Desejo Proibido

Sophie Jackson · Capítulo 1 de 1 · parte 1/17

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Desejo Proibido

Prólogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.

O Arqueiro

GERALDO JORDÃO PEREIRA (1938-2008) com eçou sua carreira aos 17 anos, quando foi trabalhar com seu pai, o célebre editor José Oly m pio, publicando obras m arcantes com o O menino do dedo verde, de Maurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin.

Em 1976, fundou a Editora Salam andra com o propósito de form ar um a nova geração de leitores e acabou criando um dos catálogos infantis m ais prem iados do Brasil. Em 1992, fugindo de sua linha editorial, lançou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livro que deu origem à Editora Sextante.

Fã de histórias de suspense, Geraldo descobriu O Código Da Vinci antes m esm o de ele ser lançado nos Estados Unidos. A aposta em ficção, que não era o foco da Sextante, foi certeira: o título se transform ou em um dos m aiores fenôm enos editoriais de todos os tem pos.

Mas não foi só aos livros que se dedicou. Com seu desej o de aj udar o próxim o, Geraldo desenvolveu diversos proj etos sociais que se tornaram sua grande paixão.

Com a m issão de publicar histórias em polgantes, tornar os livros cada vez m ais acessíveis e despertar o am or pela leitura, a Editora Arqueiro é um a hom enagem a esta figura extraordinária, capaz de enxergar m ais além , m irar nas coisas verdadeiram ente im portantes e não perder o idealism o e a esperança diante dos desafios e contratem pos da vida.

Título original: A Pound of Flesh

Copy right © 2015 por Sophie Jackson

Copy right da tradução © por Editora Arqueiro Ltda.

Publicado originalm ente por Gallery Books, selo da Sim on & Schuster, Inc.

Todos os direitos reservados. Nenhum a parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer m eios existentes sem autorização por escrito dos editores.

tradução: Thalita Uba

preparo de originais: Magda Tebet

revisão: Herm ínia Totti e Raphani Margiotta

projeto gráfico e diagramação: Valéria Teixeira capa: isitdesign

imagem de capa: Tom Merton/ Getty Im ages

adaptação de capa: Ana Paula Daudt Brandão

adaptação para ebook: Marcelo Morais

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

J15d

Jackson, Sophie

Desej o proibido [recurso eletrônico] / Sophie Jackson [tradução de Thalita Uba]; São Paulo: Arqueiro, 2015.

recurso digital (Desej o proibido; 1)

Tradução de: Pound of flesh

Form ato: ePub

Requisitos do sistem a: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-85-8041-451-6 (recurso eletrônico)

1. Ficção inglesa. 2. Livros eletrônicos. I. Uba, Thalita. II. Título. III. Série.

CDD: 823

15-24720

CDU: 821.111-3

Todos os direitos reservados, no Brasil, por

Editora Arqueiro Ltda.

Rua Funchal, 538 – conj untos 52 e 54 – Vila Olím pia

04551-060 – São Paulo – SP

Tel.: (11) 3868-4492 – Fax: (11) 3862-5818

E-m ail: atendim ento@editoraarqueiro.com .br

www.editoraarqueiro.com .br

Para m am ãe, m inha heroína.

Estou em dívida eterna com você.

PRÓLOG O

“A libra de carne que ora exij o

foi com prada m uito caro; pertence a m im , e hei de tê-la.”

O mercador de Veneza, ato 4, cena 1

O som apressado dos pés deles na calçada correspondia às batidas frenéticas do coração dela, e o m odo com o o pai segurava apertado sua m ão era quase doloroso. Suas pernas curtas, de um a m enina de 9 anos, tinham dificuldade em acom panhar os passos dele, fazendo-a tropeçar e quase correr para m anter o ritm o. O m axilar dele estava contraído com o ela nunca vira e seus olhos, em geral tão radiantes e despreocupados, se encontravam tão escuros e raivosos quanto o céu acim a deles. Ela sentiu vontade de chorar.

Um barulho atrás deles a fez se virar. De um beco saíram cinco hom ens encapuzados que, apesar de m anterem a cabeça abaixada, acom panhavam as passadas velozes de seu pai, perseguindo-os com o anim ais selvagens.

O pai talvez tenha dito palavras reconfortantes para aliviar o pânico que arrepiava seu pescoço, m as o m edo logo se j ustificou quando am bos foram cercados e algo duro atingiu e derrubou seu pai, levando-a j unto com ele. Desorientada, com os j oelhos ardendo por terem raspado no concreto da calçada, ela olhou para cim a e gritou quando um bastão de beisebol atingiu as costas do pai duas vezes, com um som assustador.

Ela não viu de onde veio a m ão que bateu com força em seu rosto, fazendo-a rolar em direção à rua e ficar totalm ente atordoada enquanto ouvia o berro furioso do pai ressoar em seus ouvidos. Ele se pôs de pé, cam baleante, e se atirou sobre os agressores. Ela observou horrorizada a chuva de socos, pontapés e pauladas que ele levou em retaliação.

Em m eio às agressões que sofria e aos berros para que entregasse a carteira, o pai gritou que ela corresse. Im plorou que se afastasse, m as ela ficou ali, congelada. Com o ele podia pedir que ela fosse em bora? Tinha que aj udá-lo, salvá-lo! Lágrim as escorriam por seu rosto e um choro descontrolado explodiu de sua garganta.

Ele gem eu em agonia quando outro punho acertou sua cabeça e seus j oelhos se dobraram , atingindo o chão enquanto ela cam inhava na direção dele. E, antes que o alcançasse, seu braço foi inesperadam ente puxado na direção oposta. Ela choram ingou aliviada, esperando ver um policial ou algum segurança do pai – m as era alguém não m uito m aior que ela, usando um capuz preto e suj o.

Quando ele com eçou a arrastá-la para longe dali, ela se debateu e gritou para que a soltasse. Será que ele não percebia que o pai precisava dela, que com certeza iria m orrer sem sua aj uda? Mas o estranho continuou em frente, puxando-a rua abaixo até a porta de um edifício abandonado, a duas quadras de onde o som pavoroso de um tiro tom ou conta do ar.

