Definitivamente Morto

Charlaine Harris · Capítulo 5 de 25

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Definitivamente Morto

Capítulo 4

DISQUEI O NÚMERO do telefone celular de m eu irm ão, quando levantei na m anhã seguinte. Não tive um a noite m uito boa, m as pelo m enos consegui dorm ir um pouco. Jason atendeu no segundo toque. Ele soou um pouco preocupado quando disse, — Alô?

— Oi, m ano. Com o vai?

— Escute, eu preciso falar com você. Não posso agora. Estarei aí, provavelm ente dentro de algum as horas. – Ele desligou sem se despedir e soava bem preocupado a respeito de algum a coisa. Ótim o. Eu precisava de outra com plicação.

Dei um a olhada no relógio. Algum as horas seria tem po suficiente para m e arrum ar e ir até a cidade fazer com pras. Jason chegaria perto do m eio-dia e, se eu o conhecia, estaria esperando alm oço. Am arrei o cabelo num rabo de cavalo, dando duas voltas no elástico e fazendo um a espécie de topete. Eu possuía um ventilador antigo girando sobre a cabeça. Em bora tentasse não adm itir para m im m esm a, eu achava esse estilo de cabelo bufante divertido e m eio que bonitinho.

Era um a daquelas m anhãs frescas de m arço, do tipo que prom etia um a tarde m orna. O céu se m ostrava tão brilhante e ensolarado que m eu ânim o se elevou, e eu dirigi até Bon Tem ps com o vidro aberto, cantarolando a plenos pulm ões com o rádio. Eu cantaria até com Weird Al Yankovic nessa m anhã.

Passei pelas florestas, por um a casa ocasional e um pasto cheio de vacas (e um par de búfalos; nunca se sabe o que as pessoas criam ). O radialista tocou “Blue Hawaii”, um clássico dos anos 50, e eu im aginei onde Bubba estaria— não m eu próprio irm ão, m as o vam piro agora conhecido apenas com o Bubba. Eu não o via há três ou quatro sem anas.

Talvez os vam piros da Louisiana o tivessem m andado para outro esconderij o, ou talvez estivesse apenas peram bulando, com o fazia de vez em quando. Era quando se via longos artigos naqueles j ornais que colocavam nos balcões dos superm ercados.

Apesar de estar curtindo um instante de felicidade, alegria e contentam ento, eu tive um a daqueles pensam entos extraviados que se tem em m om entos estranhos. Pensei, com o seria bom se Eric estivesse aqui com igo no carro. Ele pareceria ótim o com o vento soprando nos cabelos, e desfrutaria do m om ento. Bom , claro, isso antes de virar um a torrada.

Mas percebi que pensei em Eric porque era o tipo de dia que você gostaria de com partilhar com alguém com quem se im porta, a pessoa cuj a com panhia você m ais gosta. E este seria Eric, enquanto esteve enfeitiçado por um a bruxa: o Eric que não foi endurecido por séculos de política vam pírica, o Eric que não desprezava os hum anos e seus assuntos, o Eric que não estava encarregado de tantos negócios financeiros e era o responsável pelas vidas e lucros de vários hum anos e vam piros. Em outras palavras, Eric com o nunca seria novam ente.

Ding-dong, a bruxa estava m orta, e Eric teve sua personalidade restabelecida com o era agora. O Eric restabelecido era cauteloso, gostava e ao m esm o tem po não confiava em m im (ou em seus sentim entos) nem um pouco.

Suspirei pesadam ente e a canção m orreu em m eus lábios. Havia quase se apagado em m eu coração até que falei a m im m esm a para parar de agir com o um a idiota m elancólica. Eu era j ovem , saudável. O dia estava lindo. E eu tinha um encontro de verdade na sexta à noite. Prom eti a m im m esm a um grande presente. Ao invés de ir direto para o m ercado, fui ao Tara’s Togs, que tinha com o dona e adm inistradora m inha am iga Tara Thornton.

Fazia algum tem po que eu não via Tara. Ela tirara férias para visitar um a tia no sul do Texas e, desde que voltou, esteve trabalhando longas horas na loj a. Pelo m enos foi o que ela disse quando telefonei para agradecê-la pelo carro. Quando m inha cozinha foi incendiada, m eu carro queim ou j unto e Tara m e em prestou seu antigo carro, um velho Malibu de dois anos. Ela adquirira um carro novinho (não im porta com o) e não se im portara de vender o Malibu.

