Desejo Proibido

Sophie Jackson · Capítulo 1 de 1 · parte 16/17

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Desejo Proibido

Prólogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 17 partes.

– Não acredito nessa porra! – berrou ele. – Com o é possível?

– Bom , senhor...

– Não m e responda quando faço perguntas retóricas, Rick! – gritou Austin com raiva. – Eu sei ler, cacete!

Austin expirou pesadam ente e esfregou a m ão na boca.

– Pensei que tivéssem os feito tudo o que podíam os para acobertar isto. – Ele apontou para as fotos em preto e branco que Ben Thom as deixara ali. – Me disseram que as coisas estavam nos conform es para m anter m inha em presa em segurança.

A raiva de Adam veio à tona. E não pela prim eira vez. Austin sem pre tinha considerado a WCS

sua. Durante todo o tem po em que esteve no com ando, Austin j am ais tinha reconhecido a aj uda de Adam ou o trabalho que fazia para m anter o irm ão lim po em todas as m erdas em que ele se m etia. É

claro que havia os aum entos de salário obrigatórios e alguns uísques single malt que apareciam em sua m esa de vez em quando, m as nada disso com pensava os m ilhares de vezes que Adam pagou ou fechou perm utas com outras pessoas para m anter a indiscrição de Austin fora do radar da diretoria; inclusive seus negócios com Casari. Adam preveniu-o de que Casari era m á com panhia, avisou que o cara estava sendo observado pela polícia federal, m as o irm ão não lhe dera ouvidos.

Chega!

O cúm ulo, para Adam , foi quando aquilo se tornou um a disputa ridícula por Kat, com Carter de um lado e Austin do outro. Era patético, e Adam não queria se envolver. Não conseguia entender por que Austin não deixava Carter ter sua fatia do bolo. Aquilo sim plificaria as coisas, m antendo Carter na dele. Mas Austin tinha outras ideias.

As fotos com Casari eram coisa de Austin, e Adam tinha chegado ao seu lim ite.

Porra, todo m undo com ete erros, pelo am or de Deus; e não era j usto fazer Carter reviver os dele indefinidam ente. Kat estava, com o Beth havia adm itido, m uito apaixonada por Carter. O cara tinha um a chance real de dar um a guinada na vida e ser feliz.

Adam não podia im pedir que isso acontecesse. E nem Austin.

– Austin – m urm urou Adam .

Os outros cinco hom ens na sala se m exeram e se inquietaram .

– Não, Adam – latiu Austin. – Precisam os dar um j eito nisso, decidir nosso próxim o passo.

Adam piscou, confuso, e percebeu o olhar tam bém perplexo de Rick. Suspirando, Adam cam inhou, cauteloso, na direção do irm ão.

– Não há próxim o passo – disse ele em voz baixa. – Isso é concreto. Está acontecendo.

– Que diabos! – exclam ou ele, incrédulo. – Onde estão os seus colhões? – Ele encarou de form a am eaçadora cada hom em ali presente, retornando enfim a Adam . – Não acabou. Não está nem perto de acabar.

Adam revirou os olhos e enfiou as m ãos nos bolsos.

– Acabou. Acabou j á faz tem po. É hora de seguir em frente.

A expressão de fúria absoluta no rosto de Austin surpreendeu até m esm o Adam .

Ele apertou os punhos ao lado do corpo e abaixou a cabeça.

– Para fora, todo m undo!

Adam assistiu aos funcionários saírem rapidinho, fechando a porta com firm eza. A sala ficou opressivam ente silenciosa durante os trinta segundos que Austin levou para se recom por. Adam sabia que ele estava furioso, m as não ligava a m ínim a.

– O que há de errado com você, porra? – m urm urou Austin entre os dentes.

– Não há nada de errado com igo.

– Então o que está fazendo parado aí, dando de om bros? Você entende o que isto significa?

Ele ergueu o fax e o chacoalhou.

– Sei exatam ente o que significa – respondeu Adam com calm a. Ele deu m ais um passo na direção do irm ão. – Significa que você e eu podem os conseguir um acordo que nos garantirá que nunca m ais precisarem os nos preocupar com dinheiro na vida e que Carter vai receber o que é dele de direito.

Austin ficou branco.

– Com o é que é?

Adam m eneou a cabeça.

– Ah, por favor, Austin. Deixe isso para lá. É assim que deve ser! Ele é o proprietário legítim o; estava escrito com todas as letras ao longo de todos esses anos. Ele m erece que tudo volte para ele.

E que não sej a cobiçado por você!

Austin partiu para cim a do irm ão, m as Adam foi m ais rápido. Nem sem pre

 

tinha sido assim , m as

a idade trouxe um a força que ele não tinha quando eram pequenos. Ele em purrou Austin até encostá-

lo contra a parede.

– Fique na sua, Austin – rosnou Adam com o dedo apontado para a cara do irm ão. – Não tenho 6

anos e esta em presa não é a porcaria do Com andos em Ação. Encare o fato de que, desta vez, seus com parsas não conseguiram livrar você e siga em frente com sua dignidade e seu nom e intatos. – Ele se afastou e aj ustou o paletó. – Meu Deus, cara, recom ponha-se. Você está perdendo a cabeça.

Austin engoliu em seco. Seu rosto estava verm elho com o um pim então, os olhos arregalados.

Adam balançou a cabeça.

– O que aconteceu, Austin? – perguntou ele, triste. – Eu defendi você, porra. Coloquei Beth contra a m elhor am iga por você! Nunca vou m e perdoar por isso. Céus, cara. É sério, este não é você.

– Este sou eu – retrucou ele. – Este sou eu m antendo a em presa viva antes que um cheirador a arraste de volta para a sarj eta de onde ele veio.

Adam o olhou enoj ado.

– Com o se você fosse perfeito. – Ele riu sem hum or. – Com o pode ser tão cheio de si quando faz as coisas que faz?

A coluna de Austin se endireitou e um brilho de cautela apareceu em seus olhos.

– É – sussurrou Adam , olhando para as fotografias. – Tenho certeza de que a diretoria ficaria interessada em saber com quem m ais você faz negócios. Não preciso de fotografias para provar as m erdas que sei.

Austin deu um sorriso irônico.

– Seu filho da puta.

– Talvez – disse Adam de form a som bria. – Mas estou avisando você: deixe isso para lá, Austin.

