Desejo Proibido
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.
Ignorando a pergunta, Max respondeu:
– O que é que você está indo fazer lá, porra?
O tom de voz dele fez Carter se enervar.
– Dia de Ação de Graças – respondeu com firm eza. – Kat m e convidou. Eu contei, lem bra? Você disse que ficaria num a boa na casa do Paul.
Max riu, apesar de ter soado sem alegria algum a.
– Ah é. Você e Kat. O casalzinho feliz do caralho.
Lá vam os nós de novo. Houve um ruído na ligação, algo caindo no chão, e risadas agudas que só podiam ser fruto de agentes quím icos.
– Max. Você está bem ? O que está acontecendo?
– Não im porta – disse ele em tom de censura. – Você claram ente tem coisas m elhores para fazer, m eu irm ão. Sem pre tem .
Carter se enfureceu.
– Não é verdade. Não sej a babaca, Max!
Mas a linha ficou m uda. Carter ficou olhando para a tela do celular, incrédulo e raivoso. Ele e Max tinham conversado pouco sobre seu relacionam ento com Kat, em especial porque a am argura e a raiva de Max por Lizzie em baçavam sua capacidade de enxergar com o Carter estava feliz. Quanto m ais apaixonado Carter ficava por Kat, m ais ressentido Max parecia ficar. A alegria de Carter aparentava ter pouca im portância para Max, que estava envolvido dem ais em sua própria aflição. E a quantidade de cocaína que ele usava diariam ente só exacerbava a situação.
Carter estava de m ãos atadas.
Toda vez que se oferecia para aj udar – fosse com dinheiro ou apoio m oral –, encontrava resistência. O orgulho de Max era quase tão difícil de penetrar quanto sua teim osia. Carter e Paul tinham discutido um a intervenção – a única saída para Max agora era a reabilitação –, m as am bos sabiam que aquilo só podia acabar m al.
– Está tudo bem ?
A expressão de Kat era ansiosa.
– Não.
Carter enviou um a m ensagem para Cam e Paul, pedindo a eles que fossem à oficina e se certificassem de que Max não tinha se afogado no próprio vôm ito ou algo do tipo. Irritado, Carter com eçou a rem exer no rádio, brincando de trocar de estação por uns bons cinco m inutos, grato pelo fato de Kat não ter insistido em saber m ais.
– Não se esqueça de que você precisa ligar para Diane quando atravessarm os a fronteira – disse ela.
– É, eu sei – concordou ele, recostando-se no banco de couro do Jaguar XJ e deixando que o som de “Good Riddance (Tim e of Your Life)”, do Green Day, relaxasse seus ossos. Carter cantarolou j unto e tocou os acordes invisíveis da m úsica na veia azul do pulso de Kat. Ele levou a m ão dela até seus lábios e deu um beij o na articulação de seu dedo.
– Me conte o que está preocupando você – m urm urou ela.
Ele respondeu com um a erguida rabugenta dos om bros, com o se aquilo fosse desencoraj á-la a fazer perguntas. A verdade era que não havia com o escapar de Kat e de qualquer coisa que ela lhe indagasse. Ele iria continuar preso a um banco de couro crem e, afivelado, viaj ando pelo país a 110
quilôm etros por hora.
Que ótim o.
– Me conte.
Carter m assageou entre as sobrancelhas.
– Muitas coisas m e preocupam . Não consigo pensar em apenas um a.
– Certo. – Ela tentou tranquilizá-lo. – Mas você deveria saber que na realidade
não há m otivo
para...
A paciência dele se esgotou, as palavras explodindo apressadam ente.
– Pelo am or de Deus, sou um crim inoso, Pêssegos. É claro que tenho m otivo para m e preocupar.
Ele não queria ter sido grosso, m as estava m ais que irritado. Sua espinha doía e seu estôm ago estava cheio de nós, alternando entre o m edo e o pânico. É, ele estava um caco.
Kat perm aneceu em silêncio.
Ele se arrependeu de im ediato.
– Olha, m erda, m e desculpe, gata...
– Não, está tudo bem – interrom peu Kat. – Isso é com plicado para você. Desculpe se não lidei com isso de form a adequada, desculpe m esm o. – A sinceridade dela deixou o peito de Carter apertado. – É só dizer que dou m eia-volta, se for dem ais para você. Não quero que se sinta desconfortável assim .
O que ele tinha feito para m erecer essa m ulher?
– Não quero que dê m eia-volta. – Ele respirou fundo, virando-se para vê-la m elhor. – Não que não aprecie o gesto, m as quero passar o fim de sem ana ao seu lado. – Carter passou a m ão pela cabeça. – Só quero que sua avó vej a que não sou só um ... – Ele torceu os dedos no peito, pensando em um a lista de adj etivos não m uito lisonj eiros. – Você sabe... E que eu gosto de você.
Kat dim inuiu a velocidade quando eles se aproxim aram de um cruzam ento.
– Ela vai ver. Minha avó é a m elhor pessoa que conheço. Ela não j ulga. – Kat colocou a m ão no pescoço de Carter, deslizando o polegar por seu m axilar. – Podem os ser nós m esm os. Você e eu.
– Prom ete?
– Prom eto.
Eles estavam a apenas vinte m inutos da casa quando o estôm ago de Carter com eçou a dar cam balhotas. Suas costas tam bém estavam suadas, o que era ridículo, considerando que estava um frio desgraçado lá fora. Tinha até nevado um pouco.
– Você está bem ?
Carter repousou a cabeça no banco, observando Kat dirigir.
– Vou ficar – m urm urou ele, pressionando a bochecha no encosto. – Vou ficar observando você até chegarm os lá.
Ela sorriu com os olhos ainda na estrada.
– Com o quando você tom a vacina contra a gripe, né?
Carter franziu a testa.
– Com o?
Kat olhou no retrovisor, trocando de faixa.
– Quando eu era pequena, m eu pai m e levava para tom ar vacinas e sem pre dizia que, se eu não olhasse, ia doer m enos. Não era tão assustador quando você não sabia o que estava por vir. – Ela sorriu novam ente, seus olhos m elancólicos. – Eu m e escondia no pescoço dele e rezava para que acabasse logo.
– Funcionava?
– Todas as vezes.
Os cantos da boca dele se ergueram . Ela havia falado m uito sobre o pai desde que eles saíram de Nova York. Carter não podia negar que gostaria de ter conhecido Daniel Lane, independentem ente de com o o hom em teria reagido a Carter nam orando sua filha.
