De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma
Parte IX
P A R T E I X
Gabriela olhava insistentemente
para o relógio. Izabel já a apressava. Ela, impaciente, liga para Malu, que não atende. Já cansada de esperar, decide ir para o aniversário da sua amiga sozinha mesmo.
Todos sentem a falta de Malu e
perguntam por ela, ao que vagamente Gabi responde:
— Ela se atrasou um pouco, mas
logo deve estar chegando.
Decide se divertir e se junta a Fernanda e ao grupo dela para dançar um pouco. Izabel se aproxima e comenta:
— Poxa, Malu está demorando.
Será que ela não virá? Não vou perdoa-la.
No mesmo instante o celular de
Gabi vibra em sua bolsa e ela se afasta do barulho para atender:
— Onde você está, Malu? liguei
várias vezes e você não atende — reclama, irritada.
—D e s c u l p a , G a b i , e u n ã o ouvi
tocar. Estou até
agora esperando Marcos, que ficou de me pegar, por isso não fui ainda.
— Pega um táxi, ora. Quando
você chegar, já vai ter acabado.
— Parece q u e é ele,
buzinando. No
máximo em quinze minutos, chego aí. Beijo.
— Ok. — Gabi desligou, sem se
despedir.
Duas horas depois, Gabi já
desanimara. Malu não apareceu. Ainda ligou algumas vezes, mas seu celular estava desligado. No seu peito, uma profunda sensação de frustração misturada com raiva. Para compensar, justificava a falta de Malu culpando a Marcos. Gostava dele, como indivíduo, mas não se sentia tranquila quando eles saíam juntos, pois Malu se empolgava e se atrasava aos seus compromissos com ela.
Já era noite e Gabi estava
sentada, apenas a observar os outros se divertirem. Bebeu além da conta e, ao levantar-se, sentiu-se tonta e enjoada. Com a mão, chamou Carlos e lhe perguntou se ele podia leva-la em casa, pois não estava sentindo-se muito bem.
Despediu-se de Izabel, que
lamentou:
— Que pena, Gabi, você ir agora.
Fica mais um pouco...
— Desculpa mesmo, mas eu
realmente preciso ir. Mas obrigada por tudo. E parabéns viu? — conseguiu sorrir ao abraça-la.
— E Malu não veio mesmo, não
é? — Izabel colocou a mão na cintura e franziu a boca.
Gabriela deu de ombros. Em
seguida, jogou -lhe um beijo e acenou com a mão.
Seus pais já estavam dormindo.
Gabi tirou as sandálias e girou a chave, devagar. Assim que alcançou a sua cama, atirou-se nela, sem ao menos despir-se. Sentiu o quarto girar e gemeu, com o estômago embrulhado. Virou-se para o lado e sentiu-se melhor. Em poucos minutos, "apagou".
Gabi acordou com o barulho do
seu celular, que tocava alto. Era ainda muito cedo e sem abrir os olhos, tenta encontrar o seu aparelho, apalpando a cama.
— Alô? — atende, com a voz
rouca.
— Gabi? sou eu, Malu.
Gabriela respira fundo e nada diz.
— Gabi? fala alguma coisa.
—se tem alguém que tem algo a
dizer aqui é você.
— Desculpa por ontem. Nem sei o
que dizer...
— Já que você não tem nada a
dizer, então me esquece e me deixa dormir.
— Gabi, espera, eu...
Gabriela já havia desligado.
Malu volta a ligar, mas Gabriela
se irrita e desliga o celular, voltando a dormir. Era domingo, portanto, poderia dormir até mais tarde.