Saia de cabeça erguida. Esqueça Carter, esqueça Kat; pegue suas ações, com pre um a casa ou tire um as longas férias na puta que pariu, m as vá em bora ou não m e responsabilizo.

Adam deu as costas para o irm ão, aj ustando a gravata devagar enquanto o fazia.

– Ora, ora, Ads – falou Austin. – Isso parece um a am eaça.

Parando, Adam olhou para trás por cim a do om bro.

– Não é um a am eaça – inform ou ele, antes de andar em direção à porta do escritório. Com os dedos na m açaneta, continuou: – É um a prom essa.

Enquanto dirigia para a casa de Nana Boo, Kat sentia que a tensão no carro era densa, m uito parecida com a neve que encobria toda a cidade com o um cobertor. Carter parou de bater o pé no chão do autom óvel e estalou os dedos, na esperança de que a tensão que tinha se aloj ado em sua espinha fosse, de algum a form a, m elhorar. Ele estava exausto. O fato de só ter dorm ido sete horas nas últim as 48 tam bém não estava aj udando. Ele fechou os olhos.

– Você está bem ?

Carter m anteve os olhos fechados, arqueando um a sobrancelha de m aneira sarcástica em resposta. Com o um babaca, ele não tinha palavras reconfortantes para oferecer, apesar de saber que Kat precisava m uito delas. Ela ansiava por segurança e apoio. Ele sim plesm ente não sabia com o lhe dar isso. E se contentou em colocar a m ão em sua perna.

O contato era bom .

Podia dizer, pelo trem or em sua voz, que ela se achava tão nervosa quanto ele com relação à conversa que estava por acontecer com Eva; e com toda a razão. Apesar de ter repassado diversas vezes em sua cabeça o que queria dizer, Carter sabia que estava indo direto para a cova do leão, vulnerável e m orrendo de m edo.

Ele só queria garantir que não deixaria a m ãe de Kat controlar o diálogo – se é que esta era a palavra adequada para isso. É, seria um diálogo acalorado, para dizer o m ínim o. Ele tinha que m anter o controle e perm itir que ela dissesse tudo o que tivesse vontade. Essa era a m elhor estratégia para lidar com a situação. Carter não tinha nenhum a ilusão; ele entendia por que Eva se com portava daquele j eito.

Tudo se tratava de convencer Eva de que ele am ava Kat com todo o coração, que faria qualquer coisa, seria qualquer coisa por ela. Ela estaria segura a seu lado, pois ele a protegeria e a estim aria até seu últim o suspiro.

Com sorte, aquilo seria suficiente. Meu Deus, ele torcia para que fosse.

Se conseguisse fazer a m ãe de Kat enxergar que ele não se resum ia à sua ficha crim inal, e que erros não definem um hom em , então estaria no cam inho certo. Ele estava um a pilha de nervos. Carter pensou se teria tem po para fum ar um cigarro antes de a batalha com eçar.

– Chegam os – m urm urou Kat, desligando o m otor.

Parecia que não.

Carter engoliu em seco e abriu os olhos.

– Pêssegos.

– Carter.

Eles falaram em voz baixa ao m esm o tem po, nervosos. Carter se virou para ela com um sorriso torto.

– Pode falar – pediu ele.

– Não – insistiu ela, balançando a cabeça. – Por favor, o que você ia dizer?

O que ia dizer? Não fazia ideia do m otivo pelo qual o nom e dela havia escapado. Talvez porque o som dele e a ciência de que ela estava perto o confortassem m ais do que ele conseguia expressar.

Carter pegou a m ão de Kat e a levou até a boca, dando um beij o delicado.

Ele suspirou.

– Não im porta o que ela diga, do que m e cham e ou m e acuse. O que quer que aconteça, quero que você prom eta que não vai dizer nada.

Os olhos de Kat se arregalaram .

– O quê?

– Você m e ouviu.

Se ele ia fazer aquilo, tinha que fazer sozinho. Que tipo de m ãe queria ver o hom em que am ava sua filha com o um idiota fraco e incapaz? A últim a coisa que precisava era que Kat o defendesse. Ele estava determ inado a lutar sozinho.

– Não posso prom eter isso, Carter.

– Por favor. Preciso que faça isso por m im .

Um fogo brilhou nos olhos dela.

– Se ela falar...

– Não vou a lugar algum – disse Carter com firm eza, interrom pendo-a. – Olhe para m im . Não vou a lugar algum . – Ele deslizou os dedos pelo rosto dela. – Juro. Você confia em m im ?

Ela assentiu com a cabeça.

– Mas estou m orrendo de m edo.

– Eu sei – sussurrou ele.

Ele deu um beij o nos dedos dela.

– Vou tentar ficar de bico calado – prom eteu Kat com convicção. – Mas, se ela com eçar, com eço tam bém .

Era o m áxim o que ele podia esperar.

Parado na varanda de Nana Boo, esperando que alguém viesse abrir a porcaria da porta, Carter segurava a m ão de Kat com o se estivesse se afogando. Ele sabia que estava tentando trazer para si toda a força dela, m as tudo bem . Quando os pequenos dedos de Kat apertavam os dele, sabia que ela estava fazendo a m esm a coisa.

O som da fechadura se abrindo fez seu pescoço form igar e sua garganta secar.

Ou tudo ou nada, certo?

Trevor abriu a porta com um sorriso largo e encantador enquanto Reggie balançava o rabo alegrem ente ao seu lado.

– Srta. Katherine. Sr. Carter. Que bom revê-los. Por favor, entrem .

Kat sorriu, m as Carter só conseguiu fazer um a careta. Ele teve que puxar os pés do chão para conseguir andar. Que sorte a dele: a confiança e a determ inação que haviam tom ado conta dele no dia anterior tinham desaparecido por com pleto agora que precisava delas. De repente ele se sentiu m uito, m uito estúpido.

Kat pegou as m ãos dele nas suas. Ele apertou os lábios e suspirou de alívio, grato dem ais por ela estar ali com ele, ao seu lado, pronta para apoiá-lo do j eito que pudesse.

– Feliz Dia de Ação de Graças! – Nana Boo sorriu calorosam ente para Carter e lhe deu um beij o no rosto. – É tão bom ver você.

