De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma
Parte II
P A R T E I I
Gabi entrou silenciosamente na
casa de Malu e a encontrou no fogão, cozinhando desajeitadamente, sem dar-se conta da sua presença.
Virando-se de repente, Malu abriu
um sorriso, dizendo:
— Nossa, que surpresa boa! —
lhe deu um beijo rápido na boca e a fez sentar-se.
— E aí, como está se saindo?
— Relativamente bem— disse
Malu — pelo menos eu consigo comer a minha própria comida. Já é alguma coisa, não acha?
Gabi riu.
— Mãe faz a maior falta nessas
horas — continuou — eu não sei até quando vou conseguir cuidar dessa casa enorme sozinha!
— Você já sabe quando ela volta?
— Dentro de um mês, mais ou
menos. — e mudando de assunto — bem, já que você está aqui, vai esperar e jantar comigo. Mas se estiver horrível, por favor, tem que ser sincera viu?
— Tudo bem, vou me arriscar —
brincou Gabi.
Malu fez cara de ofendida e
Gabriela lhe beijou no rosto, enquanto dizia:
— Estou brincando, sua boba! É
claro que eu vou adorar jantar com você. Além do mais, sou bem suspeita para falar, pois sou péssima cozinheira, ou melhor, não sei cozinhar absolutamente nada.
Por um bom tempo, os pais de
Gabi foram morar em um Sítio pouco afastado da cidade e ela ficou aos cuidados dos seus irmãos Maurício e Cristina, que a tratavam como uma eterna criança.
Cristina fazia todos os trabalhos
da casa e quando Gabi se oferecia para ajudar, ela recusava, alegando que Gabriela certamente não saberia fazer direito.
Quando Gabriela completou treze
anos e Cristina casou-se, seus pais venderam o Sítio e voltaram a morar com Maurício e Gabriela, mas repetiam o mesmo comportamento, já que sua mãe, com problemas de saúde, decidiu arranjar alguém para ajudá-la, sendo na época sua afilhada, que morou com eles durante três anos. Depois dela, vieram inúmeras empregadas, uma atrás da outra, anulando assim, o gosto de Gabi pelos serviços domésticos e seu interesse em aprender.
Gabriela tinha consciência de que
toda aquela proteção, mesmo gerada de um amor excessivo, havia de alguma forma, lhe prejudicado.
— O jantar está pronto! —
anunciou Malu, terminando de colocar a mesa.
— Hum...o cheiro está ótimo! —
Gabi sentou-se e provou um pouco da macarronada, enquanto Malu esperava ansiosa a sua resposta.
Fez sinal de positivo com o dedo
e Malu fez um gesto de alívio, revirando ligeiramente os olhos.
Terminado o jantar, Gabriela
levantou-se e começou a retirar a mesa.
— Não precisa fazer isso, pode
deixar que eu mesma dou um jeito na cozinha depois.
— Nada disso! Pela bagunça que
você fez, acho que vai precisar de ajuda — riu — eu lavo a louça e você limpa o resto. Tenho certeza que pelo menos isso eu consigo fazer.
— Tudo bem, você é quem
manda!
Gabi lavava a louça
distraidamente, sem notar a presença de Malu atrás de si. Virou de repente, levando a mão ao peito, enquanto dizia:
— Malu, você não perde essa
mania de me dar susto!
— Desculpa, não era essa a minha
intenção — Malu ria cinicamente, enquanto colocava suas mãos sobre a pia, ao redor do corpo de Gabriela, deixando-a sem a menor saída, enquanto pressionava seu corpo no dela, de maneira provocante.
— Isso é assédio, sabia? — Gabi
fez cara de emburrada.
— Ah, é? E você vai me denunciar?
— Depende.
— De que? Posso saber?
— Do que você fizer para me
calar...
Malu sorriu na boca de Gabi,
antes de começar a beija-la, mas foram interrompidas por uma batida na porta. Entreolharam-se, em dúvida se deveria abrir ou não.
Foi Malu quem decidiu:
— Gabi, você fica aqui. Pode ser
uma das minhas tias.
