Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 11 de 20

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Entre irmãs

Capítulo 9

 

Emília

 

Campo de retirantes de Rio Branco

Janeiro-fevereiro de 1933

 

1

 

2 de janeiro de 1933

 

Sra. Degas Coelho

Rua Real da Torre, 722

Bairro Madalena, Recife, PE

Prezada Sra. Coelho,

 

Feliz ano-novo. A senhora não deve se lembrar do meu nome, mas espero que a nossa conversa no teatro Santa Isabel não tenha sido inteiramente esquecida. Tive o prazer de conhecê-la no saguão, durante a comemoração do partido verde. Conversamos por um breve instante, mas não dissemos como nos chamávamos. Felizmente, sou muito bom fisionomista.

Até bem recentemente, jamais havia lido a coluna social do Diário, até que alguém me mostrou a sua fotografia. Fiquei espantado ao descobrir que aquela senhora cujo retrato estava no jornal era a mesma que eu havia conhecido no Recife. Logo me lembrei de um dito que os peões da minha fazenda vivem repetindo: é sempre bom perguntar o nome de um desconhecido, porque ele pode ser um irmão perdido. Passei a minha vida inteira no Nordeste e ainda me desconcerta saber que, apesar da vastidão dessas terras, os nossos círculos de conhecidos são pequenos e a sua trama é tão intricada quanto uma renda.

Li a respeito do trabalho beneficente que a senhora vem realizando com os flagelados que fugiram para a capital nessa época de seca. Admiro o seu esforço. É muito mais fácil condenar os nossos vizinhos do que ajudá-los.

Como a senhora, também decidi auxiliá-los. Talvez se lembre que lhe disse que sou médico. Abri mão da administração da fazenda para supervisionar um modesto hospital no campo de retirantes de Rio Branco. Há inúmeros doentes por aqui. Muitos de meus colegas dizem que o sertanejo é uma gente forte, capaz de aguentar qualquer sofrimento. A meu ver, esta é uma crença tola. Como sabe, dona Emília, e como aprendi na minha prática médica, os sertanejos são tão mortais e imperfeitos quanto qualquer um de nós. No entanto, são mais ligados à terra, e esta os abandonou durante a seca. Agora, são como crianças órfãs.

Vim para Rio Branco tentar salvar esses órfãos da seca. Não sou religioso, mas nos últimos tempos cheguei a rezar. Pedi que uma mão bondosa e amorosa tirasse ao menos uma dessas crianças da miséria e mudasse o seu destino.

Chegamos enfim ao motivo de minha carta, dona Emília. Agradeço a sua paciência. Sou um homem de ciência, não de palavras, portanto serei absolutamente franco. Preciso da sua ajuda. Roupa, comida, água e remédios são muito bem-vindos aqui no campo de Rio Branco, mas, como talvez a senhora já saiba, essas remessas caridosas que vêm da capital acabam sendo desviadas por comerciantes corruptos ou roubadas por cangaceiros. Essas doações estariam em segurança se viessem acompanhadas por uma delegação. Esta delegação atrairia a atenção da imprensa, dando ao sofrimento desses retirantes a divulgação de que tanto precisam. Os flagelados são gente faminta e não parasitas, como alguns jornalistas resolveram chamá-los. Essa delegação não pode ser composta exclusivamente por representantes do governo ou repórteres, pois nem uns nem outros serviriam de inspiração para os retirantes que vivem aqui. A senhora, dona Emília, sempre consegue chamar a atenção de todos para as causas que abraça. A senhora e a Sociedade Auxiliadora podem trazer esperança e calor ao nosso lar tão desolado.

Estou lhe pedindo que viaje para um lugar de onde a maioria das pessoas quer fugir. Garanto-lhe que não foi nada fácil lhe fazer esse pedido. Escolhi as palavras com todo o cuidado porque não a conheço bem. No entanto, ouvi dizer que a senhora é uma mulher de bom coração e de muita determinação. Espero não estar lhe pedindo o impossível e, caso esteja, rezo para que santo Expedito intervenha para tornar o meu pedido viável.

 

Atenciosamente,

Dr. Eronildes Epifânio

 

2

 

As mesinhas do vagão de primeira classe estavam repletas de copos vazios que esbarravam uns nos outros, tilintando com o movimento do trem. Um garçom, com as costas do paletó escurecidas por causa do suor, tentava retirar os copos sem acordar os passageiros. Os funcionários do governo dormiam com a cabeça caída para trás e as pernas bem abertas. Todos tinham a testa reluzente de suor. Os repórteres e fotógrafos que acompanhavam a delegação haviam voltado para o vagão destinado à imprensa, e, com isso, os funcionários do governo puderam tirar o paletó e afrouxar a gravata. Uma coleção de chapéus fedora e panamá estava espalhada pelas mesinhas ou pelos assentos vagos. Degas tinha posto o seu no colo, como um bichinho de estimação muito querido. Estava acordado. E Emília também.

O termômetro do trem marcava 38 graus. As flores que tinham sido postas numa jarrinha pendurada na parede estavam caídas, com as pétalas se espalhando pelo chão. No teto, os ventiladores gemiam. As suas pás giravam, mas não conseguiam expulsar o calor. Ali dentro estava quente e abafado. Emília sentia as faces pinicando. As janelas estavam baixadas, com as cortinas bem abertas. O sol brilhava tanto que os seus olhos chegaram a doer quando ela tentou fitar o exterior. Foram necessários uns bons minutos até a sua visão se habituar àquela claridade. A paisagem era sempre a mesma. A vegetação da caatinga, cinzenta e ressecada, como se houvesse sido chamuscada num forno. Camufladas por entre as árvores, Emília viu casas de barro abandonadas, com as paredes rachadas e as portas abertas. À exceção do próprio trem e do tilintar dos copos, que mais pareciam ecos fantasmagóricos dos brindes daquela manhã, não havia ruído algum. Nem mesmo insetos zumbindo. Era de enlouquecer.

Talvez por isso os funcionários do governo preferiram dormir. Estavam animados quando o trem deixou a Estação Central do Recife. Todos brindaram. Emília e Degas ergueram as suas taças, posando ao lado do Dr. Duarte e do grupo de autoridades governamentais, para que o fotógrafo oficial da delegação batesse a sua foto. Seguiram-se então vários outros brindes em honra do presidente Vargas, do tenente Higino e do Dr. Duarte. Tão logo os copos dos cavalheiros se esvaziavam, voltavam a se encher de cachaça com suco de limão. Degas ficou parado na extremidade do grupo, curvando-se um pouco para ouvir os brindes. Então, enfiava o braço no meio do círculo para que o seu copo tocasse nos demais. Junto com as poucas mulheres da delegação, Emília se sentou na outra ponta do vagão. Não participou daquela quantidade de brindes. Tudo o que bebeu foi água.

Quando os brindes terminaram, os jornalistas lotaram o vagão para fazer entrevistas. Trabalhavam para os jornais do Recife, mas havia também alguns da Paraíba, da Bahia e de Alagoas. Todos aprovados pelo Departamento Oficial de Propaganda de Vargas. As autoridades que participavam da delegação eram representantes, no Recife, dos diversos ministérios provisórios do governo federal: Indústria, Trabalho, Educação, Transporte e Saúde. Todos aqueles funcionários estavam loucos para ter as suas palavras publicadas pela imprensa, mas tudo o que diziam sobre questões climáticas, vacinas, carteiras de trabalho e distribuição de alimentos se limitava a dados estatísticos dos manuais do departamento, que eles haviam decorado e que os jornalistas já conheciam. Só o Dr. Duarte falava espontaneamente. Acabou cercado por todos, reinando absoluto sentado ali, na banqueta estofada do trem.

– Esta delegação é, principalmente e acima de tudo, uma obra de caridade – declarou ele, quando o trem ia passando pelos canaviais. – Mas não estarei diminuindo em nada a generosidade e a boa vontade do nosso governo ao afirmar que ela é também um trabalho científico. A possibilidade de medir os sertanejos, como chamamos os habitantes da caatinga, é uma oportunidade ímpar. Precisamos avaliar as diferenças, se é que existem, entre os diversos representantes do nosso povo. Não os isolar! O movimento de brasilidade de que tanto nos orgulhamos visa justamente a unir os diversos grupos que habitam o nosso país para formar uma nação! Em todos os povos há pessoas de bem. Mas há também criminosos que precisam ser definidos, sejam eles comunistas, degenerados, ladrões ou pervertidos sexuais. Dependendo do grau de criminalidade que tais indivíduos apresentem, eles poderão ser contidos, controlados ou curados. Esta é a única forma de purificar o Brasil e sanar os seus males sociais.

Enquanto o seu pai falava, Degas foi se sentar mais afastado do grupo. Parecia não estar nem um pouco interessado naquele discurso, preferindo dedicar toda a sua atenção a desamassar o seu chapéu fedora. À medida que o sol ia ficando mais forte e o dia, mais quente, o rosto dos homens se tornava mais afogueado. Todos se abanavam com o chapéu. Os drinques tomados pela manhã, combinados com aquele calor, deixavam-nos estonteados e exaustos. Os repórteres e os fotógrafos voltaram para o vagão de imprensa. Depois que o trem passou pelos canaviais da Zona da Mata e penetrou na caatinga calcinada pela seca, os representantes do governo pegaram no sono.

