Diário de um sem-abrigo
“Não podes ir pedir assim vestido. Muda de roupa e vamos à vida!” Dicas de uma sobrevivência sem-abrigo.
“NÃO PODES IR PEDIR ASSIM
VESTIDO. MUDA DE ROUPA E VAMOS
À VIDA!” DICAS DE UMA
SOBREVIVÊNCIA SEM-ABRIGO.
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A cordei. Por momentos, não sabia onde estava. Mas rapidamente me vieram à mente o dia e a noite anteriores. E o corpo dorido por ter dormido no banco de jardim confirmava a minha realidade. A manhã já ia avançada e o sol já me aquecia o rosto. Como num sonho, olhei para o relógio do telemóvel. Passava das oito. Senti um aperto no peito. O desespero voltou a tomar conta de mim.
Tapei a cabeça com o cobertor, para tentar raciocinar. Estive assim alguns minutos, pensando que seria melhor não ter acordado, pois o verdadeiro pesadelo iria começar agora.
O parque já não estava silencioso como na noite anterior. Ouvia vozes de adultos e de crianças, cães a ladrarem e o barulho do trânsito ao longe. Nisto, senti no ombro dois toques leves, acompanhados por uma voz masculina e austera: “Bom dia. Está acordado?” Destapei a cabeça e olhei para cima, semicerrando os olhos por causa do sol, e deparei-me com o colete amarelo e a farda de um agente da Polícia Municipal. “Estou, sim”, respondi. “Ouça, não pode dormir aqui”, disse ele, com um ar autoritário, mas muito afetado e apreensivo.
Vi nos olhos dele que a sua tarefa era ingrata. Respondi que não tivera onde passar a noite. E ele retorquiu: “Este parque é privado. Mantenha-se sentado e com a roupa de cama dentro da mala.” Roupa de cama, pensei eu. Era apenas um cobertor! Disse ao agente para não se preocupar, porque iria de imediato sair dali. Parque privado… pelos vistos, de futuro teria de dormir num sítio público.
Dominado pela raiva e pela humilhação, encaminhei-me de novo, com a “casa” às costas, para a Gare. E voltei a sentar-me junto ao terminal dos autocarros, sem saber o que fazer. Senti então necessidade de me lavar. Olhei para o espelho do telemóvel e estava horrível. Despenteado, com ramelas nos olhos e com os normais vincos no rosto da noite dormida.
Dirigi-me então para a casa de banho pública da Gare. A meio do caminho, fui interpelado pelo sujeito que me pedira um cigarro no dia anterior e que sabia que eu não tinha dinheiro. Perguntou, em jeito de retórica: “Então? Ainda por aqui?” Nem sequer respondi. A situação era óbvia. Perguntou-me se eu já comera alguma coisa. Eu disse que não. Não comia nada há mais de trinta horas. Ele rapidamente retirou a mochila velha das costas e, de lá de dentro, um pão com queijo e um pacote pequeno de sumo, dizendo: “O pão não é de hoje e o sumo já ‘tá fora do prazo, mas ‘tá-se bem. São do carro de apoio de ontem à noite. Daqui a pouco, vem o pequeno-almoço.”
Só vos digo que comi em três ou quatro dentadas aquela carcaça dura com queijo já ressequido, enquanto ele me olhava, sorrindo. Que bem que me soube. O sumo, então, bebi-o como se não bebesse um há anos… Fiquei bem, agradeci e sorri-lhe também. Então, ele fitou-me durante uns segundos e perguntou-me: “Que vais fazer agora?” Respondi que não fazia a mais pálida ideia. Ele olhou-me de alto a baixo e indagou: “Queres andar comigo?” Desconfiado, perguntei: “Para fazer o quê?” E ele respondeu, rindo-se: “Para andarmos juntos. Queres?” Olhei-o e ele gritou: “A fazer-nos à vida, caralho!”
Confesso que gostei da forma como ele respondeu. Inspirou-me confiança e era a primeira oferta de ajuda que recebera desde que chegara no dia anterior. Concordei, mas disse-lhe que primeiro teria de ir arranjar-me à casa de banho. Ao ouvir isto, ele disse-me muito depressa: “Fazer o quê à casa de banho? Não achas que estás já com demasiado bom aspeto para ir pedir? Aliás, ainda ‘tás limpinho de mais… Para já, temos de refundir essa mala e essa mochila. Assim, ninguém te dá guito. Anda comigo ali ao viaduto, para guardar isso.”
Hesitei, desconfiado outra vez… No fundo, eu não sabia com quem estava a falar, certo? Ele olhou para trás e, como se me lesse os pensamentos, disse-me com clareza e assertividade: “Ouve, ó bacano, não confias em mim? Tens escolha? Se não quiseres vir comigo, ‘tás à vontade. Olha, boa sorte!”
Pedi-lhe desculpa, mas ele teria de entender as minhas dúvidas. Eu não sabia sequer o nome dele, nem sabia o que iria fazer… Ele suspirou, um pouco enervado e revirando os olhos como quem já tivesse ouvido aquilo centenas de vezes. Depois, disse, mais calmo: “Que te interessa o meu nome? Que me interessa o teu? Mas ‘tá, sou o Zé. Ou, então, chama-me ‘padrinho’. Vamos embora ou ficas aí a pastar?”
