Diário de um sem-abrigo
Há prostituição organizada nas casas de banho da Gare do Oriente.
HÁ PROSTITUIÇÃO ORGANIZADA
NAS CASAS DE BANHO DA GARE DO
ORIENTE.
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H avia já duas semanas que eu vivia na rua. Pensei nisso quando acordei mais uma vez encostado à parede do viaduto. Viver? Bom, o termo correto seria “sobreviver”. Sobreviver dia a dia, hora a hora, minuto a minuto…
Um sem-abrigo não tem nada de seu. Apenas os seus pertences, aquilo que transporta consigo e o que, eventualmente, possa ter guardado no sítio onde passa a noite. E, como é óbvio, tudo o que tem guardado debaixo de um viaduto ou de uma ponte, debaixo de um colchão ou numa mala ou num saco, pode desaparecer durante o dia.
Os sítios onde os sem-abrigo tentam organizar-se e fazer os seus “cantinhos” pessoais estão sempre sujeitos a vandalismo e a que alguém roube tudo o que lá está. Roubar… O termo não será bem este. Já diz o célebre chavão que achado não é roubado. As coisas simplesmente desaparecem. Por muito bem escondidas que estejam, em sítios cuidadosamente escolhidos, aquilo que nos pertence está na via pública.
Estes nossos “cantinhos” podem até ser removidos ou limpos. Podem ser considerados lixeiras pelas autoridades na matéria. E vamos queixar-nos de quê e a quem?
Depois, há a questão da privacidade. Ou da falta dela. Estamos permanentemente expostos aos olhos de toda a gente: quando dormimos, quando comemos, quando nos lavamos. Para os outros, talvez sejamos “poluição visual”, expressão que ouvi da boca de alguém que me deu uma moeda. Bem, o que sei é que somos, de facto, diferentes. Na vida e na sociedade. Mas é precisamente nessa diferença que estamos presos. Porque somos pessoas sem casa.
Poluição visual. De facto, o sítio onde eu dormia era uma lixeira! Comecei a pensar que teria de descobrir um melhor. Não conseguia arranjar um colchão e conhecia muitos sem-abrigo que encontravam e escolhiam locais melhores para dormir. Já falara nisso ao Zé, mas ele gostava de estar ali. Dizia que não havia confusão. E não havia. Era uma espécie de abrigo só nosso. Podem não acreditar, mas não é fácil vivermos uns com os outros.
O mundo onde passei oito meses era uma autêntica selva. Era quase cada um por si. Por isso, normalmente, um sem-abrigo só tem um outro sem-abrigo por companhia regular. É uma questão de confiança. É um parceiro. Como disse um dia o Zé: “Para viver aqui, um não chega, três são de mais.”
Vivi num mundo onde também existem leis: as leis da rua. Quer dizer, regras a cumprir em que, afinal, não existem leis nenhumas, códigos de conduta em que a moral e a coerência deixaram de existir. Mas é evidente que, como em tudo na vida, há exceções.
Havia, e continua a haver, grupos de sem-abrigo, como já devem ter visto, em miniacampamentos junto a pontes, viadutos, prédios abandonados e estações de comboios, a viverem numa espécie de comunidade. Mas, regra geral, viver nas ruas significa cada um por si. É uma sobrevivência quase primitiva. Como dizia o Zé, irritando-me: “Morde, senão és mordido.” Por vezes, tinha dificuldade em aceitar aquela realidade.
Nessa manhã, lembro-me de que me espreguicei, massajei o corpo e fiquei a olhar para a Gare do Oriente. Aquilo era uma espécie de gueto para sem-abrigo. Era ali o “rendez-vous”, como eu lhe chamava, para todos nós. É onde estão as casas de banho, é onde vão os carros de apoio com alimentos e, por vezes, roupa, é onde estão as salas de espera para podermos carregar os telemóveis, é onde estão os cinzeiros com as beatas grandes e atraentes para fumar, é onde passam pessoas para pedirmos moedas, é onde está a rede wi-fi gratuita da Carris, é onde conversamos. Isto sempre sob o olhar atento dos seguranças da Gare. Sim, porque alguns sem-abrigo também roubam comida nas lojas.
