Dôr e Luz
XVIII ao Pe da Luz
XVIII
AO PE DA LUZ
Subímos o montículo da Vida...
Somos chegados. Parêmos.
Descubrí-vos, rapazes, e ajoelhêmos
Ante a Cruz alem erguida...
Envolta numa auréola luminosa,
No tôpo da existencia, ergue-se a Cruz:
—Tribúna inegualavel, magestosa,
De onde nos fala Jesus...
Cercam-na as almas místicas dos crentes Num circulo de prantos e orações;
Sobre as rosas astráis dos corações
Vêm os anjos curvar-se reverentes...
Corações, que são rosas redolentes
Abertas nos jardins das solidões,
Sob o influxo das doces radiações
Dos olhos de Jesus meigos e ardentes.
Ó santas almas bem-aventurádas,
Aos pés chagosos de Jesus prostrádas,
Dái-me um logar humilde ao vosso lado...
Ando a correr a via dolorosa
Do mundo, deste mundo desgraçado,
Que me tortura a alma suspirosa...
*
Rapazes! Que encontrastes vós no mundo, Senão desgostos, lagrimas, saudade?...
Ha um cancro antiquissimo e profundo.
Que rói a Humanidade...
Esse cancro nojento, pustulôso,
Esse herpe roedôr e mal curado,
De onde escorre um pus negro, venenôso,
—É o cancro do Pecádo!
Esse cancro maldito dá vertigens!
Alastra pela praça, pelos lares;
Corrói as carnes lácteas das virgens,
E cria os lupanares!
Agácha-se nos leitos conjugáis;
E açulando odientos vitupérios,
Desváira, céga, os corações leáis
E faz os adultérios!
Desenvolvendo instíntos de cobíça,
Instintos indomáveis, máus, ferínos,
Reprime e calca o Bem, céga a Justiça,
E forma os assassinos!
Desváira as corrompídas gerações,
E, derrancando odios pelas terras,
Lança os povos nas bruscas sedições:
Fomenta e acende as guerras!
Cancro que é o Mal, é o vicio, é o odio, é o fel, Fervendo sob o disco azul dos céus...
É o filho prediléto de Lusbél,
De garras encrispádas contra Deus!
Dêle nasce este pélago de dôres,
Este indeciso mal-estar geral,
Que os mil e um profanos pensadôres
Hão designado—Dôr Universal!...
Ninguem acha o remedio, ó Deus, ninguem!
.......................................
Ó meus amigos, ajoelhái e ouvi:
Remedio deste mal só Deus o tem...
Olhái a Cruz, olhái...—Reside alí.
Alí, naquêle Cristo ensanguentado,
De chagas rubras como rosas vivas,
Erguendo ao alto o rosto escalavrado,
Lançando aos homens vistas compassivas...
Alí, naquêle Cristo moribundo,
Pregado nos braçáis daquela Cruz,
Abrindo o coração sangrento ao mundo,
Em labarédas místicas de luz...
Alí, naquêle Cristo de olhos virgens
Fitos nos longes vêrdes da devêza
Mergulhada nas hórridas calígens
Da formidavel dôr da Naturêza...
*
Ó pombas de Belêm, voái em bando...
Espedaçái os corações de dôr
Á vista do misterio formidando
Da morte do Senhor!
Ó pombas de Belém, voái em bando...
Chorái, ó violêtas de Jessé;
Chorái, ó madresilvas, ó martírios;
Chorái, ó roseiráis de Nazaré;
Chorái, ó palmeiráis; chorái, ó lirios!
Chorái, ó violêtas de Jessé...
Chorái, ó almas bíblicas, antigas...
Ó sombras dos Juizes, dos Profétas;
Ó noivas a cismar entre as espigas,
Pisando as relvas vêrdes e as violêtas!
Chorái, ó almas bíblicas, antigas...
*
Eu queria soluçar em verso brando
O martirio sem nome, formidândo,
Do bom Jesus,—do Deus e Senhor nosso... Para chorar suplicio tão feríno
Eu queria ter um estro ideal, divino...
Queria... Mas não posso!