Definitivamente Morto

Charlaine Harris · Capítulo 21 de 25

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Definitivamente Morto

Capítulo 20

FORAM NECESSÁRIOS APENAS dois para m e subj ugar, e eu chutei e gritei, m ordi e golpeei com cada gota de energia que possuía.

Quinn precisou de quatro, m as eles só conseguiram porque usaram um a pistola atordoante. Do contrário, eu tenho certeza que ele poderia ter tirado de ação seis ou oito deles, ao invés dos três que derrubou antes que o pegassem .

Eu sabia que seria dom inada e podia ter m e poupado alguns hem atom as e talvez um osso quebrado, se apenas consentisse em ser levada.

Mas eu tinha m eu orgulho. E para ser m ais prática, queria ter certeza de que Am elia ouviu o que estava acontecendo aqui em cim a. Ela faria algo.

Não tinha certeza do quê, m as ela ia agir.

Fui em purrada pelas escadas, m eus pés m al tocando o chão, por dois hom ens robustos que nunca vi antes. Esses m esm os hom ens prenderam m eus pulsos com um a fita isolante. Fiz o m elhor para deixá-la um pouco frouxa, m as tem o que eles fizeram um bom trabalho.

— Hm m , cheira a sexo – o baixinho disse, beliscando m eu traseiro.

Eu ignorei seu olhar m alicioso e tive algum a satisfação ao ver o hem atom a que causei em sua bochecha com m eu punho (que, a propósito, doía e ardia sobre os nós; você não pode socar alguém sem pagar por isso).

Eles tiveram que carregar Quinn e não foram gentis ao fazê-lo. Ele foi j ogado contra os degraus e, um a vez, o derrubaram . Ele era um suj eito grande. Agora era um suj eito grande sangrando, j á que um dos golpes cortou a pele sobre seu olho esquerdo. Ele teve o tratam ento com fita isolante tam bém , e im aginei com o o pelo reagiria à fita.

Fom os m antidos lado a lado no pátio, brevem ente, e Quinn m e olhou com o se quisesse desesperadam ente falar com igo. O sangue dos olhos corria por sua bochecha, e ele parecia grogue por causa da arm a atordoante.

Suas m ãos estavam voltando ao norm al. Eu m e j oguei na direção dele, m as os Lobis nos m antiveram afastados.

Duas vans entraram no pátio circular, duas vans onde se liam BIG EASY ELETRICIDADE na lateral. Eram brancas, com pridas e sem j anelas traseiras, e os logotipos ao lado foram cobertos com lam a, o que parecia altam ente suspeito. Um m otorista pulou da cabine de cada van, e o prim eiro m otorista abriu as portas traseiras de seu veículo.

Enquanto nossos seqüestradores em purravam Quinn e eu para dentro daquela van, o resto do grupo de assaltantes foi trazido pelas escadas. Os hom ens que Quinn conseguiu atingir estavam bem m ais feridos do que ele, eu estou feliz por dizer. Garras conseguem causar um a incrível quantidade de danos, especialm ente se vierem com a força que um tigre pode exercer.

O cara que eu atingi com o abaj ur estava inconsciente, e quem alcançou Quinn prim eiro provavelm ente estava m orto. Com certeza encontrava-se coberto de sangue e havia coisas expostas à luz que deviam estar dentro de sua barriga. Eu sorria de satisfação quando os hom ens m e j ogaram na traseira da van, que descobri estar coberta de lixo e absolutam ente im unda.

Aquela era um a operação de alta classe. Havia um a tela de m etal entre os bancos da frente e a parte de trás, e as prateleiras no fundo haviam sido esvaziadas, im agino que por nossa causa.

Eu fui arrem essada num corredor estreito entre as prateleiras, e Quinn em purrado atrás de m im . Eles tiveram que se esforçar porque ele ainda estava atordoado. Meus dois acom panhantes fecharam as portas dos fundos sobre nós, enquanto os Lobis feridos de guerra eram colocados na outra van. Eu supunha que as vans tinham estacionado na rua por pouco tem po, então nós não ouviríam os os veículos parando na entrada. Quando ficaram prontos para nos atacar, nossos seqüestradores estacionaram no pátio. Mesm o as pessoas de um a cidade turbulenta com o Nova Orleans notariam alguns corpos espancados sendo carregados em vans... na chuva.

