Dôr e Luz

Acúrcio Correia da Silva · Capítulo 3 de 22

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Dôr e Luz

I Tardes

I

TARDES

 

Olhai que tardes estas!

Tardes de outôno, tardes de agonía...

Começa o novo sôno das florestas...

Deixái dormir os robles e as giestas,

Que acordarão um dia.

 

Lá deslísa o Mondego a murmurar

As doces melopeias do passado,

(Que hoje só êle as pode relembrar...)

—Lendas de antigas moiras a cantar

Idílios de outras eras, ao luar

Ou á radiosa luz do sol doirado...

Lá deslísa o Mondego a murmurar...

Só podem perceber-lhe as melopeias

As hervinhas rasteiras e as areias...

 

Olhái os desgrenhados salgueiráis,

Curvados a cismar por sobre as aguas...

Parecem trovadôres medieváis,

Chorando em velhas rimas novas maguas... Nas cordilheiras pardas e distantes

Adensam-se uns vapôres transparentes,

Doirádos, luminosos, flutuantes,

Sobre as carquêjas ásperas, dormentes...

 

Na poeira luminosa do sol-pôr

Agacham-se quietinhas, silenciosas,

Dormindo num beatífico torpôr,

A casaría, as arvores, as rosas...

 

Ha uma indescritivel atonía

Nas vagas tintas que o sol-pôr produz,

—Como um grande soluço de agonía,

Que lentamente se tornasse em luz...

 

Andam no ar acentos vagabundos

De fados lacrimosos,

Como endeixas de poetas moribundos,

Ao luar, pelos êrmos lutuosos...

 

Olhai que tardes estas...

Tardes de outôno, tardes de agonía...

Vái dormir o carvalho das florestas

Para acordar um dia...