Diário de um sem-abrigo

Jorge Costa · Capítulo 14 de 19

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Diário de um sem-abrigo

“Olha, Zé, já tenho uma casa, vês? Gostava que estivesses aqui, vivo, meu amigo.”

“OLHA, ZÉ, JÁ TENHO UMA CASA,

VÊS? GOSTAVA QUE ESTIVESSES

AQUI, VIVO, MEU AMIGO.”

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S exta-feira, 3 de janeiro de 2020. Mais um dia na cidade de Lisboa. Abri ligeiramente os olhos. Estava um frio de rachar. Mesmo assim, conseguira dormir algumas horas. Virei-me para o lado, pois sentia as costas um pouco dormentes e coloquei-me em posição fetal por causa do frio. Com o ruído habitual, os carros já passavam em grande número na estrada. Estava nevoeiro. Tentei aconchegar-me melhor dentro do saco-cama, mas sem sucesso. O melhor seria levantar-me. Ergui-me lentamente, espreguiçando-me e massajando a zona lombar. Dobrei o saco-cama e olhei à minha volta.

O Zé parecia estar ainda a dormir e cerca de mais dez sem-abrigo também permaneciam ainda deitados, encostados ao muro do viaduto. Eu e o Zé voltáramos a pernoitar na zona da Gare do Oriente. Estávamos por baixo do viaduto onde, meses antes, dormira pela segunda vez ao relento, sozinho com ele.

Agora, existia ali uma espécie de acampamento para sem-abrigo, cuidadosamente gerido em grupo por quem pernoitava no local. Na noite anterior, o Chico até fizera uma fogueira com umas pequenas estacas de madeira que encontrara num ecoponto. Olhei para a fogueira. Apagara-se. O Rolhas levantou-se também e, em voz alta, desejou-me bom dia. Devolvi o cumprimento sem olhar para ele.

Como sempre, ao acordar naquele sítio, olhava para a Gare ao longe. No meu passado, gostara daquela zona, mas agora detestava-a. Porém, o Zé tinha razão. Para dormir, nada melhor do que o “Bairro do Gil”, apesar de existirem muitos outros bons sítios.

Tirei o telemóvel do bolso para ver as horas, um velhinho Nokia 3310 que encontrara num parque de estacionamento. Dava para fazer chamadas, se carregasse o cartão, mas eu não tinha dinheiro para isso. Servia apenas como relógio de bolso. Oito horas em ponto, lembro-me bem, pois o Mário que também estava a levantar-se, perguntou-me as horas nessa altura.

O Zé também já acordara e não estava bem. Estava sentado, encostado à parede do viaduto, de braços cruzados. Eu já calculava o que se passava. Fui ter com ele e perguntei-lhe se tinha tabaco. Estava muito ansioso, pálido e com os olhos demasiadamente abertos. Descruzou lentamente os braços e, ao procurar o tabaco nos bolsos, vi as suas mãos a tremerem.

“Não tens vinho?” perguntei. Ele disse que não. Olhei em redor para o resto do pessoal e perguntei em voz alta se alguém tinha vinho. Quase todos disseram que não, exceto o Rolhas, que respondeu com uma pergunta: “Tens aí dois paus?” Olhei para ele e, com um tom crítico, perguntei-lhe se queria levar dois euros por um copo ou dois de vinho. Ele suspirou e replicou com um ar afetado: “Eu, não; aliás, isto aqui não é nenhuma taberna. Bebam água.” O Zé respondeu de imediato à provocação, dizendo-lhe secamente: “Por mim, podes enfiar o vinho todo no cu”; e, de seguida, disse-me que não tinha tabaco. Procurei dinheiro nos meus bolsos. Tinha apenas alguns cêntimos. Perguntei ao Zé se tinha algumas moedas. Ele abanou negativamente a cabeça.

Nisto, ouvimos o Cardoso do outro lado do muro do viaduto, a gritar: “Eh, pá, não cagues aqui!” Logo a seguir, ouvimos o Luís gritar também: “Queres que cague onde? Na estrada?” Dirigi-me apressadamente ao encontro deles. Deparei com o Cardoso a ameaçar o Luís com um punho fechado e o Luís a levantar-se, respondendo à ameaça ainda com as calças nos tornozelos. Coloquei-me rapidamente entre os dois e perguntei ao Cardoso se ia bater num homem a cagar. Realmente, cheirava muito mal ali. Olhei para trás, para o chão, e constatei que o Luís estava com diarreia.