Eu esperava que os Lobis não pensassem em agarrar Am elia e Bob, e rezei para que Am elia fosse esperta e se escondesse, ao invés de fazer algum feitiço de bruxa im pulsivo e coraj oso. Eu sei que é um a contradição, certo? Rezar por um a coisa (pedir um favor a Deus) enquanto, ao m esm o tem po, espera que seus inim igos sej am m ortos. Tudo que eu posso dizer é que tenho a sensação de que os Cristãos vinham fazendo isso desde o princípio— pelo m enos os ruins, com o eu.

— Vai, vai, vai – berrou o hom em baixinho, pulando no banco da frente. O m otorista obedeceu com um com pletam ente desnecessário guinchar de pneus, e nós partim os do pátio com o se o presidente acabasse de levar um tiro e

tivéssem os que levá-lo ao Walter Reed 4.

Quinn recuperou-se com pletam ente ao virarm os na Chloe Street, de onde seguiríam os para o nosso destino final, onde quer que fosse. Suas m ãos estavam presas às costas, o que era doloroso; e o sangram ento da cabeça não tinha parado. Eu tinha im aginado que ele perm aneceria grogue e em estado de choque. Mas quando seus olhos focalizaram m eu rosto, ele disse, — Docinho, eles te bateram com força.

Eu não devia estar parecendo m uito bem . — É, bom , você parece estar no m esm o barco – respondi. Eu sabia que o m otorista e seu com panheiro podiam nos ouvir, e não dava à m ínim a.

Com um a tentativa som bria de sorriso, ele disse, — Tornei-m e um defensor e tanto.

Na opinião dos Lobis, eu não era m uito perigosa, então m inhas m ãos foram atadas na frente. Contorci-m e até ser capaz de aplicar pressão sobre o corte na testa de Quinn. Aquilo devia doer ainda m ais, m as ele não disse um a palavra de protesto. O m ovim ento da van, os efeitos da surra, e o constante balanço e cheiro de lixo ao nosso redor com binaram para tornar os próxim os dez m inutos bem desagradáveis. Se fosse esperta, eu podia ter im aginado para onde estávam os indo— m as não estava m e sentindo esperta.

Fiquei espantada que, num a cidade com o Nova Orleans com tantos restaurantes fam osos, essa van estivesse abarrotada de em balagens de Burger King e copos do Taco Bell. Se tivesse a chance de vasculhar entre os escom bros, eu podia encontrar algo útil.

— Quando estam os j untos, som os atacados por Lobis – disse Quinn.

— É m inha culpa – falei. – Eu sinto tanto por tê-lo envolvido nisso.

— Ah, é – disse. – Sou conhecido por andar com gente desesperada.

Nós estávam os deitados de frente um para o outro, e Quinn m eio que m e acotovelou com o j oelho. Ele estava tentando m e dizer algo, e eu não estava entendendo. Os dois hom ens no banco da frente conversavam a respeito de um a garota bonita atravessando a rua no sem áforo. Só ouvir a conversa era quase suficiente para se desej ar renunciar aos hom ens, m as pelo m enos eles não estavam nos ouvindo.

— Lem bra quando conversam os sobre m inha condição m ental? – falei cuidadosam ente. – Lem bra quando eu lhe contei a respeito?

Levou um m inuto porque estava dolorido, m as ele entendeu a dica.

Seu rosto se contraiu, com o se ele estivesse prestes a partir tábuas no m eio ou outra coisa que exigisse toda sua concentração, e então o pensam ento se enfiou na m inha cabeça. Celular no m eu bolso, ele respondeu. O problem a era que o telefone estava em seu bolso direito, e ele estava deitado daquele lado. Mal havia espaço para ele se virar.

Isso exigiria um bocado de m anobra e eu não queria que nossos seqüestradores vissem . Mas finalm ente dei um j eito de enfiar os dedos no bolso de Quinn, fazendo um a nota m ental para avisá-lo que, sob esse tipo de circunstância, seus j eans eram apertados dem ais (sob outras circunstâncias, nenhum problem a com o j eito com o se aj ustavam ). Mas livrar aquele telefone, com a van sacudindo enquanto nossos atacantes Lobis verificavam a cada m inuto ou m enos, era difícil.

