Desejo Proibido

Sophie Jackson · Capítulo 1 de 1 · parte 2/17

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Desejo Proibido

Prólogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.

– Ah, qual é? – insistiu ele, sacudindo o papel com sua redação. – Essa parte é engraçada!

– Você é um babaca – m urm urou Jason de sua cadeira, dissolvendo instantaneam ente o sorriso de Corey.

– Jason – falou Kat, cham ando a atenção do detento, a inquietação pinicando sua pele.

Corey retrucou com um a série de palavras nada bonitas antes de chutar as costas da cadeira de Jason. Com força.

– Cuzão de m erda!

– Ei – censurou Kat, o pânico crescendo dentro dela. – Agora não, rapazes. Vam os m anter a calm a e...

– Mas que porra! – retrucou Jason, ignorando-a. Ele com eçou a se levantar da cadeira e se virou para Corey. Seu corpo alto e seus om bros largos faziam Kat parecer um a anã. – Vai dizer isso na m inha cara, seu bosta?

– Ei – repetiu Kat, m ais alto, colocando-se entre os dois.

Corey se levantou, alto e m agro, sua pele negra brilhando sob as luzes fortes da sala.

– Vou quebrar a sua cara, seu m erda. É só dizer a hora.

– Rapazes, por favor...

– É o que vam os ver, seu filho da puta arrogante.

Jason fez um gesto para que o outro se aproxim asse.

O pânico com eçou a apertar a garganta de Kat. Ela ergueu as palm as das m ãos abertas na direção de cada um dos hom ens enquanto eles trocavam am eaças e xingam entos, fazendo com que um suor de pavor escorresse por sua testa. Se qualquer um deles desse um soco, ela estaria bem no m eio da briga. Kat ficou paralisada, o m edo solidificando suas j untas. O oficial Morgan e Riley tentaram se enfiar entre eles, buscando protegê-la. Ela podia ouvir Rachel gritando que ela se afastasse.

Mas Kat não conseguia.

O m edo m artelava sua cabeça. Ela tentou ficar calm a, lem brando-se dos exercícios de respiração contra ansiedade que sua terapeuta tinha ensinado, m as seu coração explodia contra suas costelas, provocando-a. Kat estreitou os olhos e lutou para m anter trancadas em sua m ente as m em órias de dezesseis anos atrás. Mas elas estavam desesperadas para vir à tona.

Respirando profundam ente, Kat tentou de form a frenética recuperar o

controle. Ela sabia que não

 

podia perm itir que seus alunos se com portassem daquele j eito. Era a aula dela, o tem po dela, o em prego dela, a prom essa dela.

Ela abriu os olhos, fechou os punhos e encheu os pulm ões.

– EI!!

Calados, todos ficaram olhando para Kat enquanto seu berro ricocheteava em volta deles. Riley, que estava parado ao seu lado, tentando ao m áxim o protegê-la de qualquer coisa que pudesse voar por ali, piscou, incrédulo. O silêncio surpreso durou uns trinta segundos antes de a porta se abrir e Ward entrar com o um a tem pestade, com um a expressão de trovão.

– Que diabos está acontecendo aqui? – rugiu ele.

O grupo que rodeava Kat com eçou lentam ente a se dispersar quando dois guardas apareceram na porta. Ela inspirou, trêm ula, e esfregou as m ãos suadas na calça. Pigarreou e se virou para o chefe.

– Nada com que se preocupar, Sr. Ward. Apenas um m al-entendido. Com o pode ver, estão todos bem agora. Certo, Corey ?

Ela o fitou com um olhar que exigia obediência.

Ele assentiu rapidam ente com a cabeça, ainda olhando para a nuca de Jason.

– Não pareceu ser nada. – Ward deu um a olhada em torno da sala, fitando com olhos severos cada um dos detentos até estar satisfeito por eles estarem sob controle. – Vim trazer seu novo aluno.

– Ele virou a cabeça na direção da porta. – Carter.

Carter estava parado no corredor com o oficial West, sorrindo ao ouvir Ward tentar reafirm ar qualquer autoridade que ele achava ter. Ele pegou im pulso da parede onde estava se apoiando e entrou na sala, arrastando os pés a cada passo.

A prim eira coisa que ele notou foi Riley do lado oposto da sala, cum prim entando-o com um aceno de cabeça e um sorrisinho. Depois, deu um a olhada casual para os outros, tentando discernir onde ele se encaixaria na hierarquia dali. Ele estava quase no topo, m as fez questão de checar prim eiro.

Naquele caso, Riley dom inava. Sim plesm ente.

Ele fez um a careta enquanto assim ilava os outros rostos. Jason podia ser arrogante, m as conhecia seu lugar, e Sam era quieto com o um rato. Nenhum problem a ali. Corey Reed, no entanto, era um pé no saco. Carter o fitou e sorriu quando ele se afundou na cadeira. Um a tossidela fem inina irritada interrom peu sua tortura visual àquele idiota.

Ele se virou na direção do barulho e encontrou a deliciosa Srta. Lane, braços cruzados em cim a do peito avantaj ado, olhando para ele de um j eito que fez os pelos de sua nuca se arrepiarem . Ela, com o as outras pessoas que não usavam m acacão, achava que era m elhor que ele. Não precisava ler pensam entos para saber disso. Talvez ela conseguisse esconder suas opiniões debaixo de sua blusa sexy e dos saltos altos, m as era com o todos os outros. Eram todos iguais.

Ele apoiou o peso do corpo casualm ente na perna direita e a encarou tam bém .

 

– Carter, esta é a Srta. Lane. Srta. Lane, este é Wes Carter – disse Ward, fazendo a devida apresentação.

– É só Carter – rosnou ele, m antendo os olhos fixos em sua nova professora.

Ward tinha plena noção de que não devia cham á-lo pelo prim eiro nom e, pelo am or de Deus.

– Bem , é um prazer conhecê-lo, Carter – disse a Srta. Lane.

Ele revirou os olhos.

– Tá, tanto faz.

– Você pode se sentar.

Ela apontou para um a carteira atrás dele.

Carter a ignorou, analisando os arredores.

– Sente-se, Carter – ordenou ela.

O olhar dele se voltou para ela. Sua boca, contraída, form ava um a linha fina, quase desafiando-o a enfrentá-la. O j ogo com eçou. Os olhos dele passearam preguiçosam ente pelo corpo dela. Curvas em todos os lugares certos, com um a bunda que ficaria espetacular com as m ãos dele em cim a. Ele deu um sorrisinho com aquele pensam ento.

