Do erro em composição

Flo Menezes · Capítulo 12 de 16

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Do erro em composição

Parte III – De duas obsessões históricas

Parte III – De duas obsessões

históricas

Argumento

Foi apartando-se do verbo pelo viés da impotência representativa

da própria escrita verbal (alfabeto), basicamente restrita à transcrição dos timbres (fonemas) da fala, que a música – semiosis introversiva – galgou passo em direção ao substrato sonoro de toda expressão. Por meio de sua escrita, erigiu a sua escritura, descolou-se da imperiosa necessidade da denotação e abriu as portas de acesso à percepção do próprio verbo como específico gênero musical: aquele que, valendo-se do simbolismo fônico, da metáfora fonética e das afinidades sonoras por elos de contiguidade que, em sistemas, constituía a base fonológica das línguas, resistia e persistia na extroversão de seus significados. Assim como as sinfonias e os quartetos, assim como a música de câmera e a própria música vocal, ou ainda como a obra para instrumento solista e a composição acusmática ou eletroacústica mista, as línguas são, com todo o rigor, um gênero da música: aquele que, entretanto, a torna universal apenas nas leis do condicionamento de seus sistemas fonológicos – seus universais linguísticos propriamente – e na remissão dos significantes aos significados, traço comum a toda língua no reenvio das palavras às coisas, mas que, de resto, impõe certa barreira ao entendimento na cisão que cada língua impõe, a partir de seus falantes, aos falantes de outra língua. Daí decorrem as especificidades do par langue/parole, e daí a razão, também, do caráter semiuniversal da linguagem verbal, que a coloca, aos nossos ouvidos e olhos, com um pé fora da universalidade da linguagem propriamente musical.

E como se estivesse a perceber este vínculo indissociável com o

que há de musicalidade na verbalidade, a música, ao longo do percurso histórico de sua escritura, tangenciou esta impotência do ato demarcatório e, de modo mais ou menos consciente, enunciou a cisão impossível entre a expressão sonora e a expressio verborum que, como constatamos, nada seria sem o potencial expressivo dos próprios sons. Mas em vez de fazê-lo em sua plena autonomia, a música nem sempre assumiu justamente esta sua plenitude e, de quando em quando, desejou... falar! E toda fala, na intersecção de seus interlocutores, é também, por vezes, conversa.

Eis no que resulta seu erro histórico, aquele que, na forma de certas obsessões, atravessa a história da escritura musical e se manifesta, nessa roda inestancável da impossibilidade de toda expressão que se queira plena, em grandes acertos e mais alguns erros.