Desejo Proibido
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.
Não tinha.
As roupas de civil de Carter eram as que ele estava usando no dia em que entrou na penitenciária.
Ele se sentiu o m áxim o quando viu que sua cam iseta cinza dos Ram ones agora estava apertada nos braços e no peito, graças aos exercícios vigorosos de Ross. Sorriu e sacudiu a cabeça, puxando as m angas em um a tentativa de dar ao seu bíceps um pouco m ais de espaço.
– Estou ferrado – m urm urou ele antes de colocar a calça j eans escura e os coturnos pretos.
A sarj a e o algodão barato nunca tinham parecido tão agradáveis ao toque. A seguir vinham os anéis. Ele colocou a argola larga de prata no polegar da m ão direita, um a cruz celta prata e preta no dedo do m eio e um a insígnia linda da Harley Davidson no anelar esquerdo.
– Está pronto?
Carter se virou com um sorriso para Jack, que estava apoiado na porta aberta de sua cela.
– Praticam ente – respondeu Carter, apertando o cinto de couro m arrom na cintura do seu j eans. – Quando posso sair?
Jack deu um a olhada no relógio.
– As portas se abrem às dez. Estam os esperando pelo Ward.
– Isso é fantástico – m urm urou Carter.
Ele deu um a olhada em volta da cela para ver se não tinha deixado nada para trás. Então, pegou a caixa e a fechou.
– Ah! – Jack enfiou as m ãos nos bolsos. – Entreguei o seu presentinho.
Carter evitou o olhar do conselheiro.
– Ótim o – disse ele de form a casual. – Tinha dinheiro suficiente?
– Mais que suficiente. E escrevi exatam ente o que você pediu.
O estôm ago de Carter deu um a cam balhota quando ele pensou em Pêssegos recebendo o livro.
Ficou im aginando se ela teria gostado. Ou se teria achado um exagero ou piegas dem ais.
– Preciso perguntar... – continuou Jack, inspecionando a ponta de seu sapato direito.
– O quê? – perguntou Carter com um tom de desaprovação.
Jack sorriu, com ar de sabedoria, antes de erguer os olhos.
– Eu só queria saber com o você conseguiu o livro tão rápido – finalizou ele, inocentem ente.
Os om bros de Carter relaxaram de alívio.
– Pêsse... Ela, Kat, a Srta. Lane havia... hum , bem , droga, ela havia m encionado o livro em um a de nossas aulas, então procurei na internet da biblioteca e fiz um a reserva. Eu ia com prar quando saísse daqui, m as, na sem ana passada, quando ela m encionou que era aniversário dela... – Ele ergueu os olhos, passando o peso do corpo de um pé para outro, totalm ente desconfortável. – Não é nada de m ais, cara. Pare de m e olhar desse j eito.
– Ei – falou Jack após um risinho rápido. – Eu não disse nada. Acho que foi um ótim o presente: m uito atencioso.
Carter o observou com cautela.
– Mesm o?
– Mesm o – respondeu Jack, dando um aceno firm e de concordância com a cabeça. – Aposto que ela adorou.
O estôm ago de Carter revirou de novo. Ele esperava que sim . Era o m ínim o que podia fazer por ela depois de tudo o que ela fizera e de tudo o que tinha aguentado dele.
– Detento 081056 – cham ou Ward, passando pela porta da cela de Carter. – Estou aqui para escoltá-lo para fora das nossas instalações.
Ele puxou os punhos da cam isa branca que estava usando debaixo de um blazer azul-m arinho.
– Beleza – m urm urou Carter com um olhar sarcástico.
Carter seguiu Ward, um guarda e Jack em direção à saída dos fundos da penitenciária, onde assinou m ais um form ulário de soltura e ainda recebeu um a outra cópia das regras de sua condicional.
– De quantos desses um a única pessoa precisa? – perguntou ele, incrédulo, em purrando o pedaço de papel para o fundo de sua caixa.
– Bem – respondeu Ward enquanto brincava com a caneta –, todos sabem os com o você tende a ser esquecido quando se trata de regras, Carter.
Carter pegou sua caixa.
– Foi um a pergunta retórica, bundão.
Os olhos de Ward se estreitaram , irritados.
– Do que foi...
Jack se enfiou no m eio dos dois hom ens.
– Vam os lá, Wes. Hora de ir.
Ele em purrou o om bro de Carter, guiando-o rum o à saída.
Carter sustentou o olhar em Ward antes de perm itir que Jack o levasse até a porta. O sol estava forte para setem bro. Carter fechou os olhos e ergueu o rosto, absorvendo-o.
– Bom ?
Jack riu ao lado dele.
– Sim – respondeu Carter.
Ele abriu os olhos lentam ente e com eçou a revirar a caixa. Levou alguns m inutos xingando e resm ungando antes de encontrar os óculos de sol e colocá-los no rosto.
– Agora estou pronto – disse ele com um sorriso largo.
Jack olhou para o outro lado do estacionam ento e viu um a figura fam iliar, grande e de cabelos pretos, encostada com um a postura arrogante na porta de um veículo bem m asculino, fum ando um cigarro.
– Aquele é o Max?
– Não com ece – avisou Carter, erguendo as sobrancelhas. – Ele está aqui para m e buscar porque nem fodendo que eu vou para casa a pé.
Jack tirou sarro.
– Bom , é com certeza um conflito de interesses fazer o cara vir aqui buscar você quando...
– Olhe só! – Carter interrom peu a lição de m oral de Jack com veem ência. – É o dia da m inha soltura. Enfim vou m e livrar deste lugar e, neste m om ento, estou de bom hum or. Por favor, não estrague o m eu dia, J. Já tive a m inha cota de aporrinhação.
A voz de Carter era firm e, m as suplicante.
– Está bem – cedeu Jack. – Está bem .
– Ótim o. – Carter suspirou. – Então, vej o você na sexta?
– Sim – respondeu Jack. – Na sua casa às seis. Não esqueça.
Carter balançou a cabeça.
– Com o se isso fosse possível com as seis folhas de papel para m e lem brar.
Jack passou a m ão am igavelm ente no om bro de Carter.
– Cuide-se.
– Pode deixar – disse Carter. – Até m ais.
Ele com eçou a cam inhar na direção de Max, que estava sorrindo feito um idiota; seus óculos de aviador espelhados cintilavam sob a luz do sol.
