Desejo Proibido

Sophie Jackson · Capítulo 1 de 1 · parte 4/17

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Desejo Proibido

Prólogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.

– Com o você sabe – disse Jack após um m om ento tenso de silêncio durante o qual Carter fingiu que seu sapato direito era a coisa m ais fascinante do planeta –, Wes tem trabalhando com a Srta. Lane três vezes por sem ana, estudando literatura inglesa.

– Sim , estou sabendo disso – respondeu Diane. – Com o têm sido as aulas, Srta. Lane?

Pêssegos sorriu.

– Excelentes. Carter está trabalhado bem . Ele é em penhado e tem boas ideias a respeito dos tópicos que discutim os.

Diane fez um a anotação rápida.

– Fiquei sabendo que você e Carter tiveram alguns, digam os, desentendim entos logo que com eçaram .

Pêssegos cruzou as pernas.

– É verdade.

– Mas não m ais?

– Não. Carter e eu chegam os a um entendim ento com relação à conduta dele durante as aulas. Sua atitude tem sido positiva e cooperativa. É evidente que ele quer aprender e ir bem .

– Isso é ótim o, Carter, m as... – disse Diane com um aceno de cabeça.

– Mas? – perguntaram ele e Jack em uníssono.

– Mas os m em bros da banca não são idiotas. Têm noção de que o fato de você estar tendo essas aulas pode ser um a m aneira de sim plesm ente ganhar pontos com eles.

– Com todo o respeito – interrom peu Jack –, não é essa a intenção?

– Sim , é claro – concordou Diane. – Mas Carter precisa m ostrar que está fazendo isso porque quer e que percebe tudo o que aprende com o útil a longo prazo. – Ela se virou para Carter. – É disso que se trata a liberdade condicional, Carter: do longo prazo. – Ela o fitou com olhos severos. – Preciso ser honesta. Apesar de você se qualificar, a banca pode enxergar sua conduta passada com o um a dem onstração de que não observa as regras desta instituição.

Os olhos de Carter se viraram , indecisos, para Pêssegos, a decepção estam pada em seu rosto.

– Qual seria o período desse longo prazo de que estam os falando? – perguntou

 

o advogado de

Carter, enquanto fazia anotações em um bloco am arelo. – Quanto tem po vai durar a condicional de Carter?

Diane se recostou na cadeira.

– Pela elegibilidade dele, se o exam inador da audiência conceder a condicional, isso significa que ele seria libertado com quinze m eses de antecedência.

– Doze m eses, então – o advogado concluiu para ela.

– Creio que sim . Eu ficaria surpresa se eles concordassem com qualquer período m ais curto. Os prim eiros nove m eses devem ser m onitorados de perto por m im , com o oficial de condicional designada, e pelo Jack, se ele quiser continuar os encontros deles depois da condicional.

– Então, nós continuarem os as aulas particulares depois da soltura? – perguntou Pêssegos.

– Isso com certeza seria algo a se pensar – respondeu Diane. – Mostraria à banca que Carter está dedicado e levando a sério a reabilitação. Precisam discutir entre vocês e decidir antes da audiência.

Há algo m ais que você gostaria de perguntar ou acrescentar, Carter?

Carter lim pou a garganta.

– Se, hum , se eu continuar com as aulas particulares depois que for solto, terem os que fazer isso por quanto tem po? Quero dizer, seria para sem pre?

Diane m eneou a cabeça.

– Ao final dos seus nove m eses iniciais de m onitoram ento, você vai se encontrar m ais um a vez com a banca e a situação será reavaliada. Se a Srta. Lane realm ente concordar, ela vai ter que fazer anotações m inuciosas, detalhando o que você estudou e quais são os resultados, bem com o se encontrar com a banca para explicá-los.

– Isso não será um problem a – disse Pêssegos com firm eza.

– Fico feliz em ouvir isso. – Diane se voltou para Carter de novo. – Mas você sabe que haverá outras condições a cum prir, incluindo testes antidoping regulares e toques de recolher.

É, a condicional seria só brincadeira e diversão.

Carter parecia prestes a fum ar o próprio m acacão quando Kat entrou.

– Por favor, pelo am or de tudo o que é sagrado, m e diga que você tem ...

– Cigarros. – Kat sorriu, erguendo um m aço de Marlboro. – Aqui estão, cam peão – disse ela, j ogando-os para ele.

Ele abriu o m aço e pegou um .

Ela ficou observando enquanto Carter tragava a fum aça e fechava os olhos. Ele fez isso duas vezes antes de olhar para ela.

– Obrigado – m urm urou em m eio a um a névoa fum acenta.

Ela deu a volta na m esa, para ficar ao lado dele, e notou que o guarda parecia não se preocupar m ais com a proxim idade entre ela e o detento. Colocou o texto de O mercador de Veneza na frente de Carter e se sentou com seu próprio exem plar.

– Eu queria dar um a olhada neste m onólogo em particular. – Ela apontou para a página. – Estou interessada em ouvir sua interpretação dele.

– Este m onólogo? Que previsível.

Kat bufou.

– Previsível ou não, é um a parte im portante da peça e quero saber o que você pensa a respeito dele. Mas talvez sua resposta sej a sim plesm ente tão previsível quanto m inha escolha de m onólogo.

Ela havia com eçado a gostar de provocá-lo.

Carter arqueou um a sobrancelha.

– Tudo bem , Pêssegos – disse ele, recostando-se na cadeira. – Vou m order a isca. O que você quer saber?

– Surpreenda-m e.

Ele bufou e apagou o que restava do cigarro.

– Este m onólogo é feito por Shy lock.

– Uau – respondeu Kat com os olhos arregalados. – Isso é incrível! Os estudiosos de Shakespeare ao redor do m undo vão m ij ar nas calças de anim ação com esse seu insight fantástico!

Carter riu.

– Ok, Pêssegos – falou ele. – “Por eu ser j udeu...”

Kat ficou boquiaberta. Ela o ouviu recitar o m onólogo inteiro sem olhar um a vez sequer para a página à sua frente. Em vez disso, os olhos dele se fixaram nela, azuis e brilhantes. Ouvi-lo recitar Shakespeare era indescritivelm ente erótico. Os olhos dele queim avam com a paixão que Shy lock com certeza transm itiria nos tribunais enquanto expressava sua raiva perante a inj ustiça que tinha sido com etida contra ele.

Tentando ao m áxim o m anter a com postura, Kat com entou: – Im pressionante. Mas você ainda não respondeu m inha pergunta.

