Desejo Proibido
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.
Ela estava chorando.
– Pêssegos – sussurrou ele, erguendo o tronco, apavorado de ter feito algo errado, algo que ela não queria. – O que aconteceu? Eu... Eu fui bruto dem ais?
Droga, ele tinha tentado ser carinhoso.
Ela balançou a cabeça de um lado para outro, m antendo os olhos fechados.
– Você j am ais m e m achucaria – m urm urou ela. – Não é, Carter? Eu sei que você nunca m e m achucaria nem m entiria para m im . Certo?
– Nunca – respondeu ele, sua garganta se fechando de m edo e confusão. – Por favor, olhe para m im .
Ela perm aneceu em silêncio, m antendo os olhos fechados, m as a lágrim a solitária que escorria por seu rosto falava m uito.
– Por favor, Katherine – im plorou Carter com um a voz que nem ele m esm o reconheceu. – Por favor, fale; você está m e assustando.
Os olhos dela, então, se abriram . O fogo que havia neles era tão forte que por um m om ento Carter ficou sem palavras.
– Do que você m e cham ou?
Carter ficou olhando para ela, perplexo. Ele deu de om bros.
– Cham ei você de Katherine – disse ele em um tom calm o. – Por quê?
– Você nunca m e cham a assim – retrucou ela venenosam ente.
– Eu sei, eu só... Sim plesm ente saiu.
– Saia de cim a de m im .
Carter hesitou.
– O quê?
– Saia. De. Cim a. De. Mim !
Ela se desvencilhou das m ãos dele e o em purrou com tanta força que ele caiu de costas, quicando no colchão.
– Mas que porra aconteceu?
Ela não respondeu. Em vez disso, pegou o m oletom , as m ãos trem endo e o rosto retorcido de raiva. Carter a observou, desam parado.
– Pêssegos! – gritou ela, colocando o m oletom . – Você sem pre, sem pre, sem pre m e cham a de Pêssegos!
– Eu sei, m as...
– Só m inha m ãe m e cham a de Katherine! Minha m ãe. Por que hoj e, hein? Por que você m e cham ou de Katherine hoj e?
Ela nem sequer olhava para ele enquanto se atrapalhava para fechar o zíper. Ela parecia perto de perder o controle.
– Não sei – berrou Carter de volta. Ele esfregou as m ãos no rosto, frustrado. – Será que você pode respirar por um segundo? Que porra está acontecendo?
Os olhos dela se voltaram para ele, enorm es e ferozes.
– O que está acontecendo? Vou dizer o que está acontecendo. Vim aqui para um a transa boa e forte, que eu achava ser algo certo, e tudo o que consigo é essa porcaria dessa sua boca. É isso que está acontecendo, Carter.
Mesm o que as palavras dela m achucassem , a fúria dentro dele pesava m ais que qualquer outra coisa. Ele saiu voando da cam a, chegando antes dela à porta do quarto, bloqueando a passagem com cada centím etro de seu corpo.
– Saia da m inha frente! – exigiu ela, indo para a direita e tentando passar por debaixo do braço dele. Ela era forte, m as Carter não ia ceder.
– Não até que você m e conte qual é o seu problem a – rosnou ele, sabendo que, se gritasse, as paredes iriam desm oronar.
– Você é o m eu problem a.
Ela em purrou de novo. Ele perm aneceu firm e e, pela prim eira vez desde que eles tinham entrado no quarto, Carter viu um relance de luz brilhar nos olhos dela. Ele a tinha surpreendido.
– Converse com igo.
Ela foi para a esquerda e em purrou.
– Não!
– Abra a boca e fale, porra!
– Não!
Ele analisou o rosto de Kat, vendo apenas lágrim as, raiva e um a tristeza profunda.
– Por quê? Por que você está no m eu apartam ento, parecendo um caco, depois de ter m e ignorado por dois dias?
A força dos braços dela desapareceu e seus dedos com eçaram a se agarrar à pele dele. Aquilo doía, m as Carter estava determ inado.
– Por que está aqui, querendo que eu com a você, hein? Isso é um j ogo? Sou algum tipo de piada doentia de reabilitação para você?
Ela se endireitou e o fitou.
– Um a piada – repetiu ela. – Meu Deus, Carter. Você pensa que acho algum a coisa engraçada nessa situação?
– Com o é que vou saber? – perguntou Carter secam ente. – Você não m e diz nada. – Ele bateu a m ão na porta, frustrado. – Sou ignorado ou ouço m eias-verdades e m ensagens confusas.
Ela inspirou fundo e se afastou dele, puxando as m angas por cim a das m ãos. A expressão dela era desolada e sofrida, e Carter tinha certeza, pela dor im placável dentro de si, de que estava sofrendo cada pedacinho daquilo.
– Que diabos aconteceu com você esta sem ana? – disse ele.
Tudo em que ele conseguia pensar era que alguém a tinha m achucado e, se isso fosse verdade, o desgraçado ia pagar pelo que tinha feito.
Ela com eçou a andar de um lado para outro, resm ungando palavras truncadas. Carter, ignorando o com portam ento atípico que estava presenciando, deu um passo hesitante na direção dela, afastando-se lentam ente da porta.
Assim que ela percebeu seu m ovim ento, tentou um a fuga louca em direção à liberdade. Carter se m oveu para pará-la e, em sua pressa para se livrar dele, ela escorregou no chão de m adeira e caiu em cheio nos braços de Carter, expulsando todo o ar do corpo dele em um sopro alto.
– Pêssegos, por favor – im plorou Carter quando os dois caíram desaj eitados, um por cim a do outro, no chão.
Ela ainda estava lutando contra ele, exigindo que a soltasse, m as ele não cederia.
– Não posso – soluçou ela. – Você... Você precisa m e deixar ir.
As m ãos dela em purravam o peito desnudo dele, m as sua força foi dim inuindo à m edida que os soluços a dom inavam .
– Não vou deixar você ir. Não ligo a m ínim a para o que fizer.
Ele segurou os pulsos dela, para que parassem de se agitar, e olhou fundo em seus olhos banhados de lágrim as.
– Não posso. Não posso ficar aqui. Tudo. Todo m undo odeia... Estou sofrendo, eu... Carter.
Carter aninhou a cabeça dela sob seu queixo e acariciou seu cabelo em um a tentativa de acalm á-
la.