Carter era alto, quase 1,90 m etro, e tinha o peito largo. Era uns 20 centím etros m aior que ela e pesava pelo m enos 30 quilos a m ais do que seu corpo fem inino. Mas m esm o assim a ruiva valentona perm aneceu firm e, sem m over um m úsculo, encarando-o. Se a atitude você-vai-ter-que-m e-engolir e im becil dela não o houvesse enervado tanto, talvez ele tivesse parado para considerar quanto aquilo o excitava.

Caram ba.

– Aqui, Carter.

A voz de Rachel interrom peu o clim a elétrico que pairava na sala. Ela foi até a cadeira m ais próxim a dele.

Carter, por m ais que detestasse interrom per seu contato visual com a professora, respirou fundo e se m oveu em direção à cadeira. O ar saiu trem endo de dentro dele quando suas íris azuis deixaram os grandes olhos verdes da Srta. Lane, que ardiam com o fogo.

– Bem – m urm urou Ward –, qualquer problem a... você sabe onde m e encontrar.

Ele deu um sorriso contido e, após terem tirado as algem as de Carter, deixou a sala com os dois guardas.

Kat não conseguia tirar os olhos da nova aquisição de sua turm a. Ele era um colírio, com seus cabelos raspados, om bros largos e fortes, barba de uns dois dias por fazer e pernas com pridas que não cabiam debaixo da carteira, m as seu com portam ento era agressivo. Havia um a aura de perigo em torno dele que gritava Não se aproxime. Ela notou um pedacinho de um a tatuagem preta espiando por debaixo da gola de seu m acacão, subindo pela nuca.

Rebelde.

Ela havia reparado no j eito com o ele tinha observado os outros alunos da sala – presunçoso e arrogante – e não gostara nada daquilo. Ele obviam ente era um babaca egocêntrico que se achava superior a todo m undo ali, inclusive ela, o que a irritava dem ais. Apesar de sua habilidade de calar a boca de todos com sua carranca som bria e hostilidade, aquela era a turm a dela. Não dele.

A agressividade de Kat era surpreendente e quase atípica. Mas a adrenalina ainda corria por seu corpo depois da confusão, e a últim a coisa de que precisava era de um idiota m etido a besta com o Carter para piorar tudo.

Kat levou um segundo para se recom por e então com eçou a atividade, explicando-a rápida e claram ente. Em poucos m inutos, todos estavam trabalhando. Parecia que o desentendim ento tinha sido esquecido, ou, pelo que se conhecia de Jason, tinha sido deixado para m ais tarde.

Ela cam inhou com firm eza na direção da carteira de Carter e colocou um caderno à sua frente.

Ele sequer se m exeu quando ela lhe pediu que escrevesse o nom e na capa.

– Carter – cham ou ela novam ente, a irritação subindo por sua espinha. – Você pode, por favor, escrever seu nom e na capa deste caderno? – Ela percebeu que os cantos dos lábios dele se ergueram .

– Algo engraçado?

Os olhos dele encontraram os dela, azul-claríssim os, ardentes e furiosos, m as ele não disse um a palavra.

Ela pegou um a caneta no bolso.

– É disso que você precisa?

Ela poderia j urar que os olhos dele se acalm aram , m as foi um a m udança tão rápida e passageira que ela dispensou aquele pensam ento. Ele ergueu a m ão e pegou a caneta, de m odo que a ponta de seu dedo tocou no dela. O contato foi com o o da pele nua com labaredas de fogo. O choque ardente de calor em anou da ponta do dedo dela até o fundo de seu estôm ago.

Desnorteada, Kat observou Carter escrever seu nom e na capa do caderno antes de largar a caneta e suspirar sarcasticam ente. Ele se recostou na cadeira, parecendo ser o dono do lugar. Kat não tinha dúvidas de que ele pensava exatam ente isso.

– Sei que você está atrasado, j á que se j untou a nós som ente hoj e, m as tenho certeza de que vai pegar o ritm o.

O rosto dele não expressou qualquer em oção ou pensam ento, então ela continuou m esm o assim , explicando o exercício de associação de palavras que a turm a tinha feito 24 horas antes com o preparativo para o de escrita criativa.

– Pode com eçar com isso – com pletou ela. – Escreva um a palavra que signifique algo para você e, daí, todas as palavras relacionadas a ela.

Nada.

Ela m ordeu a língua e colocou as m ãos nos quadris.

– Em seguida, pode escrever sobre por que aquela palavra é im portante para você.

Ele sorriu desdenhosam ente.

– Me desculpe – disse ela em tom de censura. – Algum problem a?

Ele a fitou, o rosto forte e aterrorizador.

– Você acha que sou burro?

Ela piscou.

– Não. Por quê?

Ele deu um risinho rápido.

– Isso é um pouco básico, não acha, Srta. Lane?

Ela apertou o m axilar. Não im portava quão inteligente Carter pensasse ser, o com portam ento dele a fazia querer arrancar o riso convencido daquele rostinho bonito. E com o era bonito. Os cílios que em olduravam seus olhos de cor azul-bebê eram perigosam ente longos, quase encostando nas m açãs do rosto, que eram m arcadas, m as m asculinas. Os lábios eram cheios e se franziam quando ele invocava aquele sorriso m alicioso. O nariz parecia ter sido quebrado algum as vezes, com um a pequena protuberância visível no dorso.

– Estam os dando início com essas atividades antes de m ergulharm os na literatura – explicou Kat por entre dentes cerrados. – Todos os cam inhos para todas as respostas com eçam com o básico.

– Legal – respondeu ele, j untando as sobrancelhas de um a m aneira que Kat só podia entender com o ironia. – Leu essa pérola em um biscoito da sorte, é?

Kat colocou as m ãos no tam po da carteira dele, invadindo seu espaço pessoal, sentindo cheiro de fum aça e calor.

– Não, não li – sibilou ela. – Então apenas faça o que eu peço. Caso contrário, a porta está ali.

Cuidado para essa sua atitude de m erda não ficar agarrada nela quando você sair, espertalhão.