Carter ergueu as sobrancelhas.

– É sobre vingança. Ele está com preensivelm ente puto com a m aneira com o foi tratado por causa de sua religião e j ura equiparar aquela “vilania” com um a canalhice própria. Só que a “vilania” dele vai ser bem pior. Shy lock é m alvadão.

– Então isso j ustifica o tratam ento que Solanio e Salarino deram a ele? Ele é “m alvadão”; certam ente m erece o que está acontecendo com ele?

Carter zom bou.

– Eles só estão tratando o cara assim porque são uns panacas de m ente lim itada que não veem nada a não ser um rótulo em Shy lock. Para eles, “j udeu” é sinônim o de “m au”. Mas o antissem itism o ostensivo não é o aspecto m ais im portante da peça ou do m onólogo.

– Não é?

– Não – respondeu Carter, se inclinando para a frente, decidido. – Shy lock diz: “Se nos espetardes, não sangram os? Se nos fizerdes cócegas, não rim os? Se nos derdes veneno, não m orrem os?” Ele está querendo dizer que não im porta a religião dele, ou o rótulo que lhe deram , ele é hum ano assim com o aqueles desgraçados que o trataram com o m erda. As pessoas em todos os lugares, todos os dias, j ulgam as outras por causa de sua cor, sua religião, seu passado, sua raça, sua orientação sexual... sua ficha crim inal.

Ele ergueu os olhos para ela.

– O m undo é um lugar horrível e Shy lock é o único, em toda a peça, que tem colhões para falar a real sobre aquilo. A ironia de que um j udeu supostam ente não inteligente, m au e pouco educado tenha tam anha coragem é que torna a coisa toda im portante. O fato de ele ser j udeu é apenas um recurso da tram a. – Carter suspirou e esfregou o queixo com a palm a da m ão. – Shakespeare poderia ter feito dele um detento da Arthur Kill, se um lugar assim existisse na época.

Kat estava pasm a. Seu fervor fazia com que ela pensasse que tipo de intolerância ele tinha encontrado para levá-lo a se identificar tanto com o personagem . Será que fora tratado de form a parecida por causa do período na prisão?

Ele se largou na cadeira, roçando o dorso da m ão no j oelho dela e Kat prendeu a respiração com o contato.

– As pessoas acham que ele é um bárbaro porque prom ete vingança; m as quem é que pode culpar o cara? Se colocaram esse rótulo nele, por que ele não deveria fazer valer o título?

– Ele poderia ter surpreendido as pessoas – respondeu Kat, notando um a m udança definitiva no tom da discussão. – Poderia ter se com portado de m aneira diferente, calm a, e m ostrado que era um a boa pessoa.

Carter m eneou a cabeça.

– Não é assim que funciona quando a carapuça, ou o rótulo, serve. – Ele apontou para si m esm o.

– Crim inoso. Não existe bondade suficiente que apague isso. É m ais fácil corresponder às expectativas das pessoas do que tentar m udá-las. Evita a decepção de todos os envolvidos.

Kat franziu a testa.

– Então por que você está aqui e por que eu disse que aj udaria você a conseguir sua condicional e toleraria essa sua cara rabugenta por, possivelm ente, m ais doze m eses?

Carter sorriu.

– Não sei, Pêssegos. Por que você fez isso?

Kat m anteve os olhos nele por um longo m om ento antes de abaixá-los para a peça.

– Tenho m eus m otivos.

– Sua própria libra de carne.

A cabeça dela se ergueu rapidam ente depois daquelas palavras, m as ele estava ocupado brincando com o m aço de cigarros. Ele respirou fundo.

– E eu estou aqui porque... tinha que estar.

Confusa, Kat abriu a boca para falar, m as ele a interrom peu.

– Você estava m esm o falando sério?

– Falando sério quanto a quê?

– Que você vai continuar com nossas aulas.

– Sim – respondeu ela. – Quero aj udar você de todas as m aneiras que puder.

A boca de Carter se contorceu.

– Por quê?

 

Kat sorriu.

– Porque adoro m e castigar.

Carter tossiu para disfarçar sua risada de surpresa.

– Justo. Por um m om ento, achei que fosse só porque você queria ficar perto do m eu corpinho sarado sem os guardas e as câm eras por perto. Mas tudo bem .

O rosto dele não indicava nenhum a em oção.

Kat colocou as m ãos no rosto.

– Sou tão transparente. – Ela riu quando Carter bufou, surpreso. – Agora cale a boca e faça esta atividade.

Ela em purrou um a folha e um a caneta para ele.

– Sim , senhora – respondeu Carter com um a piscadinha que deixou partes do corpo de Kat em um pequeno frenesi.

Nada de guardas ou câm eras, foi o que ela ficou pensando enquanto assistia a Carter escrever.

Perm itiu que seus olhos o explorassem , de seu cabelo raspado sexy ao m axilar definido, com a barba por fazer. Sentiu o sangue ferver de excitação quando sua m ente com eçou a divagar.

– Filho da puta!

– Otário!

– Mané!

– Monte de m erda!

– Puta!

Carter parou de se m over e se levantou lentam ente de sua posição curvada, parando a bola de basquete, segurando-a com um a única m ão. Ele arqueou um a sobrancelha confusa para Riley, que estava ofegando entre dentes cerrados e bochechas verm elhas. Carter o observou por pelo m enos vinte segundos antes de o grandalhão perceber.

– Que diabos você está esperando? – rosnou Riley, endireitando-se de leve.

– Você acabou de m e cham ar de puta?

Riley ficou totalm ente ereto e encarou Carter de volta. Ele fungou e deu um a olhada para os outros dois detentos que vinham j ogando aquela partida de basquete rápido e quase violento pelos últim os quarenta m inutos. Am bos com eçaram a se m exer desconfortavelm ente, m udando o peso do corpo de um pé para outro. Riley voltou a encarar Carter.

– Sim – respondeu ele, erguendo o queixo, desafiador. – Cham ei. E daí?

Carter franziu a testa e deu um sorriso m alicioso.

– Só para confirm ar – respondeu ele antes de lançar a bola por cim a da cabeça de Riley para seu parceiro, Greg, que a pegou e arrem essou, com o um verdadeiro profissional, pelo aro, vencendo o j ogo por dois pontos.

– ISSO AÍ! – rugiu Carter com os punhos fechados. Ele correu até Greg e o agarrou com brutalidade pelo pescoço, esfregando os dedos com força até dem ais em sua cabeça. – ISSO, MOLEQUE!

