Diário de um sem-abrigo

Jorge Costa · Capítulo 10 de 19

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Diário de um sem-abrigo

“A fome não é calma. A fome revolta.”

“A FOME NÃO É CALMA. A FOME

REVOLTA.”

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L embro-me de que estava uma magnífica noite de verão. O dia fora muito quente, embora já estivéssemos em setembro. Eu sentara-me nas escadas da entrada da estação do metropolitano de Chelas, junto ao ISEL. Olhei para o relógio do telemóvel que ainda não fora capaz de vender, pois era muito bom e tinham-mo oferecido. Era quase meia-noite.

Começo assim esta crónica, porque me recordo que, desde que vivia nas ruas, era a primeira noite em que não estava com o Zé. Desentendêramo-nos nessa manhã e ele disse que ia “fazer-se à vida” sozinho. Eu não disse nada, voltando-lhe as costas também. Penso que estávamos ambos a precisar do nosso espaço. As coisas não corriam bem desde que saíramos da Gare do Oriente quase um mês antes.

Corriam os meses de verão, os chamados meses de férias. Nas ruas de Lisboa, tirando os turistas, há menos gente e o movimento é menor a todos os níveis. Para uma pessoa comum, isso não é um problema, mas para um sem-abrigo significa menos pessoas nos hipermercados, nas estações, nos centros comerciais. Significa menos trânsito, com os parques de estacionamento vazios e as ruas com menos carros para estacionar. Significa menos dinheiro.

No dia anterior, tínhamos ido à Segurança Social, com grandes reservas por parte do Zé, que dizia que a Segurança Social e a Santa Casa não ajudavam ninguém. O período do meu Rendimento Social de Inserção (RSI) chegara ao fim três meses antes. Quando recebera o último pagamento, ainda não me encontrava na condição de sem-abrigo. Quis, por isso, tentar fazer a renovação, mas, para tal, teria de falar com um assistente social.

Agendaram-me uma entrevista para cerca de um mês mais tarde, pois teriam de fazer uma reavaliação da minha situação social. Reavaliação? Eu disse que não tinha casa e dormia na rua. E a resposta foi que era precisamente por isso que tinha de ser feita uma reavaliação da minha situação e ser-me atribuído um assistente social. Fiz a marcação, ficando a aguardar resposta pelo correio ou por SMS. Disse-lhes que era melhor ser por SMS, pois, para ter acesso a correio, é preciso ter casa.

À saída, o Zé, talvez percebendo alguma coisa na minha cara, perguntou-me com a sua habitual ironia bem-disposta: “Então, já trazes o rendimento mínimo ou ’tá tudo de férias e mandaram-te foder?”

Onde estaria ele agora? O dia correra-me muito mal. Tivera uma forte dor de cabeça e não ganhara quase dinheiro nenhum. A rua onde costumava arrumar carros estivera praticamente sem movimento de manhã e, a certa altura, no início da tarde, senti-me maldisposto com o calor e com a cabeça a latejar de dor.

Deitei-me a descansar num banco público debaixo de uma varanda. Já não tinha qualquer problema em deitar-me em bancos públicos e de jardim. O banco estava à sombra e não fazia ali tanto calor. Acabei por adormecer.

Quando acordei, já era noite. Não comera nada durante todo o dia e perdera o carro de apoio com alimentos que costumava ir a Chelas. No dia anterior, também comera pouco e penso que as dores de cabeça eram resultantes disso. Sentia-me muito fraco.

Dirigi-me, então, para a entrada do metropolitano, para tentar ganhar algum dinheiro a pedir, mas havia muito pouca gente e foi complicado conseguir algumas moedas. Até que acabei por me sentar nas escadas.

Estava esfomeado. Tirei as moedas do bolso e contei-as. Tinha pouco mais de três euros. O que iria comprar para comer àquela hora? Os hipermercados já estavam fechados. O dinheiro que tinha daria para comprar algum pão. Mas nada a fazer…

Levantei-me e comecei a descer lentamente a Rua Dr. Augusto de Castro, em direção ao sítio onde eu e o Zé tínhamos as coisas e onde dormíamos agora, nas traseiras de um edifício vazio a aguardar obras, no fim da avenida. O que me incomodava era a fome. O vazio no estômago era enorme, impedindo-me de manter a serenidade.