Toda a sala pulsava com um silêncio explosivo. Carter encarou Kat por poucos segundos antes de se endireitar na cadeira, aproxim ando-se ainda m ais dela. Ela ficou m om entaneam ente abalada quando a respiração quente dele atingiu seu rosto.

– Olha essa boca suj a – rosnou ele.

O guarda se aproxim ou. Kat engoliu em seco.

– Não, Carter. Esta aula é m inha, não sua. Então faça o que eu m ando ou vá em bora. A escolha é sua.

Ela se virou e foi até Riley, cuj os olhos arregalados e boca aberta sugeriam que ele estava tão chocado quanto Kat de que ela tivesse posto à prova a paciência da pessoa m ais instável daquela sala. Kat não conseguia explicar. Sabia que sua conduta tinha sido arriscada e talvez um tanto antiprofissional, m as não podia perm itir que seus alunos se com portassem daquela m aneira. Ela não sabia de onde aquela coragem – ou burrice – tinha surgido. Talvez fosse um a necessidade profundam ente enraizada de se autoafirm ar depois das palavras nada estim ulantes de sua m ãe na noite anterior; talvez fosse o m edo que ainda form igava em sua pele do confronto entre Corey e Jason.

Algum a coisa em Carter a tirava do sério. Se ela não estivesse tão zangada, poderia ter curtido a energia que fluía por suas veias.

Ela conseguiu ignorar Carter pelos cinquenta m inutos seguintes, observando-o, de vez em quando, sentado em um silêncio presunçoso. Ela não o tinha visto sequer tentar fazer o que ela havia pedido.

Mané.

Os guardas vieram buscar os alunos quando ela estava fazendo o encerram ento da aula.

– Até depois, Srta. L – disse Riley, seguindo Jason e Rachel pela porta.

Carter passou trom bando em todo m undo, inclusive nela, sem a m enor consideração.

– É, até depois – m urm urou ela.

Assim que a porta se fechou, Kat se afundou em sua m esa e respirou fundo. Era óbvio que Carter ia ser um babaca com plicado.

Ótim o. Exatam ente do que ela precisava.

Afastando-se da m esa, ela pegou os cadernos e as canetas dos alunos. Fitou um tanto relutante o últim o caderno, em cim a da carteira onde Carter tinha estado. Kat ficou olhando para ele, frustrada, m ordendo o lábio inferior.

O que é que Carter tinha que a deixava tão pilhada?

Ela se aproxim ou do caderno com o um soldado se aproxim aria de um a bom ba não detonada e o virou, abrindo-o. Seus olhos se arregalaram e ela prendeu a respiração quando viu a palavra que significava m uito para o hom em que provocava tantas em oções nela.

DÍVIDA

5

Por doze horas, Carter não conseguiu fazer nada além de sentir raiva e de pensar em com o tornar a vida de sua nova professora um inferno. Ele ainda estava perplexo por ela ter falado com ele daquele j eito.

Ninguém falava assim com Carter.

Ninguém .

Jam ais. Na vida.

Muito tem po depois da aula, ainda não tinha conseguido se livrar da ira que ela provocara nele, da fúria absoluta de ter sido tratado daquela form a e, m ais enfurecedor do que tudo, do tesão selvagem que tinha feito trem er seu corpo todo.

Um a corrente elétrica parecera se instalar entre os dois quando ela vom itara aquelas palavras em cim a dele. Aqueles peitos grandes e seu tom de voz venenoso fizeram partes do corpo dele estrem ecer e pulsar – partes que andavam dorm entes fazia tem po e que o levavam a querer fazer coisas selvagens e desvairadas com ela em cim a de sua m esa, até que ela aprendesse com o devia tratá-lo. Ele estava detestando a si m esm o por pensar aquelas coisas de um a m ulher com quem estivera por 55 m inutos.

Sim , ela era gostosa; qualquer m acho podia perceber, com aquele cabelo ruivo de Dana Scully, os lábios rosados e cheios, a bunda perfeita e uns peitos de m atar. Deus, ela era sexy pra caram ba! O

desej o e a ânsia com que ela tinha batido de frente com ele foram tão inesperados que o tinham pegado desprevenido e, em um lugar com o Arthur Kill, essa era um a j ogada perigosa.

A Srta. Lane era um a hipócrita que precisava aprender rapidinho que ele não iria tolerar que ela falasse e agisse tão... sem m edo dele.

Coçou o nariz, lem brando-se da expressão no rosto dela quando dera um a bronca nele. Não havia um pingo de m edo, nenhum a faísca que sugerisse que ele a intim idava. A m ulher tinha um a energia tão feroz que ele podia senti-la no ar entre eles. Carter até tinha atendido seu pedido e escrito aquela palavra na qual ele baseava sua vida.

Não que ela fosse entender, m uito m enos ter um a experiência daquilo em sua vidinha linda e perfeita.

Outra coisa que o havia irritado era o fato de que os caras da turm a pareciam gostar dela – até m esm o Riley, que tinha dado risada enquanto Carter estava furioso e ralhava, incrédulo, durante um cigarro antes do alm oço. Carter não podia negar que não estava preparado para o tom protetor na voz de Riley e a sugestão de alerta em seus olhos.

 

– Você espera que eu respeite um a m adam e qualquer que provavelm ente nasceu num berço de ouro e nunca teve que lutar por nada?

– Não seria de todo m al – Riley tinha respondido, erguendo os om bros com indiferença.

Carter soltara um riso rápido e m eneou a cabeça. De j eito nenhum .

– Então – dissera Riley, quebrando o silêncio. – Ela é gostosa, né?

Carter não conseguira evitar a gargalhada que soltara.

– Se é.

Riley dera um tapa forte o suficiente para fazê-lo se encolher.

– Tá aí m ais um a im agem para sua coleção punheteira, m eu irm ão – sugerira ele, piscando.

Na m anhã seguinte, após algum as xícaras de café, Kat com eçou a organizar a sala. Depois de um a noite relativam ente boa de sono, tinha passado a enxergar o problem a com um pouco m ais de obj etividade. E concluíra que Carter estava em um am biente altam ente tenso e em otivo, e o fato de ela ordenar que ele fizesse o que ela queria não o tornaria m ais cooperativo. Ia ser difícil pra caram ba, m as ela havia decidido ao m enos tentar. Olhou para a cadeira vazia dele, im aginando sua postura relaxada e seu olhar penetrante. Senhor. Ia ser m ais com plicado do que ela pensava.

