Dôr e Luz

Acúrcio Correia da Silva · Capítulo 11 de 22

Páginas do PDF

Dôr e Luz

IX o Tuberculoso

IX

O TUBERCULOSO

Alem, sentado á sombra das ramadas,

No musgo dum rochêdo,

Cisma um joven de faces desmaiádas

Tão magro que põe medo...

 

É o tísico. Nos olhos encovados,

Dorídos de sofrer,

Vê-se a resignação dos desgraçados

Cançados de viver...

 

Sussurra a aragem fría pelas heras

Um canto gemebundo,

Como a musica etéria das Esféras

Nos ámbitos do mundo...

 

Caem as folhas mortas, retorcídas,

Revelhas pela relva;

E as avesinhas calam-se, transídas

De frio, pela selva...

 

Desmaia ao longe o sol...—Que tardes estas

De maguas tão profundas!

Andam no ar exalações funestas

Das rosas moribundas...

 

Coas chuvas engrossaram as ribeiras.

Lá passam a gemer,

Levando os esquelêtos das roseiras,

Que acabam de morrer...

 

Erguem-se ao ar as ramas desnudadas

Das arvores agrestes;

E as aves vão piar desconsoladas

Á sombra dos ciprestes...

 

Os ciprestes!—Só êles com o inverno

Não perdem o vigôr...

Bem mostram que no mundo é sempiterno

O sofrimento,—a Dôr!

 

A tosse (ei-lo a tossir!) rasga-lhe o peito

Em bruscas convulsões,

Arrancando-lhe o sangue já desfeito

Dos putridos pulmões!

 

A infancia, a mocidade...—esperanças mortas...

Como isso já lá vái!

Assim expiram ilusões absortas

No hálito dum ái!...

Pobre tísico!—Os olhos encovados,

Dorídos de sofrer,

Fitam as coisas, brandos, resignados,

Dispostos a morrer...