela, que cabisbaixa, retrucou:
— Não é ciúme. Eu me senti
traída. Trocada. Ainda estou meio confusa... Não sei mais em quem confiar...parece que de repente, aquela mulher roubou tudo o que era meu: minha vida, meus amigos...
— Entendo. Mas você tem que
entender que Malu é nossa amiga também. E estar na companhia dela não significa que concordamos com o que ela faz. Ninguém de nós, aliás, apoiamos esse relacionamento, quero que você saiba disso. E também sabemos que é algo passageiro e ela não te esqueceu. Ninguém esquece assim, da noite para o dia.
— Sinceramente, Bruno, não
acredito no amor de Malu. Quem ama não faz o que ela está fazendo comigo. Mas também não quero falar sobre isso...
Bruno tocou em seu braço como
sinal para esperar. Pegou um maço de cigarros do bolso, abriu-o e acendeu um, enquanto oferecia outro para Gabriela, que recusou.
— Bruno, na verdade eu esperei
que você me defendesse, assim como minhas amigas o fizeram. Eu precisei muito de você...
— Eu sei, mas foi você quem se afastou. Entendo os seus motivos, mas eu sinto muito: eu não sou nenhuma dessas pessoas. Eu tenho o meu jeito de gostar e nem sempre demonstro isso da forma esperada. Mas se você acha que não pode confiar em mim, tudo bem, é um direito seu. Só te aconselho que não espere tanto das pessoas, pois você vai se decepcionar muito. Nem sempre elas correspondem às suas expectativas e será frustrante desejar esse retorno. Não seja tão romântica.
O modo de Bruno ver as coisas,
as pessoas, a vida, era no seu ponto de vista apenas realista, mas alguns comentários dele, muitas vezes chocava Gabi, de tão radicais. Aquele, no entanto, fazia sentido. Sua credulidade, no decorrer da sua vida, lhe trouxera suscetíveis frustrações. Sua fragilidade lhe deixara sem imunidade para lidar com desapontamentos. Por excesso de proteção e zelo da sua família, talvez, ou por fatores internos, o fato é que Gabriela não aprendera a se defender, ao contrário de Bruno:
— Gabi, você sabe que eu não
gosto nem tenho necessidade de falar da minha vida ou da minha intimidade, pois ninguém poderá fazer nada por mim, assim como nunca tive quem fizesse. Por isso aprendi a não depender do amor de ninguém. Não sinto que preciso de alguém para me completar e não acredito em relacionamentos em que as pessoas se doem plenamente. As coisas começam de um jeito e terminam de outro. Não vê Fabrício? — riu ironicamente —se humilhou tanto para que eu não terminasse. Depois voltou a fazer as mesmas coisas e agora que terminamos de vez, trai o novo namorado do mesmo jeito...
Gabriela arregalou os olhos:
— Sério?
— Sim. Já era previsível. Pessoas
assim não mudam facilmente. Apenas com o tempo. Ou seja— continuou — Você não pode viver em função de um outro ser humano, porque pode não ser recíproco. E aí, você vai parar de viver se a pessoa te deixar? — Gabi fechou os olhos e engoliu em seco — vai morrer se ela morrer?
Silêncio.
— Gabi, olhe pra você! — Bruno suspendeu o seu queixo — não consegue mais estudar, não tem concentração para nada, nem sequer tem condições de trabalhar... e sabe porquê? Porque você vive Malu. Você respira Malu. Colocou Malu como o centro da sua vida. Está certo isso?
Gabi estava abraçada em suas
próprias pernas. Encostou o joelho no queixo, pensativa. De repente olhou para Bruno e perguntou, com um misto de dor e medo nos olhos:
— E se isso nunca passar? e eu
nunca esquecer Malu?
Bruno sorriu com os lábios e
disse, confortando-a:
— Não se preocupe. Eu não sei quanto tempo irá durar, nem sei se você irá ama-la para sempre. Mas sofrimento nenhum é eterno. Você não vai morrer por isso.
Gabi voltou a ficar em silêncio e
Bruno olhando no relógio, disse:
— Tenho que ir. Marquei com
Paulo para lhe fazer uma visita. Já estou atrasado. Em seguida deu a mão para Gabi, ajudando-a a levantar-se.
— Fica bem tá? — Bruno a
abraçou por um instante, antes de despedir-se e ir embora.