O que ela leu em sua ficha não foi um a surpresa. Carter era o garoto-propaganda dos rebeldes m arginais. Condenado a três anos de prisão por posse de cocaína 19 m eses antes, desde os 15 anos Carter vinha passando pelo m enos seis m eses por ano em centros de detenção ou encarceram ento de algum tipo.

Ele havia largado a escola, onde sua nota final estava acim a da m édia, aos 17. Destacava-se em esportes e inglês e tinha listado J. D. Salinger, John Steinbeck e Hubert Selby Jr. com o seus escritores preferidos. Estava claro que era inteligente, um fato que ele tinha tornado visível com seus com entários sobre quão “básica” ele achara a atividade que ela havia proposto na aula. Kat ficou irritada com a lem brança.

Ela sabia que podia m andar tirá-lo da sala para m ostrar que estava no com ando. Mas aí ele teria vencido. Desistir e fugir ou ignorar o problem a não funcionariam para Kat Lane. Ela j am ais seria forçada a fugir de qualquer coisa na vida novam ente. Ele não a derrotaria e o fato de ele sequer ter tentado a aborrecia.

Por conta de sua ânsia para que a m anhã passasse o m ais rápido possível, ela estava andando de um lado para outro quando os detentos entraram , liderados por Jason, que lhe deu um sorriso largo.

Riley se curvou em reverência e o seguiu em fila indiana. Ela estava rindo de Riley quando se virou e prendeu a respiração. Seu coração com eçou a palpitar quando Carter entrou na sala, ignorando Kat e em purrando Corey para longe do cam inho para chegar à sua cadeira.

A irritação irracional e o calor que ela havia abafado com suas suposições e a prom essa de tentar voltaram instantaneam ente quando seus olhos se encontraram por um breve segundo.

Pigarreando, Kat retornou à sua m esa.

– Fico feliz por estarm os todos aqui. Hoj e vam os iniciar nossos estudos de poesia, que é o que farem os pela próxim a sem ana, antes de com eçar nossa peça de Shakespeare.

Kat se encostou na m esa, sua pele form igando. Tinha notado a reação de Carter ao poem a que distribuíra e se forçara a ficar quieta, m ordendo o lábio com tanta força que quase arrancou sangue.

Ela se concentrou em continuar falando e não no desej o de fazer um a careta, m ostrar a língua ou fazer qualquer outro gesto igualm ente inapropriado.

Deus! Superm aduro, esse com portam ento!

Ela respirou fundo.

– Gostaria de com eçar perguntando o que vocês pensam de poesia.

A turm a perm aneceu em silêncio. Riley ficou exam inando o teto, com o sem pre fazia, com o se a resposta estivesse escrita lá, enquanto Jason e Corey ficaram olhando para ela com o se a professora tivesse outras três cabeças. Sam m anteve os olhos na carteira, feliz por perm anecer quieto depois do fiasco da aula do dia anterior. Ele odiava brigas.

Jason ergueu a m ão lentam ente, os olhos trêm ulos encontrando os de Kat.

– Elas podem rim ar?

– Com certeza podem – respondeu ela com um sorriso. – Assim com o o poem a que vam os estudar, m as esse nem sem pre é o caso.

– São sem pre coisas m ela-cueca, tipo am or – reclam ou Riley.

– Isso é verdade em alguns casos, Riley, m as não neste – respondeu Kat, m eneando a cabeça. – Acha que eu faria isso com vocês?

Riley riu.

O som claro de Carter m urm urando algum a coisa no dorso da m ão fez Kat virar a cabeça em sua direção.

– Desculpe, Carter, não entendi.

Ele largou as m ãos sobre a carteira e lançou um olhar fulm inante para ela.

– Tem os um a regra bem sim ples nesta aula – com plem entou Kat, visto que o silêncio continuou. – Se você tem algo a dizer, diga. Está bem ?

O sorriso que ela deu era gentil.

– Ou então o quê?

Kat inclinou a cabeça para o lado, estudando-o. Ele era inegavelm ente atraente, escondendo um a raiva que fervia devagarinho por baixo de sua pele.

– Ou então pode ir em bora. É sim ples assim . – Kat se aproxim ou, falando em voz baixa. – Eu j á disse. Esta é a m inha aula. Minhas regras. Você faz o que é pedido. – Kat ergueu o lado esquerdo da boca em seu próprio sorriso irônico. – Não é básico dem ais para você, é?

– Básico – m urm urou Corey por trás da m ão.

Antes que Kat pudesse dizer qualquer coisa, Carter socou a carteira com força suficiente para quebrá-la e a em purrou com tanta força que ela bateu na carteira de trás. Um silêncio furioso tom ou conta da sala.

– Tem algo engraçado, porra? – grunhiu ele para Corey, antes de dar um a olhada para o oficial West, que tinha saído de seu posto perto da porta. – Que tal com partilhar? – Carter continuou avançando em direção à sua presa. – Não gosto de ser deixado de fora de um a piada.

Ele era apavorante. E m aravilhoso. Kat estava enfeitiçada.

Ela se m oveu lentam ente.

– Carter, acalm e-se.

Carter a ignorou, curvando-se para encarar olho a olho um Corey alerta.

– Você está rindo de m im ?

– Vam os lá, Carter – m urm urou o oficial West enquanto olhava preocupado na direção de Kat.

– Carter, sente-se – pediu Kat, escondendo o pânico por trás de sua voz firm e e autoritária. – Não há necessidade disso. Relaxe.

– É, cara – continuou Corey. – Relaxe.

Em um m ovim ento rápido, Carter colocou as m ãos debaixo da carteira de Corey e a lançou com força contra a parede com um urro onipotente. O som da m adeira atingindo os tij olos revestidos ressoou pela sala com o sinos fúnebres.

Todo m undo se levantou im ediatam ente. O oficial West pegou o cassetete e deu o bote em Carter antes que ele se aproxim asse ainda m ais de Corey, que estava paralisado em sua cadeira. O corpo de Kat congelou atrás de um Riley pilhado, que tentava protegê-la com o corpo enquanto outros três guardas caíam em cim a de Carter.

Chocada, Kat observou por trás dos bíceps gigantescos de Riley o oficial West j ogar Carter contra a parede. Os guardas – cham ados pelo alarm e de pânico acionado por Rachel – estavam em cim a dele em um segundo. Kat se encolheu quando ouviu os grunhidos e os xingam entos de Carter enquanto eles o em purravam e esm urravam com força ao algem á-lo.

