Dôr e Luz

Acúrcio Correia da Silva · Capítulo 14 de 22

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Dôr e Luz

XII o Boémio

XII

O BOÉMIO

Cái sobre as coisas um luar de prata,

Luar bemdito, que enlanguesce, enleia...

Vem ao longe uma airáda serenáta,

Soluçando uma antiga melopeia...

 

Lá vem o tocadôr. É um vádio,

De guitarra chorosa ao tiracólo...

Passa as noites cantando pelo frio

Cantigas de saudade e desconsolo...

 

É um boémio, dos parias desgraçados,

De olhos profundos, vagos, erradíos

Que vivem a cantar pelos eirados,

E morrem afogados pelos rios...

 

É déssa raça antiga, vagabunda,

Que atravessava todas as nações

Composta de uma incrivel barafunda

De cómicos, mendigos e ladrões...

 

Ei-lo,—o rebento déssas raças mortas,

(Esparge-se o luar na solidão...) Cantarolando á lua, pelas portas,

Cantigas de saudade e de paixão...