Desejo Proibido
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.
Parecia absurdo, m as Carter queria m uito que ela com eçasse a brigar com ele.
– Então, alguém vai m e contar por que estou aqui? – perguntou ele, olhando alternadam ente para a Srta. Lane e para Jack.
Jack olhou para ele, desaprovando sua atitude, antes de gesticular para que a Srta. Lane falasse.
Carter esperou enquanto ela lim pava a garganta, fascinado por seu nervosism o. Era um a versão nova dela, com os dedos agitados e os om bros tensos.
– Bom , acho que podem os adm itir que sua participação em m inhas aulas não deu m uito certo.
Ele riu.
– É, porra nenhum a, m adam e.
– Wes – advertiu Jack, curvando o lábio.
Carter revirou os olhos e indicou, erguendo o cotovelo, que a Srta. Lane continuasse.
– Fiquei sabendo que sua oficial de condicional virá em breve para conversar sobre o seu requerim ento.
Ele deu de om bros.
– Sim . E daí?
Ela m anteve o olhar firm e e sereno, um fato que fez os dedos de Carter trem erem .
– Tam bém fiquei sabendo que sua participação nas m inhas aulas era para aj udá-lo com seu requerim ento.
Carter expeliu o restante da fum aça e apagou o cigarro no cinzeiro com três batidas bem fortes e calculadas. Ele continuou encarando a m ulher à sua frente enquanto se recostava de novo na cadeira.
– E... – disse ele, por fim , escondendo o sorriso irônico quando viu aquela intensidade fam iliar explodir nos olhos da Srta. Lane.
Lá estava.
– E... – rosnou ela. – Estou m e oferecendo para lhe dar aulas particulares, de m odo que você possa solicitar a liberdade condicional antecipada, apesar de agir com o um babaca, m esm o quando as pessoas estão tentando aj udá-lo.
Jack ficou olhando surpreso depois daquela pequena patada. Carter deixou seus olhos deslizarem fascinados pelas curvas e pela pele do rosto e da nuca da Srta. Lane enquanto o calor tom ava conta do rosto dela. Ele passou a língua pelos lábios. Caram ba, ela ficava linda quando estava brava.
Abruptam ente, a Srta. Lane se levantou, arrastando a cadeira com força antes de derrubá-la para trás com um barulho alto. Ela olhou para a cadeira, m as não se m oveu para erguê-la; em vez disso, pegou a bolsa, derrubando-a duas vezes antes de conseguir segurá-la direito.
Jack tam bém se levantou enquanto ela se atrapalhava toda.
– Srta. Lane? – falou o conselheiro.
– Esqueça – falou, irritada, para Wes. – Não vou perder m eu tem po. É óbvio que você é incapaz de ser grato quando alguém oferece aj uda. – Ela colocou a bolsa no om bro. – Mas eu entendo.
Entendo que aceitar m inha oferta não cairia bem para o perfil m achão rebelde que construiu por aqui e entendo que m orra de m edo de que alguém talvez o enxergue com o o cara inteligente que você é.
Tenho certeza de que o Sr. Ward vai ficar entusiasm ado por ter você aqui pelo resto da sua sentença.
Mas quem liga, né?
Ela se virou.
Caralho!
Ao ver o fogo e o desafio em seus olhos e ao ouvir a verdade em suas palavras, Carter percebeu que ela estava lhe oferecendo um bote salva-vidas, um a form a de conseguir a liberdade condicional que ele tanto queria, e seu com portam ento infantil ia fazê-la sair da sala, deixando-o sem nada. Por m ais irritante que a Srta. Lane fosse, ele não podia negar que estava sensibilizado por ela ter concordado em aj udá-lo.
Ele pigarreou.
– Srta. Lane?
Ela parou em seu cam inho para a porta. Seus om bros se ergueram quando ela se virou para ele com um a expressão im paciente.
– Eu, é... – com eçou ele, batucando com os dedos na beirada da m esa, incapaz de dem onstrar gratidão, m uito m enos de senti-la. – Olha, eu... Eu agradeço – gaguej ou, os olhos passeando por toda a sala.
A Srta. Lane olhou para Jack, que parecia igualm ente sem palavras.
– Não se preocupe, foi estúpido da m inha parte...
– Não – interrom peu ele. – Não foi estúpido. Foi um a boa ideia. Eu acho... – Carter olhou para Jack, buscando auxílio.
– Wes – interveio Jack. – Você está dizendo que quer que a Srta. Lane sej a sua tutora?
Carter baixou os olhos, fitando a m esa, procurando pelos cigarros.
– Bom , está bem – sussurrou Jack. – Srta. Lane?
– Então – disse ela, virando-se em direção à m esa. – Vam os fazer isso?
– Eu disse que sim , não disse? – grunhiu Carter em m eio à neblina de fum aça que o rodeava.
Um a expressão confusa passou pelo rosto da Srta. Lane antes de ela retornar a seu lugar.
Vinte m inutos depois, com a agenda preenchida com os dias e horários em que ela e Carter se encontrariam , a Srta. Lane se levantou novam ente e estendeu a m ão a Jack.
Ele a apertou com entusiasm o.
– Obrigado, Katherine. Vam os conversar m ais, tenho certeza.
– Certam ente – respondeu ela com um sorriso. – Pode m e cham ar de Kat. – Ela deu um a olhada para Carter. – Vej o você na segunda.
Mas Carter perm aneceu m udo. E, im óvel com o um a estátua, m anteve os olhos fixos na porta, que se fechou atrás dela. Sua pulsação explodia em seus ouvidos, enquanto o som do nom e dela reverberava em seu crânio com cada batida feroz de seu coração.
Katherine. Katherine. Katherine.
Quando ficaram sozinhos, Jack se virou para ele com um sorriso de orelha a orelha.
– Wes, isso é ótim o! – Ele j untou as m ãos em um a palm a. – Ótim o m esm o, né? Wes? – repetiu Jack, enfiando as m ãos nos bolsos. – Wes, você está...
– Do que você a cham ou? – disse Carter, com voz rouca.
Sua respiração ficou difícil, fazendo-o ofegar. Ele colocou lentam ente a m ão no peito, onde um aperto, algo que nunca tinha sentido antes, o esm agava de m aneira im placável.
– O quê? – perguntou Jack, confuso.
Os olhos de Carter se fecharam . Ele engoliu em seco.
– Do que você cham ou a Srta. Lane?
Jack franziu a testa.
– De Katherine. Por quê?
Katherine Lane. Katherine Lane, puta que pariu.
