Definitivamente Morto
Capítulo 5
FIQUEI CONTENTE POR JASON ter se atrasado um pouco. O bacon ficou pronto e eu estava colocando os ham búrgueres na frigideira, quando ele chegou. Já tinha aberto o pacote de pão, coloquei dois no prato de Jason, e levei um saco de batatas fritas para a m esa. Enchi um copo de chá e o depositei no lugar onde ele sentava.
Jason entrou sem bater, com o sem pre. Ele não m udara tanto, pelo m enos aos m eus olhos, desde que se tornara um lobi-pantera. Ainda era loiro e atraente, quero dizer atraente do j eito antigo; ele tinha boa aparência, m as tam bém era o tipo de hom em para quem todos olham quando entra num a sala. Além disso, possuía um ar perigoso. Mas desde a m udança, ele com eçou a agir com o um a pessoa m elhor. Eu não m e decidi pela razão ainda. Talvez ser um anim al selvagem um a vez por m ês tenha satisfeito algum desej o que ele não sabia que tinha.
Já que foi m ordido e não nasceu assim , ele não m udava com pletam ente; tornava-se um a espécie de híbrido. No com eço, ele ficou desapontado com isso. Mas superou. Ele vinha saindo com um a pura lobipantera cham ada Cry stal há vários m eses agora. Cry stal vivia num a pequena com unidade há algum as m ilhas no interior— e deixe-m e dizer, no interior em Bon Tem ps, Louisiana, é realm ente interior.
Fizem os um a pequena prece e com eçam os a com er. Jason não com eu com sua habitual voracidade. Já que o ham búrguer parecia bom para m im , im aginei que tivesse algo im portante em m ente. Eu não conseguia ler seu cérebro. Desde que m eu irm ão se tornou um Lobi, seus pensam entos não eram claros para m im . Em grande parte, isso era um alívio.
Após duas m ordidas, Jason largou o ham búrguer e a postura de seu corpo m udou. Ele estava pronto para falar.
— Eu tenho que te contar um a coisa – disse. – Cry stal não quer que eu conte a ninguém , m as eu realm ente estou preocupado com ela. Ontem , Cry stal... ela teve um aborto.
Fechei os olhos por alguns segundos. Tive uns vinte pensam entos nesse espaço de tem po, e não consegui com pletar nenhum . — Sinto m uito – falei. – Cry stal está bem ?
Jason olhou para m im sobre o prato de com ida que esquecera por com pleto. — Ela não quer ir ao m édico.
Fitei-o sem expressão.
— Mas ela tem que ir – respondi racionalizando. – Ela precisa de um a curetagem . – Eu não tinha certeza do que era um a curetagem , m as sabia que, após um aborto, você ia para o hospital e era o que faziam lá.
Arlene, m inha am iga e colega de trabalho, fez um a curetagem depois que abortou e ela m e contou a respeito várias vezes. Várias vezes. – Eles vão...
– com ecei, m as Jason m e interrom peu no m eio.
— Ei, eu não preciso saber – disse, parecendo m uito desconfortável.
– Só sei que, j á que Cry stal é um a lobi-pantera, ela não quer ir ao hospital.
Ela teve que ir quando se cortou com um a lâm ina, assim com o Calvin teve que ir quando levou um tiro, m as am bos se curam tão rápido que houve com entários na sala dos m édicos, ela ouviu. Então agora não quer ir. Ela está em m inha casa, m as... não está m elhorando. Está ficando pior, não m elhor.
— Oh-oh – falei. – Então o que está acontecendo?
— Ela está sangrando dem ais e suas pernas não se m exem direito – Ele engoliu. – Ela m al consegue ficar de pé, m uito m enos andar.
— Você ligou para o Calvin? – perguntei. Calvin Norris, tio de Cry stal, é o líder da pequena com unidade de panteras de Hotshot.
— Ela não quer contar a Calvin. Tem m edo que ele m e m ate por engravidá-la. Tam bém não quer que eu conte a você, m as eu tenho que conseguir aj uda.
