Dôr e Luz

Acúrcio Correia da Silva · Capítulo 8 de 22

Páginas do PDF

Dôr e Luz

VI Cavadores

VI

CAVADORES

Ao longe—vêdes?—os cavadôres,

Filhos do campo, filhos da leiva,

De olhos escuros e cismadores,

Olhos ingénuos de trovadôres...

—Cantam os campos, cantam as flores,

Cantam a seiva...

 

Por horas mortas (céu estrelado...)

Eles lá vão

Lavrar a terra, guiar o arado,

De olhar bondoso e resignado

Posto nos olhos do manso gado,

Posto no chão...

 

Vem as chuvádas, as inverneiras;

Rugem os rios, incham ribeiras;

Alagam campos, alagam leiras...

Vêde a desgraça!

Que ha-de êle fazer?—De olhar dorído,

Mal almoçádo, peor vestido,

Senta-se á porta, esmorecído,

A vêr quem passa...

 

Vem o calôr do sol doirado

Queimar-lhe o pão!

Que ha-de êle fazer, o desgraçado

Do lavradôr?—Vai pró eirado,

De aspéto triste, de olhar pasmado,

Cismar na vida, descorçoado,

Queixo na mão...

 

Estála a guerra; levam-lhe o filho.

Crescem os ratos, trincam-lhe o milho...

—Oh! forte praga de ratazânas!—

Branquêja a neve, ruge a nortada...

Lá vái a telha desmantelada

Das alpendrádas mais das choupânas!

 

Ouvide ainda maior desgraça...

Tinha uma filha,—que doce graça

De rapariga...

Nas largas noites, junto á fogueira,

Lume bemdito sobre a lareira,

Ela fiava (gentil fiandeira...)

O linho branco da sua estriga...

 

Até ao tardo cantar do galo

—Não imaginam,—era um regálo

O pái velhinho vê-la fiar...

Rufam chuveiros fortes lá fóra...

(Ai! Anjo Bento, Nossa Senhora

Seja c'os que andam a esta hora

Sobl'as aguas turbas do mar!)

Ela era a vida da sua vida;

Ela era o lume do seu olhar,

—Lume bemdito que n'alma brilha.

Como êle lhe queria—rôla querida

Nem temos nada que admirar,

Porque era filha...

 

Mas sucedêu que em certo dia

(Dia aziágo... Ele nem podia

Pensar em tal de olhos enxutos!)

Passou por lá um rapazão...

(Grande patife! Grande ladrão!)

Leva-lhe a sua consolação:

Rouba-lhe a filha, e em troca então

Deixou-lhe a dôr,—só dôr e lutos!

 

Malditos sejam os valdevinos

Que andam as jovens a desonrar!

Santos velhinhos, boas familias,

Guardái dos lobos as vossas filhas

Dentro do lar...

 

Vêde a desgraça enorme e crua

Do paciente do lavrador!

—Triste batalha!—

Que ha-de êle fazer? Que vida a sua!

Que ha-de êle fazer na sua dôr?!

O Pái-do-Céu o ajude e valha...

 

*

Bons lavradôres! Chorando ou rindo,

Dizem que vida assim não ha...

 

Vamos, rapazes, vamos subindo;

Deixái-os lá...