Diário de um sem-abrigo
Tomei três duches quentes e ando pela minha nova casa, nu e a dançar.
TOMEI TRÊS DUCHES QUENTES E
ANDO PELA MINHA NOVA CASA, NU
E A DANÇAR.
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“H oje é o primeiro dia do resto da tua vida.” Quem não conhece este refrão de um tema do nosso Sérgio Godinho? Confesso que não sou muito admirador da música dele, mas naquele final de manhã de 11 de maio de 2020, este refrão não me saía da cabeça.
Acabara de entrar no metropolitano na Gare do Oriente, em direção ao Areeiro. Suponho que nunca viajei tanto em transportes públicos como naqueles dias. Em pleno pico da pandemia da Covid-19, os transportes públicos em Lisboa eram gratuitos. Dirigia-me para o Complexo Desportivo Municipal do Casal Vistoso, naquela altura um centro de acolhimento para pessoas sem-abrigo e onde eu estava há quarenta e cinco dias.
Eu e mais de uma centena de pessoas. Foi fantástico para mim. Ter diariamente cama, comida e banho deu-me a oportunidade de me reestruturar um pouco, tanto ao nível pessoal como social. Tornou-se diferente arrumar carros ou mesmo pedir umas moedas depois de tomar o pequeno-almoço no Casal Vistoso e sabendo que teria ainda mais quatro refeições. Almoço, lanche, jantar e ceia. E, finalmente, dormir abrigado e quente, longe do frio, da chuva e longe dos pisos empedrados ou de asfalto. E era mais fácil conseguir dinheiro para lavar a roupa na lavandaria, pois já não necessitava de me preocupar com a comida.
Com a roupa que me dera a irmã do Sr. António e com o banho tomado, depressa constatei que já não me identificavam como um sem-abrigo. E isso foi a melhor coisa que poderiam dar-me! Recuperei a minha dignidade e podia caminhar na rua de cabeça erguida. Todos nós partilhávamos esse sentimento.
“Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida …”
Não consegui deixar de cantarolar baixinho a melodia à medida que o comboio se aproximava da estação do Areeiro. Era hoje o dia em que iria viver para uma casa. Todos nós tínhamos dificuldade em acreditar nisso, mas, ao que parecia, era a mais pura das verdades. Eu nem conseguia dar interiormente largas à minha suposta felicidade, pois ainda era muito difícil acreditar nisso.
Constava que a Câmara Municipal de Lisboa, em parceria com diversas entidades e associações de apoio social, estava a realizar vários projetos de apoio aos sem-abrigo. Um deles, o “Housing First”, consiste em fornecer casas individuais aos sem-abrigo que reúnam determinadas características. Totalmente financiadas pela câmara, as associações disponibilizam uma casa completamente equipada, com todas as despesas pagas e com apoio técnico regular, para que cada um de nós possa mudar de vida.
A única despesa da pessoa sem-abrigo será pagar à respetiva associação uma pequena percentagem do seu eventual rendimento. Caso não tenhamos rendimentos, o que acontecia com a maioria de nós, não pagamos rigorosamente nada até termos trabalho ou a atribuição do Rendimento Social de Inserção.
“Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida…”
De manhã, já arrumara as coisas e fizera a mala. Portanto, agora era almoçar e esperar. Assim que cheguei ao pavilhão, coloquei-me em terceiro lugar na fila do almoço. No primeiro lugar da fila estava o Nuno, o outro “contemplado” a sair comigo nesse dia para as nossas novas residências. Olhámos um para o outro e sorrimos. Nunca vira o Nuno na fila do almoço, mas, naquele dia, ele era o primeiro. Como se entendesse o meu olhar, disse-me baixinho: “Só acredito quando vir, só acredito quando lá estiver…”
Mas que “raça” esta, os sem-abrigo! Não confiávamos em ninguém. No dia anterior, a própria diretora do centro, a Teresa Bispo, garantira-nos que, na noite seguinte, já estaríamos a preparar o nosso jantar numa casa nossa e, ainda assim, estávamos com reticências! Mas, ao mesmo tempo, parecíamos dois noivos no altar, esperando a respetiva noiva, ansiosos e confiantes.
Depois do almoço, sentei-me na minha cama, a verificar o interior da mala e da mochila como se nunca o tivesse feito. Nos últimos oito meses, não fizera outra coisa, vezes sem conta, diariamente nas ruas, mas agora… Agora, sentia que estava a fazê-lo pela última vez, pois ia para casa.
Disseram-me que existia um tal de “roupeiro” lá na casa. E que lá na casa também haveria um tal de “armário”. Na casa! A palavra “casa” bailava dentro de mim como se eu nunca tivesse tido nenhuma.