– Feliz Dia de Ação de Graças. – Ele se afastou e a fitou com um olhar de desculpas. – Sinto m uito por ontem . – A m ão de Kat pressionou a lom bar dele. – Sou um idiota e a últim a coisa que pretendia era deixar Kat chateada – m urm urou ele. – Eu só... Eu queria... Desculpe ter ido em bora, tá? E... é.

O rosto de Nana Boo se ilum inou com um sorriso de adm iração, apesar de Carter querer apenas que o chão se abrisse e o engolisse por com pleto. Ela colocou a m ão em seu braço e fez um carinho, persuadindo-o a olhá-la. O calor de seus olhos e o carinho de seu toque encheram Carter de esperança nostálgica e am or. Por um a fração de segundo, ele tinha 7 anos de novo.

– Obrigada pelo pedido de desculpas. Mas não tem necessidade algum a. Se você e Kat estiverem bem , então fico feliz.

– Nós estamos bem – disse Kat, aproxim ando-se de Carter.

Ele podia ter facilm ente se perdido nos olhos m aravilhosos de Kat, e o teria feito com m uita alegria se não fosse pelo som inesperado de um pigarro que reverberou pelo saguão cavernoso com o um rugido cruel. Kat se virou de im ediato para a direita, m as Carter se m anteve parado, observando a curva delicada do rosto de Pêssegos. Ele não precisava olhar; sabia quem era e o que esperar quando olhasse.

O silêncio foi tão confortável quanto um a m anta de vidro, e todos debaixo dela ficaram im óveis.

Até m esm o Nana Boo, sem pre tão vibrante e cheia de vida, perm aneceu sem se m exer.

– O que é isso? – perguntou Eva com desdém .

Carter piscou e ergueu a cabeça para encarar a m ulher que ele fora lá para encontrar. Ela estava parada na porta da sala, espetacularm ente bonita e j ovem com seus j eans pretos e suéter cinza. Um hom em alto com cabelos escuros, usando um m oletom dos Yankees, estava parado atrás dela. Ele colocou a m ão no om bro de Eva e apertou de leve. Eva fez um a careta para Carter, cruzando os braços. Seu rosto era raivoso, defensivo, m as em torno de tudo aquilo havia um a aura de esperança.

Se ela tinha esperança, ele se agarraria a isso com o um bote salva-vidas. Poderia usá-la a seu favor.

Poderia transform ar aquela esperança em com preensão. Era só o que Carter pedia. Ele não precisava de sua bênção ou de sua aceitação. Só precisava que ela com preendesse.

– O que você está fazendo aqui? – perguntou Eva de m aneira brusca.

Carter apertou ainda m ais o braço de Kat, segurando a resposta que estava a cam inho. Os olhos furiosos dela analisaram o rosto dele.

– Está tudo bem – respondeu Nana Boo, erguendo o queixo na direção de Eva, desafiando a filha a questionar sua atitude.

Carter soltou a m ão de Kat e deu um passo à frente. Eva o observou atentam ente enquanto ele se aproxim ava. O hom em atrás dela, que Carter sabia ser Harrison, foi para o lado de Eva, num m ovim ento sutil que dizia a Carter para ficar alerta. O rosto da m ãe de Kat não denunciava em oção algum a quando ele chegou perto dela, parando a apenas m eio m etro. Mas, quando ele estendeu a m ão para que a apertasse, um a faísca de descrença atravessou o rosto dela.

– Olá – cum prim entou Carter, m eio engasgado. Ele lim pou a garganta, irritado, m as m anteve os olhos nos de Eva. – Sou Wes Carter.

As paredes do recinto pareceram se curvar e se contorcer sob a tensão que em anava de todos ao redor de Carter, inclusive de Eva, que ainda não tinha apertado a m ão dele. Ele a m anteve ali, contudo, determ inado a m ostrar que não era nenhum bundão, m esm o que suas entranhas estivessem prestes a explodir e ele quisesse sair correndo.

– É um prazer finalm ente conhecê-la – acrescentou, quando o silêncio se tornou asfixiante.

O olhar de Eva foi intenso e perplexo. Carter não tinha certeza se ela o considerava m aluco ou estúpido. Àquela altura, teria chutado a últim a opção. Ela deu um a olhada para a filha.

– Foi Katherine que obrigou você a fazer isso?

– Não! – gritou Kat atrás de Carter antes que ele pudesse respirar. – Não fui eu. E não consigo acreditar que você está parada aí, ignorando a tentativa de civilidade dele com o um a...

– Kat – disse Carter com firm eza, interrom pendo o que ele sabia que seria algo nocivo e inútil.

Ele lançou-lhe um olhar severo e balançou a cabeça devagar. A raiva não foi em bora de seu corpo tenso, m as, com o um a boa m enina, ela calou a boca.

Carter se virou para Eva, cuj o olhar se dividia entre ele e Kat, e abaixou a m ão.

– Kat não m e obrigou a fazer isso – explicou ele. – Fui eu quem quis vir aqui hoj e.

Eva perm aneceu em silêncio, alerta e na expectativa.

– Eu queria voltar aqui e conversar com você.

– Sobre o quê?

Kat se m exeu ao lado dele. Observando Eva, Carter esticou a m ão, encontrando a de Kat, e enrolou o indicador no m indinho dela.

– Queria um a chance de explicar.

– Explicar? – Eva bufou. – Explicar o que, exatam ente? Você está aqui para explicar por que está colocando o futuro da m inha filha em risco? Para explicar por que diabos eu deveria confiá-la a um crim inoso condenado? Para explicar que perspectivas alguém com o você poderia ter com um a m ulher com o Katherine? O que exatam ente está aqui para explicar, Wes Carter?

O volum e da voz dela foi crescendo a cada palavra. No entanto, Carter não deixou de notar o trem or por trás delas, e perm itiu que isso acalm asse seus nervos, que se afloravam a cada corte que a língua dela fazia. A m ão de Kat trem ia. Ela estava ávida para explodir com a m ãe, resistindo apenas porque ele tinha pedido, e Carter a am ava ainda m ais por isso.

– Posso explicar tudo, se é o que você quer – concordou ele em um tom m ais agudo do que pretendia.

E, sem saber por que, deu m ais um passo na direção dela. Ele viu os olhos de Eva se arregalarem , apesar de seu queixo se erguer de m aneira desafiadora.