– Seu trapaceiro! – berrou Riley, apontando o dedo para Carter. – Você... você roubou!

Carter riu e m eneou a cabeça depois de soltar Greg, que parecia aliviado.

– Perder sem dignidade ou elegância não é bonito, Moore – com entou ele enquanto cam inhava de m aneira despreocupada em direção a Riley.

– Ah é? – questionou Riley. – Bom , Carter, posso não ter dignidade ou elegância, m as com toda a certeza tenho um punho para acertar a sua cara e um pé para dar no seu traseiro trapaceiro.

Carter parou no m eio do cam inho, percebeu o brilho nos olhos de Riley, e, em poucos segundos, estava correndo com o o diabo foge da cruz pela quadra, enquanto Riley arrem etia seu corpo de m ais de 90 quilos em direção a ele.

– Volte aqui, seu cagão! – gritou Riley, perseguindo Carter em m eio aos detentos e guardas, que pareciam incrédulos.

Carter ofegava enquanto se desvencilhava dos braços do gorila, incapaz de tirar o sorriso largo do rosto. Sua felicidade extrem a e satisfação presunçosa foram interrom pidas quando percebeu que não tinha m ais para onde fugir e estava de frente para um paredão de tij olos com um hom em igualm ente grande se aproxim ando dele. Virou-se para encarar seu perseguidor e im plorar por rendição e sentiu um grunhido alto e estrangulado sair de sua boca quando Riley chegou com tudo nele. Riley o segurou e lhe deu um a gravata antes que Carter pudesse sequer piscar ou protestar. Ele foi arrastado de volta, grunhindo e tentando prender os pés no chão, até o m eio da quadra, onde até m esm o os guardas estavam rindo e tirando sarro dos palavrões de baixíssim o calão que Carter soltava por sua traqueia quase estrangulada.

– Riley – ofegou Carter, agarrando o antebraço que m ais parecia um tronco de árvore em volta de seu pescoço.

– Desculpe, o que você disse? – perguntou Riley em voz alta. – Não falo “filho da putês”. Você vai ter que falar com m ais clareza.

Carter não conseguiu não soltar um a risada sufocada.

– Riley ! – Carter agarrou o pulso dele com seus dedos longos. – Cara, por favor! Eu... cacete!

Riley, m e desculpe!

Riley sorriu e piscou para a grande e entretida plateia que tinha se aglom erado e soltou o pescoço que estava repousando confortavelm ente na dobra de seu braço.

– Babaca – m urm urou Carter.

A m ultidão se dispersou decepcionada quando percebeu que era tudo brincadeira e que ninguém ia ser atirado aos tubarões.

Riley bufou.

– Trapaceiro.

– Touché! – reconheceu Carter com um sorriso torto.

– Ei, Srta. L! – berrou Riley, assustando Carter.

Ele se virou e viu Pêssegos saindo do carro, m eio escondida atrás de um a bolsa enorm e, indo em direção à entrada principal, dando um aceno discreto para Riley. Carter perm itiu que o canto direito de sua boca se erguesse em um pequeno sorriso e franziu a testa quando ela abaixou a cabeça e apressou o passo. Carter esfregou a m ão na barriga ao sentir um desconforto no estôm ago. Aquilo o estava incom odando havia dias.

Riley abaixou os braços.

– O que foi aquilo?

Ele ficou olhando para Carter, esperando um a explicação.

Carter coçou o rosto antes de cam inhar até seu banco de costum e e puxar um cigarro. Ele acendeu, tragou e expirou, sacudindo a cabeça.

– Ela anda esquisita há um as duas sem anas – confessou ele, apontando para o estacionam ento com a cabeça.

– A Srta. Lane? – quis saber Riley.

Carter confirm ou e passou o cigarro para ele.

Carter tentara ignorar o com portam ento de Pêssegos, m as a situação foi ficando cada vez m ais difícil. Aquilo tinha com eçado logo após a prim eira reunião da condicional com Diane. Ela m al o olhara durante todo o tem po de aula. Ele não tinha forçado a barra, sentindo que era algo que talvez não quisesse saber. Mas depois de duas sem anas, a paciência de Carter estava no lim ite.

– Você acha que tem algo a ver com a sua condicional?

Riley devolveu o cigarro a ele.

Carter fingiu indiferença, apesar de m orrer de m edo de que aquela fosse a razão por trás da distância repentina dela. Talvez ela estivesse arrependida de ter concordado em dar aulas particulares para ele fora da prisão. Talvez quisesse pular fora, m as não soubesse com o.

Carter estava acostum ado a ser desapontado, m as, diabos, será que Pêssegos podia m esm o ser assim ? Ele odiava a sensação de im potência que ela causava nele. Não era sequer a ideia de não ter a condicional concedida – em bora, claro, isso fosse um a m erda. Tinha m ais a ver com o fato de que ele não teria um a razão legítim a para ver sua Pêssegos fora da Arthur Kill.

Ele soltou a fum aça pelo nariz com irritação, ciente de que o circo que estava arm ado dentro de sua cabeça não iria m udar em nada até que ele dissesse algo a ela.

– Ora, pergunte a ela, Carter – sugeriu Riley, olhando na direção dos cam pos nos fundos da penitenciária.

Carter bufou.

– Claro, Riley.

Riley estalou a língua no céu da boca.

– Cagão.

– Tanto faz – respondeu Carter, tragando o m áxim o do cigarro antes de soprar tudo no rosto de Riley. – Perdedor.

A gargalhada estrondosa de Riley e o tapinha zom beteiro que ele deu nas costas de Carter reforçaram a determ inação de Carter de confrontá-la aquela tarde.

Mas, santo Deus, quando Pêssegos entrou na sala de aula cinco horas depois, ela estava usando um a saia cinza absolutam ente deliciosa e um a blusa de seda rosa-pálido que fizeram todos os pensam entos coerentes e todo o sangue de sua cabeça correrem em um a direção bem específica.

Droga. Ele suspirou e m urm urou algo profano quando ela largou o m aterial e os cigarros de Carter na m esa entre eles.

– Algum problem a? – perguntou ela, dando um a olhada rápida na direção dele.

Carter deu um a risadinha entre as m ãos e m eneou a cabeça.

– Não, nenhum . Prossiga.

Aquela m ulher seria a m orte dele.

Carter segurou o rosto com as m ãos e a observou quase se enterrar dentro daquela bolsa de Mary Poppins que tinha trazido.

– Pêssegos – m urm urou Carter por trás do filtro do cigarro que repousava em seus lábios.