– Está m achucando, porra! – gritou ele na cara de um dos guardas antes de ter o rosto esm agado contra a parede de novo.

O oficial torceu o pulso dele ainda m ais com um sorriso sádico no rosto, fazendo Carter gritar de dor.

– Ei! – gritou Kat, escapando por debaixo do braço de Riley e passando por Corey, que ria.

Ela correu até o tum ulto de hom ens raivosos.

Carter, cuj a bochecha esquerda estava pressionada contra a parede, olhou furioso para ela. Ela olhou zangada para o guarda que tinha tentado quebrar o osso do pulso dele.

– Eu vi aquilo – censurou ela, apontando para as algem as de Carter. – Você não precisa m achucá-

lo. Não é necessário.

– Ah, Srta. Lane, é m uito necessário – retrucou o oficial com voz firm e. – É preciso m anter esses caras na linha, sabe?

Ele colocou Carter de pé.

Kat viu na hora o sangue escorrer do nariz até a boca de Carter.

– Ele está sangrando!

– Ele está bem – rosnou o guarda.

O guarda em purrou Carter para a frente, m as foi im pedido pela m ão firm e e im óvel de Kat em seu peito.

– Espere!

Ela parou por um segundo antes de ir até a bolsa pegar um pacote de lenços. Kat pegou um e voltou até Carter, cuj o rosto expressava m il e um a coisas diferentes.

Ele com eçou a protestar quando a m ão dela foi até seu rosto.

– Você não precisa fazer po...

– Cale a boca e m e deixe aj udar você – retrucou ela com tam anha determ inação e insistência que o fez ficar m udo.

Carter respirou fundo quando o lenço na m ão dela lim pou seu sangue. Os olhos dele no rosto de Kat deixaram um rastro de calor dos cabelos até sua boca. Tentando ignorar o fato de que seu coração estava prestes a explodir, Kat se concentrou ao m áxim o – passando o lenço de m aneira m ilim étrica –, m as estava sentindo todo m ovim ento que Carter fazia. Cada vez que sentia a respiração dele sussurrando em sua m ão, ela engolia em seco, e cada vez que o rosto dele se contorcia, seus pulm ões se com prim iam .

Ela lim pou o rosto dele com delicadeza, m as determ inação, até que ficasse m elhor, após a form a violenta com que os policiais tinham lidado com a situação. Ele não tinha m erecido aquele tratam ento. Ela olhou com atenção para o rosto de Carter e notou um a m arca com eçando a aparecer em sua bochecha.

O desej o de tocar o hem atom a fez Kat trem er até o últim o fio de cabelo. Ela lim pou a garganta e parou de olhá-lo nos olhos. Parecia não ter controle sobre sua própria m ão e suas intenções, visto que com eçou a m ovê-la na direção do rosto dele, da região sob o olho, onde o osso se proj etava em toda a sua glória escultural. Queria am enizar a verm elhidão com as pontas dos dedos e dim inuir a dor que ela sabia estar queim ando sob a pele dele, m as não podia.

– Prontinho – m urm urou ela, lim pando um a m ancha de sangue de seu polegar.

Carter franziu a testa. Ele chegou a abrir a boca, m as nenhum a palavra saiu. Em vez disso, só bufou antes de os três guardas o arrastarem , passando por Kat, para fora da sala.

Kat deu um suspiro e j ogou o lenço ensanguentado na lixeira.

6

Kat se virou e desligou o despertador antes m esm o de ele com eçar a tocar. Ela j á estava acordada havia m ais de um a hora.

Tinha se debatido na cam a a noite inteira pensando e analisando qual seria seu próxim o passo com relação a Carter. A segunda aula deles tinha sido um desastre com pleto – e isso j á era um eufem ism o. Ela tentara m anter a calm a. Deus, com o tinha tentado. Mas não fora o suficiente. Ela deixara que ele a enfurecesse m esm o assim .

Ela não fazia ideia do que Carter tinha que a deixava tão pilhada, tão fora de controle. Ele era, no fim das contas, com o todos os outros hom ens para quem ela dava aula. Bom , isso não era totalm ente verdade; ele era m uito m ais com bativo, agressivo e – ela trem eu só de pensar – m uito m ais atraente tam bém . Ela tentara não reparar nele com o qualquer outra coisa que não seu aluno, m as era difícil ignorar um hom em que a deixava m aluca.

Kat esfregou as m ãos no rosto. Ela não era estúpida a ponto de se envolver, em qualquer sentido, com qualquer um de seus alunos. A política de não confraternização da penitenciária era clara, e Kat gostava dem ais de seu em prego para colocá-lo em risco. Ela era profissional e ninguém , nem m esm o Carter, poderia fazê-la se esquecer disso.

Mas Carter ficava m ais lindo ainda quando estava furioso. A raiva dele parecia fazer sua pele brilhar e as linhas de expressão, que Kat im aginava serem m arcas causadas pelo ódio dele por tudo ao seu redor, se dissolviam , deixando seu rosto sereno e perfeito. Ele era, naqueles m om entos, a criatura m ais estupenda que ela j á vira.

Por m ais assustada que tivesse ficado ao vê-lo atirar a carteira contra a parede durante a aula, Kat tinha sido incapaz de desviar os olhos, observando com fascinação enquanto o m onstro que habitava dentro dele rugia. Ele era anim alesco e, naquele breve m om ento, com pletam ente livre. Era esse único pensam ento que fazia com que partes do corpo de Kat ganhassem vida de um j eito espetacular; era um lado de Carter que ela desej ava e detestava com o m esm o fervor.

Mesm o assim , o que quer que o corpo de Kat pensasse sobre o assunto, ela sabia que o fato de o guarda ter torcido o pulso dele era com pletam ente inaceitável. Carter não m erecia aquilo.

E ela iria dizer isso a Anthony Ward assim que chegasse ao trabalho.

Mas, por algum m otivo, o diretor não estava lá na hora em que ela chegou. Um pouco desanim ada e ainda m uito confusa, Kat com eçou a organizar sua sala, tentando ao m áxim o não pensar se Carter iria aparecer. Ela puxou a gola da blusa, frustrada, ao perceber que a parte dela que queria o cara na sala era bem m aior que a parte que não queria, e falou um palavrão em voz alta.