– Você acha... – Carter enrolou o polegar no m indinho de Kat, esperançoso. – Acha que ele teria gostado de m im ?
Kat parou o carro no sem áforo, que estava verm elho, e se virou para olhar para ele.
– Acho que você e m eu pai são m ais parecidos do que eu m esm a consigo perceber. Ele teria achado você incrível.
Céus, com o ele queria que aquilo fosse verdadeiro o suficiente para apagar o m edo som brio que espreitava debaixo de sua pele.
– Você acredita m esm o nisso?
– Sim – respondeu ela, sem qualquer som bra de dúvida na voz. – Me dá um beij o?
Carter se m exeu para que seus lábios encontrassem os dela. Mantendo os olhos abertos, ele observou os olhos de Kat revirarem . Ele contornou o lábio inferior dela com a língua e suspirou quando ela se afastou e continuou dirigindo.
– Não m e lem bro de ter tom ado m inhas vacinas – confessou ele baixinho.
Kat olhou para Carter.
– Não?
Ele balançou a cabeça, tentando se recordar.
Kat arqueou os om bros, fazendo um a voz alegre e indiferente, m as Carter sabia que ela estava com pena dele. A em patia pinicou sua pele com o um a picada de urtiga, fazendo seus m olares rangerem .
– Talvez isso sej a bom – sugeriu Kat. – Tom ar vacina é horrível.
Parecia um a coisa tão ridícula de se lem brar. Ele expirou com força ao trazer de volta suas lem branças. Dor. Lágrim as. Solidão. Ódio. Foda-se, pensou ele, quando a raiva com eçou a crescer.
Não havia com o m udar o passado. Precisava olhar para a frente, e ter Kat ao seu lado era um passo gigantesco na direção certa. Ele apertou a perna dela, os dedos deslizando pela costura do j eans que contornava a parte interna de sua coxa.
– Carter?
Ela engoliu em seco.
Ele sorriu.
– Sim ?
– Chegam os.
Carter virou a cabeça de im ediato e viu um a casa de tij olos enorm e no final de um a longa entrada de pedras, rodeada de j ardins. Seu coração deu um salto ressonante por trás das costelas. Ele ficou repentinam ente desesperado por um cigarro. Passando a m ão de m aneira frenética pelo próprio corpo, encontrou o m aço no bolso da calça e ficou aliviado. Graças a Deus.
De repente, um pensam ento terrível passou por sua cabeça: e se a avó de Kat odiasse fum antes?
– Carter?
A voz de Kat parecia estar a quilôm etros de distância e, quando se virou para olhar para ela, Carter teve a sensação estranhíssim a de estar debaixo d’água, incapaz de respirar.
Kat desafivelou o cinto de segurança.
– Você está bem ? Parece um pouco pálido.
Carter esfregou o centro do peito, querendo que suas vias aéreas se abrissem . Não aj udou. Um a onda de suor frio se espalhou por ele, descendo por suas costas com o garras geladas. Ele não conseguia respirar. Deus. Seus pulm ões estavam se com prim indo.
O que ele estava fazendo? Por que tinha concordado com aquela palhaçada? Não queria fazer isso. Ele não era de conhecer fam ílias. Era digno de risada, na verdade, pensar que a avó de Kat o aceitaria. Ela j am ais o aceitaria porque ele não era bom o suficiente. Ele j am ais seria bom o suficiente.
Seu idiota im becil.
– Ei – disse Kat, tirando as m ãos dele de seu rosto e colocando no colo dela.
– Kat, eu... Eu não... – Ele ofegou. – Não consigo.
– Está tudo bem . Estou aqui e está tudo bem . – Kat colocou as m ãos no pescoço dele e m assageou com os polegares. – Me diga – m urm urou ela, beij ando as pontas dos dedos da m ão direita dele. – Me diga que você sabe o que significa para m im .
Os pulm ões dele trem iam .
– Eu sei. Eu sei. Mas...
Kat encostou a testa na dele, segurando-a, segurando-o.
– Não. Nada de “m as”. É só nisso que você tem que pensar.
Viu? Era o que sussurrava o tom de voz dela. Fácil.
Respirando fundo três vezes, o coração de Carter desacelerou. Focando-se nos dedos de Kat, que desenhavam círculos em sua pele, ele conseguiu se sentar um pouco m ais ereto. Precisava se recom por. Não podia perm itir que seu m edo fosse a prim eira coisa que a avó de Kat iria ver. De j eito nenhum .
Ele se inclinou para a frente, capturando os lábios de Kat.
– Desculpe.
– Não tem por que se desculpar. Você está bem agora?
Ele abaixou os olhos para o chão do carro.
– Só não m e deixe sozinho, tá?
– Não vou deixar – respondeu Kat com firm eza, dispensando a carência dele com a m esm a rapidez com que ele a tinha apresentado. – Venha.
Antes que Carter pudesse pará-la, ela saiu do carro tam borilando anim adam ente no capô.
– Isso vai dar m erda.
Carter abriu a porta do carro e saiu.
Fechou a porta e enfiou as m ãos nos bolsos por conta do ar gelado e das m em órias repentinas e ainda m ais gélidas da casa de sua m ãe; aquele presságio que se instalava em seus ossos cada vez que era deixado na porta da frente e via a expressão no rosto dela quando a abria, arrependida e incom odada. Deus, ele era só um a criança, assustada pra caram ba e sozinha. Ele engoliu em seco e lutou contra as lem branças. Elas logo foram esquecidas quando a porta da frente se abriu e um cachorro preto e branco enorm e saiu correndo, abanando o rabo e balançando a língua.
– Reggie! – gritou Kat, abaixando-se.
O cachorro ganiu e latiu de felicidade.
Ela fez um carinho na barriga do vira-lata até que suas patas traseiras estavam se coçando e chutando com o um lunático.
– Eu tam bém senti sua falta – arrulhou ela.
– Kat!
Ela ergueu os olhos e viu Nana Boo, usando um a parca enorm e, vindo correndo da porta, m aravilhosa com o sem pre. Trevor, seu aj udante, a seguiu com um sorriso caloroso.
– Nana – ofegou Kat, instantaneam ente em paz.
Ela se levantou e deixou que a avó a envolvesse em um de seus abraços.
– Meu anj o. – Nana Boo sorriu em m eio aos cabelos de Kat. – É m aravilhoso ver você.