Para o m eu espanto, há cerca de um m ês atrás, Tara m e enviou os docum entos e a nota de com pra com um a carta dizendo que o carro agora era m eu. Eu liguei para protestar, m as ela m e botou contra a parede e, no fim , parecia não haver nada a fazer, exceto aceitar o presente graciosam ente.

Ela m e deu o carro com o pagam ento, quando a livrei de um a situação terrível. Mas para aj udá-la, eu fiquei em dívida com Eric. Não m e im portei. Tara vinha sendo m inha am iga a vida toda. Agora ela estava segura, se fosse esperta o bastante para ficar longe do m undo sobrenatural.

Apesar de m e sentir grata e aliviada por ter o carro m ais novo que j á possuí, eu ficaria m ais feliz ainda se tivesse de volta a am izade interrom pida. Eu tinha m e afastado, achando que a recordava de m uitas coisas ruins. Mas estava disposta a tentar ultrapassar essa barreira. Talvez Tara j á tenha tido tem po suficiente.

O Tara’s Togs ficava num centro com ercial ao sul de Bon Tem ps.

Havia outro carro estacionado em frente à loj a. Decidi que poderia ser bom ter um terceiro grupo ali; iria despersonalizar o encontro.

Tara estava atendendo Portia, a irm ã de Andy Bellefleur, quando entrei, então com ecei a vasculhar os cabides com m anequim dez, e depois os de m anequim oito. Portia estava sentada à m esa Isabelle, o que era extrem am ente interessante. Tara é a representante local da Isabelle’s Noivas, um a em presa nacional que produz catálogos que se tornaram a bíblia de todas as coisas relacionadas a casam ento. Você pode experim entar m odelos de vestidos de dam as de honra no posto de venda local, para que possa pedir o tam anho certo, e cada m odelo possui um as vinte cores. Os vestidos de casam ento são tão populares quanto. O Isabelle’s tinha vinte e cinco m odelos. A em presa tam bém oferecia convites de chá de panela, enfeites, ligas, lem brancinhas e qualquer tipo de parafernália que puder im aginar. Contudo, o Isabelle’s era um fenôm eno bem classe-m édia, e Portia definitivam ente era um a m ulher da classe alta.

Já que ela vivia com a avó e o irm ão na m ansão Bellefleur em Magnolia Street, Portia cresceu num a espécie de esplendor gótico decadente. Agora que a m ansão estava restaurada e a avó recebia m ais visitas, Portia parecia notavelm ente m ais feliz quando eu a via na cidade.

Ela não vinha tanto ao Merlotte’s, m as passava m ais tem po com as outras pessoas quando estava no bar, e sorria ocasionalm ente. Um a m ulher sim ples com pouco m ais de trinta anos, o grande atrativo de Portia eram os cabelos castanhos fartos e brilhantes.

Portia estava pensando casam ento, e Tara pensava dinheiro.

— Eu tenho que conversar com Halleigh de novo, m as acho que vam os precisar de quatrocentos convites – Portia dizia, e achei que m eu queixo ia cair.

— Tudo bem , Portia, se você não se im portar em pagar a taxa extra pela pressa, podem os consegui-las em dez dias.

— Ah, que bom ! – Portia estava definitivam ente satisfeita. – É claro, Halleigh e eu usarem os vestidos diferentes, m as pensam os em tentar escolher o m esm o vestido para as dam as de honra. Talvez em cores diferentes. O que você acha?

Eu achei que ia sufocar com m inha própria curiosidade. Portia ia se casar tam bém ? Com aquele contador m agrelo que estava nam orando, o cara de Clarice? Tara percebeu um relance de m eu rosto j unto à estante de vestidos. Portia olhava o catálogo, então Tara piscou para m im . Ela estava definitivam ente satisfeita por ter um a cliente rica, e nós estávam os definitivam ente bem um a com a outra. O alívio m e inundou.

— Acho que o m esm o estilo em cores diferentes— cores coordenadas, é claro— seria realm ente original – disse Tara. – Quantas dam as de honra vocês terão?

— Cinco cada um a – Portia disse com a atenção na página à sua frente. – Posso levar um a cópia do catálogo para casa? Assim , Halleigh e eu podem os olhar esta noite.

— Eu só tenho um a cópia extra; sabe, um a das m aneiras da Isabelle’s fazer dinheiro é cobrar um braço e um a perna pelo bendito catálogo – Tara disse com um sorriso charm oso. Tara pode ser charm osa quando precisa. – Vou deixar que leve para casa se você m e prom eter, de coração, que trará de volta am anhã!