Arrumei a mala debaixo da cama, coloquei a mochila às costas. Não foi preciso esperar muito tempo. Assim que acabara de me sentar cá fora, na escadaria lateral, vi chegar a Teresa Duarte, diretora da AEIPS, a associação com quem eu assinaria contrato ao abrigo do programa “Housing First”. Acompanhava-a uma outra técnica da associação, a Lúcia Zaffaroni. Levantei-me de imediato, quase correndo em direção à entrada.
O Nuno chegou primeiro junto delas, pois estava dentro do edifício. A Teresa Duarte olhou para nós, um pouco surpreendida. Perguntou: “São o Jorge e o Nuno?” Dissemos que sim. “E então? Já têm tudo pronto?”, inquiriu, sorrindo.
Nem sequer respondemos. Numa espécie de corrida, fomos à camarata buscar as malas. Estávamos ansiosos por sair, mas demorámos ainda um bocado a despedir-nos de algum pessoal que nos era mais próximo e que ainda lá ficaria.
Os que ficavam olhavam para os que saíam para as casas com aquela expressão incrédula e desconfiada que eu tão bem conhecia. Não nos livrámos de uns bons “calduços” de parabéns e de votos de força e de boa sorte.
Quando chegámos novamente ao átrio, tínhamos à nossa espera dois grandes sacos de ráfia cheios. Foi a própria Teresa Bispo que os entregou. Citando as palavras dela, eram apenas um “pequeno enxoval” que ela fazia questão que todos os “seus meninos” levassem para as suas casas. Lençóis, toalhas, produtos de higiene, mercearias e alguma comida.
Eu já aprendera a não chorar. Já aprendera nas ruas a não revelar aquilo que vai cá dentro. Mas, naquele momento, não consegui conter duas ou três lágrimas. Despedi-me dela com um abraço. Quando a encarei, vi também lágrimas nos seus olhos.
Lembro-me daquele início de tarde como se fosse hoje. Tive a sorte de sair do pavilhão primeiro do que o Nuno, viajando num táxi ao lado do motorista e com as técnicas da AEIPS no banco de trás, a caminho da minha nova casa.
A minha cabeça estava a mil à hora… Que momento surreal. De táxi para casa! Lembrei-me várias vezes do Zé. Quase o ouvia dentro do táxi, a dizer-me brejeiramente: “Ei, Panda de um cabrão! De táxi à patrão, hã?” Decerto seria isso o que me diria se estivesse ali. Por duas vezes, olhei pela janela do automóvel, desejando estupidamente vê-lo numa esquina de uma rua qualquer.
Por fim, chegámos a Alfama! Alfama, o carismático bairro milenar da nossa cidade, bairro esse em que me esperava a minha casa, um pequeno apartamento. Localizava-se num falso rés do chão, pois a porta do prédio e as duas respetivas janelas da fração ficavam quase ao nível de um primeiro andar ao cimo de uma escadaria.
À entrada, a Lúcia Zaffaroni entregou-me a chave, dizendo para eu abrir a porta, pois a casa era minha. Fitei-a durante alguns segundos, pousei no chão a mala e o “enxoval” e, de seguida, meti a chave na porta. Abri-a e entrei na minha casa.
Não sei descrever o que senti naquele momento. Encontrava-me numa sala muito bem decorada. Um sofá de quatro lugares com um candeeiro de leitura, uma mesa de jantar estilo americano encostada à parede, com quatro bancos também, um televisor LCD numa mesa rasteira ao canto e um baloiço rústico suspenso numa das traves do teto, ficando à direita as duas janelas que davam para a rua e, à esquerda, um pequeno quarto com um delicioso beliche duplo, com o tal armário e com o tal roupeiro.
E vejam lá, que “infelicidade” a minha, uma cozinha totalmente equipada e uma moderna e convidativa casa de banho. Fiquei ali de pé. Estático. A olhar para todos os cantos da casa. Nem tinha levado para dentro a mala e o saco, pois foram as técnicas que os colocaram ao pé de mim. Mas não via a minha mochila e disse, um pouco aflito, que a perdera ou a deixara no táxi. “A mochila está nas suas costas, Jorge”, esclareceu-me a Lúcia Zaffaroni, sorrindo.
Sorri também. E fiquei na minha casa.
Já passava das duas horas da madrugada e eu não conseguia dormir. Acham estranho? Talvez seja. Finalmente, estava a viver numa casa com uma cama confortável e não conseguia dormir. Desde que ficara sozinho na casa, parecia uma criança a querer experimentar todos os brinquedos recebidos num dia de Natal.