– Você tam bém .
Kat deu um beij o em seu rosto antes de se afastar. Ela deu um a olhada na direção de Carter, que estava se m exendo sem sair do lugar. Pegou na m ão dele e o puxou para j unto de si. Carter segurava sua m ão com tanta força que doía, m as ela aguentaria tudo para garantir que ele se sentisse protegido e confortável.
– Nana – falou Kat, abaixando o rosto –, este é Carter. Ele é o m eu... Wes.
A cabeça de Carter quase caiu dos om bros de tão rápido que ele olhou para ela. Seus olhos estavam arregalados de surpresa, m as o sorriso que am eaçava nos cantos de sua boca perfeita diziam a Kat que aquelas tinham sido as palavras certas.
– É um prazer conhecer você, Carter.
Nana Boo esticou a m ão para ele e deu um sorriso eufórico que enrugava seu rosto de m il m aneiras diferentes.
Carter lim pou a garganta.
– É um prazer finalm ente conhecê-la tam bém – declarou ele ao apertar sua m ão.
Os braços ávidos de Nana Boo circundaram a cintura de Carter. Ela pressionou o rosto nele e apertou.
– Hum , oi – m urm urou Carter enquanto olhava para Kat por cim a do chapéu de lã da velha senhora.
Kat sorriu.
– Eu estava tão ansiosa para conhecer o hom em que roubou o coração da m inha Kat – sussurrou Nana Boo.
Ela deu um passo para trás e passou um dedo sob os olhos lacrim ej antes.
– Ai, céus. – Ela riu, notando as lágrim as em sua pele. – Velha boba.
– Nem um pouco – disse Carter com um m eio sorriso.
Nana Boo colocou a m ão no rosto dele de form a carinhosa.
– Querido, você é m esm o tão lindo quanto ela descreveu.
Ela riu da expressão em udecida no belo rosto de Carter e enganchou o braço na curva do cotovelo dele.
– Vam os entrar. Está frio dem ais aqui fora. Kat, dê as chaves a Trevor. Ele vai pegar as m alas.
Carter puxou Kat, segurando a m ão dela com o se sua vida dependesse daquilo. Ela deslizou a m ão para cim a e para baixo em seu braço, acalm ando-o. A angústia era quase visível em torno dele, cruel e im placável. Kat sabia de onde ela vinha; ele a carregava consigo com o um fardo.
Kat m ordeu o interior da boca. O ódio que nutria pela fam ília dele fez seus dentes estalarem . Eles o tinham am eaçado com tanta sordidez. Nunca o am aram , se preocuparam ou cuidaram dele à m edida que crescia, e agora ele se achava inferior, sem a m enor noção do hom em incrível que se tornara.
Aquilo era dolorosam ente trágico.
– A viagem foi boa? Tudo certo com o carro? – perguntou Nana Boo.
Ela fechou a porta e tirou o chapéu.
– Sim . – Kat se aproxim ou de Carter, sabendo da necessidade dele por contato físico. – Ele não reclam ou de m im com o m otorista nenhum a vez. – Ela sorriu quando o viu revirar os olhos, seu dedo enrolando um a m echa do cabelo de Kat em seu om bro. – Talvez você o tenha transform ado em um fã de Jaguares.
Os olhos de Nana Boo se ilum inaram .
– Você gosta de carros?
Carter coçou o pescoço.
– É, eu, hum , eu m anj o um pouco.
– Carter gosta de m otos tam bém – interferiu Kat, ignorando a olhada severa que ele deu para ela.
Nana Boo arfou.
– Um Steve McQueen da vida real! Oh, acalm e-se, m eu pobre coração.
Kat riu no om bro de Carter e adorou quando o ouviu soltar um a gargalhada.
– Eu não acho que é para tanto – m urm urou ele. – Mas eu gosto, sim .
– Bom , vou lhe m ostrar a Trium ph que tenho na garagem depois. – Nana Boo piscou para ele. – Vocês precisam de um a bebida quente, crianças.
Carter ficou olhando a velha m ulher se afastar a cam inho da cozinha.
– Ela tem um a Trium ph?
Seus olhos azuis brilhavam .
Kat riu.
– E um Aston antigo. Venha, Steve – provocou ela. – Ela faz um chocolate quente dos deuses.
Sentados ao redor da enorm e m esa de m adeira de Nana Boo, Kat perm itiu que o calor da casa de sua avó, o am or e a aceitação penetrassem nela, preenchendo as lacunas de vergonha e insegurança que tinham se aberto nos últim os m eses. Carter, cuj a m ão livre estava sem pre tocando nela, ficou sentado ouvindo enquanto – antes, durante e depois do j antar de enchiladas e cheesecake de Oreo – Nana Boo contava a ele história após história sobre Kat e suas aventuras de criança. Histórias detalhando Kat caindo de cavalos, subindo em árvores e atirando bolas de beisebol em j anelas m antiveram Carter entretido.
Vê-lo tão relaxado, ouvi-lo rir e observá-lo notar, lentam ente, que não havia nada a tem er era tudo o que Kat poderia ter sonhado. Tudo o que ela queria do fim de sem ana deles com Nana Boo era que ele percebesse que se encaixava em sua vida. Queria que ele visse que havia pessoas que não se im portavam com seu passado e com os erros que ele tinha com etido. Era essencial que Carter entendesse que nem todo m undo os usaria contra ele. Eles não o definiam .
Ela ouviu Nana Boo perguntar a ele sobre seus hobbies, sorrindo quando Carter ficou todo tím ido e m odesto com relação à sua m usicalidade e à sua paixão por todas as coisas velozes e de m etal. Ele falou sobre Kala e seu desej o de com prar outra m oto, o que levou Nana Boo a contar histórias sobre Kat e seu pai pilotando para cim a e para baixo pela praia por horas, sim plesm ente para ter o som do m otor em seus ouvidos e o vento em seus rostos.
– Ela não m udou – pontuou Carter, sorrindo para Kat, fazendo suas bochechas corarem .
Nana Boo foi incrível, rindo e brincando, e sem fazer perguntas que poderiam deixar Carter desconfortável. Ela ouvia com total atenção. Aos poucos, os om bros de Carter relaxaram e seu sorriso com eçou a aparecer com m ais facilidade. Ele passou até m esm o a apertar a m ão de Kat com m enos força.