Outros prostituíam-se nas casas de banho. As pessoas que usam a estação para apanharem os seus comboios não se dão conta de que existe uma espécie de prostituição organizada nas casas de banho da Gare, mas qualquer sem-abrigo que as use frequentemente se apercebe disso.
Fechando a porta do cubículo sanitário, vê-se no seu lado interior as inscrições a caneta, com números de telemóvel com os respetivos textos convidativos e até os preços. Era um mundo-cão, pensava eu. Exploração total da pobreza.
Depressa reparei, à saída das casas de banho, em homens que passeavam discretamente junto à máquina automática do café. Homens com bom aspeto e com dinheiro… E, olhando para quem saía do cubículo, mais tarde soube que existia uma meia dúzia de sem-abrigo que “fazia” assim o seu dinheiro diário.
É a triste realidade da pobreza: onde há miséria, há sempre abutres. Um submundo perigoso, ali, numa das mais prestigiadas estações ferroviárias da capital. Com o Vasco da Gama e o Parque Expo como testemunhas. Quando se fechavam as portas, existiam muitas armas brancas dentro desses cubículos.
Eu estava farto da Gare! Continuei a olhar na sua direção, pensando que tinha de sair daquele sítio. Talvez para Chelas ou para a zona dos Olivais, onde no dia anterior fôramos tomar banho ao quartel dos bombeiros e lavar e secar toda a nossa roupa.
Andámos dois dias a pedir para termos moedas suficientes para usar nas máquinas de lavar automáticas. E eu até ganhara umas boas moedas a arrumar carros, lá naquela zona, como o Zé me ensinara. Olhei para ele. Ainda dormia. Acordei-o. Ele demorava a despertar. Deixava sempre um pouco de vinho no pacote da noite anterior, para beber de manhã. Só começava a falar depois de beber. Era já notória a sua dependência alcoólica. Não ficava embriagado, mas só funcionava com bebida. Eu dizia-lhe constantemente que ele bebia muito. Uma vez, quando lhe perguntei porque é que bebia, respondeu-me: “Estás a fazer a pergunta ao contrário. A pergunta certa é porque é que não hei de beber.”
Triste resposta que eu entendia. Entendia finalmente porque é que o vinho está associado a um sem-abrigo. Primeiro, porque é barato. Quando, num dia mau, se tira as moedas do bolso, dão para quê? Para um café ou para um pacote de vinho. Eu próprio já utilizara o álcool em duas noites. Um gole ou dois de vinho era, por vezes, conforto. O único conforto. Secava as lágrimas, tirava-nos o nó de angústia que sentíamos no peito, iludia o desespero e ajudava a dormir.
E, para mim, a hora de dormir era o momento mais difícil do dia. Era a altura em que ficava a sós comigo e, quando chegava esse momento, tomava consciência de que não tinha nada. Nem sequer o conforto de um colchão. Por vezes, chorava.
Mas o Zé bebia muito. Uma noite, disse-lhe que ele tinha de parar de beber. Ele fitou-me, bebeu mais um gole, olhou em frente com uma expressão vazia e perguntou-me: “Vou parar de beber para quê? Vai mudar alguma coisa?” Mas, nessa manhã, eu acordara com uma força estranha. Virei-me para ele e disse, em voz alta e bem-disposto: “Vá! Bebe isso, vamos lavar a tromba e vamos ao pequeno-almoço.”