– Mas vim aqui para explicar que, apesar do que você pensa a m eu respeito, ou de quaisquer conclusões a que tenha chegado sobre m im e m inhas intenções, eu am o a sua filha. E, não im porta o que você diga ou fale, não vou a lugar algum .

Carter podia ter j urado que viu o choque retorcer os cantos da boca de Eva.

– Ah, é assim , então?

– Sim – respondeu ele, fazendo um m ovim ento afirm ativo e incisivo com a cabeça, a determ inação fluindo livrem ente por seu corpo.

Kat se aproxim ou e ele se reconfortou no calor e na segurança que aquele gesto trouxe. Eva tam bém percebeu, o que a fez franzir a testa de form a severa m ais um a vez. Ela encarou a filha, m as os olhos de Kat estavam em Carter, m arcando-o com o seu.

– Eu tam bém am o você – disse ela, alto o suficiente para que todo m undo ouvisse.

32

– A que horas é o seu voo, querida? – perguntou Nana Boo, quebrando o silêncio que envolvia a sala de estar.

– Precisam os estar no aeroporto em algum as horas – respondeu Kat de seu lugar ao lado de Carter.

Ela desenhava círculos invisíveis nas costas da m ão dele, que estava acom odada entre as dela em seu colo.

Eva, sentada na poltrona larga de pelúcia na frente deles, os encarava com o se Carter estivesse pedindo que ela cedesse sua única filha virgem para um sacrifício hum ano público. Ele ficou olhando de volta para ela, forte e paciente, desej ando que se queim asse com cada coisa que ele sabia que ela queria dizer.

Carter ficou im aginando o que ela via quando olhava para ele. Será que enxergava o am or que ele tinha por sua filha? Será que enxergava o conflito pelo qual ele tinha passado para ficar com ela?

Será que enxergava que ele abriria m ão da própria vida para m antê-la em segurança? Ou enxergava apenas sua lista de crim es? Será que o via com o um exem plo perfeito do tipo inadequado para ela?

Será que o considerava igual àqueles anim ais que tinham tirado a vida de seu am ado m arido?

É, pensou, pessim ista. Era exatam ente assim que ela o via.

– Sei que você tem m uito a dizer – m urm urou ele. – Sei que tem opiniões duras a m eu respeito. – Ele ergueu as sobrancelhas. – Prefiro que m e diga para que eu talvez possa m udá-las.

– Isso não vai acontecer – sibilou Eva.

– Você não sabe.

– Não ouse m e dizer o que sei e o que não sei. Sei m uito bem quem e o que você é.

Carter segurou apertado a m ão trêm ula de Kat.

– Será que pode m e explicar? – Ele se inclinou para a frente. – Todo m undo m erece a chance de se defender.

– Você j á tem bastante experiência com isso – apontou Eva, enoj ada.

– Eva.

Todos os rostos se voltaram para Nana Boo, que olhava boquiaberta para a filha, de um j eito que fez Carter se afundar ainda m ais no sofá.

Eva olhou para a m ãe antes de abaixar os olhos respeitosam ente.

– Sim – confirm ou Carter. – Já cum pri pena.

– Mais de um a vez – retrucou Eva. Ela sacudiu a cabeça, perplexa. – Você acredita m esm o que vou querer m inha filha com um hom em que considera um tem po na prisão um as férias estendidas de verão?

– Não vej o dessa form a. – Carter estava resoluto. – Não m e orgulho do m eu passado.

– Talvez – retrucou Eva. – Mas o passado de fato aconteceu.

– Com o o passado do m eu pai? – interferiu Kat.

Eva olhou para a filha por um instante, seus olhos se enchendo de lágrim as.

– Não ouse com pará-lo ao seu pai – censurou ela. – Seu pai... Seu pai... – Ela m ordeu o lábio e enrolou os braços no próprio corpo. – Ele pode ter feito coisas das quais não se orgulhava – continuou antes de voltar a olhar para Carter –, m as fez algo para se redim ir depois. Tornou-se alguém que as pessoas adm iravam , respeitavam , am avam ...

– Carter j á fez coisas que adm iro e respeito – enfureceu-se Kat. – Você não faz ideia do que ele superou, contra o que ele lutou a vida inteira. Você não faz ideia da noite em que m eu pai m orreu, de com o Cart...

– Kat – interrom peu Carter.

Ele não queria que Eva soubesse de sua participação na noite em que o senador tinha m orrido.

Não agora. Não se tratava de ganhar pontos. Um soluço abafado veio do outro lado da sala. Carter desviou o olhar de Kat e viu o rosto devastado de Eva e Harrison acariciando seu cabelo.

– Você acha que não faço ideia da noite em que seu pai m orreu? – repetiu ela sem fôlego. – Com o você pode... Katherine, aquela noite...

Ela m eneou a cabeça, sem palavras.

– A noite em que seu pai faleceu foi a pior da m inha vida – falou Eva. Lágrim as escorriam por seu rosto. – Não faço ideia? – repetiu ela, soltando um ronco agressivo de risada. – Nunca tinha sentido tanto m edo quanto no m om ento em que recebi aquela ligação: um m edo debilitante que se instala no peito, Katherine.

Kat abaixou a cabeça e fechou os olhos.

– Mãe, m e desculpe. Não quis dizer...

– E não foi só porque perdi m eu m arido – continuou Eva, sufocada –, por m ais que eu o adorasse, o am asse. Não.

Ela fitou Kat com os olhos cheios d’água e as lem branças devastadoras enrugando seu rosto.

– O m om ento em que fiquei m ais assustada, Katherine, foi quando pensei que tinha perdido você.

Kat apertou a m ão de Carter, m ordendo o interior da boca.

– Eu sabia que seu pai não perm itiria que alguém m achucasse você, Katherine – insistiu Eva. – Ele teria destruído qualquer um que tentasse. Mas quando o m édico no hospital olhou para m im com aqueles olhos em páticos... tive certeza de que você... – Ela apertou a xícara de chá. – Tive certeza de que aqueles m onstros haviam tirado você de m im tam bém .

– Eles não tiraram – m urm urou Kat, secando o olho esquerdo. – Estou aqui.

– Sim , você está – retrucou Eva. – Com ele.

– É diferente. Carter não é um assassino! – censurou Kat.

– Não, é um traficante. Fico tão aliviada – replicou Eva, o desdém pingando de cada palavra.