Apesar disso, ele ainda tinha que resolver um a questão em particular e Kat sabia que aquilo o estava deixando louco.
Ela sorriu, perspicaz, quando o viu se contorcer pela m ilésim a vez.
– Você sabe que pode ir fum ar um cigarro, né?
Carter deu um a olhada de desculpas para Nana Boo.
– Estou bem .
– Trevor costum a fum ar na varanda dos fundos, querido – disse Nana Boo, ignorando-o, enquanto colocava um a tigela de Doritos e outra de m olho sour cream sobre a m esa. – Por favor, sinta-se à vontade. Você está de férias.
Carter analisou os olhos de Kat, buscando perm issão.
– Está tudo bem – garantiu ela, achando aquela tim idez cativante pra caram ba.
– Ok – cedeu ele. Tam borilou os dedos longos na borda da m esa, hesitando. – Preciso ligar para Max tam bém . Eu vou... Não vou dem orar.
Ele se levantou e cam inhou até a porta dos fundos. Reggie, cuj as unhas arranhavam avidam ente o piso de m adeira, se levantou do lado de Nana Boo e o seguiu. Carter olhou para o cachorro ao seu lado, erguendo um a sobrancelha questionadora. Reggie se sentou e balançou o rabo com anim ação.
– Ele vai segui-lo – explicou Nana Boo. – Ele gosta de você.
– Certo – m urm urou Carter, ainda olhando com algum a desconfiança para o cachorro antes de abrir a porta e am bos saírem na noite fria de Chicago. Kat ficou olhando para a porta depois que ela fechou.
– Ele é m aravilhoso. – Nana Boo bebericou seu vinho tinto. – Ele adora você, querida.
– Eu que o adoro – confessou Kat. Ela contornou o pé de sua taça. – Carter estava tão nervoso, Nana. Queria tanto causar um a boa im pressão. Eu só queria que ele soubesse que não precisava se preocupar. Ele não consegue se ver com clareza.
– Ele verá com o tem po, Kat. Se ouvir isso o suficiente, ele verá. – Nana Boo sorriu para si m esm a. – Carter m e lem bra tanto... – Ela sacudiu a cabeça.
Kat repousou o queixo na m ão.
– Quem ?
– Seu pai – respondeu Nana Boo. – Ele é exatam ente com o Danny quando sua m ãe o trouxe aqui pela prim eira vez, todo agitado e coçando-se por um cigarro.
– Meu pai fum ava?
Kat tossiu na taça de vinho.
– Ele parou quando sua m ãe engravidou de você.
Kat olhou para a m esa, sorrindo.
– Eu nunca soube disso.
– Há m uitas coisas que posso lhe contar sobre seu pai.
– Por favor – encoraj ou Kat.
– Seu avô nunca aprovou a escolha de sua m ãe. – Nana Boo sorriu, saudosa. – Ninguém era bom o suficiente para Eva.
Kat expirou de m aneira sarcástica.
– É, deve ser de fam ília.
Isso fez Nana Boo rir.
– Sim , sua m ãe é m uito parecida com o pai.
Kat pensou por um m om ento, considerando todas as form as que a m ãe usou para fazê-la se sentir um a com pleta desgraçada por ter escolhido Carter, por ter optado por Arthur Kill.
– Ela é protetora porque am a você, m eu anj o – m urm urou Nana Boo, com o se lesse os pensam entos de Kat. – Ela m orre de m edo de perdê-la.
– Ela j á perdeu.
– Você não está falando sério, Kat – repreendeu Nana Boo, fazendo Kat se sentir instantaneam ente arrependida. Ela girou o vinho na taça. – Então você tem um a entrevista para um novo trabalho – disse Nana Boo, m udando de assunto sem rodeios.
– Em um centro de detenção j uvenil no Brookly n – confirm ou Kat. – É para com eçar no ano que vem .
Aquele em prego tinha sido um dos prim eiros que ela encontrara na pasta que Beth lhe entregara e, em bora Kat odiasse adm itir, parecia perfeito. Eles haviam aceitado sua inscrição de im ediato.
Apesar de estar um pouco triste por deixar Arthur Kill, Kat estava anim ada.
– E é isso que você quer? – perguntou Nana Boo.
– Eu quero Carter.
Os olhos de Nana Boo brilharam com o rom ance daquilo tudo.
– Desde que você estej a feliz. Isso é tudo com que m e im porto. Sua m ãe vai se conform ar.
Havia tanta convicção na voz de Nana Boo que Kat quase acreditou.
Apesar das palavras dolorosas que ouvira da m ãe e da anim osidade que ainda persistia entre elas, Kat daria tudo para tê-la sentada à m esa, tom ando um a taça de vinho, sendo com preensiva e feliz. Sem anas haviam se passado e as duas ainda estavam em guerra. Para Kat, a raiva tinha dado lugar à tristeza e à aceitação. As coisas entre as duas j am ais seriam as m esm as.
Ela m ergulhou um Dorito no sour cream com a m ão cansada, precisando de um a distração.
– Então, m e conte m ais sobre por que o vovô não gostava do m eu pai.
Nana Boo riu.
– Danny tinha uns esqueletos escondidos no arm ário tam bém , assim com o o seu Carter. – Ela fitou Kat atentam ente. – Antes de conhecer sua m ãe, ele tinha feito coisas das quais não se orgulhava.
E seu avô sem pre pegou no pé dele por causa disso. Tenho algum as coisas lá em cim a nas quais você pode dar um a olhada. Acho que seria m ais fácil explicar desse j eito.
– Não é nada ruim , é?
– Não. Não é nada ruim . – Nana Boo hesitou. – Ao contrário de sua m ãe, que acha ser desnecessário, acredito que estej a na hora de você saber m ais sobre o que eles passaram para ficarem j untos. – Ela colocou a m ão sobre a de Kat. – Garanto que não é nada assustador e vai fazer sentido quando você vir o que tenho aqui. – Ela olhou na direção da porta dos fundos. – Só saiba que Carter e seu pai são m uito parecidos em vários sentidos.
Antes que Kat pudesse perguntar m ais, a porta dos fundos se abriu e Carter entrou correndo, cheio de bolotas de neve cobrindo seu cabelo escuro, seguido por Reggie, que parecia estar congelando.
– Meu Deus, está frio pra caralho lá fora – grunhiu Carter. Ele esfregou a m ão na cabeça, respingando água no chão. – Não consigo sentir m eus m alditos dedos! – Ele parou de repente, percebendo o que tinha dito e na presença de quem . – Merda. – Ele piscou. – Quero dizer, droga, desculpe.