Ela gritou pelo pai e, livrando-se da m ão de seu salvador com um em purrão forte, saiu correndo em direção ao local do ataque. Não tinha ido m uito longe quando foi dom inada por m ãos fortes que a im obilizaram no chão. Ela continuou berrando, lutando com todas as forças que tinha, m as logo seu corpo ficou exausto e seus lam entos e gritos se tornaram soluços desolados, m urm urados no chão frio sob sua testa.

O peso em cim a dela desapareceu e duas m ãos a levantaram , reconduzindo-a ao edifício abandonado. Ela se apoiou em quem a salvara e chorou de dor em seu capuz suj o. Precisava retornar para seu pai. Precisava ver que ele estava bem . Ele tinha que estar bem . Um braço em torno de seu om bro e um a m ão gelada em sua bochecha a abalaram , e ela m urchou ainda m ais nos braços de seu salvador desconhecido.

Ela deve ter perm anecido daquele j eito por horas; talvez tenha até pegado no sono. A próxim a coisa de que tinha consciência era de ser carregada por um hom em barbudo em direção a um a am bulância. Ela abriu os olhos inchados pelo choro e viu policiais e param édicos rodeados por um m ar de luzes verm elhas e azuis piscantes.

Suas expressões, que a assom brariam pelo resto da vida, lhe diziam inequivocam ente que o pai não a colocaria para dorm ir naquela noite.

Nem em nenhum a outra.

1

Wesley Jam es Carter, detento da penitenciária Arthur Kill e verdadeiro bad boy, sorriu ironicam ente para o guarda que ao longo dos últim os dez m inutos lhe perguntava qual era o seu núm ero de interno.

Dizer que o com portam ento insolente e a expressão divertida de Carter deixavam o hom em gordo e careca agitado seria eufem ism o. O cara estava quase espum ando pela boca.

Era sexta-feira e j á fazia cinco m inutos que o guarda havia batido o ponto de saída.

Mais um m otivo para Carter ser um babaca folgado.

O guarda passou a m ão im paciente pela nuca roliça e seus olhos cansados se estreitaram .

– Escute aqui – disse ele em um tom baixo e am eaçador, que sem dúvida funcionava com o um a faca na garganta dos outros detentos. – É m uito sim ples. Você m e dá o seu núm ero. Eu coloco neste form ulário que tenho que preencher para o seu conselheiro aqui na penitenciária e aí posso ir para casa.

Carter ergueu um a sobrancelha, desafiadora, e ficou olhando para aquele panaca atarracado.

Sem se am edrontar, o guarda se recostou na cadeira giratória.

– Você não m e dá o seu núm ero e m inha m ulher fica furiosa. Ela fica furiosa e eu vou ter que explicar que um delinquentezinho m etido m e fez ficar esperando. Aí ela vai ficar m ais furiosa ainda, berrando que o dinheiro dos nossos im postos é que garante três refeições diárias e m acacões para perdedores com o você. – Ele se sentou m ais para a frente. – Então, últim a vez. Núm ero.

Carter olhou com indiferença para o punho do guarda segurando o cassetete acoplado ao cinto e deu um suspiro longo e entediado. Qualquer outro dia, ele estaria pronto para fazer aquele idiota perder a cabeça; ele seria espancado com um sorriso no rosto. Mas, hoj e, ele não estava no clim a.

– 081056 – respondeu Carter friam ente, incapaz de resistir a um a piscadela.

Com um a carranca raivosa, o guarda anotou o núm ero no form ulário, aí rodou a cadeira até um a assistente adm inistrativa j ovem e loura e lhe entregou o papel. Aquele gordo arrogante era preguiçoso dem ais para levantar e dar seis passos.

Carter esperou enquanto a loura digitava o núm ero que praticam ente tinha se tornado seu nom e adotivo nos últim os dezenove m eses. Ele sabia quais acusações apareceriam no m onitor: arrom bam ento de carro, porte de arm a, posse de drogas, conduta desordeira e em briaguez, só para citar algum as. Ao contrário do que pensavam , ele não se orgulhava da lista de crim es e delitos que podia encher duas telas inteiras. Mesm o assim , aquilo dava a ele um senso de identidade, algo que ele procurara desinteressadam ente por quase todos os seus 27 anos de vida. Ele ainda estava à procura e, até que encontrasse aquela coisa, a lista era tudo o que ele tinha.

Tanto faz.

Ele esfregou a m ão nos cabelos raspados. Estava cansado de pensar naquilo.

O barulho do papel sendo rasgado num a antiga im pressora o trouxe de volta à Terra.

– Bom , Sr. Carter. – O guarda suspirou. – Parece que sua estadia conosco vai se estender por m ais dezessete m eses. Por ser pego com cocaína.

– Não era m inha – disse ele secam ente.

O guarda o fitou com um a expressão nada sincera de com paixão antes de sorrir.

– Que peninha.

Carter não respondeu, ciente de que, dali a poucas sem anas, entraria com o pedido de liberdade condicional, e pegou logo o form ulário.

Ladeado por outro guarda de cara fechada, Carter passou pela m esa e atravessou um corredor longo e estreito em direção a um a porta branca, que ele abriu com um tapa barulhento. O recinto era claustrofóbico e árido e fedia a confissões. Apesar das m uitas horas que ele tinha passado naquele lugar desolador, ainda sentia o pulso acelerar e as m ãos suarem .

Com as costas eretas e os om bros firm es, ele andou em direção à m esa de m adeira barata onde um hom em grande com o um gorila sorria enquanto Carter se aproxim ava.

– Wes – Jack Parker, seu conselheiro, o cum prim entou. – Que bom ver você. Por favor, sente.

Carter enfiou as m ãos nos bolsos do m acacão e desabou desaj eitadam ente na cadeira. Jack era a única pessoa que o cham ava pelo prim eiro nom e. Todos os outros o cham avam de Carter. Jack tinha insistido naquilo, explicando que era a única m aneira de eles dois conseguirem construir um relacionam ento de confiança.

Carter tinha explicado que aquilo era um m onte de m erda.

– Tem cigarro?

Carter olhou com desdém para o guarda parado na porta do outro lado do recinto.

– Claro.

Jack j ogou um a carteira de Cam el e um a caixa de fósforos na m esa.

Os dedos longos e pálidos de Carter lutaram contra a em balagem . Fazia dois dias desde seu últim o cigarro. Ele estava desesperado. Dois fósforos quebrados e um a série de palavrões depois, ele finalm ente inalou a fum aça densa e inebriante. Fechou os olhos, prendeu a respiração e, por um a fração de segundo, tudo estava certo no m undo.