Enquanto o m undo em volta dele entrava em pane, fazendo com que o chão da sala sum isse, Carter baixou a cabeça até os j oelhos. Sua respiração vacilava enquanto o ar lutava para chegar aos pulm ões.
Não podia ser. De j eito nenhum .
Não.
Quais eram as chances?
As chances eram m ínim as.
Ele agarrou a própria cabeça, incrédulo.
– Não pode ser ela.
Ele puxou todo o ar que conseguiu, m as era inútil. As paredes se fechavam à m edida que o pânico e a incredulidade esprem iam sua garganta sem m isericórdia. Ele estava sufocando.
Jack caiu de j oelhos em frente a ele.
– Quem , Wes? – perguntou Jack. – Wes, fale com igo. De quem você está falando?
Ele apertou o om bro de Carter.
– Não pode ser – m urm urou Carter.
– Quem ? A Srta. Lane?
– Não – respondeu Carter, vagam ente ciente da urgência na voz de Jack. – Ela não é a Srta. Lane, ela é... Puta m erda.
– Quem ? – perguntou Jack, apertando o om bro de Carter ainda m ais.
Carter finalm ente olhou para seu conselheiro com olhos que m al conseguiam enxergar, sua visão em baçada por lem branças tão reais que ele quase podia tocá-las.
Cabelos grossos, ondulados. Um vestido azul. Tiros. Gritos.
Ele segurou o braço de Jack e apertou, agarrando-se com toda a força, precisando de um chão, precisando de algo que o im pedisse de desandar com pletam ente. Ele reprim iu um soluço.
O hom em de 27 anos forte e arrogante j á não estava ali. Ele era novam ente um bostinha assustado de 11 anos, desesperado por alguém que o am asse, tentando de m aneira frenética salvar a vida de um a m enininha apavorada.
Ele tentou responder a Jack. Cara, com o tentou. Queria contar tudo a ele. Queria im plorar que o tirasse daquela sala antes que ele perdesse a cabeça. Ele estava perdendo o controle. Será que a m orte era assim ?
Com o um a represa que se racha, a m em ória de Carter se escancarou. Cada im agem parecia um fogo de artifício explodindo em sua visão, zunindo em seu cérebro, gritando em seus ouvidos. Ele abaixou a cabeça, estreitando os olhos e agarrando a lapela do blazer de Jack, esm agando a lã em sua m ão, querendo que todo o seu corpo relaxasse e suprim isse aquela porcaria toda. Irritantem ente, quanto m ais tentava acalm ar sua respiração, m ais seu corpo se fechava.
Ele grunhiu de terror quando sua garganta se apertou m ais e m ais e afundou a testa suada no om bro do conselheiro, dizendo coisas que ele j am ais pensou que diria desde aquela noite horrorosa dezesseis anos antes.
– Jack – sussurrou ele. – Ela é m inha Pêssegos.
7
– Preciso buscar m eu pai!
– Continue andando! Precisamos nos afastar deles! Eles vão matar você! Ande!
– Wes?
– Não! Ele precisa de mim!
– Wes. Você pode abrir os olhos para m im ?
– Fique parada!
– Wesley. Está tudo bem .
Carter se ergueu rapidam ente na cam a da clínica, sentando-se ofegante e com os olhos arregalados. Deu um a olhada em volta, quase desesperado, e pulou quando a m ão de alguém tocou seu braço. Virou-se e viu Jack em pé ao lado da cam a, seu rosto enrugado de preocupação. Ele engoliu em seco, tentando ao m áxim o proteger a garganta irritada. A confusão em sua cabeça ainda era grande. Merda, ele queria m orrer.
– Onde estou?
Ele piscou e olhou, em torno da sala, para as paredes caiadas e para a expressão de surpresa de um m édico e de dois guardas.
– Você está na clínica da penitenciária, Wesley – respondeu o m édico.
– É Carter. E quem diabos estava falando com você, doutor? – retrucou ele.
O m édico se encolheu e deu um passo para trás.
– Wes – disse Jack suavem ente. – Você teve um a crise de pânico.
Ele tossiu um a risada, ignorando o calor da vergonha que subia pelo seu corpo.
– Quem disse?
– Eu disse – interferiu o m édico.
Carter ficou olhando para ele por um m om ento.
– Vou m e m andar daqui. – Ele j ogou as pernas para a direita, de m odo que elas ficaram balançando no ar. – Cadê os m eus sapatos?
– Receio que isso não sej a possível – com eçou o m édico.
– Eu não estou pedindo – gritou Carter.
Sentiu um a m artelada bem no fundo de seu crânio. Seus tím panos tinham se com prim ido o suficiente para explodir e, ora, vej am só, pequenos pontos pretos estavam flutuando e dançando em sua visão periférica. Fantástico. Ele cerrou os olhos por um a fração de segundo para recuperar o equilíbrio, inclinando-se para a frente.
Jack colocou as m ãos em seus om bros para m antê-lo ereto.
– Você tem que se acalm ar – m urm urou ele. – Sim plesm ente relaxe. Você ficou apagado por um tem po. Precisa pegar leve.
Carter pressionou entre as sobrancelhas para tentar am enizar as palpitações por trás dos olhos.
Nunca tinha sentido nada parecido. Era com o se a porcaria de um circo tivesse m ontado um a arena entre suas orelhas e fosse botar pra quebrar até que ele ficasse com pletam ente esgotado. Nem sequer conseguiu brigar com Jack quando ele o em purrou de volta para a cam a. Ele suspirou e franziu a testa para a plateia que estava parada ali observando-o, com o se estivesse esperando que ele explodisse.
– Sua cabeça dói? – perguntou o m édico.
Carter fitou o hom em com severidade, exausto dem ais para conseguir pensar em algo engenhoso para responder.
– Vou buscar uns analgésicos – disse o m édico, saindo rapidam ente da sala.
Carter ficou surpreso ao ver que os dois guardas tam bém saíram , dando um a olhada nervosa para Jack.
– Caram ba, ao m enos ainda consigo fazer com que todo m undo vá em bora – concluiu Carter.
Jack enfiou as m ãos nos bolsos.
– Precisam os conversar.
– Sobre o quê? – respondeu Carter, rápido dem ais.
Jack fitou Carter com um olhar penetrante.
– Você sabe.
Carter soltou a cabeça na cam a.
Ele ainda estava confuso dem ais para conversar sobre... bem , qualquer coisa; m uito m enos sobre a revelação gigantesca que o tinha atingido na cabeça com o um tij olo.
Era ela. Pêssegos. A garota com quem ele sonhava havia dezesseis anos.
