Entre irmãs
Capítulo 1
Emília
Taquaritinga do Norte, Pernambuco
Março de 1928
1
D ebaixo da cama, tia Sofia guardava uma caixa de madeira com os ossos do marido. Todo dia, pela manhã, Emília ouvia o farfalhar dos lençóis engomados, o estalar das articulações da tia quando esta se ajoelhava para tirar a caixa do seu lugar habitual. “Meu falecido”, sussurrava, porque não se deve dizer o nome dos mortos. Só se referia a ele assim nos melhores dias. Se acordasse irritada, atacada de artrite ou com a cabeça cheia de preocupações por Emília e Luzia, dirigia-se à caixa num tom mais severo, dizendo “meu marido”. Quando ficava acordada até mais tarde, sentada na cadeira de balanço e fitando os retratos de família, no dia seguinte falava com a caixa docemente, murmurando baixinho: “meu finado”. E se a seca piorasse, se quase não aparecesse trabalho de costura ou Emília tivesse voltado a desobedecê-la, tia Sofia suspirava e dizia: “Ó, meu defunto, meu fardo.”
Era assim que Emília adivinhava o humor de sua tia. Sabia quando podia pedir mais tecidos para vestidos e quando deveria ficar quieta. Quando podia pôr um pouquinho de perfume e de ruge ou quando deveria sair de cara lavada.
Os dois quartos eram separados por uma parede caiada que se erguia a uma altura de 3 metros e terminava abrindo espaço para as estacas de madeira que sustentavam as vigas do teto com as carreiras de telhas alaranjadas. As orações que Sofia murmurava passavam por cima daquela parede. Emília dormia na mesma cama que a irmã. Um raio de sol empoeirado atravessou uma fenda do telhado. Penetrou pelo mosquiteiro amarelado. Emília estreitou os olhos. Ouviu o barulhinho das contas do rosário nas mãos da tia. Depois, um resmungo e, em seguida, o chocalhar dos ossos de tio Tirço quando tia Sofia empurrou a caixa de volta para baixo da cama. Aquele arrastar diário da caixa já tinha deixado sua marca no piso – duas risquinhas mais claras do que o tijolo queimado que recobria o chão de todos os cômodos da casa, à exceção da cozinha.
Esta era de terra batida, um piso alaranjado e sempre úmido. Emília jurava que aquela umidade atravessava a sola de suas sandálias de couro. Tia Sofia e Luzia andavam descalças pelo chão, mas Emília insistia em usar sapatos. Em criança, circulava descalça pela casa toda e as solas de seus pés tinham ficado cor de laranja, como as da tia e da irmã. Passou então a esfregar os pés com água quente e uma esponja, para que ficassem claros como devem ser os pés de uma dama. As manchas, porém, nunca saíram e, para ela, a culpa era toda do chão.
Naquele ano, as chuvas de inverno foram raras e as de janeiro simplesmente não vieram. Os cafeeiros dos vizinhos não floresceram. Os botões roxos dos pés de feijão que tia Sofia cultivava no quintal murcharam e elas perderam metade da colheita anual. Até o piso da cozinha ficou seco e rachado. Emília tinha de varrê-lo três vezes por dia para evitar que a poeira alaranjada cobrisse as vasilhas, se acumulasse nas cabaças e sujasse a bainha dos vestidos. Estava economizando para pôr um piso decente e, para isso, vinha fazendo camisolas e lenços extras para os seus patrões, o coronel Pereira e sua esposa, dona Conceição. Quando juntasse o suficiente, compraria meio saco de cimento e aquele chão de terra batida sumiria debaixo de uma espessa camada de concreto.
O lugar de Luzia na cama estava vazio. Com certeza a irmã estava rezando, como sempre fazia pela manhã, diante das imagens no altar que ficava na despensa. Emília saiu de baixo do cortinado e se levantou; tinha o seu próprio altar. No baú das roupas, havia uma pequena gravura de santo Antônio recortada do último número da Fon Fon, sua revista favorita, que trazia moldes de costura, folhetins e, às vezes, um guia de orações. Dona Conceição lhe dava números antigos dessa revista e de outra que Emília adorava, O Capricho. Ela guardava aquilo tudo em três pilhas debaixo da cama, embora tia Sofia reclamasse que aquele arranjo atrairia camundongos.
Emília se ajoelhou diante do velho baú preto. A revista Fon Fon ensinava a pôr a imagem de santo Antônio – o santo casamenteiro – diante de um espelho com uma rosa branca ao lado. “Encontre o seu par perfeito!”, propunha a revista. “Uma oração para você encontrar o marido certo.” E garantia às leitoras que três pais-nossos e três ave-marias rezados toda manhã para o santo resolveriam a questão.
A moça botou a imagem perto do espelhinho meio baço que cabia na palma de sua mão e que ela havia comprado com suas economias. Aquilo nem se comparava ao espelho de corpo inteiro que dona Conceição tinha no quarto de costura, mas, se o apoiasse no baú das roupas, podia ver bem direitinho o próprio rosto e o cabelo. Só que não havia rosas brancas na sua cidade. Aliás, não havia flor alguma por ali. As vigorosas beneditas, que cresciam na beira das estradas, tinham perdido as pétalas rosadas e amarelas e deixado cair suas sementes naquele solo duro e seco. As dálias de tia Sofia recurvaram a cabeça pesada e sumiram em seus bulbos enterrados no chão, fugindo do calor. Até os cajueiros e os pés de café pareciam abatidos, com as folhas amareladas por causa do sol constante. A moça fez então uma rosa de retalhos; com certeza santo Antônio compreenderia. Juntou as mãos e rezou.
Tinha 19 anos e já era solteirona. As fofoqueiras da cidade diziam que as irmãs iam ficar encalhadas, mas por motivos diferentes. O destino de Luzia havia sido selado pelo acidente que sofrera na infância: aos 11 anos, caiu de uma árvore bem alta e quase morreu. A queda deformou o seu braço e a deixou, segundo se dizia, meio atarantada. Homem nenhum ia querer uma esposa aleijada, era o que se comentava; ainda por cima alguém com o gênio de Luzia. Emília não tinha qualquer deformação física, graças a Deus. Já tivera vários pretendentes que afluíam àquela casa como vira-latas. Tia Sofia lhes oferecia café e bolo de macaxeira, mas Emília se escondia no quarto e pedia a Luzia que os enxotasse de lá.
Se insistissem em ficar, a moça ia espiar a cozinha escondida atrás da porta. Os pretendentes eram jovens lavradores que aparentavam mais idade do que tinham. Usavam chapéus amassados, sentavam-se com as pernas bem abertas e ficavam estalando os dedos daquelas mãos enormes e calejadas. Enquanto a cortejavam, eram só sorrisos e falta de jeito. Mas Emília já os vira negociando na feira semanal, aos gritos e cheios de si, pegando galos pelas asas e partindo o pescoço dos animais num gesto rápido. Depois de rejeitar um pretendente, a moça com frequência o via desfilar com uma mulher na feira dos sábados, arrastando a jovem esposa tímida por ali afora, como se ela fosse algum animalzinho arisco que pudesse escapar à mão firme do marido.