– Melhor? – perguntou Jack com um sorriso sagaz.

Soprando a fum aça por cim a da m esa, Carter confirm ou com a cabeça.

E ficou im pressionado ao ver que Jack resistiu ao desej o de abanar a fum aça para longe. Am bos sabiam que, se fizesse aquilo, encoraj aria Carter a fazer de novo; ele se apegava a qualquer sinal de fraqueza ou irritação com a tenacidade de um terrier.

Era um m ecanism o de defesa, aparentem ente.

Eles haviam discutido isso em um a de suas prim eiras sessões. O m ecanism o era tão bem executado que Carter parecia forte, dom inante e – a m aioria dos funcionários e detentos da Arthur Kill haveria de concordar – intim idador pra caram ba.

Jack pegou um arquivo de quase 20 centím etros de espessura em sua m aleta e abriu, folheando os inúm eros relatórios, declarações da j ustiça e depoim entos que, ao longo dos anos, descreviam Carter com o um a “am eaça à sociedade”, de “personalidade forte” e um “indivíduo inteligente que não possuía a autoconfiança para reafirm ar e canalizar isso de m aneira correta”.

Mais um a vez, tanto fazia.

Carter estava cansado de ouvir quanto potencial tinha. Sim , ele era inteligente e m uito leal às pessoas de quem gostava, m as, até onde podia se lem brar, sim plesm ente parecia não conseguir encontrar o cam inho certo. Durante toda a vida, ele tinha estado à deriva, nunca se sentindo bem -vindo ou confortável em um lugar por m uito tem po, lidando com sua m erda de fam ília e am igos que não conseguiam ficar longe de encrenca por m ais que cinco m inutos.

Ao m enos na prisão, a porra toda era sim ples. Problem as da vida real eram com o m itos urbanos contados por aqueles que vinham fazer visitas de vez em quando. Não que Carter recebesse m uitas visitas.

Jack foi até a últim a página do arquivo e escreveu a data no topo da folha em branco, então apertou o botão do pequeno gravador digital que estava entre eles e com eçou a gravar.

– Sessão 64, Wesley Carter, detento núm ero 081056 – disse Jack com voz m onótona. – Com o você está hoj e?

– De boa – respondeu Carter, apagando o cigarro enquanto acendia outro.

– Ótim o. – Jack fez um a anotação curta no papel à sua frente. – Então, ontem eu com pareci a um a reunião relativa à sua participação em alguns cursos aqui na penitenciária.

Carter revirou os olhos. Jack ignorou.

– Sei que você tem opiniões form adas sobre esse assunto, m as é im portante que faça atividades que sirvam com o um desafio para você enquanto estiver aqui.

Carter j ogou a cabeça para trás e franziu a testa para o teto. Desafio? O lugar todo era a porcaria de um desafio. Era um desafio superar cada dia sem perder a cabeça com alguns dos idiotas daquele lugar.

– Há algum as opções – continuou Jack. – Literatura inglesa, filosofia, sociologia. Eu expliquei ao Sr. Ward e aos especialistas em educação que, apesar de você ter tido problem as com seus ex-tutores, você não é m ais o m esm o garoto que largou a escola aos 17 anos. Certo?

Carter deu um a olhada cética para ele.

Jack colocou as pontas dos dedos debaixo do queixo.

– O que você gostaria de estudar?

– Tanto faz. – Carter deu de om bros. – Eu só queria que m e deixassem na m inha, porra.

– Tudo faz parte das condições para ter um a chance de liberdade condicional antecipada. Você precisa m ostrar progresso na sua reabilitação. E, se frequentar alguns cursos enquanto está aqui pode aj udar nisso, então você tem que entrar na dança.

Carter sabia que ele tinha razão e aquilo o deixava furioso. Desde os 15 anos, ele passava de um advogado para outro, de um oficial de condicional e de um conselheiro para o seguinte, sem ideia de com o ou se um dia faria algo m ais significativo com sua vida. E Carter não fazia a m ínim a ideia do que fosse “significativo”.

Mesm o assim , depois de dezenove m eses em Arthur Kill, ele estava

 

com eçando a pensar que

passar o resto de seus dias preso não era um a perspectiva tão atraente quanto tinha pensado a princípio.

Quando era um adolescente teim oso, arrogante e agressivo, ele curtia ter tal reputação. Agora, a anim ação e o entusiasm o haviam m inguado. Tribunais, centros de detenção e prisões não eram m ais novidade e ele estava ficando entediado com a j ustiça com o um todo. Se não m udasse as próprias m erdas, passaria dos 30 tentando im aginar o que tinha acontecido com sua vida.

Jack pigarreou.

– Você teve algum a visita recentem ente?

– Paul veio na sem ana passada. Max vai vir na segunda.

– Wes – suspirou Jack, tirando os óculos –, você precisa tom ar cuidado com o Max... Ele não é bom para você.

Indignado, Carter bateu a m ão na m esa.

– Você acha que tem o direito de falar um a m erda dessas?

Carter sabia que Jack considerava Max O’Hare um a doença, infectando todo m undo à sua volta com seus problem as com drogas, seu longo histórico crim inal e sua habilidade de afundar os am igos na m erda – o fato de Carter estar em Arthur Kill era um desses casos. Mas Carter devia m uito a Max.

Estar na prisão era sim plesm ente quitar um a dívida, e ele faria de novo sem pestanej ar.

– Não – abrandou Jack. – Não é isso que acho, de j eito nenhum ...

– Então, ótim o – interrom peu Carter. – Porque você não tem a m enor ideia do que o Max passou, do que ele ainda passa. A m enor ideia!

Ele deu um a tragada longa no cigarro, encarando Jack por cim a da brasa.

– Sei que ele é seu m elhor am igo – disse Jack após um m om ento de silêncio tenso.

– Sim – concordou Carter com um aceno firm e de cabeça. – Ele é.

E pelo que Carter tinha ouvido dos caras que tinham vindo visitá-lo, Max precisava dele agora m ais do que nunca.

Mesm o quando Kat Lane estava dorm indo, o m undo à sua volta era som brio e opressor, enchendo seus sonhos de m edo. Suas m ãos pequenas agarraram os lençóis, torcendo-os em desespero. Seus olhos fechados se estreitaram e seus pés com eçaram a se m exer enquanto dorm ia, à m edida que ela se percebia correndo, apavorada, por um a viela escura.