Combináramos entre todos não fazermos ali as nossas necessidades, pois era o sítio onde dormíamos, mas era evidente que o Luís não tivera tempo de ir a outro lado. Por isso, aconselhei ao Cardoso que tivesse calma, puxando-o por um braço, e disse ao Luís para acabar de fazer o que estava a fazer.

Quando contornámos novamente o muro, deparámos com mais um problema: o Chico, enervado, perguntava alto e bom som quem lhe tirara cinco euros da mochila. E uma algaraviada de respostas fazia-se ouvir: “‘tás maluco.”; “Já ‘tás é bêbedo.”; “Aqui, ninguém te roubou nada.”; “Vai pró caralho!”; “Não dormes mais aqui.”, até que o Carmo disse, com um tom acusador, que vira o Rolhas a pé, de madrugada, caminhando “de mansinho” à volta de quem dormia.

Instalou-se a confusão. O Chico desatou aos berros e foi direito ao Rolhas, exigindo o seu dinheiro. O Rolhas respondeu, indignado, que não tirara dinheiro nenhum, chamando mentiroso ao Carmo, e este respondeu-lhe insultando-o e chamando-lhe ladrão. O Rolhas pregou uma forte bofetada na cara do Carmo. O Chico sacou de uma pequena navalha do bolso das calças e correu em direção a ele. O Mário, vindo não sei de onde, interpelou violentamente o Chico e caíram os dois no chão.

Eu e quase todos acorremos para tentar resolver a situação. Quando tentei segurar o pulso do Chico para lhe tirar a navalha de uma mão, ele esmurrou-me com a outra. Fiquei louco de raiva! Devolvi-lhe o murro com a minha mão esquerda e dei-lhe mais dois com a mão direita. Entretanto, ouvi o Mário gritar: “‘tá aqui a naifa! Já tenho a naifa!” e, ao mesmo tempo, alguém me agarrou por trás, tirando-me de cima do Chico. Vi, depois, que fora o Zé.

Os ânimos demoraram alguns minutos a acalmar. Estávamos todos enervados. As coisas funcionam assim entre os sem-abrigo. Passamos os dias e as horas a recalcar os nossos sentimentos, a engolir as nossas frustrações e a nossa raiva… Quando há uma altercação qualquer, explodimos em demasia! Mas, por fim, lá nos acalmámos. E acabámos todos por conversar, ficando no ar a falta de explicação para o desaparecimento do dinheiro, se é que desaparecera.

Deixei de ver o Zé, depois de ele me tirar à força de cima do Chico. Olhei em redor e vi-o afastado, junto aos primeiros pilares do viaduto. Ele não estava nada bem. Despedi-me do resto do pessoal e fui ter com ele. “Temos de ir buscar vinho, não é?”, perguntei, retoricamente. Ele olhou para mim, cruzou os braços para esconder o tremor das mãos e caminhámos em direção à Gare. “Zé, tens de parar de beber”, disse eu, com um tom firme. Ele respondeu que sabia que sim, mas não sabia como.

O Zé estava já num estado em que não funcionava sem beber. Quando bebia, eu esquecia-me de que ele tinha um problema, pois não ficava embriagado. Só quando o vinho lhe faltava é que eu percebia o real problema. Ele precisava de álcool para funcionar. “Vou fazer uma cura como?”, perguntou o Zé. Olhei para ele e disse-lhe, satisfeito, que era bom ele ter consciência de que precisava de fazer um tratamento, uma desintoxicação.

Assim que chegámos à Gare, disse ao Zé para se sentar num banco e dirigi-me apressadamente para as escadas rolantes da saída do metropolitano. Olhei em redor, não vi nenhum segurança e comecei a pedir. É evidente que não é crime pedir esmola, mas quando ali se pede sistematicamente e sempre no mesmo local, os seguranças podem intervir. Alegam que estamos a incomodar as pessoas.

Uma hora depois, sensivelmente, com muita sorte consegui reunir dinheiro suficiente para um pacote de vinho. Comprei-o de imediato na loja de conveniência e fui ter com o Zé. Ele estava já deitado no banco. Entreguei-lhe o pacote e sentei-me ao lado dele. Ele sentou-se também, agradeceu e bebeu rapidamente uns bons goles. Lentamente, aos poucos, gole atrás de gole, foi melhorando. Era como se estivesse a tomar um medicamento.