A garota que ele tinha salvado...
– Wes – insistiu Jack. – É confidencial, se é com isso que você está preocupado.
– Não estou preocupado com nada, Jack. Só não tenho nada a dizer. Cacete! – rosnou Carter, agarrando os lençóis, querendo rasgá-los em pedaços para que com binassem com as sensações tum ultuadas que vibravam dentro dele.
O barulho de um a cadeira sendo arrastada em direção à sua cam a relem brou Carter de que Jack era um cara teim oso e que não iria em bora sem algum tipo de explicação.
Jack apoiou os cotovelos na lateral da cam a.
– Wes, nos conhecem os há m uitos anos. Já conversam os, j á discutim os, j á ficam os sentados em silêncio... Mas eu j uro por Deus, garoto, você nunca tinha m e assustado tanto quanto ontem .
Os olhos de Carter foram ao encontro dos olhos cansados de Jack e viram apenas verdade por trás daquelas palavras. A confissão dele fez Carter se sentir estranho. Em geral, ele estava cagando e andando para os pensam entos ou sentim entos das outras pessoas, m as saber que Jack tinha ficado preocupado fez Carter sentir... algum a coisa.
– É, bom – m urm urou ele, erguendo os om bros enquanto olhava para o teto. – Estou bem .
– O que é Pêssegos?
Um trem or de ansiedade subiu pela espinha de Carter, causando um a onda de náusea que se espalhou por seu corpo.
– Ninguém im portante.
As palavras foram forçadas, sussurradas.
– Então Pêssegos é um a pessoa?
Carter colocou as pontas dos dedos nas têm poras e fechou os olhos.
– Jack, por favor – grunhiu ele. – Esqueça isso.
Ele esperava que o desespero em butido em sua voz fosse suficiente para conter a insistência de Jack. Um a expressão de surpresa passou pelos olhos do conselheiro e Carter com preendeu que tinha atingido o alvo, ao m enos por um tem po. Ele sim plesm ente não tinha energia nem vontade de tentar explicar algo ou alguém em quem ele tinha pensado todos os dias desde os seus 11 anos.
Ele tinha que colocar a cabeça no lugar antes de fazer isso.
Ele tinha que colocar a cabeça no lugar antes de segunda-feira, quando teria sua aula de literatura inglesa.
Um a aula particular com ela.
Com a Srta. Lane.
Com Pêssegos.
Carter estava sentado atrás de um a m esa de m adeira quando sua Pêssegos entrou e deu um largo sorriso para o guarda. O sorriso sum iu rápido quando ela percebeu a aparência propositalm ente indiferente de Carter, apesar de a confiança dela nunca se abalar.
– Boa tarde – disse ela, pegando livros e papéis de sua bolsa gigante.
Carter m anteve os olhos fixos no chão enquanto seus polegares giravam um por cim a do outro sobre o colo. Nossa, com o ele estava suando. Ela pigarreou.
Carter ergueu a cabeça, torcendo para que sua voz saísse.
– Boa tarde, Srta. Lane.
Os olhos verdes dela brilharam surpresos com esse cum prim ento atipicam ente am igável. Ele esboçou um sorriso, tentando parecer blasé. Por dentro, Carter só queria fugir correndo dali com o um gato. Tinha certeza de que ela podia ouvir seu coração palpitando dolorosam ente no peito.
Ela puxou a cadeira.
– Vam os fazer a m esm a coisa que a turm a está fazendo para que você não fique para trás.
Ele m anteve os olhos nela, assim ilando todo o seu corpo. Observou seus m ovim entos e as expressões que seu rosto fazia, tentando encontrar a m enininha de que se lem brava com o um a fotografia am assada no fundo de sua m em ória. Deus. Depois de dezesseis anos, ali estava ela, alheia à conexão que existia entre eles. Sabia que ela percebera que ele a estava observando. Carter ficou pensando se ela sentia o m esm o que ele quando o olhava.
– Este é o poem a que vam os trabalhar.
Ela colocou um a folha de papel diante dele.
Ele se inclinou para a frente, lendo o título no topo da página.
– A Elegia de Tichborne?
– Sim – respondeu Pêssegos. – Qual é o problem a?
– Os idiotas daquela sua turm a nem sequer sabem quem é Chidiock Tichborne!
– Agora sabem – falou ela calm am ente enquanto rem ovia a tam pa da caneta. – E o que você sabe sobre ele e sua poesia?
Carter ouviu o desafio na voz dela. Ele se concentrou nisso e não na sensação de calor do j oelho dela perto do dele, em baixo da m esa.
– Sei o suficiente – afirm ou ele, cruzando os braços.
– Por favor – pediu ela com a m ão –, m e dê esse regalo.
– Regalo? – zom bou. Carter coçou o queixo. – Tichborne nasceu em Southam pton, Inglaterra, em 1558 – com eçou ele. – Em 1586, participou da Conspiração Babington, para assassinar a rainha Elizabeth e substituí-la pela católica Maria da Escócia. Mas eles se ferraram . Ele foi preso e, e em seguida, enforcado, afogado e esquartej ado.
Contendo o riso perante o choque dela, continuou:
– Este poem a foi o único que ele escreveu enquanto aguardava sua execução. Meio inapropriado para se estudar em um presídio, não acha, Srta. Lane?
– Você gosta de história.
Carter deu de om bros.
– Acho legal. Mas prefiro literatura inglesa.
Ele deixou que sua resposta cheia de intenções pairasse entre eles.
Ela lam beu os lábios.
– Então, m e fale sobre o poem a.
– Ele usa paradoxos e antíteses – com entou. – Oposições e contradições. Faz isso para destacar a tragédia pela qual está passando; o que, se você parar para pensar, é bem idiota.
– Por que você acha isso?
Carter riu.
– Ele errou, então tem que pagar o preço. Sua dívida.
– Parece que você entende um pouco desse assunto.
Carter ergueu as sobrancelhas e deu um a olhada em torno da sala, fazendo os olhos ficarem arregalados e evidentes.
– Sei que você está pagando pelos seus erros. Mas ele era tão j ovem , j ovem dem ais para m orrer.
Você não sente em patia por Tichborne de algum a m aneira?
– Em patia? Não – respondeu ele com firm eza. – Invej a? Sim .
– Por que você o invej a?
Carter m anteve os olhos na m esa entre eles.
– Pelo fato de que ele está prestes a m orrer – m urm urou. – E com eça a ver as coisas com m uito m ais clareza. Tem foco, discernim ento. Invej o isso nele.
– Você quer discernim ento?
Carter sorriu.