Portia fez um gesto infantil e enfiou o grosso catálogo debaixo do braço. Ela estava usando um de seus “conj untos de advogada”, saia e casaco de tweed m arrom e um a blusa de seda por baixo. Vestia m eia-calça bege e sapatos de salto baixo, e carregava um a bolsa com binando. Cha-to.

Portia estava anim ada e seu cérebro voava com im agens felizes. Ela sabia que pareceria um pouco velha com o noiva, especialm ente se com parada a Halleigh; m as por Deus, ela finalm ente seria um a noiva.

Portia teria sua chance de diversão, presentes, atenção e roupas, isso sem falar a confirm ação de ter o próprio m arido. Ela levantou os olhos do catálogo e m e viu espiando entre os cabides. Sua felicidade era profunda o suficiente para abranger até a m im .

— Oi, Sookie! – disse ela, praticam ente radiante. – Andy m e contou que grande aj uda você deu, arranj ando a pequena surpresa para Halleigh.

Eu realm ente agradeço.

— Foi divertido – falei, com m inha própria versão de sorriso gracioso. – É verdade que as felicitações são m erecidas para você tam bém ?

– Eu sei, você não deve parabenizar a noiva, só o noivo, m as não acho que Portia se im portaria.

Com certeza, ela não se im portou.

— Bom , eu vou m e casar – confessou. – E decidim os ter um a dupla cerim ônia, com Andy e Halleigh. A recepção será em nossa casa.

Claro. Para que ter um a m ansão, se não pode ter a recepção lá?

— Terá um bocado de trabalho, organizar um casam ento em — quando? – indaguei, tentando parecer solidária e interessada.

— Abril. Nem m e diga – disse Portia, rindo. – Vovó j á está m eiodoida.

Ela ligou para todos os bufês que conhece, tentando agendar alguém para o segundo fim de sem ana, e finalm ente conseguiu a Eventos [Extrem am ente] Elegantes porque eles tiveram um cancelam ento. Além disso, o cara que dirige a Floresta Esculpida, em Shreveport, virá vê-la esta tarde.

Floresta Esculpida era o prem iado centro de paisagism o e reflorestam ento da área, isso se você acreditasse em seus anúncios onipresentes. Contratar a Floresta Esculpida e a Eventos [Extrem am ente]

Elegantes significava que este casam ento duplo seria o evento social do ano em Bon Tem ps.

— Estam os pensando num casam ento ao ar livre na casa, com tendas no j ardim – Portia disse. – No caso de chuva, terem os que m udar para a igrej a e ter a recepção no prédio com unitário de Renard Parish. Mas vam os m anter os dedos cruzados.

— Parece m aravilhoso – Eu realm ente não conseguia pensar em nada m ais para dizer. – Com o vai conseguir se m anter trabalhando, com todo esse negócio de casam ento acontecendo?

— Eu dou um j eito.

Im aginei qual era a pressa. Por que os felizes casais não esperavam até o verão, quando Halleigh não estaria trabalhando? Por que não esperar para que Portia pudesse lim par a agenda para um casam ento apropriado e lua de m el? E o hom em com quem ela estava se casando, não era um contador? Certam ente um casam ento durante a época do im posto de renda era o pior m om ento possível...

Talvez Portia estivesse grávida. Mas se ela era do tipo fam ília, não estava pensando a respeito, e eu dificilm ente acharia que seria diferente.

Céus, se eu algum dia descobrisse estar grávida, ficaria tão feliz! Isso se o suj eito m e am asse e se casasse com igo, claro— porque eu não era durona o bastante para criar sozinha um filho, e m inha avó estaria rolando no túm ulo se eu fosse m ãe solteira. Pensam ento m oderno nessa questão atravessou m inha avó com pletam ente, sem nem m esm o despentear seus cabelos na passagem .

Enquanto todos esses pensam entos zum biam em m inha cabeça, levei um m inuto para processar as palavras de Portia.

— Então tente m anter o segundo sábado de Abril livre – ela disse com algo próxim o a um sorriso charm oso que só Portia Bellefleur conseguia dar.

Prom eti que o faria, tentando não tropeçar em m inha própria língua com o espanto. Ela devia estar m esm o doente de febre de casam ento. Por que a m inha presença seria desej ada no casam ento? Eu não era tão am iga de nenhum dos Bellefleur.