– Qual a boa? – cum prim entou ele em m eio à fum aça que saía de sua boca.
Carter sorriu, apesar da aparência desgrenhada do am igo. Sua cam iseta do AC/DC estava am assada e a calça j eans que usava parecia que não via um a m áquina de lavar roupa fazia tem po.
– Nada de m ais; acabei de ser solto da prisão, sabe com o é.
– A velha ladainha, hein?
– Você conhece.
Carter colocou a caixa no capô do carro e apertou a m ão de Max antes de eles se abraçarem , dando tapinhas nas costas um do outro.
– É bom ver essa sua cara feia – disse ele, pegando o cigarro que Max estava oferecendo.
Ele analisou o am igo enquanto dava um a boa tragada. O cabelo estava m ais com prido e a barba não era feita havia algum tem po.
– Com o tá?
O rosto de Max se contraiu.
– Tô bem .
Carter suspirou.
– Tem certeza?
– Sim , cara. – O sorriso que Max deu era tím ido. – Aquele era o Parker?
Carter confirm ou com a cabeça e se apoiou no carro.
– Carter!
Os dois hom ens ergueram os olhos e viram um a ruiva que parecia nervosa, acenando hesitantem ente e atravessando o estacionam ento na direção deles.
– Quem é aquela?
Max baixou os óculos até deixá-los na ponta do nariz. Carter logo notou o tam anho das pupilas de Max e as olheiras debaixo de seus olhos que berravam devido às poucas horas dorm idas. Droga, ele estava chapado. Caram ba. Não era nem m eio-dia.
– Ninguém – respondeu Carter, balançando a cabeça com irritação. – Segure isto aqui por um m inuto.
Ele entregou o cigarro a Max e com eçou a correr entre os carros em direção à sua Pêssegos. Ele não queria que Max a ficasse secando enquanto eles conversavam . Chapado, aquele babaca podia dizer qualquer coisa.
– Oi – ofegou ele, parando em frente a ela.
– Oi – devolveu ela. – Desculpe. – Ela deu um a olhada por cim a do om bro dele. – Eu... sei que você provavelm ente quer ir em bora logo, m as, bem , eu...
– Não tem problem a nenhum – interrom peu Carter. – Aquele é só o m eu am igo Max. Vai m e levar para casa. – Ele tirou os óculos e os enfiou na gola da cam iseta. – O que foi?
Os olhos dela passearam por ele de um j eito que fez o coração de Carter disparar.
– Recebi seu presente, o livro, e eu... só queria agradecer. Foi... – Ela m ordeu o lábio com força.
– Você gostou? – perguntou Carter, ansioso, enfiando as pontas dos dedos nos bolsos da calça.
Os olhos dela se arregalaram .
– Se eu gostei? Eu am ei. Foi perfeito e m uito atencioso. Obrigada.
Carter ficou se m exendo no m esm o lugar.
– Bem , sabe... – Ele coçou a cabeça. – Você disse que tinha perdido o seu e, bom , agora você tem um .
– É – falou ela em voz baixa. – Já li duas vezes. É m aravilhoso.
O sorriso de Carter aum entou ainda m ais. Ela parecia tão feliz.
– Ótim o. De nada, Pêssegos.
– Eu tam bém queria entregar isto a você. – Ela rem exeu no bolso da calça cinza e puxou um pequeno cartão repleto de núm eros. – Nossa prim eira aula está m arcada para terça às quatro horas na biblioteca da Rua 42. Aqui está o núm ero do m eu celular e m eu... m eu telefone de casa, bem , caso você não possa ir ou vá se atrasar ou o que quer que sej a. – Ela gesticulou com o que desinteressada.
– Só achei que você deveria ter algum a form a de entrar em contato com igo.
Ela entregou o cartão a Carter. Será que estava ficando verm elha?
– Essa foi um a baita de um a ideia. Obrigado.
Ele enfiou o cartão no bolso de trás da calça.
– Então – continuou ela –, vej o você lá?
– Com certeza – respondeu ele.
O nervosism o dela era desconcertante, m as m uito fofo.
– Ótim o – disse ela, dando um passo para trás. – Vou deixar você ir. Cuide-se.
Ele a saudou com dois dedos preguiçosos na têm pora.
– Você tam bém .
Ela deu um sorriso tím ido, se virou, e retornou para a penitenciária.
Quando ela passou pela porta e não podia m ais ser vista, ele soltou um suspiro desconfortável.
– Caram ba!
Pêssegos norm alm ente era tão controlada. Ele confiava na disciplina dela para m antê-lo calm o.
As aulas com toda a certeza não iriam dar certo se eles continuassem a se com portar daquela m aneira um com o outro. Talvez toda essa história de aulas particulares fosse um a furada. Ele colocou os óculos de novo e voltou para o carro.
Max estava rindo.
– Algo que você queira com partilhar?
Ele ergueu as sobrancelhas.
– Não – rosnou Carter por causa da pergunta am bígua. Percebendo quanto ele tinha soado protetor, ele riu, tentando esconder sua irritação. – Ela é apenas um a professora de literatura, só isso.
– Professora, é? – perguntou Max olhando para a porta pela qual ela havia desaparecido. – Cara, ela poderia m e dar aulas quando quisesse com um a bunda daquelas. É traseiro para ninguém botar defeito.
Carter segurou a língua e sorriu sem m ostrar os dentes enquanto m antinha os olhos na m açaneta da porta.
– Nem tinha notado.
Max bufou e tirou as chaves do carro do bolso.
– Então é isso, irm ão. Precisam os fazer você com er alguém .
Carter teve que rir e concordar plenam ente. Precisava relaxar e lim par a m ente. Ele era um hom em livre e estava pronto para curtir cada m inuto da sua liberdade.
Carter nunca tinha sido um cara caseiro.
Desde os 9 anos, ele era m andado de um lugar m iserável para outro. Se não fosse de um colégio interno para outro igualm ente pretensioso, ele costum ava, em geral depois de quebrar o pau com o pai, ficar na casa de am igos, dorm indo no sofá ou no chão. Sentia-se desconfortável de ficar em um m esm o lugar por m uito tem po.
Sua vida era assim : instável.
Por isso ficou surpreso quando foi tom ado por um sentim ento avassalador de alívio ao colocar a chave na fechadura de seu loft na esquina da Greenwich com a Jay, no bairro de TriBeCa, em Manhattan. Ele abriu a porta e ficou parado por um instante para perm itir que os arom as do lugar o inundassem .