Um gem ido saiu de sua garganta, enquanto via as im agens ininterruptas daquela noite quase dezesseis anos atrás.

– Por favor – choram ingou ela no escuro.

Mas ninguém viria para salvá-la dos cinco hom ens sem rosto que a perseguiam . Ela se ergueu com um grito, suando e sem ar. Seus olhos percorreram o quarto escuro antes de perceberem onde estavam ; ela os fechou e colocou as m ãos no rosto. Com a garganta dolorida, suspirou, secou as lágrim as e tentou se acalm ar, respirando longa e lentam ente.

Tinha acordado assim todos os dias nas últim as duas sem anas, e a dor que a atingia cada vez que ela abria os olhos era fam iliar dem ais. Ela balançou a cabeça, exausta.

A m édica advertira que não parasse de tom ar os com prim idos para dorm ir de um a vez só, m as que dim inuísse a dose gradativam ente. Kat tinha ignorado o conselho dela, determ inada a conseguir passar um a noite sem o auxílio de rem édios. Parecia que sua determ inação tinha se esgotado. Ela bateu com o punho no colchão, frustrada, e então acendeu o abaj ur na m esa de cabeceira. Mas a luz não am enizou o m edo e o com pleto desam paro que os pesadelos traziam .

Com um suspiro de derrota, ela se levantou e foi até o banheiro, piscando por causa das luzes ofuscantes. Deu um a olhada em seu reflexo no espelho e franziu a testa. Jesus, ela aparentava ter m uito m ais que 24 anos. Seu rosto parecia cansado; os olhos verdes, entorpecidos e sem vida. Ela passou os dedos pelas olheiras em torno deles, depois correu a m ão pelo cabelo. Em vez do ruivo volum oso de costum e, estava fraco e seco, pouco abaixo dos om bros.

Sua m ãe falara que ela havia perdido peso, m as Kat tinha ignorado aquelas palavras. Ela sem pre tinha que fazer algum com entário.

Kat não era nem um pouco m agricela – sem pre foi m ais curvilínea do que pele e osso –, m as suas calças j eans tam anho 38 realm ente andavam m ais largas nos últim os tem pos.

Ela abriu o arm ário e pegou um frasco de com prim idos. Ansiava pela noite em que não precisaria depender de rem édios para dorm ir. Não que os com prim idos aj udassem m uito; eles apenas entorpeciam um a dor que nunca desapareceria. Depois de tom ar duas pílulas azuis, ela se arrastou pelo piso de m adeira de volta para a cam a.

Kat tinha percebido havia m uito tem po que não existia sono profundo o suficiente para escapar dos pesadelos. Estavam enraizados, eram parte dela; nunca conseguiria se livrar deles. Sabia que nenhum a pílula ou terapia j am ais apagaria a escuridão e a dor dentro de si. Ela havia se tornado um a m ulher im petuosa e de personalidade forte. Era um a m aneira segura de m anter outras pessoas a distância, escondendo seu desespero e seu m edo por trás da sagacidade e de um a língua afiada.

Ela afundou nos travesseiros de penas. Será que algum dia tudo aquilo ficaria m ais fácil?

Kat não sabia. Só conseguia se concentrar no fato de que o nascer do sol significaria um novo dia, m ais um para se distanciar de seu passado.

2

Na m anhã seguinte, Kat entrou em seu carro, estacionado do lado de fora do seu prédio no SoHo. Os pesadelos sem pre a deixavam triste e tensa, pensando em por que diabos tinha aceitado um em prego para dar aulas em um a prisão.

Quando com eçara a dar essas aulas, havia pouco m ais de um m ês, os pesadelos voltaram e os conflitos com sua m ãe se acirraram . O relacionam ento delas sem pre teve altos e baixos, m as, quando Kat ligou para contar que ia trabalhar em Arthur Kill, a discussão que se seguiu foi a m ais terrível que j á tiveram . Eva Lane era um a m ulher com plicada e teim osa e j am ais entenderia a necessidade de Kat de aceitar aquele em prego.

Kat com preendia as preocupações da m ãe e de alguns am igos. Apesar de não haver assassinos entre os que estavam lá, os crim es com etidos por eles eram bastante preocupantes: vandalism o, roubo de carro, uso e posse de drogas. Contudo, tinha certeza de que era isso que queria fazer.

Porque, lá no fundo, um a prom essa feita ao pai ecoava em sua alm a.

Um a prom essa que tinha estado lá desde que seu pai m orrera. Estava lá no dia em que ela term inara o ensino m édio e no dia da form atura da faculdade de Literatura Inglesa. Dar aulas era o que Kat queria fazer desde criança, e ela havia am ado cada segundo.

Ela tivera a sorte de viaj ar para Londres e para a China, lecionando em escolas particulares que a fizeram se apaixonar ainda m ais pela profissão. Fez am igos, vivenciou outras culturas e construiu relacionam entos enriquecedores que nunca acabariam . Apesar disso, no fundo ela sabia que trabalhar em escolas que lhe pagavam 50 m il por ano não significava cum prir a prom essa que tinha feito.

Crianças talentosas e em penhadas não eram exatam ente aquelas que ela deveria aj udar.

– Nós tem os que retribuir, Katherine – dissera seu pai na noite em que m orreu.

Ela havia considerado trabalhar em um a escola no centro histórico da cidade, m as essa opção tam bém não aliviara o sentim ento de dever. Trabalhar em um presídio, sim .

Precisava ficar perto de seus tem ores, perto de hom ens que não se im portavam m uito em burlar a lei, em virar a vida das outras pessoas de cabeça para baixo sem nunca considerar as consequências.

Precisava se aproxim ar para entender o que tornava um a pessoa capaz de tal com portam ento. Ela odiava o próprio m edo; odiava a raiz dele e sabia que tinha que encará-lo – m esm o estando apavorada.

Sua terapeuta tinha ficado bastante preocupada com a decisão e perguntava constantem ente se Kat estava feliz com a escolha, se achava que aquilo era m esm o o certo a fazer e por quê. Chegara a usar as preocupações de sua m ãe para tentar dissuadi-la.

