Dôr e Luz
IV os Miseraveis
IV
OS MISERAVEIS
Tendes olhos de vêr. Olhai...—Ao fundo,
Nas bôcas tenebrosas das cavernas,
Não vislumbráis um turbilhão imundo
De larvas, num grasnído gemebundo
Feito de raiva e maldições eternas?
—São os ladrões, ferozes valdevinos,
Cujo instinto são odios e sangueiras!
Alta noite, os seus olhos de assassinos
Fosforêjam bravíos, réptilínos,
Entre as sarças das velhas carvalheiras...
Pelas trevas, ao som dos temporáis,
Quando os ventos ululam nas florestas,
Vão agrupar-se ás portas dos casáis,
Afiando os mortíferos punháis,
Coçando-os pelas mãos nervosas, lestas...
—São tambem vagabundos,—os cigânos, De barbaças intonsas e nojentas,
Esguedelhados, rôtos e marrânos,
De testa cancerosa envolta em pânos,
Escorrendo materias fedorentas...
Coitados! Em magótes pelas praças,
Para colher esmolas miseráveis,
Esbracêjam ridículas negaças
E rouquêjam exóticas chalaças,
Retorcendo as bocárras execráveis...
Pobres cigânos! De olhos estoirados,
Pernas pôdres e faces caboucádas,
Lá vão a correr mundo, atormentados,
De estômago vasío e pés pisados
Dos duros pedregulhos das estradas...
São inda as torturadas das rameiras,
As pobres raparigas sem pudôr,
Que se espojam nas frígidas lameiras,
Ao sol, á chuva, ás rijas ventaneiras,
Sem alma, sem destino, sem amor!
São míseros farrapos encharcados
No lôdo da torpêza vermináda!
Ah! homens, egoistas derrancados!
E ainda vos julgáis civilisados,
Ó luxuriosa, estupida manáda!
Não lastimáis as pobres meretrizes,
Que andam na lâma, a chafurdar de rôjo? Chamái á dignidade as infelizes!
—Ó rapazes, tapêmos os narizes;
Sigâmos para cima. Isto faz nôjo!