Emília lia os folhetins da Fon Fon. Fora de Taquaritinga, existia uma outra espécie de homens. Cavalheiros eram perfumados e gentis. Usavam o bigode escovado, o cabelo com brilhantina, a barba aparada, as roupas bem-passadas. Não era uma questão de dinheiro, mas de atitude. Ela não era esnobe, como diziam as fofoqueiras da cidade. Sonhava com refinamento, não com riqueza. Mistério, não fortuna. À noite, quando acabava de rezar, imaginava-se como uma daquelas heroínas da Fon Fon, elegantemente vestida, apaixonada por um capitão cujo navio se perdera no mar. Via-se numa duna, gritando para as águas o nome do amado. Ou como sua enfermeira, cuidando dele quando voltava à terra firme. O rapaz havia ficado mudo e ela se tornava a sua voz, espreitando aquelas sobrancelhas escuras que subiam e desciam, comunicando-se numa linguagem que só ela entendia. Esse mistério, esse ansiar tristonho que perpassava todas as histórias publicadas na Fon Fon, pareciam ser a fonte mesma do amor. Emília rezava para que lhe acontecesse coisa semelhante. Dormiu sem travesseiro, fez promessa de não comer mais doces e espetou o dedo trinta vezes com a agulha de costura como penitência oferecida aos santos em troca de sua ajuda. Nada disso funcionou. A rosa branca e as orações ensinadas pela Fon Fon eram a sua última esperança.
Segurou bem firme nas mãos a imagem de santo Antônio recortada da revista.
– Professor Célio – murmurou, em meio às orações.
Célio, o professor de costura, não era misterioso nem trágico. Era um homenzinho magro, com olhos meigos e dedos longos. Mas era diferente dos rapazes de Taquaritinga. Usava ternos recém-passados e sapatos bem-engraxados. E vinha da grande metrópole, São Paulo, para onde voltaria quando o curso terminasse.
– Por favor, santo Antônio, permita que eu vá com ele – sussurrou Emília.
– Não devia pedir essas bobagens aos santos – disse Luzia, parada à porta do quarto.
Sua cabeça quase encostava no portal caiado. Sempre que entrava em um aposento parecia enchê-lo por completo, fazendo o espaço parecer menor do que era. Tinha os ombros largos e os músculos do braço direito – o braço bom – eram roliços e rijos, definidos por anos e anos girando a manivela da máquina de costura de tia Sofia. Os olhos eram o seu traço mais bonito, mais feminino. Emília tinha inveja deles. Eram verdes e com pálpebras pesadas, como as de um gato. Sob as sobrancelhas grossas e os cílios bem pretos, aquela cor se destacava, como os brotos das dálias de tia Sofia emersos da terra escura. Luzia segurava o braço esquerdo, o aleijado, com o direito. O cotovelo daquele braço tinha ficado definitivamente dobrado, formando um ângulo reto bem acentuado. Os dedos e o ombro funcionavam perfeitamente, mas o cotovelo nunca mais endireitou. Para a tia, a culpa era toda da encanadeira, que teria feito um péssimo trabalho ao imobilizar os ossos fraturados.
– O amor não é bobagem – retrucou Emília, fechando os olhos para retomar as orações.
– E santo Antônio nem é o santo certo para isso – prosseguiu Luzia. – Ele não vai acertar o seu par. Você vai pedir um garanhão e ele vai lhe dar um burro.
– Bom, não é isso que diz a Fon Fon.
– Devia rezar para são Pedro.
– Cuide das suas orações que eu cuido das minhas – exclamou Emília, apertando o santinho com mais força ainda entre as palmas das mãos.
– Você devia acender uma vela para chamar a atenção dele – acrescentou Luzia. – Flores não adiantam nada. E essa aí nem é de verdade.
– Cale a boca! – esbravejou Emília.
Luzia deu de ombros e foi embora. Emília tentou se concentrar nas orações, mas não conseguiu. Pôs o cabelo para trás das orelhas, beijou a imagem de santo Antônio e saiu do quarto, atrás da irmã.
2
A casa era pequena, mas sólida, com paredes de tijolos pelo lado de fora e um bom acabamento por dentro, com reboco e caiação. As visitas que apareciam por ali passavam as mãos na superfície porosa daquelas paredes, impressionadas com tamanha extravagância. Tia Sofia também tinha mandado instalar um banheirinho nos fundos, com porta de madeira e um buraco cimentado no chão de terra batida. Dizia-se que ela bancava a rica, estragando as sobrinhas com todos aqueles luxos. A tia era a melhor costureira da cidade. Havia outras mulheres que sabiam costurar, mas, segundo tia Sofia, nenhuma delas era profissional. Davam pontos malfeitos, não reforçavam as costuras das calças nem sabiam cortar uma camisa de homem. Sua máquina de costura era velha, uma Singer manual com uma roda movida a manivela e uma base de madeira. A manivela estava enferrujada, dificultando o movimento da roda; a agulha estava meio cega e o braço, que fazia a agulha subir e descer, vira e mexe emperrava. Mas tia Sofia insistia em dizer que não é a máquina que faz a costureira. Uma boa costureira precisa prestar atenção aos detalhes; precisa reconhecer as formas do corpo das pessoas e entender como os diferentes tecidos vão cair sobre essas formas ou aderir a elas; precisa ser eficiente com os tecidos, sem nunca cortar de mais ou de menos, e, finalmente, depois que a roupa tivesse sido cortada e fosse passada sob a agulha da máquina, ela não podia vacilar, não podia hesitar. Uma boa costureira tinha de ser decidida.
Quando as meninas ainda eram bem pequenas, tia Sofia lhes ensinou a cortar roupas de bonecas em papel de embrulho e, depois, a transferir esses moldes para retalhos de tecido. Primeiro, ensinou-lhes a costurar à mão, o que foi mais fácil para Luzia, e, depois, mostrou-lhes como funcionava a máquina. Aquela roda movida a manivela foi um desafio para a irmã de Emília. Ela fazia funcionar a roda com o braço bom e com o aleijado devia segurar o tecido que passava sob a agulha. Como aquele braço não dobrava, Luzia tinha de revirar toda a parte superior do corpo para impedir que o tecido escorregasse e conseguir fazer a costura em linha reta. A maioria das pessoas contratava os serviços da tia e das sobrinhas para fazer as roupas de primeira comunhão dos filhos, os vestidos de noiva das filhas, os ternos com que os pais seriam enterrados, mas estas ocasiões eram raras e solenes. Seus principais clientes eram o coronel e sua esposa, dona Conceição.
Emília adorava ir costurar na casa do coronel. Adorava os bolos de goiabada que a empregada trazia até o quarto de costura na hora do lanche. Adorava o cheiro forte de cera do assoalho, o som dos saltos altos de dona Conceição batendo no piso azulejado em preto e branco, as sonoras badaladas do velho relógio no saguão de entrada. O teto da casa era pintado e engessado, o que escondia as telhas alaranjadas. Era liso e branco, como o glacê da cobertura de um bolo.
Dona Conceição tinha acabado de comprar uma máquina moderníssima, uma Singer movida a pedal. A peça estava instalada em uma sólida base de madeira com pés de ferro e com motivos florais gravados na reluzente superfície prateada. Precisou ser carregada pelas duas mulas do coronel para subir a estradinha sinuosa até a cidade. E ela era bem mais difícil de usar do que a velha máquina manual de tia Sofia. Foi por isso que a Singer enviou instrutores pelo Brasil afora e oferecia sete aulas gratuitas a quem comprasse o seu novo modelo. Dona Conceição fez questão de que Emília e Luzia frequentassem esse curso. As aulas não agradaram nada a Luzia, mas Emília gostou. Foi assim que ficou conhecendo o professor Célio, graças a quem, esperava a moça, conheceria o mundo.