O apelido que tinha dado a ela pegara bem e ele o usava livrem ente. No fundo, tinha ficado anim ado por ela ter aceitado aquilo sem questionar com o ou por quê.

– Hum ? – Veio a resposta resm ungada das profundezas escuras.

– Que diabo você está fazendo aí?

Pêssegos congelou antes de sair lentam ente daquela m onstruosidade cavernosa e deu um sorriso leve e envergonhado.

– Só estou... hum ... procurando um a coisa.

Carter sorriu.

– O quê? As botas que Judas perdeu?

Ele ergueu as sobrancelhas para o guarda, que escondeu o riso atrás da m ão direita.

Pêssegos revirou os olhos para os dois.

– Não, sabichão.

Ela posicionou sua cadeira ao lado de Carter, com o fazia em todas as aulas, e colocou o trabalho dele em cim a da m esa. Explicou os com entários que tinha feito e fez perguntas m otivadas pelas respostas dele. Eles ainda estavam bem envolvidos com O mercador de Veneza.

– Você diz aqui que Pórcia é o personagem m ais inteligente da peça, m as não explica por quê – disse ela, dando um a olhada no trabalho de Carter. Ele a observou colocar o cabelo atrás da orelha.

– Poderia explicar?

Ela se recostou na cadeira, distanciando-se deles e desviando o olhar.

– Por que você fez isso? – reclam ou Carter.

– Com o?

– Isso – repetiu ele, apontando para a m aneira com o ela estava sentada. – Por que se afastou desse j eito?

Os olhos dele se arregalaram quando, após alguns segundos, ela ainda não tinha respondido.

– Esqueça – m urm urou ele, puxando o trabalho para perto de si.

– Não – disse Pêssegos com firm eza, colocando a m ão em cim a da m esm a folha de papel.

Os olhos de Carter encontraram os dela.

– O que você quis dizer com isso, Carter?

Ele resm ungou de novo, pegando o m aço de cigarros para ficar rem exendo. Pêssegos esperou pacientem ente.

– Você está pirando por causa da m inha condicional? – questionou ele.

 

A pergunta pareceu tê-la assustado pra caram ba, m as ele não lhe deu tem po de responder.

– Sinceram ente, eu prefiro que você sej a honesta com igo e m e diga agora. Porque não vou ficar na frente daqueles idiotas presunçosos todo cheio de esperança e tal para você chegar e dizer que não vai até o fim com isso por causa de... sei lá o quê.

Kat piscou. Abriu a boca para falar, m as nenhum a palavra veio. Com o ele podia pensar que ela iria largar m ão dele? Ela não tinha provado seu com prom etim ento com o caso de Carter e sua condicional por m eio de todo o trabalho que vinha fazendo?

Sim , ela estava se com portando de um j eito diferente com ele, m as não podia lhe explicar o porquê. Ela preferiria m orrer antes.

A verdade é que, há duas sem anas, os pesadelos de Kat tinham parado. Ela teria ficado eternam ente grata se eles não tivessem sido substituídos pelos sonhos m ais eróticos que j á tivera.

Eles com eçaram bem ingênuos, m as nas últim as catorze noites vinham se tornando cada vez m ais intensos. Geralm ente, isso não seria um problem a – ela havia tido sonhos picantes antes, é claro; contudo, o hom em que andava protagonizando seu showzinho pornô particular era ninguém m enos que o Sr. Wesley Carter.

Desde que com eçara a ter esses sonhos, Kat estava vivendo um inferno.

Com o podia ter sonhos tão arrebatadores com um hom em que m al conhecia? E com o conseguiria continuar a vê-lo por pelo m enos m ais doze m eses do lado de fora do am biente protegido, bem m onitorado e m antenha-as-m ãos-perto-do-próprio-corpo-e-não-terem os-problem as da Arthur Kill?

Não que ela um dia sonhasse em colocar a si m esm a ou Carter naquela situação. De j eito nenhum .

Ainda era sua tutora e ele era seu aluno. Ocupava um a posição de confiança e não iria prej udicar aquilo que batalhara tanto para construir. A política de não confraternização com certeza seria reforçada durante a condicional tam bém .

– Por que você acha que eu não teria pensado em tudo? – perguntou ela por fim . – O que deu a você a im pressão de que eu não queria aj udá-lo a conseguir a sua condicional?

– Sei lá. Você está diferente. Com o se andasse preocupada com algum a coisa, ou nervosa. Eu não sabia se era a ideia de continuar com as nossas aulas que estava apavorando você.

Ele escondeu bem a m ágoa na voz, m as seus olhos o traíram quando se abaixaram para fitar a m esa. Ele tinha reparado que ela estava distante. De repente, Kat não sabia se era para sentir-se lisonj eada ou apavorada por ele ter notado. Ela engoliu o pânico e se aproxim ou dele.

Kat lutou contra a vontade esm agadora de tocar em seu rosto.

– Não pretendo desistir. Realm ente quero aj udá-lo a conseguir sua condicional e quero continuar com nossas aulas.

Carter perm itiu que seus olhos encontrassem os dela.

– Desculpe se fiz você duvidar disso. Não vou decepcioná-lo. Pode contar cem por cento com igo.

Kat se surpreendeu com a veem ência das próprias palavras, m as sabia, no fundo, que elas eram de coração. Libra de carne ou não, ela iria aj udar Carter e ninguém poderia m udar isso.

Carter levou um m om ento para falar.

– Ok.

Eles perm aneceram em silêncio por uns instantes, m as nenhum dos dois se sentiu desconfortável.

– Você está m uito nervoso com relação ao pedido de condicional? – perguntou Kat, após assistir a Carter apagar o cigarro.

Ele fez que não com a cabeça.

– Shy lock – m urm urou ela. – Coraj oso com o sem pre.

– É o que Pórcia diz – retrucou Carter com um sorriso.

– A personagem m ais inteligente de O mercador de Veneza – acrescentou Kat em um tom m ais baixo, galanteador.

– Bem , foi ela que salvou Shy lock – respondeu Carter.

A m etáfora não passou batida por Kat. Ela sabia que Carter se via com o inferior por causa de suas escolhas de vida, assim com o as pessoas viam Shy lock com o inferior por causa de sua religião.

A com paração era tênue, m as, para Carter, Kat sabia, era bastante real.

– Salvou m esm o. – Os olhos de Kat pararam no trabalho de Carter. – Mas se vam os falar de personagens literários, não acho que Pórcia sej a a certa a quem m e com parar.