– Querer e precisar são duas coisas bem diferentes, Srta. Lane – respondeu ele. – Preciso de discernim ento. Preciso de foco.
Então ele olhou para ela, porque quem dera houvesse qualquer outra coisa que ele pudesse fazer ou dizer naquele m om ento. Carter sabia que ter descoberto a identidade dela seria o passo inicial para que ele encontrasse, pela prim eira vez em anos, algum tipo de foco em sua vida. E m esm o enquanto falava de Tichborne com o se soubesse do que estava falando, era som ente com sua Pêssegos, sentada à sua frente, que ele realm ente com preendia a própria necessidade daquilo.
– Pêssegos – sussurrou ele, assim ilando cada centím etro de seu rosto: os cabelos verm elhos que o engoliram quando ele a j ogara no chão e ela lutara para voltar para perto do pai e os olhos que tinham derram ado lágrim as tristes e apavoradas.
– O quê? – perguntou ela em voz baixa. – O que você disse, Carter?
E foi assim que o m om ento passou.
Com o se tivesse acordado de um sonho, Carter se endireitou, dando um a espiada no guarda antes de se esparram ar na cadeira de novo.
– Mas sabe com o é – m urm urou ele, pegando do bolso o cigarro que Jack tinha lhe dado, sua barreira de proteção se erguendo novam ente. – Que diabos eu sei, né? Você que é a professora genial.
Um a vozinha no fundo de sua consciência ralhava com ele por ser tão babaca enquanto a expressão dela m udava de calm a para furiosa. Mas estava tudo bem , disse a si m esm o. Podia lidar com a raiva dela. Era sexy. Sua raiva o deixava excitado. Eram todas as outras coisas que o assustavam dem ais.
– Sim – retrucou ela. – Sou m esm o e quero que você faça essas atividades. – Ela esm urrou outra folha de papel na m esa em frente a ele, repleta de perguntas e tarefas. – Tenho certeza de que, com seu conhecim ento universal, você não terá problem as, certo?
Lançou-lhe um olhar que o desafiava a retrucar algum a coisa, a recusar. Ele não o fez.
Em vez disso, pegou a caneta que ela havia largado sobre a m esa e com eçou a fazer os exercícios propostos, pois, enquanto ela perm anecesse sentada diante dele, olhando-o fixam ente com toda a sua raiva e encanto, Carter sabia que faria qualquer coisa que lhe pedisse.
Qualquer coisa m esm o.
8
Kat organizou os cadernos e as canetas em pequenas pilhas em sua m esa, dando um a olhada nos alunos enquanto eles eram escoltados para fora da sala de volta às suas celas.
– Belo trabalho hoj e – Kat elogiou Riley quando ele se aproxim ou com um sorriso tím ido. – Quem diria que Shakespeare aum entaria seu entusiasm o pela palavra escrita?
Ela estava explodindo de orgulho pela dedicação de Riley à sua redação. Ele vinha se esforçando tanto e, apesar de sua dislexia deixá-lo frustrado, era óbvio que era m uito inteligente.
Riley deu um sorriso m alicioso, balançando-se sem sair do lugar.
– É. – Ele deu de om bros enquanto seu indicador tocava no exem plar de O mercador de Veneza de Kat. – Não curto esse negócio de poesia, m as m eio que gosto desse tal de William .
Kat riu e se debruçou na m esa, cruzando os braços.
– O que posso fazer por você, Riley ?
Ele pareceu nervoso e estalou as j untas ruidosam ente.
– Você sabe que a reunião de análise da m inha liberdade condicional é na sem ana que vem , né?
Kat assentiu com a cabeça.
– Moore! – gritou o guarda atrás deles. – Acabou o tem po!
– Com licença! – rosnou Kat, levantando-se. – O Sr. Moore quer discutir algo im portante com igo com relação ao aprendizado dele e não precisa que você – ela apontou um dedo acusador na direção dele – fique gritando com ele enquanto isso.
O guarda pareceu sem palavras. Kat se voltou para seu aluno.
– Desculpe, Riley. Continue.
Ele j untou as m ãos.
– Hum ... É, então, a reunião de análise da m inha liberdade condicional é na sem ana que vem e eu estava pensando... – Ele esfregou um pulso no outro. – Digo, sei que você está aj udando o Carter – disse, colocando o peso do corpo em cim a do outro pé.
– O que você quer de m im , Riley ? – perguntou Kat de form a gentil, botando a m ão sobre a dele em um a tentativa de acalm á-lo. – Pode m e pedir qualquer coisa; se eu puder, vou aj udar.
Os om bros de Riley pareceram desabar de alívio.
– Jack disse que você ia falar isso, porque você é legal e tudo o m ais.
Kat riu.
– Obrigada.
– Você faria um ... um relatório de personalidade na frente da banca? Você
sabe, para m e aj udar a
conseguir uns pontos extras, dizendo que cara incrível eu realm ente sou?
Naquela m anhã, um Anthony Ward bem agitado tinha pedido a Kat um relatório escrito. Parecia que ele não gostava nem um pouco quando seus detentos ganhavam liberdade. Im becil.
Kat apertou o braço de Riley.
– Com o m aior prazer.
– Sério?
– Sim , sério – respondeu Kat.
– Você é do caralho, Srta. L! – gritou ele, abraçando-a com tanta força que quase a sufocou.
Kat atravessou, apressada, o corredor em direção à sala de aula; atrasada, m as anim ada. Estava m uito ansiosa para se perder na cabeça de Carter m ais um a vez. Tinha ficado pasm a com o conhecim ento que ele dem onstrara na prim eira aula. Sabia que ele era inteligente. Havia lido em sua ficha. Mas, nossa! Ele era m ais que isso. O cara era inteligente e educado de um a m aneira extraordinariam ente sedutora.
Ela sorriu para o guarda à porta e entrou, vendo Carter parado no canto da sala, as m ãos entrelaçadas e um cigarro quase no fim pendendo de seus lábios. O rosto era severo e ficou ainda m ais quando ele olhou para ela. Arrancou o cigarro da boca, fazendo com que as cinzas caíssem no chão.
– Ah – zom bou ele. – E cá estava eu, achando que você estava ocupada e não iria conseguir cum prir seu com prom isso.
Kat colocou a bolsa na m esa. Conteve-se para não retrucar, lem brando-se das palavras de Rachel sobre a rotina ser vital para os detentos.
– Me desculpe – disse ela.
Ele ficou andando de um lado para outro, suas longas pernas tom ando conta do local.
– Fiquei conversando com Riley, daí encontrei Jack no cam inho e...