Antes que Kat pudesse responder, ela acrescentou:

– Você acha que seu pai ficaria feliz por você ter aceitado um em prego no presídio, trabalhando com o tipo de hom ens a quem ele entregou a própria vida para salvar você? Acha que ele estaria sentado aqui dando sua bênção a vocês dois? Se acha, está errada.

Antes que Carter pudesse pará-la, Kat se levantou abruptam ente do sofá, os olhos em cham as, as lágrim as e as palavras gentis esquecidas.

– Ele m e deu sua bênção, m ãe! Ele m e deu sua bênção no dia em que visitam os o túm ulo dele.

Apesar da m ão de Harrison e de sua tentativa de tentar segurá-la, Eva se levantou.

– Não sej a ridícula, Katherine. Seu pai não toleraria isto. Eu não vou tolerar! Você é m uito m elhor que isso.

– Você não m anda na m inha vida, m ãe. Tenho 25 anos!

– Você é m inha filha e quero você em segurança!

– EU ESTOU EM SEGURANÇA!

– Com o pode dizer isso? – Ela apontou um dedo acusador na direção de Carter. – Ele é um crim inoso, preso por porte de cocaína, roubo de carros, posse de arm as. Não é seguro estar com ele; não é quem eu quero ao seu lado!

– Chega!

A sala chacoalhou com a voz grave e estrondosa de Harrison.

Carter o olhou boquiaberto, surpreso por ele ter gritado tão alto quanto gritou, apesar de ele próprio estar prestes a fazer exatam ente a m esm a coisa. Harrison saiu de trás da poltrona de Eva, parecendo furioso.

– Chega, vocês duas.

Eva suspirou.

– Harrison, eu não acho...

– Não, Eva – interrom peu ele. – Já chega. – Ele esfregou as pontas dos dedos na testa. – Estou tão cansado de ver vocês duas discutindo e brigando. Me parte o coração. – Ele olhou para Kat. – Nunca vi vocês assim . Nenhum a de vocês, e não posso m ais ficar calado.

– Eu concordo – m urm urou Nana Boo de sua poltrona no canto da sala. – Eva, eu am o você, m as precisa parar.

– Parar? – repetiu Eva. – Sua neta está “apaixonada” por um hom em cuj o guarda-roupa está repleto apenas de m acacões de presidiário.

Carter quase bufou com essa.

– Pode até ser – respondeu Nana Boo com raiva. – Mas o que você parece não perceber é que, quanto m ais grita e bate o pé, m ais você os aproxim a. E, se não tom ar cuidado, vai perdê-la de vez.

Eva piscou. Kat se virou para Carter com um a careta de desculpas. Ele pegou a m ão dela e deu um beij o nas articulações de seus dedos.

– Kat, venha com igo e com Harrison – instruiu Nana Boo em um tom que não perm itia argum entação. – Eva e Carter, fiquem aqui. – A expressão de seu rosto se suavizou quando encontrou o olhar de Carter. – Tenho certeza de que vai ser m ais fácil para os dois conversar sem um a plateia.

Eva ficou branca.

– Não vou ficar aqui com ele.

– Por quê? – retrucou Nana Boo. – Está com m edo de que ele tente lhe vender um pacotinho de pó?

Os olhos de Eva se arregalaram e ela em udeceu, enquanto Carter deu um sorriso torto.

– Fiquem aqui – ordenou Nana Boo. – Conversem .

Ela tirou Kat e Harrison da sala, e encarou Eva. Carter não podia negar que estava surpreso por Kat ter perm anecido quieta, sem discutir. Ele fixou os olhos em Eva, que andava de um lado para outro na sala com o um anim al enj aulado. Ele estudou o grande bar de m ogno do lado oposto da sala e rezou para que tivesse uísque ali.

Bingo.

– Bem , não sei quanto a você – disse Carter, exausto, levantando-se e indo até o bar. – Mas eu preciso de um a bebida.

Eva o observou colocar dois dedos no copo de cristal. Ele estendeu o copo na direção dela.

– Não, obrigada – agradeceu ela, sentando-se de novo. – É um pouco cedo para m im .

Carter tom ou um gole e fechou os olhos. Coragem escocesa nunca tinha tido um gosto tão bom .

Eva evitou fitá-lo, olhando para todos os lugares, m enos para Carter, e perm aneceu irritantem ente calada.

Quinze m inutos se passaram da m esm a m aneira até que Carter não conseguiu m ais suportar.

– Kat é bem parecida com você, sabe?

Eva ergueu um a sobrancelha nada im pressionada.

– Ela é – continuou ele. – Cuidadosa, determ inada, intensa. Teim osa pra caram ba.

– Se essa é a sua form a de ganhar uns pontos com igo – retrucou Eva com firm eza –, acredite em m im : não está funcionando.

– Ah, sei disso – concordou Carter. – Assim com o Kat, você não recua quando se trata daquilo em que acredita.

– Katherine não sabe em que acredita.

– Besteira. Kat é a pessoa m ais decidida que conheço. Você não lhe dá o crédito que ela m erece.

Não existe am biguidade quando se trata daquilo em que ela acredita.

– Linguaj ar im pressionante – ironizou Eva.

– Obrigado. Tive um a boa professora.

Eva se recostou e cruzou as pernas.

– Sim , você teve. E, até onde sei, teve um a educação de ponta, que j ogou pela j anela sem pestanej ar para ficar por aí traficando drogas e roubando carros.

– Não foi exatam ente assim – respondeu Carter, tom ando um gole de uísque.

– Sem ântica. A questão é que você esteve m ais vezes na prisão do que as pessoas deste país tiram férias, inclusive sua últim a detenção por posse de cocaína.

Os cantos da boca de Carter se curvaram para baixo, im pressionados.

– Você fez sua lição de casa.

– Am o m inha filha. É claro que fiz m inha lição de casa. – Ela o fitou. – Tam bém sei que você é o acionista m aj oritário de um a das m aiores em presas dos Estados Unidos, que vale m ilhões, e m esm o assim continua vivendo essa vida crim inosa insignificante.

Carter lim pou a garganta, nervoso dem ais para dar esclarecim entos.

– Bom , ao m enos Kat não vai passar fom e, certo?

– Você está tentando ser engraçado?

Obviam ente, não.

Ele contornou a boca do copo com o polegar e fechou os olhos.

– Olha, você entenderia se eu dissesse que m inha últim a vez na prisão, por causa da cocaína, foi m inha libra de carne?