Apesar de sua m ãe não estar viva, Cry stal tinha parentes m ulheres em abundância em Hotshot. Eu nunca tive um bebê, nunca nem m esm o fiquei grávida e não era um a m etam orfa. Qualquer um a delas saberia m ais a respeito da situação do que eu. Disse isso a Jason.
— Eu não quero que ela precise ficar sentada para voltarm os a Hotshot, especialm ente na m inha cam inhonete. – Meu irm ão parecia teim oso com o um a m ula. Por um terrível m inuto, pensei que a grande preocupação de Jason era que Cry stal sangrasse em seu estofam ento. Eu estava prestes a pular em sua garganta, quando ele acrescentou: – O am ortecedor precisa ser trocado, e eu estou com m edo que as sacudidas da cam inhonete naquela estrada ruim possam fazer Cry stal piorar.
Então um a parenta dela podia vir vê-la. Mas eu soube, antes m esm o de falar, que Jason encontraria um a razão para vetar isso tam bém . Ele tinha algum tipo de plano. — Está bem . O que eu posso fazer?
— Você não m e contou, daquela vez em que tinha se m achucado, que havia um a espécie de m édica especial que os vam piros cham aram para ver suas costas?
Eu não gostava de pensar naquela noite. Minhas costas ainda tinham as cicatrizes do ataque. O veneno das garras de um a bacante quase m e m atou.
— Sim – respondi lentam ente. – Dra. Ludwig.
Médica de tudo que era m isterioso e estranho, a própria Dra. Ludwig era um a esquisitice. Ela era extrem am ente baixa— m uito, m uito baixa. E suas feições não eram exatam ente norm ais, tam pouco. Seria um a surpresa total para m im se a Dra. Ludwig fosse hum ana. Eu a vi um a segunda vez na com petição para líder de bando. Em am bas as ocasiões, eu estava em Shreveport; então havia boas chances de que a Dra. Ludwig de fato m orasse lá. Já que eu não queria deixar passar o óbvio, peguei um a lista telefônica de Shreveport num a gaveta em baixo do telefone. Havia um a Dra.
Am y Ludwig na lista. Am y ? Engoli a explosão de risos.
Eu estava bem nervosa a respeito de procurar a Dra. Ludwig por conta própria, m as quando vi o quanto Jason estava preocupado, não pude reclam ar só por causa de um m ísero telefonem a.
O telefone tocou quatro vezes. A secretária eletrônica atendeu. Um a voz m ecânica disse: — Você ligou para o núm ero da Dra. Am y Ludwig. A Dra. Ludwig não está aceitando novos pacientes, com ou sem seguro. A Dra. Ludwig não quer am ostras farm acêuticas e não precisa de seguros de qualquer espécie. Ela não está interessada em investir seu dinheiro ou fazer caridade para quem não escolheu pessoalm ente. – Houve um longo silêncio, durante a qual a m aioria dos interlocutores provavelm ente teria desligado.
Eu não o fiz. Após um m om ento, ouvi outro estalo na linha.
— Alô? – perguntou um a vozinha brusca.
— Dra. Ludwig? – perguntei cautelosam ente.
— Sim ? Eu não aceito novos pacientes, você sabe! Ocupada dem ais!
– Ela soava im paciente e cautelosa.
— Eu sou Sookie Stackhouse. Esta é a Dra. Ludwig que m e tratou no escritório de Eric no Fangtasia?
— Você é a j ovem envenenada pelas garras da bacante?
— Sim . Eu a vi novam ente há algum as sem anas atrás, lem bra-se?
— E onde foi isso? – Ela se lem brava m uito bem , m as queria outra prova de m inha identidade.
— Um edifício vazio num parque industrial.
— E quem estava com andando o show por lá?
— Um suj eito enorm e e careca cham ado Quinn.
— Oh, tudo bem – Ela suspirou. – O que você quer? Estou um bocado ocupada.