Gabriela ouvia atenta, tentando
reconhecer de quem era aquela voz que conversava com Malu. Descobriu ao mesmo tempo em que Malu apareceu, dizendo:
— Pode vir, é Nanda.
—A t r a p a l h e i a l g u m a coisa? —
pergunto, sem a menor cerimônia. — em seguida sentou-se, completamente à vontade, enquanto perguntava a Malu se sua mãe havia telefonado nos últimos dias.
G a b r i e l a a c h a v a g r a ç a d o jeito
de Fernanda. Ela
era totalmente desprovida de timidez. Chegava a ser extravagante, no jeito de falar e rir. Era extremamente vaidosa; suas roupas e inúmeros pares de calçados nunca eram suficientes e os acessórios eram indispensáveis, quase sagrados.
Tinha um temperamento forte e
uma personalidade marcante. Gabi conviveu com ela bastante durante a sua infância, apesar de não dividirem as brincadeiras, já que Gabi era mais nova que ela e suas amigas. Mas na fase adulta tornaram-se vizinhas e amigas e com o tempo Gabi aprendera a lidar com seu jeito, que para muitos, era considerado bastante difícil.
Fernanda era autoritária e
altamente inflexível em suas opiniões, não aceitando com facilidade que discordassem dela, por isso Gabi raramente discordava, pois sabia que seria inútil tentar convencê-la do contrário. Por outro lado, era uma pessoa extremamente autêntica e alegre e por isso, Gabi gostava muito dela.
Sua irmã Izabel era o oposto.
Mais tranquila, discreta, menos vaidosa. Tinha opinião própria, mas sem intransigências. Era uma pessoa sensata, madura, maleável e de natureza conciliadora. Era o equilíbrio da família.
Seus objetivos eram voltados para
a construção de planos para o futuro, por isso, dispensava as coisas supérfluas. Sua beleza era menos exótica do que a de Nanda, que era loira e tinha olhos enigmáticos escondido por trás de cílios enormes. Mas Izabel, com seus longos cachos escuros, os olhos grandes e a boca bem delineada era dona de uma beleza natural.
Eram irmãs realmente diferentes,
mas unidas por uma infância instável, em que na maior parte dela, ficavam com parentes, pois sua mãe precisava trabalhar em outra cidade para sustenta-las, e um tempo depois casou-se, mas Nanda e Izabel tiveram que deparar-se com um padrasto que, embora tivesse lhes dado um nome, não lhes deu o conforto e liberdade para serem crianças como as outras. Mas apesar de todas as dificuldades, Fernanda e Izabel tornaram-se mulheres honestas e batalhadoras, buscando, desde cedo, a independência.
Fernanda, aos vinte e quatro
anos, já havia sofrido uma separação de um longo relacionamento. Estava, no momento, namorando um homem vinte anos mais velho, ciumento e possessivo. Brigavam quase que diariamente, mas não pareciam dispostos a separar-se.
Izabel, um ano mais nova,
continuava com João, com quem ela namorou durante toda a sua adolescência. Ela queixava-se da falta de romantismo dele e até de atenção. Mas reconhecia que era um homem bom e que lhe dava a liberdade que necessitava. Dizia-se acostumada ao seu jeito e em hipótese alguma, infeliz.
— Brena fugiu — disse Nanda, de
repente.
Gabi e Malu entreolharam-se, assustadas, e perguntaram, ao mesmo tempo:
— Como assim?
— Sei lá— respondeu Fernanda,
totalmente indiferente— Sem dizer nada, ela levantou de madrugada, arrumou as coisas e foi embora.
— Mas houve algum motivo para
ela fazer isso? — perguntou Malu, sem entender — Ela e tia Lúcia brigaram ou algo assim?
— Bem, brigar elas brigam todos
os dias, isso não é novidade — e olhando para as duas: — E vocês estão preocupadas? porque eu não! — Fernanda levantou-se, perguntando se havia cerveja na geladeira. Depois de tomar um gole, continuou:
— Daqui uns dias ela volta, é só
uma forma de chamar a atenção, de provocar minha mãe. E o que mais me impressiona é que ela sabe que Brena é manipuladora, mas cede às suas chantagens, acaba fazendo o que ela quer. E olhe que é a segunda vez que ela foge de casa. Vocês acham que eu vou cansar a minha beleza ou criar rugas por causa disso?