 

– Levantou com o pé esquerdo?

A voz de Rachel, parada na porta, dissipou aqueles pensam entos da cabeça de Kat por uns cinco segundos antes de a batalha dentro dela recom eçar. Ela sorriu e ergueu as sobrancelhas, incapaz de expressar de m aneira sensata por que estava xingando um a sala vazia.

– Ele foi afastado – disse Rachel de m odo casual enquanto colocava a bolsa sobre a cadeira.

Kat se virou.

– O quê?

– Carter. – Rachel deu de om bros. – Ward disse a ele que seu tem peram ento está fora de controle.

Ele é um a am eaça a si m esm o e aos outros.

– Que droga. E com o ele reagiu?

Rachel deu um sorriso esquisito.

– Com o sem pre reage: alguns palavrões e um a carranca. – Ela deu um passo em direção a Kat. – Isso vai afetar a liberdade condicional dele.

Kat ergueu as sobrancelhas, surpresa. Ela nem sequer sabia que ele estava sendo avaliado para isso.

– Quando o pedido de liberdade condicional vai ser revisto? – perguntou Kat.

– No fim do m ês.

A necessidade recém -descoberta de Kat de trabalhar com Carter ao invés de contra ele a surpreendeu. Ela o conhecia havia apenas dois dias, tinha trocado talvez um a dúzia de palavras com ele, a m aioria por entre os dentes, m as, m esm o assim sabia, lá no fundo, que existia algo m ais nele – algo que o diferenciava dos outros alunos. E que a atraía de um a m aneira que ela j am ais conseguiria explicar.

A am bivalência dele era frustrante pra caram ba e ele tinha um a arrogância que faria qualquer pessoa sã perder a cabeça. Apesar disso tudo, Kat tinha um desej o im enso de fazer as coisas darem certo, de aj udar.

Essa era sua dívida, afinal de contas.

Kat m eneou a cabeça, resoluta.

– O quê? – perguntou Rachel. – No que você está pensando?

Kat sorriu, sua coragem em ergindo.

– Acho que o Sr. Carter vai ter que com eçar a aguentar ficar perto de m im com m ais frequência.

– Mais forte!

Carter grunhiu.

– Eu disse m ais forte! Não senti nada!

Carter grunhiu novam ente, e m ais alto, quando seu punho acertou com força o escudo de proteção verm elho que o oficial da academ ia do presídio, Kent Ross, estava segurando à sua frente.

– Minha filhinha de 3 anos bate m ais forte! De novo!

Os olhos de Carter se estreitaram e suas j untas ficaram tão brancas quanto a bandagem em torno delas quando, com um grito apavorante, ele com eçou a esm urrar o escudo. Ódio, raiva, desej o, necessidade e vontade explodiram através de seus punhos com tanta força que Ross cam baleou para trás.

Após trinta segundos, os braços de Carter com eçaram a dim inuir o ritm o, à m edida que a adrenalina queim ava seus om bros intricadam ente tatuados, descendo pelos bíceps tam bém desenhados e os antebraços, que queim avam por conta das batidas incessantes. Ofegante, quase deu um beij o no rosto feioso de Ross quando ele disse que tinham term inado.

Carter adorava os exercícios físicos; eram a única parte de seu tratam ento de controle da raiva de que ele gostava. O terapeuta do presídio tinha sugerido que Ross trabalhasse com Carter depois de um de seus m em oráveis acessos de fúria, num a tentativa de canalizar parte da tensão.

Carter desabou no tatam e azul e ficou deitado de barriga para cim a, o peito subindo e descendo pesadam ente. Ele precisava m esm o parar de fum ar. Suas j untas doíam e seu rosto latej ava no ponto em que o guarda o tinha esm agado contra a parede durante a aula da Srta. Lane. Ele estava encharcado de suor.

– Você m andou bem – m urm urou Ross, observando o corpo inerte de Carter e entregando a ele um a garrafa d’água.

– Você quase m e m atou – respondeu Carter, pegando a garrafa com a m ão trêm ula.

Ele grunhiu ao se sentar, os m úsculos protestando na hora, e virou m eia garrafa em três goles gigantescos, derram ando um pouco nas costas em um a tentativa de am enizar o calor.

– Você precisa parar de fum ar – rosnou Ross, fazendo Carter rir. – Mas você se esforçou bastante – continuou ele. – Mais que de costum e. Algum a coisa nessa cabeça?

Ross e Carter tinham construído um relacionam ento sincero naqueles doze m eses em que vinham trabalhando j untos. Carter respeitava a atitude “tolerância zero” de Ross e gostava da m aneira com o exigia m ais dele. Mesm o assim , Carter não estava totalm ente convencido de que podia lhe contar o que ele queria saber. Ele riu por dentro porque, m inha nossa!, quem dera ele próprio soubesse o que dizer para descrever aquela confusão que estava em sua cabeça.

Ele estava sinceram ente surpreso por só ter j ogado um a carteira longe na aula da Srta. Lane.

Nunca, em toda a sua vida, ele tinha sido tom ado de tal form a pela fúria que a única m aneira de extravasar esse sentim ento era pegar a carteira e arrem essá-la o m ais longe possível. Em retrospecto, tinha sido um a ideia idiota, m as ele não tinha controle sobre si m esm o.

A única coisa que o incom odava – desde que saíra da sala de Ward, após o “incidente” – era o fato de ter sido banido das aulas da Srta. Lane. Definitivam ente. Não tinha perm issão para chegar perto dela ou de sua sala e, por algum m otivo que não estava fazendo sentido para ele, aquilo o deixava puto.

A ironia estava ali. Ele tinha reclam ado e ficado de saco cheio por ter sido m atriculado naquele curso. Mesm o assim , lá estava ele, confuso pra caram ba porque parte dele queria estar na turm a dela, ouvindo-a falar m aravilhas sobre poesia e outras besteiras que ele j á sabia. Queria se sentar na prim eira carteira e olhar para ela, tentando intim idá-la.

A Srta. Lane tinha cativado Carter total e verdadeiram ente e ele não sabia ao

certo se estava

 

perturbado ou fascinado com aquilo. Ele m al a conhecia, m al tinha falado com ela e, m esm o assim , não conseguia tirar o rosto dela de sua cabeça. Era tão... bonito.

Puta m erda. Estava perdendo a cabeça.