Quando acordou, seu mal-estar
havia diminuído, porém, ao sentar-se na cama, sua cabeça ainda latejava. Olhou-se no espelho e fez uma careta. Sentiu-se aliviada quando encontrou em sua bolsa, um último analgésico. Foi até a cozinha, abriu a geladeira e encheu um copo com água. Bebeu-o sedentamente. Depois de escovar os dentes e tomar um banho demorado, sentiu-se renovada. Lembrou-se do dia anterior e uma onda de raiva a invadiu. Enquanto almoçava, olhou para o celular, em cima da mesa e decidiu liga-lo. Em poucos segundos, ele tocou:
— Gabi, te liguei várias vezes,
mas só ia direto para caixa de mensagem. Você só faz isso porque sabe que não posso ir em sua casa. Fui na casa de Izabel e pedi para ela te chamar, mas sua mãe disse que estava dormindo...
— Nossa, deve ser horrível, não
é? tentar falar com uma pessoa tantas vezes e não conseguir... — ironizou Gabriela.
— Pare com isso! Eu posso
explicar...
— Espero que você realmente
tenha uma excelente explicação, Maria Luíza.
— Como eu te falei, eu estava
esperando por Marcos, que chegou naquele momento que falei com você por telefone. Mas aí ele me pediu para ir com ele em outro aniversário, coisa rápida, apenas para marcar presença. Realmente achei que não fosse demorar, mas aí ele se empolgou. Nesse meio tempo, fiquei sem bateria no celular. Me perdoe, mas o carro é dele, o que acha que eu poderia fazer?
— Eu sei lá! Fosse andando,
chamasse um táxi, qualquer coisa, mas esperei que pelo menos você tivesse um mínimo de consideração não só comigo, mas principalmente pela aniversariante, que é tão sua amiga...
— Já me desculpei com ela
também. Izabel entendeu. E você...vai me perdoar?
— Malu, sinceramente, eu estou
achando essa sua história muito estranha, mas enfim, a verdade sempre vem à tona, não é mesmo?
Malu não respondeu.
— Vai fazer o que hoje? —
perguntou Gabi, meio indiferente.
— Vou ficar em casa. Relaxar um
pouco. E também ajeitar umas coisas para amanhã.
— Pensei que quisesse me ver.
— Eu quero, meu amor, mas não
tenho ficado muito em casa e minha mãe vive reclamando. Ela é muito sozinha...você sabe.
Gabriela aceita, a contragosto.
O dia soou vazio para Gabi.
Olhava para a tv, desinteressada. Sua mãe assistia, alheia à sua presença. Seu pai dormia e seu irmão não estava em casa.
Gabi sentia falta de ter uma
família que interagissem entre si. Sua casa não tinha alegria. Eram indivíduos quase autistas, confinados em seu próprio mundo. Quando não estavam brigando, mergulhavam no profundo e incômodo silêncio.
Já a noite, Gabi levanta-se do
sofá, e fecha a porta do seu quarto. Acende o abajur, pega um livro e meia hora depois, adormece sobre ele.
O despertador toca. Gabi olha
para o celular. Nenhuma ligação de Malu. "Impossível", pensa. Malu a acordava todos os dias, desejando-lhe bom dia.
Decidiu ligar para o seu trabalho:
— Bom dia Malu! Aconteceu
alguma coisa?
— Bom dia amor! Como assim?
— Você não me ligou...
— Oh, me desculpe. Mas ...não
houve nada. É que hoje o dia está bem corrido aqui. Não parei desde que cheguei.
— Tudo bem, não quero te
atrapalhar. Nos falamos mais tarde então. — falou Gabi, num fio de voz.
— Está bem. Eu te ligo. Beijo. —
Malu desligou.
Gabriela não se sentia tranquila.
Malu lhe parecia distante e isso a incomodava. Teve vontade de ligar várias vezes, durante o dia, para confortar-se de que estava tudo bem, mas seu bom senso a impediu. Então disse a si mesma que era sem sentido a sua insegurança. À noite, veria Malu e tudo voltaria o normal.
No final do expediente, Malu
liga, avisando que não irá sair novamente, pois está muito cansada. Gabriela não insiste, mas seu coração fica apertado com o fato de Malu não fazer questão de vê-la novamente.