—É , i s s o é verdade—
concordaram Malu e
Gabi, ao mesmo tempo em que riam do jeito despreocupado de Nanda.
A irmã caçula de Nanda e Izabel
estava no início da sua adolescência, trazendo precocemente uma lista infindáveis de atos de rebeldia, que Dona Lúcia atribuía ao fato de ter um pai ausente, que trabalhava e morava em outra cidade, mantendo um caso com outra mulher já há algum tempo.
Sua mãe acreditava que por ele
ter dado todas as regalias a Brena e especialmente muito amor na infância e depois priva-la disso repentinamente, fez com que ela fizesse de tudo para chamar a atenção.
Excesso de proteção, auto
piedade, egocentrismo, qualquer que seja o motivo, o fato é que Brena tinha uma forte tendência à autodestruição, fazendo todas as coisas possíveis para chocar os pais.
Gabriela sabia que era a pessoa
em que ela mais confiava e Gabi a amava como se fosse sua irmã mais nova e se preocupava com ela. Apesar de tudo, não conseguia negar nada para Brena, quando ela vinha toda carinhosa, cobrindo-a de beijos, naquele seu jeito de conseguir tudo o que queria. Gabriela reconhecia que apesar dos seus defeitos, era uma menina generosa, inteligente e que cativava a todos, facilmente. E por ser uma pessoa com extremada ansiedade de viver, de curiosidade aguçada, não aceitava conselhos. Queria andar com suas próprias pernas e tirar suas próprias conclusões. E Gabi temia pelas consequências, pois mais cedo ou mais tarde, ela iria carregar todo a responsabilidade dos seus atos.
Uma buzina na frente da casa de
Malu avisou que Carlos, namorado de Nanda, havia chegado para busca-la.
— Bem, já vou indo. — e olhando
para Gabi: — Você vem comigo?
— Não, pode ir. Vou depois.
— Então tá! Tchauzinho! —
despediu-se.
— Acho melhor terminar o que eu
estava fazendo — disse Gabi, indo em direção à cozinha, mas Malu segurou em seu braço, puxando -a para si, enquanto dizia:
— Engano seu, mocinha! Sou eu
que vou terminar o que estava fazendo — beijou-a suavemente, enquanto a empurrava delicadamente sobre o sofá.
Gabi não se mexeu quando Malu
deslizou a alça da sua blusa e lhe beijou o ombro, de forma provocante, nem a impediu quando ela desceu a mão sobre sua coxa, depois subiu até o quadril, tirando sua calcinha estrategicamente, enquanto Gabi facilitava, arqueando o corpo sensualmente.
Tudo aconteceu de forma muito
rápida. Gabi sentiu que estava acordando de um sonho repleto de prazer. Quando abriu os olhos, viu Malu olhando para os próprios dedos, e sorrindo de satisfação. Ela não havia sonhado.
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Gabriela e Malu preferiram não
sair naquela sexta-feira à noite. Pediram uma pizza e depois ficaram embaixo do cobertor, vendo o programa preferido de Gabi. As duas brincavam de quem acertava a resposta e se divertiam bastante com isso.
O celular de Malu tocou.
— Oi Bruno. — disse Malu —
sim, estou em casa...sim, ela está aqui também...não, não quisemos sair hoje...pois é, aqui está mais interessante... — e riu.
— É Bruno? ah, eu quero falar
com ele! Malu fez sinal para esperar. E continuou:
— Claro, pode vir aqui sim...não,
você nunca atrapalha...ok, estamos esperando. — E desligou.
— Poxa Malu, eu queria falar
com ele! — reclamou Gabi.
— Calma, ele está vindo pra cá!
Bruno era o melhor amigo de
Gabi. Se conheceram há cinco anos, época em que estudavam juntos no mesmo colégio, no início da puberdade, quando os primeiros sinais de barba de Bruno ainda apareciam.
