Diário de um sem-abrigo

Jorge Costa · Capítulo 13 de 19

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Diário de um sem-abrigo

Os sem-abrigo aprendem a não chorar. Na rua, quem é fraco não sobrevive.

OS SEM-ABRIGO APRENDEM A NÃO

CHORAR. NA RUA, QUEM É FRACO

NÃO SOBREVIVE.

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S empre gostei da Rua Morais Soares. Nasci e cresci ali ao lado, no Bairro da Penha de França. Sempre adorei aquela rua. Quem a conhece sabe do que falo. Sempre movimentada devido ao comércio, sempre viva, alegre, iluminada e com carisma…

Milhares de pessoas percorriam diariamente a Rua Morais Soares em ambos os sentidos, dentro da sua azáfama característica. E dezembro chegara. E, com dezembro, chega o Natal, embelezando ainda a mais a rua, com os seus arcos de enfeites luminosos desde a Praça do Chile até ao Alto de São João.

Quando anoitece, a Rua Morais Soares é um dos ex-líbris da nossa cidade. Faltavam poucos dias para o dia 25; estávamos a 20 para ser mais exato. Quantas vezes no passado, por esta altura do ano, subira aquela rua, para comprar as prendas, o bolo-rei, o “meu cabrito assado favorito”, pois não gostava de peru, e terminar alegremente junto à Praça Paiva Couceiro, para beber uma ginjinha numa célebre tasquinha que lá havia…

Era com estes pensamentos que subia agora a Rua Morais Soares, quase me arrastando, nostálgico… Uma nostalgia acompanhada de um sentimento de dor. Mas acreditem que subia a rua como sempre subira desde criança, olhando para os arcos enfeitados e luminosos, sentindo o cheiro do Natal, passando pelas pessoas a entrarem e saírem alegremente das lojas.

Sabem, quando se é um sem-abrigo a vaguear por essas ruas e a viver na miséria, conseguimos ver mais facilmente a alegria nos rostos alheios, mas, nessa noite, eu tentava afastar esses pensamentos. Dormia na rua, sim. Vivia na miséria. Mas o meu espírito natalício de garoto esperando a prenda dentro do sapato permanecia ingenuamente dentro de mim.

Parei à porta de uma loja onde, muitos anos antes, o meu pai me levara pela mão, para escolher uma pista de carros elétrica, prometendo-me falar de mim ao Pai Natal. Agora, era uma loja de conveniência. Que idade teria? Seis ou sete anos. De súbito, sussurrei para mim próprio um palavrão e decidi pôr cobro às possíveis lágrimas que pudessem sair-me dos olhos. Fazia isso já muito habilmente. Viver na rua ensinou-me a não chorar.

Os sem-abrigo aprendem a não chorar. Entre nós, chorar é um sinal de fraqueza e, nas ruas, quem é fraco não sobrevive. Alguma vez viram um sem-abrigo a chorar na rua? Provavelmente, nunca.

Além do mais, eu tinha ido à Rua Morais Soares com um objetivo: comprar um blusão, pois andara quase quinze dias a arrumar carros e a pedir moedas para o comprar, a poupar dinheiro cortando por vezes na comida e apanhando muitas beatas de cigarros. O blusão que usava já estava roto e coçado, e o inverno estava no seu auge. Andava por isso a “namorar” um blusão, numa lojinha barata ali na rua. Finalmente, tinha a nota de vinte euros para o comprar.

Durante os oito meses que vivi na rua, sempre me preocupei com o meu aspeto. Para mim, era fundamental para manter a minha dignidade, que já era muito fraca e quase inexistente. Mas fazia tudo para manter o meu bom aspeto. Tomava banho regularmente num quartel de bombeiros e nos balneários públicos. A minha preocupação era ter sempre moedas para lavar a roupa nas lavandarias automáticas. Mas lavar a roupa sai caro e era muito difícil cheirar bem.

Acham estranho isto? Ser difícil cheirar bem? Para um sem-abrigo, não é. Para quem não tem acesso regular a água, é muito difícil. Mas lembro-me de que, nesse final de tarde, tomara banho e lavara a minha roupa, que já era muito pouca. Tinha somente duas calças de ganga ainda em estado razoável, penso que três t-shirts já bastante usadas, um pulôver e uma camisola grossa ainda em bom estado, tipo polo. Era o que restava da roupa que trouxera do último quarto alugado onde vivera.

Viver na rua desgasta rapidamente a roupa. Vendi alguma, mas também me roubaram muita. Olhei para os meus pés: calçava uns ténis ainda em bom estado que me tinham dado nos carros de apoio uma ou duas semanas antes. Olhei de soslaio para o meu reflexo numa montra e até me senti satisfeito, pois não estava com muito mau aspeto. Ainda podia entrar numa loja. O blusão é que já estava indecente, mas bastava deitá-lo no lixo antes.