– O quê? – gritou Carter, o que fez o guarda colocar a m ão no cassetete em sua cintura.
– O quê? – repetiu ela com calm a.
– E o que foi que ele disse para você, hein? – berrou Carter, dando um passo gigantesco em direção a ela.
Kat cruzou os braços, perm anecendo firm e diante da fúria selvagem no rosto dele.
– Só conversam os sobre a vinda da sua agente de condicional na sem ana que vem – respondeu ela. – Ele quer que eu converse com ela sobre nossas aulas. Acha que m eu envolvim ento direto vai aj udar no seu requerim ento.
Ela observou a ira nos olhos dele dim inuir e seu peito forte e largo com eçar a desacelerar. Ele engoliu em seco e ela observou o pom o de adão subir e descer em sua garganta. Ela sacudiu a cabeça para afastar os pensam entos inapropriados. Principalm ente aquele em que ela passeava com a língua pela tatuagem negra, que a provocava sem m isericórdia, no pescoço dele. Ela ficou pensando em até onde o desenho iria...
Kat retom ou o foco.
– Carter, peço desculpas. Estou aqui agora, então podem os com eçar a trabalhar.
Ela soltou os braços ao lado do corpo, m ostrando que não estava na defensiva, e apontou para a cadeira ao lado da m esa.
Carter passou a m ão pelo rosto e se m oveu até a cadeira, onde se sentou e apagou o cigarro.
– Então, que tipo de diversão você trouxe para m im hoj e, Srta. Lane? Porque, preciso lhe dizer, m al consigo m e segurar de ansiedade.
– Vam os nos ater ao Tichborne por hora – respondeu ela, ignorando o sarcasm o dele. – Eu quero dar um a analisada no trabalho que você fez para m im ontem .
– Ótim o – respondeu Carter secam ente, tirando outro cigarro do bolso.
Enquanto Kat puxava sua cadeira para o lado dele, Carter fez um sinal para que o guarda lhe desse um fósforo, e foi o que o guarda fez. Ele deu um a longa tragada antes de soltar a fum aça, m as parou de repente ao perceber quão próxim a ela estava. Ele ficou olhando enquanto ela se sentava, cruzava as pernas e revirava alguns papéis.
– O que foi? – perguntou ela.
Com o cigarro ainda pendurado na boca, ele olhou para baixo, para o pequenino espaço entre eles, e então para o vazio que ela havia deixado do outro lado da m esa.
– Ora, por favor – zom bou ela. – Do que você tem m edo, de pegar piolho da professora?
Carter puxou o cigarro da boca.
– Não, não estou preocupado com esse tipo de coisa. Só estou surpreso.
– Surpreso?
Ele coçou o braço com o polegar.
– De ver com o você esconde bem o seu m edo.
Os olhos dela se estreitaram .
– Não tenho m edo de você.
– Ah, Srta. Lane, não m e provoque.
Ele sorriu de um j eito sexy.
Ela o encarou por um m om ento antes de se recostar na cadeira e cruzar os braços.
– E por que eu deveria ter m edo de você?
Carter se inclinou para a frente na cadeira, soltando a fum aça pelo nariz, de m odo que ela se dividia tentadoram ente quando atingia seu lábio superior.
– Você deveria ter m edo, Pêssegos – m urm urou ele. – Já fiz coisas que fariam sua linda cabecinha pirar, e você estando assim tão perto – ele apontou com o queixo para o espaço entre eles e seus olhares se encontraram –, bem , m e faz querer ser m au de novo.
O ar pareceu faltar nos pulm ões de Kat.
Carter sorriu, aparentem ente satisfeito consigo m esm o, e se recostou na cadeira.
Babaca arrogante.
– Presum o que você tenha gostado do m eu trabalho, hein?
Ele com eçou a ler os com entários feitos às respostas dele.
– É... Eu, hum ... Sim , é... O quê?
– Eu disse que você gostou. – O canto da boca dele se curvou em um sorrisinho presunçoso. – Então, vam os fazer algum a atividade hoj e ou o quê?
Ainda envergonhada por ser incapaz de elaborar um a frase com pleta, Kat puxou os papéis m ais para perto enquanto se inclinava, colocando seu braço a um centím etro do dele. Ela sentiu a excitação. Kat conseguiu m anter o braço naquela posição por uns sessenta segundos antes de ter que tirá-lo dali.
Pelos 45 m inutos seguintes, Kat assistiu a Carter com pletar atividade após atividade, obediente e observador. Seus tópicos de discussão eram perspicazes e o som da voz dele, à m edida que se entusiasm ava com o poem a, fez seu estôm ago se contorcer da m aneira m ais deliciosa. Sua sobrancelha se enrugava de form a adorável quando ele se concentrava e seus olhos ficavam m ais escuros quando ela dizia algo que o desafiava. Discutir com ele sobre m étrica, im agens e m etáforas era inegavelm ente sexy.
Um a espécie de prelim inares acadêm icas que deixaram Kat ansiando por m ais.
Antes que ela percebesse, os guardas vieram para levar Carter de volta para a cela. Ela arrum ou as coisas devagar, incapaz de refutar a sensação ruim que preenchia seu estôm ago ao pensar que não iria vê-lo por dois dias.
Quando chegou à porta, ela ouvir Carter se levantar.
– Srta. Lane.
Ela se virou.
– Sim , Carter?
O lado esquerdo da boca dele se ergueu.
– Até segunda.
Com um cartão de aniversário e um presente lindam ente em brulhado em m ãos, Kat entrou no restaurante italiano preferido de Beth no SoHo e riu quando viu a am iga. Um adesivo enorm e e brilhante, onde estava escrito VINTE E CINCO, cobria a lateral de seu vestido rosa que ia até o j oelho, acom panhado por um a faixa de um rosa m ais intenso.
– Kat, você veio! – gritou ela, anim ada, enquanto se aproxim ava.
– Claro, eu não perderia por nada!
Beth ficou parada com o se estivesse em choque, olhando para a am iga de um j eito que fez Kat esfregar nervosam ente as m ãos pela blusa de seda e a calça j eans preta.
– O que foi? Por que você está m e olhando assim ?
– Tem algo diferente em você. – Beth ofegou, depois sorriu. – Você está toda radiante e...
Caram ba! Qual o nom e dele?
A boca de Kat se escancarou; depois, ela bufou de leve.
– Deus, você está louca. Saia da frente.
Beth seguiu o indicador de Kat, que apontava na direção do bar.
– Só estou fazendo um a observação – disse ela.