– Ah, não? – perguntou Carter. – Em quem você estava pensando? A Rainha de Copas, de Alice no País das Maravilhas? Hécate, de Macbeth? – Ele estalou os dedos ao ter um a inspiração. – A Feiticeira Branca, de O leão, a feiticeira e o guarda-roupa?

Entrando na brincadeira dele, Kat pegou a caneta e com eçou a fazer um a lista de com pras.

– Não – respondeu ela, com indiferença. – Mas obrigada por m e lem brar do que preciso com prar: m achado, caldeirão, m anj ar turco.

– Está bem – disse ele com um riso. – Sério, quem você escolheria?

– Essa é fácil – respondeu ela. – Eu gostaria de ser o Walter, o ratinho de Walter, the Lazy Mouse, aquele clássico da literatura infantil am ericana.

Carter pareceu confuso.

– Não o coelho de O coelho de veludo ou a aranha de A teia de Charlotte, j á que estam os falando de literatura infantil am ericana?

Kat m eneou a cabeça.

– Não. As m eninas do colégio costum avam ler isso. Mas, para m im , sem pre foi o Walter. – Ela se virou para ele. – Você conhece a história?

– Me conte.

– Walter é um ratinho bem preguiçoso – com eçou Kat. – É tão preguiçoso que nunca se levanta para ir à escola, sair com a fam ília ou brincar com os am igos, e logo todos esquecem que ele existe.

Um dia, sua fam ília vai em bora enquanto ele está dorm indo.

Carter se afundou na cadeira, ouvindo atentam ente.

– Ele decide ir procurar pela fam ília – continuou Kat. – Conhece m uitas criaturas em suas viagens, incluindo sapos que não sabem ler nem escrever.

Walter tenta ensiná-los, m as, com o tinha

 

perdido m uitas aulas no colégio porque ficava dorm indo, não consegue se lem brar de com o fazer aquilo.

Por um m om ento desolador, ela pôde ouvir o pai lendo para ela.

– Pêssegos – sussurrou Carter.

A tristeza pesou nos om bros de Kat.

– Meu pai costum ava ler essa história para m im quando eu era pequena. Ele fazia todas as vozes.

Carter cruzou os braços em cim a da m esa.

– Ele parece... Ele parece ser um cara legal.

Um leve sorriso repuxou os lábios de Kat.

– Ele era. Ele dizia que não im portavam os obstáculos, se eu fosse determ inada com o Walter, poderia fazer qualquer coisa a que m e dedicasse.

– E você conseguiu? – perguntou Carter, pegando Kat de surpresa.

– Consegui o quê?

– Fazer aquilo que estava determ inada a fazer, sem se im portar com os obstáculos.

Kat sorriu, constrangida.

– Estou aqui, não estou?

– Sim , está.

Carter reparou que os olhos dela se desviaram para a parede atrás dele e ela xingou em silêncio.

O tem po tinha acabado.

Carter a observou tentando fingir indiferença enquanto ela com eçava a pegar suas coisas, m as no fundo furioso por ela ter que ir.

– Talvez eu tenha que dar um a procurada nesse livro na biblioteca da penitenciária, sabe? – disse ele casualm ente. – Você acha que a biblioteca da Arthur Kill teria livros infantis ou isso não estaria de acordo com a norm a aqui?

Pêssegos não conseguiu conter um sorriso.

– Ah, Riley deve ter um exem plar escondido debaixo do travesseiro para ler em noites frias e solitárias. Vou pedir a ele.

Ela riu e ele gostou de ouvir aquele som .

– Falando m uito sério – disse ela, colocando a bolsa no om bro –, se você encontrar um exem plar, m e avisa? Eu perdi o m eu.

O desam paro no rosto dela era claro.

– Aviso – respondeu Carter com sinceridade.

– Ei, Carter – cham ou ela enquanto o guarda destrancava a porta. – Obrigada por hoj e.

Ele sorriu quando a porta se fechou atrás dela.

– Disponha, Pêssegos – sussurrou ele na sala vazia. – Disponha.

10

Quem não conhecia Eva Lane em pessoa a considerava fria e arrogante. Mas ninguém , nem m esm o aqueles que não gostavam dela, podia negar sua força.

Quando sete delinquentes totalm ente chapados assassinaram cruelm ente seu m arido, o senador Daniel Lane, ela se m anteve im passível em público. Ouviu os pêsam es de eleitores, de estranhos e de m uitos colegas de trabalho dele com um a expressão tranquila e um aceno de agradecim ento. Todos ficaram m aravilhados com sua com postura.

Mas, no fundo, naquele m om ento ela estava m orrendo. Seu coração tinha sido arrancado do corpo, deixando um buraco que não podia ser preenchido com as palavras de em patia ou o toque dos entes queridos.

Daniel era tudo para ela, e quando soube que ele tinha m orrido, tendo sido espancado com tanta violência que sofrera um derram e cerebral, ela considerou tirar a própria vida para ficar com ele.

Um a saída fácil, egoísta e desesperada. Com o poderia continuar vivendo quando o único hom em que ela havia am ado na vida se fora?

Por sem anas após sua m orte, Eva se deitava na cam a que eles dividiram e chorava. Ela gritava, berrava, j ogava coisas, batia em coisas, batia até em si m esm a, m as a dor perm anecia. O buraco era grande e cavernoso e nada podia estancar sua dor a cada vez que abria os olhos e percebia que seu Danny ainda estava m orto.

Nada, exceto sua filha.

Sua pequena Katherine, que tinha testem unhado o assassinato de seu am ado pai, estava calada, pálida e desesperada para que sua m ãe lhe dissesse as palavras que a tirariam da dor que a consum ia por com pleto. Eva sabia que tinha sido egoísta em seu próprio luto, que sua m enininha precisava dela, e Eva precisava de Katherine tam bém . Mesm o assim , ela m al conseguia olhar para a m enina sem enxergar o m arido. Cada m ovim ento, m aneirism o e olhar de sua filha lem bravam tanto seu m arido que, por m uito tem po, Eva só conseguia ficar poucos m om entos com ela.

Aquilo estraçalhou ainda m ais o coração j á dilacerado de Eva e contribuiu para a crença de Katherine de que sua m am ãe a culpava pela m orte de seu adorado pai. Ela devia ter parado aqueles hom ens m aus, devia ter protestado. E, se aquele desconhecido não estivesse lá, talvez ela tivesse conseguido. Os angustiados “se” de um a m enina de 9 anos cuj o único desej o era ver seu pai entrar pela porta novam ente.