Tentou continuar a leitura do
livro, mas não conseguia se concentrar em nada. Fechou os olhos para dormir, mas o sono havia-lhe fugido, assim como a paz de espírito. Pegou o telefone para ligar para a casa de Malu, mas hesitou por um instante. Não cederia àquela desconfiança ridícula. Mas logo, inquietou-se novamente e discou o número pela segunda vez. Ouviu a voz da mãe de Malu do outro lado da linha e desligou.
Virou-se e fechou os olhos.
Passou-se meia hora e ela finalmente percebeu que não sossegaria enquanto não dissipasse as suas dúvidas. Então, discou o número da casa de Malu pela terceira vez e respirou fundo. Dona Rosana atendeu novamente:
— Boa noite! Por favor, eu
gostaria de falar com Malu.
— Quem deseja?
— É...uma amiga dela.
— Malu não se encontra. Quer
deixar algum recado? — aquela frase atravessa Gabi como um raio, deixando-a atônita. — Alô? — Gabriela volta a ouvir a voz do outro lado.
— Oi. A senhora sabe me
informar se ela levou o celular?
— Não, não. O celular está aqui.
— E ela não disse aonde ia?
— Não, não disse nada.
— Obrigada! E...boa noite!
Gabriela pôs o telefone no gancho
lentamente, como se estivesse em transe. Deitou-se novamente e se encolheu, puxando o cobertor até o pescoço. Não acreditava no que estava acontecendo. "porque Malu havia mentido"? pensava. "onde estaria"? e o pior: "com quem estaria"? estremeceu ao pensar nisso. Sua mente fervilhava de pensamentos perturbadores. Visualizava Malu em diversas situações e em todas elas, Malu divertia-se e ria às suas custas. Torturou-se intimamente, durante horas, por toda a madrugada, até perceber que seria inútil toda aquela agonia. O mundo não acabaria naquela noite. No dia seguinte, desmascararia Malu e lhe diria tudo o que já havia ensaiado.
Malu ligou no dia seguinte da
forma mais natural possível:
— Bom dia meu amor! dormiu
bem?
— Não, Malu, eu não dormi bem.
— respondeu Gabi, friamente.
— Porquê? estava com insônia?
Gabriela foi direto ao ponto:
— Malu, porque você mentiu pra
mim?
— Como? não entendi...
— Eu liguei para a sua casa
ontem e você havia saído...
— Ah, é isso? — Malu parecia
muito tranquila — eu não saí realmente. É que eu estava exausta, então fui dormir e pedi a minha mãe para mentir, caso alguém ligasse. Eu não queria ser incomodada. — e completou: — desculpa, Gabi, eu não imaginei que você fosse ligar.
Gabriela não sabia o que pensar.
De repente, estava totalmente desarmada e sem nenhum dos argumentos que planejara usar. No entanto, não estava inteiramente convencida de que Malu dizia a verdade.
— Quero te ver hoje. Sinto
saudades. — declarou Malu. E então, as vinte horas, no mesmo lugar?
— Está certo. — Gabriela ainda
não aprendera a dizer não aquela mulher que conseguia desestrutura-la, facilmente.
Nada parecia ter mudado. Malu
estava atenciosa, como sempre. Ainda era a mesma, exceto pelo fato de estar mais apressada do que o de costume, justificando cansaço e uma repentina dor de cabeça. Gabi pediu que ela ficasse mais um pouco, no entanto, Malu despediu-se carinhosamente dela e se foi.
Naquela noite, Gabi sonhou que
Malu vinha em sua direção, mas quando tentou toca-la, uma imensa e intransponível parede de vidro a impedia. Chamou por Malu o mais alto que pôde, mas ela não ouvia. Estava totalmente indiferente à sua presença. Olhava para um outro ponto em sua direção. Até que virou as costas e foi embora. O que Gabi sentiu, só ela mesma poderia mensurar. Foi uma dor que, mesmo depois de acordar, permaneceu dentro dela. Teve a sensação de que havia chorado de verdade e demorou para perceber que já estava desperta. Passaram-se alguns minutos para que dissesse a si mesma que fora apenas um pesadelo, já que as sensações estavam tão vivas ainda em sua mente.