– Bem , prefiro que você observe isto aqui. – Ela sorriu, entregando o presente a Beth. – É m eu e da m inha m ãe.
A clutch verm elha da Herm ès era exatam ente o que Beth tinha pedido, de m aneira não m uito sutil, nos dias anteriores ao seu aniversário. Ela abraçou a bolsa contra o peito e arrulhou de um j eito fofo.
Quem dera todos fossem tão fáceis de agradar.
Kat deu um a olhada na área do bar enquanto elas esperavam por suas bebidas.
– Adam ainda não chegou?
Beth m eneou a cabeça enquanto entregava um a nota de vinte ao bartender.
– Ele teve que trabalhar até tarde. Deve chegar logo.
– Essa vida de diretor financeiro, hein? – constatou Kat, sorrindo.
– Ele tem trabalhado tanto com o irm ão – disse Beth. – Mal tem os conversado nesses últim os tem pos. Quando não estou corrigindo avaliações e preparando aulas, estou planej ando o casam ento, que decidim os que será no próxim o verão. Aliás, você vai ser m adrinha.
– Ah, nossa – brincou Kat.
– Sej a boazinha – repreendeu Beth. – Não vou ser um a “noivazilla”!
Elas riram .
– Mas e você? Com o anda a vida atrás das grades?
– Nada parecida com o que eu tinha im aginado.
Kat descreveu seus alunos incríveis e as aulas particulares com Carter, contando tam bém os m om entos de tensão com Corey e Jason.
– Você parece feliz, Kat – afirm ou Beth com sinceridade enquanto elas pegavam as bebidas no bar. – E a felicidade cai bem em você.
As bochechas de Kat coraram .
– É bom finalm ente estar fazendo algo que parece certo.
– Seu pai estaria orgulhoso.
– Acredito que sim . Estou aj udando e m e sinto m uito bem .
Kat contornou a borda do copo com o indicador.
– Então por que essa carinha? Qual o problem a? – perguntou Beth.
Kat hesitou.
– Queria que m inha m ãe percebesse com o estou feliz. Puxa, m al conseguim os ficar no m esm o recinto por cinco m inutos, brigam os tanto. – E aquilo doía. – Ela está convencida de que algum a coisa vai acontecer com igo, em vez de confiar em m im e ficar orgulhosa. É com o se o que faço não fosse bom o suficiente e eu estivesse fazendo tudo isso para irritá-la.
Beth apertou o om bro de Kat.
– Ela sem pre vai se preocupar, am iga. É isso que as m ães fazem . Ainda m ais no seu caso.
– Eu sei, m as...
– Tente, talvez, dem onstrar um pouco m ais de com preensão.
Kat cerrou os dentes. Ela não queria ouvir aquilo. Adorava Beth, m as a em patia constante da am iga em relação ao com portam ento de sua m ãe estava com eçando a encher o saco.
– Então – disse ela, m udando de assunto. – Além de trabalhar dem ais, com o está o Adam ?
– Está bem . Convidou o irm ão, Austin, para vir aqui hoj e. Ele é CEO de um a grande em presa de telecom unicações, a WCS. Ele se divorciou no inverno passado e Adam está determ inado a colocá-
lo “de volta no m ercado”. Ele é m uito legal e bem bonito.
Kat levou um m om ento para reconhecer o tom na voz de Beth.
– Ah, não, não, não! – exclam ou Kat, sacudindo a cabeça. – Não preciso de hom em nenhum agora.
– Hum . Se você diz... – Ela fez um a careta de escárnio. – Reivindicar sua castidade aos 24 anos está, tipo, na m oda agora?
Kat em purrou a am iga de form a brincalhona.
– Cale a boca!
Beth riu e seus olhos se arregalaram por cim a do om bro de Kat.
– Ele chegou!
Ela atravessou o restaurante praticam ente aos pulos e deu um beij o e um abraço em Adam . Ele era apenas alguns centím etros m ais alto que Beth, com cabelo castanho bem cortado. Usava calça j eans escura e um a cam isa verm elha. Tinha olhos verdes e lindos dentes brancos.
– Bom ver você, Kat – disse ele quando ela se aproxim ou. – O que posso com prar para você be...
– Desculpem o atraso. O trânsito estava um a porcaria e o taxista era um tapado!
Kat se virou na direção da voz e viu um a cabeça coberta por um caos de cabelos pretos. Era aquele look acabei-de-sair-da-cam a e caía bem nele. O cara era alto, m aior que Kat e Beth, e sorriu para as duas antes de voltar sua atenção para Adam , que deu um tapinha em suas costas antes de pedir um a rodada de bebidas.
– Kat, este é Austin Ford, irm ão do Adam – disse Beth. – Austin, esta é m inha am iga Kat Lane.
– Oi – cum prim entou ela, esticando a m ão. – Prazer em conhecê-lo.
Austin se inclinou e pegou a m ão dela, dando um beij o leve no dorso.
– O prazer é todo m eu.
É, ele era bem atraente. Tinha om bros largos, cobertos por um a polo preta aberta no pescoço, exibindo um a corrente escura. Os braços eram bronzeados e fortes, com binando com o rosto m ásculo e anguloso. Ele lem brava o Adam , m as parecia m ais viril.
Kat o analisou discretam ente enquanto bebericava seu m artíni. Ele tinha todas as características que costum avam atraí-la e, se fosse tão gentil quanto aparentava, era um partidão. Mas um a sensação de m al-estar no fundo do estôm ago a fez interrom per sua análise de Austin.
A sensação se tornou m ais forte quando Austin sorriu. Aquele era um gesto irritantem ente fam iliar, que fez a pele de Kat queim ar.
– Então, Kat, o que você faz? – perguntou Austin, percebendo que ela o encarava.
– Sou professora – respondeu ela rapidam ente. – De literatura inglesa.
– Que nem a Beth – com entou ele. – Isso é ótim o. Em que escola você dá aula?
– Na verdade, dou aulas no presídio Arthur Kill.
As sobrancelhas de Austin sum iram em m eio à franj a.
– Uau! – exclam ou ele, dando um a olhada confidencial para o irm ão, que tossiu, um tanto desconfortável.
Kat franziu a testa. Então tá.
– Beth não m encionou isso – disse Adam em voz baixa, olhando para a noiva.
Beth deu de om bros.
– Por que m encionaria?
– Arthur Kill, hein? – refletiu Austin, os olhos ainda no irm ão. – Que m undo pequeno. Nós conhecem os um cara que passou um tem po lá. Deve exigir certa paciência.
Kat concordou com a cabeça; a troca de olhares carregada entre os dois hom ens a estava deixando bastante curiosa.
