Diário de um sem-abrigo
Prefácio por Marcelo Rebelo de Sousa – Diário de um sem-abrigo
PREFÁCIO
Diário de um sem-abrigo
por Marcelo Rebelo de Sousa
À Mensagem de Lisboa – e, muito concretamente, a Catarina Carvalho – devemos a publicação deste Diário descompassado de Jorge Costa.
Sem abrigo, com intermitências, este seu depoimento é diferente dos poucos entre nós escritos, normalmente em obras de estudo ou ensaio, acerca das dificuldades da vida dos carecidos, não só de casa condigna, como, desde logo, de teto.
Jorge Costa viveu o ser sem-abrigo com total e contundente independência crítica.
Mesmo quando conheceu a experiência de uma casa, estilo quase “Housing First”, manteve sempre a ligação à rua, a vivência da rua, a memória da rua.
Daí a força do presente testemunho.
Distanciado, na análise lúcida do seu percurso, no meio de tantos outros, tão diversos.
Capaz de avaliar as fragilidades, mas também a coragem cívica de lutar, até ao fim, por uma causa que sabia coletiva.
Porque – é bom que se diga, uma, duas, três, vezes sem conta – os sem-abrigo, como os subalojados, os apoiados por cuidadores informais, e tantos outros – não são só um desafio pessoal, são um desafio comunitário.
Perante ele não podemos fazer de conta. Existe e é grave. E é um desafio de todos nós.
Recordo, sempre, uma de milhentas histórias que vivi. Em Lisboa. Em 2019. Numa das maiores avenidas. Maiores e com mais lojas de bens ou serviços de luxo.
Numa esplanada, jovens naturalmente privilegiados, comiam e bebiam.
Para chegar até a um sem-abrigo, que, há anos, dormia num recanto de um dos prédios, atrás da esplanada, tinha de pedir licença àquela multidão de quadros qualificados, pletóricos de futuro.
A custo, passei. Aí, eles notaram e estranharam o que ali fazia.
Quando lhes apontei a razão do incómodo – um sem-abrigo, que desconheciam, apesar de, dia sim, dia não, por lá andarem, pasmaram.
Mas, havia mesmo um sem-abrigo onde eles nunca o tinham visto?
É, também, por causa de histórias como esta e muitas mais, que livros como o de Jorge Costa são essenciais.
Como essencial é que as receitas da sua venda permitam criar um prémio para jornalismo sobre sem-abrigo.
Há de haver um dia em que os “invisíveis”, “inconvenientes”, “ignorados” das ruas de Portugal entrem pelos olhos dentro da grande maioria dos portugueses.
Porto, 7 de maio de 2022
OceanofPDF.com