Nos dias de aula, Emília abreviava as orações a santo Antônio para poder lavar a cabeça. O cabelo tinha de estar completamente seco, senão a tia não a deixava sair de casa. Tia Sofia acreditava nos perigos do cabelo molhado – era algo que podia causar febres, doenças terríveis e até mesmo deformidades físicas. Quando as duas eram crianças, ela vivia repetindo a história de uma garotinha desobediente que foi para a rua com o cabelo molhado. Pegou um golpe de ar e ficou torta para o resto da vida, com o corpo inteiro deformado e imprestável.
Emília foi até a cozinha. A lenha em brasa brilhava, saindo pela boca escurecida do fogão. Tia Sofia avivava o fogo com uma vara comprida e, depois, abanava bem, pela pequena abertura que ficava na parede de tijolos, abaixo das chamas. Tinha as pernas grossas como um mourão de cerca e seus tornozelos não se distinguiam das panturrilhas. Veias azuis saltavam sob a pele de seus tornozelos e atrás dos joelhos, causadas pelos muitos anos sentada diante da máquina de costura. Nas suas costas, pendia uma trança branca bem comprida.
– Sua bênção, tia – disse Emília, bocejando.
A tia parou de abanar o fogão. Beijou a sobrinha na testa.
– Deus a abençoe – disse ela, franzindo as sobrancelhas e puxando o cabelo da moça. – Desse jeito, você está parecendo um homem. Um desses cangaceiros.
Os modelos do último número da Fon Fon, desenhos de mulheres de corpos esguios e boca pintada de batom, usavam o cabelo negro e luzidio bem curto, mais parecendo um pedaço de seda a lhes emoldurar o rosto, formando ângulos acentuados. Na semana anterior, Emília passara a mão na tesoura de costura e imitara aquele corte. A tia quase desmaiou quando viu. “Meu Deus do céu!”, exclamou. Pegou a sobrinha pelo braço e a levou até o oratório para que a moça rezasse, pedindo perdão. Desde então, mandava que ela usasse um lenço na cabeça sempre que ia sair de casa. Emília esperava uma reação desse tipo – já fazia anos que tio Tirço havia morrido e, mesmo assim, tia Sofia continuava usando vestidos pretos com duas combinações por baixo. Com menos, afirmava, era como se estivesse nua. Nunca permitiu que Luzia ou Emília usassem vermelho – ou encarnado, como dizia –, porque era a cor do pecado. E quando Emília usou seu primeiro califom, Sofia apertou tanto as tiras que a moça quase desmaiou.
– Tenho de pôr o lenço hoje, tia? – perguntou Emília.
– Claro – respondeu Sofia. – Vai usar até o cabelo voltar a crescer.
– Mas lá na capital todo mundo está usando o cabelo desse jeito.
– Não estamos na capital.
– Por favor, tia. Só hoje. Só para a aula de costura!
– Não – retrucou a tia, abanando o fogo com mais força.
As brasas reluziram, alaranjadas.
– Mas fico parecendo uma colhedora de café.
– Melhor parecer uma colhedora de café do que uma moça fácil! – esbravejou Sofia. – Não há vergonha alguma em ser colhedora de café. Sua mãe fazia isso quando era criança.
Emília suspirou profundamente. Não gostava de imaginar a mãe daquele jeito.
– E nada de ficar emburrada – disse a tia, apontando o atiçador para a cabeça da sobrinha. – Devia ter pensado um pouco antes de fazer... isso aí.
– Sim, senhora – respondeu Emília.
Ergueu o paninho que cobria a jarra de barro ali perto do fogão e despejou umas boas canecas de água na bacia de metal. No outro canto da cozinha, Sofia tinha instalado uma espécie de cortina para elas poderem tomar banho sossegadas. A moça pegou o sabonete perfumado que escondia no parapeito da janela. Foi presente de dona Conceição. E era mil vezes preferível ao sabão barato que a tia comprava e que deixava tudo com cheiro de cinza. Agachou-se junto à bacia e jogou água na cabeça. Depois, esfregou a bolinha perfumada nas mãos.
– Sua bênção, tia – disse Luzia, entrando pela porta dos fundos, descalça e com uma tigela vazia nas mãos grandes.
Acabara de jogar milho para as galinhas-d’angola. Emília não gostava daquelas aves pintadas: sempre que tinha de lhes dar comida, elas vinham bicar seus dedos dos pés ou esvoaçavam perto do seu rosto. Já com Luzia, as galinhas eram educadíssimas: saíam da frente para deixá-la passar e soltavam aquele piado agudo estranho, que parecia um bando de mulheres idosas repetindo as palavras “estou fraca, estou fraca, estou fraca”.
– Lavando a cabeça de novo? – perguntou a irmã. Como Emília a ignorou, ela pôs as mãos nos quadris e prosseguiu: – Está desperdiçando água. Como é que vai ser se não chover por mais quatro meses?
– Não sou um bicho – retrucou Emília, sacudindo a cabeça. Os respingos formaram manchas escuras no chão de terra batida. – Não quero cheirar como eles.
Tia Sofia pegou uma mecha embaraçada do cabelo de Luzia e a aproximou do rosto. Franziu o nariz.
– Você está fedendo como uma tacaca! Pare de implicar com sua irmã e vá se lavar também. Não quero que vá à aula de costura suja desse jeito.
– Odeio essas aulas – exclamou Luzia, desvencilhando-se da tia.
– Não diga isso! – retrucou Sofia. – Você devia ser grata.
Luzia se deixou cair num banquinho de madeira. Com o braço bom, segurou o outro, hábito que fazia com que ambos parecessem normais, como se ela estivesse irritada e simplesmente cruzasse os braços diante do peito.
– E sou grata – resmungou a moça. – Só que, uma vez por mês, tenho de ficar vendo Emília se derreter toda para o professor.
– Não me derreto coisa nenhuma! – exclamou Emília, sentindo que enrubescia. – É apenas respeito. Ele é nosso professor.
Tia Sofia jamais aprovaria as cartas perfumadas, os sorrisos secretos. Achava que ficar de mãos dadas em público era uma vergonha; que um beijo na praça significava casamento.
– Você está é com inveja – prosseguiu Emília. – Eu consigo usar a Singer e você não.
– Não tenho inveja de você – retrucou a irmã, lançando-lhe um olhar atravessado. – Bunda de balaio!
Emília parou de enxugar o cabelo. As crianças da escola paroquial tinham lhe dado esse apelido quando seu corpo começou a mudar, ficando apertado nos vestidos. Desde então, não podia nem olhar para os cestos grandes e redondos que eram vendidos no mercado sem sentir uma pontada no coração.
– Vitrola! – gritou Emília.
Por um instante, os olhos de Luzia se arregalaram, suas pupilas ficaram parecendo dois buracos escavados naqueles círculos de um verde brilhante. Depois, se estreitaram. Ela passou a mão no sabonete perfumado e o atirou pela janela. Emília se levantou bruscamente, quase derrubando a bacia. Abriu a porta da cozinha. O sabonete de lavanda tinha caído perto do banheiro, num tufo de milho seco. As galinhas-d’angola vieram bicá-lo. A moça saiu a toda, tentando espantá-las aos pontapés.
– Duas mulas! – exclamou tia Sofia, indo atrás de Emília e jogando uma toalha nos cachos molhados da sobrinha. – Eu criei duas mulas!