– Shhh. Estou aqui. Estou aqui. Não vou deixar você. Nunca vou deixar você.
Os pequenos om bros dela trem eram e, quando Carter afrouxou os dedos que envolviam seus pulsos, ela j ogou os braços em torno do pescoço dele e o abraçou com toda a força. E aquilo era bom . Ele queria que ela o abraçasse. Ele queria acalm ar a dor que ela estava sentindo e, então, encontrar o culpado e fazê-lo pagar caro.
– Quero m eu pai – choram ingou ela no pescoço dele, deixando sua pele m olhada de lágrim as.
Carter congelou, suas m ãos ficando im óveis no corpo dela.
– O quê?
– Meu pai. Eu sinto tanta, tanta falta dele.
A voz dela era rouca e fraca, m as a dor desesperada que perm eava suas palavras era com o um a sirene.
– Eu sei. – Carter fechou os olhos e deu um beij o carinhoso na cabeça de Kat. – Eu sei, m eu bem .
– Eu lam ento. Eu lam ento m uito – repetiu ela, cada palavra pontuada por um soluço leve.
Carter continuou acariciando seu cabelo, dando beij os suaves em sua cabeça.
– O que você lam enta?
– Eu... Eu não podia aj udá-lo. Não podia pará-los. O que eles fizeram com ele. Eu não podia pará-los. – Os braços dela apertaram o pescoço de Carter ainda m ais. – Ele m e disse para correr. Eu não devia ter corrido.
O coração de Carter quase explodiu. Ela se lem brava? Ela sabia que ele a tinha afastado de lá, que a tinha salvado?
– Hoj e – sussurrou ela. – Faz dezesseis anos hoj e e eu sinto m uito, sinto dem ais a falta dele Carter.
Por fora, Carter estava im óvel. Por dentro, o cérebro se m ovia a m il quilôm etros por segundo. Já fazia dezesseis anos desde que eles tinham se encontrado pela prim eira vez, sob circunstâncias tão violentas e pavorosas.
– Foi hoj e?
Os dedos de Kat pressionaram a nuca de Carter e seu nariz deslizou pelo m axilar dele.
Carter fechou os olhos. Puta m erda. Ele a abraçou m ais forte, enterrando o rosto no espaço entre o pescoço e o om bro dela. Ela era tão perfeita nos braços dele, tão m acia e delicada. Im agens e sons daquela noite horripilante surgiram por trás de suas pálpebras e retum baram dentro da cabeça dele: seus gritos, seu choro, o tiro, a cor de seu vestido e a palidez de sua pele.
– Eu senti tanto a sua falta – choram ingou ela. – Senti tanto a sua falta esta sem ana, Carter. Não consegui parar de pensar em você. – Ela deu um beij o no om bro dele. – Estava com toda a fam ília à m inha volta e tudo o que eu queria era você.
Os olhos de Carter se abriram com o som das palavras dela e a sensação dos lábios dela em sua pele.
– Shhh, você está aqui agora – respondeu ele. – Vou cuidar de você.
Após um instante de silêncio, Carter enfiou o braço livre por debaixo dos j oelhos dela e a pressionou contra si, em segurança. Depois de algum as tentativas, sobre pernas oscilantes, ele conseguiu se levantar, carregando-a nos braços. Cam inhou lentam ente até a cam a, o nariz pressionado contra a bochecha m olhada dela, enquanto sussurrava palavras reconfortantes.
– Estou aqui. Está tudo bem . Se segure em m im .
Sem deixar nenhum a parte dela escapar, ele se deitou na cam a e a abraçou forte.
E, assim com o tinha acontecido dezesseis anos antes, à porta de um edifício abandonado no Bronx, ele abraçou sua Pêssegos com toda a força enquanto ela chorava pelo pai que tinha sido tirado dela tão cruelm ente.
20
Kat abriu os olhos e teve certeza de duas coisas. Prim eiro, ela não estava na própria cam a. Era confortável e grande dem ais para ser a sua. Segundo, ela não estava sozinha. Estava sendo abraçada, e m uito bem abraçada, por um corpo m asculino bem grande e bem quente.
Kat perm itiu que seus olhos passeassem pelo braço desnudo e m usculoso que estava firm em ente enrolado em sua cintura; deixou que subissem lentam ente pelo cotovelo até o preto, o cinza e o verm elho das tatuagens que decoravam a pele m acia: um a águia, cham as e vinhas que se espalhavam por cim a do m úsculo forte. Kat, então, fechou os olhos à m edida que as lem branças da noite anterior a assolavam .
Ela havia se com portado com o um a lunática, envergonhando a si m esm a e tratando Carter com o um saco de pancadas. Tinha ficado louca? Meu Deus, onde ela estava com a cabeça quando decidiu pegar um táxi e ir até o apartam ento dele bêbada?
Por falar nisso, sua boca tinha gosto de cabo de guarda-chuva e seus olhos estavam grudentos das lágrim as que tinha derram ado ao longo dos três últim os dias. Com o é que ela podia ter deixado que Carter a visse daquele j eito? Ele grunhiu baixinho no cabelo dela, fazendo com que a região entre as pernas de Kat esquentasse com a lem brança dele em cim a dela, esfregando-se nela, chupando, lam bendo e sussurrando palavras deliciosam ente depravadas.
Deus, eles quase transaram !
Óbvio, esse tinha sido seu plano desde o m inuto em que ela, estúpida e bêbada, ligara para Jack para pedir o endereço de Carter e cham ara um táxi, m as essa não era a questão. Ela não estava pensando direito.
Ela esfregou a m ão no rosto e se m exeu um pouco m ais, segurando o pulso de Carter da m aneira m ais gentil possível enquanto retirava o braço dele de sua cintura. A resposta foi rápida e im ediata.
Ele a apertou ainda m ais, pressionando o corpo dela contra o dele. Kat sentiu a pelve dele deliciosam ente encostada em sua bunda e m ordeu o interior do lábio para im pedir que o gem ido de surpresa escapasse.
Ele estava com tesão?
Carter m urm urou um palavrão na nuca de Kat.
– Aonde você vai?
A respiração dele era quente e sua voz, rouca de sono.
– Hum , banheiro?
