Diário de um sem-abrigo

Jorge Costa · Capítulo 15 de 19

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Diário de um sem-abrigo

Quando o barbeiro, o Sr. António, me devolveu a esperança com empatia e um corte de cabelo.

QUANDO O BARBEIRO, O

SR. ANTÓNIO, ME DEVOLVEU A

ESPERANÇA COM EMPATIA E UM

CORTE DE CABELO.

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E stava com um aspeto que metia nojo. Eram estas as palavras que me vinham à cabeça, enquanto olhava para o espelho de uma montra exterior de um pronto a vestir na Rua da Palma.

Tomara banho nos bombeiros dois ou três dias antes e a roupa que vestia ainda não estava muito suja nem cheirava muito mal, mas estava já muito velha. Tinha o polo muito coçado, cheio de borbotos e o blusão já rasgado em vários sítios. Os jeans estavam desbotados, puídos e rotos entre as pernas. Os ténis estavam sujíssimos e com a sola gasta, e a mochila que trazia às costas já tivera melhores dias.

Já não conseguia pentear-me, pois o cabelo estava enorme e a barba, de tão comprida, começava a encaracolar. Sentia também o desconforto de não usar roupa interior, pois já não tinha. Nos últimos dias, não ganhara o dinheiro que costumava ganhar a arrumar carros. Ter boa aparência é muito importante para arrumar carros. Quando se tem mau aspeto, as moedas ficam nos bolsos da maioria dos condutores.

Além disso, pairava agora no ar uma ameaça, um tal de coronavírus, que eu ainda não percebera bem o que era. Até à data, não conhecia ninguém que tivesse contraído esse vírus. Eu não tinha acesso a notícias, nem sequer a um telemóvel com internet. O que sabia era pelas primeiras páginas dos jornais expostos nos quiosques e pelas conversas que se ouviam nas ruas. Mas o resultado era a maioria das pessoas estarem em casa, de quarentena, o que era um problema para mim.

As ruas estavam vazias e os carros já arrumados. Estava a ser muito difícil ganhar algumas moedas. E já ouvira dizer que o governo estava para declarar um estado de emergência, fechando totalmente o comércio.

Estava, então, a olhar para a minha imagem e imerso nos meus pensamentos quando, de súbito, surge por detrás do espelho da loja uma funcionária, dirigindo-se à montra para mudar um letreiro ou algo parecido. Os nossos olhares cruzaram-se. Ela mirou-me de alto a baixo e fixou de novo os seus olhos nos meus com aquele olhar que me incomodava.

Aquele olhar com aquela expressão que me fazia sentir miserável. E era quando chegava à conclusão de que não era uma questão de sentir. Eu era um miserável.

Penso que uma pessoa só se sente miserável quando não está na miséria. Porque, quando está na miséria, é simplesmente miserável. Facto. E aquele tipo de olhar diz tudo. Baixei os olhos, não com vergonha, mas para esconder a minha raiva. E afastei-me, seguindo o meu caminho, sem saber qual seria.

Precisava urgentemente de cortar o cabelo e aparar a barba. A última vez que entrara num barbeiro fora cerca de um ano antes. Mas como? Não tinha dinheiro. Nos barbeiros mais baratos de bairro, o corte de cabelo custava à volta de cinco euros e a barba mais dois ou três… E mesmo que tivesse dinheiro, o maior problema era o meu aspeto.

Eu já começava a ter muitos problemas para entrar em qualquer estabelecimento comercial. Dias antes, já me haviam recusado o atendimento numa pastelaria. Não sabia o que fazer. Fui subindo lentamente a Avenida Almirante Reis e, a dada altura, sentei-me a descansar nos degraus do velhinho Chafariz das Águas Livres, em frente ao Largo do Intendente.

Por vezes, questionava-me quantos quilómetros andaria eu diariamente. Estava cansado e ainda não caíra a noite.

Lembro-me de que, nesse dia, deitei para o lixo o almoço que me fornecera um carro de apoio no Largo de São Domingos. O esparguete estava azedo. Ainda tentei descolar a carne picada da massa, mas sem sucesso. Já comera alguma comida azeda, pois a fome não tem paladar, mas, naquele dia, aquela refeição era intragável. A fome já se misturava com o meu sentimento de frustração. Sentia um buraco no estômago semelhante ao que tinha na alma.

