Diário de um sem-abrigo
“És um gajo bem-educado e tens boa pinta. Isso é bom para arrumar carros.”
“ÉS UM GAJO BEM-EDUCADO E TENS
BOA PINTA. ISSO É BOM PARA
ARRUMAR CARROS.”
OceanofPDF.com
N unca gostei de pedir dinheiro. Evitava sempre pedir dinheiro emprestado, até a amigos mais próximos, por muito que necessitasse. Talvez pela forma como fui educado, talvez por orgulho também, confesso… Ficava sempre muito embaraçado. E agora ali estava eu: era um sem-abrigo numa estação de comboios, a tentar pedir esmola a quem passava.
Fi-lo por sugestão de outro, que eu não conhecia, olhando para ele de longe, vendo-o a abordar as pessoas e a pedir dinheiro de uma maneira que eu simplesmente era incapaz. Aliás, deviam andar por ali uma dezena de sem-abrigo a pedir.
Nessa manhã, eu tinha vestida uma roupa que me envergonhava, emprestada por ele, o meu “padrinho de rua”. Estava lavada, mas a t-shirt era velha e feia, e os jeans, usados e apertados, causavam-me desconforto. Mas compreendi que não podia andar a pedir esmola com a minha roupa de marca.
Estava sentado num banco da estação, a fumar um cigarro que um rapaz finalmente me dera após ter pedido a mais de dez pessoas. Era mais fácil para mim pedir um cigarro do que dinheiro. As pessoas olhavam-me com uma expressão familiar que eu não conseguia definir. Um olhar que me envergonhava. Enquanto fumava e via o cigarro a chegar ao fim, cheguei à conclusão de que essa expressão era a mesma que eu sempre tivera quando, no passado, olhava para alguém que me pedia dinheiro na rua. Por isso me era familiar… E senti-me mal. Senti-me mal por ser alvo daquele olhar. Aquela expressão de pena, de indiferença ou, por vezes, acusadora. E sentia-me mal por perceber que já olhara assim para alguém.
Deitei fora a beata do cigarro que fumara até ao filtro e fiquei a fitar o chão. Com um olhar vazio, sem conseguir pensar. Ouvi a voz alta do Zé, que acabara de se sentar ao meu lado, aparentemente bem-disposto: “Então, ó Panda? ‘Tás-te a safar?” A pergunta irritou-me e disparei: “Eh, pá, vai chamar Panda ao raio que te parta!” E falando alto para ele também, começaram a sair-me da boca palavras à velocidade de balas.
Comecei a dizer que não sabia o que fazer. Que não sabia viver assim e que não estava preparado para aquilo. Que nunca pedira esmola, que tinha vergonha e nem sabia como fazê-lo. Que não estava habituado à miséria e que estava agora enterrado nela. Que estava arrependido do que fizera e não fizera na minha vida, sabia lá já! Que não me sentia bem com aquela roupa e que queria a minha de volta. Que precisava de tomar um banho, sem ser numa casa de banho cheia de mijo no chão e a cheirar a merda! Pedi-lhe desculpa por não ser como ele.
Fitei-o, esperando possivelmente que ele se levantasse e se fosse embora. Que pudesse reagir mal e me agredisse ou fizesse algo de mau, lembrando-me da faca que ele trazia junto ao tornozelo. Mas ele ouvira tranquilamente todo aquele chorrilho de palavras, com uma expressão séria e preocupada ao mesmo tempo, divertida. Recostou-se no banco e perguntou-me calmamente: “Não és como eu? Então, és como quem?”
Olhei-o em silêncio, sem conseguir responder. Ele sorriu e perguntou-me se queria beber uma pinga de vinho, pois ainda era cedo para chegar à estação [do Oriente] o carro de apoio aos sem-abrigo, que trazia alimentos. Eu disse que não. Tinha era fome e perguntei porque é que ele estava sempre a pensar em bebida. Não respondeu e perguntou-me se eu “fizera” algum dinheiro. Respondi que não. Ele tirou do bolso algumas moedas, contou-as e disse-me que “fizera” quase dois euros. Comentei que não dava sequer para ele comer qualquer coisa. Olhou-me e perguntou novamente: “Queres beber uma pinga de vinho?” Suspirei. Ele esperou. Respondi que sim e fui com o Zé comprar um pacote de vinho.
Lembro-me claramente daqueles primeiros dias. Foram dias duros em que tive de aprender a viver e a dormir na rua. Eu e o Zé dormíamos debaixo de um viaduto perto da Gare do Oriente, junto à parede onde o viaduto descia até ao chão. Segundo ele, no inverno seria impossível dormir ali por causa do frio e do vento, mas como era princípio de agosto estava-se ali bem. Foi o que ele disse. Lembro-me de pensar como seria a hipótese de não se estar tão bem.
