Diário de um sem-abrigo

Jorge Costa · Capítulo 4 de 19

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Diário de um sem-abrigo

Introdução Catarina Reis, jornalista da Mensagem de Lisboa

INTRODUÇÃO

 

Catarina Reis

jornalista da Mensagem de Lisboa

 

À primeira vista, Jorge Costa era simplesmente um homem. Quase sempre de barba farta, quase sempre de calças de ganga, uma t-shirt com evocação a um artista de música ou a um filme de Quentin Tarantino, cabelo tantas vezes comprido. Um homem. O que distinguia Jorge não se via: ele tinha algo para contar que a maioria dos mortais não tem.

Jorge estava a sair de um período de oito meses como sem-abrigo. Foi isso que fez com que nos cruzássemos naquela manhã fria de janeiro de 2021.

O momento em que Jorge Costa, então com 54 anos, se sentiu confortável para finalmente partilhar essa história com todos coincide com o nascimento de um jornal local e comunitário na cidade que o viu nascer e crescer: a Mensagem de Lisboa. E a Mensagem chegava à cidade com a ideia de mostrar e ouvir a voz dos muitos que passam despercebidos. Ou mesmo passar a caneta para as mãos de quem tinha vivido uma experiência pessoal e muito pouco transmissível.

Jorge Costa fundou, assim, o Diário de um sem-abrigo, crónicas escritas na primeira pessoa por quem teve o céu de Lisboa como teto. 

“Há aqui um homem que escreve umas coisas e acho que escreve muito bem.” Foi assim que o nome de Jorge Costa nos chegou pela primeira vez ao ouvido. Pela voz de Teresa Bispo, na altura coordenadora do NPISA – Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo de Lisboa. Foi ela quem respondeu ao nosso repto de encontrar um cronista para este Diário.

Ela, uma das pessoas que melhor tinha rece-bido Jorge quando ele chegou ao centro de abrigo temporário do Casal Vistoso, na freguesia do Areeiro, em meados de 2020. Jorge vinha da rua, roupa suja, poucos banhos nos últimos meses e, no olhar, a estranheza de quem não sabe como pertencer a este mundo – quanto mais a um onde havia agora uma pandemia e ele não tinha casa para se abrigar.

Teresa Bispo apresentou-o como “homem” e nunca “sem-abrigo”. E Jorge agradecia a todos os que o olhavam além da condição em que vivera durante menos de um ano da vida dele. Não raras vezes, ele contava sobre o momento em que, à saída do Centro Comercial das Olaias, por onde andava a pedir dinheiro, um homem lhe tocara no ombro para dar um recado. “Desculpe, senhor. Deixou cair essa nota no chão.” Cinco euros. Não era de Jorge, ambos sabiam. “Foi a vez em que me trataram com maior dignidade na rua”, assim contava a quem queria ouvi-lo.

Ouvi esta história pela primeira vez em janeiro de 2021, na Gare do Oriente. Tínhamos um primeiro encontro marcado na estação, ao final da manhã. Só lhe sabia o primeiro e último nome – Jorge Costa –, sabia que a vida o tinha posto na rua durante oito meses e sabia ainda que gostava de escrever.

Esperei por um qualquer aceno de mão, en-costada a um pilar do segundo piso da Gare. Por mensagens, Jorge ia alertando a quantos minutos estava de chegar. Ele vinha de metro, por isso, passei o tempo de olhos no movimento que subia das escadas rolantes do piso subterrâneo de uma gare em alvoroço, num dia de semana. De repente, um passo mais leve do que os outros, lento e desorientado. Eu ainda não adivinhava que era o Jorge. O dono deste passo saiu das escadas rolantes, deu mais uns cinco passos em frente, olhou à volta e caiu sobre o seu próprio corpo, ficando de joelhos.

Vergado sobre as pernas, cotovelos nos joelhos e mãos na cabeça, percebi que aquele homem cho-rava. Corri, já a adivinhar quem seria. Poderia estar enganada, é certo, mas corri e perguntei-lhe. “Desculpe. É que eu não vinha aqui desde o dia em que deixei de dormir nesta estação”, disse-me. Era ele.

Logo nesse dia, percebi que Jorge era especial. Aceitou o desafio de escrever para a Mensagem de Lisboa. Ia passar a ser cronista e receber finalmente um ordenado, como colaborador. Um primeiro texto e soubemos logo que tinha de ser ele.