Descalcei-me. Olhei para os meus pés, pois não tinha meias. Nos últimos meses, sempre que olhava para eles, lembrava-me de uma namorada que tivera no passado, a Eduarda. Ela dizia-me que eu tinha os pés bonitos. Havias de os ver agora, Eduarda. Não dirias isso de certeza. Inchados, com as unhas mal cortadas e sempre à pressa, com um pequeno corta-unhas de lâminas já cegas que tinha na mochila. Cheios de marcas e arranhões, calos e com pequenas gretas nos calcanhares….

Tinha no calcanhar direito um sinal muito feio, parecido com uma verruga, que me doía e por vezes sangrava. Tinha muito mau aspeto. Uma mulher que passou por mim olhou-me de soslaio. Calcei-me novamente.

A Avenida Almirante Reis estava irreconhecível. Era dia de semana, mas nem num domingo qualquer eu me lembrava de ver as ruas tão vazias, tão isentas de gente. Mas, naquele momento, a minha preocupação era o cabelo e a barba.

Pedi um cigarro a um homem que acabara de sair da tabacaria em frente, abrindo o maço de tabaco. Ele negou, dizendo-me: “Isto ‘tá difícil… ‘tá difícil…” Fiquei a olhá-lo a afastar-se e pensei: “‘Tá? não me digas…”

Nos últimos tempos, dava por mim sendo genuinamente irónico comigo próprio, apesar da dor. Lembrei-me do Zé. Era isto que ele era diariamente e eu estava a ficar igual. Esta ironia funcionava como escape. Sentia falta do Zé. Sentia falta da vida. Sentia falta de mim próprio. Sentia falta de tudo.

Levantei-me e vi um homem caminhando no passeio, a guardar trocos na carteira. O meu refrão já era automático: “Pode dar-me uma ajuda, por favor?” Sem parar de andar, zangado e afastando-se de mim como se eu tivesse peste, ele retorquiu: “Há uma pandemia e você anda a pedir moedas às pessoas?” “Tem razão, desculpe”, respondi alto, para ele ouvir. E pensei para comigo: “Peço desculpa por respirar.” Ele olhou para trás e gritou: “Arranje uma máscara!”

Uma máscara? Ah, sim, algumas pessoas andavam agora de máscara nas ruas.

Já ouvira de um outro sem-abrigo em Santa Apolónia que o carro do NPISA fornecia máscaras aos sem-abrigo. Tinha de arranjar uma. Mas a minha preocupação continuava a ser o meu aspeto. A barba, o cabelo, a roupa…

Continuei a subir a avenida, passando os Anjos e aproximando-me da Praça do Chile, começando a recordar os bons momentos que passara naquela zona anos atrás, quando vivia na Penha de França. E, de repente, lembrei-me do Sr. António. O Sr. António fora o meu barbeiro durante os últimos dois, três anos em que vivera na Penha. Tinha a sua barbearia numa transversal à Rua Morais Soares. Ainda lá estaria?

Pensei que, noutro contexto e com outra apresentação, poderia com certeza pedir-lhe um corte de cabelo fiado. Mas pensei logo de seguida que aquele era o meu contexto e aquela era a minha apresentação.

Lembrei-me do Zé. E lembrei-me das suas palavras uma vez: “Jorge, para andares aqui, tens de perder as peneiras.” Já as perdi, Zé. Já perdi as peneiras há que tempos. Perderam-se de mãos dadas com a minha realidade.

Faltavam sensivelmente trinta minutos para as 19h00 quando, timidamente, cheguei perto da barbearia. Fiquei a observar do outro lado da rua. A barbearia estava vazia, mas vislumbrei o Sr. António sentado a ler o jornal, como era costume quando não tinha clientes. Aposto que estava a ler A Bola! Não consegui deixar de sorrir.