Bruno era pouco afetuoso, apesar
de muito agradável e cativante, especialmente com pessoas de pouco convívio. No entanto, generoso e dedicado, nas suas relações. Com Gabriela, ele argumentava cuidar dela do seu modo, lhe dizendo o que precisava ouvir. Justificava, com bom humor, ser o único a suportar seus desastres, desatenções com as pequenas coisas, crises hormonais e sua necessidade de ser ouvida. Demonstrava uma grande dependência por sua amizade, como se Gabriela fosse a única pessoa que o entendesse e aceitasse os seus defeitos. Tinha consciência que a magoara, porém, muitas vezes, sem admitir. Mas o perdão dela dava-lhe o conforto de ter alguém que conseguia sobreviver ao pior que existia nele, sem abandona-lo. Sabia que a amava, mesmo muitas vezes não demonstrando gratidão, nem conseguindo ser como ela. Esse era o seu jeito. Suas armaduras. O combate íntimo e diário contra a sua própria natureza e sua história, que Gabriela reconhecia ser trabalho árduo desconstruir e reeditar. Carregava marcas, que ele chamava de força, defesa, desapego, indiferença, de orgulho, enfim, não competia a Gabriela esse papel. Bruno não gostava de falar dele, nem permitia que invadissem seu mundo, nem seu íntimo mais profundo. Dizia não haver necessidade de questionar atitudes nem ser questionado. E por isso, com o tempo, Gabriela aprendeu a conviver e respeitar o seu jeito e seus limites. Sua inflexibilidade e inconstância. Parou de querer descobrir o que ele escondia na alma. E de querer que ele fosse como ela. E retribuísse a sua dedicação e lealdade. Ele mesmo lhe dissera: “Não espere tanto das pessoas. Você pode se frustrar.” Assim era ele. E talvez fosse sempre. Gabriela havia aprendido que não poderia muda-lo. Não era a sua função. Tinha apenas que aceita-lo, se quisesse. Isso só o tempo iria dizer. Só ele determinaria seus limites entre perdoar e se proteger, só ele a faria compreender quem merecia o melhor dela e quem não. Mas talvez o tempo nunca lhe tirasse o poder de perdoar. Era inerente. Estava em sua alma. Bruno, Malu e todas as pessoas que a tinha ferido de alguma forma, foram as que mais receberam a sua doação. Mesmo assim, ela não desejava o rancor. Não tinha noção ainda do que aprenderia, mas de uma coisa tinha certeza: O perdão, naquele momento, ainda era o que a mantinha em equilíbrio. Era o seu ponto de paz.
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Gabriela sabia que precisava se
isolar um pouco, para não sentir-se tão exposta. Mas seus amigos, para não vê-la triste, insistia para que ela saísse, fosse à festas, barzinhos e respectivos eventos.
A princípio, conseguia divertir-
se, mas bastava que Malu e Laura aparecessem para que um verdadeiro mal-estar se instalasse dentro dela. Percebia praticamente todos os olhares voltados em sua direção. Forçava naturalidade, mas perdia o ânimo. Algumas vezes passava uma alegria inexistente. Mas não raras vezes, preferiu ir embora para não ter que ver Malu com outra.
Com o passar do tempo, de forma
inexplicável e masoquista, se viu querendo estar nos mesmos lugares que Malu, apenas para vê-la. Aos poucos, foi sentindo seu amor-próprio fugindo ao seu controle, principalmente quando bebia:
— Chega, eu não vou mais aceitar
isso!
Gabi levantou repentinamente da
mesa e foi em direção às duas. Suas amigas ainda tentaram contê-la, mas ela já apertava forte o braço de Laura, enquanto Malu se colocava entre as duas:
— Gabi, pare com isso! Você não
é assim!
Gabi se voltou contra ela:
— Quem é você pra me dizer
como devo agir? sua traidora...
— Gabi, você está bêbada... —
Malu falava baixo — vá para casa... — Gabriela afastou a sua mão violentamente e passou a falar mais alto:
— Espero que essa mulherzinha
acabe com a sua vida! E é isso que vai acontecer! Mas quer saber? vocês se merecem! Então fica com ela mesmo, Malu! Mas para de ficar atrás de mim, me procurando o tempo todo se dizendo arrependida e falando a todos que me ama, que isso me dá nojo!
Laura olhou para Malu de forma
raivosa, buscando uma resposta e ela então, meio que repentinamente, mudou a sua postura em relação a Gabi, se aproximando de Laura e dizendo:
— Pois é isso mesmo! É com essa
mulher que eu estou, é dela que eu gosto e é com quem eu vou ficar! Tá bom assim? Entenda isso. E aceite.
Gabriela, desarmou-se. Apenas
abriu a boca, lentamente e depois a fechou. Olhou em volta e percebeu olhares curiosos, indisfarçáveis. Antes de sair, pôde ver nos olhos de Malu um quase desesperador, porém, silencioso pedido de desculpas.