— Eu tenho um a paciente para você. Por favor, venha vê-la.
— Traga-a para m im .
— Ela está doente dem ais para viaj ar.
Ouvi a doutora m urm urar consigo m esm a, m as não consegui decifrar as palavras.
— Puff – a doutora disse. – Oh, m uito bem , Srta. Stackhouse. Digam e qual é o problem a.
Eu expliquei o m elhor que pude. Jason peram bulava pela cozinha, porque estava preocupado dem ais para ficar sentado.
— Idiotas. Tolos – disse a Dra. Ludwig. – Diga-m e com o chegar à sua casa. Então pode m e levar até onde a garota está.
— Eu posso ter que sair para trabalhar antes que você consiga chegar – falei, depois de olhar o relógio e calcular quanto tem po a doutora dem oraria a vir de Shreveport. – Meu irm ão estará aqui esperando.
— Ele é a parte responsável?
Eu não sabia se ela estava falando a respeito da conta por seus serviços ou a gravidez. De um a form a ou de outra, respondi que Jason definitivam ente era a parte responsável.
— Ela está vindo – disse ao m eu irm ão, após dar o endereço à doutora e desligar. – Eu não sei quanto ela cobra, m as respondi que você pagaria.
— Claro, claro. Com o vou saber quem é ela?
— Você não poderá confundi-la com ninguém que conheça. Disse que tem m otorista. Ela não é alta o suficiente para enxergar sobre o volante, então eu devia ter im aginado.
Lavei os pratos enquanto Jason se m ostrava inquieto. Ele ligou para Cry stal, checando, e pareceu satisfeito com o que ouviu. Finalm ente, pedi que ele saísse e destruísse velhos vespeiros no galpão. Ele parecia não conseguir se acalm ar, então era m elhor se fazer útil.
Pensei na situação enquanto cuidava da lavanderia e vestia m eu uniform e de garçonete (calças pretas, cam iseta branca com Merlotte’s bordado no peito esquerdo, Adidas preto). Eu não estava feliz. Estava preocupada com Cry stal— e não gostava dela. Sentia m uito por ela ter perdido o bebê porque sei que é um a experiência triste, m as estava contente porque realm ente não queria que Jason se casasse com a garota, e eu tinha certeza que ele teria feito isso se a gravidez tivesse continuado. Saí procurando por algo que m e fizesse sentir m elhor. Abri o arm ário para olhar o traj e novo, aquele que com prei no Tara’s Togs para usar em m eu encontro. Mas não consegui desfrutar nem m esm o disso.
Finalm ente, eu fiz o que estava planej ando antes de ouvir as notícias de Jason: peguei um livro e m e sentei na varanda da frente, lendo algum as linhas de vez em quando, adm irando a pereira no quintal que estava coberta de flores brancas e abelhas zum bindo.
O sol estava radiante, os narcisos floresciam , e eu tinha um encontro na sexta-feira. E j á tinha feito m inha boa ação do dia ao ligar para a Dra.
Ludwig. O nó de preocupação em m eu estôm ago cedeu um pouco.
De tem pos em tem pos, pude ouvir os sons vagos ecoando do quintal dos fundos; Jason encontrara algo para m antê-lo ocupado após ter lidado com os ninhos. Talvez estivesse arrancando ervas-daninhas do canteiro de flores. Me ilum inei. Aquilo seria ótim o, j á que eu não possuía o entusiasm o de m inha avó por j ardinagem . Eu adm irava os resultados, m as não gostava de todo o processo com o ela.
Após verificar m eu relógio repetidam ente, fiquei aliviada em ver o grande Cadillac pérola estacionar diante da casa. Havia um a pequena figura no banco do passageiro. A porta do m otorista se abriu e um a Lobi cham ada Am anda desem barcou. Eu e ela tivem os nossas diferenças, m as nos separam os em bons term os. Estava aliviada por ver alguém que conhecia.
Am anda, que parecia exatam ente com o um a m ãe esportista de classe-m édia, estava na casa dos trinta. O cabelo ruivo parecia natural, ao contrário do de m inha am iga Arlene.