Na parte feminina do vagão, havia cinco freiras do Convento de Nossa Senhora das Dores trajando uns discretíssimos costumes marrom-escuros. Uma delas, mais jovem, desfiava o rosário. Outra, mais velha, olhava às vezes para Emília e esboçava um sorriso com os lábios cerrados. Nenhuma senhora da Sociedade Auxiliadora estava participando da delegação. Lindalva e a baronesa estavam na Europa. As outras deram desculpas, quase sempre relacionadas a doenças de um filho ou do marido. Parecia até que uma epidemia de gripe havia assolado a elite recifense, deixando em paz todos os outros moradores da cidade. Só as freiras aceitaram a convocação de Emília. Estranhamente, uma senhora de uma família tradicional, os Coimbras, também se juntou ao grupo. Apareceu na casa dos Coelhos e informou à moça que estaria representando a Sociedade Princesa Isabel.

A Sra. Coimbra se sentou defronte de Emília. Era uma mulher corpulenta e de ombros largos, que, dizia-se, já estava na casa dos 60, embora o seu cabelo fosse negro como carvão. Usava um vestido azul-escuro de corte reto, sem cintura, enfeitado apenas por uma tira frouxamente amarrada na altura dos quadris. Esse tipo de modelo era bem popular quando Emília chegou à capital, quatro anos atrás, mas agora estava absolutamente fora de moda. Atualmente, a “cintura de vespa” tinha se tornado de rigueur, graças, em parte, às confecções de Emília e Lindalva.

Ela estava usando uma das suas criações: um vestido florido, cinturado, cujo corte se acentuava ainda mais pela gola em estilo cabeção. Por causa do calor, Emília tirou o bolero de linho, mas só depois que os repórteres e os fotógrafos deixaram o vagão. O chapéu de palha tinha a aba bem maior que a dos seus velhos cloches e estava posto meio de banda. Os grampos que o prendiam lhe puxavam o cabelo e ele a deixava com a testa suada. Tirou-o então, depositando-o na banqueta ao seu lado. Fazia calor demais para manter a elegância. A Sra. Coimbra assentiu, aprovando o bom senso de sua companheira de viagem.

Nas poucas ocasiões em que a Sra. Coimbra falou, foi educada mas enérgica, como a maioria das mulheres das famílias tradicionais costumava ser com Emília. Sempre que ela adotava aquele tom, Emília sorria e fixava os olhos no vestido horrível que ela estava usando. Sabia muito bem que tais pensamentos eram fúteis e mesquinhos. Também sabia que as mulheres do Recife, tanto das famílias novas quanto das velhas, a julgavam por traços absolutamente sem importância do seu caráter: o leve vestígio de sotaque do interior, a sua incapacidade ou a sua falta de vontade de ter filhos, o seu marido e a sua predileção que sequer podia ser mencionada. Desde aquele jantar no teatro Santa Isabel, Emília percebia que as mulheres do Recife a punham abaixo de si mesmas em todos os sentidos, a não ser em questões de moda. Esta percepção fez com que a moça ficasse mais ousada.

Passou a se vestir como bem entendesse, usando boleros, saias justas, inspiradas em Claudette Colbert, e, no verão na praia de Boa Viagem, blusas bem amplas usadas para dentro de calças compridas de xadrez. Quanto mais confiante se tornava, mais as mulheres do Recife a felicitavam. Enquanto não cometesse nenhuma infração gritante, como ter um amante, andar de bonde tarde da noite, confraternizar com criminosos ou negros, a maioria das recifenses continuaria a admirar as suas criações e a querer comprá-las.

Emília se inspirava nas revistas de moda publicadas na França, na Alemanha, na Itália e nos Estados Unidos. O Dr. Duarte a ajudava a encomendá-las e elas vinham nas mesmas remessas das publicações de frenologia de seu sogro. Alterava alguns modelos, substituindo tecidos pesados por outros mais leves, mais adequados ao clima do Recife. Depois de traçar um molde bem detalhado e encontrar o tecido ideal para aquele feitio, mostrava a criação a Lindalva. Se ambas o aprovassem, o modelo ia para a confecção.

O Dr. Duarte tinha cedido às duas uma das suas inúmeras propriedades, mas Emília insistiu em pagar aluguel. O ateliê ficava numa localização privilegiada, na rua Nova, o ponto elegante da cidade que ia dar na ponte metálica de Boa Vista. As pessoas atravessavam a ponte para ir às compras. Na rua Nova, havia várias lojas chiques: a Casa Massilon vendia uniformes escolares e artigos militares; a Primavera, de propriedade de portugueses, era uma loja de departamentos especializada em roupas de cama, mesa e banho; a farmácia Vitória vendia remédios mas também abrigava consultórios médicos no sobrado; a Parlophon vendia rádios Philco, discos Odeon, refrigeradores e outros luxos modernos. Ali, bem no meio das melhores lojas da capital, ficava o ateliê E & L Modas. Não havia nenhum letreiro na porta, já que anunciar algo publicamente indicava a necessidade de lucros, o que não era absolutamente de bom-tom. Emília e Lindalva eram mulheres respeitáveis e, para elas, a confecção era um hobby e não um negócio. Visto de fora, o ateliê parecia uma casa austera, com cortinas brancas e uma campainha de latão junto à porta da frente. Quando as clientes chegavam, uma criada vinha recebê-las e as levava para dentro. Às vezes, Emília ou Lindalva estavam presentes, às vezes, não. Quando estavam no ateliê, jamais agiam como vendedoras; pelo contrário, sentavam-se para conversar como se fossem clientes também. Ninguém lidava com dinheiro: os pagamentos eram enviados pelo correio ou feitos mais tarde. Ninguém barganhava preços, tampouco havia necessidade de cobranças, porque mulher alguma no Recife, fosse de família nova ou tradicional, queria ser taxada de unha de fome ou de ladra.

As duas amigas ofereciam um número limitado de modelos prêt-à-porter. Não trabalhavam com longos nem faziam trajes sob medida. Como não se tiravam moldes específicos para cada cliente, Emília havia contratado uma costureira para consertar as roupas compradas e subir a bainha, no caso de uma mulher mais baixa, ou apertar a cintura quando a cliente fosse mais magra. Só faziam cinco peças de cada modelo, o que obrigava as recifenses a comprarem imediatamente. As criações de Emília eram inevitavelmente copiadas, mas a moda mudava tão depressa que, quando uma outra costureira aprendia a fazer determinado traje, ele já estava ultrapassado e Emília e Lindalva já estavam apresentando novos modelos na loja.

Assim que abriram a confecção, contrataram sete costureiras. Nessa época, o presidente Vargas exigia o pagamento do salário mínimo, a obrigatoriedade de banheiros para os empregados e a jornada de trabalho de oito horas. Cada empregado tinha uma carteira de trabalho que o empregador devia assinar, pois esse documento admitia o indivíduo no sindicato nacional. Qualquer outra organização sindical fora desmantelada e as greves eram proibidas por lei. Vargas havia decretado que, para fazer jus aos direitos que ele lhes estava concedendo, os trabalhadores deviam ser leais ao governo provisório. Emília respeitou a legislação e foi mesmo além dela: a sala de costura tinha janelas, vários ventiladores e um rádio para as costureiras ouvirem no horário do almoço. E não reclamou quando as moças pregaram na parede uma foto oficial do presidente, com a inscrição “Pai dos pobres” impressa acima do seu rosto sorridente.

O trem da Great Western também exibia uma foto de Vargas que fitava Emília ali na frente, acima da porta do vagão. Nesse retrato, ele não era o pai sorridente, mas o presidente de rosto sério, envergando smoking e faixa presidencial. A moça esfregou os olhos que ardiam por causa da poeira que cobria as janelas com uma fina camada marrom. Os copos vazios dos homens já haviam sido retirados e o único ruído que se ouvia ali era o do próprio trem. Um garçom enfiou a cabeça pela porta e contou os passageiros; em breve, estariam servindo o almoço. Embora estivesse com fome, Emília não esperava ansiosa pela refeição. Desde que a seca piorara, sentia-se culpada sempre que comia.

Era comum o interior enfrentar períodos de seca, portanto essas notícias não saíam nos jornais da capital até que a carne começasse a rarear e a ficar mais cara. Pouco depois, os retirantes apareciam pela cidade. Vinham se arrastando pelas ruas do Recife, andando como se lhes doesse levantar os pés do chão. Tinham viajado centenas de quilômetros na esperança de conseguir água, comida e trabalho. As suas roupas eram verdadeiros trapos. Os seus corpos eram tão magros e os seus rostos tão sujos que, às vezes, era impossível distinguir um homem de uma mulher. Os bebês pendiam inertes nos braços das mães. O rosto das crianças era tão cansado e enrugado quanto o de um velho. A cabeça parecia enorme naquele corpo esquelético e todas tinham a barriga inchada como um balão de pele, cheia apenas de ar e nada mais. O sofrimento daquela gente inspirou os jornais a denominá-los “flagelados”.