Mas aquela era um a escolha de Kat – e de m ais ninguém . E um a vez que a decisão foi tom ada, não havia volta. O que quer que acontecesse, o que quer que sua m ãe dissesse, ela arcaria com as consequências, pois sabia o que aquilo significaria para seu pai.

O prédio da Arthur Kill, em Staten Island, parecia ter saído diretam ente de um episódio da série Prison Break. Guardas com cães enorm es e raivosos patrulhavam torres de observação altas protegidas por cruéis cercas de aram e farpado.

Kat foi até os portões do estacionam ento e esperou pelo policial que estava de serviço. Depois de pegar a identidade dela, ele desapareceu na sala de controle e logo retornou, direcionando-a para o edifício som brio onde ela trabalhava.

Após estacionar, Kat deu um a olhada para a esquerda e viu um grupo grande de detentos j ogando basquete atrás de um a cerca enorm e de m etal. Com os m acacões verdes am arrados na cintura, seus peitos cobertos de suor brilhavam sob o sol quente do verão. A cam inhada do carro até o edifício parecia de quilôm etros, ainda m ais ao som dos assobios e as cantadas que vinham da quadra de basquete.

Ela apressou o passo e agarrou a m açaneta da porta gigantesca com o se fosse um a tábua de salvação. Lá dentro, foi recepcionada por um risinho baixo. Kat ergueu os olhos e viu Anthony Ward, o narcisista diretor da penitenciária.

Ward tinha seus 30 e tantos anos e um rosto redondo e j ovial. Os cabelos estavam penteados com tanto gel que devia estar sufocando os fios. Ele fitou Kat com seus olhos cinza-escuros e um sorriso rápido que revelou um a covinha funda em sua bochecha esquerda.

– Srta. Lane – disse ele, estendendo a m ão.

Kat a ignorou e tentou se recom por passando a m ão pela saia grafite na altura dos j oelhos.

– Sr. Ward.

Retirando a m ão com um aceno de rosto envergonhado, ele ficou m uito ereto, na tentativa de parecer m ais alto. Kat percebeu que ele fazia isso com frequência, principalm ente perto dos detentos.

Não funcionava. O pobre hom em tinha nascido atarracado.

– Então – com eçou ele. – Com o está? Se adaptando bem ?

Kat sorriu.

– Sim . Acho que sim .

As aulas dela tinham sido bem tranquilas até então. E seus alunos haviam parado de usar palavrões com o se fossem vírgulas ao falar com ela.

Ward aj ustou a gravata.

– Ótim o. Bem , não se esqueça de que vou assistir à sua aula esta m anhã. E, se precisar de algum a coisa, é só vir falar com igo.

– Farei isso. Obrigada.

Ela passou por ele, ignorando a m aneira com o seus olhos se fixaram em seus seios. As tendências lascivas e a inabilidade de Ward de enxergar os detentos com o qualquer outra coisa que não lixo a irritavam . Ele não acreditava que os presos pudessem se aprim orar enquanto estavam encarcerados, e isso fazia com que a função de Kat ali parecesse inútil. Com o resultado, ela o evitava o m áxim o que podia.

Quando Kat entrou na sala de aula, ficou agradecida pela brisa gelada do ar-condicionado. O

restante do presídio parecia um a sauna. Prendendo os cabelos num coque, ela se virou quando sua assistente, Rachel, entrou, parecendo ansiosa.

Ela bufou por entre os lábios m anchados de verm elho-cerej a.

– Jesus, está quente com o o inferno hoj e – reclam ou Rachel, puxando e soltando a cam iseta em um a tentativa inútil de se refrescar.

Rachel tinha sido sua salvadora desde o com eço. Especializada em dar assistência aos detentos com dificuldades de aprendizado, ela aj udara Kat a conhecer seus alunos rapidam ente – em especial Riley Moore, um grandalhão de personalidade excêntrica que sofria de um a dislexia terrível. Não que isso o tivesse im pedido de se form ar em Adm inistração pela Universidade de Nova York.

Riley era um de seus alunos preferidos. Preso por vender peças de autom óveis roubados, sua estatura de 1,90 m etro e os om bros largos botariam Atlas no chinelo. Ele era engraçado e flertava descaradam ente com as duas j ovens. Ao contrário de Ward, contudo, Riley era charm oso e proferia cada palavra com certa ironia. Era difícil não se encantar com as insinuações im placáveis, porém inofensivas, que vinham do dono daqueles alegres olhos cor de m el e rosto barbudo angelical.

Havia outros quatro alunos na sala; todos se m ostravam m uito em penhados e tentavam se m anter na linha. Kat tinha bastante orgulho de com o havia conseguido discipliná-los. O progresso deles era fantástico.

Dois m inutos depois das nove, a voz estrondosa de Riley quebrou o silêncio. Kat sorriu quando se virou para olhar para ele, acom panhado por um guarda e seguido dos outros alunos.

– Srta. L! – gritou ele, erguendo a m ão para bater na dela. – Bom fim de sem ana?

– Foi ótim o, Riley. Obrigada. E o seu?

– Ah, você sabe. – Ele deu de om bros. – Causando confusão aqui e ali, fazendo os cabelos do Ward caírem m ais a cada dia.

Kat reprim iu o riso enquanto Ward entrava na sala com os outros alunos: Sam , Jason, Shaun e Corey. Jason sorriu m eigam ente por debaixo dos cabelos castanhos desgrenhados, enquanto Corey e Shaun ergueram o queixo com o form a de cum prim ento. Sam correu até sua carteira e se sentou sem lhe fazer nenhum gesto. No com eço, isso deixava Kat chateada, m as agora ela aceitava aquilo com o parte da rotina que eles tinham construído. Um a rotina que, com o Rachel havia explicado, era de extrem a im portância para os hom ens da Arthur Kill. Para m uitos deles, um a program ação era tudo o que tinham para se m anter sãos. Ignorando Ward no fundo da sala, Kat deu início à aula, revisando a anterior e pedindo aos hom ens que descrevessem seus lugares favoritos usando m etáforas e personificações. Eles com eçaram a escrever em silêncio.

– Muito bem – disse ela, cham ando a atenção da classe de volta para si. – Quem é o coraj oso que vai ler a redação em voz al...

A porta da sala foi aberta com tanta força que esm urrou a parede. Um guarda irritado, ofegante, olhou para Ward, que se levantou na hora.

– Desculpe interrom per, senhor – arfou o guarda. – Mas tem os um a situação na sala seis.

