De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma

Parte VIII

P A R T E V I I I

 

Gabriela, ao ver que Malu já

corria para o local onde estava acontecendo a confusão, dispensou o taxista, pegou o seu cartão e foi juntar-se a ela.

Gisele discutia com um garoto,

que aparentava ser menor de idade, mas com visíveis sinais de embriaguez. Por isso, Malu segurou no braço da amiga, tentando amenizar, com seu jeito sempre tão apaziguador:

— Gisele, vamos embora, deixa

isso pra lá, não vale a pena.

— Foi ele quem provocou, Malu.

Estávamos quietas, já entrando no táxi, quando ele falou algo para Ana que ela não gostou. Ela respondeu e ele tentou agarra-la à força.

Malu dirigiu-se ao marginal,

tentando escolher as palavras para que ele se afastasse e tudo acabasse bem, já que ele parecia realmente mal intencionado.

— Ei! olha só...hoje é aniversário

dela, estamos todos felizes, nós só queremos que você vá embora e nos deixe em paz.

Ele parecia não ouvir. Olhava por

baixo, com a mão no queixo. Seus olhos estavam injetados.

Sem que ninguém esperasse, chutou Gisele, que caiu, indefesa. Mas ágil, como era, rapidamente se levantou e se lançou contra ele. Malu se colocou entre os dois. Ele tenta agredi-la e Gabi o empurra, ficando na frente de Malu, no mesmo instante em que Ana grita:

— Cuidado! Ele está armado!

Tudo aconteceu em questão de

segundos. Malu, em um gesto de defesa, afastou Gabi para o lado, enquanto ele dispersa todos, fazendo círculos, com um punhal entre as mãos, com o rosto ameaçador. Em seguida, avança sobre Gisele e ela corre.

Gabi põe a mão na cabeça, sem

saber o que fazer. Pensa em sair atrás de Gisele, como os outros fizeram, para saber se ele conseguiu acompanha-la, mas percebe que Malu se inclina sobre o chão.

— Malu, o que houve?

Ela então vê a calça rasgada, na

altura do joelho, que logo começa a manchar de sangue.

— Malu, você está ferida! Ai meu

Deus! o que eu faço? — Malu estava sentada na calçada, com a perna esticada e o rosto demonstrava sentir dor.

— Você precisa ir para o hospital,

agora! — Gabi se desesperava. — eu vou chamar o táxi. Procurou o cartão nos bolsos, com uma mão, enquanto a outra sustentava a cabeça de Malu em sua perna.

— Eu estou bem, Gabi. Ainda

consigo aguentar mais um pouco. Vai atrás de Gisele, pelo amor de Deus. Preciso saber o que aconteceu. Sumiu todo mundo.

— Mas Malu, eu não posso deixar

você aqui, sozinha. — disse Gabi, no mesmo momento em que Ana apareceu.

— Onde está Gisele, Ana? —

perguntou Malu, num fio de voz.

— Está no hospital. — respondeu

Ana, com sua voz rouca e meio infantil — aquele desgraçado conseguiu alcança-la e a atingiu com o punhal.

— Meu Deus! — exclamou Gabi

— não vai me dizer que... — antes que Gabriela terminasse, Ana adiantou:

— Não, ela está bem. Por sorte o

ferimento foi um pouco acima do peito. Mas foi superficial. Seu irmão, Maurício, a levou para o hospital, imediatamente.

Foi nesse momento que Ana

percebeu que Malu estava ferida:

 

— Malu, o que aconteceu?

— Ele a atingiu no joelho. —

respondeu Gabi — Precisamos leva-la daqui o mais rápido possível. Ela está perdendo sangue. — colocou a mão na testa de Malu e ela suava frio.

— Mas depois temos que ir até a

delegacia, Gabi. Isso não pode ficar assim.

— Eu sei Ana. Mas neste

momento o mais importante é cuidar disso aqui. Faz o seguinte: liga para Renata e pede para ela ir com você na delegacia. Tem uns policiais de plantão. Se eles forem rápidos, ainda podem pegar aquele marginal. Eu vou chamar o táxi para levar Malu ao hospital.