Dei por mim a pensar que, no meu passado, houvera dias em que a minha preocupação seria escolher a loja. Num passado mais recente, outros houvera em que a minha preocupação seria ter ou não dinheiro para fazer compras numa loja. E a minha preocupação presente era se me deixariam lá entrar…

Mas ponto final! Era Natal e eu ia comprar um blusão, com uma nota de vinte euros que me dera o António do quiosque, em troca do meu “meio quilo” de moedas, como ele gracejara ao trocar o meu dinheiro. Desse “meio quilo”, ainda fiquei com cerca de dois euros, que dei ao Zé, que não quisera acompanhar-me, dizendo que não estava apresentável para ir às compras com ninguém. E de facto, não estava. Secretamente, agradeci-lhe por tomar essa decisão.

O Zé não cuidava de si como eu. Tinha mais tempo de rua. Certos valores começam a desaparecer, como podemos observar em pessoas que andam há anos na rua. Mas eu adorava o Zé. Era um excelente ser humano, que nunca impôs condições para ser meu amigo. E só eu sei o que ele me ajudou.

Apesar dos desentendimentos que por vezes tínhamos e das “birras” inevitáveis de dois homens que vivem nas ruas, ao lado um do outro, vinte e quatro horas por dia, eu e o Zé éramos bons amigos. Ao final do dia, éramos sempre o porto de abrigo um do outro.

Por fim, cheguei ao meu destino. Ainda não eram 19h00, pelo que decidi descansar um pouco, sentado no peal da porta ao lado da loja. Eu caminhava quilómetros por dia e já ultrapassara os cinquenta anos de idade. Lembro-me de pedir um cigarro a um jovem que ia a passar. Acendi-o e comecei a fumar tranquilamente, até que a minha atenção começou a centrar-se na churrasqueira um pouco mais abaixo, do outro lado da rua, ao sentir aquele cheiro característico de um bom frango assado. Decerto, conhecem esse cheiro.

Ainda não jantara, pois só mais tarde é que iria aos carros de apoio no Largo da Estação de Santa Apolónia, e almoçara mal nesse dia. Muito mal mesmo. Vezes sem conta, passava à entrada dos restaurantes, sentindo o cheiro da comida, e à porta das padarias, sentindo o cheiro do pão quente e dos bolos. Passava eu e os outros que me acompanhavam, mas depressa nos afastávamos. Sabíamos que não podíamos comer. E a nossa atitude era de simples resignação, embora sofrida. Muito sofrida. Não sei se conseguem imaginar o que é sentir o cheiro de comida deliciosa quando se passa fome.

Mas, naquele princípio de noite, senti o cheiro a invadir-me de uma forma diferente. Estava fragilizado pelo Natal e tinha vinte euros no bolso. E o cheiro era “terrível”… Era uma das melhores churrasqueiras da Morais Soares. Aquele cheiro começou a invadir-me os sentidos. A fome aumentou e a saliva na boca também. Levantei-me de imediato. Precisava do blusão e precisava de o comprar! Fumei mais depressa o resto do cigarro, aspirando o fumo com mais força, para tentar ficar agoniado e não me sentir afetado por aquele cheiro.

Ao deitar a ponta do cigarro para o chão, lancei ainda um inevitável olhar masoquista para a montra da churrasqueira, lendo o letreiro: “Vendemos para fora.” Caramba, já não me lembrava de quando fora a última vez que comera frango assado no churrasco… Quentinho, apetitoso, tenro, com molho. E batatas fritas? Senti-me a fraquejar, não sei explicar como nem porquê. Sentia de repente a fome ser maior do que minutos antes. Voltei-me para a loja, mas não consegui entrar. Há meses que só comia comida quase fria e de fraca qualidade dos carros de apoio, acompanhada com as massas duras e insossas ou com arroz cru ou espapaçado. Se quisesse alguma coisa melhor, tinha de roubar, pois o meu dinheiro não chegava e, por vezes, nem sequer comia.

Olhei para o vidro da loja e vi o reflexo das luzes de Natal. E invadiu-me a mente um pensamento mais rápido do que uma bala: “É Natal. Vai comprar este momento, Jorge. Sacia a fome nem que seja só por esta noite! Vai comprar prazer! Vai comer a merda de meio frango assado!” E, veloz como esse pensamento, atravessei a rua, entrei na churrasqueira, dirigindo-me rapidamente ao balcão e, penso eu que sem dizer sequer boa noite ao rapaz que me atendeu, pedi: “Quero meio frango assado com batatas fritas para levar, por favor!” Lembro-me de ele me olhar com uma certa surpresa, devido à minha entrada e ao meu pedido repentino.