O Sr. António era um fervoroso sportinguista. E eu, como bom benfiquista que sou, “fazia-lhe a vida num inferno” enquanto estava sentado na cadeira a cortar o cabelo. Ganhei coragem e atravessei a rua. Aproximei-me lentamente da montra. Não fui capaz de entrar. Ele levantou os olhos do jornal, que era efetivamente A Bola, e fitou-me com um ar inquiridor. Vi na cara dele que não me reconhecia, mas, alguns segundos depois, o seu olhar mudou. Vi que ele me reconhecera, mas ficou sentado com a mesma expressão até voltar a concentrar-se no jornal. Fiquei a fitá-lo, paralisado, sem reação.

Senti novamente vergonha como já não sentia há muito tempo e afastei-me, caminhando em direção à Rua Morais Soares.

Estava quase a chegar à esquina, quando ouvi a voz do Sr. António, gritando de longe: “Sr. Jorge?” Olhei para trás e vi-o à porta da barbearia, a fitar-me com o ar simpático e brejeiro que lhe era característico. Caminhei de novo para a barbearia e, quando cheguei junto dele, dei por mim a cumprimentá-lo da mesma forma que sempre cumprimentara. Como se o tempo não tivesse passado e nada denunciasse a minha realidade.

Eu diria que ele estava chocado a olhar para mim, até que me perguntou com um tom de voz muito baixo que não lhe conhecia: “O que lhe aconteceu?” Encarei-o e respondi secamente: “Falta de sorte.” Não me ocorreu mais nada para responder. A nossa relação, como qualquer cliente tem com o seu barbeiro, não era pessoal. Não sabíamos nada da vida um do outro.

Ele recompôs-se e perguntou com o seu tom de voz habitual: “E deseja alguma coisa, Sr. Jorge?” Eu disse que sim. “Sr. António, estou sem dinheiro. Pode cortar-me o cabelo e aparar-me a barba que eu pago-lhe quando puder?” Ele mandou-me entrar de imediato e fechou a porta no trinco, encerrando o estabelecimento e apagando a luz da montra. Com o seu jeito profissional, indicou-me a cadeira, dizendo: “Com esta pandemia, a clientela não é muita. O Sr. Jorge vai ser a minha última tosquia de hoje.”

Tirei a mochila das costas, despi o blusão velho e rasgado, e pendurei-o no cabide onde anos antes pendurava os meus bons blusões e casacos. A barbearia estava praticamente igual. Sentei-me e disse, sem o encarar: “Esteja descansado, Sr. António. Eu não cheiro mal.”

Ele olhou para mim pelo espelho e disse, divertido: “Oh, e o Sr. Jorge pensa que seria o primeiro? Olhe, o marido da Belinha esteve ontem aqui sentado e cheirava a mijo que tresandava!” Rimo-nos ambos à gargalhada. Eu lembrava-me do marido da Belinha.

Como habitualmente, colocou-me, solícito, a capa e a gola de barbeiro e, pelo espelho, inquiriu: “O costume, Sr. Jorge?” Quis saber se ele ainda se lembrava. Ele comentou, gracejando, que os barbeiros têm memória de elefante, mas que desta vez teria de se aplicar mais, pois nunca me vira com semelhante “guedelha”. Olhou para mim com um olhar clínico e perguntou: “A barba é para cortar ou para fazer crochet?” Rimo-nos de novo.

Durante os trinta minutos que se seguiram, o tempo pareceu voltar atrás. Enquanto me cortava o cabelo, tivemos as nossas habituais conversas: a sempre inevitável “guerra” entre lagarto e lampião, o costumeiro “corte na casaca” nos políticos que nos governam, os últimos mexericos sobre a vizinhança, a “boazona” do segundo andar que cada vez estava mais “boazona” e, claro está, a Covid-19.

Como é normal quando se corta o cabelo, eu de vez em quando fechava os olhos e, quando os abria, via que ele estava incomodado e apreensivo, mas sem querer mostrá-lo. Por isso continuava a conversar comigo como se eu tivesse estado ali a cortar o cabelo no mês anterior. E eu conversava com ele. Terminara o corte de cabelo e, rodeando-me com o pequeno espelho na mão, fez a pergunta final: “Está bom assim, Sr. Jorge?” Eu disse que estava cinco estrelas e ele passou à barba.