*******************************
Gabriela sentiu que precisava
sentar-se. De repente, era como se sua garganta estivesse sendo pressionada por grandes mãos imaginárias. Estava sem ar. As mesmas mãos contraíam seu peito também. Queria chorar, mas o desespero direcionava a sua mente para um possível equívoco, uma pequena esperança de que não estivesse realmente ouvindo aquilo. Ou que não fosse verdade. Aquela menina de apenas onze anos com certeza não sabia o que estava dizendo ou simplesmente estava sendo maldosa. Mas por que ela faria isso? Que motivos a levaria ali até a casa de Gabi para lhe tirar o chão e todas as suas certezas?
Ainda conseguia ouvir as suas últimas palavras:
— Não fala para a minha mãe que
te contei.
Mas por que tanta surpresa?
Gabriela, em seu íntimo, já sabia. Não sobre todos os fatos, mas o seu alarme interior estava soando há três dias, mesmo que o seu coração quisesse ignorar. Mas nem em seu pior pensamento, ocorreu-lhe que sentiria o que estava sentindo naquele momento.
Não soube quanto tempo ficara
sentada em sua cama, olhando para o nada. Seu rosto estava lívido e seus batimentos acelerados. Tentava, aos poucos, digerir o que ouvira e as palavras ecoavam em seus ouvidos:
— “Malu estava em minha casa
todos esses dias...com ela. Uma loira, que minha mãe hospedou...beberam... Malu ligou para lá hoje e marcaram para almoçar...ouvi dizer que elas estavam namorando...a moça comprou até um presente para Malu...Bruno foi quem entregou”.
Bruno...seu querido e confidente
amigo. Dessa vez Gabi fechou os olhos e deixou que grossas lágrimas escorressem pelo seu rosto.
Ouviu uma batida na porta do seu
quarto e a voz do seu irmão, que perguntava:
— Gabriela, a mesa já está posta.
Você vem ou não vem almoçar?
Gabi enxugou o rosto e tentou
não transparecer nada na voz, pigarreando e respondendo:
— Não, podem almoçar. Estou
sem fome.
Quando ele se afastou, ela abriu a
porta do quarto e saiu, em direção à casa de Bruno.
*********************************
Gabriela irrompeu pela porta, sem
bater, encontrando com Bruno na cozinha, que preparava algo para comer. Ao ver a expressão de Gabi, a olhou, alerta. Ela então lhe perguntou, entre lágrimas:
— Como você pôde?
Bruno parecia não entender e
então Gabi repetiu, um pouco mais alto:
— Como você pôde fazer isso
comigo, Bruno? Logo comigo?
— Mas do que você está falando,
Gabriela? senta um pouco e tenta se acalmar. Quer um pouco de água?
— Eu não quero nada! — Gabi
gritou — eu só quero que você me explique como você conseguiu ver minha aflição esses últimos dias, temendo que Malu estivesse me traindo... e você dizendo para eu me tranquilizar, que ela não tinha ninguém. Mas ela tinha... e você sabia, não era, Bruno? — seu tom era de mágoa agora.
— Gabi, as coisas não são bem
assim. Malu não é nenhuma criança e eu não tenho a menor responsabilidade sobre os atos dela.
— Mas você poderia ao menos
escolher não compartilhar com toda essa mentira. Mas vejo que a amante dela e você se tornaram bem íntimos, já que você mesmo se encarregou de entregar o presente a Malu...
— Gabi, eu não vou conversar
com você desse jeito. Você está descontrolada e falando alto. Se recomponha que aí eu posso explicar o que realmente aconteceu. — Bruno tentou tocar em seu braço, mas Malu o retirou, bruscamente, enquanto se dirigia à porta. Parou por um instante e o olhou, com o rosto vermelho, de tanto chorar e falou, antes de sair:
— Eu não sei o que está me
doendo mais: se a traição dela ou a sua. Mas eu confesso que a dela eu até esperava. Mas de você... — Gabi não teve condições de terminar a frase. Virou-se e bateu a porta fortemente, saindo em direção ao trabalho de Malu.