Finalmente, olhou para mim e disse: “Nunca te vires a um gajo com uma faca, a não ser que tenhas uma.” Repliquei que não me virara a ninguém e que apenas queria separá-los. “Qual é a diferença?”, perguntou ele. Eu não quis responder. Continuei a dizer-lhe que não podia continuar a beber. Talvez pudéssemos ir ao centro de saúde marcar uma consulta, porque o alcoolismo era uma doença. Ele olhou para mim e, calmamente, com o falso sorriso que lhe era característico, respondeu: “Eu não sou alcoólico, sou sem-abrigo. Os sem-abrigo não são alcoólicos, Panda. Os sem-abrigo são bêbedos.” Encarei-o, contestando, mas como sempre, entendia o que ele estava a dizer.

Estivemos ali algum tempo a conversar, até que eu disse que tínhamos de nos fazer à vida. Decidi ir até Chelas, onde costumava arrumar uns carros junto ao ISEL, pois detestava a Gare do Oriente. Ele replicou que não lhe apetecia ir muito longe. Acrescentou que ficaria por ali e que iria deitar-se um bocado no viaduto. “Vou ver se arranjo guito para mais um pacote de vinho e vou descansar. Estou cansado, Jorge, cansado…” Concordei. Mas disse-lhe para ir à Gare à hora de almoço, ao carro de apoio. “Precisas de te alimentar, Zé”, pedi-lhe. Ele anuiu.

Olhei para o relógio. Já passava das onze. Olhei para a estação dos autocarros da Carris e havia muito movimento. Decidi ir de autocarro até Chelas. É mais fácil andar nos autocarros sem pagar quando há bastante movimento, pois os revisores não costumam entrar em autocarros cheios. Entrei entre duas pessoas, fiz o movimento com a carteira na máquina eletrónica dos bilhetes, fingindo estar a validar o título de transporte e sentei-me na parte traseira do autocarro. Os condutores, por vezes, reparavam que nós entrávamos sem bilhete, mas não diziam nada. Eles não são revisores e limitam-se a fazer o seu trabalho.

Lembro-me de estar um final de manhã muito bonito e soalheiro, apesar do frio. Lembro-me ao pormenor de muitas coisas dessa manhã e dessa sexta-feira. Já vão perceber porquê. Estive em Chelas até ao final da tarde. Regressei novamente de autocarro à Gare do Oriente. Sentei-me nos últimos bancos traseiros do autocarro, contando as moedas que “fizera”. Não chegava a cinco euros, mas já gastara algum dinheiro num café e num maço de cigarrilhas barato. Portanto, não fora mau. Mas doíam-me as pernas por ter passado toda a tarde de pé.

Cheguei à Gare por volta das oito da noite. Ainda era cedo para chegar o carro com a comida, mas talvez o Zé já andasse por ali. Não o vi e decidi ir beber mais um café nas máquinas, que era mais barato. Depois de beber o café, sentei-me num banco e acendi uma cigarrilha. Os maços de dez cigarrilhas são muito baratos, mas o tabaco é de muito fraca qualidade. No entanto, não era mau ter uma cigarrilha para fumar no meu possível melhor momento do dia.

Entretanto, vi ao longe o Mário a olhar para mim e a encaminhar-se apressadamente na minha direção. Pensei logo que alguma coisa acontecera, pois nunca vira o Mário a andar tão depressa e a dirigir-se a alguém. Quando chegou perto de mim, cumprimentámo-nos e ele ficou de pé, a olhar para mim. Algo de estranho se passava. Por fim, falou num tom de voz cuidadoso: “Jorge… O Zé morreu.”

Fitei-o, atónito. Passados alguns segundos, apenas uma palavra me saiu dos lábios: “Morreu…?!?” O Mário respondeu: “Sim. Faleceu…” Por um instante, quis acreditar que era uma brincadeira, mas o Mário não estava a brincar. Levantei-me, encarei-o e perguntei como. “Caiu de repente no chão”, explicou ele. “Eu e o Cardoso fomos a correr, mas já estava morto. Ligámos para o INEM e o Cardoso foi com eles e com a Polícia, para prestar declarações para contar o que tinha acontecido ou uma coisa assim, mas já voltou. Já ‘tá aí.” Fiquei petrificado. Não sabia o que dizer. Não sabia o que pensar.

