Dôr e Luz
XVII Evocações...
XVII
EVOCAÇÕES...
Eu vislumbro uns estrânhos personagens, Arrastando umas rusticas roupêtas
Por sob os toldos verdes das folhagens..
Olhái... São os Profétas.
Morrêram já ha muito, escalavrados
Pelas fomes e austeras penitencias
Nos desértos, plos cardos dos valádos,
Ao frio, á chuva e ás tórridas ardências.
Fitái-os—De cabêlos desgrenhádos
E grandes barbas brancas, luzidías,
Bracêjam pelos cêrros, inspirados
Plo sôpro geniál das profecias...
É o velho Jeremias, lastimando,
Nos pláinos verdoengos de Siquêm,
O insondável abismo formidando
Onde vê mergulhar Jerusalém!
Ai!—Na sua lamúria contristáda,
Lamúria de tristêza, de desgosto, E bem toda uma Raça desgraçáda,
Que chora o seu sol-posto...
*
Ó líricas aldeias da Judéa,
Ó rusticos trigáis de Zabulom,
Ó arvores floráis da Galiléa,
Ó aguas murmurosas do Sarom...
—Ó aldeias humildes, aninhadas
Nas encostas, por entre os palmeiráis,
Que adormecêis em horas repousadas
Sob o luar das noites orientáis...
—Ó trigáis lourejantes, ondulados
Pelas tépidas brisas perfumosas,
Que passam, beijocando nos valados
As corólas balsâmicas das rosas...
Ó arvores escuras, sussurrantes...
Ó airosas e múrmuras palmeiras,
Que dáis sombra aos cansados viandantes
Roidos das poeiras...
Ó aguas do Jordão, aguas sagradas,
Que roláis sobre a areia, léz-a-léz, Suspirando umas místicas baládas
Do tempo de Moisés...
—Ó coisas orientáis...
Ó brancas pombas que arroláis tão bem, Ó hôrtos, ó jardins, ó oliváis,
Ó lirios de Belem!
Eu quero ouvir as lástimas antigas
Dos Juizes, dos Reis mais dos Profétas
De longas barbas brancas como estrigas, De olhos pisados, roxos quáis violêtas...
Contái-me essas antigas penitencias,
Essas heróicas orações estrânhas,
Que murmuravam sobre as eminencias
Das ásperas montânhas...
Cantái-me as melopeias contristádas
Das cândidas mulheres bibliáis,
Quando iam, ao clarão das alvorádas,
Prá ceifa dos trigáis...
Falái-me dessa Virgem toda luz,
Da mística alegria dessa Mãe,
Quando em seus braços recebêu Jesus
Na Lápa de Belém...
Falái-me dos grosseiros sacerdótes,
Dos magros e barbudos Farisêus,
E desse esgrouviádo Escariotes,
Que ousôu traír um Deus!
Falái-me de Jesus e seus martírios,
Do seu ultimo gesto de perdão,
Ó aguas do Jordão,
Ó urzes do Calvário, ó roxos lirios...