Sempre que ia para a confecção, Emília via esses flagelados tão desnorteados pela fome que andavam pelas ruas da cidade sem prestar a mínima atenção aos bondes ou aos automóveis. A moça olhava aquela gente, temendo reconhecer um vizinho ou um amigo lá de Taquaritinga. Certa vez, uma mulher se aproximou da janela aberta do Chrysler. Estava usando um vestido imundo e quase transparente de tão surrado. A pele do seu rosto era morena e muito retesada sobre os ossos dos maxilares, como se tivesse sido assada. A mulher segurou o braço de Emília. Tinha a mão seca e a pegada forte. Quando a moça olhou naqueles olhos, percebeu que era uma jovem, como ela própria. Mais que depressa, Degas acelerou e arrancou com o carro, ignorando o sinal vermelho. Depois que deixaram a mulher para trás, Emília escondeu o rosto nas mãos. Degas, que sempre ficava sem saber o que fazer quando alguém chorava, disse que iam voltar para ela poder lavar o braço. Emília, porém, balançou a cabeça. Água nenhuma ia apagar o aperto daquela mão; ela ainda a sentia. Se não fosse por Degas, se não fosse por aquele casamento esquisito, ela hoje seria uma mulher faminta, uma flagelada.

Na reunião seguinte da Sociedade Auxiliadora, Emília anunciou que estava lançando uma campanha de costura. Seguindo o seu exemplo, as mulheres da associação doaram tecidos, linha e horas de trabalho das suas costureiras. Depois, iam aos acampamentos montados nos arredores do Recife levando roupas, fraldas e cobertores. Para não ficar de fora, as senhoras das famílias tradicionais, membros da Sociedade Princesa Isabel, organizaram grandes festas e almoços visando levantar fundos para dar tratamento médico aos retirantes.

Quando ia distribuir alimentos e outras provisões aos flagelados, Emília não usava luvas, como as outras mulheres da Auxiliadora. Aceitava os abraços e os apertos de mão que eles lhe davam. Pegava com as mãos nuas os bebês esqueléticos, que não pesavam praticamente nada. Sentia necessidade de abraçar e beijar aquelas crianças. Buscava afeição onde quer que pudesse encontrá-la. Na casa dos Coelhos, enfiava os dedos pelas barras da gaiola do corrupião para acariciar as penas do pássaro. Diariamente, dava folhas de alface extras aos jabutis, na esperança de que lhe permitissem fazer um carinho naquela cara escamosa. No ateliê, segurava as mãos das costureiras para ensiná-las a melhorar a qualidade da costura. Dava-lhes tapinhas nas costas e as elogiava sempre que as via esticar uma fita métrica recém-comprada sobre uma régua para verificar se não havia nada errado.

– Nunca confie numa fita de um estranho – dizia Emília.

E, na hora de ir embora, quando abraçava Lindalva para se despedir, detinha-se por um bom tempo naquele contato.

Supostamente, os maridos devem satisfazer o desejo de afeição demonstrado por suas esposas, mas Degas não era um marido típico. Depois da revolução, parou com as visitas semanais ao quarto de Emília. Como aconteceu com outros combatentes, ele foi felicitado e ganhou uma medalha, mas a credibilidade que contava adquirir com isso jamais veio. O Dr. Duarte, que andava ocupadíssimo com o seu cargo de assessor do tenente, permitiu que o filho assumisse a administração das propriedades da família. Era ele quem recebia os aluguéis e resolvia problemas de manutenção, provando ser um administrador competente. Apesar de tudo, o Dr. Duarte não lhe deu autorização para comprar ou vender imóveis, nem assumir os negócios de empréstimos financeiros e de importação e exportação. Por conta própria, Degas começou a frequentar reuniões de negócios e, mais tarde, de política. Como o Dr. Duarte não podia rechaçar o filho abertamente, teve de tolerar a sua presença. Emília não saberia dizer se o marido era louco para obter a aprovação do pai, se queria simplesmente aborrecê-lo ou ambas as coisas. De todo modo, recusava-se a ser ignorado. Comprou um título de sócio do British Club. Quando o Dr. Duarte ia passear com seus parceiros comerciais na praça do Derby, ele apressava o passo para se juntar ao grupo. Nos jantares, enfiava-se nas rodinhas de homens que conversavam. Emitia opiniões, embora ninguém lhe perguntasse nada e apesar de ninguém lhe dar ouvidos.

O capitão Carlos Chevalier era o único que lhe dava atenção. Emília os via conversando amistosamente nos eventos do partido verde. O Dr. Duarte chamava o piloto de fanfarrão. A sua proposta de pilotar o avião para fazer o mapeamento da estrada visava apenas os jornais; o próprio capitão jamais entrara em contato com o tenente Higino. Outros homens do Recife também se mantinham à distância de Chevalier, o que o aproximou ainda mais de Degas.

Quando Emília era pequena, lá em Taquaritinga, dois meninos foram apanhados numa fazenda abandonada. Apanhados fazendo o quê ela nunca soube, embora tivesse insistido muito para a tia lhe contar a história toda. “O diabo está nos detalhes!”, tia Sofia tinha exclamado. Mais tarde, um dos meninos foi morto pelo próprio pai. O outro fugiu, desaparecendo na caatinga. A capital era mais civilizada que o interior, mas, mesmo assim, a moça temia por Degas. Entendia perfeitamente o que era desejar desesperadamente ser amada e não podia condenar o marido por sentir a mesma coisa. Houve noites em que, sozinha naquela cama de casal imensa, Emília acariciou os braços, as pernas, o ventre e mais abaixo, louca por um toque amoroso, mesmo que fosse o seu próprio. Depois, ficava envergonhada e confusa. Imaginava que, de certa forma, era assim que Degas se sentia.

O que começou como um pinga-pinga acabou virando uma enxurrada. Na época do Natal de 1932, os flagelados chegavam em massa à capital, aumentando a população local em 52 por cento. Os jornais alertaram para o fato de esses retirantes estarem cerceando os projetos do tenente Higino. Ele havia criado uma Comissão de Planejamento do Recife, que enfatizava a necessidade da verticalização dos prédios, da pavimentação das ruas e da construção de parques. A comissão aprovou uma lei antimocambo, determinando que estavam proibidas as construções de casebres na cidade. Os flagelados simplesmente ignoraram tal lei. Nos arredores do Recife, às margens dos rios e nos brejos, surgiram bairros inteiros feitos de tábuas e de zinco. O tenente Higino recorreu ao presidente Vargas. No espaço de algumas semanas, 48.765 retirantes foram embarcados em navios do Lloyd rumo à Amazônia, onde trabalhariam na extração da borracha.

– Não embarquem pensando em fazer fortuna – disse Vargas. – Mas sim em servir ao seu país!

A fome tornava os homens furiosos e insubordinados. Vargas compreendeu isso. Não queria outra rebelião como a que tinha ocorrido recentemente em São Paulo, estendendo-se por dois meses e custando ao governo o envio de 70 mil soldados à província revoltosa. Para deter o fluxo de retirantes rumo às capitais, o presidente ordenou que se construíssem sete campos por todo o interior. Tais campos ficavam estrategicamente localizados nas cidades mais povoadas da caatinga, onde, em geral, havia rios e vias férreas. Do Recife, saíam vagões repletos de rolos de arame farpado, comida e medicamentos. O Departamento de Propaganda noticiava que esses locais eram paraísos de segurança onde os flagelados poderiam aguardar o fim da seca.

Emília recebeu a carta do Dr. Epifânio em fins de janeiro. Todos já estavam planejando as fantasias que usariam no Carnaval. Um grupo de maridos da Sociedade Auxiliadora estava pensando em sair de flagelados, escurecendo o rosto com graxa de sapato marrom e usando roupas esmolambadas. Suas esposas queriam imitar a Costureira. As mulheres do Recife estavam competindo entre si para ver quem faria os trajes de cangaceira com mais bordados, pedrarias e joias falsas. Emília decidiu que não iria a nenhum baile.

Tinha recortado a foto da Costureira que saiu nos jornais, logo depois que os primeiros cartógrafos foram assassinados. Luzia estava de pé, no meio de vários homens, com os ombros largos, o pescoço comprido. Ao seu lado, o Carcará parecia pequeno e encurvado. A trança grossa lhe caía pelos ombros, chegando quase à cintura. Ela tinha quebrado a promessa feita na infância a santo Expedito. O seu rosto era escuro. Usava óculos e, por trás deles, não dava para ver os seus olhos. O brilho das lentes fazia aquela mulher parecer algo sobrenatural. Era uma figura imponente, poderosa, como a rainha de alguma tribo esquecida.