Nana Boo bufou alto e colocou as m ãos na boca para abafar os risos.
– Está tudo bem – conseguiu dizer por entre os dedos. – Já ouvi coisas bem piores. Fui casada com o avô de Kat por quase quarenta anos.
Os om bros de Kat sacudiam de tanto segurar o riso. Carter suspirou e voltou para o sofá, onde tom ou um gole enorm e de sua cervej a.
– Não se preocupe. – Nana Boo conteve um a risada, fazendo um carinho no j oelho dele. – Sim plesm ente sej a você m esm o. Você é perfeito do j eito que é.
– Tem certeza de que não tem problem a?
Carter observou Kat arrastar sua pequena m ala de fim de sem ana para o quarto que eles dividiriam sob o teto de sua avó, com a avó do outro lado do corredor.
– Sabe – cantarolou Kat –, para um crim inoso condenado, você tem ideias pudicas com relação ao nosso relacionam ento.
Ele revirou os olhos. Ela entrou saltitando na suíte, tirando o m oletom . Pudicas? Claro, era por isso que ele j á estava m eia bom ba só de ver as costas nuas dela.
– Não estou sendo pudico – defendeu-se. – Eu... É a casa da Nana Boo.
Ele se sentou na beirada da enorm e cam a, tirando os coturnos e as m eias.
Carter estava esfregando o rosto, tentando afastar o cansaço, quando Kat em ergiu do banheiro, se apoiando no caixilho da porta com um a expressão peculiar no rosto.
– Você a cham ou de Nana Boo – sussurrou Kat, passando o dedo pela barra da cam iseta da Harley Davidson que tinha colocado. A cam iseta de Carter. A bainha tocava em suas coxas suculentas, ao passo que a gola V se estendia por entre seus seios.
– Sim – respondeu Carter, com endo-a com os olhos.
Kat andou até ele. Ela afastou seus j oelhos com os dela e colocou as m ãos em seus om bros, enquanto ele colocava as suas nos quadris dela.
Ela se abaixou e raspou o nariz na lateral do dele.
– Adoro o fato de você cham á-la assim .
Carter fez um ruído apreciativo quando seus lábios se encontraram , carinhosos e quentes.
– Está se sentindo m elhor?
Ela colocou um j oelho na cam a, entre as coxas dele.
Carter sorriu j unto ao pescoço de Kat.
– Estou, sim . – Ele se afastou um pouco, concentrando-se na m aneira com o os cabelos de Kat se curvavam nas pontas. – Me sinto ótim o. – Indicou a porta com o queixo. – Ela é incrível. – E sacudiu a cabeça, incrédulo. – Ela é sim plesm ente tão... Bem , a m ulher m e fez um cheesecake de Oreo! Isso é legal dem ais! – Ele beij ou o m axilar de Kat.
Carter deslizou as m ãos pela cintura de Kat e fez cócegas na parte de trás de suas coxas.
– Pela prim eira vez em m uito tem po – m urm urou ele – eu não m e sinto com o se estivesse perdendo algo. – Ele colocou os lábios nos dela. – Sinto com o se eu estivesse no lugar certo.
– Você está – disse Kat. – Seu lugar é ao m eu lado.
As palavras dela deixaram o corpo de Carter m ole. Ele a abraçou ainda m ais e a beij ou. Mas deu um pulo para trás, com o se tivesse sido pego fazendo algum a coisa im perdoável, quando ouviu um a batidinha na porta. Kat deu um beij o na ponta de seu nariz, desm ontou de cim a dele e foi até lá para abri-la.
– Desculpe incom odar, querida – disse Nana Boo do outro lado da porta. – Mas eu queria entregar isto a você antes de dorm ir. São os detalhes sobre seu pai.
Carter inclinou o pescoço para ver além de Kat, m as só conseguiu enxergar um envelope pardo grande e am assado em sua m ão.
– Obrigada, Nana.
– Boa noite, m eu anj o – cantarolou ela. – Boa noite, Carter – acrescentou com um sorriso perm eando suas palavras.
– Boa noite – respondeu ele.
Ela o fazia lem brar-se tanto de sua própria avó que era, às vezes, um pouco assustador. Até m esm o o cheiro dela o deixava nostálgico, todo doce e floral, com os grandes olhos verdes que ele sem pre via a cada vez que olhava para sua Pêssegos.
Ele tirou o suéter e a calça j eans. Kat fechou a porta e bateu no envelope com as articulações dos dedos.
– O que aconteceu?
Ele ergueu as cobertas da cam a e deslizou para debaixo delas.
– Nada. – Ela ergueu o envelope. – São só um as coisas sobre m eu pai. Nana Boo queria que eu desse um a olhada.
– Que coisas?
– Não sei.
Kat segurava o envelope com as duas m ãos.
Carter se inclinou para a frente e abaixou a voz.
– Você, hum , quer olhar j unto com igo?
Um a expressão de am or intenso e gratidão ilum inou o rosto dela.
Carter em purrou o edredom para o lado, passando a m ão pelo colchão.
– Venha aqui.
Kat saltitou até a cam a e se sentou ao lado dele. Ele colocou o braço sobre seus om bros e beij ou seus cabelos enquanto ela abria o envelope. Fez um carinho em seu braço, observando-a pegar diversos recortes de j ornal e colocá-los cuidadosam ente sobre o colo. Ela os espalhou, parando em alguns que detalhavam a m orte do pai, seu funeral e os diversos eventos em sua m em ória.
Carter puxou Kat para j unto de si quando viu um a foto dela tirada na noite do assassinato. Ela estava de olhos arregalados, claram ente apavorada, enrolada em um cobertor da polícia que engolia seu corpo pequeno.
– Você era tão pequena – sussurrou ele, passando o dedo pela foto em preto e branco. – Mas tão forte.
Eles passaram alguns m inutos olhando os recortes antes de Kat arfar e soltar um palavrão.
– O que foi? – perguntou ele com um sorriso.
Sua boca suj a era totalm ente sexy. Ele gostava de incitá-la a isso.
– Olhe só.
Ela lhe entregou o j ornal, ignorando seus olhares lascivos.
A foto do artigo era da m ãe e do pai de Kat, vestidos para im pressionar e parecendo com o todos os outros casais de políticos que Carter j á tinha visto. Contudo, a m anchete capturou a atenção de Carter: “Senador Lane cum priu pena por contravenções”.