Eva franziu a testa.

– O quê?

– Um a libra de carne – repetiu ele, erguendo os olhos para encontrar os dela. – Você sabe o que isso significa?

Perplexa, Eva respondeu:

– Um a dívida que precisa ser paga? – Ela fez um a pausa. – Você traficou cocaína para quitar um a dívida?

– Não – respondeu ele. – Fui pego com cocaína para quitar um a dívida.

Eva esfregou a testa, irritada.

– Estou confusa.

Carter expirou e tocou na borda do m aço de cigarros no bolso de sua calça, precisando da nicotina em seu sangue. Ele suspirou e apoiou os cotovelos nos j oelhos, detalhando a história de Max e Lizzie, do m om ento em que Max o tirou do cam inho de um a bala até o dia em que Lizzie foi em bora.

Eva gesticulou a m ão com indiferença.

– E você está m e contando isso porque...

Deus, essa era difícil de dobrar.

– Porque às vezes as coisas não são o que parecem ser.

– E às vezes elas são exatam ente o que parecem ser. Um ato de estupidez não m uda porcaria nenhum a.

– Certam ente – concordou Carter. – Sei que sou um idiota; sou o prim eiro a adm itir.

– Você faz ideia de quanto m e preocupo? – perguntou ela. – Faz ideia de quantas horas de sono perdi desde que ela com eçou a trabalhar naquela... prisão?

– Posso im aginar.

– Não, não pode! – censurou Eva. – Não faz ideia. Ser m ãe não é fácil, em especial quando sua filha insiste em tornar tudo ainda m ais difícil.

– Kat não com eçou a trabalhar em Arthur Kill para dificultar a sua vida – retrucou Carter. – Ela com eçou a trabalhar lá para superar seus m edos, para superar o que a apavorava e a m antinha acordada à noite.

– E o que você sabe sobre isso? – questionou Eva.

– O suficiente. – Carter apertou os lábios em um a tentativa de se conter. – Olha, sei sobre o pai dela. Sei o que aconteceu. Ela dar aulas para crim inosos...

– Anim ais.

– ... é sua libra de carne.

– Para com quem ?

– O pai dela.

A expressão de Eva se suavizou e ela baixou a voz.

– Com o assim ?

– Na noite em que ele faleceu, ela lhe prom eteu que faria algo para recom pensar. Prom eteu que se tornaria professora e aj udaria as pessoas, do j eito que ele fez com o político. – Carter deu um a olhada para a porta por onde sua Pêssegos tinha passado. – Ela só queria cum prir a prom essa. Quitar a dívida.

Eva se recostou na poltrona e ficou olhando pela j anela. A neve tinha com eçado a cair novam ente.

– Eu não sabia disso.

– Com o eu falei – m urm urou Carter –, as coisas nem sem pre são o que parecem . – Ele respirou fundo. – Eu am o a sua filha, senhora. Estou fazendo isso porque quero fazer tudo da form a certa.

Estou fazendo isso porque ela quer ficar com igo e eu quero ficar com ela.

Eva endireitou as costas.

– Vocês m al se conhecem ! Acha que porque ela lhe contou alguns segredos, você a conhece?

– Eu a conheço m elhor do que você pensa.

– Ah, por favor! Você a conhece a quê, quatro, cinco m eses?

Um instante se passou.

– Que tal dezesseis anos?

Os olhos de Eva brilharam , severos, m as confusos.

Carter a fitou de volta, esperando que a ficha caísse.

Sim , era pedir m uito, m as, puxa, o que ele tinha a perder? Ele não queria que seu papel com o salvador de Kat fosse um fator decisivo para que Eva o aceitasse ao lado de sua filha. Mas a m aldita m ulher o tinha levado àquele ponto com sua incapacidade de vê-lo sem um a lista de contravenções e delitos colada na testa.

Deus, ele tinha até contado que tinha sido preso no lugar de Max. Ele não teria m encionado aquilo se não estivesse se sentindo encurralado, sem saída. Desesperado para que Eva enxergasse além de seus erros, ele não tinha m ais nada para pôr na m esa.

– Com o é que você a conhece há dezesseis anos? – perguntou Eva lentam ente. – É im possível. De j eito nenhum .

Apesar das palavras de convicção, os olhos dela diziam a Carter que as peças estavam se encaixando. A teim osia de Eva era a única coisa que a im pedia de ver o que estava bem à sua frente.

– Nos conhecem os... no Bronx – disse Carter em voz baixa. – Ela tinha 9 anos. Eu tinha 11.

O horror se espalhou pelo rosto de Eva, m as m udou rapidam ente para em oções que eram tão indiscerníveis quanto fugazes. Ela estava em guerra consigo m esm a agora, lutando contra o que acreditava – ele era um crim inoso bruto e perigoso – e a verdade – ele tinha salvado a vida de sua filha.

– Os noticiários – gaguej ou Eva. – Saiu em todos os noticiários. Todo mundo sabe que eles estavam lá aquela noite. Todo mundo sabe o que aconteceu.

Carter prosseguiu, ignorando a acusação de que ele era um m entiroso.

– Ouvi um grito.

Eva fechou os olhos.

– Eu estava do outro lado da rua e vi tudo: os caras com os tacos, Kat, seu m arido. Deus, aconteceu tão rápido. Ele... Seu m arido estava no chão. Eles bateram nele com o taco, o chutaram .

Ele tentou revidar, m as havia m uitos deles para um hom em só.

Eva em itiu um ruído estrangulado e colocou a m ão na boca.

– Kat estava no chão a m eio m etro dali – continuou Carter, perdido nas lem branças. – Um daqueles desgraçados tinha batido nela.

– Pare.

– Ela estava usando um vestido azul. Estava suj o da calçada, rasgado na m anga. Seu m arido gritou para ela correr. Ele im plorou diversas vezes, m as ela não ouvia. E eu sabia que se aqueles filhos da puta a pegassem , eles a m atariam .

Eva finalm ente ergueu os olhos para ele, lágrim as escorrendo por seu rosto.

Carter colocou a m ão no estôm ago.

– Algum a coisa aqui dentro, bem no fundo, m e disse para aj udá-la. Eu não podia deixar que eles a m achucassem . Aquilo era errado.

– Você... Você... – soluçou Eva, incapaz de form ular um a frase com pleta.