– Vam os lá – disse Austin, indicando a m esa para Kat. – Me conte m ais sobre isso.
Carter m al podia esperar pela m anhã de segunda-feira e se certificara de extravasar toda a sua energia nervosa no saco de pancadas que Ross segurara à sua frente.
Perm itiram que ele entrasse na biblioteca da penitenciária no dom ingo à tarde. Após ouvir de um Riley bem prolixo qual era a peça que a turm a estava estudando, Carter im ediatam ente encontrara um exem plar de O mercador de Veneza e alguns estudos analíticos sobre o texto, que lera de ponta a ponta durante a noite. Já tinha lido a peça antes e conhecia todos os personagens e a tram a, m as, quando term inou, sabia que estava pronto para qualquer coisa que sua Pêssegos pudesse j ogar em cim a dele.
Ele se encontrava sentado à m esa da sala quando ela entrou. Cacete, ela estava linda. O cabelo estava solto e um a onda suave se form ava na porção que em oldurava seu rosto. Por m ais que Carter adorasse o cabelo dela, ele adorava ainda m ais ver seu rosto, e ficou irritado por ele estar parcialm ente coberto. Ele cruzou os braços para resistir à vontade de colocar aquela m echa para trás da sua orelha.
– Boa tarde, Srta. Lane. Com o vai você hoj e?
Ela parou, parecendo confusa.
– Estou bem , e você?
– Ah, estou ótim o.
Melhor ainda agora que você chegou.
– Então, hoj e vam os com eçar com Shakespeare – disse ela, observando-o com cautela enquanto pegava todo o m aterial na bolsa e o dispunha na m esa entre eles.
Carter achava que aqueles traços perfeccionistas dela eram , por um lado, adoráveis e, por outro, irritantes.
– Beleza – respondeu ele, repousando os braços na beirada da m esa.
Pêssegos rem exeu novam ente em sua bolsa e pegou um m aço de Marlboro, que j ogou para ele.
– Cale a boca – disse ela, brincalhona.
Carter sorriu e puxou um cigarro. Ele o colocou entre os lábios.
– Sim , senhora.
Quando o cigarro estava aceso, Pêssegos novam ente colocou sua cadeira ao lado de Carter à m esa. Ele estava um pouco m ais preparado dessa vez, m as isso não im pediu a pulsação de desej o que se espalhou por seu corpo quando ela cruzou as pernas. Tinha pernas bonitas, com curvas em todos os lugares certos. E não eram m agricelas. Havia carne suficiente ali para apertar. Para chupar.
Para se enrolarem em seu...
– O mercador de Veneza – disse Pêssegos, colocando a peça na frente dele. – Me diga o que você sabe – pediu ela, apoiando o rosto na m ão.
Carter se m exeu na cadeira.
– Am bientada na Itália, é classificada com o com édia, m as m uitos acham que é um a tragédia por causa do tratam ento do protagonista, Shy lock.
Carter pegou o livro e o folheou.
– Quem é Shy lock?
– Shy lock é um agiota que por acaso é j udeu em um a sociedade shakespeariana predom inantem ente cristã. Pior para ele.
Pêssegos riu.
– Acho que é m esm o. Estou interessada, contudo, em por que você diz que é um a tragédia. O que é trágico com relação a Shy lock?
– Ele é classificado com o vilão por causa de sua religião.
– Ele é classificado com o vilão por causa de suas cobranças de pagam ento por um em préstim o – retrucou Pêssegos.
– Besteira – continuou Carter, com o indicador pressionando o m eio do livro. – As cobranças que ele faz são j ustas.
– É m esm o? Exigir um a libra de carne para sanar um a dívida m onetária é j usto?
Carter suspirou. Ela não fazia ideia de com o suas palavras eram relevantes para ele e para a vida que levava.
– Se você não pode pagar um a dívida, não deveria dar sua palavra.
Os olhos de Carter adm iraram um a m echa de cabelo que caía sobre a bochecha dela. Ele ficou im aginando com o seria senti-la entre os dedos.
– Sua exigência de um a libra de carne pode parecer m acabra – continuou –, m as a m aneira com o ele é inj uriado por causa de sua religião é ainda m ais. Ele é insultado por conta de sua fé; a cobrança que faz sim plesm ente reforça isso. A cobrança é esperada por causa do preconceito dos babacas de m ente lim itada em volta dele.
Pêssegos ficou olhando para ele.
– Você entende bastante de dívidas?
– Entendo – respondeu ele. – Você entende?
– Sei com o é dar sua palavra a alguém – disse Pêssegos após um m om ento. Os olhos dela repousaram no livro, aberto na fala m ais infam e de Shy lock. – Sei com o é cum prir sua palavra porque você não tem outra escolha, pois am a tanto aquela pessoa que seria um a tragédia se não fosse até o fim .
E foi então que aconteceu.
Carter não conseguiu se conter. Era com o se seu corpo estivesse agindo por conta própria, atraído por ela, desesperado por tocá-la. Ela parecia tão triste. A m ão dele se m oveu lentam ente em direção ao seu cabelo e ele colocou aquela m echa atrás de sua orelha. Mal conseguia respirar quando seus dedos tocaram aquela pele m acia.
O guarda perto da porta pigarreou.
Pêssegos instantaneam ente se recostou na cadeira e passou a m ão no local que ele tinha tocado.
Carter esfregou as pontas dos dedos na coxa para dim inuir o calor que perm aneceu ali.
– Eu... Merda – m urm urou ele, pegando outro cigarro. – Eu não devia. Desculpe. – Ele acendeu o cigarro e tragou três vezes seguidas. – Você só... Você parecia chateada, sabe, e... Droga. Eu não...
Tudo o que ele queria era fazê-la se sentir m elhor; sorrir, talvez.
– Carter – disse ela, colocando a m ão em seu om bro.
Os olhos dele foram ao encontro dos dela, o cigarro pendendo da boca.
– Está tudo bem . – Ela deu um sorrisinho. – Eu gostei. Obrigada.
Carter piscou.
– Tá – respondeu ele. – Tá. Tanto faz. Beleza.
Pêssegos soltou o om bro dele depois de dar um aperto tranquilizador e puxou o livro para m ais perto.
– Vam os continuar?
Carter grunhiu e esfregou as m ãos no rosto.
– Manda ver nessas coisas aí do Shakespeare, Pêssegos.
– Pêssegos? – perguntou ela abaixando o rosto. – Você fica m e cham ando disso. De onde veio?
Carter com eçou a sentir certo pânico.
