Do erro em composição
7. Do engano
Axiomas
1. Um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente
silêncio. [...] O silêncio do rosto é a verdadeira morada do
homem. (Agamben, 2012, p.112)
2. Há muitos silêncios possíveis. Eis um deles, diante de grandes
enganos. Não o da cumplicidade, nem o da contemplação, nem
o do respeito, muito menos o do amor; apenas o da
incompatibilidade. (Ego Compositor)
Proposição
Se existe um lugar desonroso para o erro, esse é o lugar do
engano. Parte de premissas falsas e erige em obras o desapreço pela invenção. Ora caçoa da situação estética, às vezes sem mesmo apelar ao riso, ora a torna desbotada e caquética, como se nela só sobrassem escombros. Camufla-se, porém, em novidade, consistindo assim em ato de desonestidade e assumida mentira. É antes de mais nada ideológico, no menosprezo da relativa autonomia da linguagem. Subprodutos da decadência burguesa, os produtos advindos do engano são, em essência, reacionários.
Demonstração I
Quando a ironia, possível recurso crítico – mesmo que sarcástico
– de certa irreverência, é confundida com o deboche, tem lugar o desleixo descompromissado que, no fundo, se apavora diante do rosto sério e pensativo. Vestir ad eternum a máscara carnavalesca da linguagem como se o Carnaval não fosse um rito e, como todo rito, não consistisse em cerimônia que, mesmo que iterada, tem começo, meio e fim, é estender indefinidamente o riso. Quando isto tem lugar, o humor logo perde a graça e a máscara torna-se patética.
Um nome que nos vem à tona? Éric Satie.
Demonstração II
Quando se olha para trás e do passado só se consegue arrancar um substrato pálido e insignificante, opera-se sobre o que, na história da linguagem, serviu de esteio a uma rica multiplicidade de gestos que dessa base rudimentar se desprendem e extravasam. É essa complexidade maximalista que perfaz as espirais da linguagem. Aquele sedimento rudimentar é então pouco a pouco depositado no fundo do oceano da expressão. Para alcançá-lo, é preciso que este olhar regressivo dilua essa densidade expressiva que o separa desse sedimento que tanto almeja e com o qual se identifica.
Uma forma explícita dessa diluição é o minimalismo.
Demonstração III
Uma das provas mais cabais de que a música não haveria de desejar falar é que, se assim o fosse, abdicaria de sua potência como língua universal.
Na contramão dessa evidência, a rudeza provinciana de todo nacionalismo.
Demonstração IV
Nada nasce do nada, e os laços e entrelaços de toda grande Obra é teia em si e fora de si, trama intertextual. Mas a costura é sempre feita de traçados novos. O Novo é o motor da invenção, e esta, o da composição. Quando os traçados refazem os próprios nós, não se tem mais nem costura, nem tear, mas mero remendo; é como se estivéssemos diante de um tecido rasgado, destituído de sua funcionalidade originária no desespero de poder resgatá-la.
A essa tautologia cometida contra a própria história damos o
nome de anacronismo.
Corolário
A luta pela sensibilização do homem é também luta contra sua
dessensibilização.
Escólio
A arte é um campo de atuação política. O artista, nele, toma
partido. No bosque quântico e transgressivo da linguagem musical, muitos são os ramos nos quais podemos pousar e colher frutos. É possível que as árvores nem se falem, mas de alguma maneira são vasos comunicantes. As águas que caem por terra as irrigam mesmo que estejam à distância. E há sempre pássaros a transportar sementes a lugares distantes.
Mas há terras desoladas. Nelas, de nada adianta a irrigação, nem
pássaros, porque as raízes já estão mortas.