— Sookie, oi – ela disse. – Quando a doutora m e contou para onde estávam os indo, fiquei aliviada, j á que sabia com o chegar aqui.
— Você não é a m otorista habitual? Ei, gostei do corte de cabelo, a propósito.
— Ah, obrigada. – O cabelo de Am anda estava recentem ente curto, cortado num estilo descuidado e quase j uvenil que curiosam ente com binava com ela. Eu disse curiosam ente, porque o corpo de Am anda era definitivam ente fem inino. – Ainda não m e acostum ei – adm itiu, percorrendo o pescoço com a m ão. – Na verdade é m eu filho m ais velho quem norm alm ente conduz a Dra. Ludwig, m as ele está na escola hoj e, é claro. É sua cunhada que está doente?
— A noiva de m eu irm ão – respondi, tentando não fazer um a careta.
– Cry stal. Ela é um a pantera.
Am anda pareceu quase respeitosa. Lobis frequentem ente tinham apenas desprezo por outros m etam orfos, m as algo tão form idável com o um a pantera cham aria atenção.
— Ouvi falar que havia um grupo de panteras em algum lugar por aqui. Nunca encontrei um antes.
— Eu tenho que ir trabalhar, m as m eu irm ão irá levá-las até a casa dele.
— Então você não é m uito chegada à noiva de seu irm ão?
Fiquei sobressaltada com a insinuação de que eu estava pouco preocupada com o bem -estar de Cry stal. Talvez eu devesse correr até a cabeceira da cam a dela e deixar Jason aqui para conduzir a m édica? De repente, vi m eus m om entos de paz com o um a insensível desconsideração por Cry stal. Mas agora não era hora de chafurdar em culpa.
— Sinceram ente – respondi – não, não sou tão chegada assim . Mas Jason parece achar que não há nada que eu possa fazer por ela, e m inha presença não seria exatam ente calm ante, j á que ela não gosta de m im tanto quanto eu gosto dela.
Am anda deu de om bros. — Okay , onde ele está?
Jason surgiu de um canto da casa nesse instante, para o m eu alívio.
— Ah, ótim o – disse. – Você é a m édica?
— Não – respondeu Am anda. – A doutora está no carro. Sou a m otorista de hoj e.
— Vou levá-las até lá. Estive ao telefone com Cry stal e ela não está m elhorando nem um pouco.
Senti outra onda de rem orso.
— Me ligue no trabalho, Jason, e avise sobre com o ela está indo, okay ? Posso ir depois do trabalho e passar a noite, se precisar de m im .
— Obrigado, m ana. – Ele m e deu um rápido abraço e pareceu em baraçado. – Uh, eu estou feliz por não ter m antido segredo com o Cry stal quis. Ela achou que você não a aj udaria.
— Eu gostaria de pensar que pelo m enos fui um a pessoa boa o bastante para aj udar alguém que precisava, não im porta se som os ou não chegadas. – Certam ente Cry stal não im aginou que eu ficaria indiferente ou m esm o satisfeita por ela estar doente?
Desalentada, observei os dois veículos tão diferentes descerem pela estrada a cam inho da Rodovia Hum m ingbird. Tranquei a casa e subi em m eu próprio carro num hum or não tão feliz.
Continuando com o tem a de um dia m em orável, ao entrar pela porta dos fundos do Merlotte’s naquela tarde, Sam m e cham ou em seu escritório.
Fui até lá para ver o que ele queria, sabendo de antem ão que algum as pessoas esperavam por m im .
Para o m eu desânim o, descobri que o Padre Riordan tinha m e em boscado.
Havia quatro pessoas no escritório de Sam , além do m eu chefe. Sam estava infeliz, m as tentava m anter um a postura sim pática. Um pouco para m inha surpresa, Padre Riordan não estava contente com as pessoas que o acom panhavam , tam pouco. Eu suspeitava que sabia quem eram . Merda.