— Pedim os a Sam para cuidar do bar na recepção – ela continuou, e m eu m undo se alinhou num padrão m ais fam iliar. Ela m e queria lá para aj udar Sam .

— Um casam ento à tarde? – perguntei. Às vezes Sam fazia alguns serviços extras de bar, m as sábado norm alm ente era o dia m ais atarefado no Merlotte’s.

— Não, noite – ela disse – m as j á conversei com Sam esta m anhã, e ele concordou.

— Okay – respondi.

Ela entendeu algo m ais em m eu tom de voz, e ruborizou.

— Glen tem alguns clientes que quer convidar – disse, apesar de eu não ter pedido explicações. – Eles só podem vir à noite. – Glen Vick era o contador. Fiquei contente por lem brar do sobrenom e. Então tudo se encaixou e com preendi o em baraço de Portia. Ela quis dizer que os clientes de Glen eram vam piros. Ora, ora, ora. Sorri.

— Tenho certeza de que será um casam ento adorável, e estarei ansiosa para ir – respondi. – Já que você foi tão gentil em m e convidar. – Eu interpretei m al deliberadam ente e, com o previ, ela ruborizou ainda m ais.

Então um a ideia relacionada m e ocorreu, um a tão im portante que ignorei as regras pessoais.

— Portia, – falei devagar, querendo ter certeza que ela ia m e entender – você devia convidar Bill Com pton.

Agora Portia detestava Bill— não gostava de nenhum vam piro— m as quando esteve tentando resolver um de seus problem as, saiu com ele por um breve período. O que foi esquisito, porque logo depois Bill descobriu que Portia na verdade era sua tatara-tatara-tatara-tatara-neta ou algo assim .

Bill a acom panhou em seu pretenso interesse por ele. Na época, queria descobrir qual era o obj etivo dela. Ele percebeu que Portia tinha arrepios perto dele. Mas quando descobriu que os Bellefleurs eram seus únicos parentes sobreviventes, ele anonim am ente lhes deu um a estonteante som a em dinheiro.

Pude “ouvir” que Portia achava que eu estava propositadam ente a recordando das poucas vezes em que saiu com Bill. Ela não queria ser lem brada do fato e estava zangada por eu ter feito isso.

— Por que está sugerindo isso? – ela perguntou friam ente, e eu lhe dei algum crédito por sim plesm ente não ter saído da loj a. Tara se m ostrava ocupada j unto à m esa Isabelle, m as eu sabia que ela podia ouvir nossa conversa. Nada de errado nisso.

Eu estava tendo um feroz debate interno. Finalm ente, o que Bill queria prevaleceu sobre o que eu queria para ele.

— Por nada – respondi relutante. – Seu casam ento, sua lista.

Portia m e olhava com o se estivesse realm ente m e enxergando pela prim eira vez. — Você ainda está saindo com ele? – perguntou.

— Não, ele está saindo com Selah Pum phrey – falei, m antendo a voz calm a e vazia.

Portia m e lançou um olhar ilegível. Sem outra palavra, ela foi em bora.— O que foi tudo isso? – Tara perguntou.

Eu não podia explicar, então m udei o tópico para algo m ais próxim o ao coração varej ista de Tara.

— Estou encantada por você estar faturando nos negócios – falei.

— Então som os duas. Se não estivesse fazendo tudo com tanta pressa, pode apostar que Portia Bellefleur j am ais aceitaria algo do Isabelle’s – disse Tara, franca. – Ela iria dirigindo até Shreveport um m ilhão de vezes para tratar disso, se tivesse tem po. Halleigh só está acom panhando o despertar de Portia, pobrezinha. Ela virá esta tarde e eu vou lhe m ostrar as m esm as coisas que m ostrei à Portia, e ela terá que aceitar. Mas tudo bem por m im . Elas estão pegando o pacote com pleto, porque o sistem a Isabelle pode entregar tudo a tem po. Convites, cartões de agradecim ento, vestidos, ligas, lem brancinhas, até os vestidos das “m ães das noivas”— Miss Caroline e a m ãe de Halleigh vão com prar um — estão pegando tudo daqui, sej a do m eu estoque ou do catálogo Isabelle’s. – Ela m e olhou de alto a baixo. – A propósito, o que a traz aqui?

— Preciso de um a roupa para usar no teatro em Shreveport num encontro – respondi. – E tenho que ir ao m ercado, voltar para casa e fazer o alm oço de Jason. Então, você tem algo para m e m ostrar?

O sorriso de Tara tornou-se predatório.

— Oh – disse – só um as coisinhas.