– Eu corri até ela – disse Carter. – Agarrei seu braço e a tirei de lá. Mas tive que arrastá-la a m aior parte do cam inho; ela era pequena, m as lutou, sabe? Ela era forte.

Eva enrolou os braços no próprio corpo, ouvindo-o descrever com o tinha retirado Kat do chão frio e m olhado.

– Houve um tiro e ela gritou, e tudo o que eu pude fazer foi abraçá-la e garantir que ela não voltasse correndo para lá. Concluí que estava fazendo o que o velho dela queria. Estava fazendo algo bom . – Ele passou as m ãos pelo cabelo. – Salvar a vida de Kat foi a única coisa boa que fiz na m inha vida inteira.

Então, eles ficaram olhando um para o outro por alguns instantes, e ele torceu para que finalm ente se entendessem . Haviam encontrado seu denom inador com um . Am bos viviam pelo m esm o m otivo e, com essa percepção, ele sentiu m ais facilidade em respirar.

– Para onde você a levou? – perguntou Eva.

– Para a porta de um edifício a algum as quadras dali. Quando ela parou de lutar com igo, chorou até pegar no sono.

– Aí você a deixou?

– Não – respondeu ele. – Eu a abracei. Fiz carinho em seu cabelo, conversei com ela até que a aj uda chegou.

– Mas... você sum iu.

Carter deu um sorriso torto.

– Eu j á era conhecido da polícia por causa das m erdas que eu e Max tínham os feito e eu sabia que, se eles m e pegassem , eu teria que dar explicações. Então...

– Você fugiu.

– É.

– Aonde você foi?

– Voltei para a casa do m eu am igo. Max m e acalm ou, m e aj udou com o choque do que tinha acontecido.

Eva desviou os olhos para a porta.

– Ela sabe?

– É claro. Tive que contar a ela.

– Com o ela reagiu?

Carter sorriu.

– Do j eito dela. Mas estou aqui, certo?

– Sim , está.

Carter expirou e passou a m ão cansada pelo rosto.

– Olha. Sei que nunca serem os m elhores am igos. Sei que nunca vai m e ver com o bom o bastante para sua filha, porque eu m esm o sei disso. E não contei isso a você para ganhar uns pontos. Contei porque queria que você entendesse que eu j am ais a m achucaria. Ela é tudo para m im . Quero dar a ela tudo o que ela quiser ou de que precisar. E quero que você e Kat voltem a ser com o eram antes de eu m e envolver. Odeio ter causado isso.

O rosto de Eva se ilum inou com esperança pela m esm a coisa.

– Não foi só você. Todos nós tem os certa culpa.

– Preciso que saiba que não estou aqui para m ais nada a não ser am ar e cuidar da sua filha.

Um sorriso tím ido brincou nos lábios de Eva.

– Sabe – falou ela sabiam ente –, você parece o pai de Kat quando fala desse j eito. Ele teve que convencer m eu pai de que era bom o suficiente para m im .

– E convenceu?

– Acho que sim .

– Eu convenci você?

Eva se levantou e atravessou a sala até a j anela. O silêncio e a expectativa fizeram o coração de Carter acelerar.

– Minha filha sofre do m al de ser parecida dem ais com igo – com eçou ela. – Tem razão quanto a isso; e consigo ver quanto ela am a você. – As bochechas dela ficaram rosadas de vergonha. – Eu não queria enxergar, m as é claro com o água. Mesm o assim , tendo dito isso, não posso ignorar o fato de que Kat está se arriscando m uito ao ficar ao seu lado.

Carter abriu a boca para protestar, m as Eva ergueu a m ão, fazendo-o engolir as palavras.

– Preciso que você saiba que Kat é a coisa m ais im portante da m inha vida. Sem pre foi. Se algum a coisa acontecesse com ela, não sei com o eu sobreviveria.

Ele sabia exatam ente o que ela queria dizer. Se Kat deixasse de existir, ele tam bém deixaria.

– Mas você a salvou, certo?

Carter engoliu em seco.

– Sim , senhora.

– Você a salvou quando o pai dela não podia. E, se você não estivesse lá, então eu teria perdido os dois.

– É.

– Então, em que pé isso nos deixa?

Carter deu de om bros.

– Não sei. Mas é um com eço, não é?

A expressão de Eva não dizia nada.

Carter deu um a olhada na direção da porta m ais um a vez e com eçou a se levantar. Ele enfiou as m ãos nos bolsos e apontou com a cabeça na direção de Kat.

– Eu... Eu vou ver se ela está bem .

Eva não respondeu, m as m anteve os olhos nele enquanto ele atravessava a sala.

– Wes.

Carter parou e cerrou os olhos por um breve instante; então se virou para ela, um a pedra em seu estôm ago e um deserto em sua garganta.

– Sim ?

– Obrigada – sussurrou ela. – Do fundo do m eu coração, obrigada, Wes, por ter salvado a vida de Katherine.

33

Assim que Wes deixou a sala de estar, Eva perdeu-se em pensam entos, olhando pela j anela da frente da casa de sua m ãe, observando a neve cair, fresca, lim pa e linda.

Ficou lem brando do rosto do hom em que tinha sido tudo para ela. Ela am ava Harrison de todo o coração, com exceção daquele pedaço que sem pre pertenceria a Daniel Lane.

Eva secou as lágrim as e deu um a olhada por cim a do om bro quando ouviu o som distante de risadas e um a porta sendo fechada. Precisava dar o braço a torcer em relação a Wes. Ele se m antivera firm e, sem pestanej ar. Expusera suas ideias de form a articulada – fora alguns palavrões –, dem onstrando am or incondicional e lealdade a Katherine. Eva não estava m entindo quando disse a Wes que não queria ver am or entre eles. Era o que m ais a assustava.

Sua filha estava totalm ente apaixonada por Wes Carter. Era um am or que m uitos nunca chegariam a encontrar na vida, um am or que ninguém j am ais poderia extinguir. Era grande, poderoso, do tipo que consum ia tudo. Eva podia vê-lo nos olhos de Kat quando ela olhava para ele, assim com o quando ela olhava para Eva ao defendê-lo. Era o m esm o olhar que Eva lançara inúm eras vezes ao pai logo que apresentou Danny à fam ília.

Só o que Eva queria era que Katherine fosse am ada de um j eito apaixonado, de tirar o fôlego.