Carter não a soltou de im ediato. Em vez disso, ele cheirou seu cabelo e m urm urou algo indecifrável antes de erguer o braço e se deitar de barriga para cim a. Kat tentou ignorar a sensação de vazio que penetrou em sua espinha quando o ar frio atingiu suas costas e rem oveu as cobertas com um suspiro.
Suas pernas estavam m eio bam bas quando ela se levantou da cam a e cam baleou em direção ao banheiro, sem ousar olhar para trás, para o hom em que tinha deixado lá. Fechou a porta com um ruído suave e encostou a testa nela. O que ela estava fazendo?
Bem , a resposta para aquilo era bastante autoexplicativa. A m ulher tinha feito de pinico os ouvidos de Carter e o usara com o um disk-foda para elim inar de sua cabeça a raiva e a dor que a haviam estraçalhado no dia em que fora em bora da casa da avó. Ela dirigira 15 horas ininterruptas de Chicago a Nova York. E isso depois de ter esm agado o celular na calçada porque ele não parava de tocar.
Por que sua m ãe ou Beth pensavam que ela iria querer falar com algum a delas de novo?
Kat se afastou da porta, dando um a olhada no lindo piso de m árm ore e no chuveiro m aravilhoso, e se arrastou até o espelho retangular pendurado na parede. Nossa, ela estava um caco. Pegou um pouco de papel higiênico e o colocou debaixo da torneira antes de esfregá-lo vigorosam ente debaixo dos olhos, em um a tentativa de lim par a m ancha gloriosa causada pelo rím el. Seu rosto espelhava o que ela sentia: cansaço, raiva e solidão.
Jogou o papel na privada e se apoiou na pia. Não, pensou ela. Aquilo não era verdade. Não estava sozinha. O fato de estar no apartam ento de Carter provava isso. Ele era o único que parecia entendê-la, que parecia saber do que ela precisava ou m esm o queria. Ele a conhecia com o ninguém , de um j eito que tanto a entusiasm ava quanto a alarm ava.
Ela só queria ter pensado um pouco m ais nas consequências antes de aparecer na porcaria da porta de Carter e pedir a ele que a fodesse.
Mas, na realidade, a única coisa em que tinha pensado enquanto dirigia aquela noite era encontrar Carter. A única pessoa que ela queria ver era Carter. Os únicos braços que queria em torno de si, o único peito no qual queria descansar o rosto, a única boca que queria contra a sua e o único cheiro que queria sentir eram de Carter.
Ela usou o banheiro, lavou as m ãos, enxaguou a boca e foi até a porta, colocando o ouvido nela, buscando pelos sons de Carter do outro lado. Tudo estava quieto. Ela girou a m açaneta o m ais silenciosam ente que conseguiu e abriu a porta, espiando por trás dela.
A voz de Carter era suave e grave.
– Oi.
Ele estava sentado sobre as cobertas, contra a cabeceira da cam a, sem cam isa e am arrotado, com as pernas cruzadas na altura dos tornozelos. A calça j eans se acom odava confortavelm ente abaixo de seu um bigo, exibindo um a trilha de pelos grossos e escuros que iam desaparecendo, bem , lá para baixo.
Percebendo que não tinha reparado na arte daquele corpo quando estava se j ogando para cim a dele, o olhar de Kat passeou pelos om bros largos que eram cobertos pela tatuagem em seus braços.
Do pescoço, a arte passava pela clavícula e descia até seu abdôm en forte. Ele era um a obra-prim a.
Era m usculoso, claro, m as não berrava corpo escultural; berrava força e segurança. Tinha um punhado de pelos no m eio do peito que parecia um ponto de exclam ação de sua m asculinidade.
Kat lim pou a garganta e voltou para o quarto. Ela parou a m eio m etro da beirada da cam a, sem saber ao certo o que deveria dizer ou fazer. Ela entrelaçou as m ãos em cim a da barriga.
Eventualm ente, ergueu os olhos e viu que a expressão de Carter era gentil, sem nenhum a expectativa.
Ela respirou com um pouco m ais de tranquilidade e deu um sorrisinho a ele.
– Com o você está?
– Bem .
Ele ergueu um a sobrancelha perspicaz.
– Você é um a péssim a m entirosa. – Ele balançou a cabeça e passou a m ão pelo colchão, no espaço ao seu lado. – Venha cá.
Kat corou.
– O quê?
Carter sim plesm ente continuou passando a m ão na cam a.
Ele parecia m uito atraente e safado, m as tam bém havia um a ternura enorm e em seus olhos e Kat não podia fazer nada a não ser confiar nele. Ela deu m ais um passo hesitante e Carter tirou as cobertas para que ela pudesse se deitar. Ela parou de novo, pensando se seria um a boa ideia voltar para a cam a dele.
– Carter, eu...
– Pêssegos – interrom peu ele, abaixando o rosto. – São seis e m eia da m anhã de um dom ingo.
Não sei quanto a você, m as eu com toda a certeza poderia dorm ir por m ais algum as horas.
Kat riu da expressão dele. Ela estava tão cansada. Todo o seu corpo estava exausto.
– Está bem – m urm urou ela.
Ela se aj oelhou na cam a e se enfiou deselegantem ente debaixo das cobertas. Carter a cobriu. Ela congelou por um m om ento, apreciando a m aciez do colchão e dos travesseiros, antes de virar a cabeça na direção de Carter. Ele a estava observando, debruçado no braço. O carinho dos olhos dele se dissolveu em algo que deixou a boca de Kat seca. Ele parecia fam into.
– Achei que você tam bém ia dorm ir – disse ela, apontando para a cam a com a cabeça.
Seus olhos pareceram retom ar o foco e ele franziu a testa em resposta, claram ente confuso.
– Eu vou.
– Então por que não está debaixo das cobertas?
As bochechas de Carter se tingiram de rosa e ele se afastou dela, os m úsculos de seu peito se contraindo.
– Pois é – m urm urou. Ele olhou para baixo, para si m esm o. – Não queria que você se sentisse desconfortável. Vou ficar aqui. Estou bem .
Depois de observar o rosto dele por alguns segundos, Kat soltou um a risada de descrença.
Aquele hom em não tinha estado no m eio de suas pernas, com a boca em seu m am ilo sete horas antes?
Ela não tinha chorado e soluçado no pescoço dele enquanto dizia o quanto precisava dele e o quanto sentia sua falta, enquanto ele prom etia que j am ais a deixaria?