Depois do enterro do sexto cartógrafo, os jornalistas começaram a especular que a Costureira, e não o Carcará, teria sido a mandante das decapitações. Ela era impiedosa, diziam os jornais. Não tinha vergonha. Emília já tinha ouvido essa expressão inúmeras vezes. Lá em Taquaritinga, quando usava sapatos de salto alto, passava ruge no rosto ou ficava andando com Degas sem qualquer acompanhante durante o breve período do seu namoro, ouvia as pessoas murmurarem: “Essa moça não tem vergonha!” A vergonha era uma qualidade admirável numa mulher. Mesmo no Recife, era importante as damas terem vergonha, embora não usassem esse termo. Diziam compostura.

A carta do médico era curiosa. Emília a leu sete vezes. O papel estava dobrado e manchado. Num trecho, a tinta estava borrada. A moça percebeu o desespero contido nas palavras que ele usou. Mas havia também ternura. Lembrava que o homem do saguão do teatro era atencioso, inteligente e estava ligeiramente embriagado. A carta vinha revelar outros aspectos da sua personalidade. Ele era uma pessoa estranha: o que um homem entendia de renda? E por que declarava não ser religioso, num trecho, e, mais adiante, negava tal afirmação ao encerrar a carta com um pedido a santo Expedito? Referiu-se ao seu “bom coração” e à sua “determinação”. Quem teria lhe dito isso? Apesar das peculiaridades da carta, Emília acreditava no médico. Por todos aqueles anos, não tinha se esquecido de algo que ele lhe dissera no saguão do teatro: “A vida na cidade é muito boa, mas é fácil.” Depois que abriu o ateliê, achou que fosse ficar satisfeita, mas não ficou. A sua vida continuava vazia, preenchida apenas por coisinhas miúdas. Ao receber a carta do médico, a moça vislumbrou uma oportunidade de torná-la maior.

Emília tinha se especializado em incutir ideias na cabeça do sogro, fazendo-o acreditar que ele mesmo as tinha pensado. Uma delegação beneficente seria uma publicidade positiva para o tenente Higino e o presidente Vargas, angariando para ambos o apoio das “massas”. Aos olhos do Dr. Duarte, o campo de retirantes de Rio Branco representava uma excelente oportunidade para as suas medições cranianas. Em poucas semanas, o governo já tinha requisitado um trem da Great Western e enchido os seus vagões de carga com comida, remédios e pacotes de produtos de higiene, contendo sabonetes, pastas de dentes e pentes. Em cada um desses pacotes, havia também um retrato do presidente Vargas, o “pai dos pobres”.

Antes da partida, Emília e a Sra. Coimbra posaram para fotos que seriam publicadas em jornais de todo o Nordeste e nos de lugares mais distantes, como o Rio de Janeiro e São Paulo. As duas mulheres foram chamadas de “almas admiráveis”, dispostas a enfrentar o perigo em nome da caridade. Continuava havendo ataques por todo o sertão. Depois que a segunda equipe de cartógrafos foi decapitada, o Carcará desapareceu dos noticiários. Corriam boatos de que o bando teria se dispersado por causa da seca. Alguns flagelados chegaram ao Recife dizendo que o célebre cangaceiro havia sido morto a facadas por um dos seus homens. A informação virou manchete dos jornais, mas foi logo desmentida. O bando do Carcará atacou inúmeros trens que levavam suprimentos para os campos de retirantes de Vargas. Os cangaceiros saíram distribuindo a comida pelos famintos da região e, depois, os flagelados vinham dizer que o Carcará estava fazendo doações de farinha e carne. Outros diziam que não o tinham visto, que havia tantos cangaceiros que era impossível distinguir quem era quem. A maioria tinha certeza de ter visto a Costureira, aquela mulher alta, com um braço torto, atacando os trens e comandando os homens.

Na época do Natal de 1932, o tenente Higino enviou tropas recém-treinadas para proteger os campos de retirantes. Qualquer soldado que matasse um cangaceiro receberia duas divisas no uniforme. A essa altura, o Carcará tinha se multiplicado por dois. Bandos rivais se proclamavam chefiados por ele: um desses grupos tinha a Costureira; o outro, bem mais violento, tinha um homem que marcava o rosto das mulheres como castigo por elas usarem cabelo curto ou roupas indecentes. Emília viu a foto de uma das suas vítimas no jornal. A moça tinha uma cicatriz purulenta e o ferro com que havia sido marcada trazia a inicial “O”. Em seu depoimento, a vítima declarou que o homem que empunhava o ferro em brasa era baixinho, com orelhas enormes. Emília tinha uma vaga lembrança do cangaceiro que havia entrado na casa de tia Sofia, mandando que as três levassem o seu material de costura para a casa do coronel. Esse sujeito não era o Carcará, pelo menos não o homem de quem ela se lembrava.

Circulavam diversas histórias sobre a Costureira. Dizia-se que ela estava grávida; muitos dos flagelados que vieram para o Recife contavam que a tinham visto com uma barriga enorme. Quando o Dr. Duarte ouviu isso, acrescentou vários contos do próprio bolso ao prêmio oferecido pela cabeça da cangaceira. Um filho de dois criminosos infames seria um espécime valioso. Se o boato se confirmasse, se a Costureira estivesse mesmo grávida, ele queria a criança, tanto quanto a mãe, viva ou morta.

A história mais escandalosa que se contava a respeito dessa mulher envolvia o seu exército de cangaceiros. Algumas pessoas diziam que ela raptava mocinhas, vítimas da seca, e as obrigava a se casar com os seus homens.

Emília pôs a bolsa no colo. Ali dentro estava o retrato da primeira comunhão. Temendo que a sua companheira de viagem pudesse pedir para vê-lo, a moça não o tirou do seu enconderijo. Limitou-se a abrir a bolsa e ficar olhando para as duas meninas na fotografia. “Não custa nada levar isso”, foi o que pensou ao incluir o retrato na bagagem. Para o caso de o trem ser parado, de a delegação ser atacada. Bem no fundo, Emília sentia uma forte emoção sempre que olhava pela janela do trem e julgava ver um movimento qualquer naquela vegetação cinzenta da caatinga. Perguntava-se se os cangaceiros poderiam deter um trem em movimento, ou se esperariam até chegarem à estação de Rio Branco para agir acobertados pela noite. O trem estava repleto de suprimentos, e a viagem daquela delegação havia sido amplamente divulgada. Talvez o bando do Carcará esperasse para atacar o campo de retirantes, apesar da presença dos soldados. A possibilidade de um ataque a deixava a um só tempo assustada e empolgada. No fundo, tinha esperanças de que isso acontecesse. Embora jamais pudesse admiti-lo, para ela, o motivo principal daquela viagem não era a caridade ou a aventura, mas a possibilidade de encontrar a Costureira.

Passou os dedos pelo rosto das meninas no retrato. Acompanhou os ângulos enevoados do braço aleijado da irmã.

Às três da manhã, o trem entrou na estação de Rio Branco são e salvo. Uma bandinha militar veio saudar a delegação, executando o hino nacional. O sargento do campo de retirantes cumprimentou as autoridades do governo assim que desembarcaram. Os soldados faziam as vezes de carregadores, pondo a crescente coleção de malas em charretes puxadas por burros perigosamente magros. À luz dos lampiões a gás, Emília via os contornos das costelas dos animais se destacando sob a pele. Os fotógrafos da delegação não registraram a chegada; todos os viajantes estavam cansados, com o corpo enrijecido, os ternos amarfanhados, o rosto gorduroso. O Dr. Duarte declarou que seria melhor deixar as fotos para o dia seguinte, quando fizessem a sua entrada triunfal no acampamento. Os delegados iam dormir na casa dos últimos cidadãos decentes de Rio Branco, comerciantes e proprietários que permaneceram ali apesar da seca. As esposas desses indivíduos saudaram Emília, a Sra. Coimbra e as freiras com abraços e buquês de flores feitas de tecido, pois não havia mais flores de verdade na cidade. Ainda ao som da bandinha, as freiras se deram as mãos e rezaram para agradecer por terem chegado bem. O Dr. Duarte cumprimentou as autoridades do campo em altos brados. Degas ficou parado logo atrás do pai. Ao lado dele, Emília viu o médico. Ele estava com o cabelo malcortado e o rosto queimado de sol. Usava óculos e tinha um nariz grande, mais parecendo um bico. Abrindo caminho em meio à multidão, o homem parou para cumprimentar cada um dos delegados que encontrou e, depois, seguiu seu caminho em direção à moça.

Quando chegou perto dela, o médico a fitou intensamente. As pessoas à sua volta os empurraram e os dois acabaram se esbarrando. O doutor enrubesceu.

– Dona Emília Coelho – disse ele, enfim, apertando a mão dela com força. – É como se já a conhecesse...