Não só Padre Riordan tinha os Pelts na cola, com o havia um a m oça de cerca de dezessete anos, que devia ser a irm ã de Debbie, Sandra.
Os três recém -chegados m e olharam atentam ente. O casal Pelt era alto e esbelto. Ele usava óculos e estava ficando calvo, com orelhas que sobressaíam de sua cabeça com o asas de um j arro. Ela era atraente, apesar de um pouco exagerada. Estava vestindo um conj unto Donna Karan e carregava um a bolsa com o fam oso logotipo. Saltos altos, tam bém . Sandra Pelt era m ais casual, com os j eans e cam iseta adaptando-se firm em ente à silhueta m agra.
Eu m al ouvi Padre Riordan apresentar os Pelts form alm ente; estava tão dom inada pela irritação, por eles se introm eterem em m inha vida a tal ponto. Eu tinha dito a Padre Riordan que não queria encontrá-los, e ainda assim ali estavam . Os Pelts m ais velhos m e devoraram com seus olhos ávidos. Selvagens, Maria-Star os denom inara. Desesperados, foi a palavra que m e veio à cabeça.
Sandra era um tipo totalm ente diferente: j á que era a segunda filha, ela não era— não podia ser— um a m etam orfa com o os fam iliares, m as tam bém não era um a hum ana norm al. Algo percebido por m eu cérebro m e fez parar. Sandra Pelt era um a m etam orfa de algum tipo. Ouvi que os Pelts eram descritos com o pessoas m uito m ais envolvidas com a filha caçula do que com Debbie. Agora, recebendo pedaços de inform ação deles, eu vi por que. Sandra Pelt podia ser m enor de idade, m as era form idável. Ela era um a Lobi pura.
Mas não podia ser, a m enos que...
Okay. Debbie Pelt, lobi-raposa, fora adotada. Eu sabia que os Lobis eram propensos a problem as de fertilidade, e assum i que os Pelts tinham desistido de ter os próprios lobinhos e adotado um bebê que pelo m enos era algum tipo de m etam orfo, se não fosse de sua própria raça. Mesm o um a raposa puro-sangue deve ter sido preferível a um sim ples hum ano. Então os Pelts adotaram outra filha, um a Lobi.
— Sookie – Padre Riordan disse, a voz irlandesa charm osa, m as infeliz – Barbara e Gordon apareceram em m inha porta hoj e. Quando lhes contei que você disse tudo que queria dizer a respeito do desaparecim ento de Debbie, eles não se contentaram com isso. Insistiram para que os trouxessem até aqui.
Minha intensa raiva pelo padre dim inuiu um pouco. Mas outra em oção tom ou o lugar. Eu estava ansiosa o suficiente com o encontro para sentir o sorriso nervoso surgir em m eu rosto. Sorri para os Pelts, pegando o rescaldo da desaprovação deles.
— Sinto m uito pela situação de vocês – falei. – Sinto que tenham sido deixados se perguntando o que aconteceu a Debbie. Mas eu não sei m ais o que posso lhes dizer.
Um a lágrim a correu pelo rosto de Barbara Pelt e eu abri m inha bolsa para pegar um lenço. Entreguei-o para a m ulher, que enxugou a face.
— Ela achou que você estava roubando Alcide dela – Barbara disse.
Não se deve falar m al dos m ortos, m as no caso de Debbie Pelt isso era sim plesm ente im possível.
— Sra. Pelt, eu vou ser franca – disse. Só não franca dem ais. – Debbie estava noiva de outra pessoa na época de seu desaparecim ento, um hom em cham ado Clausen, se m e lem bro corretam ente. – Barbara Pelt concordou, relutante. – Esse noivado deixou Alcide perfeitam ente livre para sair com quem ele quisesse e nós passam os algum tem po j untos, brevem ente – Nenhum a m entira aqui. – Não tem os nos visto há sem anas e ele está saindo com alguém agora. Então Debbie realm ente se enganou ao pensar assim .