*******************************
Gabriela p a r o u u m p o u c o , para
respirar. Estava muito
nervosa e seu corpo inteiro demonstrava isso. Estendeu uma das mãos à sua frente: estava exageradamente trêmula. Deu um longo suspiro e em seguida, tocou o interfone.
Malu parecia surpresa em vê-la.
Seu rosto transpareceu apreensão. No entanto, forçou um sorriso e fez um gesto com a mão para Gabi esperar.
Enquanto ela fechava o
escritório, Gabriela tentou ser um pouco racional naquele momento e fazer um esforço para não explodir, já que o local era o mais impróprio possível. Apenas conseguiu perguntar, de forma irônica:
— Você não vai me convidar para
almoçar?
Malu tentou balbuciar algo, mas calou-se. Ao ver a expressão transtornada de Gabi, percebeu instintivamente que ela já sabia de tudo. Então, tentando evitar qualquer espécie de discussão na frente do seu trabalho, subiu em sua moto e pediu que Gabi a acompanhasse. E assim ela o fez, já que não tinha outra alternativa. Malu sabia que não poderia fugir daquela conversa, por isso seguiu em direção a qualquer lugar que fosse pouco movimentado e assim que encontrou uma rua relativamente deserta, parou.
Antes que fosse dita qualquer
palavra, o celular de Malu tocou. Ela olhou para o visor por alguns segundos, sem saber exatamente o que fazer, até que Gabi a pressionou:
— Você não vai atender? Vamos, atenda, eu fiquei curiosa agora para saber quem é.
Malu rejeitou a ligação e guardou
o celular na bolsa, tentando aparentar naturalidade.
— É só minha mãe ligando. Deve
estar estranhando eu não ter chegado ainda para o almoço.
Ao ouvir aquela frase, Gabi
involuntariamente deu-lhe um tapa, provocando em Malu, à princípio, uma reação de choque. Depois, lentamente, foi tirando a mão do seu próprio rosto, que ficara vermelho e se dirigiu à Gabriela com raiva:
— Você enlouqueceu?
— Não, Malu. Louca eu estava quando me envolvi com você e acreditei em todas as suas mentiras. Mas agora a palhaça aqui já sabe quem é você. — Gabi ria nervosamente, enquanto batia palmas:
— Muito bem, Malu, você foi
uma ótima atriz. Mas agora o show acabou. A sua máscara caiu!
— Eu não sei do que você está
falando.
— Para! Gabi gritou — para com
esse fingimento todo! Chega de me subestimar! Eu não sou idiota! Eu já sei que você não ficou em casa esses dias coisa nenhuma e também já sei que você estava com outra. — Gabi estreitou os olhos — eu sei de todos os detalhes, Malu.
Gabriela viu por um instante o
rosto de Malu empalidecer. Mas foi apenas por uma fração de segundos. Logo ela tentou recuperar seu autocontrole:
— Eu não sei de onde você tirou
esse absurdo. Quem te falou essas besteiras? E como você pode acreditar nisso? Gabi, eu te amo. E eu não tenho ninguém, além de você.
— Mentira! — a raiva em Gabi
crescia — deixa de ser cínica! Não negue o que eu já sei. Se continuar fazendo isso, eu não sei o que sou capaz de fazer com você...
— Gabi, você está nervosa. Tenta
ficar calma, por favor! — Malu quis abraça-la, mas Gabi empurrou seu braço violentamente:
— Não me toque! Eu tenho nojo
de você!
— Nojo de mim? — Malu
sussurrou, magoada.