 

3

 

O sol revelou à delegação vinda do Recife o que a noite havia ocultado: uma cerca bem cerrada de arame farpado, presa a postes de 2 metros de altura, contornava todo o acampamento de Rio Branco. Além da cerca, a caatinga. A floresta cinzenta se estendia até o horizonte, interrompida apenas aqui e ali pelo marrom dos cupinzeiros e a tênue linha dos trilhos do trem. Rio Branco, com as suas construções caiadas, a estação ferroviária e as fileiras de barracas de lona do campo de retirantes, parecia um apêndice insignificante ao território da caatinga. A cidade estava estranhamente silenciosa. Não se ouviam piados de pássaros, balidos de cabras ou pregões de ambulantes. Só havia os ruídos da delegação caminhando em direção ao portão do campo. Os repórteres faziam perguntas aos brados. As autoridades do governo trocavam observações. As freiras rezavam baixinho. Por trás da cerca, os retirantes se agitavam. Vinham saindo das barracas, ofuscados pelo sol. Formavam-se longas filas de homens e mulheres diante das áreas das latrinas que lhes eram destinadas: buracos cheios de soda cáustica, situados na outra ponta do acampamento. Quando soprava algum vento, Emília sentia os olhos arderem por causa do componente químico. Pôs então um lenço diante do nariz para se proteger daquele cheiro.

Os flagelados estavam com a cabeça raspada. Alguns ainda tinham as marcas brancas de remédio contra piolhos no pescoço e nos pelinhos que já recomeçavam a nascer. As mulheres usavam lenços vermelhos para disfarçar a careca. Todos tinham na camisa uma plaquinha metálica numerada, para identificá-los.

A delegação parou debaixo de uma faixa com os dizeres: Sejam bem-vindos! Viva Vargas! O pai dos pobres! Emília e os outros delegados posaram para fotos enquanto os retirantes ficaram só olhando.

Durante a noite, soldados haviam descarregado o trem e armado tendas para a distribuição. A tenda onde Emília e a Sra. Coimbra fariam a entrega de roupas ficava perto da que se destinava ao atendimento médico pelo Dr. Eronildes. O Dr. Duarte também tinha uma, onde apertaria a cabeça dos flagelados com aquelas pinças e anotaria os dados obtidos. Ele convidou o médico para assistir ao processo de mensuração e monopolizou inteiramente a sua atenção. Fez questão de cumprimentar o Dr. Eronildes pelo trabalho que vinha fazendo ali, pela sua diligência, pela sua iniciativa. E cutucou Degas para que o filho concordasse. O marido de Emília se limitou a fazer um aceno de cabeça para o médico.

Em função do calor, as tendas eram abertas pelos quatro lados. Só a que servia de moradia ao Dr. Eronildes, armada bem perto da outra, onde ele atendia, ficava com as paredes de lona baixadas. Atrás dela, havia um quintal cercado de arame farpado e sombreado pelo único juazeiro que havia no recinto do acampamento. Ali dentro, uma cabra com o úbere intumescido mordiscava a casca da árvore, sob a guarda de um soldado.

Por volta das nove horas, o sol começou a castigar o campo. Mesmo sob a proteção de uma tenda, o calor estava arrasador. O suor deixava marcas debaixo dos braços do vestido elegante de Emília. Porejava na sua testa, entrando-lhe pelos olhos. A moça tirou o chapéu e amarrou um lenço na cabeça. Junto com a Sra. Coimbra, ia distribuindo as roupas enquanto as freiras anotavam o número de identificação de cada flagelado, para evitar que alguém viesse receber duas vezes. Todos ali eram desajeitados e carrancudos; ninguém dizia “por favor” ou “obrigado”. A Sra. Coimbra lhe disse bem baixinho que eles eram ingratos.

– Estão famintos – emendou a moça, também sussurrando e dobrando umas calcinhas de criança. – Nesse caso, os bons modos não têm a mínima importância.

A sua companheira arregalou os olhos, como se tal ideia sequer lhe tivesse passado pela cabeça. Assentiu, então, e passou a atender outro flagelado.

Para minimizar o constrangimento daquelas pessoas por estarem recebendo caridade, Emília era eficiente e respeitosa, como se todos fossem clientes que estivessem pagando. Fazia o maior esforço para não encará-los, mas, por vezes, não conseguia se impedir de fitar a boca de um retirante, coberta de bolhas. A maioria tinha os olhos infeccionados, com as pálpebras cheias de pus. O mais difícil, porém, era ignorar as crianças desnutridas, com as pernas arqueadas e a barriga inchada. Emília lhes falava com brandura, dando-lhes bonecas. Em geral, as recém-chegadas eram as mais esqueléticas do acampamento, com olhos vidrados e apáticos. Essas crianças pegavam a boneca com alguma relutância, desinteressadas do que quer que estivesse à sua volta. Já as que tinham chegado há mais tempo estavam mais bem-alimentadas e arrancavam a boneca das mãos de Emília, apertando-a contra o peito tão magro que mais parecia o de um passarinho.

Emília passou a manhã inteira com a sensação de estar sendo observada. Quando olhava ao seu redor, nem as freiras nem a Sra. Coimbra a estavam fitando. Só quando se voltou para a tenda vizinha foi que deu com os olhos do Dr. Eronildes pregados nela. Num momento em que fez uma pausa para descansar, virou o banquinho na direção da tenda do médico e ficou observando o seu trabalho. Alguns pacientes pareciam desconfiados a princípio. Recusavam qualquer tratamento e escondiam os filhos com o próprio corpo. Com toda a calma, o Dr. Eronildes explicava o que pretendia fazer e como planejava tratá-los. Antes de encostar a mão num paciente, pedia-lhes permissão. Com gestos delicados, inclinava aquelas cabeças raspadas para trás, abria os seus olhos infeccionados e pingava ali umas gotas de remédio antes mesmo que pudessem se esquivar. Derramava colheradas de óleo de fígado de bacalhau na sua boca, explicando-lhes que aquilo ia curar a cegueira noturna causada pela fome. Havia uma enfermeira, ela própria uma flagelada, que o ajudava, assumindo aquelas tarefas nas ocasiões em que ele ia até a sua tenda particular. Emília avistou uma mulher idosa lá dentro. Tinha um cachimbo na boca e segurava algo nos braços.

Ao meio-dia, Degas veio chamá-la para almoçar. As freiras já tinham saído do acampamento, escoltadas por um soldado. Enquanto outro soldado dispersava a fila para a distribuição de roupas, Emília e a Sra. Coimbra baixaram as cortinas laterais da tenda. Degas ficou sentado, olhando para a tenda vizinha.

– Dizem que o doutor é um coiteiro – declarou ele.

– Quem disse? – indagou Emília.

– Todo mundo – respondeu Degas, dando de ombros. – Por que acha que papai foi tão efusivo com ele? Está querendo informações.

– Se ele tivesse abrigado cangaceiros, teria sido processado e condenado – retrucou a moça, em voz baixa. – Mas está aqui. É um homem de Vargas.

– É possível ser as duas coisas – observou a Sra. Coimbra. – Estive em Salvador. Ele é de uma ótima família da cidade. Pode ser que isso o tenha poupado de maiores problemas até agora. E o fato de ser médico...

– Ouvi outra coisa ainda – atalhou Degas.

A Sra. Coimbra chegou mais perto do banquinho em que ele estava sentado.

– Isso aqui é um trabalho de caridade, Degas – disse Emília. – Não uma coluna de mexericos...

– Ele tem um bebê nessa tenda – prosseguiu Degas, ignorando a esposa. – É por isso que a cabra está ali. Um dos retirantes quis roubar leite e o médico quase atirou nele.

Emília olhou para o consultório improvisado e, depois, para a tenda que ficava ao seu lado. Tinha ouvido tantas crianças chorando pela manhã... Nem imaginou que o choro pudesse vir da residência do Dr. Eronildes.

– Leite de cabra é bom. Tem muitos nutrientes – disse a Sra. Coimbra, tirando as luvas sujas e calçando outro par. – É filho dele?

– Sabe-se lá o que mais o respeitável doutor anda escondendo... – respondeu Degas, sorrindo e dando de ombros.

– Todos temos os nossos fantasmas – observou Emília, fitando o marido.

Ele se levantou.

– Vamos? – disse, estendendo o braço para a Sra. Coimbra.

Ela hesitou, mas, depois, aceitou. Degas então ofereceu o outro braço à mulher.

– Vão indo na frente – replicou Emília, ajeitando o lenço na cabeça. – Preciso dar um jeito nisso aqui.

– Está certo – disse Degas. – Deixe o cabelo solto, ou os soldados vão achar que você é uma das retirantes.

Quando os dois saíram, Emília viu um guarda perto da tenda. Ele devia escoltá-la para fora do acampamento. Mais que depressa, a moça baixou a cortina. Ali de dentro, a sombra do homem projetada contra a lona parecia grande e disforme. A tenda ficou muito abafada, mas ela não queria sair. O almoço seria um acontecimento para divulgação. Os jornalistas ficariam escrevendo nos seus blocos e os fotógrafos, tirando retratos da delegação. A mesa estaria repleta de funcionários do governo queixando-se da comida. E ao seu redor, para além da varanda, a caatinga com o seu vazio inquietante. Como Luzia podia sobreviver num lugar assim? Como qualquer pessoa podia sobreviver ali?