Tomei duches quentes três ou quatro vezes e andava pela casa nu e aos pulos. A televisão ainda não estava ligada a qualquer tipo de antena, mas eu sentava-me confortavelmente no sofá, a olhar para ela. Ainda não tinha forma de ouvir qualquer tipo de música, mas cantava e dançava feito doido.
Não tinha sono. Pudera! Durante todo o dia, usei várias vezes a máquina do café, com as pastilhas que me tinham deixado lá num cesto. Devo ter bebido mais de seis cafés!
Brincava com o micro-ondas, brincava com a torradeira e com a cafeteira elétrica… Nem imaginam o prazer que me deu encher e arrumar o frigorífico e os armários da cozinha com todas as coisas que tinham vindo no “enxoval” da Teresa Bispo do Casal Vistoso.
Peço desculpa aos meus leitores, pelo meu palavreado, mas lembro-me de estar chateado por não ter vontade, pois queria usar a sanita! Sentei-me nela, cantando alto o que havia cantarolado desde o início da manhã: “Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida!”
Ao cair da noite, a minha euforia focou-se no fogão elétrico de quatro bicos, cozinhando finalmente o meu jantar acabadinho de sair do meu “enxoval”. Depois do jantar, fui dar uma volta por Alfama, apenas para pedir uns cigarros a quem passava, para depois levar para casa. Havia muito pouca gente na rua, mas lá consegui arranjar quatro ou cinco no espaço de uma hora.
As pessoas olhavam-me de uma forma estranha. Decerto estariam a pensar que mosca teria mordido àquele gajo, em plena pandemia, feliz da vida e a pedir cigarros. Durante oito meses, pedira cigarros na rua com angústia e vergonha. Mas, naquela noite, eu andava a pedir tabaco às pessoas cumprimentando-as com um sorriso e desejando alegremente boa noite mesmo a quem não me dava um cigarro e me mandava dar uma curva.
Não me dão um cigarro? Olha que bom. Sabem uma coisa? Vou pra casa! E jantei que nem um abade! Se não me derem um cigarro, apanho uma beata pelo caminho, que deve ser agora deliciosa comparada com todas as que apanhei nas ruas. E agora, vou tratar da minha vida! Tenho tempo.
Voltei. Tenho tudo de que preciso para mudar finalmente a minha vida, o que era impossível sem ter um teto. Porque será que este mundo parece não perceber que um ser humano sem casa para dormir, sem água para se lavar, sem nada para comer e com a roupa a cheirar mal não consegue mudar a sua vida? Quem não conhece ou faz a costumeira pergunta dirigida à pessoa sem-abrigo: “Porque não vai trabalhar?”
O Instituto do Emprego e Formação Profissional anulou a minha inscrição nos seus serviços, além de me impossibilitar de receber o Rendimento Social de Inserção. E porquê? Porque não acusei a receção de uma convocatória para um emprego, que fora enviada por correio. E como e onde receberia eu a carta? Debaixo do viaduto na Gare do Oriente? Na entrada do Museu Militar? No vão de escada de um prédio em obras na Rua da Madalena?
Como sabem se eu li a convocatória ou não? Nunca tive acesso à carta. A carta não foi enviada com registo ou com aviso de receção. O que escreveram eles no meu processo? Desaparecido? Falecido? Mudo? E caso tivesse recebido a carta, como me apresentaria eu para uma eventual colocação profissional? Com a roupa rasgada e sem tomar banho? Completamente desestruturado como cidadão e como ser humano?
Não sei as respostas. Apenas conheço as per-guntas. As que acabo de escrever e muitas que não escrevi. Mas talvez um dia as escreva. E apenas repito o que escrevi na minha primeira crónica em alusão à nossa sociedade: “Estás a subir? Nós ajudamos-te a subir. Estás a descer? Nós ajudamos-te também a descer. Bem fundo.”
Caros leitores, as minhas crónicas estão a chegar ao fim. Aliás, a que estão a ler bem poderia ser a última. Mas, se quiserem continuar a ler-me, ainda gostaria de partilhar convosco mais uma. Mais um pedacinho da minha vida. Na minha primeira crónica, propus-me a partilhar com todos vós a minha experiência como pessoa sem-abrigo. O que é ser um sem-abrigo. Ao longo destes meses, partilhei aqui essa experiência e, finalmente, tenho uma casa. Já não sou sem-abrigo. Mas será que deixei de o ser? Ou será que parte de mim ficou perdida nas ruas onde dormi e onde vivi? Que homem sou hoje? Que homem fui e que homem vou ser? Tentarei dizer-vo-lo na próxima e última crónica.
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