Gabriela desenvolveu um amor
fraternal por Bruno e por ele ter perdido os pais muito cedo, sentia-se meio que responsável pelo bem estar do amigo. Preocupava-se quando ele estava doente, o incluía em todos os planos da sua vida.
Bruno era a pessoa, depois de
Malu, que mais trazia alegria para a sua vida. Era com quem dividia suas melhores risadas e também os momentos de tristeza. Gabriela era muito visceral e Bruno, muitas vezes usava de sua racionalidade para lhe mostrar pontos de vistas mais realistas, tornando-se, aos poucos, uma pessoa indispensável na vida de Gabriela. Sua companhia diária e inseparável. Gabi o amava incondicionalmente.
Alguém bateu na porta.
— Bruno chegou! — Gabi pulou da cama e foi abraça-lo.
— Olá, meus amores, vim
atrapalhar um pouco esse romance — riu.
— Pare de bobagem! — disse
Malu, — você faz parte desse triângulo. Vá se acostumando, já que quando a gente casar, você vai morar conosco.
Bruno riu sonoramente.
— Bem, Malu, sabe o que é? —
e l e começou — Fabrício está querendo vir pra cá esse fim de semana e não tem onde ficar. Aí eu pensei se de repente ele poderia ficar aqui. Claro, se não for incomodar.
— Sem o menor problema. Vai ser
um prazer recebê-lo em minha casa — disse Malu, sinceramente.
Foi um fim de semana divertido,
mas previsivelmente com discussões. Bruno e Fabrício eram muito diferentes, do gosto pela música à visão da vida. Um detestava cigarro e outro não vivia sem ele. Fabrício era extremamente perfeccionista e investia no futuro. Para Bruno, o que importava era o presente. Ele costumava fazer coisas totalmente imprevisíveis, em horas impróprias, apenas pelo prazer de ter feito. Detestava regras. Era criativo e apaixonado por música. Impaciente para coisas repetitivas e para a rotina. Inteligente e questionador. Bruno trocava qualquer coisa para admirar seus artistas e suas poesias preferidas. Sua alma inquieta se chocava com o comportamento sempre previsível de Fabrício.
Gabriela reconhecia que por trás
de tantas cobranças de Fabrício, existia apenas um desejo de ver Bruno evoluir, mas em contrapartida, era um infiel incorrigível e Bruno, ao contrário, era muito dedicado à relação, por isso ele sofria muito com suas traições.
Bruno já o havia abandonado
inúmeras vezes por conta disso, mas Fabrício implorava seu perdão de todas as formas possíveis, inclusive em público, mas logo os sinais de mudança desapareciam e ele voltava a repetir os mesmos erros.
Gabriela sabia que o
relacionamento deles estava por um fio. Ela gostava de Fabrício e tinham um vínculo de amizade e afinidade, mas ela iria apoiar Bruno em qualquer decisão que ele tomasse. Era a sua felicidade que importava.
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Gabriela não conseguiu esperar
até o horário marcado. Saiu antes de casa, para esperar Malu em casa, quando ela chegasse da Igreja, na qual ela fazia parte do grupo de música.
A chave estava no mesmo lugar
de sempre e Gabi entrou. Olhou no relógio: faltava ainda no máximo meia hora para que Malu voltasse. Então, mais relaxada, começou a arrumar a bagunça que Malu havia deixado no quarto: roupas em cima da cama, guarda-roupa aberto, maquiagens espalhadas. De certo saíra atrasada, pois normalmente era bem organizada.
Em seguida ligou a televisão e
ficou mudando de canal, distraidamente. Assistiu, durante um tempo, sem nenhum interesse e olhou novamente no relógio. "Malu está demorando", pensou.
Provavelmente depois de ter
saído da Igreja foi pegar algo para as duas comerem, como sempre fazia.
Impaciente, decidiu ir encontrar
Malu. Calçou os sapatos, deu uma última olhada no espelho e saiu.
Ao lado da Igreja, indiferente à
presença de Gabi, Malu discutia com uma pessoa. Era Joane.
Assim que percebeu que Malu já
a tinha visto, Gabriela virou as costas e foi embora.