Do erro em composição

Flo Menezes · Capítulo 9 de 16

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Do erro em composição

7. Do engano

 

Axiomas

1. Um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente

silêncio. [...] O silêncio do rosto é a verdadeira morada do

homem. (Agamben, 2012, p.112)

2. Há muitos silêncios possíveis. Eis um deles, diante de grandes

enganos. Não o da cumplicidade, nem o da contemplação, nem

o do respeito, muito menos o do amor; apenas o da

incompatibilidade. (Ego Compositor)

 

Proposição

Se existe um lugar desonroso para o erro, esse é o lugar do

engano. Parte de premissas falsas e erige em obras o desapreço pela invenção. Ora caçoa da situação estética, às vezes sem mesmo apelar ao riso, ora a torna desbotada e caquética, como se nela só sobrassem escombros. Camufla-se, porém, em novidade, consistindo assim em ato de desonestidade e assumida mentira. É antes de mais nada ideológico, no menosprezo da relativa autonomia da linguagem. Subprodutos da decadência burguesa, os produtos advindos do engano são, em essência, reacionários.

 

Demonstração I

Quando a ironia, possível recurso crítico – mesmo que sarcástico

– de certa irreverência, é confundida com o deboche, tem lugar o desleixo descompromissado que, no fundo, se apavora diante do rosto sério e pensativo. Vestir ad eternum a máscara carnavalesca da linguagem como se o Carnaval não fosse um rito e, como todo rito, não consistisse em cerimônia que, mesmo que iterada, tem começo, meio e fim, é estender indefinidamente o riso. Quando isto tem lugar, o humor logo perde a graça e a máscara torna-se patética.

Um nome que nos vem à tona? Éric Satie.

 

Demonstração II

Quando se olha para trás e do passado só se consegue arrancar um substrato pálido e insignificante, opera-se sobre o que, na história da linguagem, serviu de esteio a uma rica multiplicidade de gestos que dessa base rudimentar se desprendem e extravasam. É essa complexidade maximalista que perfaz as espirais da linguagem. Aquele sedimento rudimentar é então pouco a pouco depositado no fundo do oceano da expressão. Para alcançá-lo, é preciso que este olhar regressivo dilua essa densidade expressiva que o separa desse sedimento que tanto almeja e com o qual se identifica.

Uma forma explícita dessa diluição é o minimalismo.

 

Demonstração III

Uma das provas mais cabais de que a música não haveria de desejar falar é que, se assim o fosse, abdicaria de sua potência como língua universal.

Na contramão dessa evidência, a rudeza provinciana de todo nacionalismo.

 

Demonstração IV

Nada nasce do nada, e os laços e entrelaços de toda grande Obra é teia em si e fora de si, trama intertextual. Mas a costura é sempre feita de traçados novos. O Novo é o motor da invenção, e esta, o da composição. Quando os traçados refazem os próprios nós, não se tem mais nem costura, nem tear, mas mero remendo; é como se estivéssemos diante de um tecido rasgado, destituído de sua funcionalidade originária no desespero de poder resgatá-la.

A essa tautologia cometida contra a própria história damos o

nome de anacronismo.

 

Corolário

A luta pela sensibilização do homem é também luta contra sua

dessensibilização.

 

Escólio

A arte é um campo de atuação política. O artista, nele, toma

partido. No bosque quântico e transgressivo da linguagem musical, muitos são os ramos nos quais podemos pousar e colher frutos. É possível que as árvores nem se falem, mas de alguma maneira são vasos comunicantes. As águas que caem por terra as irrigam mesmo que estejam à distância. E há sempre pássaros a transportar sementes a lugares distantes.

Mas há terras desoladas. Nelas, de nada adianta a irrigação, nem

pássaros, porque as raízes já estão mortas.