Jorge escreveu 14 crónicas sobre esta saga de oito meses passados na rua, a selva que pode ser Lisboa para os sem-abrigo, as amizades que se travam e os amigos que roubam para sobreviver. E, finalmente, a chegada a um quarto com teto. “Ser um sem-abrigo. O que é? As pessoas não conseguem imaginar o que é, incluindo eu, antes de ter sido um.” Assim começou por escrever a odisseia.

O primeiro dia, Jorge recordou-o na primeira crónica que podem ver neste livro: eram oito da manhã quando ele chegou à Gare do Oriente, tornado sem-abrigo pouco mais de uma hora antes, depois de perder a casa por falta de pagamento. O verão tinha chegado a Lisboa, era uma manhã quente de julho, em 2019. No bolso, levava algumas moedas, dois ou três cigarros e um telemóvel sem saldo para telefonar. Gastou os últimos trocos numa garrafa de água e num café. E os trocos seguintes só os ganhou porque, nesse dia, encontrou logo Zé, um homem mais ou menos da idade dele, vestido com “calças de ganga velhas e usadas” e uma “t-shirt suada”, “cabelo sujo e barba grande e desgrenhada”.

Nesse dia, vergou-se também, como no dia em que o conheci. Mas daquela vez foi para chorar sentado sobre o tampo de uma sanita da casa de banho da estação. Um choro como nenhum outro, lembrava Jorge. Na mesma casa de banho onde, viria ele a descobrir, havia prostituição organizada, o lugar onde homens com posses trocavam dinheiro por sexo com quem não tinha um tostão. “Estive perto de aceitar fazer aquilo”, disse-me e foi a segunda vez que o vi chorar.

Aquele era um mundo estranho para um an-tigo técnico administrativo.

O dia terminou num banco de jardim do Parque das Nações. Um banco que agora era uma cama, com ripas que lhe feriam as costas, mas que, perante o resto da cidade, até parecia um colchão. Havia bancos e chãos de Lisboa melhores do que outros, aprendeu. Muito se aprende quando a rua é casa e talvez fôssemos totalmente alheios a esses ensinamentos, até Jorge começar a escrever.

A odisseia que ele nos contou começou a terminar quando a pandemia de Covid-19 rompeu e a Câmara Municipal de Lisboa abriu centros de abrigo temporários para as pessoas em situação de sem-abrigo. Foi nas ruas, então vazias, que Jorge ouviu falar de “um tal de pavilhão Casal Vistoso”, um desses centros de abrigo. Bateu àquela porta, sem imaginar que daquele pavilhão já só sairia com uma casa, ao abrigo do programa “Housing First”[Casa Primeiro].

Primeiro, uma casa em Alfama, “com baloiço e tudo”, gostava de dizer. Um bairro que aproveitou mais de noite do que de dia, depois de decidir criar uma página de Instagram para publicar fotografias com os recantos iluminados pelas lanternas das mais estreitas ruas de Alfama. E, afinal, há muito que Jorge tinha perdido o medo da noite.

Não muito depois, mudou-se para uma casa na Baixa. Após meses na rua, a comer o que lhe davam, Jorge, que era mais de peixe, teve uma das maiores alegrias ao voltar a cozinhar. Ele, que se dizia bom cozinheiro, mas nada tradicional: o bacalhau do Natal era feito na frigideira. E diz quem lhe foi próximo que a especialidade era arroz de cabidela.

Com a casa, ganhou também um sítio para ouvir a música de que tanto gostava – quantas vezes The Rolling Stones não hão de ter ecoado por aquelas paredes? Mas era também uma casa onde já não havia espaço para a coleção de argumentos de todos os filmes de Quentin Tarantino que Jorge dizia ter guardado ao longo da vida.

Uma casa com máquina de lavar, que Jorge pôs ao serviço dos que com ele tinham partilhado destinos anteriores, mais tristes: ofereceu-se para lavar roupa de outros ainda em situação de sem-abrigo. Jorge contava esta história e deixava sempre no ar esta sensação de que estávamos a assistir à melhor versão dele em todos estes anos de vida. “Sou outra pessoa”, dizia; mesmo mais sozinho, mesmo tendo passado por tanto.

Enquanto escrevia as crónicas, Jorge caminhou mais do que nunca. Regressou aos sítios onde dormiu e por onde passou como sem-abrigo. Assim, lembrar-se-ia melhor dos detalhes, acreditava.

Desde que tinha ido morar para a Baixa lisboeta, os passeios tinham quase sempre paragem “no café da dona Lina”, onde Jorge comprou as rabanadas para o último Natal. O cancro da pele que se tinha desenvolvido durante o tempo na rua e os maus-tratos com a pele davam cada vez mais sinais de preocupação. 