Perguntei ao Mário o que causara a morte. Ele respondeu que fora um AVC, mas sugeriu-me que perguntasse ao Cardoso. Sentei-me de novo no banco. O Mário sentou-se ao meu lado e perguntou se eu tinha uma cigarrilha. Dei-lhe uma e fui à procura do Cardoso. Quando o encontrei, ele disse-me que fora um AVC hemorrágico. Pelo menos, fora o que ele percebera e que o corpo ficara no Hospital de Santa Maria. Perguntei como é que iriam ser as coisas e como iria ser o enterro. Ele respondeu de uma forma clara: “Se não conseguirem contactar familiares, a Santa Casa ou a Câmara tratam disso.”

De seguida, durante alguns minutos, deambulei lentamente pela Gare. Queria chorar, mas não conseguia. Queria gritar, mas não gritava. Sentia nós no estômago e na garganta. Sentia uma dor inexplicável. Eu tinha de ir a Santa Maria. Não sei fazer o quê, mas tinha de ir. Saí da estação e decidi ir ao hospital. A caminho, só pensava no Zé e o termo “injustiça” ressoava na minha mente. Como se a justiça ou a falta dela tivessem alguma coisa que ver com o que se estava a passar, mas era a única coisa que eu sentia. E dor. E mágoa.

Caros leitores, vou colocar um ponto final nesta crónica de hoje, poupando a mim próprio e a vocês os restantes acontecimentos duros e mórbidos dessa noite no Hospital de Santa Maria.

Quero apenas dedicar esta crónica ao Zé e acabar estas linhas com essa dedicatória. Não acredito nesse tipo de coisas, mas gosto de pensar que o Zé está bem nalgum sítio. No Céu, ou coisa que o valha. E que está lá a olhar para mim, a ver o que faço e como é que estou “a safar-me”.

Olha, Zé, já tenho uma casa, vês? E tenho uma cozinha para fazer um petisco. Gostaria que estivesses aqui, meu amigo. Preparava-te umas moelas, que sei que adoras. Tenho uma casa de banho, onde podes fechar a porta e cagar de olhos fechados, sem estar preocupado com a mesma, como tu sonhavas. Tenho aqui uma onça de tabaco Amber Leaf, que adoras, e tenho mortalhas e filtros! Filtros, Zé! Filtros! Não é cá tiras de cartão enrolado para fumar tabaco das beatas. Tenho máquina para lavarmos a roupa e tenho um frigorífico para guardar as sandochas e ter as bebidas fresquinhas!

E posso ir buscar vinho sem ser de pacote! Roubamos uma nota de cinco ao meu RSI e compramos uma boa garrafa de vinho! E, à noite, podemos ir à esplanada beber um café! À patrão, Zé, como tu dizias! Os dois bem charmosos, limpos e cheirosos, a piscar o olho às miúdas, algo que dizias já ter vergonha de fazer! Penteados! Homens de novo! Que te parece, Zé? Se quiseres, dorme cá. De pijama, Zé! Eu dou-te um pijama! E podes deixar as tuas coisas na mesa da cozinha, porque na nossa casa ninguém nos rouba!

Porra, Zé, que necessidade sinto de fazer contigo coisas que nunca fiz! Mas o melhor ainda está para vir, amigo. Lembras-te de dizer que a nós ninguém nos ouve? Estás enganado, pá! Aqui o Panda escreve agora para um jornal! Podes acreditar. Temos as nossas histórias online em a Mensagem de Lisboa e no Facebook… Lembras-te do homem que mordeu o cão? Eras um fã dele, certo? Olha que ele publicou uma das minhas crónicas no Instagram dele! Muita gente lê, Zé! Muita gente! E comentam! Alguém ainda sente empatia por nós neste mundo…

Zé, foste o homem mais importante da minha vida. Ninguém sabia quem eras ou o que foste, nem eu próprio sabia, porque tu dizias que não importava a ninguém o que tínhamos sido no passado, mas o que éramos no presente. Pessoas a viverem em condições em que ninguém vive e onde ninguém vive, mas éramos nós que vivíamos lá! E foi lá que te conheci a sobreviver e foi lá que me deste a mão sem ter nada nela para dar! És grande, Zé! Mas tu não sabes isso. E como já disse, gosto de pensar que estás bem e a assistir a tudo isto com o teu melhor sorriso. Para te dizer “olá”, em vez de “adeus”. Estás no meu coração, Zé. Esta crónica é para ti!

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