— Isso mesmo: nojo! E por isso
quero que você fique bem longe de mim. — Gabi colocou o seu dedo indicador entre ela e Malu — você está ouvindo o que eu disse? — e cerrando os dentes com raiva, concluiu, pausadamente: — some...da minha...vida!
Dizendo isso, Gabriela saiu
andando, mas Malu correu e parou em sua frente, com as mãos espalmadas, pedindo delicadamente:
— Gabi, espera um pouco. Vamos conversar. Você não pode terminar assim. Sair da minha vida como se não fôssemos nada uma para a outra. Eu não vou aceitar isso e nem vou desistir de você tão fácil assim!
Gabriela parecia cansada. Então
perguntou, de forma angustiada:
— O que mais você quer de mim,
Malu? Não vê que acabou? — Malu balançava a cabeça, sem querer acreditar — Você destruiu tudo, e agora o que quer que eu faça? — Gabi abriu os braços e em seguida os deixou cair, ao lado do corpo, como gesto de desalento.
— Não! — Malu já demonstrava
desespero — não vai acabar aqui. Eu não vou perder você, Gabi, a coisa mais linda que eu tenho na vida. Vai ficar tudo bem, eu prometo. Isso tudo vai ser resolvido e vamos voltar a ser felizes, como sempre fomos.
Gabi ficou em silêncio por alguns
segundos, depois olhou friamente para Malu, falando com firmeza:
— Sai da minha frente!
Malu ainda tentou, inutilmente,
fazê-la parar. Mas Gabi seguiu, ignorando-a, que seguia ao seu lado, em sua moto, guiando lentamente e insistindo que Gabi fosse com ela.
— Ei! não faz isso
comigo...Deixa que eu te levo em casa, por favor!
Porém, Gabi permaneceu em silêncio, até chegar próximo da sua casa o suficiente para que Malu não pudesse ir mais.
******************************
Ao chegar em casa, foi direto
para o seu quarto e sentou na cama, pesadamente. Toda a adrenalina das últimas horas, que a impediu de assimilar tudo o que aconteceu, foi passando e então, ali, sozinha, foi tomada por um choro incontido, que sacudiu todo o seu corpo. Sentiu vontade de gritar, mas com uma das mãos, apertou sua própria boca, na tentativa de abafar os soluços. Pensou não ser capaz de cessar suas próprias lágrimas, então, depois de muito tempo, esforçou-se, o máximo que pôde, respirando fundo e olhando para o teto.
Viu a sua reflexão no espelho:
não havia como disfarçar que havia chorado. No entanto, não podia ficar o dia inteiro ali. Sentia-se sufocada. Saiu e foi direto para o banho.
Sua aparência melhorou um
pouco, mas estava visivelmente abatida. Lembrou-se que não tinha almoçado. Mas fome era a última coisa que sentia, já que seu estômago embrulhava de forma ansiosa, deixando a sua garganta com uma espécie de bloqueio, impedindo Gabi de engolir qualquer coisa que fosse.
G a b r i e l a e n x u g o u seus
cabelos lentamente,
enquanto olhava, apática, para o nada. Sentia-se como não ter para onde ir, nem nada que a estimulasse naquele momento. Sentiu vontade de chorar novamente. Precisava dividir a sua dor com alguém. Pegou o seu telefone e ligou para Carol, que em poucos minutos estava lá e depois de saber de toda a história, boquiaberta, ela murmurou:
— Eu não consigo acreditar...
— Pois é, nem eu. Mas...é
verdade. — Gabi tentou sorrir, mas não conseguiu.
C a r o l n ã o s e conformava.
Parecia ter sido
com ela:
— Mas isso não pode ficar assim!
você vai ficar aí chorando, enquanto entrega Malu de bandeja para outra qualquer?
— O que você quer que eu faça,
Carol? Ela não é inocente! Não foi forçada a nada. Essa outra garota aí nem me conhece...ela não tem obrigação de ser leal a mim...quem deveria ter me respeitado foi Malu e ela não o fez, então porque eu brigaria por alguém que não me merece? Que não pensou em nenhum momento em mim, antes de me trair?