Puta m erda.
Ele olhou para Kat antes de pegar o recorte e com eçar a lê-lo. As contravenções iam de pichação, em briaguez, conduta desordeira e posse de narcóticos a – o m ais im pressionante – roubo de carros. As penas que ele cum prira tinham sido tranquilas, por conta da idade do senador no m om ento em que os crim es foram com etidos. E ficava claro, pelo tom do artigo, que o passado do senador só tinha vindo à tona por conta de um a tentativa de m anchar seu nom e. Mas, m esm o assim , Carter não sabia se ficava satisfeito ou perplexo.
De qualquer form a, ele estava m uito intrigado.
– Não consigo acreditar que m inha m ãe não m e contou porra nenhum a – enfureceu-se Kat. – Depois de tudo. – Kat se j ogou nos travesseiros. Sua voz ficou m ais aguda. – Depois de tudo o que ela falou sobre m eu trabalho, sobre você.
Carter pegou todos os recortes e os colocou com cuidado na m esa de cabeceira.
– Com o ela pode ser tão hipócrita? – perguntou Kat entre os dentes. – Com o pode dizer coisas tão horríveis sobre as m inhas escolhas tendo feito exatam ente as m esm as que fiz?
– Não são exatam ente as m esm as – contrapôs Carter.
Kat arqueou um a sobrancelha.
Carter se m exeu.
– Olha, não estou defendendo o fato de ela não ter contado a você. Isso não é nada j usto, m as seu pai roubou uns carros e pichou um as paredes. – Ele deu de om bros. – Com parado a m im , ele está lim po.
Os olhos de Kat ficaram som brios.
– Não é essa a questão, Carter. Ela om itiu essa inform ação e fez eu m e sentir um lixo por querer ficar com você e por desej ar trabalhar em algo que m e aj udasse a superar m eus m edos e m e tornasse m ais forte. Ela não fez nada além de dim inuir a m im , a você e as decisões que eu tom ei, enquanto, ao m esm o tem po, sabia que m eu pai tinha um histórico crim inoso.
Carter segurou seu rosto, num a tentativa de acalm á-la.
– Não se trata de um a com petição baseada em quem fez a coisa pior ou cum priu pena por m ais tem po – continuou ela, enoj ada. – Aos olhos desses idiotas preconceituosos que andam por aí com o nariz em pinado, j ulgando as pessoas, e você e m eu pai são iguais. – Ela sacudiu a cabeça. – Minha m ãe sabia disso. Por isso não disse nada.
Kat se aproxim ou de Carter, aconchegando o corpo no dele.
Ele passou com delicadeza o indicador pela ponta do nariz dela, seguindo o contorno do lábio superior que ele sabia que tinha gosto de fram boesa.
– Você está brava com seu pai?
– Não – sussurrou ela, contornando o m am ilo de Carter com o dedo. – Com o poderia ficar? Ele tom ou algum as decisões ruins quando era j ovem . E daí? Ainda é um dos m elhores hom ens que j á conheci. – Ela hesitou. – Com o você.
Carter não conseguia tirar os olhos dela. Suas palavras o desm ontavam . Não havia com o negar.
Céus, ela estava tão linda, com seu fervor e seu calor esquentando o quarto ao redor dos dois.
De repente, seu peito se agitou e algo pareceu apertar suas entranhas. Ele se m exeu, tentando am enizar a pressão que crescia em seu corpo, subindo por seu estôm ago, por sua garganta. Tudo dentro dele ficou im ediatam ente grande dem ais, com o se algum a força desconhecida estivesse fazendo seus órgãos incharem e se esprem erem uns contra os outros. Aquilo o deixou sem ar e lhe deu um frio na espinha. Sua pele se arrepiou e seus dedos dos pés se curvaram em um a súplica ao que quer que aquela porra fosse.
– O que foi? – perguntou Kat, percebendo a angústia dele.
Carter esfregou os olhos com as m ãos.
– Só um a indigestão, eu acho.
Kat deu um beij inho carinhoso no um bigo dele.
– Melhor?
Carter agarrou os braços dela, puxando-a m ais para perto, para cim a de seu corpo.
– Não. Você está longe dem ais.
Ele a beij ou, precisando dela em cim a dele, em baixo, cobrindo-o, engolindo-o.
Ele a beij ou de form a intensa, inspirando a onda de vida que em anava de seus lábios, capturando o calor e a cor que ela havia trazido à sua vida m iseravelm ente cinza. Ela retribuiu o beij o, a preocupação evidente no toque gentil de seus lábios. Ela se afastou, seu olhar bailando, analítico, pelo rosto dele.
Carter engoliu em seco.
– Estou bem .
Ele tentou m anter a voz calm a, tentou m ostrar, em seu rosto, que tudo estava às m il m aravilhas e o caralho; m as, por dentro, um m aldito festival estava acontecendo e, por tudo o que era m ais sagrado, Carter não fazia ideia de com o pará-lo, nem se queria pará-lo.
30
Kat acordou ao som de batidas que pareciam vir da porta de entrada da casa de Nana Boo. Carter se m exeu com um suspiro alto, seu braço enrolado protetoram ente na cintura dela. Ele a segurara a noite toda. Eles não haviam feito nada a não ser ficar abraçadinhos e de conchinha, m esm o que sua ereção dissesse a ela que ele queria m uito m ais. Havia algo diferente. Ele estava diferente. Algum a coisa tinha aparecido em seus olhos. Algum a coisa irrevogável e grande dem ais para lidar naquele...
Com o rosto m eio coberto pelo travesseiro, Kat olhou para o relógio e viu que eram pouco m ais de dez da m anhã. Com o aquilo tinha acontecido? Deus, ela nem sequer se lem brava de ter pegado no sono.
– Quem é que está fazendo esse barulho, porra? – grunhiu Carter na nuca dela, pressionando sua ereção m atinal deliciosa contra a bunda de Kat. – Eles precisam calar a boca e m e deixar voltar a dorm ir, caralho. – Ele bocej ou. – Eu estava tendo uns sonhos ótim os.
Kat bufou e se virou para ele, sorrindo ao ver seus olhos adoravelm ente sonolentos e passando a m ão pela pelve dele.
– Posso sentir o quanto eram bons.
Carter suspirou e ergueu os quadris da cam a, buscando a m ão dela.