Max cutucou as costas de Carter.
– Está pensando em entrar aí?
– Sim .
Carter entrou no apartam ento e fechou a porta atrás de Max, que estava carregando sua caixa.
Carter j ogou as chaves em um a m esinha e deu um a olhada em volta. Pé-direito alto, piso de m adeira e m óveis m arrons e beges. Sua coleção de violões vintage ainda estava na parede, j untam ente com as fotografias em preto e branco de um artista local que ele vinha colecionando ao longo dos anos. Peças ornam entais de m otos Harley e Trium ph estavam espalhadas pelo apartam ento, brilhando sob o sol que penetrava pelas j anelas de três m etros de altura.
Max tinha providenciado um a diarista para lim par tudo um a vez por sem ana enquanto Carter estava preso, para garantir que tudo perm anecesse daquele j eito.
– Tudo direitinho, né? – perguntou Max.
Carter sorriu.
– Sim . Obrigado.
– Não tem de quê.
Max se dirigiu à geladeira duplex de aço inoxidável e a abriu para exibir o am plo estoque de bebidas alcoólicas.
– Surpresa! – disse ele, dando risada. – É tudo para você, m eu am igo.
Ele abriu duas garrafas de cervej a e entregou um a a Carter.
– À sua liberdade – brindou Max solenem ente quando eles bateram os bicos das garrafas; e, então, tom ou um gole.
Carter ficou superfeliz pelo fato de bebidas alcoólicas não serem proibidas no período de sua condicional, m esm o às onze da m anhã.
Ele arrotou alto, satisfeito, e sorriu.
– Eu estava precisando disso.
Max entregou outra cervej a a ele.
– Então, Carter, hom em livre extraordinário, quais os planos para o resto do dia?
Carter bebericou sua cervej a pensativam ente.
– Bom , preciso de um bom banho. E cortar o cabelo e tirar um bom cochilo na m inha própria cam a.
Max revirou os olhos.
– Cara, isso é o m elhor em que você consegue pensar?
– Não. – O rosto dele ficou sério. – Quero ver m inha m enina.
Max sorriu.
– Ela está bem ? – perguntou Carter. – Você cuidou dela?
– Ela está linda e, sim , cuidei dela com o se fosse m inha.
– Me leve até ela.
Ele seguiu Max para fora do apartam ento e desceu correndo as escadas do prédio em direção à garagem subterrânea. Max se encolheu quando as luzes se acenderam e Carter ofegou quando viu sua m enina dos olhos; ela estava espetacular, de tirar o fôlego.
– Oi, linda – sussurrou ele.
Esticou o braço para que seus dedos tocassem o banco de couro im aculado de sua Harley -Davidson Sportster preta. Kala. Ele engoliu em seco quando passou a m ão no guidão. Fazia tanto tem po. Max assobiou e, quando Carter se virou, j ogou a chave para ele, que a pegou em cim a do peito.
– Ela está m aravilhosa, Max. Obrigado.
– O óleo foi trocado e ela foi polida. Eu m esm o fiz isso, é claro; não deixei aqueles m alandros sebosos da oficina encostarem nela, por m ais que eles insistissem .
Carter esfregou reverentem ente os dedos no m otor V2. Ele não tinha percebido o quanto sentia falta de pilotar. Um a im agem deliciosa de sua Pêssegos m ontada em sua m oto com os j oelhos pressionados contra suas costelas enquanto eles iam para o litoral, agarrada a ele enquanto Carter pilotava a toda a velocidade, brotou em sua m ente. Ele logo se recom pôs e se levantou do lado de Kala, onde estava agachado, deslizando m ais um a vez a m ão pelo lindo m etal.
– Vej o essa sua cara safada m ais tarde – prom eteu ele antes de passar por Max e subir de volta as escadas do prédio.
– Beleza, cara, tenho um as coisas para ver e um as pessoas para fazer.
Max sorriu, se encostando na porta do apartam ento de Carter.
Carter franziu a testa. Seu am igo tinha envelhecido de m aneira considerável nos últim os m eses.
Havia rugas em seu rosto que não estavam ali antes.
– Você fique longe de encrenca, ouviu?
Max zom bou.
– Está tudo na boa, cara.
Mas o brilho vítreo nos olhos dele sugeria o oposto.
Max passou a m ão pelos cabelos escuros e bagunçados e sorriu despreocupado.
– As coisas estão sob controle. Não tem por que se estressar, certo? Aprendi que não posso controlar tudo.
Ele fungou.
– Max...
Max colocou a m ão no om bro de Carter.
– Vou voltar m ais tarde com com ida e m ulheres. Lá pelas sete, beleza?
Carter suspirou, segurando-se para não falar m ais nada.
– Parece ótim o.
Os dois apertaram as m ãos e ficaram se olhando por um instante em um silêncio com preensivo.
– É bom ter você em casa, cara – m urm urou Max.
– É bom pra m im tam bém .
Max apertou a m ão de Carter.
– Pelo que você fez por m im e... Por ter sido preso quando você nem sequer... Eu j am ais vou conseguir agradecer o suficiente...
– Ei – interrom peu Carter. – Está tudo bem , irm ão. Eu devia a você.
Max respirou fundo, a angústia e a desolação claras em seu rosto.
– É. Vej o você depois.
Assim que Max foi em bora, Carter fechou a porta e se encostou nela com um suspiro alto. Deu um a olhada em torno do apartam ento, pensando em que diabos deveria fazer. Em Arthur Kill, ele tinha um a rotina, um a program ação, pessoas que lhe diziam quando e onde precisava estar. Agora, era livre para fazer o que quisesse, quando quisesse. Dentro do razoável. Era estranho.
Desanim ado, olhou para o relógio na parede e sua m ente viaj ou diretam ente para Pêssegos. Ela deveria estar em sala de aula com Riley e com panhia agora.
De m aneira ultraj ante, o ciúm e brotou em seu estôm ago.
– Recom ponha-se, seu idiota – m urm urou ele.
Ele pegou a cervej a no balcão e foi até o quarto.
Ele teria Pêssegos só para si na terça à tarde de qualquer form a. Sorriu enquanto tirava as roupas e ia para o chuveiro. Estava m ais do que pronto para m andar por água abaixo, tanto de seu corpo quanto de sua m ente, todos os vestígios de Arthur Kill.