Sandra Pelt m ordeu o lábio inferior. Ela era m agra, com pele clara e cabelos castanho-escuros. Usava pouca m aquiagem , e seus dentes eram deslum brantem ente brancos e uniform es. Os brincos de argolas podiam proporcionar um poleiro para um periquito; eram grandes assim . Ela possuía corpo estreito e roupas caras: topo da cadeia da m oda. Sua expressão era zangada. Ela não gostava do que eu estava dizendo nem um pouco. Era um a adolescente e havia fortes ondas de em oção naquela garota.
Lem brei de com o foi m inha vida quando tinha a idade de Sandra, e senti pena dela.
— Já que conheceu a am bos – Barbara Pelt disse cuidadosam ente, não adm itindo m inhas palavras – você deve ter sabido que eles tinham — têm — um a forte relação de am or e ódio, não im porta o que Debbie tenha feito.
— Oh, isso é verdade – respondi, e talvez não tenha soado tão respeitosa. Se havia alguém para quem eu fiz um grande favor ao m atar Debbie Pelt, essa pessoa foi Alcide Herveaux. Do contrário, ele e la Pelt teriam se dilacerado por anos, se não pelo resto de suas vidas.
Sam virou-se quando o telefone tocou, m as vislum brei um sorriso em seu rosto.
— Nós sentim os que deve haver algo que sabe, algo bem pequeno, que nos aj udaria a descobrir o que aconteceu a nossa filha. Se— se ela encontrou o fim , querem os que seu assassino vá à j ustiça.
Olhei para os Pelts por um longo m om ento. Pude ouvir a voz de Sam ao fundo, enquanto ele reagia com alarm e a algo que estava ouvindo no telefone.
— Sr. e Sra. Pelt, Sandra – falei. – Eu conversei com a polícia quando Debbie desapareceu. Cooperei totalm ente com eles. Falei com seus detetives particulares quando eles vieram aqui, para o m eu local de trabalho, assim com o vocês fizeram . Eu os deixei entrar em m inha casa. Respondi suas perguntas. – Só não sinceram ente (eu sei, a edificação toda era um a m entira, m as eu estava fazendo o m elhor que podia). – Eu realm ente sinto m uito por sua perda e sim patizo com sua ansiedade em descobrir o que aconteceu a Debbie – continuei, falando lentam ente para poder escolher as palavras. Respirei fundo. – Mas isso tem que term inar. Já basta. Não posso dizer m ais nada além do que j á foi dito.
Para m inha surpresa, Sam passou por m im e foi para o bar, se m ovendo rápido. Ele não disse um a palavra para ninguém na sala. Padre Riordan seguiu-o com o olhar, aturdido. Fiquei ainda m ais ansiosa para que os Pelts fossem em bora. Algo estava acontecendo.
— Eu entendo o que está dizendo – Gordon Pelt disse rigidam ente.
Era a prim eira vez que o hom em falava. Ele não soava feliz por estar ali, nem por fazer o que estava fazendo. – Percebo que não lidam os com isso da m elhor form a, m as tenho certeza que nos perdoará quando pensar no que tem os passado.
— Oh, é claro – falei, e se aquilo não era totalm ente verdade, tam bém não era m entira, tam pouco. Fechei a bolsa e guardei-a na gaveta da escrivaninha de Sam onde todas as funcionárias m antinham as bolsas, apressando-m e para o bar.
Senti a perturbação m e inundar. Algo estava errado; quase todos os cérebros no bar transm itiam um sinal com binado de agitação com ansiedade beirando ao pânico.
— O que foi? – perguntei a Sam , aproxim ando-m e por trás do balcão.
— Acabei de dizer a Holly que a escola ligou. O garotinho de Holly desapareceu.
Senti o arrepio surgir na base da m inha espinha e subir. — O que aconteceu?
— A m ãe de Danielle norm alm ente pega Cody na escola quando vai buscar a filhinha de Danielle, Ashley .