Quartel-general da rainha na discagem rápida, ele pensou, quando sentiu o telefone deixando seu bolso. Mas aquilo era inútil para m im . Eu não sabia com o acessar a discagem rápida. Levei alguns instantes para fazer Quinn entender, e ainda não tenho certeza de com o consegui, m as finalm ente ele pensou o núm ero do telefone para m im . Apertei os botões desaj eitadam ente e pressionei send. Talvez ele não tivesse pensado naquilo antes, porque quando um a vozinha disse “Alô?”, os Lobis ouviram .

— Você não o revistou? – o m otorista perguntou, incrédulo, ao passageiro.

— Inferno, não, eu estava tentando colocá-lo lá atrás e sair da chuva – o hom em que m e beliscou resm ungou de volta. – Estacione, m aldição!

Alguém teve o seu sangue?, Quinn m e perguntou em silêncio, em bora dessa vez ele pudesse ter falado e, após um precioso segundo, m eu cérebro engrenou.

— Eric – respondi, porque os Lobis estavam saindo pela porta e correndo para a traseira da van.

— Quinn e Sookie foram levados por alguns Lobis – Quinn disse ao telefone que eu segurava contra sua boca. – Eric Northm an pode rastreá-la.

Eu esperava que Eric ainda estivesse em Nova Orleans e m ais ainda que, quem tivesse atendido ao telefone no quartel-general da rainha, entendesse. Mas então os dois Lobis abriram as portas da van e nos arrastaram para fora, um deles m e socando enquanto o outro atingia Quinn no estôm ago. Eles arrancaram o celular de m eus dedos inchados e j ogaram sobre a densa vegetação ao lado da estrada. O m otorista estacionara num terreno vazio, m as de am bos os lados da estrada havia várias casas espalhadas sobre estacas num m ar de gram a. O céu estava nublado dem ais para que eu fixasse nossa direção, m as agora eu tinha certeza de que viaj ávam os para o sul, em direção aos pântanos. Consegui ver o relógio do m otorista e fiquei surpresa ao descobrir que j á passava das três da tarde.

— Seu idiota de m erda, Clete! Para quem ele estava ligando? – gritou um a voz na segunda van, que estacionou ao lado da estrada quando nós param os. Nossos dois seqüestradores trocaram um olhar com idênticas expressões de consternação, e eu teria rido se não estivesse com tanta dor.

Era com o se fosse costum e serem estúpidos.

Dessa vez, Quinn foi revistado m inuciosam ente e eu tam bém , em bora não tivesse bolsos ou lugar para esconder algo, a m enos que eles quisessem fazer um exam e de cavidade corporal. Achei que Clete— Sr.

Belisca-Traseiro— ia fazer isso, por um instante, enquanto seus dedos em purravam o tecido da m alha em m im . Quinn achou tam bém . Fiz um ruído horrível, um ofego sufocado de m edo, m as o som que veio da garganta de Quinn foi m ais do que um grunhido. Era um som profundo, áspero, tossido e absolutam ente am eaçador.

— Deixe a garota em paz, Clete, e vam os voltar para a estrada – disse o m otorista alto, e sua voz tinha aquele tom de “Estou de saco cheio de você”. – Eu

não sei quem é esse cara, m as não acho que ele se transform e num roedor5.

Im aginei se Quinn os am eaçaria com sua identidade— a m aioria dos Lobis parecia conhecê-lo, ou saber dele— m as j á que ele não ofereceu o nom e, eu não falei.

Clete m e j ogou de volta na van com um bocado de resm ungos com o “Quem m orreu e te fez Deus? Você não m anda em m im ”, e assim por diante. O hom em m ais alto obviam ente era o chefe de Clete, o que era algo bom . Eu queria alguém com cérebro e um pouco de decência entre m im e os dedos curiosos de Clete.

Eles tiveram um bocado de trabalho para colocar Quinn dentro da van novam ente. Ele não queria ir e finalm ente os dois hom ens da outra van vieram , m uito relutantem ente, para aj udar Clete e o m otorista. Eles prenderam as pernas de Quinn com um a daquelas coisas plásticas, do tipo que se coloca a ponta através de um buraco e puxa para prender com o um cinto. Nós usam os algo parecido para selar a em balagem de assar peru no Dia de Ação de Graças passado. A am arra que usaram em Quinn era preta e de plástico, e realm ente se parecia com um a algem a. Eles não prenderam m inhas pernas.