Xingou e bebeu o que restava de sua água antes de arrem essá-la na lata de lixo, onde ela aterrissou com um estrondo. Ross se largou no chão, sentando-se ao lado dele.

– Eu ouvi falar sobre seu... episódio... na sala de aula – com entou ele, de form a diplom ática.

O rosto de Carter ficou sério. Ross ergueu as m ãos, na defensiva.

– Ei, cara, não estou j ulgando ninguém .

Carter baixou os olhos. Ross esperou.

– É que... – com eçou Carter. – Na real, eu estou cagando para essas aulas. Digo, não sou idiota.

Eu leio e sei o que sei, m as... preciso delas para m inha liberdade condicional.

Ross perm aneceu em silêncio.

– Mas essa m ulher... – Ele se interrom peu, querendo nada m ais que arrancar a própria língua. – Eu não sei – finalizou Carter em voz baixa, m ais para ele m esm o do que para o hom em sentado ao seu lado.

Aquela era a explicação m ais honesta que podia dar, pois a verdade era que ele não sabia. Não sabia por que queria voltar às aulas da Srta. Lane. Não sabia por que ela o fazia se sentir tão desequilibrado e m uito m enos por que ela o tinha lim pado quando ele estava sangrando.

A única coisa que sabia era que tinha gostado. Tinha adorado o que ela fez e tinha adorado tê-la tão perto dele. Aquilo lhe dera chance de olhá-la com atenção. Ele j á tinha ficado com m uitas m ulheres bonitas, m as havia algo diferente na Srta. Lane. Ela era natural, curvilínea, quase não usava m aquiagem e ele tinha certeza absoluta de que os peitos dela eram os que Deus lhe dera.

Ele era um cara que gostava de peitos.

Ele tinha pensado em tocar nos dela.

Mesm o assim , o incidente da carteira tinha liquidado essa possibilidade.

Merda. A oficial de condicional ia ficar furiosa.

– Bom dia, Srta. Lane – cum prim entou Ward quando Kat se aproxim ou de sua m esa.

Ele apontou para a cadeira do outro lado.

– Bom dia.

– Então – disse Ward, passando as m ãos pelos braços de sua cadeira. – O que posso fazer por você?

Kat engoliu o nervosism o. Direto ao assunto.

– Ouvi dizer que o incidente com o Carter pode afetar seu pedido de liberdade condicional antecipada.

– Não existe “pode” nisso – respondeu Ward bruscam ente. – Ele não vai a lugar nenhum pelos próxim os dezessete m eses. Vai cum prir a pena com pleta e achar ótim o.

Algum a coisa no tom de voz dele irritou Kat.

– Sim – replicou ela, m antendo o tom de voz agradável. – Sei que ele tem um a reunião com a oficial de condicional m arcada para logo.

Ward confirm ou com a cabeça.

– E tam bém fiquei sabendo que não é apenas o bom com portam ento que pode afetar a decisão da Junta de Liberdade Condicional.

A sobrancelha de Kat se curvou quando ela viu a expressão de surpresa tom ando conta do rosto de Ward.

Ele se inclinou, descansando os cotovelos na m esa.

– Srta. Lane, aonde você quer chegar com isso?

– Tom ei a liberdade de m arcar um a reunião com o conselheiro de Carter, Jack Parker, esta tarde e gostaria m uito de conversar com a oficial de condicional durante a visita dela. Sei que tanto você quanto Jack podem arranj ar isso para m im ...

Ward ergueu a m ão para interrom pê-la.

– Desculpe, m as tenho que perguntar de novo. Aonde você quer chegar com isso, Srta. Lane?

Kat engoliu seco.

– Quero ser tutora do Carter.

Por um m om ento, Ward ficou com pletam ente perplexo.

– Você j á deu aulas para ele – retrucou Ward –, e ele foi afastado porque é visível para todos que vocês dois não se dão bem .

Kat ignorou o veneno nas palavras dele.

– Pode ser; m as talvez eu não tenha sido tão paciente quanto deveria em relação a ele. Quero aj udá-lo de todas as m aneiras que puder. – O rosto dela ficou quente frente ao olhar superatento de Ward. – Sei que ele foi banido de todos os outros cursos tam bém , então suas opções são m ínim as.

Acho que se eu conseguir dar aulas particulares para o Carter, as chances de ele perder o controle serão significativam ente reduzidas.

Kat tinha considerado essa questão com cuidado antes de entrar na sala de Ward. O fato de Carter intim idar seus alunos era um dos m otivos pelos quais ela havia perdido a cabeça com ele. Se fossem só eles dois, isso facilitaria as coisas, certo?

Ward se recostou na cadeira, parecendo totalm ente pasm o.

– Srta. Lane – m urm urou ele. – Só para esclarecer, você quer ser tutora do Carter... em aulas particulares... porque quer aj udá-lo com o pedido de liberdade condicional antecipada?

Ela deu um sorriso largo.

Ward ficou olhando para ela, incrédulo. Ele m eneou a cabeça.

– Não posso perm itir.

– Hum – respondeu ela, m ordendo a parte interna da boca, irritada. – Posso perguntar por quê?

Ele deu um sorriso irônico e endireitou os om bros.

– Não posso autorizar que você sej a colocada em um a sala sozinha com o Carter...

– Teria um guarda j unto – interrom peu ela.

Ward suspirou.

– Deixando essas obviedades de lado, Srta. Lane, você foi contratada pela penitenciária para dar aulas para um grupo de detentos durante um período específico. Agendado. Não para trabalhar com o professora particular. – Ele ergueu as m ãos para os céus em um a em patia zom beteira. – Não está no seu contrato e a penitenciária não pode lhe fazer um pagam ento extra para isso.

Kat sorriu para Ward, m as não era, de j eito nenhum , um sorriso am ável. Sabia que ele veria as coisas por esse ângulo, m as para ela não fazia diferença ser paga ou não. Em geral ela não falava sobre a fortuna de sua fam ília, pois, no passado, isso j á havia gerado certo m al-estar. No entanto, com Anthony Ward ela não se im portaria nem um pouquinho. Ser filha e neta de dois senadores de sucesso garantia que sua conta bancária estivesse sem pre bem provida.

– Sr. Ward – com eçou ela, com um tom sarcástico e um a expressão resoluta que o fizeram se m exer desconfortavelm ente na cadeira –, não estou fazendo isso pelo dinheiro.