– Não finj a que não está adorando.
Kat franziu a testa quando as batidas cessaram de m aneira abrupta e o som de gritos, com palavras inaudíveis, ecoaram até o quarto.
Um vinco de preocupação surgiu entre as sobrancelhas de Carter. Ele se ergueu sobre os braços.
– Que diabos está acontecendo?
Kat sacudiu a cabeça, odiando o m edo intenso que subia por suas costas.
– Não faço ideia.
Carter ficou a postos, protetor e alerta.
– Vou dar um a olhada.
– Não – disse Kat, segurando seu braço enquanto ele afastava os lençóis. – Eu vou.
– Pêssegos – m urm urou ele com um brilho irritado nos olhos.
– Está tudo bem , eu vou...
– KATHERINE!
A bolha em torno dos dois explodiu de form a apocalíptica quando a voz esm urrou a porta do quarto. A pele de Kat se arrepiou em um horror frio, enquanto seus olhos se enchiam de lágrim as, causadas pelo m edo e pela fúria absoluta.
– Mam ãe.
– O quê? – tossiu Carter, levantando-se de im ediato, os olhos arregalados. – Sua... sua m ãe?
Kat assentiu com a cabeça, com o um robô, apertando as cobertas em suas m ãos.
– Katherine, venha aqui! Sei que está aí com ele!
Kat fechou os olhos, incapaz de olhar para Carter; tinha m edo de sair do quarto e espancar sua m ãe até não poder m ais.
– Eva, acalm e-se.
A voz de Nana Boo passou por debaixo da m adeira.
– Não, não vou m e acalm ar. Com o você pode recebê-lo na sua casa? Com o pode perm itir que isso aconteça debaixo do seu teto?
– Porque é o meu teto, Eva, e sou sua m ãe. Não devo obediência a você.
Houve um instante de silêncio; o tom ácido nas palavras de Nana Boo chiavam no ar.
– Melhor eu ir – m urm urou Carter, dando a volta na cam a.
O coração de Kat afundou até seu estôm ago.
– NÃO! – gritou ela, saltando da cam a na direção dele, prendendo o pé no lençol. – Não, você não precisa ir a lugar algum . Por favor. Não vá.
Ele evitou os olhos de Kat, olhando para além dela, o alarm e fazendo o m úsculo de seu m axilar pulsar.
– Não posso ficar aqui.
– Pode, sim – suplicou Kat, agarrando os braços dele. – Você tem tanto direito de estar aqui quanto eu.
– Kat...
– Se você for, eu vou com você.
Antes que Carter pudesse responder, a porta do quarto se abriu, batendo com força na parede por conta do ím peto com que foi forçada. Kat se virou e viu a m ãe olhando para os dois: Kat usando a cam iseta de Carter e ele, apenas com suas tatuagens e um a cueca boxer preta.
– Saia daqui – grunhiu Kat.
– Não vou a lugar algum .
Os olhos de Eva analisaram o estado sem inu de Kat.
– Eva – repreendeu Nana Boo. – Já chega.
– Vista algum a coisa e venha para baixo – insistiu Eva por entre lábios apertados, ignorando Nana Boo. Seus olhos lançaram dardos na direção de Carter, fazendo Kat se colocar protetoram ente na frente dele. – Sozinha.
– Não vou fazer coisa algum a...
– Agora, m ocinha – interrom peu ela.
Eva se virou com o um furacão e saiu m archando para fora do quarto, batendo os pés na escadaria.
– O que ela quer, Nana? – perguntou Kat, desesperada para sentir os braços de Carter em volta de seu corpo. Ele não se m exeu.
A im obilidade e o silêncio dele eram assustadores.
– Não sei – respondeu Nana Boo, balançando a cabeça com desânim o. – Me desculpem . Ela ligou perguntando se eu tinha falado com você. Contei que vocês estavam j untos aqui. Eu não fazia ideia de que ela planej ava vir... Me desculpem .
– Não se desculpe – disse Kat. – É ela, não você.
Dando um a olhada por cim a do om bro, Kat sentiu o estôm ago revirar quando viu o rosto de Carter: zangado, am uralhado e fechado para todos ao seu redor.
Até m esm o para ela.
– Vou dar um m om ento a vocês.
Nana Boo saiu do quarto, fechando a porta.
Kat fungou e se m oveu na direção da m ala, ignorando as ondas de calm a perigosa que em anavam de Carter. Quando com eçou a falar, as palavras saíram rápido, atropelando-se um as nas outras.
– Nós vam os em bora. Não quero ficar aqui com ela. Nana pode nos em prestar o carro de novo e vou pegar m inha m ala; você pode pegar a sua...
– Não – interrom peu Carter.
Ela parou no m eio do quarto, im obilizada pelo choque.
– Vá lá em baixo e ouça o que ela tem a dizer.
A voz dele era intensa e direta, m as seus olhos peram bulavam pelo quarto, procurando por um a saída.
– Mas podem os ir em bora j untos – insistiu ela.
Carter se abaixou para pegar o suéter.
– Não, você precisa conversar com ela, Kat.
A m ágoa apertou o coração de Kat. Ela cruzou os braços, segurando-se.
– Por quê? Por que quer que eu converse com ela?
– Por que está na hora de você conversar.
Ela o observou se sentar e colocar as m eias.
– Você... não pode ir em bora – sussurrou ela. Sua voz se descom pôs. – Preciso de você aqui.
– Kat.
– Por favor, Carter. Não dê ouvidos a ela. Tudo o que ela diz... não é verdade. Não é. Por favor.
Sua respiração com eçou a acelerar tão logo o pensam ento de ele sair porta afora se tornou m ais vívido em sua m ente. Incapaz de se m over por causa do m edo de desm oronar, ela ofegou: – Por favor. Vou falar com ela se você prom eter ficar.
Eles perm aneceram em silêncio por um a era, olhando um para o outro, nenhum dos dois querendo falar. A atm osfera ao redor deles estava carregada e desconfortavelm ente diferente de com o costum ava ser.
– Pêssegos, eu não posso...
– Você pode.
– Não sou bom o suficiente para vo...
– Não ouse dizer isso, porra! – A tristeza deu lugar à raiva. – Você é bom o suficiente! Céus, você precisa saber disso!
Carter não respondeu e continuou olhando para o chão.
O coração de Kat se fragm entou de dor. Deus, eles tinham voltado à estaca zero.