Estava muito otimista. A maior parte das vezes, não havia sequer uma instituição a distribuir pequenos-almoços. Só almoços, que aliás nos últimos dias tinham sido muito maus. As duas instituições que faziam a distribuição diária do almoço na Gare costumavam entregar a cada pessoa uma cuvete com uma refeição quase fria, uma carcaça, um sumo ou uma garrafa de água e uma peça de fruta. Por vezes, sopa. Mas, nos últimos dias, a comida fora muito má. O arroz vinha cru, as massas cozidas em água sem sabor nenhum, a carne também má e, às vezes, inexistente. Houve um dia até em que serviram peixe com molho azedo, devido talvez ao calor dentro dos carros. O que escapava era o pão e a peça de fruta. Por vezes, era só o que comíamos.
Tínhamos de “fazer” dinheiro para jantar, para comer qualquer coisa. O carro da noite vinha muito tarde, com duas carcaças com manteiga ou fiambre, dois pacotes pequenos de leite e mais fruta. Mas o último carro era sempre fundamental, para não sentirmos fome durante a noite.
As filas eram uma realidade nova para mim. Aliás, como poderia conhecê-la? Regra geral, estas instituições prestam serviço aos sem-abrigo, mas nas filas não havia apenas pessoas nesta condição. Era a fome que ali estava.
Todos os dias, vão para estas filas pessoas que têm casa, mas não têm comida. Durante os meses em que fui sem-abrigo, vi nelas, por esta Lisboa, gente de diversas faixas etárias e sociais, mulheres com crianças, desempregados e até pessoas que têm os seus empregos. Mas há uma coisa comum a todos os que formam estas filas: não têm uma refeição. E pode ser muito cansativo e exasperante estar à espera dos carros, pois nem sempre chegam a horas. Contudo, eu ficava ali. Para comer.
Naquela manhã, estava confiante. Não sei explicar, mas estava com fé. Sentia-me com força, com vontade para lutar. O Zé acabou de beber o vinho, olhou para mim e comentou: “Estás cheio de tusa hoje. O que se passa?” Respondi-lhe que não se passava nada. O problema estava precisamente aí. Não se passava nada! Coloquei-lhe a mão no ombro e disse-lhe: “Zé, não se passa nada. Não acontece nada, não vês? Não acontece nada, porque nós não fazemos por isso. Temos de fazer acontecer. Vamos sair daqui, porra! Vamos sair desta estação, pá! Cheira mal aqui. Vamos embora.”
Ele fitou-me durante alguns segundos. “Ouve, tu pensas que não tive já ataques de tesão como esse?” Sorri e respondi que não queria saber. E que, se calhar, tinha mais tesão do que ele. Ele disse, com um ar sério: “Cheira mal nesta estação? E pensas o quê? Que vais encontrar um sítio mais perfumado?”
Eu não sabia, mas tinha de sair dali. Aquela estação já me causava vómitos. O que iríamos fazer naquele dia? O mesmo de sempre? Mas, na verdade, não tinha a mais pálida ideia do que iria fazer. Eu só queria sair da Gare e deixar aquele viaduto horrível. Disse, com vigor e com as lágrimas nos olhos: “Zé, vamos fazer qualquer coisa! Por favor!”
Ele tirou do bolso das calças meio cigarro, acendeu-o e tragou o fumo. Olhou para mim e disse, a sorrir: “És mesmo um chato do caralho, ó Panda! Vamos embora daqui.” Retorqui: “Tu também, cão com pulgas. Vamos embora.”
Pegámos em todos os nossos sacos, mochilas e coisas fundamentais. Saímos do viaduto carregados que nem dois burros. Ele caminhava sempre mais depressa. Eu andava sempre atrás dele. Até que me disse: “Vamos de autocarro?” Perguntei para onde. Ele respondeu que não fazia ideia e perguntou se eu queria andar a passear por Lisboa com a casa às costas… Disse-lhe que não havia dinheiro para o autocarro. E ele replicou: “E quem vai pagar no autocarro? Nós somos sem-abrigo, não pagamos nos autocarros!”
Fui atrás dele sem fazer mais perguntas.
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