Ela bufou cansadam ente, acom odando-se no travesseiro debaixo de sua cabeça.
– Carter, cale a boca e venha para baixo das cobertas.
Ele perm aneceu onde estava por um instante, m as ela podia sentir a cam a balançando, com o se ele estivesse sacudindo o pé ou algo assim . Será que estava nervoso? Quando estava prestes a se virar e dizer para ele se m exer de um a vez, as cobertas foram erguidas e o corpo dele deslizou para debaixo delas. Ele estava perto o suficiente para que Kat sentisse o calor irradiando de seu corpo, e ela instintivam ente se m oveu para trás.
– Você está com frio?
A voz dele, apesar de preocupada, parecia firm e.
– Um pouco.
Ela puxou as cobertas para cim a, até o pescoço.
Após um m inuto de silêncio e um a im obilidade pesada, Kat sentiu a m ão de Carter deslizar, hesitante, por sua cintura. Ele tocou de leve a pele de seu quadril antes de puxar o corpo dela contra o seu; e logo estavam de conchinha, exatam ente com o se encontravam quando ela acordara.
Em um prim eiro m om ento, Kat ficou tensa, e desej ou em silêncio que seu corpo se acalm asse e ficasse quieto. Era em baraçoso só de pensar em quanto o toque dele a afetava. Seu coração disparou, sua pele am orteceu e a j unção entre suas coxas palpitava com um a ânsia dolorosa.
Mas, à m edida que sentia a solidez de Carter pressionada contra suas costas e seu braço m usculoso enrolado em sua cintura, o corpo de Kat com eçou a derreter e relaxar.
– Está bem assim ? – sussurrou Carter, sua respiração acariciando a pele do pescoço de Kat com o seda.
– Sim – respondeu ela.
Com um sorriso contente, Kat colocou a m ão em cim a da de Carter – contra sua barriga – e entrelaçou os dedos, de pouquinho em pouquinho, nos dele.
Ela não ficou surpresa pelo fato de eles se encaixarem perfeitam ente.
Pouco antes das onze horas Carter abriu os olhos novam ente. Por um a fração de segundo, ficou pensando onde estava, até que percebeu que o cabelo de Pêssegos cobria seu rosto com o um a m áscara ruiva com arom a da fruta. Ele afastou a cabeça. Um a pontada de contentam ento atingiu seu estôm ago quando ele notou que eles não tinham se m ovido de sua posição original e suas m ãos ainda estavam entrelaçadas, pressionadas contra o corpo dela. Com o um tarado, ficou observando-a dorm ir até que ela com eçou a se m exer.
Após um a xícara de café constrangedora, durante a qual eles ficaram trocando olhares fugazes e sorrisos tím idos, e depois de ela concordar que ele a levasse para casa, Carter levou Pêssegos, que parecia nervosa, até a garagem no subsolo de seu prédio.
– Você j á andou de m oto antes, né? – perguntou ele, tentando ao m áxim o esconder a excitação cheia de luxúria que pulsava em seu corpo.
– Já – respondeu ela enquanto eles se aproxim avam de Kala. – Mas andar de m oto com você?
Isso é um pouquinho diferente.
Carter entregou um capacete a ela.
– Por quê?
Ela apontou docilm ente com a m ão na direção de Carter, fazendo-o olhar para baixo, confuso: coturnos pretos, j eans escuros, cam iseta azul vintage do Led Zeppelin, j aqueta de couro.
Ela o estava observando de um j eito que fazia sua calça parecer apertada. O fato de ela estar usando um dos m oletons dele tam bém não aj udava em nada. Ele arqueou a sobrancelha e lim pou a garganta para cham ar sua atenção. Os olhos dela se ergueram de im ediato e ele riu por trás da m ão.
– Então, Pêssegos – rosnou ele, virando a gola da j aqueta para cim a. – Acha que estou sexy agora?
As bochechas dela ficaram verm elhas.
– Cale a boca – m urm urou ela, colocando o capacete na cabeça.
Ele bufou.
– Você é fácil dem ais.
Ele j ogou a perna por cim a de Kala e colocou os óculos de sol. Carter inclinou a cabeça para trás e sorriu.
– Você vem ?
Com um m ovim ento ágil, ela estava em cim a do banco, suas coxas contra as dele. Carter sacudiu a cabeça com as im agens explícitas que passaram por sua m ente e resm ungou alguns palavrões selecionados enquanto girava a chave na ignição. Ele podia senti-la pressionada contra ele e só podia im aginar com o seria virar-se e possuí-la naquela m esm a posição.
– Pronta? – perguntou por cim a do ronco do m otor.
– Mais pronta im possível – respondeu ela.
Carter sorriu quando os braços e as pernas de Kat o apertaram enquanto ele com eçava a acelerar.
Com o calor do corpo dela pressionado contra o dele, o cheiro da gasolina e o som do ronco do m otor de Kala, ele estava bem pertinho do paraíso.
Na saída de seu prédio, onde ventava m uito, Carter olhou para am bos os lados, engatou a m archa e arrancou, atravessando a cidade em direção ao apartam ento de Pêssegos.
Carter devia ser o hom em m ais casualm ente sexy que Kat j á tinha conhecido. Ele transbordava sensualidade sem se esforçar, quer estivesse usando os m acacões da prisão, quer um a cam iseta azul do Led Zeppelin que destacava a cor de seus olhos. Ver Carter em um a m oto era pegar aquela sensualidade casual, m ultiplicar por um bilhão e servir com um acom panham ento de sexo quente e orgasm os de um a hora de duração.
Ele ficava sensacional m ontado naquela porcaria daquela m oto e Kat tinha que se esforçar m uito para tentar se m anter na linha. Seu desej o por ele tinha atingido novos níveis de ridículo, o que a m otivara, de um a form a toda confusa, a convidá-lo a subir até seu apartam ento.
Ela destrancou a porta e indicou que Carter passasse na sua frente. Ele deu um sorriso contido e entrou. Ela o seguiu e o viu colocar os capacetes na m esa lateral. O silêncio era estrondoso e a tensão entre eles, parados de frente um para o outro, m udava do tesão para a ansiedade.
– Algo para beber?
– Claro. Suco de laranj a?
A voz dele era rouca e intensa.
