Diário de um sem-abrigo

Jorge Costa · Capítulo 18 de 19

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Diário de um sem-abrigo

Quem sou eu? Um sem-abrigo com casa. É a definição que mais se ajusta a quem sinto ser.

QUEM SOU EU? UM SEM-ABRIGO

 

COM CASA. É A DEFINIÇÃO QUE

MAIS SE AJUSTA A QUEM SINTO SER.

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C heguei ao fim. Durante quase um ano, tive o prazer de escrever para a Mensagem de Lisboa . Foram catorze crónicas em que partilhei com todos vós quase nove meses da minha vida e como vivi sem-abrigo nas ruas de Lisboa.

Escrever estas crónicas foi uma experiência única. Confesso que, quando escrevi as primeiras linhas, não esperava ter a audiência que tenho tido até agora, tanto aqui no site como nas redes sociais. Quero desde já agradecer a todos vós, leitores, que me acompanharam até aqui. Quero agradecer a vossa leitura, os vossos comentários e agradecer todos os emails e mensagens que me enviaram ao longo de todos estes meses.

Valeu a pena! Fiquei satisfeito, não pelas audiências, mas por sentir que fiz um bom trabalho. Foi um trabalho honesto. Foi provavelmente o trabalho mais honesto e verdadeiro que fiz em toda a minha vida. Fiz este trabalho, porque pensei que deveria ser feito e agradeço a este jornal por se terem lembrado desta temática e desta questão social, se é que pode ser designada desta forma.

Pela parte que me toca, sinto-me honrado e grato por me escolherem para tentar passar a mensagem em nome de todas as pessoas sem-abrigo. Aquelas que sofreram nas ruas como eu e as que ainda sofrem. E espero que este trabalho sirva, sentindo alguma ingenuidade ao dizer isto, para ajudar a pôr fim ao sofrimento de quem ainda vive nas ruas e para que talvez nunca mais ninguém volte a passar pelo mesmo.

Vamos todos tentar?

Sei que é difícil, mas sabem, estou a ouvir música na rádio enquanto escrevo e acabaram de passar o Imagine, do John Lennon… Sorri e pensei: porque não escrever aqui uma linha ou duas, também com alguma esperança, utopia e ingenuidade? Porque não? Como é que ele cantou?

Podes dizer que sou um sonhador, mas não sou o único. Espero que um dia te juntes a nós e o mundo será como um só… É uma ingenuidade, eu sei. Mas toda a gente gosta da letra, verdade? Pena é que não a interiorizem depois de a ouvir.

Pronto, agora temos aqui o John Lennon da Gare do Oriente, pensarão vocês. Não sou nada disso, caros leitores. Vivi e vivo na maior das realidades. Não tive nem tenho tempo para perder com palavras bonitas dentro de frases bonitas. Mas sempre sonhei. Sempre. Até quando dormia encharcado, cheio de fome e frio, e a cheirar mal que nem um animal. Sonhava sempre.

Porque a única coisa que eu tinha, quando tinha algum tempo, era apenas o sonho. E o meu era muito simples, muito pobre e muito básico. A forma como eu vivia é que me limitava a sonhar assim. Eu sonhava somente ser de novo um ser humano e que me tratassem como tal.

Aliás, os sem-abrigo sonham com coisas dentro dessa linha. E que linha é essa? É a linha onde pessoas vivem sem aquilo que nos faz sentir humanos e nos dá a dignidade básica. Nessa linha, procuramos um colchão, uma manta, uma sanita, uma cadeira… Procuramos água, um sítio para nos lavarmos, um prato de comida quente, umas peúgas lavadas, um corta-unhas que não esteja cego e ferrugento, um casaco…

Eu já não tinha os chamados sonhos comuns que todo o ser humano tem. Já não sonhava com uma casa. Só sonhava em viver dignamente. Já não sonhava com coisas com que sonhara no passado. Já não me preocupavam coisas como o amor-próprio ou a autoestima. Só sonhava em viver como uma pessoa. Nem vou dizer que sonhava em viver de uma forma que não fosse como um cão, pois existiam cães que viviam melhor do que eu. Sabem? Aqueles cães que não são sem-abrigo? Já alguma vez pensaram nisso? Em cães com ou sem abrigo? Talvez não.

Esse tipo de pensamentos e conjeturas nasce na mente de uma pessoa como eu era. Depois de, numa noite, um cão urinar na manta onde eu dormia, junto aos pés, fitei os olhos dele e pensei: Este cão é como eu. Ou serei eu que sou como ele? Dei por mim a dizer-lhe em voz alta que existiam cães com melhor sorte do que ele. Nessa noite, acabou por dormir junto de mim, depois de eu lhe oferecer meio papo-seco já duro com uma tira de carne de vaca dura e fria, a imitar uma sanduíche, que me tinham dado horas antes num carro de apoio. Tinha fome e frio como eu e olhava para mim da mesma forma que eu olhava para ele.