Durante a terapia, Eva com eçou a perceber o que estava fazendo com a

 

filha. Ficou devastada ao

saber que Katherine acreditava que ela a culpava. Com preendeu com o tinha sorte por ainda ter a filha – e com o estivera perto de perdê-la tam bém .

E ela seria eternam ente grata por qualquer intervenção divina que m antivesse seu bebê em segurança. Tinha essa conexão linda, de carne e osso, com seu am ado m arido – e sem pre estim aria e protegeria sua filha, pelo resto da vida.

Infelizm ente, assim com o a aparência do pai, Katherine tinha herdado sua determ inação. Era teim osa ao extrem o e, quando decidia algum a coisa, nunca titubeava. Eva sabia que suas tentativas de m anter a filha em segurança beiravam a repressão, m as, puxa, será que Katherine não enxergava o risco que estava correndo?

Doía em Eva ver a filha ignorar suas preocupações com tanta facilidade. Ela tentara incansavelm ente, em bora sem sucesso, afastar Katherine do cam inho que ela escolhera. Ela suspirou de m aneira estranha.

– Mãe, parece que você está sofrendo de gases. O que foi?

O olhar cortante de Eva atravessou toda a sala de seu apartam ento no Upper East Side até chegar a Katherine, que estava arrum ando o cabelo, linda em seu novo vestido de aniversário.

– Não precisa ser grosseira. Eu só estava pensando. – Eva balançou sua taça de vinho. – Com o está o Ben?

Katherine deu de om bros.

– Está bem . Ocupado. Ele virá hoj e à noite com a Abby.

Eva deu um suspiro m elancólico.

– É m aravilhoso que eles estej am estabelecidos, casados e tenham em pregos respeitáveis.

Katherine respirou fundo, largando os braços ao lado do corpo.

– Sei que você está desesperada para ter netos, m ãe, m as podem os adiar isso só m ais um pouquinho até eu m e estabelecer? – Ela pegou sua taça e tom ou um gole de vinho. – E m inha profissão é respeitável. Sou professora. Das boas.

Ignorando a réplica quanto à profissão, Eva riu.

– Ah, querida, por m ais que eu desej e ter netos, só quero que você sej a feliz e fique com alguém que cuide e am e você. Não tem pressa, você é nova. – Ela fez um a pausa. – Mas não existe ninguém em quem você estej a interessada?

Katherine evitou o olhar da m ãe enquanto pegava a bolsa.

– Não. Estou feliz assim . Em todos os aspectos da m inha vida.

Eva ficou olhando para a filha, tentando conseguir explicar m elhor os seus m edos.

– Espero que sim .

O restaurante espanhol no TriBeCa no qual Kat tinha escolhido com em orar seu aniversário de 25

anos estava em polvorosa. Ela se sentou a um a grande m esa redonda com seus am igos e sua fam ília, bebendo vinho e petiscando os pães deliciosos servidos a eles. Eva ficou à esquerda da filha, quieta, m as atenta, enquanto Ben, Abby, Harrison, Beth e Adam , que Deus os abençoe, tentavam , com suas piadas, am enizar o clim a tenso entre as duas.

– Carter conseguiu a condicional? – exclam ou Ben. – Isso é ótim o, Kat!

Ele ergueu a taça de cham panhe.

Kat riu e fez o m esm o, ignorando a expressão de desdém que passou pelo rosto da m ãe.

– Então, quando com eçam suas aulas particulares? – perguntou Beth.

– Aulas particulares? – interveio a m ãe de Kat, seus olhos escuros brilhando. –

Que aulas particulares?

– Kat vai dar aulas para esse... Carter três vezes por sem ana – respondeu Beth, os olhos fixos nos aperitivos à sua frente. – Nenhum segurança, nem nada.

Eva ficou branca.

– O quê?

Legal, Beth.

Kat respirou fundo, contando até dez em silêncio, num a tentativa de m anter a calm a.

– Faz parte da condicional do Carter, m ãe – respondeu ela, franzindo a testa para Beth. – Pouquíssim os tutores têm a oportunidade de fazer isso. É im portante. Você deveria se orgulhar.

Sua m ãe a olhou com cara de espanto.

– Eu ficaria m ais orgulhosa se você desse aulas para crianças de classe m édia em um a escola do ensino fundam ental. Sério, Katherine. – Ela colocou a taça na m esa. – O que faz essas pessoas, esses oficiais da penitenciária, pensarem que colocar m inha filha em perigo vai m udar esses m onstros em algum a coisa?

– Não estou em perigo – garantiu Kat m ais um a vez.

Sua m ãe piscou.

– Seu pai pensava o m esm o. Ele era a favor de fazer cam panhas e aj udar os m enos favorecidos, e vej a o agradecim ento que recebeu.

O coração de Kat palpitou dentro do peito.

– Carter não é com o eles. Está tentando m elhorar.

– Não ignore m inhas preocupações, Katherine.

– Ela tem o direito de se preocupar, Kat. Todos tem os – com plem entou Beth.

Adam colocou a m ão em seu om bro. Kat abriu a boca para perguntar que diabos sua am iga pensava que estava fazendo.

– Claro que tenho – disse Eva antes que Kat pudesse falar. – Você é m inha filha.

As palavras de sua m ãe reforçaram ainda m ais a determ inação de Kat.

– Sim – ralhou ela. – E é o j antar de aniversário da sua filha. Então será que dá para deixar isso de lado hoj e? – Kat fechou os olhos, controlando a raiva. – Entrei em contato com a biblioteca da Rua 42 para reservar a sala de leitura. Ele será solto na terça. Nossa prim eira aula será um a sem ana depois disso.

– Bom , essa é um a ótim a notícia – disse Harrison antes que Eva pudesse falar m ais algum a coisa.

Ele sorriu em paticam ente para Kat. Ela o fitou agradecida antes de virar os olhos para Beth, que estava cochichando com Adam .

 

Que diabos estava acontecendo? É claro que Beth sem pre tinha falado bem da m ãe de Kat, sem pre dando força para aquela superproteção prepotente dela, m as aquilo era outra coisa.

Adam pigarreou.

– Austin chegou – disse ele, enquanto seu irm ão vinha na direção da m esa, para enorm e constrangim ento de Kat, com um lindo em brulho.

– Oi, pessoal.

Austin apertou a m ão de Adam e baixou o tom de voz.

– Acabei de sair de um a ligação com Casari. Eles são nossos.

O rosto de Adam ficou severo.

– Austin, cara, eu disse para você; cuidado com ...

– Depois – protestou Austin.

Ele deu um abraço em Beth e se virou para Kat.

