Dôr e Luz

Acúrcio Correia da Silva · Capítulo 9 de 22

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Dôr e Luz

VII os Mendígos

VII

OS MENDÍGOS

Sentados pelas orlas dos caminhos,

Olhái os lacrimosos pobresinhos...

Doentes, velhos, rôtos, corcovados,

Alforges para os hombros, resignados,

Pernas sêcas, cambáias, retorcídas,

Contando-se uns aos outros suas vidas,

—Olhái que inegualaveis odissêas...

 

Aquelas engelhadas caras feias,

Escaveirádas, sujas, com barbáça,

Contráem-se num rictus de desgraça Riscado pelo dêdo da miseria...

Sob a abóbada azul, celeste, etéria,

Sem palacios, sem camas, sem pousadas, Desde o sol-posto á luz das alvorádas,

Percorrem varias terras a pedir

Côdeas de pão...

Á noite vão dormir

Sobre a palha dos velhos alpendráis,

Juntamente cos ratos e os pardáis,

E cos escrofulosos canzarrões

(Expulsos da cosinha plos patrões)

Repartindo com êles das esmolas,

Que tiram lentamente das sacolas...

E comem de uma vêz jantar e ceia...

Ainda assim vós não fazeis idéa

Como êles são felizes, os mendigos...

 

No estio vão deitar-se pelos trigos,

De bandulhos pró ar, a meditar

Nas velhas aventuras, ao luar,

Dos tempos da bizárra mocidade,

De que inda têm uns restos de saudade... Rastêjam pela terra as salamandras;

Chilreiam delambidas as calhandras,

Picando por alí o loiro grão...

Que pacífica, ideal consolação

A existencia dêles descuidada:

—Pedir, rezar, comer, dormir... Mais nada. Tardes mornas...

As nuvens, pelo azul,

São flotilhas, que vogam para o sul,

Em demanda das Indias encantadas

Onde vivem serêias, silfos, fadas...

 

No outôno, passam líricas manhans

Ferrando os dentes pôdres nas maçans;

E em tardes murmurosas vão-se pôr

Nos êrmos, murmurando com fervôr

As perfumadas orações antigas

Ensinadas plas mães (pobres mendígas, Que o bom Deus desde ha muito já lá tem...) Oh! Nunca esquecem orações de mãe...

 

Chilrêiam cotovias nos valádos...

Nas largas noites invernais, coitados,

É que êles sofrem gêlos e frieiras!

Por horas mortas, quando as ventaneiras Lhes fogem cos colmados das cabânas,

Abandonam a enxérga das choupânas,

E vão-se recostar pelos portais

Aonde o frio os mortifica mais!

O vento ulúla rouquidões e pragas...

 

Andam no ar escuridões preságas,

Que põem calafrios na espinha...

Maldita chuva!—Quanto mais se aninha

O pobresinho, mais se ensópa e alága!

Ó santa primavera, Deus te traga...

 

Primavera! Que tardes deleitosas

Andam no ar ondulações radiosas,

Exalações miríficas das flores...

 

Que perfusão esplendida de côres

E os pobres, pelas tardes perfumosas,

Corôam-se de mirtos e de rosas,

E atafulham de rosas a sacóla...

Santa abundancia, abençoada esmola

A tua, ó primavéra do Senhor...

 

—Alvorada de rosas e de amôr...