Danielle Gray e Holly Cleary foram m elhores am igas durante todo o colegial e a am izade continuou apesar do fracasso de seus casam entos. Elas gostavam de trabalhar no m esm o turno. A m ãe de Danielle, Mary Jane Jasper, vinha sendo um a m ão na roda para Danielle, e de vez em quando sua generosidade se estendia para incluir Holly. Ashley devia ter uns oito anos, e o filho de Danielle, Mark Robert, devia ter quatro agora. O filho único de Holly, Cody , tinha seis. Ele estava na prim eira série.
— A escola deixou alguém pegar Cody ? – Ouvi falar que os professores ficavam alertas, sobre cônj uges desautorizados buscando seus filhos.
— Ninguém sabe o que aconteceu com o garoto. A professora encarregada, Halleigh Robinson, estava parada do lado de fora observando as crianças entrarem nos carros. Ela diz que Cody de repente se lem brou que deixou um desenho para a m ãe na carteira e voltou correndo à escola para pegar. Ela não lem bra de tê-lo visto saindo, m as não conseguiu encontrá-lo quando foi verificar.
— Então a Sra. Jasper estava lá esperando por Cody ?
— Sim , ela foi a única que sobrou, sentada no carro com os netos.
— Isso é bem assustador. Im agino que David não saiba de nada? – David, o ex de Holly , m orava em Springhill e tinha voltado a se casar.
Registrei a partida dos Pelts; um a irritação a m enos.
— Aparentem ente não. Holly ligou para ele no trabalho, e ele estava lá e ficou a tarde toda, não há dúvida quanto a isso. Ele ligou para a nova esposa, e ela tinha acabado de voltar depois de buscar os próprios filhos na escola de Springhill. A polícia local foi até a casa deles para fazer um a busca, só para ter certeza. Agora David está vindo para cá.
Holly estava sentada em um a das m esas e, apesar do rosto estar seco, seus olhos tinham a expressão de alguém que viu o Inferno. Danielle encontrava-se agachada no chão ao lado dela, segurando-lhe a m ão e conversando com Holly urgente e calm am ente. Alcee Beck, um dos detetives locais, estava sentado na m esm a m esa. Havia um bloco de notas e caneta na frente dele, e ele falava ao celular.
— Eles fizeram um a busca na escola?
— Sim , Andy está lá agora. E Kevin e Keny a. – Kevin e Keny a eram dois patrulheiros uniform izados. – Bud Dearborn está ao telefone arranj ando um alerta verm elho.
Pensei em com o Halleigh devia estar se sentindo agora; ela só tinha vinte e três anos, e este era seu prim eiro em prego com o professora. Ela não fizera nada de errado, ao m enos isso eu podia dizer— m as quando um a criança desaparecia, ninguém escapava da culpa.
Tentei pensar em com o poderia aj udar. Essa era um a oportunidade única para m inha pequena anom alia trabalhar pelo bem m aior. Mantive a boca fechada durante anos sobre esse tipo de coisa. As pessoas não queriam estar perto de alguém que podia fazer o que eu fazia.
Eu sobrevivi m antendo a boca fechada, porque era fácil para os hum anos ao m eu redor esquecerem ou não acreditarem quando a evidência de m eu estranho talento não era esfregada em seus rostos.
Você ia querer estar perto de um a m ulher que sabe que você está enganando seu cônj uge e com quem ? Se você fosse um cara, ia querer estar perto de um a m ulher que sabe que você quer secretam ente usar roupa de baixo rendada? Você ia querer andar com um a garota que sabe seus m ais secretos j ulgam entos sobre outras pessoas e todos os seus defeitos ocultos?
Não, eu acho que não.
Mas se um a criança está envolvida, com o pode se conter? Olhei para Sam , e ele retribuiu, triste.
— É difícil, não é, cher? – disse. – O que vai fazer?
— O que eu tiver que fazer. Mas tenho que fazer agora – respondi.
Ele assentiu. — Vá para a escola – ele disse, e eu saí.