De volta à cozinha, benzeu-se e começou a falar, dirigindo-se ao teto, como se as moças não estivessem ali.
– Meu Deus, cheio de graça e de misericórdia – disse ela. – Fazei com que essas duas entendam que são a mesma carne e o mesmo sangue. Que tudo o que uma tem no mundo é a outra!
Luzia saiu da cozinha. Emília ficou catando pedacinhos de milho que tinham grudado no sabonete. Tentava ignorar a voz da tia; já ouvira aquela oração inúmeras vezes e, sempre que a ouvia, desejava que nada daquilo fosse verdade.
3
Só tia Sofia e Emília chamavam Luzia pelo nome de batismo. Para todos os demais, ela era a Vitrola.
O apelido nasceu no pátio da escola do padre Otto. Emília foi a primeira da turma a botar corpo de moça, com os quadris e os seios se desenvolvendo tão depressa que a tia teve de abrir todos os seus vestidos e alargá-los com pedaços extras de tecido. Aos 13 anos, um menino a agarrou durante o recreio. Pressionou os lábios com toda a força em seu pescoço. Emília gritou. Tentou se desvencilhar. O garoto a puxou de volta para si.
Luzia viu a cena, franzindo as sobrancelhas negras. Correu até onde estavam os dois. Tinha apenas 11 anos, mas já era mais alta que a maioria dos garotos da turma. Tinha espichado naquele inverno e estava tão comprida e magra quanto um mamoeiro. Tia Sofia desistiu de baixar as bainhas dos seus vestidos, preferindo emendar pedaços de outros tecidos na barra das saias.
– Solte a minha irmã – disse ela, em voz baixa e áspera.
Cheirava a leite azedo. O cotovelo aleijado estava envolto numa tala, lambuzado com manteiga e banha. Naquele tempo, tia Sofia e a encanadeira ainda achavam que, untando o local, poderiam devolver o movimento àquela articulação.
– Vitrola! – berrou o rapaz, debochado. – Braço de vitrola!
Só dois moradores de Taquaritinga possuíam aqueles toca-discos elegantes, movidos a manivela. Uma vez por ano, na época da festa de São João, levavam suas vitrolas para a praça da cidade. Aquelas cornetas metálicas pareciam campânulas gigantescas. Tocavam forró aos brados, e, quando terminava uma música, os proprietários punham, com todo o cuidado, o braço recurvado do aparelho sobre outro disco encerado.
– Vitrola! Vitrola! – gritaram as outras crianças, aos risos. Luzia deixou a cabeça pender sobre o peito. Emília achou que a irmã estivesse chorando. De repente, Luzia recuou. A caminho da escola, muitas vezes as duas passavam por bodes que pastavam. Quando brigavam, os animais atacavam o adversário primeiro com a testa; depois, erguiam a cabeça para perfurar um olho ou uma barriga com os chifres. Luzia partiu para cima do garoto de cabeça baixa. Teria dado um passo atrás e atacado novamente se o professor, padre Otto, não a houvesse impedido e levado o garoto que chorava, com a boca e a camisa ensanguentadas, para dentro da igreja. Depois desse incidente, as pessoas começaram a chamar Luzia de Vitrola. No começo, faziam-no disfarçadamente, mas o apelido pegou depressa e todos, até mesmo padre Otto, passaram a usá-lo. Em pouco tempo, Luzia desapareceu para ceder lugar a Vitrola.
Antes do acidente, a menina era levada, brincalhona. As pessoas do lugar a chamavam de Gema, enquanto Emília era a Clara, apelido que a irritava porque dava a ideia de que sua irmã caçula era mais concentrada, mais poderosa. Depois do tombo, Luzia foi substituída por Vitrola, calada e pensativa. Gostava de ficar sentada, sozinha, bordando uns daqueles retalhos que existiam aos montes pela casa. Nesses restos de pano, costurava tatus com cabeça de galinha, onças aladas, falcões e corujas com cara de gente, bodes com pernas de sapo. Na escola, não tinha o menor interesse pelas aulas. Não havia carteiras na sala, só umas mesas compridas e uns bancos de madeira que, lá pelo meio da manhã, já deixavam Emília com dor nas costas. Na parede, por trás da mesa do padre Otto, havia uma imagem de Jesus. A tinta estava descascada nos pés do Cristo, revelando o gesso cinzento. Ele fitava os alunos com seus olhos compassivos durante as aulas. Vitrola também o fitava. Esfregava o braço aleijado, como se tentasse trazer os ossos de volta à vida, e olhava para Jesus, estreitando os olhos. Padre Otto sabia que Vitrola não estava prestando a menor atenção, mas, julgando que a menina estava absorta no sofrimento de Cristo, não a castigava, como faria com Emília ou qualquer outro aluno. Esta, porém, ao ver os olhos verdes da irmã fixos daquele jeito, sabia que Luzia estava olhando além de Jesus, perdida na própria imaginação. Muitas vezes ficava assim em casa também. Deixava o arroz queimar, derramava água ou costurava tudo torto até que Emília a sacudia, dizendo-lhe que acordasse.
Embora tivesse sobrevivido ao acidente, Luzia havia deixado alguma parte vital de si mesma para trás, em outro reino onde ninguém conseguia alcançá-la. Era Emília quem enfrentava os mexericos maldosos da cidade, as superstições da tia e o próprio corpo que ia mudando, tornando-se subitamente maior e mais macio. Agora, já não queria mais se agachar no chão e cutucar os formigueiros ou destruir ninhos de maribondos junto com as outras garotas da sua idade. Aquelas brincadeiras lhe pareciam bobas e rudes. Luzia também não queria tomar parte nisso tudo, mas por outros motivos. As meninas debochavam do seu braço, da sua altura, e ela sempre acabava brigando, puxando os seus cabelos e tirando sangue do seu nariz. Só Emília conseguia acalmar a irmã. Por isso, as duas ficavam sempre sozinhas, isoladas na sólida casa da tia, tendo apenas, para confortá-las, a costura e os retratos de família.
Havia três fotos emolduradas, penduradas na sala da frente. Em criança, Emília gostava de trepar na mesa de madeira onde tia Sofia media e cortava os tecidos. Espalmava as mãos de ambos os lados dos retratos. A parede caiada era fria e porosa ao contato de sua pele.
O primeiro era uma foto em preto e branco do casamento de seus pais. As bordas do retrato estavam deformadas por causa da chuva que, passando por entre as telhas, tinha vindo se infiltrar moldura adentro. Os dois estavam sentados, um ao lado do outro, e a mão de seu pai escondia a de sua mãe. Ambos pareciam assustados. O pai, com o cabelo lustroso de brilhantina, repartido no meio, tinha a pele de um cinza pálido, ao passo que a da mãe, ligeiramente turvada pelo véu que lhe batia no queixo, era escura, da cor das cinzas ou das pedras. Na foto, ela mordia o lábio, dando a impressão de estar tremendo. A mãe das meninas tinha morrido de hemorragia assim que Luzia nasceu, e, logo depois do funeral, tia Sofia tirou os lençóis e a palha encharcada do colchão e queimou tudo no quintal, perto do banheiro.