Eu apreciei por Quinn ficar zangado com o tratam ento que eles m e dispensaram , zangado suficiente para lutar e se libertar, m as o resultado final foi que m inhas pernas estavam livres e as dele não— porque eu ainda não representava am eaça, pelo m enos em suas cabeças.

Provavelm ente estavam certos. Eu não conseguia pensar em nada para im pedi-los de nos levarem aonde quer que fossem . Não tinha um a arm a e, apesar de m e preocupar com a fita prendendo m inhas m ãos, m eus dentes não pareciam fortes o suficiente para causar estrago. Descansei por um m inuto, fechando os olhos, cansada.

O últim o golpe abrira um corte em m inha bochecha. Um a grande língua tocou m eu rosto ensangüentado. E de novo.

— Não chore – disse um a voz estranha e gutural, e eu abri os olhos para verificar que era, de fato, Quinn.

Quinn tinha tanto poder que conseguia parar a transform ação assim que com eçava. Suspeitei que ele pudesse desencadeá-la tam bém , em bora eu tenha notado que lutar podia transform ar qualquer m etam orfo. Ele teve as garras durante a luta no apartam ento de Hadley, e elas quase viraram a balança a nosso favor. Desde que se enfurecera com Clete durante o episódio ao lado da estrada, o nariz de Quinn estava achatado e largo. Eu tive um a visão m inuciosa dos dentes em sua boca, dentes que se transform aram em pequenas adagas.

— Por que você não se transform ou totalm ente? – perguntei num pequeno sussurro.

Porque não haveria espaço suficiente aqui, docinho. Depois que m e transform o, tenho dois m etros e quinze de com prim ento e cerca de duzentos quilos.

Aquilo faria qualquer garota engolir em seco. Só podia agradecer por ele ter pensado nisso antes. Olhei m ais um pouco para ele.

Não está aborrecida?

Clete e o m otorista trocavam recrim inações a respeito do incidente com o telefone. — Ora, vovô, m as que dentes grandes você tem – sussurrei.

Os caninos superiores e inferiores eram tão com pridos e afiados que eram realm ente assustadores (eu os cham o de caninos; para os gatos isso pode ser um insulto).

Afiados... eles eram afiados. Aproxim ei m inhas m ãos da boca dele, im plorando com os olhos para que com preendesse. Tanto quanto podia dizer do rosto alterado, Quinn estava preocupado. Assim com o nossa situação estim ulava seus instintos de defesa, a ideia que eu tentava lhe vender excitava outros instintos. Vou fazer suas m ãos sangrarem , ele avisou, com grande esforço. Ele era parcialm ente anim al agora, e os processos de raciocínio de um anim al não percorriam necessariam ente os m esm os cam inhos dos hum anos.

Eu m ordi o lábio superior para evitar fazer ruído enquanto os dentes de Quinn m ordiam a fita adesiva. Ele tinha que exercer um bocado de pressão para que os caninos de dez centím etros perfurassem a fita, e isso significava que os incisos curtos e afiados m ordiam m inha pele tam bém , não im portava o quanto ele tom asse cuidado. Lágrim as com eçaram a rolar por m inhas faces num fluxo incessante, e eu o senti vacilar. Sacudi as m ãos atadas para incitá-lo, e relutantem ente ele inclinou-se de volta à tarefa.

— Ei, George, ele está m ordendo ela – disse Clete, do banco do passageiro. – Posso ver a m andíbula se m exendo.

Mas nós estávam os tão próxim os e a luz era tão fraca que ele não conseguia ver que Quinn m ordia a am arra de m inhas m ãos. Isso era bom .

Eu tentava duram ente encontrar coisas boas na qual m e agarrar, porque naquele m om ento o m undo parecia m uito, m uito desolador, deitada num a van viaj ando sob a chuva por um a estrada desconhecida em algum lugar no sul da Louisiana.