12
Kat puxou a bolsa m ais para cim a no om bro enquanto entrava na biblioteca. Cam inhou em direção à enorm e m esa da recepção e sorriu para a Sra. Latham , que trabalhava na biblioteca havia décadas.
Ela estava lá no dia em que a Sala de Leitura Daniel Lane foi inaugurada, depois que ele m orreu.
– Boa tarde, Kat – disse ela, em purrando os óculos para cim a em seu pequeno nariz.
Todo o seu rosto, contornado por cabelos castanhos grisalhos, se enrugou quando ela sorriu.
– Boa tarde, Sra. Latham . Você parece bem .
– Obrigada. Você vai usar a sala de leitura?
Ela deu um a folheada no livro de agendam entos em sua m esa.
– Vou. – Kat entregou um a folha im pressa para ela. – Reservei esse dia e horário indefinidam ente.
– Ah, aqui está, querida.
Ela entregou a Kat o form ulário de registros, que estava em branco. Carter ainda não tinha chegado.
Kat assinou seu nom e.
– Quando m eu aluno chegar, você pode pedir que ele venha diretam ente até m im depois de assinar?
– Claro.
Kat vagou pelo prédio irretocável, indo na direção da sala de leitura construída com o parte dos desej os que o pai deixara em seu testam ento. Kat sem pre am ou ler, e seu pai quisera criar um lugar onde não apenas ela m as outras pessoas tam bém pudessem se perder nas páginas dos livros.
O plano dele era fazer isso antes dos 50 anos, o que nunca aconteceu.
Kat largou a bolsa em um a das largas m esas de carvalho e se sentou. Pegou todo o m aterial para que ela e Carter pudessem com eçar a trabalhar im ediatam ente. Kat não queria perder tem po. Ela j á ficava nervosa dem ais na presença dele.
A verdade era que depois de ter visto Carter tão... civil, ao deixar Arthur Kill, Kat tinha finalm ente aceitado que talvez ela tivesse um a queda por ele. A lem brança de Carter com seus cabelos raspados e olhos azul-claros, seu corpo coberto por um a cam iseta apertada e j eans de cintura baixa voltou à m em ória de Kat.
Por que tinha que ser dos Ram ones? Ela adorava os Ram ones. E os adorava ainda m ais esticados sobre o peito largo e os bíceps fortes de Carter. Tam bém não tinha conseguido desviar os olhos da tatuagem dele. Labaredas deliciosas de tinta preta e verm elha decoravam a pele dele do cotovelo de um braço até o pulso de outro; as linhas, ilustrações e palavras intrincadas que ela não conseguia entender direito eram deslum brantes.
E m uito, m uito sexy.
Droga. Ela estava um caco. Tudo o que queria era agradecer pelo presente de aniversário incrivelm ente atencioso que ele tinha dado a ela, m as acabou gaguej ando feito um a idiota.
Aquilo fora tão estúpido; e não apenas porque ela era a professora e ele o aluno (que clichê).
Carter era de um m undo diferente. E isso nada tinha a ver com seu passado crim inal, em bora este fosse definitivam ente um com plicador. Ele era irritadiço e teim oso, hostil e presunçoso. Era tudo aquilo de que ela deveria fugir gritando. Mas Kat não conseguia negar que ele era tam bém inteligente, sensível e engraçado.
Deus, que bagunça. Por que ele não podia ser um cara norm al? Com o Austin.
Ela deu um a olhada no celular. Austin tinha m andado duas m ensagens para desej ar boa sorte com Carter e contar que estava pensando nela. Ele era irresistivelm ente gentil, m as aquela inquietação ainda perdurava.
Kat parecia ter sido atingida por um raio.
Será que Carter era o m otivo pelo qual ela se sentia tão desconfortável com Austin? Será que ele era a causa do peso em seu estôm ago, do desconforto, do sussurro de desconfiança e a razão pela qual seu coração disparava?
Droga. Ela tirou a franj a do rosto. Aquilo j á tinha ido longe dem ais. Kat sabia que precisava crescer e parar de agir com o adolescente. Aquela era a prim eira aula particular com Carter fora de Arthur Kill e, por Deus, ela iria agir com o a profissional que era.
Decidida, cruzou as pernas e esperou.
À m edida que os m inutos passavam , o pé com eçou a bater no chão. Quinze m inutos se passaram e ela ainda estava sozinha. E, agora, furiosa.
Ela deu um a olhada no celular para ver se havia algum a ligação perdida ou m ensagem dele.
Nada. Mordeu a bochecha por dentro, m orrendo de raiva. Devia saber que ele a decepcionaria. Ele era um crim inoso recém -libertado que precisava recuperar o tem po perdido. Por que razão iria se ocupar com ela, m esm o que aquilo fizesse parte do acordo de sua condicional? Tinha sido estúpida de pensar que ele havia falado sério ao dizer que queria continuar com as aulas.
Mais 15 m inutos se passaram e, com um a série de palavrões silenciosos, Kat com eçou a arrum ar suas coisas. Dane-se ele. Se não quisesse levar aquilo a sério, por que ela deveria se im portar?
Um a m ão em seu om bro fez Kat gritar.
– Calm a! – pediu Carter, erguendo os braços em rendição. – Sou eu.
Ela colocou a m ão na testa, tentando respirar.
– Caram ba. Você m e assustou.
– Não diga – respondeu ele enquanto seus olhos dançavam para cim a e para baixo no corpo de Kat, fazendo-a sentir um aperto no estôm ago.
Ele grunhiu algum a coisa e passou a m ão pelo cabelo. Um a m ão que, Kat percebeu, estava coberta de graxa.
Na verdade, ele estava quase todo coberto de graxa.
Ela o estudou da cabeça aos pés. O cabelo estava m ais curto; era óbvio que tinha ido visitar o barbeiro. Seu rosto, com o sem pre, lindo de m orrer, m as agora havia um a m ancha de graxa em sua bochecha direita. Sua cam iseta, preta com um a estam pa dos Strokes, era j usta e estava suj a e os j eans, Kat só podia supor, costum avam ser de sarj a azul.
– Que diabos aconteceu com você?
Ela tentou ignorar a luxúria que a sim ples visão dele segurando um capacete se instalou dentro dela.
Carter deu um sorriso m alicioso.
– Tive um a briga com um m otor V8 e perdi. Por isso estou atrasado.