– Quem ? – ralhou Ward, atravessando a sala furioso.

– Carter, senhor.

Os olhos de Ward se estreitaram e sua boca se com prim iu em um a linha fina. Quando a porta bateu atrás dele e do guarda, Kat deu um a olhada em torno da sala.

– Carter? – perguntou ela.

Riley riu alto, im ediatam ente elim inando a tensão que Ward sem pre deixava em seu rastro.

– Carter. Caram ba. Esse m enino não m uda nem fodendo.

3

– Você não tem dorm ido bem , né?

Ben, um dos am igos m ais próxim os e m ais irritantem ente observadores de Kat, sorriu m eio triste enquanto o garçom colocava um espresso triplo diante dela.

Apesar dos inúm eros bocej os que ela conteve durante todo o j antar, Kat sabia que estava um caco. Nem m esm o sua m aquiagem Estée Lauder conseguia esconder o cansaço em torno de seus olhos. Além disso, ele a conhecia havia seis anos e nada passava despercebido por ele.

– Eu tentei – respondeu ela, sacudindo um pacotinho de adoçante.

– Ainda está tendo pesadelos? – perguntou Beth, do lado esquerdo de Kat.

Beth e Kat eram am igas desde o ensino m édio, e, em bora Beth tivesse retornado a Nova York havia apenas alguns m eses, depois de passar quatro anos dando aulas no Texas, elas tinham retom ado facilm ente sua am izade.

Era bom tê-la por perto de novo, com pletando o trio de am igos, apesar de a preocupação dos dois ser um tanto sacal. Kat sabia que am bos tinham boas intenções, m as isso, som ado à inquietação da m ãe em relação ao seu trabalho, estava se tornando exaustivo.

Ben m eneou a cabeça.

– Você sabe que pode m e ligar a hora que quiser.

Com o irm ãos protetores, ele e Beth se ofereciam para passar a noite com Kat quando os pesadelos atacavam ou colocavam um a cam a à disposição dela em suas casas; m as ela sem pre recusava.

– E acordar você e a Abby ? – perguntou Kat, erguendo os om bros. – Por que eu ligaria para vocês?

– Porque som os seus am igos e nos preocupam os com você – respondeu Beth antes de enfiar um a grande colherada de crème brûlée na boca.

– Ainda m ais com esse em prego – com plem entou Ben.

Kat o encarou.

– Não com ece.

Ben ergueu as m ãos.

– Quem está com eçando?

Kat girou a colher dentro de sua xícara.

– Esse em prego...

– É im portante para você, nós sabem os – interrom peu Beth. Ela estava um

 

pouco m ais perspicaz

do que no ensino m édio, m as os olhos castanhos e o cabelo louro-acinzentado de corte m aluco m ostravam que ela ainda era a m esm a m enina que Kat conhecia havia anos. – Mas nos preocupam os m esm o assim .

Ben colocou a m ão sobre a de Kat.

– Você tem m uita coisa pela frente nos próxim os m eses.

Kat baixou os olhos e fitou a m esa.

– O aniversário da m orte do seu pai não está longe. Só saiba que eu e a Abby estam os aqui, ok?

Nós am am os você.

– Eu am o você! – Beth sorriu. – Apesar de o Adam ter m e com prado um a aliança, você sabe que sem pre vai ser m inha núm ero um .

Ela agitou o dedo no qual trazia aquele anel de noivado com um diam ante quadrado m aravilhoso.

Kat tentou sorrir.

– Eu sei. Obrigada, vocês dois.

Ben ofereceu seus serviços:

– E lem bre-se: sou advogado. Se qualquer um naquele lugar atazanar sua vida, estou à sua disposição. Você sabe que eu conseguiria descobrir os podres do papa se você precisasse.

Ben e Kat riram . Aquilo provavelm ente era verdade. Ben ganhara m uitas de suas causas através de favores e determ inação ferrenha, investigando suj eiras a fundo. Farej ava escândalos e extorsões com o um cão de caça.

– Ei, sua m ãe ligou? – perguntou Beth.

Kat suspirou fundo.

– Três vezes só na noite passada.

Beth ergueu a sobrancelha.

– Ela ligou para m im tam bém . Está preocupada, só isso.

Kat sussurrou sarcasticam ente.

– Olha, eu sei que você j oga no tim e da m inha m ãe...

– Não j ogo no tim e de ninguém – retrucou Beth. – Eu apenas entendo seus m otivos. Deve ser difícil para ela.

Kat se irritou.

– Difícil para ela? Ela está no m eu pé desde que eu aceitei essa porcaria de em prego. “Não é seguro.” – Ela im itou o tom de voz da m ãe. – “Você está colocando sua vida em risco trabalhando com aqueles anim ais”, blá-blá-blá. – Seus om bros se curvaram . – Por que ela não pode m e apoiar?

– As intenções dela são boas. Ela vai superar.

– Claro – respondeu Kat, nem um pouco convencida.

Carter acordou; tinha dorm ido bem . Talvez tivesse se esgotado de ter aprontado para cim a de Anthony Ward. Sorriu. Aquele babaca não tinha a m enor ideia de com quem estava lidando.

Ele tinha que perm anecer na cela até as quatro – faltavam duas horas –, quando seu castigo de 24

horas acabaria. Por ter em purrado um a cadeira contra a parede. Que m erda.

Talvez ele tivesse em purrado com m ais força do que deveria, m as o professor de filosofia com certeza tinha exagerado. E o Ward? Bom , ele conhecia todos os calos de Carter para pisar.

Jack logo chegou com um a visita reagendada de Max e um a expressão de decepção no rosto, o que fez com que o estôm ago de Carter revirasse. Ele apreciava o gesto de Jack, considerando o que ele pensava de Max, e, novam ente, se repreendeu por ter agido com o um babaca com seu conselheiro. Às vezes ele não conseguia ficar de boca fechada.

– Então, suponho que você não tenha gostado de filosofia? – perguntou Jack com um sorrisinho. – Não se deu bem com o Aristóteles, é?

– Não m uito.

Jack assentiu com a cabeça e coçou a nuca.

– Por falar nisso, valeu por toda aquela confusão com o Anthony Ward. Fico lhe devendo um a.

– Quanto a isso – m urm urou Carter da cam a. – Foi m al.

Era o m ais próxim o de um a desculpa que Jack conseguiria.