A fome não é calma. A fome revolta… A sensação de fome depois de estar um dia ou mais sem comer, além do mal-estar físico, é acompanhada por uma angústia silenciosa, revoltada. Com dor. Porque é óbvio que não há comida à espera em lado nenhum e a fome vai continuar.

Nesta vida, não poderia descurar nada; teria sempre de estar a horas e próximo dos carros da alimentação, senão o resultado estava à vista.

Eu passava os dias a querer afastar-me daquilo de que não podia fugir. Todos os dias, pensava que o seguinte seria melhor. Mas o que acontecia era precisamente o contrário. Enquanto descia a avenida, comecei a parar junto aos contentores do lixo. Sim, contentores do lixo. Quantas vezes, no meu passado, vira gente a procurar comida nos contentores? Todos nós já vimos. E tinha dificuldade em entender como é que uma pessoa chega ao ponto de comer de um caixote do lixo.

A resposta que damos a nós próprios é surreal. É daquelas coisas que só acontecem aos outros, aos pobres e aos miseráveis. E olhamos com aquela expressão de pena, por vezes acusadora, incomodados com a situação. E até queremos ajudar. Damos uma esmola. Uma moeda ou duas. E isso, o que resolve?

Entendi esse olhar nas ruas, enquanto pedia esmola. O olhar e a atitude que tivera para com outros, no passado, era eu agora alvo deles. E aprendi uma coisa: a maior parte das pessoas que me davam uma moeda não o fazia para me ajudar. Faziam-no para se sentirem bem consigo próprias.

Afinal, o que é preciso para que uma pessoa procure comida num caixote de lixo? Basta ter fome e não ter comida. E não ter dinheiro para a comprar, não ter onde ir buscá-la e saber que a fome vai continuar. Basta viver sem nada. Basta viver no nada. E nesse nada está a fome. Nesse nada, precisamos de comer para acabar com a fome. E é nesse nada que perdemos a vergonha de mexer no lixo. Nesse lixo, pode ficar a dignidade, mas pode estar comida para matar a fome.

Senti muita vergonha a primeira vez que tive de mexer num contentor de lixo, eventualmente com alguém a olhar. Mas a vergonha passa. Não só a de procurar comida no lixo, mas a de ter de fazer diariamente outras coisas para sobreviver. A vergonha passa, dando lugar à raiva. Raiva essa que diz à dignidade perdida que, a partir de então, vale tudo, pois já não há nada a perder.

E assim ia eu a descer a avenida, à procura de comida, esfomeado. Até nesse aspeto aquela noite estava a correr mal. Não conseguia encontrar nada. Estava quase a chegar ao local onde dormíamos. E a fome era imensa. Sentei-me, derrotado, na entrada de um prédio.

Questionei-me se o Zé teria deixado alguma coisa para comer na mala dele, junto ao colchão, mas era improvável… E também se já teria chegado ou, porventura, se voltaria. Tivéramos uma troca de palavras bastante desagradável, mas eu pensava que não era o suficiente para acabarmos com a nossa amizade. E incomodava-me o facto de estar sozinho. Não que tivesse medo, mas habituara-me à companhia dele.

Fora apenas uma discussão estúpida, devido ao cansaço óbvio da nossa condição. Troca de frustrações e partilha de palavras feias, como ouvi uma vez um outro sem-abrigo dizer em relação a uma discussão do mesmo género. Penso que se aplica bem às relações entre os sem-abrigo o ditado popular que diz que onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

Levantei-me e dirigi-me para o nosso sítio. O dia terminara e eu estava com a secreta esperança de que o Zé já lá estivesse e que tivesse comida. Eu já nada podia fazer. Nem sabia como iria adormecer com a fome que sentia. Fizéramos o “nosso canto” nas traseiras do edifício, por baixo de um taipal da construtora. Tínhamos a informação de que as obras não iriam começar tão cedo e ali estávamos relativamente bem, com os nossos pertences fora da vista da via pública. E eu já arranjara um colchão velho num ecoponto ali perto.