Ele a seguiu até a cozinha, preenchendo o apartam ento com toda aquela altura e seus om bros largos, esperando enquanto ela lhe servia um copo de suco. Ela sentia que ele a estava observando, assim com o ela o observara na cozinha dele aquela m anhã. Era bizarra a consciência que Kat tinha de sua presença. Todo o seu corpo parecia gravitar em direção ao dele. Mas sem pre tinha sido daquele j eito; só que ela estava ocupada dem ais tentando m anter um a postura profissional para ter percebido antes.
– Está com fom e? – perguntou ela enquanto ele peram bulava pela sala de estar, seus olhos pausando na coleção de aquarelas de Kat.
Ele riu.
– Estou m orrendo de fom e.
E esfregou a m ão na barriga.
Ela largou o próprio copo e foi até a geladeira.
– Vam os ver o que eu tenho aqui.
Não havia m uita coisa, apenas o suficiente para fazer om eletes de bacon e tom ate. Carter não pareceu m uito convencido com a oferta, m as ela garantiu que era expert em qualquer tipo de prato que incluísse ovos.
Kat colocou todos os ingredientes no balcão.
– Ei, Carter, você sabe assar bacon?
Carter revirou os olhos. Ele tirou a j aqueta.
– É claro. Por quê?
– Preciso que você faça o bacon enquanto tom o um banho. – Ela se virou para ele e sorriu. – Acha que consegue?
– Por favor – respondeu Carter, pegando o pacote de bacon. – Vá tom ar seu banho e deixe isso com igo.
Ele segurou os om bros dela e a tirou do cam inho.
– Vá de um a vez – disse com firm eza, em purrando-a para fora da cozinha.
Ele gesticulou para que ela fosse e deu um sorriso que deixou seu rosto contorcido.
Kat conteve um suspiro e se virou na direção do quarto. Quando entrou, tirou o m oletom que Carter tinha lhe dado. Com um a olhada rápida para a porta – para garantir que estava bem fechada –, Kat segurou o m oletom no rosto e inspirou o perfum e dele. Era luxuriante e inebriante. Ela afastou a roupa do nariz, dobrou e a colocou sobre a cam a.
De banho tom ado e roupas novas – j eans pretos e um a cam iseta do Blondie – e com os cabelos úm idos presos em um coque, Kat voltou para a cozinha e encontrou Carter apoiado no balcão, lendo Walter the Lazy Mouse. Ela o observou virar a página, parecendo absorto.
– A quantas anda o bacon?
– Shhh – respondeu ele. Seus olhos não deixaram a página quando ele colocou o indicador na boca. – Walter está dorm indo.
Kat sorriu. Pegou um a tigela, um a frigideira e um a faca para picar os tom ates.
Carter deu a volta nela e colocou o livro perto do vaso de flores, onde ele estava desde que Kat o deixara ali, dois dias antes. Ao retornar de Chicago, tinha lido o livro em voz alta para um a plateia encantada – um a foto em oldurada de seu pai e um a garrafa de Am aretto.
Bons tem pos.
Kat ficou surpresa ao ver com o Carter se virava bem na cozinha. Ele parecia dom esticado, o que era, para dizer o m ínim o, sexy pra caram ba.
– É indelicado ficar olhando – apontou ele enquanto ela o observava bater os ovos.
– Desculpe.
Ela nem tinha percebido que estava olhando; é que os m úsculos de seu antebraço e a m aneira com o eles se contraíam enquanto ele se m ovia a fascinavam . Aquilo, associado às tatuagens, era um a visão a ser adm irada. Ela coçou a nuca com a m ão suada, lim pou a garganta e continuou picando os tom ates.
– Você está toda verm elha.
A voz calm a de Carter veio de detrás dela, falando em seu ouvido esquerdo.
As costas de Kat se endireitaram instantaneam ente. Ele largou a tigela no balcão, ao lado da tábua de cortar, e se debruçou nele, prendendo-a entre os braços.
– Quer m e contar no que você está pensando? – perguntou ele com um estrondo que ela podia sentir em seu peito, pressionado contra as costas dela.
Ela j ogou a cabeça para trás, repousando-a no om bro dele.
– Não.
Carter riu e deslizou o nariz pelo m axilar dela, até sua orelha.
– Pela cor da sua pele – sussurrou ele –, aposto que é algo bom pra caralho.
– Hum .
Ele riu silenciosa e sensualm ente.
– Pêssegos.
As m ãos dele passearam até a cintura dela.
– Sim ?
– O bacon está queim ando.
Os olhos de Kat se abriram de im ediato, suas narinas percebendo o cheiro de carne queim ada.
Ela passou correndo por Carter, que se divertia, e tirou a frigideira do fogo. Estava fum egando e um pouco queim ado, m as ainda dava para salvar. Kat olhou para Carter, que estava tentando ao m áxim o parecer inocente, sem sucesso algum .
Pelos dez m inutos seguintes, enquanto Kat fazia as om eletes, Carter lhe perguntou sobre Arthur Kill. Perguntou sobre os alunos dela e falou da visita de Riley ao seu apartam ento depois de ter conseguido a condicional. Era visível que a paixão por carros e por qualquer coisa que envolvesse m etal e velocidade havia aproxim ado Riley e Carter.
Isso fez Kat perguntar sobre a origem de seu am or por m otos. Ela adorava com o o rosto dele se ilum inava quando falava de Kala. Carter explicou que o pai de Max tinha sido m ecânico e que ele praticam ente m orara em sua oficina desde que tinha 9 anos, observando e ouvindo os carros e as m otos que chegavam lá, vendo serem desm ontados e rem ontados repetidam ente. Carter tinha aprendido ali tudo o que sabia sobre m otores.
Apesar de seus protestos iniciais, Carter devorou a om elete que ela colocou na frente dele, com alguns grunhidos e palavras de apreciação. Era estranham ente natural ter Carter sentado à sua m esa de j antar.
Os dois tinham term inado, com os pratos vazios à sua frente, e estavam discutindo sobre quem era m elhor, Beatles ou Stones, quando o telefone fixo de Kat com eçou a tocar. O barulho fez o coração de Kat disparar.
Carter se virou e ficou olhando com cara de bobo para o aparelho, que ainda tocava. Kat podia ver que ele estava curioso com relação a por que ela não tinha atendido, m as Carter não disse nada – ponto para ele. Kat cerrou os punhos no colo quando a secretária eletrônica atendeu.