Queria que a filha fosse consum ida pelo am or, sem m edo de se sentir fragilizada por ele ou preenchida por sua força. Queria que Kat fosse às nuvens e desse cam balhotas e se perdesse em um hom em que a am asse tanto quanto ela o am ava. Queria tudo aquilo para Katherine, e Katherine o tinha. Mas Wesley Carter não poderia ser m ais diferente do hom em que Eva tinha im aginado.

Depois de ouvir a confissão dele, a ansiedade de Eva com relação ao relacionam ento tinha dim inuído de m aneira considerável. O hom em tinha salvado seu bebê, pelo am or de Deus. Quando tinha apenas 11 anos. Ela era grata a ele além do que as palavras podiam expressar, m as a m am ãe ursa dentro de Eva se recusou a recuar.

Ela entrou na cozinha e encontrou sua m ãe e seu parceiro sentados à m esa. Duas garrafas de vinho estavam abertas, bem com o um a garrafa de Jam eson. A expressão de sua m ãe agora era m ais am ena.

– Ei – disse Eva baixinho. – Cadê...?

– Ela está lá fora com o Wes enquanto ele fum a um cigarro m ais do que m erecido e tom a algum a coisa. – A m ãe de Eva suspirou. – Venha. Sente-se.

Eva se aproxim ou de Harrison com o estôm ago pesado. Era am or. Era culpa. Era vergonha. Era lam ento. Ela se sentou devagar e ficou olhando para o perfil dele. A barba escura por fazer m arcava seu m axilar e os olhos castanho-escuros estavam perturbados enquanto fitavam o copo de uísque em suas m ãos. Eles tinham tanto que dizer um ao outro, m as Katherine era sua prioridade. Ela precisava consertar as coisas. Eva deu um a olhada hesitante para a porta dos fundos.

– Diga a ela com o você se sente – disse Harrison, os olhos ainda fixos na m esa.

– Não sei com o – confessou ela.

– Sabe, sim .

– Estam os tão distanciadas.

– Vocês vão se aproxim ar de novo. Sej a honesta. – Ele tirou o casaco de m oletom e o entregou a ela. – Está frio lá fora.

Eva pegou o m oletom com um sorriso de gratidão.

– Sinto m uito, Harrison. E eu am o você. Muito.

– Eu sei – respondeu ele, olhando para ela pela prim eira vez.

Ela se aproxim ou e deu um beij o carinhoso no canto da boca do m arido. Ele se virou na direção do beij o com um suspiro.

– Vá – pediu ele com delicadeza.

As unhas de Reggie sapatearam com alegria no chão enquanto ele seguia Eva até a porta. Ela colocou o m oletom de Harrison – adorando o cheiro e a m aneira com o ele engolia seu corpo pequeno – e abriu a porta devagar. Seus olhos logo encontraram dois corpos aconchegados, sentados no degrau da varanda.

Wes estava com o braço em torno de sua filha, enquanto seus lábios m urm uravam palavras suaves, inaudíveis ao ouvido dela. O ar tinha cheiro de fum aça e de frio. A porta fez um ruído, fazendo Wes se virar.

Eva abaixou a cabeça em aceitação antes de Carter repetir o gesto. Katherine olhou por cim a do om bro, sua expressão indecifrável.

Wes deu um beij o no rosto de Katherine e sorriu.

– Vou dar um m om ento a vocês duas – disse ele antes de se levantar e passar por Eva, seguindo em direção à porta.

– Obrigada, Wes – agradeceu a m ãe de Kat.

A porta se fechou atrás dele e Eva engoliu em seco antes de dar um passo hesitante para se aproxim ar da filha.

– Posso m e sentar?

– Se você quiser.

Reunindo toda a sua coragem , Eva sentou-se ao lado de Katherine. Por alguns m inutos, as duas m ulheres ficaram em silêncio. Com o ela poderia verbalizar o am or que tinha pela filha? Nenhum a m ãe j am ais conseguiria. Era enorm e, im ensurável e im possível de rotular.

– Katherine – com eçou Eva em voz baixa, m orrendo de m edo de dizer a coisa errada. – Fico feliz por vocês dois estarem aqui.

Katherine perm aneceu em silêncio. Eva não conseguia ver a expressão no perfil da filha, a não ser um leve trem or de seu lábio. Danny fazia a m esm a coisa quando ficava nervoso. Pensar que ela levava a própria filha a se sentir daquele j eito partia seu coração.

– Queria m e desculpar com você. – Ela ofegou e fechou os olhos. – Eu am o m uito você, querida, e quero que as coisas voltem a ser com o antes entre nós. Odeio brigar com você.

– As coisas nunca m ais serão com o eram , m ãe. Muita coisa aconteceu.

Eva lutou contra o nó que sentia no fundo da garganta.

– Eu... Entendo se você não quiser tentar.

Olhos verdes fum egantes encontraram os dela.

– Não é que eu não queira tentar, m ãe. É que m e dói o fato de você não suportar ficar no m esm o recinto que o hom em que am o. Carter e eu som os um “pacote” agora. Se você não consegue lidar com isso, então não há esperança de as coisas entre nós um dia voltarem a ser com o antes.

Eva fechou as m ãos, unindo-as, querendo que suas apreensões e sua falta de confiança descessem para o estôm ago.

– Eu entendo.

– Não – retrucou Katherine. – Não entende. – Ela cerrou os olhos e respirou fundo. – Só porque ele contou a você sobre ter m e salvado não significa que você entenda o que Carter e eu som os um para o outro.

– Então m e explique – pediu Eva.

Ela queria entender. Precisava.

Katherine respondeu sem hesitação.

– Eu o am o m ais do que poderia explicar. – A voz dela nunca oscilou em seu fervor. – Ele m e entende, m e m antém segura e m e am a tam bém .

– Sei que am a.

Um am or daqueles era inegável.

– Ele é honesto, sensível e um dos hom ens m ais coraj osos que j á conheci. E quero ficar com ele pelo resto da vida.

Em bora o coração de Eva quase tenha saltado do peito, as palavras de Katherine não a surpreendiam . É claro que ela queria ficar com ele para sem pre. Ele era sua outra m etade, assim com o Danny tinha sido a de Eva. Com o podia negar à filha a única coisa que desej ara para ela desde o dia em que ela nascera?

Continuar: parte 17 de 17