Seu pai era o irmão caçula de Sofia, um homem alto que ganhava a vida como apicultor, cuidando de várias colmeias na encosta rochosa do morro e vendendo mel, pólen e própolis. Emília tinha uma vaga lembrança de brincar com própolis, enrolando aquela substância pegajosa nas mãos antes que o pai pegasse a bolinha acinzentada e a pusesse num fogareiro metálico. Lembrava-se da roupa que ele usava para lidar com as colmeias: luvas de couro marrom, paletó de lona bem grossa, chapéu de couro com uma tela que descia da aba e era amarrada no pescoço. Havia uns sujeitos que mexiam nas colmeias sem usar luvas e praticamente não eram picados pelas abelhas. Mas seu pai não era um deles.
Quando Emília tinha 5 anos e Luzia, apenas 3, ele as deixou na casa da irmã e nunca mais voltou para buscá-las. Preferia ficar sentado nas tendinhas de zinco da beira da estrada, tomando seus tragos de cachaça. Tornou-se um bêbado maltrapilho e de voz rouca, que ficava recostado nas árvores ou sentado pelas esquinas, falando sozinho e com os passantes. Nos dias em que estava bem, vinha à casa da irmã cheirando a vômito e a perfume barato. Os incríveis olhos verdes brilhavam por entre as rugas do seu rosto, que tinha se tornado tão escuro e curtido quanto uma sela de couro.
Sempre que Emília perguntava à tia sobre os sofrimentos de seu pai, Sofia lhe dava a mesma resposta. “Ele sofre dos nervos.” E punha a máquina de costura para funcionar a toda ou começava a mexer furiosamente o feijão na panela, indicando que o assunto estava encerrado.
Quando estava mal e via as filhas pequenas indo para a escola do padre Otto, confundia Emília com a esposa morta. “Maria!”, chamava ele, com as lágrimas escorrendo dos olhos vidrados. Tinha as unhas dos pés lascadas e bordejadas de sangue de tanto tropeçar nas coisas. Vivia perdendo os sapatos e, uma vez por mês, tia Sofia lhe comprava um par de sandálias de corda bem baratas. “Maria!”, chamava ele, engolindo as últimas letras do nome da mulher, e Emília continuava andando, fitando os próprios pés, com medo de enfrentar o olhar do pai.
Quando ela estava com 14 anos e Luzia, com 12, o pai voltou a cuidar das suas colmeias. O mato tinha crescido na trilha do morro. As tampas das caixas estavam repletas de própolis. As abelhas tinham se tornado selvagens e agressivas. Dois fazendeiros tiveram de se vestir com roupas de vaqueiro de couro, da cabeça aos pés, para trazê-lo de volta para baixo. Vieram carregando aquele corpo inchado – que, para Emília, dava a impressão de um saco de pele cheio de água – morro abaixo, até a cidade. As meninas fizeram o terno com que ele foi enterrado.
Todo domingo, as duas levavam flores ao túmulo dos pais. Emília botava flores de verdade – ramalhetes de dálias misturadas com aquelas cristas-de-galo bem compridas e vermelhas – junto dos ramos de florezinhas do mato já meio murchas e de tamanhos disparatados que Luzia gostava de colher. Uma vez por ano, no dia de finados, as irmãs iam ao cemitério levando balde e brochas, e refaziam a caiação da sepultura. Sempre que passava aquele líquido esbranquiçado sobre o túmulo dos pais, Emília ficava nervosa, achando que todos os corpos inertes ali enterrados estavam olhando e desejando receber uma nova camada de cal nas suas próprias tumbas. Havia várias fileiras de sepulturas minúsculas, do tamanho da sua caixa de costura, para os “anjos”, que era como as mães desesperadas se referiam àquelas crianças que nasceram fracas demais para sobreviver. Outras eram maiores, decoradas com rosários e retratos dos mortos, em sua maioria homens, e, junto a esses retratos, a bainha de couro de suas facas. Em Taquaritinga, como em qualquer outra cidade pequena do interior, ter uma faca era mais comum que ter um par de sapatos. As peixeiras, como eram chamadas, tinham a lâmina curta bem afiada nas pedras de amolar, o que lhes dava um gume perfeito e reluzente. Cortavam cordas, debulhavam espigas de milho, ceifavam melões do pé, perfuravam o pescoço de cabras e novilhos, esfolavam e estripavam esses animais. Se havia uma briga, tudo se resolvia na faca. Taquaritinga não tinha um delegado, só um sargento da polícia militar que aparecia duas vezes por ano e jantava com o coronel. O padre Otto incentivava os homens a resolverem suas pendências com palavras, e Emília tinha pena dele quando ouvia seus sermões. Antes de sua chegada, não havia escola por ali. Palavras eram enganosas, desajeitadas, difíceis de entender. Com a faca, tudo era bem mais fácil. Às vezes, encontravam-se corpos esfaqueados e abandonados em estradinhas desertas. Quase sempre, o morto havia insultado a mulher de outro homem, roubado alguma coisa de alguém, ou comprometido a honra de outra pessoa, e, portanto, tinha de haver um acerto de contas. Podia acontecer que as brigas virassem rixas intermináveis; nesses casos, as famílias iam perdendo os seus homens, um a um, e sobravam apenas as mulheres para enterrá-los. Mas estas também enfrentavam seus perigos. Eram comuns nascimentos seguidos de funerais, e uma das conhecidas de Emília dos tempos de escola – uma menina dentuça e calada – fora vítima da fúria do marido. Portanto, a morte, com todos os seus ritos e rituais, seus incensos e suas orações, suas longas missas e suas redes funerárias brancas, era coisa comum, ao passo que a vida era rara. A vida era assustadora. Até Emília, que não gostava de superstições, assim como não gostava de andar toda relaxada, terminava suas frases, seus planos, suas orações com “se Deus quiser”. Ao que parecia, nada era garantido. Qualquer um, a qualquer momento, podia ser atingido – um braço que ficava preso no moinho de mandioca, um coice repentino de um burro ou um acidente parecido com o que aconteceu a tio Tirço.
O segundo retrato pendurado na parede de tia Sofia era uma pintura do tio Tirço. O homem ali retratado era jovem, com os cantos da boca voltados para baixo e o queixo erguido, em uma pose séria. Tinha um bigode espesso e usava um chapéu de couro de aba curta, com um cordel preso sob o queixo. O quadro tinha sido encomendado pelo primeiro coronel Pereira, que morreu em 1915, deixando para o filho único, o atual coronel, mil cabeças de gado, oitocentos hectares de terras e seu título. À boca pequena, dizia-se que o primeiro coronel Pereira havia comprado aquele título subornando um político lá no Recife. Embora não fossem oficiais militares, esses coronéis tinham um pequeno pelotão de homens que lhes eram leais. No sertão, todos eles eram grandes latifundiários. Por isso, ditavam as próprias leis e as impunham aos demais. Muitos contratavam verdadeiras redes de capangas e cabras, homens calados e leais, treinados para punir exemplarmente ladrões, dissidentes e adversários políticos, decepando uma mão, marcando um rosto para sempre ou dando sumiço a alguém, mandando, assim, um recado a todos os moradores do lugar: o coronel podia ser magnânimo ou cruel, e isso dependia exclusivamente do grau de obediência de cada um.
Emília sabia que havia dois tipos de coronéis: aqueles que herdavam ou compravam o título, como o atual coronel Pereira, e os que o conseguiam por meio da força bruta. Estes últimos construíam sua reputação de bravura contratando pequenos exércitos de capangas e criando um rastro de sangue ao adquirirem terra, dinheiro e, por fim, influência. Ambos eram extremamente ricos, mas um desses tipos era mais perigoso que o outro. O coronel Chico Heráclio de Limoeiro era tão rico que, ao que se dizia, tinha a boca cheinha de dentes de ouro. O coronel Clóvis Lucena matou um homem que tinha sujado de terra os seus sapatos. E o coronel Guilherme de Pontes, o manda-chuva de Caruaru, era considerado o mais poderoso de todos. Possuía tamanha extensão de terras no estado que, segundo os boatos, tinha encontros particulares com o governador.