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Bianca procurou Gabi com o
olhar por toda parte, mas ela havia desaparecido. Se preocupou. Ligou para seu celular, que tocou, sem resposta. Malu tentou justificar-se, mas a amiga de Gabriela a olhou de forma gelada e virou as costas, deixando-a sozinha.
Por fim, foi ao banheiro do
barzinho onde elas estavam e bateu
na porta, hesitante:
— Gabi? você está aí?
Silêncio.
— Gabi? Por favor, responde. É
você que está aí?
— Pode ir embora, Bianca. Eu
não vou sair daqui.
Sua amiga insistiu:
— Abra essa porta, por favor.
Preciso falar com você.
— Eu não posso...não quero sair.
Estou com muita vergonha. Todos ouviram...
— Ninguém ouviu nada. Pare de
bobagem. Abre e vem comigo.
— Eu vou ficar até todo mundo
ter ido embora. Não quero enfrentar o olhar dessas pessoas...
— Gabi, eu vou dormir em sua
casa e se você for passar a noite aí, eu vou ter que ficar aqui também. Mas tudo bem...se você quer, eu fico.
Silêncio.
Ouviu-se um barulho de chave
girando e lentamente a porta foi se abrindo. Então Bianca viu sua amiga, que estava sentada no chão, com os olhos inchados e em total desolamento.
Bianca baixou e enxugou as
lágrimas de Gabi, que lamentou:
— Eu nunca me senti tão
humilhada...
Bianca levantou e lhe deu a mão,
enquanto dizia:
— Esquece isso, vai! Levanta daí
e vamos para casa. Lava esse rosto, coloca um sorriso nele e erga a cabeça. Gabi fingiu um sorriso amarelo e Bianca riu.
Pegou em sua mão e foram juntas
para casa. Gabriela olhava fixamente para frente. Bianca olhou com raiva para Malu, que baixou a cabeça.
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Oswaldo era primo de Malu.
Durante os anos de relação dela com Gabi, ele havia cedido inúmeras vezes a sua casa para que elas se encontrassem.
Naquela tarde, ele iria ido ver como Gabi estava, mas como estava com pressa, pediu para que ela fosse a sua casa à noite para conversarem por mais tempo.
Gabi ia chama-lo, mas percebeu
que a grade estava apenas encostada. Subiu as escadas e empurrou a porta, devagar:
— Oswaldo...sou eu, Gabi. Vou
entrando, tá?
E então, surge Malu,
repentinamente, que pega Gabi pelo braço, presumindo que ela iria fugir.
— Meu amor, por favor, me
escuta! Gabriela então se enfurece:
— Meu amor? eu escutei direito?
Como é que você tem coragem de aparecer na minha frente e me chamar de meu amor depois de tudo o que me disse ontem?
Malu continuava segurando o
braço de Gabi, que tentava soltar-se, mas nunca a venceria pela força.
— Eu sei. Eu entendo. Você está
coberta de razão. — Malu estava com a voz entrecortada pela respiração. — E eu prometo que eu não vou tomar seu tempo. Eu só preciso que você me ouça. E juntando as duas mãos: — por favor!
Tudo em Gabi era ressentimento:
— Nada do que você disser vai
justificar o que você está fazendo comigo. Porque, Malu? que espécie de prazer é esse que você sente em me humilhar, em me expor dessa maneira? Que mal eu te fiz? — Gabi já havia diminuído a resistência. Então Malu apontou para a cadeira e pediu que ela sentasse.
Malu abaixou-se, ficando de
joelhos, enquanto balançava a cabeça repetidamente:
— Não Gabi, não é nada disso!
Você não me fez mal nenhum...você é o meu anjo, a coisa mais maravilhosa que Deus colocou na minha vida. Eu não sei por que estou fazendo isso... — Malu já chorava e Gabi olhava profundamente dentro dos seus olhos, tentando buscar alguma verdade no que ela dizia.
— Isso não faz sentido, Malu! —
Gabi levantou-se e Malu a seguiu, pegando em seu rosto com as duas mãos:
— Por favor, acredita em mim!
Eu não amo aquela mulher. Eu não vou negar que...ela mexe comigo, de uma maneira maluca...ela consegue me manipular e fazer com que eu tenha atitudes que... — Malu parecia muito confusa — ela exerce um poder sobre mim, entende?
— Ah, me poupe por favor dos
detalhes sórdidos... — Gabi ironizava.
— Não é nada disso, que droga!
— Malu gritou. Logo em seguida, lamentou: — Como eu gostaria que alguém me entendesse...