Apareceu uma segunda sombra projetada na lona. A cortina se abriu.

– Dona Emília? – disse o Dr. Eronildes, espiando para dentro da tenda.

A sua camisa estava amassada, o seu rosto reluzia de suor. Com um lenço, o médico enxugou a testa.

– Gostaria que eu a acompanhasse?

– Já tenho a minha escolta – respondeu ela, apontando para a sombra do soldado. – Mas prefiro a sua companhia.

Eronildes pareceu assustado. Como um pretendente nervoso, alisou a frente das calças com as mãos grandes. Emília interpretou aquela falta de jeito e o seu olhar constante como sinais de atração; o médico estava caído por ela. Sentiu um súbito orgulho da própria capacidade de desconcertar um homem. Com um gesto gracioso, pôs o chapéu e se postou ao seu lado.

Os dois atravessaram o acampamento devagar. O sol do meio-dia batia na lona das tendas, obrigando-os a estreitar os olhos. Moscas vinham lhes pousar nos braços e no pescoço.

– Estamos atrasados para os brindes – disse Emília. – Os delegados estão sempre brindando.

– Foi por isso mesmo que fiquei de longe – replicou o médico. – Estou parando de beber.

Emília assentiu. Lembrou-se do seu rosto afogueado e das suas mãos trêmulas quando conversaram no saguão do teatro Santa Isabel.

– Agora, sou responsável por algo – prosseguiu o Dr. Eronildes. – Não posso arriscar. Tenho de manter a mente clara.

O médico olhou para Emília, observando a sua reação. Nenhum homem, nem mesmo o professor Célio, a tinha olhado com tanto interesse, com tanta intensidade. A moça baixou um pouco mais o chapéu para cobrir o rosto.

– Compreendo – disse ela. – Aqui, as pessoas dependem do senhor. Essa seca é terrível.

– Tem medo de estar aqui? – perguntou ele, parando de andar.

– Não – respondeu ela. – Deveria ter?

– Eles não vão atacar – garantiu o médico, balançando a cabeça. – Não este acampamento.

– Por quê? – indagou ela, incapaz de esconder a decepção que sentia.

– Porque estou aqui – respondeu ele, sorrindo.

– Eles... – principiou ela, mas parou e baixou o tom de voz. – Os cangaceiros o respeitam?

– Eu os ajudei no passado. Isso a incomoda?

– Não – disse Emília, sentindo-se subitamente estonteada. Olhou ao seu redor; havia soldados por todo lado. Ficar ali parados chamaria a atenção. Dirigiu-se então para os portões do campo. O Dr. Eronildes se apressou em acompanhá-la. – O senhor não deveria dizer isso para ninguém. Especialmente para o meu sogro – prosseguiu a moça. – Ele avalia tipos criminosos. Vai lhe criar problemas.

– A senhora acredita nessas mensurações?

Ninguém tinha lhe feito tal pergunta antes. No Recife, havia quem chamasse o trabalho do Dr. Duarte de mania passageira. Outros diziam que se tratava de uma ciência emergente que vinha ganhando credibilidade na Alemanha, na Itália e nos Estados Unidos. Todos partiam do pressuposto que, sendo nora do Dr. Duarte, Emília acreditava no que ele fazia.

– Ele me mediu uma vez – disse ela. – Segundo os dados que obteve, sou um espécime normal. Alguém perfeitamente mediano.

– Mas não acredita nisso? – perguntou o Dr. Eronildes.

– Nenhuma mulher quer acreditar nisso – respondeu ela, sorrindo.

Olhou para o médico com um ar coquete, por baixo da aba do chapéu. Ele, porém, não retribuiu o sorriso.

– Acho que o Dr. Duarte tem razão, ao menos quanto à senhora – disse ele. – A senhora não é única.

Emília sentiu como se tivesse levado um beliscão. Levantou a aba do chapéu, pronta para insultar o médico, mas, quando o fitou, não conseguiu ficar com raiva. Ele parecia estar sofrendo. O seu queixo tremia. A moça tinha interpretado mal a sua atitude: o Dr. Eronildes não estava flertando com ela. Era outra coisa: algo que não compreendia.

– Conheço uma mulher – disse ele, com voz baixa e trêmula. – À primeira vista, ela não se parece com a senhora. Mas, quando se observa melhor, dá para ver que as duas têm os mesmos trejeitos, o mesmo andar, o mesmo nariz, o mesmo feitio de rosto. Quando olho para a senhora, acho que vocês poderiam ser irmãs.

Emília sentiu a boca seca. O seu braço pesava no de Eronildes. Limitou-se a assentir e continuaram andando. Seria estranho se ela e o médico chegassem atrasados para o almoço.

Durante a refeição, Emília não olhou para o doutor, nem lhe dirigiu a palavra. Apesar dos esforços que fazia para ignorá-lo, estava absolutamente consciente dos seus movimentos, da sua voz, do que comeu ou deixou de comer, das respostas que deu às inúmeras perguntas médicas que o Dr. Duarte lhe fez.

“Quem será esse homem?”, pensava ela. Admitiu ter sido coiteiro, mas que cangaceiros teria ajudado, e por quê? Será que a outra história que Degas contara era verdade? Ele estaria abrigando uma criança na sua tenda?

Ao longo de todo o almoço, Emília não respondeu às perguntas dos jornalistas. Mal conseguia erguer a mão para espantar as moscas que tentavam pousar na sua boca ou no seu cabelo. A Sra. Coimbra a fitava. Quando lhe falava, a moça nem ouvia direito o que estava dizendo. A sua companheira de viagem teve de repetir várias vezes as perguntas que lhe fazia e acabou concluindo que Emília estava exausta por causa do calor. Comunicou isso a Degas e ao Dr. Duarte; um e outro a observaram e repararam então na sua palidez.

– Vá se consultar com o nosso médico! – exclamou o seu sogro, pondo a mão no ombro de Eronildes. – Ele vai curá-la.

 

4

 

O médico baixou três das laterais da tenda para dar alguma privacidade a Emília. Por uma questão de decência, porém, uma delas tinha de ficar aberta. Um soldado se postou desse lado, de costas para a área reservada ao exame. Tinha ordens para manter a fila de flagelados a certa distância até que a consulta estivesse terminada. A enfermeira também permaneceu dentro da tenda. Pôs um pano úmido no pescoço de Emília e lhe serviu um copo com uma água amarelada e amarga. No almoço, a moça não refutou as preocupações da Sra. Coimbra quanto à sua saúde. Disse que se sentia meio tonta e que estava com uma leve dor de cabeça, mas teve o cuidado de não exagerar nas queixas, pois, se estivesse muito doente, Degas teria de acompanhá-la até a tenda de Eronildes.

Emília se sentou num banquinho. O pano úmido no pescoço a tinha refrescado. A umidade se espalhou pelas costas do vestido, deixando o tecido colado à pele. Quando terminou de beber a água, o Dr. Eronildes pegou o copo das suas mãos.

– Permite? – perguntou ele, apontando para a testa dela.

A moça aquiesceu e ele pôs os dedos longos e frios acima das suas sobrancelhas.

– A senhora está suando, o que é bom sinal. A sua pele não está nem vermelha, nem seca.

A enfermeira lhe passou o estetoscópio.

– Por favor – disse o médico, indicando os primeiros botões do seu vestido.

Emília desabotoou dois deles. A extremidade redonda do estetoscópio estava fria ao tocar no seu peito. O Dr. Eronildes começou a auscultá-la.

– Os seus batimentos cardíacos estão acelerados – declarou ele, tirando dos ouvidos a outra ponta do aparelho. – Acho que a senhora está precisando de repouso e...

Ouviu-se um choro vindo da tenda vizinha. Um choro alto e ansioso. O médico se empertigou. A enfermeira deixou a tenda de atendimento e entrou na outra. Quando as cortinas se abriram, Emília viu uma criada velha, fumando um cachimbo, embalando um volume nos braços.

– Estou cuidando de uma criança – disse ele.

– Quanta bondade – replicou a moça. – A mãe do bebê morreu?

– Não, mas, para mim, abandonar o único filho é como morrer.

Emília começou a sentir dor de cabeça de verdade.

– Por que ela faria isso? A mãe, quero dizer.

– Porque sabia que, com ela, a criança não sobreviveria. Era perigoso demais.

– E aqui, neste acampamento, com o senhor, não é perigoso?

– Ele não vai poder ficar comigo por muito tempo – disse Eronildes. – Prometi entregá-lo à tia.

A enfermeira voltou. Com um aceno de cabeça, indicou que estava tudo bem com o bebê. Emília ficou olhando para o espaço que separava as duas tendas, para a linha desigual das cortinas de lona.

– Como vai conseguir encontrá-la? – perguntou.

Sem pedir permissão, o Dr. Eronildes pôs os dedos no seu pescoço, com toda a delicadeza, para examinar os gânglios abaixo do maxilar. Aproximou-se um pouco mais.

– Já encontrei – sussurrou ele.