Ri-me e disse-lhe que o meu nome era Jorge. E lá nos dirigimos rapidamente para o tal viaduto, fora do perímetro do parque. Perguntei porquê o termo “padrinho”, porque é que ele queria ajudar-me e o que iríamos fazer. E, sem parar de caminhar, ele ia respondendo às minhas perguntas. “Olha, Jorge, se quero ser teu padrinho, é porque em tempos também tive alguns. E tu, se te aguentares nesta merda, um dia também vais ser padrinho doutro cromo qualquer. O que vamos fazer? Já se vê…”
Chegámos ao viaduto. Caminhámos para a parte que vai descendo em direção ao chão. E vi o “cantinho” do Zé. Um colchão velho encostado à dobra entre o princípio do viaduto e o chão de pedra. Era o sítio mais acolhedor para se dormir. Um cobertor velho para se tapar e um outro, enrolado, a servir de almofada. Ao lado, um fogão Petromax de um só bico e três ou quatro garrafas de água. E debaixo de uma enorme caixa de cartão, improvisando um armário, ele guardava uma mala grande com roupa, um saco de plástico com latas de conserva e um pacote de vinho já aberto.
À volta, parecia uma lixeira. Senti-me enojado. Ele reparou na minha expressão, mas não disse nada. Pediu-me apenas a minha mala e a minha mochila para guardar, perguntando: “Tens alguma coisa de valor dentro dos sacos?” Eu disse que não. Só a roupa de que precisava, duas toalhas e algumas fotos do meu passado recente, de família e pouco mais. O telemóvel estava comigo.
Enquanto ele dispunha as minhas coisas debaixo do “armário” de cartão, perguntei se era seguro deixá-las ali. Ele perguntou, ironicamente: “Tens algum sítio melhor?” É claro que não consegui responder-lhe. Mas ele acrescentou: “Recua dez metros e olha para aqui. Vês o quê? Uma lixeira… Achas que alguma pessoa vem aqui procurar alguma coisa? Só quem pode saber que talvez haja aqui qualquer coisa, são os outros… mas esses sabem que este canto tem dono. Mas é sempre um risco que temos de correr.”
“Os outros? Quem são os outros?”, perguntei. Sem me olhar, ele respondeu que os outros eram os restantes sem-abrigo que dormiam nas imediações. E continuou: “Bom… temos de arranjar um colchão para ti.” Quando ele disse isso, perguntei outra vez porque é que ele estava a ajudar-me. Ele sorriu e respondeu: “Olha, não sei… Sabes, isto aqui é só animais. Tens de ter cuidado, ouve… há aqui de tudo.” Dizendo isto, levantou a bainha das calças e vislumbrei, entre o tornozelo e a meia suja, a ponta de uma faca.
Baixou de novo a bainha e continuou, sorrindo: “Porque te ajudo? Talvez porque chegaste ontem aqui à selva. És novo ainda.” E acrescentou: “Depois, há bichos que inspiram mais confiança do que outros… E tu tens cara de panda!” E eu retorqui de imediato: “Não querendo insultar o meu padrinho, acho que tu tens cara de cão com pulgas!” Rimo-nos ambos à gargalhada. Ele pegou no pacote de vinho, perguntando: “Vai um Porca de Murça marca loja indiana a 70 cêntimos? É uma grande merda, mas é o que se pode arranjar!” Claro que aceitei.
Quando ele ia a beber o seu gole, passou um indivíduo com muito mau aspeto, um sem-abrigo também, e perguntou: “Dá para dar uma bicada?” O Zé mudou para uma expressão rude, respondendo-lhe: “Não! Não há nada para ti aqui. Arranja o teu. Andamento!”
Enquanto o outro se afastava e depois de eu acabar de beber o meu gole daquela zurrapa de pacote, perguntei ao Zé porque não quisera dar ao outro um gole de vinho. Pensei que existisse solidariedade entre os sem-abrigo. O Zé olhou-me nos olhos com uma expressão como ainda não lhe vira e disse-me: “Olha, tu fazes o que quiseres. Mas de uma coisa te aviso: aqui, neste mato, um homem não chega, dois são o suficiente e três são de mais! Acredita no que te digo. Depressa vais entender.”
Fiquei a olhar para ele com aquelas palavras a bailarem-me na mente, sem perceber nada. Mas nunca as esqueci. Esta crónica que escrevi hoje para vocês, caros leitores, foi inspiradora e encorajadora. Recordo-me de que passei uma manhã boa na companhia do Zé, o meu padrinho. Mas foi apenas o começo de toda a minha experiência.
Nessa altura, eu ainda estava longe de imaginar o inferno e o sofrimento por que iria passar. Ainda estava longe de conhecer os perigos e as lesões irreparáveis que me esperavam. Deixo isso para as próximas crónicas, se quiserem acompanhar-me.
E acabo este relato com o que o Zé me disse logo a seguir: “Eh, pá, vais ter de deixar aqui essa t-shirt e essas calças. Parece que saíste agora do escritório. Como é que podes ir pedir assim? Toma esta roupa e vamos à vida!“ E lá fui eu ao lado do Zé, com uma t-shirt com o logótipo de uma marca de pneus, puída e desbotada, e uns jeans coçados que só conseguia apertar até ao segundo botão. E fomos fazer-nos à vida.
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