Eu estava zangada, sangrando, dolorida e deitada sobre m eu braço esquerdo j á m achucado. O que eu queria, o que seria ideal, era m e encontrar lim pa e m edicada num a bela cam a com lençóis brancos. Okay, lim pa e enfaixada num pij am a lim po. E Quinn estaria na cam a, com pletam ente na form a hum ana, lim po e m edicado tam bém . E teria descansado e não estaria usando absolutam ente nada. Mas a dor de m eu corte e os braços sangrando estavam se tornando exigentes dem ais para serem ignorados, e eu não conseguia m e concentrar o suficiente no adorável devaneio. Quando j á estava a ponto de soluçar— ou talvez só gritar— eu senti m eus pulsos soltos.

Por alguns segundos, eu só fiquei ali deitada, ofegante, tentando controlar m inha reação à dor. Infelizm ente, Quinn não podia roer as próprias am arras, j á que estava preso com as m ãos às costas. Ele finalm ente conseguiu se virar para que eu pudesse ver seus pulsos.

George disse, — O que eles estão fazendo?

Clete nos lançou um olhar, m as eu estava com as m ãos unidas. Já que o dia estava escuro, ele não conseguia enxergar com clareza. — Não estão fazendo nada. Ele parou de m ordê-la – disse Clete, soando desapontado.

Quinn conseguiu prender um a garra contra a fita isolante prateada.

Suas garras não tinham bordas afiadas com o um a cim itarra; seu poder se concentrava na ponta perfurante apoiada pela extrem a força de um tigre.

Mas Quinn não conseguia encontrar apoio para exercitar aquela força.

Então isso levaria tem po, e eu suspeitava que a fita fizesse um som de rasgo, quando ele conseguisse cortá-la.

Nós não tínham os m uito tem po. A qualquer m inuto, até um idiota com o Clete perceberia que as coisas não estavam bem .

Com ecei a difícil m anobra de botar as m ãos nos pés de Quinn sem revelar o fato de que j á não estava m ais presa. Clete olhava sem pre que vislum brava um m ovim ento e eu m e encolhi contra as prateleiras vazias, as m ãos unidas em m eu colo. Tentei parecer desesperada, o que era terrivelm ente fácil. Clete ficou m ais interessado em acender um cigarro após um ou dois segundos, m e dando a chance de exam inar a tira de plástico prendendo os tornozelos de Quinn. Apesar de lem brar o prendedor que usei no Dia de Ação de Graças, aquela am arra era preta, grossa e extradura, e eu não possuía um a faca para cortá-la ou chave para soltá-la. No entanto, achei que Clete com etera um erro ao colocá-la e m e apressei a tentar tirar vantagem disso. Quinn ainda estava de sapatos, claro, e eu os desam arrei e tirei. Então segurei um pé apontado para baixo. Aquele pé com eçou a deslizar dentro do círculo da am arra. Com o eu suspeitei, os sapatos m antiveram os pés separados e perm itiram algum a folga.

Apesar de m eus pulsos e m ãos estarem sangrando sobre as m eias de Quinn (que deixei em seus pés para que o plástico não arranhasse), eu consegui m e arranj ar m uito bem . Ele foi estoico a respeito do aj uste drástico em seus pés. Finalm ente ouvi seus ossos protestarem ao serem torcidos num a posição estranha, m as seu pé deslizou para fora do laço. Oh, graças a Deus.

Havia levado m ais tem po para pensar do que fazer. Pareciam ter se passado horas. Puxei a am arra para baixo, j oguei-o no m eio da suj eira, olhei para Quinn e assenti. A garra presa à fita isolante rasgou-a. Um buraco apareceu. O som não foi tão alto, e eu m e estiquei totalm ente ao lado de Quinn para cam uflar a atividade. Enfiei os polegares no buraco da fita e puxei, avançando m uito pouco. Existe um a razão para fitas isolantes serem tão populares. São substâncias confiáveis.

Tínham os que sair da van antes de alcançarm os o destino, e fugir antes que a outra van parasse atrás da nossa. Vasculhei entre as em balagens vazias de com ida m exicana e batatas fritas no chão da van e finalm ente, num pequeno vão entre o assoalho e a lateral, encontrei um a chave de fenda esquecida. Era com prida e fina.

Olhei-a e respirei fundo. Sabia o que tinha que fazer. As m ãos de Quinn estavam atadas e ele não poderia agir. Lágrim as rolaram por m inha face. Eu estava agindo com o um bebê chorão, m as não conseguia evitar.

Fitei Quinn por um m om ento e suas feições eram de aço. Ele sabia tão bem quanto eu o que precisava ser feito.