Mas foi com cortesia que me perguntou: “Com piripíri ou sem?” “Sem!” respondi. Ele sorriu e perguntou: “Só com o molho da casa então?”

“Isso!”, respondi, feliz da vida.

O cheiro a frango no churrasco era inebriante. Minutos depois, o rapaz entregou-me o saco com as duas cuvetes, fazendo a pergunta da praxe: “Para beber, vai desejar alguma coisa?” Eu devo ter ficado com a cara de alguém a quem perguntaram se quer a companhia de uma mulher bonita ou algo parecido, porque pisquei ligeiramente o olho e, com uma “voz de cama”, pedi uma Sagres de litro bem fresquinha! Paguei e fui automaticamente, em passo apressado, em direção ao jardim da Praça Paiva Couceiro, que eu tão bem conhecia. Que sítio melhor para se jantar?

Sentei-me num dos bancos do jardim e retirei as cuvetes do saco. Não consigo descrever aquele momento. Foi com certeza a melhor refeição da minha vida! Nunca comera com tanto prazer e com tanta satisfação, e tenho a sensação de que nunca mais vou comer assim. Não tenho vergonha de o dizer, mas gemi a comer. Escusado será dizer o que é, para uma pessoa como eu, naquela condição, um frango assado de uma das melhores churrasqueiras do bairro, com batatas fritas quentes e estaladiças.

Em poucos minutos, devorei o meio frango, ignorando os talheres de plástico. E de seguida, calmamente, comi as batatas o mais devagar que consegui, intervalando com a cerveja de litro, bebendo pelo gargalo da garrafa. Não consigo encontrar palavras para vos descrever aquela refeição. E vou continuar sem vergonha ao dizer que, após comer a última batata e beber o último gole da cerveja, dei um longo arroto e uma sonora gargalhada! Feliz Natal, Jorge! Só minutos mais tarde tomaria consciência de que continuaria vestido com um blusão que já metia nojo.

Caros leitores, há cerca de duas semanas, enviei um email para a Mensagem de Lisboa, anexando uma das crónicas mensais, como é costume. Nesse email, fiz um aviso à direção do jornal: disse que as minhas crónicas iriam entrar numa fase nada simpática, porque os sem-abrigo não são simpáticos.

O sem-abrigo é uma pessoa que se senta num banco de um jardim público, come meio frango assado com as mãos, arrota no fim e ainda se ri por isso, como eu o fiz na minha noite de Natal, pois até ao final desse ano não tive outra noite melhor do que essa. Um sem-abrigo é uma pessoa que pode ser avistada a cortar as unhas dos pés na via pública. Um sem-abrigo pode ofender as outras pessoas, ao tentar lavar-se numa casa de banho pública, e por isso cheira mal. Um sem-abrigo aprende a roubar nos supermercados, para comer. Um sem-abrigo incomoda as pessoas quando, numa atitude antissocial, pede esmola nas ruas.

Os sem-abrigo dormem à porta de museus, edifícios públicos da cidade, debaixo de viadutos e em prédios abandonados, para se protegerem da chuva e do frio. Alguns sem-abrigo falam sozinhos nas ruas, porque estão a perder a sua estrutura humana e alguns a enlouquecer. Os sem-abrigo podem andar armados. Não para atacarem alguém, mas para se defenderem uns dos outros e dos criminosos e delinquentes dos quais não podem fugir, pois dormem na rua! Um sem-abrigo pode andar armado, porque durante a madrugada pode morrer por causa de um telemóvel ou de uma nota de cinco euros, porque a criminalidade e a delinquência, na maioria dos casos, nada tem que ver com os sem-abrigo. São coisas distintas. Podem é estar misturadas, como todas as espécies de animais que sobrevivem na selva. E um sem-abrigo, no meio da selva, com o tempo, pode tornar-se num animal para sobreviver. E pode ser irreversível.

A direção de a Mensagem não respondeu ao que eu escrevi no email e publicou a minha crónica. E fico feliz por isso. As minhas crónicas estão a entrar na reta final, mas ainda faltam algumas coisas que pretendo partilhar com todos aqueles que queiram ler-me. Mas sempre da mesma forma. Com sinceridade, verdade, sem reservas e tentando ser o mais fiel possível a todos os acontecimentos aqui por mim descritos.

Como disse uma vez à Catarina Reis, brilhante jornalista de a Mensagem, vou escrever sobre o que passei, vou relatar como se vive nas ruas, nem que caia no ridículo. Eu, felizmente, já saí das ruas. E sei o que sofri. Mas muitos ainda lá vivem! E estas crónicas são a voz de todos eles.

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