– Sim , foi m esm o – concordou Jack. – Caram ba, Wes, você é m elhor que isso.

Carter suspirou desanim ado e puxou os j oelhos até o peito.

– O cara estava falando m erda, Jack. Ele m ereceu.

– Bem , qualquer que tenha sido o m otivo, você tem m uitas coisas para se redim ir.

– Ah, é? – ironizou Carter.

– Sim – respondeu Jack, enfático. – Inscrevi você nas aulas de literatura. Sei que gosta de ler. – Ele apontou para as prateleiras do lado direito da cela, repletas de livros surrados e cheios de dobras nos cantos das páginas. – E a professora é m ulher, então talvez não haj a tanta hostilidade.

– Hostilidade?

– Você sabe o que quero dizer – respondeu Jack secam ente. – Você prom eteu que ia tentar, então prove para m im que vai m esm o. Eu tive que baj ular aquele filho da pu... – Ele deu um a olhada para o oficial que estava parado a m eio m etro de distância. – Tive que ter um a conversa am igável com o Ward para dar a você m ais um a chance. Não m e diga que perdi m eu tem po.

Carter se inclinou para a frente, passando a m ão pelos cabelos raspados. Estava num beco sem saída. Não era só o pescoço de Jack que estava na reta do Ward, m as o dele tam bém . Não tinha nada que quisesse m ais do que espancar aquele panaca arrogante com seu livro de “regras”, m as não podia decepcionar Jack novam ente. Ele estava estressado, frustrado.

– Você vai se sair bem – disse Jack em voz baixa, dando um passo em sua direção.

O guarda atrás dele se m exeu tam bém .

– É – m urm urou Carter. – Vam os ver, né?

Mesm o após todo aquele tem po dorm indo, a fadiga com eçou a tom ar conta dele silenciosam ente.

As paredes tinham com eçado e se fechar aos poucos, tornando sua cabeça pesada. Vinte e duas horas trancafiado em um a sala faziam isso com a pessoa. Até m esm o com ele.

– Am anhã de m anhã – disse Jack com um aceno encoraj ador de cabeça. – A professora é a Srta.

Lane. Ela é m uito boa. Só tente ser... Só tente, está bem ?

– Está bem . – Carter ergueu três dedos. – Palavra de escoteiro.

Jack sorriu.

– E, só para garantir, m e certifiquei de que todas as cadeiras da sala de aula foram pregadas no chão.

Carter riu alto.

– Bem pensado, J. – gritou ele antes de o guarda bater a porta da cela, deixando-o sozinho novam ente.

As últim as duas horas do castigo se passaram em ritm o de lesm a, e Carter quase derrubou o guarda no chão quando ele finalm ente abriu a porta. Ele esticou os braços para trás, estalou o pescoço e correu em direção ao pátio.

– E aí, Carter?

A voz estrondosa de Riley Moore atravessou a quadra de basquete.

Carter sorriu.

– Moore – respondeu ele, andando em direção ao grandalhão.

– Onde cê tava? – perguntou Moore com um tapa no om bro de Carter. – Senti falta dessa sua cara sacana.

– Me dê um cigarro e eu conto tudo.

Riley pegou um cigarro no bolso e riscou um fósforo para Carter. Eles seguiram até um a pequena área com bancos no fundo da quadra.

– Vazem ! – rosnou Riley.

Carter soltou um a risadinha quando os dois novatos que estavam sentados no lugar deles se dispersaram com o folhas ao vento. Ele se sentou, fechando os olhos por conta do sol que o castigava, deixando a fum aça escapar por entre seus lábios.

– Então, o que rolou? Tava tocando um a em algum lugar desde ontem ? – Riley riu e acendeu um cigarro.

– Quem m e dera – respondeu Carter, observando o j ogo de basquete na quadra. – Não, foi o Ward.

– Tá brincando – m urm urou Riley, m eneando a cabeça.

– Tive um leve desentendim ento com um dos nossos professores e ele m e pôs de castigo por 24

horas.

– Tamo j unto, parceiro. – Riley fechou o punho e bateu de leve no de Carter. Eles se conheciam havia anos, tanto dentro quanto fora de Arthur Kill. Se Carter precisasse dele, ele estaria lá.

Am bos se viraram quando ouviram um a série de assobios e cantadas vindos da quadra.

Riley soltou um a risadinha.

– Por falar em professores... – disse ele, erguendo um a sobrancelha.

Carter seguiu os olhos dele pelo gradil e avistou um a m ulher ruiva com a bunda m ais gostosa que ele j á tinha visto. Deliciosam ente em brulhada em um a saia preta até o j oelho, ela atravessou o estacionam ento em direção a um belo Lexus esportivo. Suas pernas lindas desapareciam em sapatos de salto pretos que, do ponto de vista de Carter, eram de causar um a ereção.

– Quem é aquela? – perguntou ele, tentando esconder o fato de que estava quase quebrando o pescoço para ver além dos outros detentos, que se am ontoavam no gradil com o crianças em um zoológico.

– Aquela é a Srta. Lane – respondeu Riley, debruçando para trás, sobre os cotovelos. – Minha professora de literatura. Ela é legal, na verdade.

Carter soltou um a risadinha.

– Bem , ao m enos esse é um ponto positivo.

Ele apagou o cigarro no banco.

– O quê? – Riley franziu a testa, confuso.

Carter gesticulou na direção do carro que tinha desaparecido.

– A professora é um ponto positivo de estudar literatura.

Riley deu um sorriso.

– Vai estudar literatura tam bém ?

– Vou – respondeu Carter, revirando os olhos. – Jack quer que eu prove para os superiores que posso “m elhorar”. Algum a porcaria relacionada a aj udar a antecipar m inha liberdade condicional.

Não tenho m uitas esperanças disso.

– Me parece um a bosta.

– Concordo – respondeu Carter, recostando-se e erguendo o rosto para o sol escaldante.

4

Kat largou a bolsa perto da porta antes de ouvir a secretária eletrônica e, im ediatam ente, escutou a voz de sua m ãe, urgente e aflita.

“Suponho que você ainda estej a viva e bem , apesar de não ter ouvido nem um pio seu desde sábado. Espero que não tenha esquecido de que virá j antar aqui em casa esta noite. Se não chegar até as sete, vou m andar o Harrison para ter certeza de que você está bem . Tchau.”

