Diário de um sem-abrigo

Jorge Costa · Capítulo 3 de 19

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Diário de um sem-abrigo

Prefácio por Nuno Markl – O que é um sem-abrigo?

PREFÁCIO

 

 

O que é um Sem-Abrigo?

por Nuno Markl

 

O que é um sem-abrigo? Que clichés abre o nosso preguiçoso e não-tão-criativo cérebro quando confrontado com a expressão?

Talvez o clássico maltrapilho dos filmes, agarrado a uma garrafa ou um pacote de vinho. Talvez isso, acumulado com um criminoso. Alguém perigoso. Alguém que nunca fez nada na vida. Alguém sem estudos, sem cultura. Alguém que achamos muito distante de nós. Tão distante, que mesmo que viva na mesma rua que nós, pode ser alguém a quem nunca dirigimos a palavra. Por medo. Por falta de tempo. Porque nos achamos bons de mais para gastar tempo com alguém tão insignificante. Porque temos medo que o cheiro, a falta de higiene, alguma doença nos contamine.

Quantas vezes lhes virámos a cara, quando nos pediram alguma coisa? Quantas vezes os tratámos como um incómodo durante um passeio que, não fossem eles, estava a correr tão bem?

Pois bem, o Jorge Costa foi um sem-abrigo. Ele diria que, mesmo já a dormir sob um teto, continuava a sê-lo. Era também alguém com quem eu tinha várias coisas em comum: ambos tínhamos, recolhida da internet, a coleção completa dos argumentos de Quentin Tarantino. Ambos víamos a vida um bocado como um filme. Ambos tínhamos doses suficientes de música na nossa cabeça para construir a banda sonora desse filme.

Separava-nos algo fundamental, e não era ele ser um sem-abrigo e eu não. Eram os números. Não tivemos tempo de falar sobre isso, mas creio que o Jorge percebia infinitamente mais do que eu de Matemática, ou não tivesse ele trabalhado em contabilidade.

Há muitos Jorges Costas. Somos capazes de conhecer vários – com a sua vida, a sua família, os seus hobbies. A sua casa. Mas este Jorge Costa teve o infortúnio de se tornar um sem-abrigo, mostrando que ninguém está livre de uma hecatombe destas.

Os últimos dois anos da vida do Jorge foram um inferno polvilhado, aqui e ali, de esperança e de algo assemelhado a alegria. Teve boas surpresas com pessoas, boas surpresas com instituições. Não terá resgatado a felicidade, conceito que nele se torna óbvio como algo que chega em pequenas doses momentâneas que devem ser desfrutadas e sorvidas avidamente – dançando nu debaixo de um teto, dentro de uma casa, por exemplo.

Mas com os seus textos, escritos por alguém que tem uma cultura visual, que atravessa o seu drama como se estivesse num filme, o Jorge conseguiu um triunfo que merece ser partilhado e passado de geração em geração: ele deu um rosto, uma biografia, uma proximidade de vizinho – ou mesmo de amigo – a tantos sem-abrigo.

Ao relatar a sua história, ele relatou a de tantos a quem viramos a cara quando nos cruzamos com eles. Talvez agora que o Jorge Costa já cá não está, ele tenha passado a existir não numa estrelinha a brilhar no céu – não há assim tanta utilidade para estrelinhas, pois não? –, mas no olhar de todos os homens e todas as mulheres que vagueiam pelas ruas, ao frio, ao calor, à chuva, ao vento, sujeitos a violência, a fome, à crueldade de existir.

Gosto de pensar que ele percebeu que era para aí que iria depois de partir. Não verá o filme ou a série que estamos a construir a partir da sua história, mas isso será sempre apenas um filme ou uma série. Ele viveu tudo aquilo, saiu de lá para contar e, ao contar, poderá ter mudado a vida de outros.

A última mensagem dele, no WhatsApp, dizia: “Eu gostaria que as cenas fossem realizadas nos locais originais, ou seja, onde as coisas aconteceram. Mas isto sou eu a falar. Deve ser muito complicado filmar na Gare do Oriente ou em Santa Apolónia.”

Complicadas são outras coisas, caro Jorge. Isto vai ser o mais fácil. Obrigado por tudo.

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