Dôr e Luz

Acúrcio Correia da Silva · Capítulo 15 de 22

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Dôr e Luz

XIII Noiva Morta...

XIII

NOIVA MORTA...

Num sônho angustioso, eu vi

passar por entre as oliveiras

desoladas um caixão branco, com

muitas fitas rôxas...

Era ao sol-posto. Pelo ceu, uns

farrapitos de nuvens, roxeádas

pelo sol agonisante, pareciam

goivos sepulcráis a desfolharem-

se amarguradamente, desconsoladamente...

Atraz do caixão carpiam-se

muitas virgens, vestidas de luto,

olhos ardidos pelas lagrimas...

E eu disse para as virgens:

 

Ó virgens, quem é aquela

Que levam prá sepultura?

Virgens, virgens! Quem é ela,

Tão nova e tão sem-ventura?!

 

E as virgens, desgrenhadas,

lacrimosamente responderam-me:

É a linda morgadinha,

Que levam a enterrar...

Morreu ontem, á noitinha,

Ao despontar do luar...

 

Era a mais rica e mais bela,

Mais enleváda de amor;

E morrêu... Que sorte a déla!

Não faz idéa, senhor...

 

De que valeu ser tão cheia

De inteligencia e belêza?!

Chora tudo lá na aldeia:

Que tristêza! Que tristêza...

 

Cismava nos áureos planos

Do seu proximo noivádo:

E fêz só dezoito ânos

Pelo setembro passado...

 

Mais infeliz nunca vi!

Em vez de noivar, morreu...

O bom Deus quí-la pra Si:

Levou-a da terra ao Céu.

 

Ela era o anjo da graça,

Sempre a sorrir e a cantar...

Tudo passa! tudo passa...

Morreu!—Deixái-nos chorar.

 

Em noites de escamisádas,

Que se faziam pla aldeia,

Soltava canções airádas,

Ao clarão da lua cheia...

 

Tardes mornas de novênas,

Quando íamos enflorádas,

Como irisádas falênas,

Como rôlas desvairádas...

 

Ela era a flôr da alegria,

Bôca rubra, olhar de luz...

Roubou-a a morte sombría!

Roubou-a... Jesus! Jesus!

 

Chorái, ó brancas falênas;

Chorái, brisas murmurosas;

Chorái, ó rôlas serênas;

Chorái, relvas; chorái rosas...

 

De que nos vale a belêza,

Que a Morte pode roubar?!

Ai!—que vida, que tristêza.

É só penar, só penar!

E eu, muito comovido, muito

triste, disse ás virgens, com

lágrimas na vóz:

 

Tendes razão, raparigas...

Que valem sonhos, encantos,

Loucas ilusões antigas?...

 

Tudo se desfáz em prantos!

 

Aquela tenra floríta,

Desfolhada pela morte...

—Não lhe choreis a desdita.

Não pranteêis sua sorte...

 

Pois, donzelas, quem nos diz

A nós—corações airádos,

Que ela não foi a feliz,

E nós os desventurados?...

 

Pois, afinal, esta vida,

Mesmo á luz ideal do amôr,

Sempre incerta e combalída,

—O que é ela, senão dôr?!

 

Uma tristêza mortal

Repassa as nossas folganças...

Ai! cachópas, ai! crianças,

Nem é bom falar em tal...

 

Quando ides prás romarias,

Entre murtas e alamêdas,

Como doidas cotovías,

Chilreando airádas, lêdas,

 

Não pensáis nesta agonía,

Que nos punge o coração...

—Levais a alma irradía,

Céguínha pla ilusão...

 

Mas á noite, junto ao leito,

Cismáis, á luz do luar,

Em tanto sonho desfeito...

 

E desatáis a chorar!

 

A vida é uma dôr infinda!

Por isso eu vos digo a vós

Que essa defunta tão linda

Foi mais feliz do que nós...

 

É déla a paz celestial.

(Olhái que faces de arcanjo...)

Morrêu santa, virginal,

Santa e pura como um anjo

 

*

 

Ó tisicas lacrimosas,

Que á tardinha, a passear,

Sfalfadítas de chorar,

Dizeis queixumes ás rosas...

 

Tendes saudades da vida?

Para quê?—Não vale a pêna...

Gozarêis a paz querida

Da celeste luz serêna...

 

E o luar irá beijar

As vossas campas musgosas.

Que dôce amigo o luar,

Ó tísicas lacrimosas...

 

*

 

E vós, cachópas, que assim

Pranteáis a que morreu,

Não solucêis, porque enfim

Ela é um anjo no Céu...

E olhái:—se a desônra um dia

Vos tem de vir, (Vossa mãe

Morreria de agonia...)

—Mais vale morrêrdes tambem

 

E as virgens, acenando-me um

adeus, sufocádas pelas lagrimas,

lá foram seguindo o caixão, como

anjos do desespêro, soluçando

em côro:

 

Chorái, ó rôlas serênas;

Chorái, brisas murmurosas;

Chorái, ó brancas falênas;

Chorái, relvas; chorái, rosas...

 

Chorái, estrelas cadentes

Como lágrimas de luz...

Chorái, ó aguas correntes...

 

Ai! Jesus! Jesus! Jesus!