A expressão presunçosa no rosto dele lem brou Kat de que estava furiosa. Ela se levantou e j ogou o cabelo por cim a do om bro.
– Sim , você está atrasado – rosnou ela. – Então a aula está cancelada.
Ela se virou para continuar colocando o m aterial na bolsa.
A risada de Carter era incrédula.
– Você está de brincadeira?
– Não – censurou Kat, m antendo-se de costas para ele. – Você está atrasado e eu não estou aqui para esperar enquanto você fica se divertindo com seus brinquedos. Nem sequer pensou em m andar um a m ensagem ou ligar para avisar!
Carter pegou no braço dela e a girou para que ficasse de frente para ele. Ela engoliu em seco ao ver a raiva no rosto dele.
– Ei – rosnou ele, seu nariz a poucos centím etros do dela. – Pare de dar piti e falar besteira por um m inuto e se acalm e!
O cheiro dele penetrou no nariz dela e na ponta de sua língua. Era intenso, fum acento e m etálico, fazendo os pulm ões de Kat form igarem .
– Me. Solte. Agora! – ordenou ela entre dentes cerrados.
Carter olhou para a própria m ão no braço dela e a soltou im ediatam ente.
– Desculpe – m urm urou ele, apesar de seus olhos ainda estarem trovej antes. – Olha, não vá em bora, tá? Só m e deixe explicar.
Ela cruzou os braços.
– Muito bem . Explique.
Os olhos de Carter se estreitaram .
– Conform e definido na m inha condicional – com eçou ele com os lábios quase fechados –, m eu em prego é na oficina m ecânica do m eu m elhor am igo. – Ele apontou para a graxa que cobria suas roupas. – Max estava tendo dificuldades com o m otor de um Corvette. Me ofereci para aj udar pouco antes de sair e deu tudo errado. Eu teria ligado ou m andado m ensagem para você, m as estava ocupado m e certificando de que peças de um m otor de 90 quilos não caíssem na cabeça dos m eus colegas de trabalho.
Kat analisou o que ele tinha dito. Ele era tão m ásculo e forte, parado ali com suas roupas suj as e a barba por fazer. Ele gotej ava sexo. Quando pegou em seu braço, não a m achucou, é claro, m as a sensação das m ãos dele em sua pele foi difícil de ignorar. E ainda estava ali, bem no fundo de seu corpo, em lugares que só ele poderia alcançar.
Ela soltou os braços e deu de om bros.
– Está bem . Tanto faz.
– Me desculpe. O quê?
Carter se curvou, de m odo que seus olhos ficaram no m esm o nível dos dela.
– Eu disse que tudo bem . Vam os com eçar de um a vez – resm ungou ela.
Burra condescendente. Ela apontou bruscam ente para a cadeira do outro lado da m esa.
Carter se sentou e com eçou a rem exer em sua m ochila enquanto Kat o observava de form a velada. Ele pegou um pacote grande de biscoitos Oreo e os colocou na m esa.
Kat ficou boquiaberta. Ela não com ia Oreos havia anos. Nunca m ais tinha conseguido, visto que aquele era um hábito dela com o pai. Ele sem pre com ia o recheio; ela, o biscoito. Juntos, conseguiam devorar um pacote inteiro em m inutos.
– Não é perm itido com er aqui.
Ele deu um a olhada em torno da sala vazia.
– Você vai m e dedurar?
Kat se sentou.
– Só não faça bagunça.
– Pode deixar, Pêssegos.
Ele pegou um biscoito, abriu-o e lam beu o recheio.
Fascinada, Kat ficou observando a língua dele lam ber para cim a, para baixo e em volta. Com o é que com er um biscoito podia ser tão sensual, m eu Deus? Ela pigarreou e em purrou o trabalho de Carter em direção a ele. Ele j untou novam ente os biscoitos sem recheio e os colocou com cuidado em um guardanapo.
Carter pegou o papel à sua frente. Ele ergueu os olhos e viu Kat olhando fixam ente para seus Oreo sem recheio.
– O quê? Quer m eus biscoitos?
– Você... hum , só com e o recheio?
– Sim – respondeu ele. – Não gosto m uito do resto. Sinta-se livre para com er o lado no qual eu não passei a língua toda.
As bochechas dela queim aram .
– Não. Estou bem assim . Obrigada.
– Bem , a oferta está de pé. E não se preocupe – ele baixou o tom de voz –, tam bém não vou contar a ninguém .
Kat conteve um sorriso. Não m uito.
– Me diga o que você sabe sobre este poem a.
Ele deu um a olhada para baixo.
– Ora, ora. Esta é um a baita m udança. Bem diferente da Elegia de Tichborne. Assim eu vou ficar verm elho.
Ela gesticulou para que ele continuasse.
– “A pulga”, de Donne, pega um a ação em geral insignificante, m atar um a pulga, e a transform a em um a m etáfora sexualm ente pervertida.
– Sexualm ente pervertida? – questionou Kat, com a garganta seca.
Seu olhar som brio e seu sorriso m alicioso e sexy não eram o que ela precisava para se m anter focada e profissional.
Carter abaixou o rosto.
– Não se faça de recatada com igo, Pêssegos. Você sabe tão bem quanto eu que o poem a é sobre Donne fodendo a am ante.
A m aneira com o a boca de Carter se curvou na palavra “fodendo” fez a pulsação de Kat disparar.
– Pode falar m ais a respeito?
– Quando Donne fala do sangue que a pulga sugou tanto dele quanto de sua am ante, ele está falando de sexo, de seus corpos se unindo.
– Hum – disse Kat, m antendo os olhos na m esa e longe dos cílios longos e devastadores que raspavam nas m açãs do rosto de Carter.
Carter aproxim ou sua cadeira da dela.
– Isso foi um “hum ” de “concordo com tudo o que você acabou de dizer, Carter” ou um “hum ” de “você não faz a m ínim a ideia do que está falando”?
– Não, não, você tem toda a razão – respondeu Kat, arrependendo-se da escolha daquele poem a.
Que diabos ela estava pensando?
Sem dizer nada e sem hesitar, Carter colocou o cabelo de Kat atrás da orelha e ergueu o rosto dela na direção do seu. A sensação dos dedos calosos dele em sua pele atravessou o corpo de Kat com o um a bala.
– Pêssegos – m urm urou ele. – Cadê você? Você está a quilôm etros de distância.