Nesse instante, a van dim inuiu a velocidade e virou num a estrada vicinal razoavelm ente bem pavim entada, que parecia ser um a trilha de cascalho para a floresta. Um a entrada, eu tinha certeza. Estávam os próxim os de nosso destino. Aquela era a m elhor chance, talvez a últim a que teríam os.

— Estenda os pulsos – m urm urei, e enfiei a ponta da chave de fenda no buraco da fita. Ela se alargou. Enfiei de novo. Sentindo m eus m ovim entos frenéticos, os dois hom ens se viraram no instante em que eu atingi a fita isolante um a últim a vez. Enquanto Quinn se esforçava para rasgar as am arras perfuradas, eu m e coloquei de j oelhos, agarrando a divisória telada com a m ão esquerda, dizendo, — Clete!

Ele virou e se inclinou entre os assentos, perto da divisória, para ver m elhor. Respirei fundo e, com a m ão direita, apunhalei a chave de fenda contra a tela de m etal. Atingi-o em cheio na bochecha.

Ele gritou e sangrou, e George m al conseguiu parar com rapidez suficiente. Com um rugido, Quinn soltou os pulsos. Então se m oveu com o um relâm pago e, no m inuto em que a van parou bruscam ente, ele e eu abrim os a porta dos fundos, correndo para a floresta. Graças a Deus ela ficava bem ao lado da estrada.

Sandálias com tiras de couro não são boas para correr no m atagal, só quero com entar aqui, e Quinn estava só de m eias. Mas abrim os algum a distância e, no instante em que o m otorista aturdido da segunda van conseguiu parar e os passageiros puderam saltar em perseguição, nós estávam os fora de vista da estrada. Continuam os correndo porque eles eram Lobis e podiam nos rastrear. Eu tinha arrancado a chave de fenda da bochecha de Clete e estava com ela na m ão, e lem brei de pensar que era perigoso correr com um obj eto pontudo. Pensei nos dedos finos de Clete entre m inhas pernas, e não m e senti tão m al por ter feito o que fiz. Nos segundos seguintes, ao pular por cim a de um a árvore caída entre arbustos espinhentos, a chave escorregou de m inha m ão e eu não tive tem po para procurar.

Após correrm os por um tem po, nós chegam os a um pântano.

Pântanos e brej os são abundantes na Louisiana, é claro. Eles tam bém são ricos em vida selvagem , e pode ser lindo de olhar ou talvez excursionar num a canoa ou algo assim . Mas m ergulhar num deles a pé, na chuva, é ruim . Talvez de um ponto de vista rastreável esse pântano fosse um a coisa boa porque, um a vez dentro da água, nós não deixaríam os qualquer cheiro.

Mas de um ponto de vista pessoal, o m eu, o pântano era horrível, porque era suj o, tinha cobras, j acarés, e Deus sabe m ais o quê.

Tive que tom ar coragem para ir atrás de Quinn. A água estava escura e fria j á que ainda era prim avera. No verão, seria com o chapinhar em sopa quente. Num dia tão nublado, debaixo das árvores, seríam os quase invisíveis para nossos perseguidores, o que era bom ; m as as m esm as condições significavam que qualquer anim al selvagem à espreita seria visto só quando pisássem os ou fôssem os m ordidos por ele. Não tão bom .

Quinn sorria am plam ente, e lem brei que alguns tigres tinham um bocado de pântanos em seu habitat natural. Pelo m enos um de nós estava feliz.

A água foi ficando cada vez m ais profunda, e logo estávam os nadando. Ali, Quinn nadou com um a enorm e elegância que foi m eio desalentadora para m im . Eu estava tentando com todas as m inhas forças só ficar quieta e invisível. Por um segundo, senti tanto frio e m edo que com ecei a pensar que... não, não seria m elhor ainda estar na van... m as era algo próxim o, só por um segundo.

Eu estava tão cansada. Meus m úsculos trem iam por causa das conseqü.ncias da onda de adrenalina durante a fuga, e então nossa corrida através da floresta, e antes disso a luta no apartam ento, e antes... oh, m eu Deus, eu tinha feito sexo com Quinn. Algo parecido. Sim , definitivam ente sexo. Mais ou m enos.