Batizei-o de Mijão e deixei-o no dia seguinte entregue a um sem-abrigo que “colecionava” cães, pois o Zé, que estava a dormir ali próximo e sem tirar a cabeça de debaixo da sua manta, alertou-me logo: “Ó Panda, nem penses em adotar um caralho de um cão, ‘tás a ouvir?”

Como sempre, o Zé sabia, de olhos fechados, o que eu estava a pensar ou a tentar fazer. Mas ele tinha razão. Um cão era a última coisa neste mundo que nos faria falta, embora muitos sem-abrigo tenham cães como companhia. Obviamente e como devem calcular, era fácil a amizade entre pessoas como nós e cães de rua. Cães de rua… também.

Mas, finalmente, essa vida, se é que podemos chamar-lhe assim, acabou-se. Deram-me a oportunidade de tentar ser de novo um homem. Se leram a minha crónica anterior, sabem que tenho agora uma casa e estou novamente integrado na sociedade.

Aliás, estas crónicas são prova disso. Nunca poderia ter escrito nada do que vos escrevi, se não possuísse o mínimo de equilíbrio, tanto a nível físico como emocional. No entanto, foi duro. Foi muito duro escrever estas crónicas.

Podem não acreditar, mas do que mais precisei para as escrever foi de coragem. Se me têm acompanhado desde o início, devem poder constatar que é preciso muita coragem para fazer um relato do que é viver nas ruas. É muito difícil escrever sobre miséria e falta de dignidade. Conheço duas pessoas, ex-sem-abrigo como eu, que já me confessaram que seriam incapazes de fazer o que fiz.

E afinal que fiz eu? Nada de mais. Simplesmente falei sobre aquilo que, lá está, muitos não têm coragem. Mas eu ganhei essa coragem. E decidi escrever sobre aquilo que fui, muitos foram e ainda são: uma pessoa sem-abrigo.

Caros leitores, acreditem que não o fiz por protagonismo nem para melhorar a minha condição social, embora deva confessar que foi bom ser pago por aquilo que escrevi. Foi muito engraçado ganhar alguma notoriedade. Foi um privilégio para mim estar sentado a uma mesa com pessoas como a Catarina Carvalho, uma jornalista que sempre admirei e com o Ferreira Fernandes, um “monstro sagrado” da nossa comunicação social, assim como os restantes profissionais que conheci em a Mensagem de Lisboa, que têm sido fantásticos, em especial o apoio da jornalista Catarina Reis.

Senti-me como quem canta umas tímidas “rockalhadas” no banho e, de repente, é convidado para trabalhar com os Rolling Stones. E acrescento o facto de que nunca fizera nada similar ao que fiz para este jornal.

Mas, repito, não foi isto que me moveu. Eu quero ajudar. Não chega aquilo que faço diariamente pelos sem-abrigo. O que faço é aquilo que chamo de ajuda direta, o que é bastante importante. Fazer chegar comida a quem não tem é essencial. Lavar a roupa a quem não tem meios para o fazer é necessário. É fundamental estar junto das pessoas sem-abrigo, para conhecer as suas necessidades e ajudar no terreno. Terreno esse que fez parte da minha vida durante meses e que conheço bem.

Tudo isto é importante. Tudo isto é necessário, mas não chega. De que serve dar a uma pessoa sem-abrigo uma refeição, uma muda de roupa lavada e até uma ou duas moedas, se ela continuar a viver na rua? De que serve dar apoio moral a uma pessoa, quando ela sabe que à noite terá de dormir novamente ao frio e à chuva? De que servem palavras animadoras dirigidas a pessoas que vivem num mundo onde a esperança já não existe? De que vale a lógica e a razão dirigidas a pessoas que estão afundadas no desespero e, por vezes, a enlouquecer? Como pode alguém ter a mente e o espírito abertos, quando vive como os cães?

Espero, assim, que estas crónicas sejam um alerta e que, pelo menos, contribuam para que todos saibam o que é o inferno de sobreviver nas ruas. Sobreviver de formas que pessoas na nossa sociedade nem sequer imaginam viver, mas que pactuam diariamente com essa forma de sobrevivência. É aqui que está a raiz do problema.

Vivemos numa sociedade sem empatia humana. Quanto a mim, já não sou sem-abrigo. Ou será que ainda o sou? E não sendo uma coisa nem outra, quem serei eu?

Calculo que isto seja difícil de entender. Nesta crónica final, gostaria que as minhas palavras fossem lógicas e esclarecedoras. Mas como posso explicar-vos aquilo que nem eu consigo entender?

Muitos de vós viram este vosso narrador no programa televisivo do Manuel Luís Goucha, uma outra surpresa agradável. Claro que fiquei feliz por ele ter lido as minhas crónicas e, em resultado disso, me convidar para o seu programa. Uma coisa é certa: o que escrevi pelo menos “barulho” já fez. E é precisamente esse “barulho” que quero fazer.