– Só estava pensando... Sei que existe um a resenha sobre este poem a aqui em algum lugar. – Ela afastou o queixo e se levantou. – Vou procurar. Por que não faz um as anotações na sua cópia para a gente discutir quando eu voltar?
Kat correu em direção às prateleiras que continham todas as obras e as críticas de cada um a delas. Ela precisava se afastar de Carter.
Carter a observou sair e afundou na cadeira. Ele pegou outro Oreo e com eçou a lam ber.
Será que tinha ido longe dem ais com aquela coisa do cabelo e do queixo? Se soubesse... Ele não queria que ela pensasse que ele estava tirando proveito da situação agora que não havia guardas nem câm eras, apesar de não ter pensado em outra coisa desde o m inuto em que acordara. Droga, ela era tudo em que ele pensava recentem ente.
Três Oreos depois, ela ainda não tinha voltado. Ele checou a hora no celular e suspirou im paciente.
– Foda-se – grunhiu ele, levantando-se.
Enfiou as m ãos nos bolsos e saiu andando na direção em que ela havia desaparecido.
– Pêssegos? – sussurrou ele, procurando em cada corredor.
Ele j á tinha checado quatro corredores quando finalm ente a avistou de pé em um a escada grande, tentando pegar um livro na prateleira m ais alta. Ele foi até lá, lenta e silenciosam ente, seus olhos na altura das panturrilhas dela. Ele não pôde evitar lam ber os lábios ao ver aquela pele m acia e clara.
Ela não tinha percebido que ele estava ali, encostado nas prateleiras, contornando a curva de sua perna com os olhos. A m ão dele passou a agir por vontade própria e antes que tivesse ideia do que estava fazendo, Carter estava esticando o braço para tocar a parte de trás do j oelho de Kat.
– Carter!
Ele pulou com o grito dela, m as logo se endireitou quando ela perdeu o equilíbrio em cim a da escada e escorregou, agarrando-se aos livros em um a tentativa de não cair. Ele a segurou pela cintura, raspando nos contornos de seus seios m aravilhosos, garantindo que ela não caísse no chão.
Ela caiu em cim a dele, o que resultou em um barulho retum bante quando as costas dele atingiram a prateleira do lado oposto.
– Fala sério, Carter, esta é a segunda vez que você m e assusta hoj e – grunhiu ela, afastando-se dele.
– É, nem fale – m urm urou ele, esfregando a lom bar. – Acabei de salvar a sua vida.
– Foi você que m e fez cair – apontou ela.
Kat tinha dado um passo para trás. Que diabos foi aquilo? Ele foi para perto dela, apoiando a palm a da m ão nas lom badas dos livros ao lado de seu rosto. Ele podia sentir o cheiro do cabelo dela. Nossa! Tinha m esm o cheiro de pêssegos.
– Está tudo bem , Srta. Lane?
Os dois se assustaram com a voz da Sra. Latham . Carter piscou, reparando em com o eles estavam perto um do outro.
– Sim , estou bem – respondeu Pêssegos à velha, que estava de olho em Carter.
Ele deu um sorriso torto.
– Ouvi um grito.
Ela aj eitou os óculos.
– Sim – interrom peu Carter. – Fui eu. Vi um a aranha. Enorm e. Morro de m edo delas. Kat m e salvou.
Ele deu a ela o sorriso que era sua m arca registrada para encerrar o assunto, m as a pequena bibliotecária não pareceu se im pressionar.
– Bom , desde que você estej a bem , Srta. Lane.
– Estou bem , obrigada, Sra. Latham – garantiu Pêssegos.
A velha deu um a últim a olhada de desaprovação para Carter antes de desaparecer de volta em direção à sua m esa. Pêssegos caiu na risada. Ele riu tam bém , observando o nariz dela enrugar e em itir um pequeno ronco.
– Aranhas – ela conseguiu dizer.
– O quê? – perguntou ele, se encostando na prateleira ao lado dela. – Eu odeio.
Kat m eneou a cabeça.
– Você é um a figura, Sr. Carter.
Ele sorriu.
– Você sabe.
Eles ficaram olhando um para o outro por um breve instante, aparentem ente perdidos em seus próprios pensam entos, até que Pêssegos bateu o grande livro que tinha pegado da prateleira na barriga de Carter.
– Nossa!
– Aqui – disse ela com um sorriso. – Vam os falar m ais sobre suas m etáforas sexuais pervertidas.
Carter riu e ficou observando a bela bunda dela se afastar.
– Achei que você nunca fosse pedir – m urm urou ele, seguindo-a rapidam ente.
13
– Porcaria de m áquina!
Carter ergueu a vista do carburador detonado em suas m ãos para olhar para Max chutando a roda do Pontiac GTO de m otor V8 que ele estava xingando havia um a hora.
Carter foi até ele, lim pando as m ãos suj as de graxa em um pano que pegou no bolso.
– Ei, ei, calm a, cara. Não batem os em m ulheres. Qual o problem a?
Max passou a m ão pelo cabelo.
– Esta porcaria aqui.
Ele apontou para o carro.
Os olhos de Carter se arregalaram , ironicam ente horrorizados. Ele apoiou as m ãos na porta do m otorista do veículo alaranj ado.
– Não dê ouvidos a ele, gata – sussurrou para o carro. – Ele não falou por m al.
Max balançou a cabeça.
– Que sej a, cara. Para m im , chega.
Carter franziu a testa e apoiou o braço no teto do carro.
– Chega? – perguntou ele em um tom provocador. – Você desiste fácil assim ?
– Não – retrucou Max na defensiva. – Eu só não consigo... Esta coisa ainda está com o m otor acelerado e... Droga, Cam , dim inua essa bosta!
Cam correu até o aparelho de som no canto da oficina e dim inuiu a m úsica do Foo Fighters até soar bem baixinho.
Carter ficou olhando para Max, ciente de que aquele m au hum or não era fruto apenas da aceleração do m otor do carro.
Max deu as costas para o olhar penetrante de Carter e abriu um a lata de Coca, que logo com eçou a beber. Assim que term inou, se voltou novam ente para o am igo, soltando o peso do corpo na parede antes de deslizar por ela. Os olhos dele encontraram os de Carter por um breve m om ento antes de com eçar a explicar:
– O nível de açúcar no m eu sangue está baixo, cara.