Nós não tínham os conversado desde que saím os da van e, de repente, lem brei de ter visto o braço dele sangrando quando escapam os. Eu o atingi com a chave de fenda pelo m enos um a vez, enquanto o libertava. E ali estava eu, choram ingando.

— Quinn – falei. – Deixe-m e aj udá-lo.

— Me aj udar? – ele indagou. Não entendi seu tom de voz e, j á que ele estava abrindo cam inho através da água escura na m inha frente, não pude ver seu rosto. Mas sua m ente, ah, essa estava cheia de confusão rosnada e fúria que não conseguia achar lugar para colocar. – Eu aj udei você? Eu a libertei? Eu a protegi contra os m alditos Lobis? Não, eu deixei aquele filho da puta enfiar um dedo em você, e assisti, e não pude fazer nada.

Oh. Orgulho m asculino. — Você libertou m inhas m ãos – apontei. – E pode m e aj udar agora.

— Com o? – ele se virou para m im , e estava profundam ente aborrecido. Percebi que ele era um suj eito que levava sua proteção bem a sério.

Era um dos m isteriosos desequilíbrios de Deus, que hom ens fossem tão m ais fortes do que as m ulheres. Minha avó dizia que era seu m odo de equilibrar a balança, j á que m ulheres eram m ais duronas e resistentes. Não tenho certeza se é verdade, m as eu sabia que Quinn, talvez porque fosse um cara grande e form idável, e um lobi-tigre que podia se transform ar nessa criatura fabulosam ente bela e letal, estava apavorado porque não m atou todos os nossos agressores e não m e salvou de ser m aculada pelo toque deles.

Eu m esm a teria preferido bem m ais esse cenário, especialm ente considerando nossa situação atual. Mas os eventos não aconteceram desse m odo. — Quinn – falei, e m inha voz estava tão cansada quanto o resto. – Eles deviam estar seguindo para algum lugar aqui perto. Algum lugar nesse pântano.

— É por isso que nos desviam os – ele disse, concordando. Vi um a cobra enroscada num galho de árvore sobre a água à sua frente, e m eu rosto deve ter parecido tão chocado quanto eu m e sentia, porque Quinn virou m ais rápido do que pensei, pegou a cobra na m ão e a partiu um a vez, duas, até o anim al estar m orto e flutuar para longe na água barrenta. Ele pareceu se sentir um bocado m elhor depois disso. – Não sabem os para onde estam os indo, m as com certeza é longe deles. Certo? – perguntou.

— Não há cérebros em atividade por perto – falei, após um instante verificando. – Mas eu nunca m edi o alcance de m inha telepatia. É tudo que posso dizer. Vam os tentar sair da água por um m inuto enquanto pensam os, okay ? – Eu estava trem endo dos pés à cabeça.

Quinn atravessou a água e m e pegou. — Prenda os braços ao redor do m eu pescoço – disse.

Claro, se ele queria fazer aquela coisa de hom em , tudo bem .

Coloquei os braços ao redor de seu pescoço e ele com eçou a se m over através da água.

— Isso seria m elhor se você se transform asse num tigre? – perguntei.

— Posso precisar disso m ais tarde, e hoj e j á m udei parcialm ente duas vezes. É m elhor conservar m inha força.

— De que tipo você é?

— Bengala – ele respondeu, e então o chuviscar sobre a água parou.

Ouvim os vozes e nos detivem os na água, nossos rostos virados para a fonte do som . Enquanto perm anecíam os ali congelados, ouvi algo grande deslizar para dentro da água à nossa direita. Virei os olhos naquela direção, aterrorizada com o que veria— m as a água estava quase parada, com o se algo só tivesse passado. Eu sabia que havia excursões nos pântanos ao sul de Nova Orleans, e sabia que o pessoal local lucrava ao levar pessoas para a água escura e deixá-las verem os j acarés.

O lado bom era que esses nativos faziam dinheiro e os forasteiros viam algo que nunca veriam de outro m odo. O ruim era que, às vezes, os locais j ogavam iscas para atrair os j acarés. Im aginei que j acarés associassem hum anos à com ida.

Deitei m inha cabeça no om bro de Quinn e fechei os olhos. Mas as vozes não se aproxim aram , não ouvim os os latidos dos lobos, e nada m ordeu m inha perna para m e arrastar.