Ele dormia num pequeno colchão, velho e sujo, dentro de um saco-cama que alguém lhe dera. Eu dormia no chão. Nesses dias, ambos tentáramos arranjar um colchão para mim, mas era difícil. Dormia em cima de uma manta velha que ele me dera, dobrada. Era a única coisa que me separava do alcatrão. E tapava-me com o único cobertor que trouxera na mala. As mochilas serviam-nos de almofada, a minha envolta num toalhão de banho.
Era duro dormir no chão. Além de se sentir a sua rigidez que causa dores, o corpo fica por vezes dormente. Sentia isso quando queria mudar de posição como o fazia no conforto de uma cama. Era horrível.
Tive muita dificuldade em dormir naqueles primeiros dias. E o som dos carros a passarem também não ajudava. Mas depressa me habituaria. A cabeça acaba por se adaptar àquele ruído monótono e repetitivo. Além de que era uma questão de tempo até já não se ouvirem carros, durante a madrugada, voltando o barulho pela manhã. Manhãs essas em que acordávamos e íamos fazer a nossa higiene pessoal, dentro do possível, nas casas de banho públicas da Gare do Oriente. O que também era complicado, pois estariam lá mais sem-abrigo como nós. E se houvesse ajuntamentos de sem-abrigo nas casas de banho, haveria problemas com a segurança da Gare.
A higiene pessoal preocupava-me. Não queria ter mau aspeto nem cheirar mal. Lembro-me de, na terceira noite no viaduto, enquanto nos deitávamos, abordar delicadamente o Zé sobre esse assunto. O banho. Onde iríamos tomar banho. Ele disse que, no dia seguinte, logo veríamos. Insisti. E ele perguntou: “Já cheiras mal?” Respondi que sim e que não me sentia bem. Já não tomava banho há cinco dias. Enquanto se preparava para dormir, ele respondeu: “Eu já não tomo há mais tempo. Estou pior do que tu.” Repliquei, desviando o olhar: “Eu sei.” Ele olhou para mim e tentou sorrir com a minha resposta como fazia sempre. Mas não sorriu. Virou-se para o lado da parede, dizendo um seco “até amanhã”. Desejei-lhe boa noite também.
Eu já cheirava um pouco mal, a transpiração e não só. Passara cinco dias a andar pelas ruas, em pleno mês de agosto. E ele estava efetivamente pior. Nas casas de banho públicas da Gare, só fazíamos, como é óbvio, a higiene das partes do corpo à vista: cara, pescoço, braços e mãos. E, no cubículo onde fazíamos as nossas necessidades, a higiene era apenas com papel. Sentia um desconforto enorme e estava preocupado. No dia seguinte, teria de mudar de boxers e de meias, pois tinha algumas peças na mala, mas… como faria a higiene?
Tentei dormir e não conseguia. Aliás, pouco dormia. De repente, como que adivinhando os meus pensamentos, o Zé disse: “Amanhã, vamos aos bombeiros, tomar banho e lavar a roupa.” Eu desconhecia que se podia tomar banho nos quartéis de bombeiros. Ele disse-me que não existe um posto de bombeiros aberto para esse fim, mas que eles facilitam banhos pessoais para quem precisa, se falarmos com as pessoas certas. E acrescentou que gostava mais de ir aos bombeiros do que estar nas filas dos balneários públicos. Quanto à lavagem da roupa, teríamos de “fazer” umas moedas para irmos às máquinas automáticas.
Aproveitei essa deixa para lhe dizer que me sentia um pouco mal por não conseguir tanto dinheiro como ele, no nosso dia a dia a pedir na Gare. E ele aproveitou para me dizer: “Ouve, Jorge, tu aqui, mais tarde ou mais cedo, vais acabar por perder as peneiras. Por isso, segue o meu conselho e tenta perdê-las já. Dás muito valor ao gesto de pedir. Não penses em nada quando pedes. Dirige-te à pessoa e pede apenas. Já sabes que o ‘não’ é garantido. Preocupa-te apenas com aqueles que te dão umas moedas e não vás com muita conversa. Arranja tipo um refrão. ‘Tás a ver?” Sorri ao ouvir o termo “refrão”.
E ele continuou: “Eu acho que tu deverias ir arrumar carros.” Perguntei porquê. O Zé respondeu que fazia mais o meu género. “E qual é o meu género?”, quis eu saber. Ele olhou-me, a sorrir, e respondeu: “És um gajo bem-educado e tens boa pinta. Isso é bom para arrumar carros.” A ideia agradou-me. E onde iria arrumar carros? “Isso tem de ser mais longe daqui”, respondeu ele, e acrescentou: “Tens pinta de paneleiro. Isso ajuda.”
Essa noite acabou com o Zé a levar com a mochila na cabeça e a rirmo-nos à gargalhada. Porque, podem não acreditar, existiam sempre uns minutos diários de boa disposição entre dois homens que partilham vinte e quatro horas a sofrer na miséria.
OceanofPDF.com