Diário de um sem-abrigo
Moções da Câmara Municipal de Lisboa
MOÇÕES DA CÂMARA MUNICIPAL
DE LISBOA
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Voto de pesar pela morte de Jorge Costa, Da Câmara Municipal
de Lisboa
Morreu Jorge Costa.
Cronista.
55 anos de idade.
Dedicou os últimos meses da sua vida a escrever sobre a sua cidade, onde sempre viveu, mas vista por outros olhos.
Os olhos de quem tem a rua como casa.
Foi a voz de quem a não tem e tornou visíveis as centenas de cidadãos e munícipes invisíveis aos olhares dos milhares de pessoas que circulam ao seu redor, sem neles reparar.
Jorge Costa deu-nos a conhecer o rosto dessa invisibilidade. Os homens e mulheres que têm nome. Que são o João ou o António, a Teresa ou a Madalena e não “os sem-abrigo”, como nenhum de nós é um T3 ou um T4…
O Jorge Costa ensinou-nos que viver na rua não nos tolhe a vontade e a capacidade de sonhar, mesmo quando se dorme encharcado e com frio, com medo e receio das adversidades e do ambiente por vezes hostil.
E mesmo quando a fome aperta e as carrinhas não chegam, ou o cheiro, por não tomar banho porque não tem onde o fazer, incomoda por demais, o sonho permanece lá e a esperança está sempre viva. Mais viva do que nunca.
Morreu um homem que um dia escreveu o que sentiu porque experienciou a realidade de estar em situação de sem-abrigo.
“Porque a única coisa que tinha, quando tinha algum tempo, era apenas sonhar. E o meu sonho era muito simples, muito pobre e muito básico. A forma como eu vivia é que me limitava a sonhar assim. Eu sonhava só ser um ser humano de novo e ser tratado como tal.”
A Câmara Municipal de Lisboa presta homenagem ao cronista Jorge Costa, manifestando profundo pesar pelo seu falecimento e chamando a si o compromisso de que a todos os homens e mulheres da nossa cidade seja reconhecida a capacidade de sonhar e todos sejam tratados como seres humanos em toda a sua plenitude.
Obrigado, Jorge.
Lisboa, 22 de abril de 2022
A Vereadora
Laurinda Alves
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Saudação às crónicas de Jorge Costa no jornal A Mensagem de
Lisboa
Faleceu no dia 20 de abril Jorge Costa, contabilista, cronista no jornal a Mensagem de Lisboa e um observador da cidade e dos seus silêncios.
No passado dia 22 de abril, a Câmara Municipal aprovou um voto de pesar pelo seu falecimento, numa homenagem de Lisboa a este seu cidadão. Importa da mesma forma homenagear Jorge Costa pelas suas crónicas.
No último ano da sua vida, e através da escrita, constituiu-se como um valioso e pertinente intérprete, entre nós e as pessoas que, por qualquer vicissitude da vida, se encontram em situação de sem-abrigo. Sabia, porque se lembrava, como cada um de nós reage, como pensa, como finge não ver, como está tão longe de fazer a mais pequena ideia do que é estar nessa situação. Também sabia, porque o viveu, o que é a luta pela sobrevivência na rua, a vergonha que é preciso perder para pedir…, como trespassam todos os olhares de desprezo ou as falsas morais de quem tem uma boa cama à espera.
Jorge Costa sabia, igualmente, quanto carinho se encontra nesta esquina, naquela noite fria ou num jardim que jamais será o mesmo do convívio antigo. Jorge Costa sabia o que custava perder a dignidade e teve a coragem de trazer para o domínio público essa experiência, o ser e o estar na primeira pessoa, em que qualquer protagonismo é sempre doloroso.
Abandonou-nos antes de tempo, de um tempo que se desejava mais longo, logo agora que tinha voltado a nascer há cerca de 2 anos. Data muito próxima da real data de aniversário, neste mês que vai entrar.
A mudança de ciclo de Jorge Costa que ele tanto procurava aconteceu em contexto de pandemia, num programa que deu resposta a muitas pessoas, no Pavilhão do Casal Vistoso, sob um plano municipal aprovado também por esta Câmara.
Jorge Costa mantinha a coragem todos os dias, lutando sempre pela sua dignidade mesmo quando dela prescindia. Amava Lisboa e captava a luz noturna, o silêncio nas noites em que novas paredes o apertavam, caminhando pelas ruas da cidade antiga e redescobrindo o prazer de se distrair. De não ter de estar sempre vigilante.
Travou amizades e escreveu-as.
A Câmara Municipal de Lisboa presta pública homenagem às crónicas de Jorge Costa, histórias pessoais, de um corajoso contador das experiências. Que a partilha que fez nas muitas crónicas que escreveu em Diário de um sem-abrigo no jornal a Mensagem de Lisboa sejam para Lisboa, para cada um e cada uma de nós, um contributo que limpe o preconceito da nossa qualidade de ser solidário, para seremos maiores na cidadania.
Assim, perante o exposto e ao abrigo do disposto no artigo 8.º, do Regimento, temos a honra de propor que a Câmara Municipal de Lisboa delibere:
1. Saudar as crónicas Diário de um sem-abrigo de Jorge Costa no jornal a Mensagem de Lisboa.
2. Editar as crónicas Diário de um sem-abrigo de Jorge Costa em papel para que fiquem como memória das pessoas esquecidas da cidade.
Lisboa, 11 de maio de 2022.
A Vereadora
Beatriz Gomes Dias
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Jorge Costa