“Katherine, é sua m ãe. Sei que está em casa. Nana m e contou. Precisam os conversar. Eu... Há coisas que precisam ser ditas, resolvidas, e a m aneira com o você foi em bora... Beth está desesperada e ainda m uito chateada. Não entendo você. Me ligue.”
O bipe do fim da m ensagem reverberou pelo apartam ento e chacoalhou o peito de Kat. Se sua m ãe achava que ela iria pedir desculpas a alguém , estava redondam ente enganada. Kat não tinha feito nada de errado. Nenhum deles entendia seu coração. Nenhum deles.
Carter apoiou os braços na m esa. Seu rosto dem onstrava preocupação, com um a pitada de raiva em torno dos olhos azuis.
– Você está bem ?
Kat assentiu com a cabeça, não confiando na própria voz.
– Quer conversar sobre isso?
Ela balançou a cabeça com firm eza, m as deu um sorriso de desculpas. Ele se recostou na cadeira, os olhos ainda nela. Ela envolveu os braços em torno de si m esm a e expirou por entre os lábios fechados em um a tentativa de se acalm ar. Estava com vergonha por Carter ter ouvido sua m ãe, m as tam bém se sentia reconfortada pela proteção que ele em itia. No fundo de seu coração, estava m uito feliz por ele estar ali.
– Pêssegos?
Ao ouvir a voz de Carter pronunciar seu apelido, duas lágrim as pesadas caíram sobre o braço dela.
– Quer sair daqui? Ir a algum lugar?
Ela secou o rosto.
– Aonde?
Carter deu de om bros e sorriu.
– Sei lá.
Kat sorriu de volta.
– Quer? – perguntou ele de novo. – Só eu e você?
Ela concordou sem hesitar, ciente de que tudo o que queria era estar com ele, longe de tudo o que estava acontecendo ao seu redor.
– Quero.
Ele se levantou determ inado, em purrando a cadeira para trás com as pernas, e foi até Kat.
Ofereceu a m ão para ela e esperou com olhos pacientes.
Assim que a m ão de Kat tocou na de Carter, ela se sentiu m elhor, m ais calm a, m ais livre. Era a sensação m ais estranha do m undo, m as ela experim entou a necessidade repentina de dizer que se sentia em casa quando estava com ele. De dizer que eram os gestos sim ples dele que tinham o m aior efeito em seu coração.
Carter a levantou e segurou seu rosto com as m ãos.
– Só eu e você – repetiu ele num sussurro.
Os olhos dele analisaram o rosto dela enquanto seus dedos m exiam em um a m echa de seu cabelo.
– Por um dia. Vam os esquecer tudo e ser só eu e você.
Kat olhou para cim a, para o rosto transparente de Carter, e viu tudo o que um dia quis ou desej ou.
Quero você.
Quero ficar com você.
Preciso tanto de você.
Acho que amo você.
Fechando os olhos com o calor daquela percepção, Kat pressionou as bochechas nas m ãos de Carter e sorriu.
– Você e eu.
21
Carter não fazia ideia de para onde levar Pêssegos, m as ela parecia tranquila com relação a isso, o que era um alívio enorm e. Carter não fazia ideia do que era um gesto rom ântico ou íntim o, ele só queria devolver o sorriso ao rosto dela. Teria que se virar ao longo do cam inho e rezar para que o que quer que ele achasse legal e perfeito fosse perfeito para ela tam bém .
Carter dirigiu por horas, voando pela Ponte do Brookly n ao lado de um Porsche irado que tentou desbancá-lo. Carter girou a m ão direita para trás e acelerou Kala para ultrapassar o idiota. Ele gostou quando Pêssegos riu atrás dele.
Eles dirigiram até o East New York, atravessaram o Cy press Hills, passeando pelo parque e pela Broadway, até retornarem a Manhattan. Era a prim eira vez que Carter realm ente esticava as pernas de Kala desde que fora solto, e aquilo era dem ais. Ele estava achando o m áxim o ter Pêssegos atrás dele, em torno dele, em especial quando o vento os açoitara ao passarem por cim a da água, de volta à ilha. Eles não podiam conversar, m as Carter sabia que aquilo era provavelm ente o que ela queria, apesar de ele ter rido alto quando ela deu um grito e riu enquanto ele acelerava pela Rua 47, costurando por entre o tráfego.
Ele podia sentir as m ãos dela pela j aqueta e – em duas ocasiões – colocou a m ão na dela, acariciando e apertando. Ele queria reconfortá-la, certificar-se de que estava bem e, em am bas as vezes, ela havia segurado os dedos dele em resposta.
Eram quase seis da tarde quando Carter entrou na Quinta Avenida, perto do Central Park. Tinha com eçado a chuviscar, m as não parecia ser relevante. Se aquilo significava que haveria m enos pessoas em volta, então Carter estava achando ótim o. Ele ficou sentado por um m om ento com Pêssegos ainda agarrada a ele, ouvindo o m otor de Kala pipocar enquanto esfriava debaixo dele.
– Tudo bem aí atrás? – perguntou ele, destravando o capacete.
– Sim – m urm urou ela. – Estou tão relaxada que quase peguei no sono.
Ele esfregou as m ãos dela, que ainda estavam segurando seu tronco, e virou a cabeça em sua direção.
– Quer que eu leve você para casa?
Para seu alívio, ela balançou a cabeça.
– Não. Não estou pronta para ir para casa ainda.
– Ótim o – respondeu ele com um leve sorriso. – Nem eu.
Carter aj udou-a a descer da m oto, segurando sua m ão. Ele fez m enção de soltá-la, m as Pêssegos continuou segurando, deslizando os dedos por entre os dele. Seus olhos se arregalaram , surpresos.
Ela olhou para ele, apertando o lábio entre os dentes.
– Tudo bem ?
Carter sorriu. Aquilo estava m ais do que bem .
Cam inhar despreocupadam ente pelo Central Park, de m ãos dadas com Pêssegos, era um a experiência estranha. Carter se sentia com três m etros de altura e, ao m esm o tem po, pequenino e vulnerável. O caos em que seu corpo se encontrava o fazia se sentir radiante e extrem am ente assustado. Era intenso.
– Você ainda está aqui com igo? – perguntou Pêssegos enquanto eles cam inhavam até a estátua de Alice no País das Maravilhas, que j á tinha se tornado deles, m esm o após um a única visita.