Ana concordou:

— ok. Assim que resolver tudo lá,

vou direto para o hospital encontrar com vocês. — e dirigindo-se a Malu: — Você está bem?

Ela balançou a cabeça que sim.

Ana lhe deu um beijo no rosto e saiu.

Gabriela prendeu os cabelos de

Malu e sua nuca estava suada. Beijou-lhe a testa e a abraçou, sussurrando:

— Fica calma, meu amor, que o

táxi chega em cinco minutos. Vai ficar tudo bem.

Quando o táxi chegou, Gabi

perguntou a Malu se ela conseguia ficar de pé. Esta respondeu que sim. Então Gabriela a levantou e Malu colocou seu braço ao redor do seu pescoço. O taxista veio ajudar e depois de acomodar a sua passageira no carro, comentou:

— Vocês conhecem quem fez isso

com ela?

— Não. — respondeu Gabi. — ele

estava bêbado e provavelmente, drogado. É do tipo que sai às ruas à procura de vítimas para agredir gratuitamente. Um covarde!

— Mas alguém denunciou, pelo

menos?

— Uma amiga nossa foi dar

queixa agora, mas nem sei se vai adiantar. O senhor sabe como é.

— Verdade. — concordou o

motorista — se ele fugiu, acho meio difícil que o encontre, sem nenhuma referência que ajude a fazer isso.

Ele tinha razão. Infelizmente,

nada foi resolvido. Mais um ato de violência ficara impune.

— Uma menina boa como Malu

— o senhor lamentava, olhando através do retrovisor — querida por todos, incapaz de fazer mal a alguém... — ele balançava a cabeça, penalizado. — mas que bom que não foi nada grave. — concluiu.

Chegaram ao hospital. Malu

ficara o tempo inteiro com a cabeça inclinada para trás, de olhos fechados. Gabi a olhava, preocupada.

— Malu, chegamos. Vamos lá? —

pagou ao taxista e agradeceu.

Gisele já havia sido medicada e

passava bem. Malu também foi muito bem tratada pelas enfermeiras, que a conheciam. Fizeram um curativo em seu joelho, deram-lhe um remédio para aliviar a dor e depois de algum tempo, a liberaram para ir para casa.

Maurício esperava para levar

todos em seus respectivos destinos. Deixou Gisele primeiro. Leila, Renata e Malu em seguida. Ana foi com eles para poder dar a notícia a D. Rosana e do quarto, Gabriela pôde ouvir seus resmungos e protestos, que na verdade, escondiam uma grande preocupação.

Gabi ajeitou os travesseiros para

que Malu ficasse em uma posição confortável e a cobriu, carinhosamente, prometendo que voltaria no dia seguinte para vê-la. E assim fez, todos os dias, até que Malu pudesse andar normalmente.

No dia seguinte, na hora do

almoço, Dona Verônica alfinetou:

— É o que eu sempre digo: a

justiça de Deus tarda, mas não falha. Tem coisas que acontecem para servir de castigo. Espero que todos tenham aprendido a lição.

— Do que é que a senhora está

falando? posso saber? — Gabi perguntou, já suspeitando do que se tratava.

— As notícias correm. E eu achei

que foi muito bem-feito! Gabriela levantou os olhos,

devagar e disse, controladamente:

— Mãe, eu vou fingir que não

ouvi isso. Não se deseja o mal nem ao pior inimigo.

— Pois "aquelazinha" eu desejo

sim, pois ela está destruindo a sua vida, te colocando no mau caminho e acabando com a paz da nossa família.

— Mãe, por favor, não começa.

— Você não percebe, Gabriela?

Você poderia ter morrido! E tudo por causa dessas suas más companhias.

— Mãe, olha só, se teve alguém que foi mau, não foram as minhas companhias. Estávamos apenas nos divertindo, sem fazer mal a ninguém. Qualquer pessoa normal entende que nós é que fomos as vítimas.

— Quer saber? — a mãe de

Gabriela falou com raiva — eu bem que gostaria que ela tivesse morrido.

— Pra mim já chega! — Gabi

soltou os talheres e levantou-se da mesa.

— Minha filha, você não vai

terminar de almoçar? — perguntou S. José.

— Não, pai. Não tem como sentir

fome desse jeito. Vou é trabalhar, que eu ganho mais.