— Como é que alguém pode te
entender Malu, se você diz que me ama, mas simplesmente não consegue mandar essa mulher ir embora da sua vida? — Gabi parecia cansada.
— Mas eu mandei. Várias vezes.
Ela mesma afirma o tempo inteiro que é você que eu amo, porque eu não consigo parar de falar de você...Já nem conto às vezes em que chamei o seu nome...e as pessoas perguntando por você...sua presença está ali, o tempo todo...não tem como esquecer...e quando você aparece, não consigo disfarçar e nada fica igual...
Gabriela a olhava, ainda armada.
— Acredita em mim, meu amor.
— Malu tocou no cabelo de Gabi, carinhosamente — Eu não sei o que acontece, mas de uma coisa eu tenho certeza: eu amo você. E nunca vou conseguir ser feliz se não for do seu lado. — Gabi olhava fixamente para a boca de Malu, enquanto ela pronunciava aquelas palavras, que apesar de tudo, era tão bom ouvir. Por mais doloroso que fosse dividir Malu com alguém, saberia que sofreria mais se soubesse que ela não sentia mais nada.
Malu continuou:
— Eu sei que é difícil para você e
todos compreenderem o que se passa. Nem eu mesma compreendo. Mas olha pra mim — Malu procurou os olhos de Gabi com os seus — você acredita realmente que aquilo que eu falei ontem foi de coração?
— Eu não merecia ouvir aquilo...
— Malu colocou seu dedo sobre a boca de Gabi, impedindo-a de falar. — Não fala mais nisso, por favor, pois eu já me sinto culpada o bastante. Se existe algo que eu tenha que pagar, já estou pagando, pois não suporto mais viver nesse tormento — Malu sentou-se no tapete que havia na sala, colocou as duas mãos sobre o rosto e chorou, compulsivamente.
Gabriela a olhava, sem saber o
que fazer, quando de repente, o amor falou mais alto em seu peito e ela ajoelhou-se, tirando as mãos de Malu do seu próprio rosto e colocando as dela, enquanto dizia:
— Eu sei que tenho todos os
motivos para te odiar...e ...nunca mais olhar na sua cara. Mas apesar de tudo que está acontecendo, eu sei que temos uma ligação muito forte e eu sei que nos amamos... então... porquê, Malu? — Por quê? — repetiu.
Malu pegou em sua nuca, com a
mão trêmula, juntando sua respiração à dela e as lágrimas também. E a beijou. Gabi, à princípio, não se mexeu, tamanha a reação do seu corpo ao toque de Malu. Um ardor contraiu o seu ventre, chegando a doer. E subiu-lhe à cabeça, deixando-a quase tonta. Sentia o rosto ficar cada vez mais quente e as mãos cada vez mais frias. Sua boca tremia levemente até que a excitação tomou conta do seu corpo e ela abraçou Malu, retribuindo o beijo. As duas se abraçavam, cada vez mais forte, já deitadas sobre o tapete, apenas com a luz da lua que entrava pela janela e iluminava a suas silhuetas. Malu estava muito emocionada:
— Eu nunca senti isso por
ninguém...e nunca vou sentir...é muito forte...é coisa de alma...Eu te amo Gabi. Eu te amo... — Malu sussurrava repetidamente e baixinho no ouvido de Gabi, que fechou os olhos e se rendeu, mais uma vez.
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Gabriela abriu os olhos. Malu não
estava ao seu lado. Viu que havia um cobertor sobre ela. Mesmo assim, ainda sentia frio. Vestiu a roupa e levantou-se. Viu Oswaldo, que fumava um cigarro na janela, enquanto olhava pensativo para o céu.
Virou-se ao perceber a presença
de Gabi, que lhe perguntou, ainda sonolenta:
— Onde está Malu? Que horas
são?
— É tarde, minha querida. Já
passam da meia — noite. Malu não quis te acordar e pediu que eu a levasse em sua casa. Saiu com uma cara de felicidade. Nem imagino por que... — ironiza Oswaldo, dando uma gargalhada.
Gabi sorriu com os lábios e se
juntou a ele, também acendendo um cigarro e contemplando as estrelas. Bocejou pela terceira vez e então pediu:
— Podemos ir agora? estou
morrendo de sono.
— Vamos sim. Tenho que dormir
também. Vou dar aula amanhã nos três turnos, já imaginou?
— Nossa! — exclamou Gabi.
Já iam saindo quando ele
lembrou:
— Ah! Malu deixou esse casaco
caso você sentisse frio — e o estendeu para Gabi, que vestiu e o cheirou, sentindo o perfume de Malu que havia ali. Dormiu com ele.