Eu olhava para o espelho e aquele momento estava a ser mágico. A minha roupa estava coberta com a capa de barbeiro e, vendo o reflexo do meu rosto, via surgir de novo o Jorge!

Cabelo bem cortado, bem penteado e a barba a ser aparada como eu gostava, à segunda lâmina da máquina. Acabou, enfim. Depois de me retirar a gola e a capa, não se esqueceu de me escovar os cabelos da roupa, como é habitual. E vi nos seus olhos um enorme desconforto ao observar a minha roupa.

Levantei-me, vesti o blusão e pus a mochila às costas. Dirigi-me ao Sr. António, agradecendo e dizendo que lhe pagaria assim que tivesse dinheiro. Ele ficou uns segundos a fitar-me e perguntou-me se eu precisava de mais alguma coisa. Fiquei sem saber o que responder. Mas ele adiantou-se à minha resposta, perdendo a postura profissional que tivera até então.

“Claro que precisa! Precisa de roupa, caralho!” Fiquei calado, até porque a resposta seria óbvia. Apenas assenti com a cabeça. “Venha comigo, Sr. Jorge”, disse ele, rapidamente.

Caros leitores, a crónica já vai longa. E a direção do jornal pediu-me para escrever crónicas, e não um livro, e é meu desejo que o que escrevo seja lido sem aborrecer ninguém. Por isso, dou aqui um pequeno “salto” para finalizar a crónica deste mês e poupar-vos a pormenores.

Nessa noite, por volta das 21h00, este vosso narrador descia a Avenida Almirante Reis, decentemente vestido, em direção a um vão de escada na Rua da Madalena, que descobrira para passar a noite. A roupa já era usada, mas digna de ser vestida. Roupa oferecida pela irmã do Sr. António. Roupa pertencente ao seu sobrinho que, ao que parecia, já não a vestia porque estaria mais gordo. Mas que bem que eu me sentia a descer a avenida!

Cabelo cortado, penteado e barba aparada. Um quentinho e agradável moletom com capuz, um par de jeans justinhos e confortáveis. Um casaco castanho já usado também, mas decente! Calçara meias, vestira uns boxers e tinha na mochila mais dois ou três pares de cada junto com um outro moletom, duas t-shirts, uma camisa de flanela e alguma comida que me tinham dado! Tinha até uns Sketchers calçados, confortáveis e bonitos.

Nunca mais vi o Sr. António. Até porque ele me disse nessa noite que iria deixar a barbearia, porque também tinha os seus problemas e que estava a ajudar-me apenas no que podia. Há pouco tempo, fui a casa da irmã, a D. Celeste, onde me vesti e me calcei nessa noite com o que me ofereceram, mas ela já não residia lá. O Sr. António avisara-me dessa mudança.

Quero apenas terminar esta crónica dizendo que, nessa noite, readquiri a esperança. Nessa noite, voltei a acreditar na vida e no meu semelhante.

É tão fácil sentir empatia, não acham? Não estou a dizer com isto que eu, como indivíduo, mereça a empatia ou a generosidade de alguém. O que estou a dizer é em nome de todos os sem-abrigo. Aqueles que já foram e já não são, aqueles que ainda o são e ainda sofrem nas ruas e aqueles que eventualmente ainda cairão neste flagelo que ninguém merece, esperando eu que a nossa sociedade ponha um ponto final nesta condição de viver sem um teto. É essa a empatia de que falo. Empatia social.

Essa empatia significa não permitirmos que um outro ser humano viva onde nós não conseguimos viver. Não permitirmos que um outro ser humano sobreviva de uma forma indigna que nós não toleramos na nossa vida. Seja quem for. Pode até ser um criminoso, porque até as prisões reúnem condições que os sem-abrigo não têm nas ruas.

Quanto ao meu barbeiro, o Sr. António…

Quem sabe se ele não vai ler esta crónica aqui em a Mensagem de Lisboa, esteja onde estiver? Sr. António, muito obrigado pela sua empatia e generosidade. Muito obrigado por me receber na sua casa no estado em que me encontrou, sem beliscar a minha dignidade como homem. Muito obrigado por me acolher como um ser humano, num mundo onde me tratavam como um cão! Muito obrigado por, nessa noite, me devolver a esperança e a fé no ser humano.

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