— Vai...pode ir! Depois não diz

que eu não avisei! — sua mãe gritou da mesa. Gabriela revirou os olhos, pegou a sua bolsa e saiu.

Gabi reconhecia que ficando

maior parte do tempo fora de casa, seus atritos com a sua mãe haviam diminuído. Como precisava acordar cedo, automaticamente dormia cedo também, respeitando assim, as regras de horário que lhe fora tantas vezes exigida. Já não precisava mais dormir fora de casa, nem passar pelo constrangimento de bater na porta milhares de vezes, enquanto a sua mãe fingia não ouvir. Não raras vezes, ela acabava cochilando do lado de fora da porta e acordava num sobressalto, quando o seu irmão desafiava as ordens da sua mãe e abria a porta para ela. Felizmente, esse pesadelo havia acabado, mas depois de quase quatro anos com Malu, sua relação com a sua mãe havia se perdido em meio a tantas brigas, ofensas e desrespeito.

 

Depois de tanto tempo, Gabi não

havia ainda se acostumado com o desprezo da sua mãe. Não conseguia deixar de se abater. Dona Verônica tinha o poder de atingi-la, lhe infringindo culpa. Não pelo que ela sentia por Malu, mas por não conseguir corresponder às expectativas da sua mãe, mesmo que no fundo ela soubesse que não era de propósito, com a intenção de desafia-la. Ela mesma não teve controle dos seus sentimentos e acabava sempre seguindo as suas emoções, vivenciando tudo com intensidade, sem pensar nas consequências. Essa era Gabi: impulsiva, transparente, sentimental, intensa. Não traía as suas vontades, pulava do precipício de olhos fechados, quando o seu coração mandava.

Queria, no entanto, a sua mãe de

volta. Sentia saudades de como ela era na sua infância. Lembrava-se de quando sua mãe a abraçou um dia e lhe disse que a amaria sempre, em qualquer situação. Sentia falta desse abraço, que ficara na infância. Sua tão feliz infância.

Agora Gabriela já tinha vinte e

dois anos. Era uma mulher. Mas seu coração continuava a ser de uma menina. Permanecia frágil. Ainda confiava nas pessoas. Necessitava de proteção e aceitação.

Refugiou-se, então, no amor de

Malu. Protegia-se em seus braços acolhedores. Respirava essa relação. Ao lado dela, tudo era esquecido. Tomou seu mundo para si. Sua vida e seus problemas. Fez de Malu seu porto seguro, a sua tábua de salvação. Viviam maior parte do tempo juntas, construindo uma história e uma ligação cada vez mais forte.

Para Gabi, tornaram-se uma só.

 

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O Garçom se aproxima e

pergunta:

— Vocês querem beber alguma

coisa?

— Você quer um vinho, Gabi? —

pergunta Malu.

— Pode ser. Aceito sim.

— Traz um vinho, por favor. —

Malu agradece e assim que o garçom se retira, propõe um brinde:

— A nós duas! — Malu a olha

enigmaticamente — aos quatro anos mais felizes da minha vida.

Gabi abre um sorriso e toma um

gole de vinho:

— Hum...muito bom!

— Não tão bom quanto você. —

lisonjeia Malu.

— Ai, ai...Malu e seus

galanteios... — ironiza Gabi.

— Ah, Gabi, para com isso que eu

fico sem graça!

— Ué, porquê? E não é verdade?

Você seria o próprio Dom Ruan se fosse homem. — brinca.

— Também não é assim.

— É assim, sim! — reafirma —

você adora seduzir a tudo e a todos.

— Calma aí! — Malu espalma a

mão — a todos não. Só a quem me interessa. Ou seja, você.

— Sei...vou fingir que acredito.

Malu fica séria e pega em sua

mão:

— Gabi, eu sei que não sou santa,

mas você sabe que eu te amo de verdade. Eu nunca trocaria você por ninguém. Até porque você tem tudo que eu quero e preciso. Eu seria burra de te perder?

Antes que Gabi pudesse

responder, o garçom se aproxima e ela solta a sua mão, discretamente.

— As senhoritas querem fazer o

pedido agora ou vão beber mais alguma coisa?