Quando ia a contornar o edifício, retirei o telemóvel do bolso, para ver as horas. Eram quase duas da manhã e, quando cheguei finalmente ao “canto”, fiquei pregado ao chão, estarrecido com o que encontrei. O Zé não estava lá e o local fora completamente revolvido, quase vandalizado. Todas as nossas roupas ou o que restava delas estavam espalhadas pelo chão. O pequeno armário que tínhamos estava partido, com os utensílios de cozinha também dispersos, e os colchões estavam fora do sítio.

Fiquei a olhar para aquele cenário, sem saber o que pensar e, nesse momento, ouvi uma voz atrás de mim, dizendo calmamente “boa noite”. Virei-me rapidamente e vi um homem a encaminhar-se para mim, sem perceber de onde ele viera. Não estava malvestido nem era certamente um sem-abrigo, mas, pela forma como ele disse “boa noite”, apercebi-me logo do perigo. O local estava deserto. Ele continuou: “Posso ver uma coisa no teu telemóvel?”

Não respondi, pois depressa percebi que iria ser agredido. Sem ter tempo para fazer o que quer que fosse, ele deu-me uma forte cabeçada. Caí de costas, magoando os cotovelos no cimento ao amparar instintivamente a queda. Fiquei tonto, incapaz de reagir. Quando tentei levantar-me, ele pôs um dos pés em cima do meu peito, mantendo-me brutalmente pregado ao chão. Fitou-me e disse: “Pianinho, ó cota. Dá cá o telemóvel e o dinheiro.” Não me mexi.

A cabeçada fora violenta, eu caíra mal e ele mantinha todo o seu peso sobre mim, com o pé no meu peito, magoando-me. O homem não teria mais de trinta anos e era enorme. Mas, num acesso de raiva, agarrei-lhe a perna com as duas mãos para tentar fazê-lo cair. Ele depressa se livrou da minha investida, afastando-se com ligeireza. Virei-me rapidamente de barriga para baixo, para me levantar. E ao tentar fazê-lo, levei um pontapé no estômago e outro no peito.

Fiquei no chão, derrotado, paralisado com dores. Disse-lhe amargamente e com as lágrimas nos olhos: “Não tenho dinheiro, leva a merda do telemóvel e deixa-me em paz.”

Ele baixou-se rapidamente e tirou-me o telemóvel do bolso. De seguida, não sei de onde, sacou de uma faca e apontou-ma ao rosto. Repeti que não tinha dinheiro e ele começou a revistar-me minuciosamente. Remexeu-me na carteira e nos bolsos, encontrando as poucas moedas que eu tinha. Olhou para elas com desdém, atirou-as para cima de mim e afastou-se dizendo de novo “boa noite”.

Não consegui deixar de reagir e dei por mim a dizer-lhe para ele ganhar vergonha na cara, pois eu tinha idade para ser pai dele. Ele olhou-me e disse com a mesma calma: “Tens idade pra ser meu pai, mas não és.” E foi-se embora.

Fiquei imóvel no chão de cimento. A olhar para o céu. Tinha o corpo dorido e ainda estava tonto. Mas a maior dor era cá dentro. Senti-me só. Perdido. Lembro-me de que permaneci ali estendido, fitando o céu e questionando-me se Deus estaria lá a olhar para mim. Não sabia. Queria chorar, mas não conseguia. Senti que estava morto. Não fisicamente.

Sentia uma coisa inexplicável que estaria algures morta dentro de mim. Fiquei assim, no chão. Não sei precisar durante quanto tempo, talvez uma hora. Mas finalmente algo aconteceu. Porque comecei a chorar. Consegui chorar. E levantei-me do chão, a pensar: “Amanhã é outro dia.”

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