Tio Tirço trabalhou como vaqueiro, pastoreando gado para o falecido coronel Pereira, durante a grande seca de 1908. Segundo tia Sofia, tanto as pessoas quanto os animais sobreviviam à base de cacto. As vacas do velho coronel estavam morrendo. “Perder uma vaca ou um cavalo era uma tragédia maior do que perder um homem”, dizia a tia sempre que lhes contava essas histórias. Fazia isso à noite, massageando os dedos e as palmas das mãos das sobrinhas antes de irem se deitar. Aos poucos, a massagem ia perdendo vigor; o toque das suas mãos ficava mais leve e menos concentrado à medida que ela se entregava às recordações. O seu falecido gostava de café preto. O seu falecido penteava o bigode antes de ir à igreja. O seu falecido cuidava do gado do coronel como se fosse seu. E um dia não voltou com o rebanho. Ninguém sabia o que poderia ter lhe acontecido: se teria caído nas mãos dos cangaceiros, se fora mordido por um escorpião ou uma cobra ou se teria simplesmente morrido pela longa exposição ao tempo.
O coronel mandou que dois outros vaqueiros fossem procurá-lo. Os sujeitos saíram andando pela caatinga ao pé do morro. Gritaram pelo seu nome. Olharam para o céu à procura de urubus. Três dias depois, foram encontrá-lo no meio do pasto árido, com o corpo todo descarnado. O velho coronel mandou fazer o tal retrato e uma caixa de madeira para os ossos. O padre Otto benzeu a caixa, concordando que não faria mal deixar Tirço com os seus entes queridos, contanto que algum dia ele fosse enterrado. Luzia achava romântica aquela caixa de ossos, mas não entendia nada de romance. Prender o lenço do amado por dentro da blusa era romântico. Trocar bilhetinhos perfumados era romântico. Viver, tendo no coração a chama do amor não correspondido, como faziam as mulheres dos folhetins da Fon Fon, era romântico. Mas guardar ossos, aos olhos de Emília, era coisa de cachorro.
O terceiro e último retrato pregado na parede era uma foto das duas irmãs, tirada no dia de sua primeira comunhão. Padre Otto estava entre elas, com as mãos brancas no ombro de cada uma. Tia Sofia contava que a chegada do padre à cidade havia sido um espetáculo: lá veio ele, subindo o morro num carro de bois repleto de livros, baús e mapas do mundo inteiro enrolados. Sorria e suava, com o rosto de um rosa luzidio surgindo do colarinho eclesiástico. Ela jamais tinha visto alguém daquela cor – parecendo a polpa de uma goiaba. Mas, na foto, o padre não saiu assim, rosa; naquele retrato, estava tão branco quanto os vestidos de primeira comunhão das meninas.
Padre Otto veio da Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Todas as manhãs tocava os sinos da igreja de Taquaritinga e esperava os seus poucos alunos formarem uma fila para entrar na sala de aula. A sua escola era a única da cidade, mas os seus bancos nunca estavam inteiramente ocupados. O coronel Pereira contratava professores particulares para os filhos e vários outros moradores do lugar achavam que ir à escola era perda de tempo. Os meninos seriam inevitavelmente o que os pais haviam sido: agricultores, vaqueiros ou capangas do próximo coronel. Não precisavam saber ler ou escrever. E, para as meninas, ser alfabetizadas era mais um estorvo do que uma vantagem. Esposas que sabiam ler iam se achar melhores que os maridos analfabetos, poderiam enganá-los e, o que era ainda pior, seriam capazes de escrever cartas de amor. Havia, porém, uns poucos moradores – comerciantes, carpinteiros e outros profissionais do gênero – que davam valor à escola do padre Otto. Apesar de ela própria não saber ler nem escrever, tia Sofia era uma dessas pessoas. Os moldes impressos estavam ficando cada vez mais populares e a maioria das máquinas de costura vinha acompanhada de manuais de instrução, grossos e detalhados. Queria que Emília e Luzia estivessem atualizadas.
A matéria favorita de Emília era geografia. Abaixo de Jesus, havia um mapa-múndi, com todos os países pintados em tons pastel e os seus nomes escritos em uma caligrafia elegante. Padre Otto sabatinava os alunos diariamente e todos, exceto Luzia, recitavam em uníssono os nomes dos países. Quando gritavam “Alemanha!”, Emília sempre imaginava o país como um lugar cheinho de padres Otto – homens baixos e atarracados, e mulheres de rosto rosado, olhos azuis e um cabelo tão fino e tão louro que parecia até farinha de mandioca.
Havia também um grande mapa do Brasil. Padre Otto apontava para o estado de Pernambuco várias vezes durante a aula. Ele ficava bem lá no alto, mais para o comprido que para o largo. Emília achava que o seu estado parecia um braço esticado em direção ao litoral. No ombro, ficava a região da caatinga, o sertão, onde a água era escassa e floresciam os cactos. Padre Otto dizia que escravos fugidos, soldados holandeses e índios que abandonaram a costa tinham se instalado por ali, sentindo-se protegidos pelo duro clima quase desértico. A menina ficava imaginando aqueles grupos de homens claros e escuros vivendo juntos, caçando cobras e falcões para comer. No cotovelo do estado, ficava a cidade de Taquaritinga, encarapitada numa pequena serra que servia de entrada para o sertão. No pulso, estavam as terras cultivadas, que se estendiam até a mata Atlântica, floresta que tinha sido derrubada e queimada para dar lugar às plantações de cana-de-açúcar. Nos nós dos dedos ficava Recife, a capital, com suas ruas calçadas de pedras, suas fileiras de casas pegadas umas às outras e o seu imenso porto. Ela imaginava um cais repleto de navios de guerra e canhões fumegantes por causa das ilustrações da invasão holandesa que vira num dos livros de história do padre Otto. E, bem na ponta dos dedos, o oceano. Emília sonhava chegar perto do mar, pôr os pés naquela água salgada. Em sua mente, imaginava-o verde, de um verde-escuro, embora, no mapa, os oceanos aparecessem sempre pintados de azul.
Taquaritinga ficava a uma semana de viagem do litoral, no alto de um morro, perto da fronteira com a Paraíba. A primeira coisa que se avistava ao fazer a curva da estradinha que subia era a torre da igreja; mas, no inverno, a estação das chuvas, tudo o que se via era névoa. A pracinha diante da igreja era de terra, até que, um dia, o coronel mandou calçá-la e, por meses a fio, só havia ali pilhas de pedras e o barulho dos operários socando-as no chão com as suas marretas. Vira e mexe, Emília perguntava ao padre Otto como eram as cidades de verdade. “Cheias de gente”, dizia ele, e a menina o imaginava, de batina preta, tentando passar por entre aquele amontoado de mulheres e crianças, todas usando roupas brilhantes e chapéus enfeitados com penas de avestruz. “Cheias de gente, e nem de longe tão bonitas quanto Taquaritinga”, afirmava o padre. Mas nisso Emília não acreditava.