Quem viu o programa ouviu a última pergunta que o Goucha me dirigiu. Essa pergunta foi simples: perguntou-me apenas quem eu era. Perguntou-me que homem era aquele que ali estava. Respondi que não sabia.

E é a verdade, caros leitores. Não sei. Sei quem fui no passado, mas não sei quem sou hoje. Tenho casa, sim. E estou grato por isso. Mas olho para a minha casa de uma forma como nunca olhei para as anteriores que tive. Vivo numa casa de uma forma como nunca vivi em nenhuma. Olho para a vida como nunca olhei e vivo a minha vida como nunca vivi. Talvez porque eu esteja diferente. Dou valor a coisas às quais não dava no passado ou nem sabia que existiam.

Viver e sobreviver nas ruas modificou-me. Mas será que modificou? E se eu estiver afinal a descobrir o verdadeiro Jorge? E, caso isso seja verdade, porque não o conheço e não sei lidar com ele? Porque não sou feliz? Porque me sinto apenas grato?

É estúpido pensar assim. É como se eu dissesse que, para adquirir alguma maturidade e autoconhecimento, tive de ser uma pessoa sem-abrigo e viver no inferno. Não faz sentido. Como disse, não sei quem sou. Apenas posso dizer o que faço e o que sinto. E sei apenas o que quero fazer, embora não saiba ainda muito bem como.

Não sinto culpa por ter sido uma pessoa sem-abrigo. No meu passado, fiz coisas de que não me orgulho e cometi os meus erros, mas não foram os fatores responsáveis por ir parar à rua! Fui uma pessoa sem-abrigo como tantas outras que ficam desempregadas e sem dinheiro para pagar a sua habitação.

Durante os quase nove meses em que vivi nas ruas, arrependo-me de ter feito algumas coisas. Mas fiz essas coisas porque tinham de ser feitas. Por sobrevivência. Mas pronto, tudo isto é passado. Só que o meu passado é prólogo.

Não, não estou louco. Pelo contrário. Mas muitos enlouqueceram. Sou apenas um homem diferente. Sei que ninguém vai entender isto, mas parte de mim ficou nas ruas. Algo ficou lá e vai lá ficar para sempre. A miséria está lá também. A miséria existe. Nas ruas e dentro de mim. E essa miséria nunca irá sair cá de dentro.

A Catarina Reis entrevistou um sem-abrigo, o Rogério, aqui para a Mensagem, e ele disse a mesma coisa. E muitos que conheço dizem o mesmo.

O que será isto? Não sei. Não vou perder tempo a tentar resolver esta “charada”. Apenas sou um homem que muitas vezes olha para a janela de casa, por mais confortável e quente que se sinta. O frio está lá fora! Os leitores pensarão: “É claro que o frio está lá fora, que grande novidade…!” Sim, eu também sempre soube isso. Mas o que se passa agora é que estou lá fora também. E os leitores perguntarão: “Está lá fora? Então, mas o gajo já não tem casa?”

Sim, tenho. Mas, quando ouço chover, o Jorge continua a dormir à chuva. Quando, por vezes, na minha casa, faço para o jantar um bifinho com batatas fritas, sinto ainda o gosto da merda na minha boca. E quando, às vezes, faço uma boa sandocha fora da hora das refeições, depois de ter já almoçado ou jantado, e penso que alguém deveria estar a comer no meu lugar? Uma vez, quando fui colocar o saco com o meu lixo no contentor da rua, fiquei a olhá-lo como se ele fosse perguntar-me algo. E, mentalmente, respondo que sim, que já me alimentei dele. Estive quase a pedir desculpa a um contentor de lixo…

Paro na rua quando vejo um sem-abrigo. A minha alma chora quando vejo alguém a dormir num canto imundo desta cidade e já dei a quem precisava dinheiro e comida que me faziam falta. Acham que estou louco? Talvez.

Mas, se for esse o caso, existem muitos mais. Há um homem a quem, tal como a mim, foi oferecida uma casa ao abrigo da “Housing First”. Nos primeiros dias, dormiu no chão, pois não conseguia dormir na cama.

No mês passado, fui visitar um companheiro meu também ao abrigo deste programa e a casa de banho dele estava imunda. Parecia uma casa de banho pública. Já não sabe viver civilizadamente.

E quem sou eu, então? Não sei. Apenas sei dizer o que não sei se alguém irá entender: o homem que está neste momento a escrever estas linhas ficou lá fora e sou eu que estou aqui dentro.

Quem serei eu? Talvez um sem-abrigo com casa. É a definição que criei que mais se ajusta ao homem que sinto ser. Mas será que é mau? Um dia destes, dei por mim a pensar que se todos nós sentíssemos a miséria dentro de nós, talvez a miséria não existisse.

Muito obrigado a todos vós por me terem lido.

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