Dôr e Luz
XV os Filósofos
XV
OS FILÓSOFOS
É tempo de seguirmos para cima,
Rapazes; vamos lá:
Que o tempo é um tesôiro que se estima, Pois é pra isso que o bom Deus o dá.
De olhos profundos, a fitar o chão,
E quêdos, quais bramânicos teósofos,
Ha uns vultos alí, na solidão,
Imersos em letál meditação...
Olhai,—são os filosophos.
Os rostos sêcos, magros de cismar,
Cobrem-nos sórdidas barbáças feias;
Vê-se nos olhos fúlgidos brilhar
O fogo das idéas...
Pla estrada da nevoenta antiguidade
Vem já de muito longe essa legião,
Escoadrinhando com sofreguidão
O rastro da Verdade...
No céu da Grecia antiga,—azul, profundo, Cintíla com olímpico clarão A triade infindavel da Razão,
Iluminando os ângulos do mundo:
—Aristóteles, Sócrates, Platão...
Esses genios enormes, admiraveis,
Esses homens de fundos olhos virgens,
Empregáram esforços formidáveis
Por descobir os Fins mais as Origens...
E algo êles fizeram com efeito:
—Legáram-nos a nós muitas verdades,
Como grânulos de oiro imperfeito,
Refulgindo na noite das Edades...
Nêsse tempo, porem, não viéra ainda
Do misterioso Empireo esse clarão
Pedido tantas vêzes por Platão:
—A voz de Deus com a Verdade infinda
Que rompesse as calígens da Razão...
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Olháe-os hoje ainda...—Olhos erráticos,
Fitos não sei em que visões distantes,
Parecem velhos ermitães lunáticos,
Leitôres de alfarrábios esquipáticos,
Sepultos na poeira das estantes...
Surge agora a grandíssima questão,
Que êles (coitados...) querem resolver
Depressa, quanto antes,—bem ou mal...
É a questão do nosso coração,
Dêste vago e nostálgico sofrêr
Que êles designam Dôr Universal...
Este mal,—esta dôr, este martirio,
Pertence essencialmente ao coração
Como pertence ás pétalas do lirio
Aquela côr tão linda de paixão...
Porem não acreditam, e pretendem
Que o homem, de nascença, é imaculádo Como as viçosas pétalas, que estendem
As açucênas para o sol doirádo...
E assim andam tentando realisar
Cá sobre a terra a plêna felicidade,
Pondo o homem na peânha dum altar,
Fazendo dêle uma áuto-divindade...
E o mundo, no mais vil materialismo,
Desfaz-se numa infanda corrução,
E, guiado pela rédea do Egoismo,
Precipíta-se no fundo dum abismo
Onde arde um cataclismo,
Onde rouquêja a fulva sedição!
E passa á flor das coisas a gemer
—Qual bocêjo de quem acórda tarde—
O tédio geniál de Schopenhauer,
O imenso pessimismo de Leopárdi...
De olhos profundos, a fitar o chão,
Esfíngicos como índicos teósofos,
Olhái os cismadôres da soidão,
Em filosófica meditação...
Coitados dos filósofos!