Kat suspirou e pressionou “retornar ligação” no telefone, deixando no viva-voz. Ela foi até o aquário de peixes tropicais e salpicou ração sobre a água tranquila, sorrindo quando eles vieram até a superfície e com eçaram a beliscar e beij ar os flocos.

– Katherine? – A voz ansiosa de sua m ãe tom ou conta da sala de estar.

– Sim , m ãe, sou eu. Estou sã e salva e estarei aí às sete, então pode cancelar o esquadrão de salvam ento.

Kat preferiria não precisar j antar com a m ãe depois do dia que teve. Ela havia acordado tarde aquela m anhã depois de, m ais um a vez, ficar acordada m etade da noite, tendo o m esm o sonho vívido repetidam ente. Havia tentado passar a noite sem com prim idos, m as se arrependera da decisão assim que encostara a cabeça no travesseiro.

Era um sonho novo desta vez. Não havia hom ens sem rosto nem areia m olhada, m as seu pai ainda estava lá. Ele ficava sussurrando algum a coisa e, por m ais que tentasse, ela não conseguia chegar perto o suficiente para ouvi-lo. Era aí que o estranho encapuzado aparecia e a puxava para longe dele.

Assim com o tinha feito ao longo de todos aqueles anos.

Ele ainda era um estranho para ela – nos sonhos e fora deles –, depois de aparentem ente ter desaparecido sem deixar rastro pela porta do edifício onde a abraçara enquanto ela chorava pelo pai.

Tinha certeza de que a polícia e sua m ãe acharam que ela estava m aluca quando tentou descrever o que havia acontecido: que um desconhecido encapuzado a im pedira de ver o pai ser espancado até a m orte em um a noite fria e chuvosa no Bronx.

Tudo o que Kat sabia era que se tratava de um hom em e que não devia ser m uito m ais velho que ela. Mas j am ais descobrira sua identidade. Mesm o assim , ainda podia senti-lo ali, em seu subconsciente, puxando-a em desespero para longe de seu pai.

Um a hora e m eia depois, cansada e cheia de frustração, Kat estava à m esa de j antar de sua m ãe, lutando para dissipar a tensão horrorosa que envolvia o recinto. Era um a batalha perdida; tinha sido daquele j eito desde que Kat decidira

 

se candidatar ao em prego na Arthur Kill. Mesm o assim ,

tentando ao m áxim o não se deixar desencoraj ar pela apatia gritante da m ãe, Kat contou anim adam ente para ela e para seu com panheiro havia dez anos, Harrison, sobre com o seus alunos estavam se saindo bem , com o estavam em penhados e focados. Kat descreveu com o se sentiu quando seu aluno Sam escreveu um texto tão poético que quase a fez chorar de orgulho. Ela falou sobre a onda de adrenalina que só um professor conhece quando seus alunos dem onstram com preender a m atéria, m as sua m ãe sequer tentou esconder o escárnio.

A m ãe de Kat era extrem am ente preconceituosa com relação a crim inosos e ao que deveria ser feito com eles. Por am á-la e tentar entender seu ponto de vista, Kat procurava ao m áxim o aniquilar seus m edos, m as suas alegações eram sem pre ignoradas. Só de pensar em Kat perto daquelas pessoas, ainda m ais dando aula para elas, Eva se sentia m al.

As discussões entre as duas eram ferozes. Kat vinha tentando fazer a m ãe com preender que aqueles indivíduos que ela ensinava na prisão não eram os m esm os que haviam m atado o hom em que as duas am avam . Depois das sessões de terapia, nas quais ela havia discutido os m esm os m edos, Kat ficara surpresa ao perceber com o aquelas palavras saíam com facilidade de sua boca.

Mas apesar do esforço de Kat, o j antar foi, com o sem pre, exaustivo e desagradável. Ela foi em bora cedo, dando a desculpa de ter que avaliar os trabalhos dos alunos.

Quando entrou em casa, chutou os sapatos para longe e foi até a secretária eletrônica, que estava piscando, e apertou o “Play ”. Pegou um a garrafa de vinho na geladeira e se serviu em um a de suas m aiores taças. Depois daquele j antar, definitivam ente estava pronta para um a bebida.

“Srta. Lane, aqui é Anthony Ward. Queria lhe avisar que um novo detento com eçará a participar da sua aula am anhã. Ele é... difícil. Mas tenho certeza de que você não terá problem as. Explico am anhã de m anhã. Tenha um a boa noite.”

Kat ficou olhando para a secretária eletrônica. Um novo detento? Difícil?

– Saúde, Sr. Ward – m urm urou ela, bebericando o vinho.

Ela se sentou com as pernas cruzadas no sofá, a taça de vinho ainda firm e na m ão, quando um a nova m ensagem com eçou.

“Oi, Lane!”, a voz de Beth estava anim ada. “Sou eu! Então. Lem brete. Meu aniversário está perto, o que significa vinho e com ida. Eu falei vinho? Hum . Vou m andar um a m ensagem com os detalhes. Me ligue.”

Kat riu dentro da taça.

Com o j antar desagradável na casa da m ãe ainda fresco na m em ória, Kat tinha certeza de que a festa de aniversário de Beth era exatam ente do que ela precisava.

– Bom dia, pessoal.

Kat sorriu enquanto seus alunos se sentavam .

– Bom dia, Srta. L – falou Riley em m eio a um enorm e bocej o. – E m e perm ite dizer com o você está bonita hoj e?

– Perm ito – respondeu ela com um olhar brincalhão de advertência.

– Você está bonita – disse ele, dando a ela um largo sorriso.

– Obrigada, Riley – agradeceu, incapaz de conter o próprio riso.

Ela entregou a eles a redação do dia anterior, intitulada “Meus lugares favoritos”, dando-lhes alguns m inutos para lerem seus com entários.

– O que quer dizer “não m uito apropriado”? – perguntou Corey de sua cadeira no fundo da sala.

Kat se aproxim ou dele.

– Quer dizer, Corey, que eu não quero ler sobre cada um a das suas conquistas ou as notas que você deu a elas de um a dez, incluindo – ela pegou o papel da carteira dele para encontrar a frase ofensiva – “a boca daquela m ulher era com o um aspirador de pó”.

Corey soltou um a gargalhada que ecoou pela sala, balançando seu cabelo afro.

Continuar: parte 2 de 17