– Feliz aniversário – disse ele, colocando o presente na frente dela.

Ele se abaixou e deu um beij o em sua bochecha.

– Austin, você realm ente não precisava...

– Besteira. É só algo que m e fez pensar em você quando vi em São Francisco. Abra, por favor.

– Vou abrir. Austin, esta é m inha m ãe, Eva Lane, e o com panheiro dela, Harrison Day. Mãe, este é Austin Ford.

Os olhos da m ãe de Kat se arregalaram quando ele beij ou sua m ão.

– É um prazer – cum prim entou ele antes de apertar a m ão de Harrison e se sentar ao lado de Kat.

– Certam ente. Um hom em j ovem com boas m aneiras – m urm urou a m ãe de Kat, dando um a olhada para ela. – Algo m uito raro nos dias de hoj e.

Ben bufou do outro lado da m esa, fazendo Kat sorrir. Com todos os olhos virados para ela, com eçou a rasgar o papel roxo e encontrou um a grande caixa transparente, que continha um lindo globo de neve. Em vez de flocos de neve em torno da m iniatura da Golden Gate Bridge, m ilhões de pequenas estrelinhas e pedacinhos de cristal giravam e brilhavam à m edida que rebatiam a luz.

– Austin, é m aravilhoso – suspirou Beth.

– É m esm o – concordou Kat. – Obrigada.

– De nada.

Ele beij ou Kat novam ente, m antendo os lábios em seu rosto um pouco m ais de tem po do que antes.

Austin foi, m ais um a vez, um a ótim a com panhia. E Kat decidiu que gostava quando o dedo dele raspava seu braço ou quando a m ão dele tocava de leve a pele de suas costas no m om ento em que colocava o braço no encosto de sua cadeira. Ela gostava quando seus olhos se encontravam e gostava do som da risada dele e da m aneira com o ele dizia seu nom e.

Mas ainda havia... algo errado. Ela se sentia atraída por ele. Mas havia um certo desconforto, um m al-estar indefinível dentro dela. Kat tentava ignorá-lo, m as não conseguia.

Em pé na calçada do lado de fora do restaurante depois do j antar, Ben deu um abraço caloroso em Kat.

– Feliz aniversário. Nossa, sua m ãe estava atacadíssim a hoj e. Ela precisa dim inuir a dose.

Kat riu no om bro dele.

– Ela é um pesadelo. Ela e Beth, as duas.

– Sim – concordou Ben. – O que foi aquilo?

Kat deu de om bros.

– Vai saber. Eu nem sequer consigo...

– Acho que sua m ãe está um pouquinho im pressionada com o seu am igo.

Ben deu um a olhada para Austin, que conversava am igavelm ente com Eva. O rosto de Ben ficou sério.

– Se você precisar de qualquer inform ação a respeito desse suj eito, é só m e ligar, tá?

Segredinhos obscuros são m inha especialidade. Além disso, eu teria um a desculpa para brincar no Google.

Ele deu um sorriso m alicioso quando ela o em purrou de leve.

Kat se virou para Abby.

– Por favor, leve seu m arido para casa e o sufoque com o travesseiro.

Abby riu, pegando a m ão de Ben.

– Venham j antar com igo em breve – disse Kat. – Vou fazer m inhas alm ôndegas especiais.

O abraço que Kat deu em sua m ãe era constrangedor.

– Feliz aniversário, Katherine. Me ligue. Am anhã. Assim que você chegar em casa do trabalho com aqueles... Só m e ligue.

Kat se segurou para não revirar os olhos.

– Vou ligar. Até m ais.

Kat abraçou e beij ou Adam e Beth.

– Está tudo bem ? – perguntou ela aos dois.

– Sim – respondeu Beth com um sorrisinho. Adam concordou com a cabeça. – Apenas cansados.

– Beth deu um a olhada para Austin. – Talvez o Austin possa levar você para casa, que tal?

Ela piscou de m odo conspiratório, apontando de form a sutil para Austin, a poucos passos dali, e m urm urando indelicadam ente sobre “chegar j unto”.

Austin riu quando Kat corou e m eneou a cabeça. Os dois ficaram parados na calçada, sem saber o que fazer em seguida.

– Posso dar um a carona a você? – perguntou ele, apontando em direção ao carro.

– Claro – concordou ela.

O Range Rover era espaçoso e tinha cheiro de couro e perfum e.

– Você tem bom gosto para m úsica – reparou Kat, o CD tocando um a m úsica boa atrás da outra enquanto eles atravessavam o trânsito da cidade.

– Obrigado – respondeu Austin. – Não consigo curtir m uito, só quando estou no carro.

Ele olhou para ela por um instante.

– Foi boa sua viagem para São Francisco?

Austin arqueou um a sobrancelha.

– Fui a trabalho. Não im porta onde você estej a no m undo, se precisa trabalhar, nunca é bom .

– Suponho que sim . Apesar de que tenho certeza de que não seria tão ruim se fosse nas Maldivas ou no Caribe – brincou ela.

Austin riu.

– É verdade – continuou ele. – Fechei um acordo grande. Tam bém pensei em você. Muito.

Kat ficou olhando para as m ãos, sem dizer um a palavra. Eles tinham trocado m uitas m ensagens desde aquele prim eiro encontro. Ele nunca forçou a barra, sem pre foi um cavalheiro. Mas ouvi-lo falar assim era um pouco diferente.

– Desculpe – disse ele. – Rápido dem ais?

Ela respondeu m eneando lentam ente a cabeça.

– Está m aravilhosa hoj e, Kat. – Os olhos dele desceram pelas pernas dela. – Essa cor fica ótim a em você.

Ela alisou o vestido verm elho transpassado com as m ãos, o elogio provocando em oções indefinidas.

Eles passaram o restante do traj eto assim , confortavelm ente felizes em dividir o silêncio quando a m úsica parou. Austin estacionou o carro e desligou o m otor ao chegarem ao prédio de Kat. Ela tirou o cinto de segurança devagar e pegou a bolsa e os presentes de aniversário aos seus pés.

– Obrigada – disse ela enquanto colocava um a m echa de cabelo atrás da orelha.

Seu estôm ago parecia pesado. Ela lim pou a garganta e tentou afastar aquela sensação esquisita.

– Sem problem as – respondeu Austin. – Eu m e diverti.

– Eu tam bém .

Os olhos dela encontraram os dele e Kat sorriu gentilm ente.

Austin sorriu de volta.

– Sei que só nos encontram os duas vezes, m as adorei cada m inuto.