– Sim – respondeu ele. – Por quê?
– Você parece, sei lá, nervoso.
Carter riu um ruído estranho, estrangulado.
– Hum , estou bem .
Ela o fitou, em dúvida, m as não pressionou.
A chuva abrandou. Eles tiraram as j aquetas e se sentaram sobre elas. Carter observou a estátua de Alice no País das Maravilhas por um instante. Era assom brosam ente linda.
– Aqui.
O ar no peito de Carter explodiu para fora de seu corpo quando Pêssegos bateu um livro com força contra ele.
– Mas que...
– Não ouço você ler há um a sem ana – disse ela com a m ão no quadril. – Então, leia.
Reconhecendo e exem plar de Adeus às armas, ele riu.
– Sim , senhora.
Enquanto procurava a página onde eles tinham parado na últim a aula, Pêssegos se acom odou apoiando-se nele, com a cabeça em seu om bro e o braço repousando em sua coxa. Encoraj ado, Carter passou o braço pela cintura dela e a m anteve próxim a. À m edida que as palavras de Hem ingway rolavam de sua boca, ela se aproxim ou ainda m ais, relaxando e derretendo-se nele. Ela era quente em oposição ao ar gelado. Ele encostou o rosto no cabelo de Kat enquanto acariciava seu braço.
– Adoro ouvir você ler – sussurrou ela quando ele term inou o capítulo. – Sua voz é...
Carter largou o livro na gram a úm ida.
– O quê?
– É fam iliar para m im , com o se eu a conhecesse m elhor do que a m inha própria.
O coração de Carter disparou. É claro que ela conhecia a voz dele. Foi tudo o que ele tinha pensado em usar para m antê-la calm a na noite em que o pai dela havia m orrido.
– E isso é bom ?
– Sim . É bom .
O sorriso dela era largo e sincero. Carter deixou que seus braços circundassem a cintura dele e repousou o queixo em seu om bro, inspirando o cheiro dela.
– Me conta m ais sobre a estátua e seus pais?
Carter se m exeu e soltou um grunhido.
– Eu, hum , não sei...
– Tudo bem se você não quiser – disse ela. – Só estava curiosa.
Carter olhou para a estátua de novo. Ele queria com partilhar com ela.
A única m aneira possível de eles seguirem adiante com o que quer que estivesse acontecendo entre eles seria se am bos conhecerem coisas a respeito um do outro. É, a fam ília dele seria um bom tópico para com eçar.
Carter m anteve os olhos fixos nela, a ansiedade subindo por sua espinha, m as tudo o que ele via era encoraj am ento e afeição. Não havia j ulgam ento algum , nenhum a condescendência, nenhum truque.
– Meu pai conheceu m inha m ãe quando eles tinham 18 anos – disse ele com um longo suspiro. – Eles eram j ovens, estúpidos e de m undos m uito diferentes. Minha m ãe era de um a fam ília m uito rica.
O pai dela – m eu avô, William Ford – era dono de um a das prim eiras em presas de com unicação do país, a WCS. Jam es Carter, m eu pai, por outro lado, não tinha um tostão furado e o pouco que ganhava era de tocar em boates e pintar.
Carter revirou os olhos com a conotação rom ântica daquilo tudo.
– Foi assim que ele conheceu m inha m ãe. Ela o ouviu tocar piano um a noite e foi até ele. – Carter estalou os dedos. – Foi isso.
Pêssegos brincava distraidam ente com a bainha da cam iseta dele; seu silêncio o encoraj ou a contar m ais, a contar tudo.
– Para a fam ília da m inha m ãe, m eu pai nunca foi bom o bastante. Ele era encrenca, um vagabundo, um inútil, m as m inha m ãe se rebelou e eles ficaram j untos. Se instalaram em um apartam ento barato e noj ento depois que m eu avô cortou a m esada da m inha m ãe e, passado um ano, ela estava grávida de m im . – Carter m assageou entre as sobrancelhas para am enizar a dor de cabeça, provocada pela tensão, atrás de seus olhos. – Ela escondeu a gravidez por um bom tem po. – Carter riu sem graça. Ele abaixou a m ão. – Ela m e escondeu.
A m ão de Pêssegos segurou o queixo dele e ergueu seu rosto.
– Ei, está tudo bem .
Exausto com o tum ulto de em oções que o assolava, Carter pressionou sua testa na dela. Ela pressionou de volta, forte e estável.
– Minha m ãe voltou para a fam ília dela – continuou ele. – Com o m eu pai não tinha dinheiro, ela retornou correndo com o um a covarde. Meu avô disse para ela abortar e ela chegou a considerar a possibilidade. Foi só porque m eu pai apareceu na casa da fam ília, berrando e exigindo seus direitos, que eles cederam . Meu avô não queria um escândalo.
– Carter.
– Para resum ir, m inha avó, m ãe da m inha m ãe, ficou enoj ada com o com portam ento da filha. Ela lutou por m im e disse que m inha m ãe tinha que assum ir suas responsabilidades. Um fundo fiduciário foi criado para m im e o pátrio poder foi conferido ao m eu pai. – Carter zom bou. Com um a voz baixinha, acrescentou: – A vaca nem sequer lutou. Por m im .
Após um a pausa, ele prosseguiu.
– Sem o conhecim ento do m eu avô – disse com um sorriso satisfeito –, m inha avó colocou as ações dela da WCS no m eu nom e no dia em que nasci. Ela fez os advogados redigirem um contrato secreto e inviolável, que eles nunca conseguiriam reverter. Meus prim os ainda estão tentando revertê-lo para m e tirar da em presa.
Pêssegos ficou tensa.
– Eles só ficaram sabendo do contrato no dia em que ela m orreu. Foi há dezesseis anos e, m esm o naquela época, as ações dela valiam pouco m enos de... 50 m ilhões de dólares.
Ele esperou. Pêssegos piscou.
– Cinquenta?
Carter assentiu com a cabeça.
– Milhões? Caram ba. – Ela sacudiu a cabeça, abism ada. – Carter, por que você está aqui? Você tem tantas coisas ao seu dispor. Com esse dinheiro todo, poderia ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa que quisesse, e recom eçar.
Carter deu de om bros.
– Não tenho acesso à grana. Está atrelada às ações e... Eu não ligo. Não tem im portância algum a.