Decidiram fazer o pedido, que

demoraria tempo suficiente para que o vinho terminasse.

— Acho que já estou um pouco

tonta. — Gabi confessou.

— Ah, é? isso muito me interessa.

— brincou Malu — você fica tão animadinha...

— Bonito, Dona Maria

Luíza...querendo abusar de uma pobre e indefesa criatura embriagada...

— Ah! Maria Luíza não, por

favor...!

— Desculpa...Malu! — Gabi a

olhava sensualmente — quando sairmos daqui você já tem alguma ideia de onde iremos?

— O que você acha? — Malu

retribuiu o olhar.

— Eu acho que deveríamos comer

o mais rápido possível e pagar logo essa conta.

— Você é quem manda, meu bem.

M e i a h o r a d e p o i s , estavam

no quarto que

Malu havia reservado para aquela noite.

Sobre a cama, um buquê de rosas.

Em cima da mesa, um vinho e duas taças completavam o cenário romântico.

— Ai, Malu, que lindo! — Gabi

derretia-se, com os braços ao redor das flores. — rosas vermelhas! são as minhas preferidas. E completou: — mas você já sabia, claro. Foi até ela e lhe deu vários beijinhos no rosto — Amei...de verdade.

Malu encheu as taças e ofereceu

uma a Gabi:

— Você acha que aguenta beber mais um pouco?

—Se eu não aguentar, você me

segura —Respondeu Gabi, virando uma boa quantidade, antes de lançar Malu sobre a cama, ficando sobre ela e a beijando com sofreguidão.

Amaram-se quase com desespero.

Beijavam-se ininterruptamente, enquanto arrancavam as peças de roupa, ansiosamente. Malu inverteu a posição e por um instante, parou. Olhou para Gabi, sob seu corpo, e a admirou. Sua respiração estava ofegante. Seu rosto queimava e seu olhar era de puro desejo. Olharam-se nos olhos e esses brilhavam. De ambas. Pareciam sentir vontade de chorar. Mas não de tristeza. Foram tomadas por emoções que pareciam não caber dentro delas. Uma paixão que as deixavam tontas.

Malu pegou a mão de Gabi e

colocou em seu próprio peito, que batia descompassado. Gabi fez o mesmo. Sorriram uma para a outra e se beijaram novamente. Gabi colocou seus braços ao redor de Malu e a abraçou forte. Malu se juntou mais ao corpo de Gabi, encaixando-se, apertando-se, cada vez mais forte, movimentando-se, no mesmo ritmo, como se dançassem uma música que só a elas pertenciam. Deslizavam-se em seu próprio suor. Diziam se amar, sem cansar. Entrelaçaram-se os dedos. E por fim, o refrão daquela canção se fez ouvir, ecoando pelas paredes do quarto, silenciando -se alguns segundos depois, onde o que se ouviam eram apenas as batidas dos seus corações.

 

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Gabriela quebrou o silêncio:

— Malu, você já teve a sensação

de ter tanto amor dentro de si que a vida inteira é pouco tempo para vivenciar isso?

— Eu sei do que você está

falando. É como se precisássemos da eternidade, não é?

— É isso. — Gabriela parecia

intrigada. Não conseguia encontrar palavras para definir o que estava sentindo. — é uma espécie de medo, porque é tanta felicidade que você teme que acabe.

— Mas não vai acabar, está bem?

— Malu a abraçou e afagou os seus cabelos — vem cá, vem. Fica aqui, bem pertinho de mim. Gabi se aconchegou a ela, mas não a abraçou. Seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer à sua frente.

Malu apoiou-se nos cotovelos e

olhou nos olhos de Gabi, enquanto segurava delicadamente seu queixo:

— Gabi, olha pra mim. Eu amo

você. E vou amar...para sempre. Você não disse que conhece a minha alma? Então...eu sou tua. Agora fecha os olhinhos e tenta dormir um pouco.

 

Malu se aconchegou a Gabi e

logo pegou no sono. Gabriela a olhava, com uma estranha sensação de inquietude. Olhou para o teto durante um bom tempo, pensando como seria se ela perdesse Malu. Não. Não suportava essa ideia. Finalmente, virou-se para Malu, juntou sua respiração à dela e dormiu.