— É isso que os j acarés fazem , sabe – falei para Quinn. – Eles te puxam para baixo e afogam , e levam para algum lugar onde podem com êlo.

— Docinho, os lobos não vão com er a gente hoj e, nem os j acarés. – Ele riu, um ribom bar baixo e profundo no peito. Fiquei tão feliz por ouvir aquele som . Após um m om ento, com eçam os a nos m over através da água novam ente. As árvores e pedaços de terreno tornaram -se próxim os, os canais estreitaram e, finalm ente, saím os num a porção de terra grande o suficiente para conter um a cabana. Quinn m e apoiava quando cam baleam os para fora da água.

Com o abrigo, a cabana era bem pobre. Talvez a estrutura tenha sido um glorioso acam pam ento de caça, três paredes e um telhado, não m ais do que isso. Agora eram ruínas, m eio desm oronadas. A m adeira tinha apodrecido e o telhado de m etal se inclinara e torcera, enferruj ando em alguns pontos. Eu m e aproxim ei da pilha de m aterial hum ano e revistei cuidadosam ente, m as não parecia existir nada que pudéssem os usar com o arm a.

Quinn estava ocupado, arrancando os restos de fita isolante dos pulsos, nem m esm o piscando quando um pouco de pele vinha j unto. Eu trabalhei no m eu pulso m ais gentilm ente. Então acabei desistindo.

Desm oronei no chão, deprim ida, contra um a árvore. As cascas im ediatam ente com eçaram a deixar m arcas profundas em m inhas costas.

Pensei em todos os germ es na água, bactérias que com certeza invadiram m eu sistem a no m om ento em que ganharam entrada através dos cortes em m eus pulsos. A m ordida não curada, ainda coberta por um a atadura agora im unda, sem dúvida recebeu sua cota de partículas asquerosas. Meu rosto estava inchando por causa da surra que levei. Eu lem brei de ter olhado no espelho no dia anterior e perceber que as m arcas deixadas pelos Lobis m ordidos, em Shreveport, tinham finalm ente quase desaparecido. Bela porcaria m e adiantou.

— Am elia j á deve ter feito algo – falei, tentando m e sentir otim ista. – Ela provavelm ente ligou para o QG vam piro. Mesm o que nossa ligação não tenha alcançado ninguém que possa fazer algo a respeito, talvez alguém estej a nos procurando agora.

— Eles teriam que m andar os em pregados hum anos. Tecnicam ente ainda é dia, apesar de o céu estar tão escuro.

— Bom , pelo m enos a chuva parou – falei. Nesse m om ento, com eçou a chover novam ente. Pensei em dar um chilique, m as francam ente, não parecia valer a pena gastar energia. E não havia nada que pudesse fazer a respeito. O céu continuaria a chover não im porta quantos acessos eu tivesse. – Sinto m uito por tê-lo envolvido nisso – falei, pensando que tinha um bocado pela qual pedir desculpas.

— Sookie, eu não sei se você devia m e dizer que sente m uito. – Quinn enfatizou o pronom e. – Tudo aconteceu quando estávam os j untos.

Isso era verdade, e tentei acreditar que tudo aquilo não era m inha culpa. Mas estava convencida que, de algum m odo, realm ente era.

De repente, Quinn disse, — Qual é o seu relacionam ento com Alcide Herveaux? Nós o vim os no bar na sem ana passada com outra garota. Mas o policial, aquele em Shreveport, disse que você foi noiva dele.

— Era m entira – respondi, sentando na lam a. Ali estava eu, m ergulhada num pântano sulista na Louisiana, a chuva caindo sobre m im ...

Ei, espera um m inuto. Fitei a boca de Quinn se m exendo, percebendo que ele dizia algo, m as captando a trilha de um pensam ento fugaz. Se houvesse um a lâm pada sobre m inha cabeça, estaria piscando agora. – Jesus Cristo, Pastor da Judéia – respondi reverente. – É quem está fazendo isso.

Quinn se agachou na m inha frente. — Você descobriu quem está fazendo isto? Quantos inim igos você tem ?

— Pelo m enos eu sei quem m andou os Lobis m ordidos, e quem nos raptou – respondi, m e recusando a ser distraída. Agachado com igo sob o aguaceiro, com o a m etade de um casal das cavernas, Quinn ouviu enquanto eu falava.

Então discutim os probabilidades. E form am os um plano.