Com o sem pre, o olhar dele era firm e, com um quê de intim idação de um executivo.

– Tudo bem se sairm os para j antar algum dia?

Ela hesitou um pouco.

– Isso... m e parece ótim o.

Austin sorriu, deixando seu rosto m ais am eno.

A respiração de Kat ficou presa na garganta. Os olhos dele eram determ inados e som brios. O

único som dentro do carro, além do coração palpitante de Kat, era o ruído do couro rangendo à m edida que ele se aproxim ava lentam ente. Ela não se m exeu. Não sabia ao certo se conseguiria. A sensação de querer sair correndo, m as de tam bém querer ficar exatam ente onde estava, a fez trem er.

Austin parou, o rosto a poucos centím etros do dela.

– Kat – m urm urou ele antes de chegar ainda m ais perto e seus lábios se encontrarem .

Kat ficou im óvel quando suas bocas se uniram . Aquilo era... bom .

Após alguns m inutos sem se m exer, Austin colocou a m ão no rosto dela e abriu a boca. Kat correspondeu abrindo a sua. Ela com eçou a se perder na sensação de beij ar Austin e se surpreendeu ao gem er de leve quando suas línguas se tocaram . Sua m ão foi parar na nuca dele, aproxim ando-os ainda m ais. Aquela sensação no estôm ago de Kat reapareceu, m as ela lutou para ignorá-la. Ela não beij ava alguém fazia tanto tem po...

Por que ela deveria se negar àquilo? Por quem ela estava se contendo?

Austin gem eu quando a língua de Kat tocou na sua e chupou a pontinha antes de ela tirá-la da sua boca.

A m ão dele desceu lentam ente pelo rosto dela e escorregou por seu braço desnudo enquanto am bos se m oviam j untos, sincronizados, com as cabeças virando de um lado para outro, devagar. A m ão de Austin foi parar no j oelho de Kat e ele deu um gem ido profundo. Acariciou gentilm ente sua pele antes de subir pela parte externa de sua coxa. Kat ficou tensa, m as gem eu m ais um a vez quando as pontas dos dedos dele passaram por debaixo da barra de sua saia. Ele afastou os lábios por um breve segundo e encostou a testa na dela.

– Kat, ou a gente para aqui ou... Nossa!

Kat se afastou, vendo o desej o e a luxúria em seu rosto. Ela piscou, tentando clarear a m ente.

Aquela não era ela. Apesar de Austin ser lindo e inegavelm ente charm oso, ela não ia se perder em um a noite de sexo enlouquecido.

– Acho que devem os dim inuir o ritm o – disse ela se recostando no banco.

Austin suspirou e esfregou as m ãos no rosto, pedindo desculpas por trás delas.

– Não peça desculpas – disse Kat. – Não tem por quê. É só que... Talvez devêssem os ir devagar.

Ele sorriu e levou a m ão dela à sua boca, dando um beij o suave em seus dedos.

– Por m im , podem os ir devagar.

– Ótim o. – Kat puxou o trinco da porta. – Obrigada pela carona. Boa noite, Austin.

– Boa noite, Kat.

Ela ainda estava atordoada quando atravessou o lobby de seu prédio e, a princípio, não ouviu Fred, na portaria, cham ar seu nom e.

– Srta. Lane! – Fred acenou para cham ar a sua atenção antes que ela chegasse ao elevador. – Srta.

Lane!

– Sim , Fred? – respondeu ela, aproxim ando-se.

– Boa noite, Srta. Lane. – Ele sorriu, revelando duas covinhas fofas que roubavam a atenção do espaço enorm e entre seus dentes da frente. – Tenho um pacote para você. Foi entregue esta tarde.

Ele tirou, de debaixo do balcão, um pacote quadrado, m uito bem em brulhado em papel m arrom .

– Não peguei o nom e do m oço, m as ele disse que era im portante que você recebesse isto.

Kat ficou olhando curiosa para o pacote.

– Obrigada, Fred.

Ao entrar em casa, largou tudo no sofá, colocou um a calça de m oletom e pegou um copo de suco de m açã antes de se acom odar no canto do sofá de pernas cruzadas. Assim que pegou o m isterioso pacote m arrom , seu celular anunciou um a m ensagem . Austin.

Adorei a noite.

Kat se recostou no sofá e suspirou, tocando os lábios com as pontas dos dedos.

Eu tam bém . Obrigada pelo presente. É lindo.

Um presente lindo para um a m ulher linda.

Kat ainda não tinha pensado em um a resposta quando outra m ensagem dele chegou.

Estou ansioso pelo nosso j antar. Feliz aniversário, Kat. Bons sonhos.

Boa noite.

Ela deixou o telefone de lado. Aquela sensação esquisita no estôm ago retornou com toda a força.

Ela colocou a m ão sobre o ventre, tentando afastá-la.

Que ridículo.

Austin era ótim o. Era um cara bacana e correto e ela não deixaria, de j eito nenhum , que um a sensação boba e inexplicável a im pedisse de experim entar algo que poderia ser incrível. Já fazia tem po dem ais desde o últim o relacionam ento de Kat – um caso de três m eses com um m entiroso e traidor com pulsivo –, e ela m erecia um pouco de felicidade. Decidida, estava com eçando a tom ar o suco de m açã quando seus pés esbarraram em algum a coisa. Olhou para baixo e viu o pacote m arrom que Fred tinha entregado.

– O que é isso?

Ela o segurou e com eçou a rasgar o papel.

Um gritinho saiu de sua boca quando ela percebeu o que era. Ficou com os olhos cheios d’água ao fitar o exem plar da prim eira edição, de 1937, de Walter, the Lazy Mouse.

– Com o? – Ela deslizou os dedos em reverência pela capa. – Oh, Deus.

Ela abriu o livro e viu um a m ensagem curta, escrita na parte interna da capa: Pêssegos

À conquista de qualquer coisa a que você se dedique, não importam os obstáculos.

Feliz aniversário.

Carter

11

Carter m al tinha dorm ido. Estava agitado e anim ado, tal com o um a criança na m anhã de Natal.

Às sete da m anhã do dia de sua soltura, ele estava entusiasm ado e ocupado em colocar livros e outros pertences em um a pequena caixa. A folha de papel que confirm ava que ele ganhara oficialm ente a liberdade condicional era, agora, o que ele possuía de m ais precioso e, em intervalos regulares, lia e relia as palavras ali escritas, só para ter certeza de que o texto não tinha m udado de algum a m aneira.

Continuar: parte 5 de 17