—M a s e s s a m u l h e r sabia
que Malu era
comprometida, portanto também é culpada. Conheço esses tipos...
Gabriela nada disse.
— Ai Gabi! — Carol estava
irritada — você é muito boazinha! Eu, no seu lugar, ia procurar essa mulherzinha e acertava as contas com ela.
A amiga de Gabi tinha o
temperamento forte e era extremamente explosiva, embora muitas vezes se arrependesse imediatamente dos seus rompantes, quando percebia que magoava aqueles de quem gostava. Em contrapartida, era generosa e não media esforços para defender e proteger as pessoas que amava. Por isso, insistia:
— Eu sei que Malu não tinha o
direito de fazer isso com você...depois vou ter uma conversa séria com ela. Mas não é justo uma pessoa aparecer do nada, vir destruir o relacionamento dos outros e ficar por isso mesmo.
Gabriela sentia-se confusa. Em
apenas algumas horas, havia experimentado todos os sentimentos cabíveis, ou no seu caso, incabíveis, frágil como estava, dentro dela. Sentimentos à princípio, compreensíveis, como: choque, raiva, mágoa e tristeza. Mas que aos poucos, foram se contradizendo, já que depois, começava a sentir uma espécie de posse por alguém que não era sua; que de fato, nunca foi de ninguém. Intensa em seus relacionamentos, mas nunca fiel. Gabriela sabia, ou no mínimo, desconfiava, de que Malu sempre tivera as suas aventuras, as quais, eram próprias dela, da sua natureza, pois estranhamente, sabia separar os seus sentimentos e com isso, não expunha a Gabriela, fazendo com que ela se sentisse sempre segura do seu amor.
No entanto, dessa vez era
diferente. Gabi sentia a sua mudança, uma espécie de frieza, com sacrifício, disfarçada. Aquele não era só um "caso” sem importância nem consequências...Gabi sabia. Aquela mulher havia mexido com Malu de uma forma diferente e isso provocava em Gabriela uma dolorosa sensação de rejeição que a impedia se se entregar tão somente ao orgulho.
Finalmente, impulsionada por
esse súbito sentimento, misturada às palavras de Carol, fizeram com que Gabriela decidisse procurar essa mulher.
Sabendo que ela estava hospedada
na casa de Eliza, lugar onde ela e Malu muitas vezes se encontrava às escondidas, Gabi, seguida por Carol e Brena bateu no portão. Logo percebeu que estava apenas encostado.
Sentada em uma cadeira, uma
mulher morena, de baixa estatura e o rosto meio cômico, conversava com outra sentada ao seu lado.
Esta era loira, os cabelos
lembravam os de Malu. Sua aparência era vulgar e seu rosto expressivo: a boca e as sobrancelhas movimentavam-se de forma ansiosa, como quem já sabia quem era Gabi e o que ela fazia ali.
G a b r i e l a , e n t ã o , e m dúvida,
mas de cabeça
erguida, perguntou:
— Qual d e v o c ê s d u a s se
chama Laura?
A moça de rosto esquisito olhou
então para a sua amiga, que se levantou, sem nada responder. Seus olhos verdes demonstravam medo. Mas não eram olhos inocentes. Ao contrário; eram pesados, e de certa forma, traiçoeiros.
As duas estavam ali, diante da
outra, como que se preparando para um duelo. E enquanto a amiga de Laura apenas olhava, encolhida na cadeira, as amigas de Gabi posicionaram-se atrás dela, como fiéis soldados, que se mantinham alertas, caso precisassem delas.
Gabi, no entanto, não iria
precisar. Estava munida por um ciúme que tomava conta dos seus sentidos. Esse sentimento foi crescendo dela com tanta voracidade que, por si só, já seria capaz de declarar uma terceira Guerra Mundial.
E foi movida por esse impulso,
que em uma fração de segundos, foi preciso cinco pessoas para tirar Gabriela de cima da sua rival.