A criança voltou a chorar. Emília se pôs de pé. O pano úmido escorregou do seu pescoço e caiu no chão.

– Quer conhecê-lo? – indagou ele.

– Quero.

A passos rápidos, o Dr. Eronildes se dirigiu à tenda ao lado e abriu a cortina. Emília ficou um tanto hesitante.

– Ele já tem cinco meses – disse o médico. – Eu não sabia se iria sobreviver, mas sobreviveu. É teimoso. Voluntarioso como a mãe.

Emília olhou para a enfermeira, para o soldado, para as finas paredes da tenda. Em silêncio, amaldiçoou todos eles. Havia tantas perguntas que queria fazer, mas não podia...

– O senhor a conhecia bem? – perguntou. – A mãe do menino?

Eronildes soltou a aba da tenda, com os olhos fixos nas botas de fazendeiro que usava.

– Existem pessoas que a gente nunca chega a conhecer. Não de verdade. Mas eu a admirava, e tinha pena dela.

Emília assentiu. Com um gesto rápido, abriu a tenda e entrou.

Os seus olhos levaram alguns segundos para se habituar à penumbra que reinava ali dentro. À sua frente, a poucos passos de distância, o menino se remexia nos braços da babá. Tinha o rosto vermelho e estava chorando. Emília teve a sensação de estar de volta ao trem da Great Western, avançando sem saber como nem por quê. De repente, viu-se diante da criada. O corpo inteiro do bebê parecia afogueado e a sua pele era fina como um filme. Nas suas pálpebras e por toda a barriga, Emília viu uma rede de veias, algumas vermelhas, bem fininhas, outras azuis, mais grossas. O bebê cerrou bem os punhos. Os seus lábios tremeram e, depois, se abriram para soltar um grito tão alto e estridente que ela chegou a se assustar. A criada o depositou nos seus braços. Tirou da boca o cachimbo de sabugo de milho e falou alto, para suplantar o barulho que o neném fazia.

– O nome é Expedito – disse ela. – É como a mãe dele quer.

 

5

 

A Sra. Coimbra o chamava de filho da seca. As freiras, de órfão. Os jornalistas que acompanhavam a delegação o apelidaram “o enjeitado”. Os fotógrafos usaram seus últimos rolos de filme para tirar retratos de Emília, parada na plataforma da estação de Rio Branco, com o bebê nos braços. A Sra. Coimbra ficou de um lado, Degas e o Dr. Duarte do outro. Atrás deles, indócil como um cavalo prestes a deixar o estábulo, o trem da Great Western que os levaria de volta ao Recife.

A viagem foi considerada um sucesso. Dois dias no acampamento de Rio Branco deram ao Dr. Duarte centenas de medidas cranianas a serem comparadas e analisadas. Ao presidente Vargas, deram uma imagem positiva em meio aos retirantes, que penduraram fotos do “pai dos pobres” nas suas barracas. As freiras do Convento de Nossa Senhora das Dores cumpriram a sua missão de servir aos pobres e a Sra. Coimbra cumpriu o seu dever com a Sociedade Princesa Isabel. Os delegados do governo voltaram ao Recife com a ideia de retomar o projeto da rodovia, pondo os homens do campo de retirantes para trabalhar na obra. Milhares de maridos, pais e filhos robustos e aptos para o trabalho chegavam àquele local e recebiam comida e um teto de graça. A partir do momento em que tivessem se recuperado dos males da fome, por que não fazê-los trabalhar? As remessas semanais de barracas, comida e arame farpado deveriam passar a incluir também ferramentas. Já havia soldados ali, para proteger o campo. Se sertanejos nativos fossem trabalhar na estrada, era possível que os cangaceiros não atacassem: o Carcará e a Costureira não ousariam matar o seu próprio povo. Operários oriundos do campo de retirantes poderiam construir a Transnordestina de dentro para fora, começando o trabalho pelo interior e indo até o litoral. Os homens do governo estavam empolgadíssimos com a perspectiva de apresentar o seu projeto ao tenente Higino.

Todos naquela delegação sabiam que Emília havia sido a instigadora da viagem. O Dr. Duarte, as freiras, a Sra. Coimbra e as autoridades governamentais vieram lhe agradecer pelo sucesso. Por esse motivo, na última manhã que passaram em Rio Branco, quando a moça atravessou a cerca de arame farpado que limitava o campo de retirantes carregando nos braços uma daquelas crianças, ninguém ousou tentar dissuadi-la. Ela já havia conversado com o Dr. Duarte sobre o bebê. O seu sogro franziu o cenho e passou a mão pelo bigode, um hábito que tinha quando estava pensativo. O Dr. Eronildes garantiu que respondia pela saúde do menino. Enfim, o Dr. Duarte pôs a mão no ombro da nora.

– Vou deixar que fique com ele – disse o velho, como se Expedito fosse um capricho caro e nada realista, como uma estola de pele.

– Chegando ao Recife, cuidaremos da papelada para a adoção – acrescentou o Dr. Duarte. – Será um bom exemplo para outras pessoas, Emília. Todas as nações modernas, como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França, têm o espírito da caridade. “Fidelidade, Igualdade e Fraternidade”, como dizem eles! “Cuide do seu irmão!” Os brasileiros deviam fazer o mesmo. Nós, os Coelhos, seremos os primeiros.

Antes de sair da tenda que servia de consultório médico, o Dr. Duarte convidou o colega a ir ao Recife. As eleições nacionais estavam chegando, iam ser em maio, declarou ele. Haveria muitos postos bem-remunerados para homens brilhantes e capazes como Eronildes. Este, porém, recusou o convite. Ficaria no campo de Rio Branco enquanto a seca persistisse. O Dr. Duarte sorriu e lhe entregou o seu cartão de visitas. Antes de se despedir, o sogro de Emília sussurrou algo ao ouvido do médico. A moça não conseguiu ouvir exatamente o que ele tinha dito, só percebeu a palavra problemas. O Dr. Eronildes enrubesceu e apertou a mão do Dr. Duarte. Quando se despediu de Emília, mostrou-se reservado e formal.

– A senhora mudou o destino deste menino – disse ele. – Mantenha-me a par dos seus progressos.

Emília assentiu. Queria lhe fazer muitas perguntas, queria mandar muitas mensagens para Luzia, mas não podia fazer nada disso, pois seu sogro a esperava impaciente, com a tenda já aberta.

– Fui criada por uma tia – disse ela. – Ninguém substitui a mãe. Minha tia sabia disso. E fez o melhor que pôde.

O Dr. Eronildes sorriu. Pôs aquela mão comprida na cabeça de Expedito. O bebê bocejou e se remexeu no colo de Emília.

Degas foi o único a demonstrar alguma preocupação com aquela adoção apressada. Antes de deixarem Rio Branco, fitou a criança com ar sério.

– Mamãe não vai gostar nada disso – observou.

A Sra. Coimbra, que havia assumido uma atitude protetora com relação a Emília, o fitou com ar severo.

– A sua mãe teve um filho – disse ela. – Conhece as alegrias da maternidade. A natureza negou essas alegrias à sua esposa e ela encontrou outra forma de tê-las. A sua mãe vai compreender.

A Sra. Coimbra, as freiras, o Dr. Duarte e todos os demais membros da delegação estavam convencidos de que a moça havia encontrado uma solução natural para a sua esterilidade. Emília deixou que manifestassem as crenças que sempre tiveram: que a sua obsessão pela moda, o ateliê e a luta pelo voto feminino haviam sido tentativas vãs de compensar uma necessidade maior, instintiva. Ao adotar um filho, mesmo sendo um flagelado, tal necessidade seria finalmente satisfeita.

– Ele é saudável e de pele clara – sussurrou a Sra. Coimbra antes que ambas entrassem na plataforma. – Ninguém pode censurá-la por querer ficar com ele.

Quando o trem saiu da estação de Rio Branco, Expedito começou a chorar alto, parecendo muito bravo. Debatia-se nos braços de Emília, batendo com os punhos miúdos na barriga da moça. Aos seus pés, havia um cantil de couro cheinho de leite de cabra. Emília levou-o à boca do bebê, que se acalmou e começou a mamar, olhando-a fixamente. Os seus olhos castanhos estavam molhados e brilhantes por causa das lágrimas, e tinham uma expressão tão séria que parecia até que ele a estava avaliando, perguntando-se onde estaria a sua fiel babá com o cachimbo de sabugo de milho e por que o tinham abandonado novamente. Expedito mamava com tamanha determinação que a moça chegou a temer que ele pudesse dar cabo de todo o leite antes do fim da viagem. Tentou tirar o cantil da sua boca. O menino franziu a testa e recomeçou a choramingar. Na outra ponta do vagão, as autoridades do governo fitavam a cena. Aos primeiros gritos do bebê, todos riram; agora, já pareciam irritados. Seguindo o conselho da Sra. Coimbra, Emília o levou para um vagão de segunda classe que estava vazio. Sua companheira de viagem e as freiras foram junto com eles.

