Diário de um sem-abrigo
Ser sem-abrigo é viver sem tudo o que sempre demos como adquirido.
SER SEM-ABRIGO É VIVER SEM
TUDO O QUE SEMPRE DEMOS COMO
ADQUIRIDO.
OceanofPDF.com
S er um sem-abrigo. O que é? As pessoas não conseguem imaginar, incluindo eu antes de ter sido um. E escrevo desta forma e refiro-me a mim próprio como “um”, porque, para a sociedade, não passamos de um número.
Ser um sem-abrigo não significa apenas não ter um teto para dormir. Significa termos de viver na rua, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, sem tudo aquilo que durante toda a nossa vida sempre tivemos ao nosso dispor como um dado adquirido. E sem as coisas simples e banais que todas as pessoas possuem.
Imaginem o que é viver constantemente na rua, sem um sítio nosso para nos sentarmos a descansar um pouco, sem uma casa de banho para nos lavarmos e fazer as nossas necessidades mais básicas, e sem acesso pessoal a energia elétrica, sem sítio para arrumar a roupa, guardar a comida, sem nada.
Expostos a tudo e a todos, sem privacidade e com uma crescente falta de dignidade. A pergunta mais comum que se faz é: como se chega a esta condição? Como se perde o nosso trabalho, a nossa casa, os nossos amigos e como se vai parar à rua, a dormir debaixo de pontes, em bancos de jardim e nas entradas dos prédios?
É a essa pergunta que vou tentar responder no meu testemunho.
A essa e a muitas mais. Perguntas essas que para lhes responder é necessário passar pela experiência de ser um sem-abrigo. Como eu fui e espero não voltar a ser. Porque viver na rua é uma condição que não deveria ser permitida nem tolerada pela nossa sociedade nem por quem nos governa. Ser sem-abrigo é o nível de existência mais baixo a que o ser humano é obrigado a viver. Por isso vou partilhar a minha experiência nestas linhas. Vou partilhar a vivência e o sofrimento de não ter uma casa para morar. Vou partilhar como se vive e, sobretudo, como se sobrevive.
Existe sempre o primeiro dia como sem-abrigo. Mas este processo, chamemos-lhe assim, começa muito atrás. No meu caso, penso que aconteceu três anos antes da primeira noite em que tive de dormir num banco público no Parque das Nações, em Lisboa. Começou no dia em que a empresa onde eu trabalhava como técnico administrativo abriu falência. Todo o pessoal ficou desempregado, incluindo eu que já estava nos quadros da empresa.
Indemnização? Ainda hoje, eu e todos os que lá trabalhavam esperamos uma decisão judicial. Compensação laboral, ninguém a viu. Deram-nos apenas os impressos confortáveis para recebermos o subsídio de desemprego.
Percebo hoje que foi nesse momento que tudo começou. E que ninguém pense que é preciso cair o Carmo e a Trindade, como se costuma dizer, para se chegar a esta condição de sem-abrigo. É rápida, a queda. Principalmente para um homem da minha idade, com mais de cinquenta anos.
Neste país em que vivemos, é muito difícil encontrar trabalho depois dos cinquenta anos. Estamos numa idade em que nos dizem que já é muito tarde para trabalharmos. Mas também nos dizem que é muito cedo para nos reformarmos. Em Portugal, isto funciona assim; ou seja, existe uma profissão chamada “desemprego”.
Mas não desisti. Sem trabalho, com a renda da casa, as contas inerentes para pagar e ainda ter de comer… Difícil. Eu aceitava qualquer tipo de emprego. De modo que fui para operador de caixa numa bomba de gasolina. Mas, ao fim de seis meses, terminou o contrato e substituíram-me por um jovem.
Tentei a construção civil. Sem especialização nenhuma, fui para servente. Passado um mês, o diretor da obra veio falar comigo e disse que seria melhor chegarmos a um acordo para eu sair, pois já não tinha idade para fazer certos trabalhos. E ele estava certo. Eu já não tinha idade para andar em cima de andaimes nem para carregar sacas de cimento.
E pronto. Tive de entregar a minha casa ao senhorio e alugar um quarto barato, fora de Lisboa, com a ajuda monetária de uma amiga. E aí, as coisas começaram a piorar.
Emprego, não conseguia obter. O subsídio chegou ao fim. Pagava o quarto e o dinheiro que restava mal chegava para me alimentar durante quinze dias. A ajuda pessoal que tinha acabou-se, pois a pessoa que me auxiliava não podia continuar a fazê-lo. Passei a receber o Rendimento Social de Inserção, que não era suficiente nem para a renda do quarto, que começou a ficar por pagar…
Amigos? Sim, tentei pedir ajuda, mas as pessoas afastam-se de nós a pouco e pouco quando se apercebem de que estamos em dificuldades. Quando temos alguma coisa na vida, amizades não faltam. Quando passamos fome, até nas redes sociais nos bloqueiam. Enfim, mas isso seriam outros desabafos… Apoios sociais? A sociedade em que estamos inseridos ajuda quem está a subir. Quem está a descer leva um “empurrão”, para descer ainda mais…
Até que chegou o dia! O dia em que recebi o ultimato. Ou pagava as três rendas em atraso ou teria de sair do quarto. Eu já não tinha dinheiro para comer, quanto mais para pagar as rendas.
Numa madrugada, levado pela vergonha, saí de “mansinho” da casa do meu hospedeiro. Sim, pela vergonha. Porque penso que eu ou qualquer pessoa tem sempre vergonha da situação de pobreza, da admissão de ser miserável. E de manhã, estava sentado na estação de comboios, a caminho da Gare do Oriente em Lisboa, com duas malas apenas com o essencial dos meus pertences, basicamente roupa, sem dinheiro e sem saber o que fazer. Só sabia que viria de novo para Lisboa. Não tinha outro sítio para onde ir.
OceanofPDF.com