Não preciso do dinheiro deles.
Os Fords – leia-se seu prim o Austin – tinham conseguido congelar as posses dele quando Carter foi preso pela prim eira vez. Filho da puta. Aparentem ente, m esm o j á adulto, Carter ainda causava desordem na fam ília.
– Você costum a ver sua m ãe?
Carter balançou a cabeça.
– Ela m orreu de câncer quando eu tinha 8 anos.
– Meu Deus, Carter, sinto...
– Não sinta pena – censurou ele. – Ela não m erece.
– Você não está falando sério.
– Não estou? – Ele respirou fundo. – Tudo o que ela fez foi m e rej eitar. Ela não m e queria. O
único m otivo de ficar com igo a cada duas sem anas era o fato de m inha avó ter exigido, em seu testam ento, que o fizesse. Exigido. Ela só gostava de irritar o pai. Passou por um a fase rebelde e acabou engravidando.
– E seu pai?
Carter contraiu o m axilar.
– Ele m ora em Connecticut com a nova m ulher. Não falo com ele. Podem os... Podem os falar sobre outra coisa?
Ele m oveu o pescoço rapidam ente para o lado de m odo que sua orelha tocou o om bro e grunhiu quando estalou alto.
– Preciso m e m exer.
Ele se levantou, sacudindo os braços. Estava com um m onte de energia acum ulada que precisava ser extravasada. Pegou o m aço de cigarros e acendeu um , tragando fundo. Ele se virou e viu Pêssegos sentada, segurando as canelas e com o queixo apoiado nos j oelhos, observando-o. Carter precisava m udar o foco de atenção. Não se sentia confortável sendo analisado e, apesar de saber que ela não perguntava com a intenção de se introm eter, contar coisas pessoais a Pêssegos ainda era difícil para ele.
– Então, você vai m e contar o que aconteceu nessa últim a sem ana em que você esteve longe?
Olho por olho e aquela coisa toda.
Pêssegos retorceu as m ãos, constrangida, e apertou os lábios. Carter esperou, vagam ente ciente de que tinha com eçado a chover de novo.
– Minha m ãe é um a m ulher difícil – sussurrou ela.
Carter se perguntou o que a m ãe de Kat achava do trabalho da filha. E pensou em com o ela reagiria ao nam oro deles.
– Ela ainda m e vê com o um a criança de 9 anos em vez de um a m ulher de 25. Ela pensa que qualquer um com um a ficha crim inal é cruel com o aqueles hom ens que m ataram m eu pai.
Carter se recostou em um a árvore, fum ando em silêncio.
Bem . Aquilo esclarecia suas dúvidas.
– Ela não concorda com as escolhas que fiz na vida. Acha que não posso tom ar m inhas próprias decisões; e, se as tom o, nunca são as certas, m esm o m inha profissão.
– Você é um a professora incrível, Pêssegos.
– Obrigada. – Ela abaixou a cabeça. – Bom , era isso que m eu pai queria para m im .
Carter não conseguia tirar os olhos de sua garota, tranquila e deslum brante sob o crepúsculo.
Eles tinham com partilhado tantas coisas nas últim as poucas horas, m as Carter sabia que ainda havia m uito para contar a ela. Ele só não fazia ideia de com o tocar no assunto.
Eles precisavam se reconectar de algum a form a, encontrar o que tinham deixado no apartam ento dela enquanto faziam om eletes. Decidido, Carter j ogou fora o cigarro, afastou-se da árvore e foi até ela. Ele lhe estendeu a m ão.
– O quê?
Ela inclinou a cabeça.
– Venha cá.
Ele sorriu.
Sem hesitar, ela colocou a m ão na dele. Seu toque fez o sangue de Carter ferver e seu coração disparar. Ele a levantou, guiando-a até ficarem ao lado da estátua de Alice. Puxou-a para perto de si e ergueu a m ão esquerda dela na sua direita, observando a confusão se instalar em seu rosto.
– O que está fazendo?
Ele ergueu o braço e a girou lentam ente por debaixo dele.
– Estou dançando com você.
Ele apertou sua cintura um pouco m ais forte e a inclinou tanto para trás que ela gritou e se agarrou aos om bros dele. Am bos riram quando ele a trouxe de volta e Carter ficou feliz da vida quando ela pressionou o rosto contra ele.
– Isso é... Isso que você está cantarolando é Otis Redding?
A vergonha cutucou o pescoço de Carter.
– Hum ... sim , acho que sim . “These Arm s of Mine”, acho. Não sei. Por quê?
Ela riu.
– Eu nunca im aginaria você com o um fã de Otis.
Ela olhou para a cam iseta do Led Zeppelin que ele usava.
– Pare com isso – reprim iu ele, pressionando o rosto dela contra seu peito, sorrindo da risada abafada dela.
Enquanto ele continuava a cantarolar, eles se m oviam j untos lenta e elegantem ente, de um pé para o outro, em um círculo com pleto, abraçados sob a chuva leve.
– Meu pai adorava Redding – sussurrou ela. – Ele costum ava tocar “(Sittin’ on) The Dock of the Bay ” no últim o volum e na época. Deixava m inha m ãe e eu m alucas.
– Ele tinha bom gosto.
– Ele tocou essa m úsica no carro, no cam inho... Na noite em que...
Os braços de Carter a apertaram ainda m ais, instintivam ente.
Ela lim pou a garganta.
– Com o são estranhas as coisas de que a gente se lem bra, né?
O estôm ago dele doeu. Será que este era o m om ento pelo qual ele tinha esperado? Será que esta era a hora certa de contar quem ele era, o que tinha feito? Será que este era o instante em que ele devia colocar na beira de um penhasco tudo o que eles tinham construído j untos e ficar esperando pela queda inevitável?
Fechando os olhos, ele deixou as palavras fluírem .
– Você se lem bra da noite em que ele... Você sabe... Quando ele faleceu?
Ela ergueu os olhos para o céu noturno.
– Me lem bro de tudo.
O estôm ago de Carter foi parar em seus pés.
– Lem bra?
– Sim , tudinho – m urm urou ela. – Me lem bro da viagem de Washington. Do hotel, de visitar o centro de reabilitação dele, a cam inhada até a lanchonete, do m om ento em que eles o atingiram com o taco de beisebol.
Ele pressionou os lábios no cabelo dela.