Não havia ali nenhuma babá para amamentar a criança e botá-la para arrotar, nem criada que o levasse para trocá-lo quando ele sujasse as fraldas. No campo de retirantes, Expedito não usava fraldas, pois não havia como lavá-las: a água era artigo precioso demais para ser desperdiçada fervendo fraldas sujas. Portanto, a criada do cachimbo de sabugo de milho fazia o mesmo que tantas mães da caatinga: ficava o tempo todo de olho na criança, para ver se ele franzia a testa, se retesava ou se contorcia. Quando isso acontecia, ela corria para pôr Expedito num penico de barro, e fazia isso dez, quinze, às vezes vinte vezes por dia. No trem, não havia penicos. Emília tinha uma pilha de paninhos de um algodão grosseiro. No começo da viagem, as freiras e a Sra. Coimbra a ajudaram a trocar o bebê. As mulheres se espremeram no minúsculo banheiro do vagão e ensinaram a moça a limpá-lo, a dobrar uma fralda limpa e prendê-la com alfinete. Entregavam as fraldas sujas ao garçom, que, com alguma relutância, levava embora aquelas trouxinhas fedorentas. Emília supôs que ele as jogava pela janela.

Ao anoitecer, as outras mulheres voltaram para os seus lugares no vagão ocupado pela delegação. Tinham a liberdade de se afastar da criança, de dormir, de jantar tranquilamente. Emília não podia fazer nada disso. Ficou sentada ali, exausta. O seu vestido fedia a leite de cabra respingado. O seu bolero estava todo manchado das golfadas de Expedito. O seu chapéu estava amassado. Naquele vagão vazio, a moça compreendeu a solidão da maternidade.

O bebê dormia num bercinho de fibra de caroá. Emília o tirou dali e o pôs no colo. O seu rostinho revelava um sono tranquilo. Às vezes, sacudia as mãozinhas miúdas, como se afastando algum sonho. Sempre que ele se mexia, a moça ficava tensa. Tinha medo de que Expedito acordasse e chorasse, e que ela não soubesse acalmá-lo. Aquele bebê a aterrorizava. Mas, por trás desses medos, Emília sentia uma enorme afeição. E esse sentimento foi crescendo dentro dela, fazendo-a esquecer o vestido sujo, as costas doídas, a solidão. Havia uma sensação gratificante, uma espécie de libertação no ato de esquecer de si mesma para cuidar daquela criança.

Sob os lençóis do berço, havia um saquinho de lona que o Dr. Eronildes tinha lhe dado. “É para o menino”, disse o médico. “A mãe queria que isso ficasse para ele.” O saquinho continha um canivete em cujo cabo de madeira se via a figura de uma abelha toscamente entalhada. Um pouco antes, Emília tinha tirado o canivete do seu esconderijo e passado o dedo pela lâmina cega.

Na outra ponta, uma porta se abriu. O vento percorreu todo o vagão. A moça olhou para o bebê. Ele contraiu os lábios, formando umas ruguinhas no queixo, mas não acordou. Degas veio andando pelo corredor e se sentou ao lado da mulher.

– Nós dois somos os únicos acordados – disse ele, esfregando os olhos. – Por que será?

Emília balançou a cabeça, temendo perturbar o sono de Expedito.

– A consciência pesada nos impede de dormir. Era o que minha tia Sofia sempre dizia.

– Está culpada? Por quê? – indagou ele, virando-se para fitá-la.

Emília ficou olhando pela janela. O vidro estava sujo. Não havia lua, o que deixava tudo escuro demais para se poder ver a caatinga. Ela ficou então observando o próprio reflexo. Não tinha tomado conta da irmã caçula, não tinha protestado quando os cangaceiros a levaram. Mais tarde, não fez nada para tentar resgatá-la. E, depois, tentou esquecê-la, negar a relação que havia entre elas.

– Por fugir – disse Emília enfim. – Por esquecer.

– Isso não é motivo para culpa. Só mostra que você foi esperta – retrucou Degas. – Que nome vamos lhe dar? – perguntou, apontando para o bebê.

– Ele já tem nome.

– Mais uma vez, a minha opinião não conta para nada – disse ele, contraindo os lábios. – Já devia ter imaginado. Você e papai escolheram um nome?

– Não. Ele já tinha nome.

– E qual é?

– Expedito – sussurrou Emília.

A criança se remexeu nos seus braços.

– Se existe um nome típico de matuto, é esse aí – replicou Degas. – Deve ter sido a mãe dele que lhe deu esse nome.

– Não sei – replicou a moça, louca para o marido ir embora dali. – Pode ter sido o doutor que escolheu.

– Sujeitinho estranho, aquele doutor – disse Degas, balançando a cabeça. – Distribui bebês. Alia-se a cangaceiros. Entendo que eles queiram essa aproximação; afinal, um médico é um amigo bem útil quando se é bandido. Mas não consigo compreender por que ele se arriscaria com uma amizade assim. E, ainda por cima, ninguém o condena por isso. Os coiteiros andam sendo detidos a torto e a direito, mas não o Dr. Eronildes. O seu lado criminoso o torna um personagem interessante. Um trunfo. Viu que papai o elogiou? Chegou a convidá-lo para ir ao Recife...

– Psiu! – sussurrou Emília. – Você vai acordá-lo.

Degas fitou Expedito. Passou o dedo pelo pé do menino.

– Antes, você torcia o nariz quando se falava em filhos. Até a Costureira teve instinto maternal. Só você que não tinha.

– Que bobagem! – exclamou a moça, sempre aos sussurros.

– Não é, não. Ela estava grávida – prosseguiu Degas. – Foi o que disseram os jornais.

– Estava era faminta, como aqueles retirantes. Todos têm a barriga enorme. São vermes.

Degas a ignorou e continuou passando o dedo em círculos pelo pé descalço de Expedito.

– Suponho que seja difícil dar à luz na caatinga. A pessoa precisa de cuidados médicos. Um doutor...

– É por isso que não quero ter filhos – atalhou Emília, determinada a pôr um fim àquela conversa. – O parto é um horror. A Sra. Coimbra disse que eles acabaram com o corpo dela.

– O que você acha que aconteceu? – indagou Degas, sorrindo.

– Com o corpo dela? – retrucou Emília. – A cintura ficou grossa.

– Não – disse Degas. – Com a criança, com o filho dos bandidos.

– Ela o matou – respondeu a moça, fitando-o.

– Que mãe faria uma coisa dessa?

– Uma mãe desesperada.

– Vimos a prova de que isso não é verdade – replicou ele, estalando a língua. – Aquelas mulheres no acampamento estavam desesperadas. Estavam famintas, mas todas ficaram com os seus bebês esquálidos.

Degas estendeu a mão na direção do colo da mulher. Fez um carinho na cabeça de Expedito, passando os dedos em cada fio sedoso do seu cabelo.

– Acho que a Costureira deu o filho para alguém criar. Para um coiteiro, talvez. Alguém em quem confiasse de verdade – prosseguiu, pondo a mão em concha na cabeça do menino. – Papai vai querer medi-lo. Tão logo ele esteja inteiramente formado.

Emília se lembrou da Menina Sereia boiando naquele pote de vidro, aprisionada num sono perpétuo. Afastou a mão do marido.

– Deixe ele em paz – disse ela, entre dentes.

– Não posso – retrucou Degas, fitando a mulher com o rosto contraído como se estivesse sentindo alguma dor. – Agora sou pai dele, embora não tenha podido escolher, embora você não tenha consultado a mim, mas sim ao meu pai. Todos me desconsideram, até mesmo a minha própria esposa. Mas não faça esse ar condescendente, Emília. Sei bem o que é ter algo a esconder. Faço isso a cada instante.

Ela sentiu as mãos úmidas em contato com a pele de Expedito. As dobras dos seus cotovelos estavam molhadas de suor.

– Desculpe – disse ela. – Devia tê-lo consultado em primeiro lugar. Tive medo de que dissesse não.

– E se eu dissesse? – indagou ele. – Você teria ficado com a criança assim mesmo.

– Tem razão.

Degas suspirou e se recostou na banqueta do trem. Virou-se para a mulher.

– Diga a verdade – pediu ele. – O que esse menino tem de tão especial?

– Nada – respondeu Emília. – Se acredita no mesmo que o seu pai, ele não tem nada de especial. É exatamente o contrário. Foi por isso que quis ficar com ele.

Degas olhou para o teto. Com dois dedos, pressionou o osso do nariz. Quando voltou a fitar Expedito, os seus olhos estavam brilhando.

– Vou falar com mamãe quando chegarmos – disse ele, pondo-se de pé subitamente. – Vou lhe dizer que eu quis ficar com ele.

Emília o viu se esgueirar pelo corredor estreito e desaparecer no outro vagão. Depois que Degas se foi, ela aconchegou Expedito ao peito. O bebê acordou. Começou a chorar, mas a moça não tentou aquietá-lo. Colou o rosto ao dele, aspirando aqueles soluços com cheiro de leite e dando vazão aos seus próprios.