Após ter sido diagnosticado com hipoglicem ia quando criança, Max costum ava conseguir m anter seu nível de açúcar bastante norm al, m as se transform ava em um babaca rabugento quando o nível baixava. Carter pegou um pacote de Mini Oreo em seu bolso de trás e o j ogou para o am igo.
Max colocou um na boca e m urm urou, satisfeito. Ele ofereceu o pacote a Carter, que pegou dois biscoitos.
– Então, o que m ais está acontecendo? – perguntou Carter após um silencioso m om ento de apreciação dos biscoitos.
Max desviou o olhar do am igo, que se agachou no chão perto dele.
– Desde quando guardam os segredos, Max?
– Não tenho segredo algum – respondeu Max, m eneando a cabeça. Ele parecia tão cansado. – Você sabe tudo o que tem para saber.
– Ah, é? – duvidou Carter. – Então, se sei tudo, quando exatam ente você ia m e contar que anda cheirando de novo?
Max m anteve os olhos no chão.
– É só por diversão, cara.
– Eu achava que você ia largar isso – disse Carter, exasperado.
– Eu sei, eu tentei. Você sabe que tentei. Mas m e alivia. – Ele esfregou a m ão no rosto sonolento.
– Eu não... Não tenho dorm ido bem . Para falar a verdade, não durm o bem desde que... desde que ela... Olha, a droga m e dá um gás.
O estôm ago de Carter se contraiu por seu am igo e sua incapacidade de falar da m ulher que tinha partido seu coração. Ele parecia tão perdido.
Carter cutucou o om bro de Max com o próprio om bro.
– Estou aqui se você quiser falar sobre a Liz...
Max ergueu a cabeça subitam ente, seus olhos queim ando.
– Não.
Carter suspirou.
– Está bem . Mas você precisa ser honesto com igo.
Carter deu um a olhada dura para Max, que a aceitou com um aceno lento de cabeça.
A honestidade sem pre tinha sido algo im portante para a am izade que eles construíram ao longo dos anos. A honestidade e a confiança.
– Cara, você está um caco. Seus nervos estão à flor da pele. Você está adm inistrando um vício caro. Paul m e contou que as finanças da oficina não andam lá m uito bem . Se você der um basta nisso, sabe que posso aj udar com a questão financeira da...
Max protestou.
– Não, Carter. Não quero seu dinheiro. Já disse isso a você antes.
– Não é o m eu dinheiro – retrucou Carter. – É o dinheiro dos Fords.
– Tanto faz – continuou Max. – Não vou aceitar. Depois de você ter ido para Arthur Kill por causa da Liz e de m im ...
A voz dele sum iu, aquele nom e com prim indo sua garganta de em oção. Então, ele tossiu um a risada am arga e fria.
– Que baita perda de tem po foi aquilo.
– Você teve notícias dela? – arriscou Carter delicadam ente.
Max quase nunca falava da m ulher que, ao largá-lo e desaparecer sem dizer ao m enos um “vai se ferrar”, tinha despedaçado seu coração seis m eses após Carter ter sido m andado para a Arthur Kill.
Max sacudiu a cabeça antes de soltá-la na parede.
– Nada. Nem sequer a porcaria de um a m ensagem . Nada desde o dia em que ela foi em bora.
Carter colocou a m ão no om bro de Max e deu um aperto, odiando o que Lizzie Jordan tinha feito com seu m elhor am igo. Por causa dela, o cara estava desolado, nutrindo um vício em cocaína que provavelm ente o colocaria na prisão, ou coisa pior.
– A oferta está de pé, tá? – disse Carter. – Estou aqui por você, cara, você sabe disso, m as estou na m inha condicional. Preciso m e cuidar tam bém .
A condicional, no entanto, não era o único m otivo para Carter m anter o nariz lim po. Ao contrário do que todos pensavam , ele tinha se afastado de todas as drogas um ano antes de ser enviado para Arthur Kill.
– Está tudo bem – disse Max, a m áscara da indiferença encobrindo a dor. – Está tudo sob controle, j uro. Ei, vou encontrar uns caras na sem ana que vem para fechar um acordo ótim o que vai resolver tudo. Quer participar?
O revirar de olhos furioso de Carter fez Max rir.
– Babaca. Sim , só vou ali ligar para o oficial da m inha condicional para perguntar se tudo bem . – Ele deu um soco no braço de Max. – Você se cuide, está m e ouvindo?
O celular de Carter vibrou em seu bolso. Levantando-se e afastando-se de Max, ele o tirou do m acacão e sorriu.
Tente não se atrasar de novo.
– É a sua professora? – perguntou Max com um sorriso com preensivo. – Fala sério, m eu irm ão, quando é que você vai traçar a garota?
– Cale a boca – grunhiu Carter.
Max riu de novo.
– O que está rolando entre você e ela, hein? É algo desse tipo?
Carter lim pou a garganta.
– Não – suspirou ele. – Não é nada desse tipo.
Ele lam beu os lábios e olhou para o m elhor am igo.
– É claro – provocou Max. – Se você ainda não com eu, está louco para com er. Está estam pado na sua cara. Não que eu estej a culpando você. Olha só pra ela...
Carter reprim iu o resm ungo de possessividade que subiu por sua garganta.
– É com plicado. – Ele fez um a pausa. – Ela é... Ela é a Pêssegos.
Os olhos de Max se arregalaram .
– Pêssegos? A m enina do Bronx, do pai que... Está brincando?
Carter ergueu as sobrancelhas.
– Caralho.
Na noite em que Carter salvou Kat, ele contou tudo a Max. Foi só naquele m om ento, com o am igo ao seu lado, a adrenalina ainda correndo por suas veias e o barulho do disparo ainda ressoando em sua cabeça, que ele chorou abertam ente de m edo.
Max se levantou do chão.
– Ela sabe? Você disse algum a coisa a ela?
Carter apertou o dorso do nariz.
– Não. Não disse. Eu nem saberia por onde com eçar.
Max cruzou os braços em frente ao peito.
– Entendo você. – Um sorriso curvou os cantos de sua boca. – Caralho, m eu irm ão, depois de todos esses anos... Você a encontrou.
Carter sorriu e coçou a nuca.
– É.
Max deu um tapa brincalhão no braço de Carter.
– Caia em cim a. Ela j á está bem crescidinha.
Carter bufou. Apesar da sugestão de Max de que ele usasse seu charm e de derreter corações para levá-la de um a vez para a cam a, com sua Pêssegos aquilo parecia... chulo dem ais. Ela m erecia m ais.