Ward se recostou na cadeira.

– Tenho que adm itir que estou confuso agora, Srta. Lane – disse ele após um m om ento tenso de silêncio. – Vocês pareceram detestar um ao outro só de se verem . Por que, então, você faria tal coisa? O que ganharia com isso?

– Sou professora; portanto, por definição, m eu trabalho é ensinar. E é isso que quero fazer.

Parece óbvio que Carter tem dificuldades em estar em um a sala de aula com outros alunos. Assim , a única solução é tirá-lo de lá. – O olhar dela se tornou penetrante. – Acho que posso aj udá-lo, e o aprendizado dele vai ser o que vou ganhar com isso. Além do m ais – continuou Kat, decidida a ferir o orgulho de Ward –, se ele conseguir a liberdade condicional antecipada, isso não tornaria a sua vida m ais fácil?

Ela sabia que não havia, de fato, nenhum a afinidade entre Ward e Carter.

O canto da boca de Ward se curvou.

– Preciso dizer não m esm o assim , Srta. Lane. Isso levanta m uitas questões e a hora extra dos guardas...

– Sim , por falar em guardas, o guarda que agrediu Carter j á foi punido de algum a form a?

– Agrediu?

– Sim – respondeu Kat. – Ele torceu o pulso de Carter. Foi desnecessário e com pletam ente hostil.

Fiquei chocada.

Ela arregalou os olhos e colocou a m ão no peito. Kat queria que Ward entendesse o recado em alto e bom som . Ela sabia que o guarda não tinha sido punido, apesar de seu com portam ento ter sido gravado pelas câm eras de segurança da sala de aula.

– Entendo – m urm urou Ward. – Bom , é claro que não toleram os violência contra nenhum dos detentos. Vou averiguar.

– Ótim o.

A fam ília de Kat tinha grandes am igos em cargos políticos im portantes. Bastaria um telefonem a para ficarem todos no pé de Ward. Ele pigarreou e contraiu os lábios.

– Se eu concordar com isso – disse com arrogância e fazendo um gesto desdenhoso com a m ão –, o que faz você pensar que Carter aceitaria? Ele é conhecido por ser teim oso, com o você bem sabe.

Kat sorriu ao ouvir isso.

 

– Tenho certeza de que se você m e deixar conversar com ele, fazendo-o enxergar que só estou tentando aj udar, ele vai superar o orgulho e aceitar. Caso contrário – ela deu de om bros –, vou esquecer a ideia.

– E isso seria feito no seu horário de trabalho. Sem pagam ento – reforçou Ward, apontando um dedo para Kat.

– Exatam ente – concordou ela, querendo arrancar o dedo da m ão dele. – E vou dar a você um cronogram a para que possa arranj ar um guarda. De preferência não aquele que agrediu m eu aluno – com plem entou.

– Está bem .

– Ótim o. – Kat sorriu e bateu as m ãos nas coxas. – Vou m e encontrar com o Jack às duas. Posso conversar com o Carter? Eu gostaria de resolver tudo antes da folga do fim de sem ana.

Ward bufou e cruzou os braços.

– Peça que eles m e passem um rádio que eu o m ando até você.

– Obrigada, Sr. Ward – disse Kat com um sorriso derretido antes de sair, fechando a porta silenciosam ente.

Aquela tarde, Jack Parker ouviu a bela ruiva com total atenção enquanto ela expunha sua proposta em detalhes. Ele tinha ficado m uito intrigado ao receber um a ligação solicitando um a reunião com a Srta.

Katherine Lane. Seu prim eiro pensam ento foi de que ela queria registrar um a reclam ação contra Wes e seu com portam ento – e Jack não a teria culpado por isso. Então ele ficou chocado quando ela contou que queria aj udar com o requerim ento de liberdade condicional de Carter.

Se Carter iria topar era um a questão com pletam ente diferente. O tem peram ento dele sem pre o m etia em confusões das quais Jack tinha que salvá-lo, e o incidente com a carteira não era exceção.

O banim ento de Wes das aulas tinha sido um enorm e balde de água fria no requerim ento de liberdade condicional; portanto Jack teve vontade de abraçar a Srta. Lane até sufocá-la quando ela ofereceu aj uda.

– Preciso confessar que estou surpreso por Ward ter aceitado isso – disse Jack sorrindo, enquanto tom ava um gole de café.

– Bem , digam os apenas que sei com o apostar nesse j ogo – falou Kat.

O sorriso de Jack se abriu ainda m ais. Já tinha passado da hora de Ward ser posto em seu devido lugar.

– Ah é?

Kat riu ironicam ente por trás de sua xícara e não disse m ais nada.

A porta da sala sem graça e abafada se abriu e Carter, com um a expressão subm issa, entrou, seguido por dois guardas e Ward, que parecia bastante enfurecido.

– Oi, Wes – cum prim entou Jack, levantando-se.

– Oi – m urm urou Carter antes de desviar os olhos para a m ulher ao lado dele.

 

– Srta. Lane –

cum prim entou, sem m udar o tom de voz.

Ela suspirou.

– Carter, você pode, por favor, se sentar?

Carter observou a postura defensiva dela e sentiu seu corpo enrij ecer. Ela estava bonita pra caralho, ele tinha que adm itir. Ele tinha certeza de que ela fazia de propósito, só para atorm entá-lo. Ele se largou na cadeira e sorriu para Jack enquanto fazia um gesto “m e-dê-o-que-eu-quero” com os dedos.

Jack pegou um m aço de cigarros e alguns fósforos e os j ogou na m esa. Carter puxou um , colocou na boca, acendeu e puxou a fum aça com um sibilo baixo.

Observou a Srta. Lane e seus olhos verdes decididos enquanto exalava a fum aça.

– Vocês têm dez m inutos – rosnou Ward.

Ele cam inhou em direção à porta com passos largos e barulhentos.

– Talvez não estej am os prontos em dez m inutos – retrucou a Srta. Lane. – Vam os passar um rádio para você quando term inarm os.

Ward ficou paralisado e colocou um a das m ãos nos quadris enquanto coçava a testa com a outra.

– Está bem .

Jack e Carter trocaram olhares im pressionados. Carter ficou feliz da vida por ela bater de frente com Ward, quem sabe até com um pouco de ciúm es por Ward estar levando um a bronca e ele, não.

Continuar: parte 3 de 17