Kat deu um passo hesitante na direção dele.
– Prom eta que vai ficar. Prom eta que não vai em bora.
Ele cerrou os olhos e m ordeu o lábio inferior. Ela queria ouvir as palavras. Naquele m om ento, isso era a coisa m ais im portante. Nada m ais.
– Carter.
– Ok – respondeu ele com um a voz sem vida. – Prom eto.
– Prom eto que não vou em bora. Diga.
Ele ergueu a cabeça e a fitou, m as algo no fundo do coração de Kat lhe dizia que ele estava olhando através dela, e aquilo doía. Doía tanto.
– Prom eto que não vou em bora.
Ele estava devastado, destruído; e Kat odiava estar im potente e não conseguir aj udá-lo a se recom por.
– Certo – sussurrou ela. – Certo.
Em silêncio, ela deu a volta no quarto, colocou um a calça j eans e tênis. Am arrou a cam iseta dele do lado direito e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo frouxo.
– Já volto. – Ela ficou parada na porta com o envelope pardo am assado na m ão. – E aí nós vam os em bora.
– Kat, eu...
Ela esperou que ele continuasse, m as, em vez disso, ele estalou as articulações da m ão direita e sacudiu a cabeça.
– Não im porta.
Com um peso enorm e no estôm ago e o coração despedaçado, Kat abriu a porta do quarto.
– Já volto.
Ela entrou com determ inação e dignidade na sala de estar, incapaz de com preender quaisquer palavras da discussão obviam ente acalorada que estava acontecendo entre Harrison e sua m ãe perto da j anela. A neve tinha caído durante a noite, cobrindo os j ardins com um a m anta invernal.
Nana Boo não estava presente, o que agradava Kat. Ela não m erecia ver nem ouvir o que estava prestes a acontecer. O fato da m ãe de Kat entrar na casa de Nana Boo daquele j eito, e no Dia de Ação de Graças, fez os dentes de Kat rangerem . Fala sério, quem era a m ãe ali?
Kat parou com as costas eretas, os braços cruzados, quando Eva a viu.
– Achei que vocês estivessem na casa dos pais de Harrison. O que você está fazendo aqui?
Eva a fitou de volta.
– Não fale com igo desse j eito, Katherine.
– E não m e diga o que fazer – retrucou ela. – Com o ousa entrar no m eu quarto, na casa de Nana, daquele j eito?
Eva sentiu um a pontada de rem orso.
– Está tudo bem com Nana. É com você que estou preocupada; furiosa, na verdade.
– Por quê?
– Por quê? Porque m inha filha não fala com igo, não atende m inhas ligações. Minha filha, que não apenas trabalha em um m aldito presídio, m as está andando por aí com ... com aquele...
– Cuidado – avisou Kat quando Eva apontou na direção da porta.
Eva ficou branca e um a faísca de m ágoa acendeu seus olhos.
– Estou aqui para pôr um basta nisso.
Kat bufou.
– Você tem noção de quão ridícula está sendo?
– Ridículo é você colocar toda a sua carreira, sua reputação e quem sabe até m esm o a sua vida em risco por causa de um delinquente, um desperdício de...
Kat voou na direção da m ãe, parando a poucos centím etros dela.
– Não fale dele desse j eito!
A proxim idade de Kat e a ferocidade que em anava de cada poro seu fez Eva recuar.
– Se acalm em – disse Harrison ao lado dela. Ele ergueu a m ão na direção do om bro de Kat, m as a abaixou. – Vocês duas, por favor, se acalm em .
Eva engoliu em seco.
– Você pode não acreditar, m as estou fazendo isso porque am o você, Katherine. O presídio não é bom para você. Ele não é bom para você.
– Você nem sequer o conhece – censurou Kat. – Nunca deu a ele um a chance.
Eva estava incrédula.
– E com o é que eu poderia fazer isso se você estava fazendo tudo pelas m inhas costas? Tive que saber pela Beth e pela Nana!
– E é realm ente um m istério o porquê de eu não ter contado a você!
– Porque sabia que era errado! – retrucou Eva. – Pelo am or de Deus, você poderia se com plicar tanto.
– Acha que não sei disso?
O rosto de Eva se contraiu, confuso.
– Então por que está...?
– Você não fez nada além de m e colocar para baixo desde que com ecei a trabalhar em Arthur Kill. Nada do que realizei desde que aceitei aquele em prego foi bom o suficiente para você; até m esm o o hom em que am o é um a decepção aos seus olhos.
Eva bufou.
– Oh, por favor, você não o am a.
– Com todo o m eu coração – declarou Kat em tom de súplica. – Você não sabe o que tenho passado nesses últim os m eses, m ãe. Com o é difícil encarar m eus m aiores m edos em Arthur Kill, confrontar o que m e m anteve acordada nos últim os dezesseis anos.
Eva fez um a careta.
– Mas Carter esteve lá, com igo, m e aj udando e cuidado de m im quando ninguém m ais o fez. – Kat virou o rosto na direção do teto, furiosa por sua m ãe nem sequer ousar chorar. – Quando saí daqui naquela noite, foi Carter quem cuidou de m im , e nunca, em m om ento algum , ele disse ou fez nada com igo que j ustificasse essa m esquinharia da sua parte.
– Ele é um crim inoso.
– Com o m eu pai?
Eva deu um passo cam baleante para trás. O rosto dela era de choque com pleto, m as os olhos brilhantes diziam a Kat que era um xeque-m ate.
Kat em purrou o envelope am assado no peito da m ãe.
– Fico im aginando... – disse Kat. – Será que o ódio do vovô fez você se afastar do hom em que am ava ou será que a j ogou direto nos braços dele?
Eva ficou olhando para o envelope em suas m ãos.
– Você devia ter m e contado, m ãe. Não era papel da Nana m e contar sobre o passado do m eu pai – falou Kat, com raiva. – Em vez de m e j ulgar, de j ulgar o Carter, você deveria ter sido honesta com igo prim eiro. – Ela desej ou que as lágrim as retrocedessem . – Com o pôde m entir? Com o pôde fazer eu m e sentir tão sozinha?
– Eu nunca quis isso – respondeu Eva. – Eu só... Só quero você protegida, Katherine. Você é tudo o que eu... Eu não contei porque queria o m elhor para você.
– Carter é o m elhor para m im . Talvez ele tenha tom ado decisões ruins, m as é um bom hom em e eu o am o.