Ele deu um a olhada no relógio. Eram três e quinze. Faltava m enos de um a hora para encontrá-la.
Ele respondeu a m ensagem .
Eu não ousaria.
Aquilo não era totalm ente brincadeira. Ele tinha ficado surpreso com a reação dela a seu atraso na prim eira aula. Parecia que estava pronta para arrancar fora a cabeça dele. Conseguia entender os m otivos dela, m as, caram ba, a m enina era brava. Não que ele fosse m uito diferente. Mas, depois de toda a discussão e da queda, a aula tinha corrido bastante bem .
Era estranho com o o tem po passava rápido quando estava com Pêssegos. Parecia tão fácil estar com ela. Gostava da sua insolência e do seu entusiasm o. Faziam com que se lem brasse de sua própria paixão pelas palavras escritas; e ele sentia prazer em falar sobre as escolhas de vocabulário do autor e as com plexidades daquilo tudo.
Na verdade, ele gostava de conversar com ela. Ponto. Conversar com ela – e, agora, tocar nela.
Ele não conseguia parar de pensar na m aciez de seu cabelo, quando o aj eitou para trás de sua orelha, ou na suavidade da pele de seu j oelho. Será que a pele dela era m acia daquele j eito no corpo todo?
Ele pigarreou e sacudiu a cabeça para afastar a im agem de Pêssegos abraçada a ele enquanto ele m etia nela entre as prateleiras de livros.
Deus!
Ele queria m ais. E não apenas no sentido “quero-ver-com o-você-é-pelada”.
Com o seria estar sem pre ao lado dela? Um dos seus m elhores dias na Arthur Kill foi aquele em que ela contou sobre o pai e o livro que ele costum ava ler para ela. Tivera um a pequena am ostra da Kat Lane que existia fora das paredes do presídio. E, agora que ele tam bém estava do lado de fora, queria m uito ver m ais.
Com o ela reagiria se ele fizesse algum as perguntas pessoais? Só perguntas a respeito do que ela gostava e do que não gostava, não o núm ero do sutiã, nem nada desse tipo – apesar de ele ter ficado pensando sobre isso tam bém . Parecia que eles encheriam as m ãos dele perfeitam ente. O corpo dele reagiu de im ediato àquele pensam ento, o que era bem constrangedor, visto que estava cercado por um m onte de hom ens.
O corpo de Carter ainda parecia achar im possível se conter quando estava perto dela ou quando pensava nela. De qualquer form a, por m ais que tivesse adorado sugerir que eles fossem para a cam a de um a vez, ele sabia que ela não era esse tipo de m ulher. E tinha certeza de que se um dia soubesse que qualquer hom em a estava tratando assim , ele não teria problem a algum em foder. Com . O. Lance.
Deles.
A possessividade dele poderia ser um problem a.
– Carter?
Ele deixou seus devaneios de lado e olhou para Cam , que estava se encam inhando para a entrada da oficina.
– Tem um cara aí procurando você.
– Quem ? – perguntou Carter, largando o café.
Cam deu de om bros.
– Não faço ideia. Ele só disse que precisava conversar com você com urgência.
– E não é sem pre assim ?
Ele parou no m eio do cam inho quando viu quem estava esperando por ele do lado de fora da oficina, usando um terno que devia ter custado pelo m enos dois m il dólares. Carter xingou baixinho e deslizou a m ão pelo rosto, exasperado.
– Austin Ford.
Austin acenou com a cabeça.
– Carter.
Houve um m om ento de silêncio esm agador enquanto os dois hom ens se analisavam . Im paciente com o sem pre, Carter foi o prim eiro a interrom pê-lo.
– O que está fazendo aqui? – perguntou com um m ovim ento indignado de cabeça.
– Você não tem retornado nossas ligações – respondeu Austin, seu tom de voz calm o e arrogante.
– Vocês são uns panacas que não conseguem m e intim idar por telefone, então decidiram vir aqui fazer isso pessoalm ente? – retrucou ele.
– Não estam os intim idando você, Carter. Estes papéis precisam ser assinados.
Carter puxou o m aço de cigarros do bolso de trás e acendeu um , dando um longo trago. Ele apontou para Austin com o cigarro aceso entre os dedos.
– Esses papéis foram redigidos sem o m eu consentim ento, com o form a de m e tirar da j ogada.
Isso, m eu am igo, é intim idar. Intim idar de m aneira desleal e cruel.
– Carter. – Austin passou o dedo pela ponta do nariz. – Você não quer nada com a em presa.
Repetiu isso inúm eras vezes. Mas, m esm o assim , quando oferecem os um a saída, você cerra os pulsos e diz não.
– Balela – ralhou Carter. – Vocês estão m e oferecendo um a saída porque os Fords estão se cagando de m edo de que os acionistas da WCS descubram que a sua em presa é propriedade de um crim inoso. Irônico, é verdade, se você considerar os hom ens com quem vocês têm feito negócios. O
nom e Casari soa fam iliar?
Os olhos de Austin se estreitaram .
– Carter. Intrigas à parte, som os fam ília...
Os olhos de Carter queim aram .
– Não m e venha com esse papo de “fam ília”, Austin. – Ele sacudiu as cinzas do cigarro, não acertando o braço esquerdo de Austin por m ilím etros. – Você não era fam ília quando eu estava na prisão, então não finj a que se im porta agora!
Austin ergueu as m ãos em rendição.
– Está bem , está bem . Já entendi.
– Não – continuou Carter, dando um passo na direção dele. – Você não entendeu. Podem os ser parentes, m as isso não significa que eu pensaria duas vezes antes de quebrar a sua cara, aqui e agora, só para ficarm os quites.
Austin se recusou a recuar, m esm o quando Carter quase encostou o nariz no dele.
– Isso não seria m uito bom para a sua condicional, não é?
– Vá se foder, seu hipócrita – sibilou Carter. – Não fique aí m e olhando de cim a, com o se fosse m ais lim po que os lençóis de um a freira. Posso fazer um a única ligação sobre seus negócios com Casari e a polícia federal vai estar no seu encalço rapidinho.
– E, é claro, você tem provas sobre m im e Casari, certo?
Os dois hom ens ficaram se encarando, sem piscar nem recuar.
– Está tudo bem aqui?
Os olhos de Carter se desviaram para Max, que estava recostado na parede e tinha os braços cruzados em frente ao peito largo.