Quando as duas fizeram a primeira comunhão, o padre Otto deu um missal branco de um palmo a cada uma, encomendados lá do Recife. Ambas seguravam o livro contra o peito ao posarem para a foto. Tia Sofia havia economizado durante três meses para pagar o fotógrafo. O sujeito magricela ia tirar apenas um retrato. Emília queria que ele saísse perfeito. Ficou ali parada, por um tempo que lhe pareceu uma eternidade, à espera do clique da câmera. Os cantos da boca chegavam a tremer. Tentou se manter absolutamente imóvel para que o terço que lhe pendia das mãos não balançasse. Mas Luzia não parava quieta. Talvez estivesse com vergonha do braço aleijado, que o fotógrafo havia escondido envolvendo-o com um pedaço de renda. Talvez não gostasse do homenzinho miúdo encoberto pelo pano preto da câmera. Ou talvez não se desse conta, ao contrário da irmã, de que tinham uma única chance de ter uma foto perfeita; de que, com um só clique, estariam emolduradas para sempre.
No exato instante em que o flash espocou, Luzia se mexeu. O terço balançou, o véu ficou meio torto e o tal pedaço de renda escorregou do braço imobilizado e caiu no chão. Quando a foto chegou, vindo do laboratório do fotógrafo, Emília ficou decepcionadíssima. A irmã estava fora de foco. Parecia até que havia um fantasma se movendo atrás de Luzia, como se fossem três meninas no retrato, e não duas.
4
O sol foi surgindo lentamente sobre o campanário amarelo da igreja. Luzia andava depressa, com a sacola de costura pendurada no braço aleijado. Tinha encontrado um jeito sutil de fazer com que o seu braço de Vitrola servisse para alguma coisa, como se preferisse que ele fosse assim. Emília tentava acompanhar os passos largos da irmã, mas os pés doíam. Estava usando uns sapatos pretos, de salto alto, que tinham sido de dona Conceição. As tiras e as laterais estreitas dos calçados machucavam os seus pés. Ia caminhando com todo cuidado por aquele chão irregular.
As aulas de costura eram em Vertentes, uma cidade de verdade. Uma estradinha de terra a ligava a Surubim e seguia adiante. Foi ali que se instalou o primeiro médico oficial da região e também o primeiro advogado, ambos com diplomas da Universidade Federal, no Recife. Emília sabia que os moradores de Vertentes julgavam as pessoas pelos sapatos. Gente respeitável usava alpercatas com tiras de couro e sola de borracha. Os lavradores comuns usavam chinelos. Os pés-rapados andavam descalços; antes de entrar na igreja, tinham de raspar a lama grudada na sola dos pés com o lado cego da faca. Os cavalheiros usavam sapatos de amarrar e as damas, as verdadeiras damas, usavam salto alto. Tia Sofia não aprovava esse tipo de sapato, portanto Emília escondia os seus na cesta de costura e só os calçava depois de sair de casa.
Luzia moderou as passadas. Olhou para os sapatos da irmã com ar de desaprovação, mas não disse nada. Emília ficou grata por aquele silêncio; não queria outra briga na mesma manhã. Duas mulheres varriam a entrada de casa. A seus pés, erguiam-se nuvenzinhas de poeira. Ambas se apoiaram na vassoura quando as moças passaram.
– Bom dia – disse Luzia, com um aceno de cabeça.
– Vitrola – respondeu a mais velha das mulheres.
– Emília – disse a mais moça, cobrindo a boca com a mão para conter o riso.
A mais velha sorriu, balançando a cabeça. Emília levou a mão ao lenço que escondia seu cabelo curto.
– Está ótimo – sussurrou Luzia. Lançou um olhar seriíssimo às mulheres que riam e gritou: – Se querem rir, comprem um espelho e olhem-se nele!
Emília sorriu. Apertou a mão da irmã. Meses antes, tinha visto um chapéu na Fon Fon – um belíssimo arranjo de penas que ficava preso ao cabelo como uma espécie de gorrinho. Ficou tão encantada com o tal chapéu que fez um para si mesma. Não conseguia encontrar penas pretas, bem maleáveis, como aquelas do modelo da revista, portanto, quando tia Sofia matou um galo, a moça separou as penas mais bonitas: vermelhas, laranja e algumas pretas salpicadas de branco. Apesar das objeções da tia, usou seu chapeuzinho de plumas para ir ao mercado. Estava se sentindo elegantíssima, mas, quando começaram a circular por entre as barracas, as pessoas riam, chamando-a de galinha estranha. De tão envergonhada, Emília já estava a ponto de arrancar o chapéu, mas Luzia sussurrou: “Não tire.” Estendeu-lhe o braço aleijado e Emília o segurou. Quando voltaram a passar pelas barracas de legumes e pelo cercado do açougueiro, Luzia olhava fixamente para a frente, com o corpo alto bem ereto e o rosto ferozmente impassível. Ela não tinha o ar pálido e mignon dos modelos da Fon Fon; tinha, contudo, a mesma elegância, o mesmo olhar de um desdém cheio de confiança. Depois desse dia, Emília tentou imitar esse olhar diante do espelhinho. Nunca conseguiu.
– Sabe, Lu, você está se saindo muito bem com a nova máquina – murmurou Emília.
– Você está melhor – retrucou a outra, dando de ombros. – Desculpe pelo sabonete.
Emília assentiu. Poderia ter sido pior. Pelo menos, a irmã não disse nada sobre os bilhetes. Tinha comprado uma caixinha de cartões azul-celeste na papelaria de Vertentes. Todo mês mandava um para o professor Célio. Fazia a ponta no lápis de costura com o maior capricho (não tinham caneta-tinteiro em casa; Emília sonhava possuir uma), e rascunhava as mensagens em papel de embrulho antes de copiá-las com todo o cuidado no cartão azul. A princípio, o texto era hesitante:
Gostaria de felicitá-lo por sua competência como professor.
Cordialmente,
Maria Emília dos Santos
O professor Célio respondeu – “É porque tenho alunas talentosas” – e os bilhetes da moça foram ficando mais ousados:
Caro professor,
O meu coração bate mais depressa sempre que o senhor para junto à minha máquina.
Com os meus cumprimentos cordiais,
Maria Emília dos Santos
E ele respondeu à altura, no bilhete que passou a ser o seu favorito:
Caríssima Emília,
Reparei no seu jeito de passar o tecido na máquina. A senhorita tem dedos lindos e hábeis.
Atenciosamente,
Professor Célio Ribeiro da Silva
A moça deu uns tapinhas na bolsa de costura. O envelope que levava ali dentro tinha dois círculos úmidos, nos locais onde havia posto um pouco do perfume que usava – água-de-colônia de jasmim, comprada com boa parte das suas economias. Aquele bilhete era ainda mais ousado, sugerindo um encontro fora do horário das aulas. Emília sentiu um calafrio de nervosismo percorrer o seu corpo. Apertou mais a bolsa.
Ao longe, além do alvoroço do mercado, dava para ver a residência do coronel Pereira. Era um casarão branco, no alto da colina que ficava atrás da igreja. Buganvílias vermelhas e laranja pendiam dos muros. Dois capangas do coronel ladeavam o portão da frente, postados ali, com as pernas afastadas, o chapéu meio de banda e as mãos pousadas no coldre da pistola. Às suas costas, o velho peão de cabeça branca selava duas mulas.
No começo, dona Conceição ofereceu as aulas de costura à tia Sofia. Esta, porém, recusou, alegando que já sabia costurar.
– Mas vou junto, para tomar conta das meninas – afirmou, taxativa.