Jorge Costa morreu a 20 de abril de 2022, com 55 anos. Provavelmente, teria morrido anónimo, como tantos outros, como o amigo Zé. Mas as suas crónicas levaram-no ao conhecimento de tantos e tantos. O seu talento conquistou os leitores que o acarinharam, ainda que à distância, neste último ano da sua vida.

Este livro estava já no prelo, mas, em vez deste texto, tínhamos planeado uma entrevista com ele, onde Jorge falaria sobre as tantas perguntas que ficaram por fazer e responder.

Sobre a vida que o levou até à rua sabíamos ainda muito pouco. Há cerca de quatro anos, Jorge teve os primeiros relâmpagos da tempestade em que se tornariam os dias dele. No dia em que a empresa em que trabalhava como técnico administrativo, na área da Contabilidade, declarou insolvência. Jorge Costa e outros funcionários terão ido para o desemprego, sem indemnização. 

Dali, saltou para operador de uma gasolineira e para a construção civil. Em ambas foi trocado por mais jovens, que a idade já pesava para determinados trabalhos. Jorge lembrava sempre como era velho de mais para o mercado de trabalho, mas demasiado novo também para a reforma. 

Foi apenas um pequeno passo até perceber que o dinheiro que tinha no bolso só lhe chegava para se alimentar durante os 15 dias seguintes. Falhou a renda, ficou sem teto. Pais, já não tinha; família, só afastada. Escondeu a condição de alguns amigos e os outros, a quem terá pedido abrigo, terão revelado não ter condições para o suportar.

Alguns pormenores ficaram por esclarecer, porque Jorge não falava deles. Qual o peso da toxicodependência na vida? Jorge dizia sempre que não tinha sido por isso que acabara sem-abrigo. Essa fase já lá ia, muito longe, muito anterior. Desde há uns anos, segundo os amigos, compensava essa vida antiga com tabaco e café.

Amigos, ganhou-os outra vez quando chegou e saiu da rua. Como uma das leitoras da Mensagem de Lisboa, que um dia escreveu ao cronista Jorge a perguntar como redigia as crónicas – na altura, no pequeno ecrã do telemóvel – e assim lhe fez chegar um computador fixo a casa. Ele ficou eufórico.

Jorge ganhara este poder de tocar tudo e todos. Por causa dele, todos nós passámos a olhar de maneira diferente aqueles que não têm um teto e com quem nos cruzamos nos caminhos na cidade. Depois da publicação da primeira crónica, vários leitores encheram as caixas de e-mail e de comentários da Mensagem. Muitos falavam e escreviam de lágrimas nos olhos, como nós, depois do confronto com esta realidade que era, até então, só paisagem na cidade onde vivíamos. Tantos outros arregaçaram mangas, tornaram-se voluntários em Lisboa e até lhe fizeram chegar cabazes.

A vida dele mudava de dia para dia. “Nem me acredito nisto”, desabafava. Chegavam os convites para contar a história na televisão e, numa manhã na nossa redação, encontrou-se com Nuno Markl, radialista e comediante, que se confessara leitor e admirador da escrita dele. Sentados um ao lado do outro, debatiam guiões de obras com cunho de Markl, como Jorge não perdia um episódio d’O Homem que Mordeu o Cão e como a música os unia, afinal.

Naquele dia, Nuno seguiu caminho para o trabalho e Jorge foi almoçar connosco, num almoço em que esteve alheio a tudo o que lhe caía na mesa – nos olhos dele, víamos apenas o espanto que estava a sentir por se ter encontrado com um dos homens que mais admirava. “Nem me acredito nisto”, repetia. Um encontro que também não foi indiferente a Nuno Markl, que lhe propôs a concretização de um filme com base nas crónicas que Jorge escreveu.

Seguiram-se trocas de e-mails e uma amizade por WhatsApp. 

Jorge não era propriamente fatalista com a doença, mas nunca foi otimista também – sempre disse que não iria viver muito. “Mas, enquanto viver, vou escrever. Até acho que escrevo bem”, dizia, com um sorriso irónico.

E escrevia. Foi por isso, porque o que fazia era de uma enorme qualidade e profissionalismo, que marcou tanta gente. Na Lisboa que o adormeceu do início ao fim da vida, cravou a vontade de fazer-nos olhar mais e melhor para todos os que, como ele, tiveram o céu de uma cidade como teto. É isso que faremos. Até já, Jorge.

 

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