– É, hum ... – Ele brincou com o m aço de cigarros. – Não sei. Por quê? Você se ofende?
– Não, só estou curiosa.
Ele tragou o cigarro longa e lentam ente.
– Posso cham ar você de Srta. Lane, se preferir.
Ela ficou em silêncio por uns segundos.
– Não – respondeu por fim . – A m aioria das pessoas m e cham a de Kat, m as acho que você pode m e cham ar de Pêssegos. Com um a condição.
– Qual condição? – perguntou ele com um sorriso pervertido.
Pêssegos cruzou os braços, pressionando os seios para cim a de um j eito que era fantástico em todos os sentidos.
– Se eu puder cham ar você de Wes.
Carter ficou olhando para ela. Cacete. O nom e dele nunca tinha soado tão suave, tão... bacana.
– Eu... Isso é... Não tenho certeza. Quero dizer, só o Jack m e cham a assim – gaguej ou ele, j ogando o cigarro no cinzeiro. – Não sou... Ai...
Ele colocou as duas m ãos na cabeça. Com o podia explicar o ódio por seu nom e cristão? Aquela era um a história longa e deprim ente.
– Tudo bem , eu entendo – disse ela, tocando o om bro direito dele. – Na verdade, em vez disso, talvez eu deva dar a você um apelido de fruta. Que tal Kiwi?
A gargalhada que explodiu de dentro dele foi um a sensação nova e fantástica. Pêssegos riu j unto com ele. Cacete, ela ficava linda quando ria. O rosto se ilum inava e os olhos se esprem iam , quase sum indo. Carter estava em basbacado.
– Bem , chega disso. – Ela sorriu. – Vam os trabalhar.
Os tópicos de discussão que ela levantou induziram a debates acalorados, que am bos curtiram m ais do que deveriam . Eles discutiram e questionaram um ao outro, m as o clim a foi divertido, leve e, Carter não podia negar, sexy pra caram ba.
– Merda – xingou Pêssegos, pegando Carter de surpresa. – Está tarde.
Ele deu um a olhada no relógio. Eles tinham passado 25 m inutos do horário.
– O tem po voa quando estam os nos divertindo, né? – brincou ele.
A piscada que ele deu para ela fez suas bochechas corarem .
– Você, hum , tem um encontro ou algo assim ? – perguntou Carter enquanto ela se apressava, j ogando todas as suas coisas na bolsa.
– Ah, não! – Ela balançou a cabeça vigorosam ente. – Não tenho um encontro. Estou... estou solteira.
Ela se calou e fechou os olhos por um instante.
Carter m al podia esconder sua alegria. Ou seu alívio. Ela não pertencia a ninguém . Nenhum hom em a tinha reivindicado. Ele ficou perplexo. Será que eram todos insanos, porra?
– Ei, Srta. Lane – cham ou ele com um sorriso enquanto ela atravessava a sala com suas coisas. – Gostei de hoj e.
– Eu tam bém – respondeu ela, com o m esm o sorriso. – Ah, Carter... – Ela se virou para ele enquanto o guarda abria a porta. – É Pêssegos.
9
Carter estava ansioso e nervoso. Droga, onde diabos Pêssegos estava?
Ele aguardava sentado em um a sala m elhor do que as que costum ava frequentar, ao lado de Jack e de seu advogado com cara de rato. Diane, a avaliadora do seu caso, chegaria em 15 m inutos e Pêssegos ainda não tinha chegado. Ela com certeza estava no prédio; Jack tinha contado a ele quando Carter perguntara casualm ente por onde ela andava. Ele não conseguiu ignorar o j eito com o Jack o olhou. Aquilo o deixou nervoso.
A porta se abriu e a perna de Carter parou de trem er quando Pêssegos entrou. Ela estava deslum brante com um a blusa azul-clara e um a saia-lápis preta. Seu cabelo estava preso em um coque frouxo e Carter im ediatam ente quis soltá-lo e agarrá-lo, só para ver se ainda tinha o cheiro de pêssegos doces de que ele se lem brava.
– Desculpem m eu atraso – disse ela a Jack, dando um a olhada para Carter.
Carter percebeu o olhar e sorriu. Jack pigarreou e a alegria de Carter sum iu na hora. Merda. Jack tinha noção de que estava rolando “algum a coisa” entre os dois. E, desde que o idiota ali tinha desm aiado, volta e m eia fazia perguntas sobre Pêssegos. Era só um a questão de tem po até que Jack descobrisse tudo.
Ele teria que ser m ais cauteloso. Sabia que ficava m uito m ais calm o perto dela. Quando se tratava de Pêssegos, o tem peram ento dele tinha ficado sob controle e, por m ais positivo que isso fosse, poderia se m ostrar m uito perigoso. Com esse pensam ento, ele se largou na cadeira, afastando os olhos dela, e com eçou a cutucar a cutícula do polegar direito.
Naquele exato m om ento, Ward entrou na sala, seguido por Diane. Era um a m ulher notável na casa dos 35 anos, com grandes olhos escuros e cabelos castanhos que escorriam até pouco abaixo dos om bros em ondas profundas.
Ward com eçou apresentando Pêssegos, que corou lindam ente quando Diane a elogiou por seu trabalho. Diane foi até a m esa de Carter e, sem dizer um a palavra, pegou todos os papéis de que precisava. Ela se sentou na cadeira à frente de Carter e com eçou a escrever no topo do form ulário de requerim ento.
– Com o você está? – perguntou ela. – Você parece bem .
– É que sou elegante – respondeu ele em seu tom blasé e arrogante de sem pre.
Diane ignorou.
– A banca avaliadora da liberdade condicional vai se reunir daqui a seis sem anas. É quando vai ser sua audiência. Mas tenho algum as preocupações com relação a certas questões que podem afetar seu requerim ento.
Os pelos de Carter se arrepiaram .
– Tenho evidências aqui – afirm ou Diane enquanto pegava outro form ulário – de que você dem onstrou com portam ento agressivo com outros detentos, funcionários, incluindo a Srta. Lane e o Sr. Ward, e agrediu guardas quando estava sob a vigilância deles.
– Isso aconteceu porque um deles m e agrediu – enfureceu-se Carter. – Quase quebrou a porcaria do m eu pulso!
– Wes – avisou Jack com um aceno im perceptível de cabeça.
– Vou averiguar essa questão – Diane garantiu a Carter, fazendo um a anotação em sua agenda. – Mas, m esm o assim – continuou ela, erguendo a cabeça –, você tem m uito m ais pontos negativos do que positivos a essa altura. A questão é: o que você está fazendo para com pensar esses incidentes?