Dôr e Luz

Acúrcio Correia da Silva · Capítulo 20 de 22

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Dôr e Luz

XVIII ao Pe da Luz

XVIII

AO PE DA LUZ

Subímos o montículo da Vida...

Somos chegados. Parêmos.

Descubrí-vos, rapazes, e ajoelhêmos

Ante a Cruz alem erguida...

 

Envolta numa auréola luminosa,

No tôpo da existencia, ergue-se a Cruz:

—Tribúna inegualavel, magestosa,

De onde nos fala Jesus...

 

Cercam-na as almas místicas dos crentes Num circulo de prantos e orações;

Sobre as rosas astráis dos corações

Vêm os anjos curvar-se reverentes...

 

Corações, que são rosas redolentes

Abertas nos jardins das solidões,

Sob o influxo das doces radiações

Dos olhos de Jesus meigos e ardentes.

 

Ó santas almas bem-aventurádas,

Aos pés chagosos de Jesus prostrádas,

Dái-me um logar humilde ao vosso lado...

Ando a correr a via dolorosa

Do mundo, deste mundo desgraçado,

Que me tortura a alma suspirosa...

 

*

 

Rapazes! Que encontrastes vós no mundo, Senão desgostos, lagrimas, saudade?...

 

Ha um cancro antiquissimo e profundo.

Que rói a Humanidade...

 

Esse cancro nojento, pustulôso,

Esse herpe roedôr e mal curado,

De onde escorre um pus negro, venenôso,

—É o cancro do Pecádo!

 

Esse cancro maldito dá vertigens!

Alastra pela praça, pelos lares;

Corrói as carnes lácteas das virgens,

E cria os lupanares!

 

Agácha-se nos leitos conjugáis;

E açulando odientos vitupérios,

Desváira, céga, os corações leáis

E faz os adultérios!

Desenvolvendo instíntos de cobíça,

Instintos indomáveis, máus, ferínos,

Reprime e calca o Bem, céga a Justiça,

E forma os assassinos!

 

Desváira as corrompídas gerações,

E, derrancando odios pelas terras,

Lança os povos nas bruscas sedições:

Fomenta e acende as guerras!

 

Cancro que é o Mal, é o vicio, é o odio, é o fel, Fervendo sob o disco azul dos céus...

É o filho prediléto de Lusbél,

De garras encrispádas contra Deus!

 

Dêle nasce este pélago de dôres,

Este indeciso mal-estar geral,

Que os mil e um profanos pensadôres

Hão designado—Dôr Universal!...

 

Ninguem acha o remedio, ó Deus, ninguem!

 

.......................................

Ó meus amigos, ajoelhái e ouvi:

Remedio deste mal só Deus o tem...

Olhái a Cruz, olhái...—Reside alí.

Alí, naquêle Cristo ensanguentado,

De chagas rubras como rosas vivas,

Erguendo ao alto o rosto escalavrado,

Lançando aos homens vistas compassivas...

 

Alí, naquêle Cristo moribundo,

Pregado nos braçáis daquela Cruz,

Abrindo o coração sangrento ao mundo,

Em labarédas místicas de luz...

 

Alí, naquêle Cristo de olhos virgens

Fitos nos longes vêrdes da devêza

Mergulhada nas hórridas calígens

Da formidavel dôr da Naturêza...

 

*

 

Ó pombas de Belêm, voái em bando...

Espedaçái os corações de dôr

Á vista do misterio formidando

Da morte do Senhor!

Ó pombas de Belém, voái em bando...

 

Chorái, ó violêtas de Jessé;

Chorái, ó madresilvas, ó martírios;

Chorái, ó roseiráis de Nazaré;

Chorái, ó palmeiráis; chorái, ó lirios!

Chorái, ó violêtas de Jessé...

 

Chorái, ó almas bíblicas, antigas...

Ó sombras dos Juizes, dos Profétas;

Ó noivas a cismar entre as espigas,

Pisando as relvas vêrdes e as violêtas!

Chorái, ó almas bíblicas, antigas...

 

*

 

Eu queria soluçar em verso brando

O martirio sem nome, formidândo,

Do bom Jesus,—do Deus e Senhor nosso... Para chorar suplicio tão feríno

Eu queria ter um estro ideal, divino...

Queria... Mas não posso!