Era um perigo duas mocinhas fazerem aquela viagem sozinhas. Não havia efetivamente uma estrada para Taquaritinga, só uma trilha íngreme. Eram três horas para ir até Vertentes, descendo o morro, e quatro para voltar. Emília passou a noite em claro, apavorada com a ideia de tia Sofia estar presente durante as aulas. Ela não ia parar quieta; interromperia o instrutor, dizendo-lhe como dar este ou aquele ponto e deixando a sobrinha inteiramente sem graça. Antes do início do curso, foi falar em particular com dona Conceição, que acabou convencendo tia Sofia de que o seu velho peão era um homem cuidadoso e de toda confiança. O velho não desmentia a reputação que tinha. Se chovesse durante o trajeto, detinha as mulas e apanhava os guarda-chuvas na sacola que levava a tiracolo. Em Vertentes, não deixava Emília e Luzia irem a pé até o local das aulas – afinal, duas mocinhas andando sozinhas pelas ruas era algo impensável – e fazia questão de levar as mulas até a porta da sala. Emília odiava chegar lá no lombo de uma mula. As irmãs iam sentadas de lado, como verdadeiras damas, espremidas entre o pito da sela, que ficava esbarrando em seus quadris, e os grandes cestos de carga que ficavam roçando em suas pernas. Emília tinha de passar o tempo todo ajeitando a saia que ia subindo com os solavancos da viagem.
Adoraria ir para a aula nos cavalos do coronel, dois mangas-largas com o trote suave o bastante para que dona Conceição pudesse montá-los. Ou, então, de automóvel! O coronel deixava o seu carro em Vertentes. Era um Ford preto, acionado por uma manivela enfiada na grade da frente. O coronel o levou até Taquaritinga uma única vez, num carro de boi. Quando o veículo chegou, tia Sofia ficou desconfiadíssima. Só fazia repetir que havia um animal ou um espírito trabalhando ali dentro. Como uma engenhoca de metal poderia andar sozinha? O coronel fazia questão de acionar a manivela pessoalmente. O seu Ford era um dos cinco automóveis existentes fora da capital e não correria o risco de deixar um empregado danificá-lo. Ele tirou o casaco. O suor lhe escorria pelo rosto, formando gotinhas no seu bigode grisalho. A manivela girou, girou, até que, de repente, das entranhas do carro, ouviu-se um ruído como o de um engasgo e, depois, um rosnado. O coronel se instalou ao volante. Deu umas voltas em torno da praça. Velhos, crianças e até a própria Emília saíram correndo atrás dele, na esperança de alcançá-lo. O coronel tocou a buzina. Parecia um gemido rouco, chamando-a por sobre o alarido da multidão. Jamais esqueceria aquele som.
5
As mulheres estavam reunidas na porta da sala. Emília foi abrindo caminho para ficar bem na frente. Luzia a puxou de volta. Seu guarda-costas já tinha desaparecido pelas ruas poeirentas de Vertentes, indo cuidar de outras incumbências para o coronel.
– Que tal matar aula hoje? Vamos circular por aí. Ele nem vai reparar.
– Não quero perder aula – respondeu Emília, balançando a cabeça.
– E você lá quer saber das aulas? – prosseguiu Luzia, soltando o braço da irmã. – O que quer é ver o professor. Não acredito que esteja gostando dele.
Chutou uma pedra com a ponta da sandália. Tinha pés longos e magros, tanto que podia usar os sapatos de dona Conceição sem que ficassem apertados.
– Ele é fino – disse Emília.
– É um maricas – retrucou Luzia. – E aquelas mãos? – acrescentou, contorcendo-se dramaticamente. – Parecem até pele de jia!
– São mãos de um cavalheiro – observou Emília. – Se quiser, pode se casar com um desses brutamontes com dedos de lixa, mas eu não!
– Se ele se engraçar para o seu lado, vou espetá-lo com a agulha – disse Luzia, apontando para o prédio da Singer.
– Faça isso – retrucou Emília, com o rosto em brasa –, e jogo todos os seus santos na latrina.
Afastou-se da irmã e se misturou ao grupo que entrava na sala de aula. Desde o começo, admirara as mãos do professor Célio. Não achava que fossem frias e pegajosas como pele de rã. Não tinham cicatrizes, nem eram grossas e cheias de calos; muitas vezes, imaginou como seria sentir aquelas coisas macias tocando o seu rosto, o seu pescoço. Tratou de se acalmar e ajeitou o vestido. Era o melhor que tinha, um modelo tirado da Fon Fon. Era de cintura baixa, com uma saia justa, que deveria bater na altura das canelas. Mas, como tia Sofia nunca a deixaria usar uma roupa assim, Emília fez a saia indo até os tornozelos. Luzia e ela tinham três vestidos: um, de andar em casa, feito de brim grosseiro, e dois de sair, de lonita e de algodão. Vivia pedindo um corte de crepe ou de um linho mais barato, mas a tia não permitia. Quando tinha a idade de Emília, Sofia e a sua irmã mais velha nunca podiam ir à cidade juntas. Uma precisava ficar trancada em casa, com o irmãozinho caçula, porque tinham de dividir um único vestido e um par de sapatos. “E esse vestido era todo de retalhos”, acrescentava a tia, rindo, mas Emília não achava graça nenhuma nessa história.
Quando as portas se abriram, entrou na sala quente e foi para o seu lugar de sempre – a máquina 16. Luzia ficava à sua frente, na máquina 17. O professor Célio não as cumprimentou. Examinava cada uma das máquinas com todo o cuidado, tirando fios de linha soltos e ajeitando as cadeiras. Uma mecha de cabelo caiu nos seus olhos. Ele, então, tirou um pente metálico do bolso do paletó e se penteou. Quando chegou junto de Emília, passou a mão pela Singer e sorriu. A moça se sentiu enrubescer. Deu uma risadinha e tapou a boca com a mão, tentando contê-la. Do outro lado, Luzia suspirou bem alto e começou a remexer na bolsa de costura.
O professor Célio sabia montar e desmontar as máquinas. Sabia ler e escrever, e tinha um sotaque de São Paulo que não se parecia em nada com o jeito de falar nordestino. Ele não engolia o final das palavras – deixava os seus o e r ficarem ali parados, na língua, saboreando-os, antes de lançá-los ao mundo. Durante as aulas, sentava-se à sua mesa e lia enquanto as mulheres costuravam. O barulho das máquinas não parecia atrapalhá-lo. De tempos em tempos, circulava pela sala ajudando as alunas em seu trabalho, ensinando-as a ajustar os pedais, a fazer um tecido mais fino passar pela agulha sem rasgar, a evitar que a linha embolasse quando descia para a base da máquina. Ajudava todas, principalmente Luzia, que cruzava os braços e afastava a cadeira da máquina quando o professor Célio vinha lhe explicar algo.
Fazia um calor danado naquela sala. A perna de Emília ficou dormente de tanto apertar o pedal. Luzia estava toda atrapalhada com os carretéis na base da máquina. Inclinava-se sobre a Singer dos jeitos mais estranhos, usando o braço de vitrola para não deixar o tecido embolar e o bom para fazer com que ele passasse bem devagarinho pela agulha. Com o pé, acionava o pedal de ferro. E seus joelhos batiam na parte interna da mesa. Emília gostava de observar a irmã quando achava que ninguém estava vendo. Não lhe agradavam aqueles momentos em que Luzia lutava com dificuldade; gostava, sim, quando a luta cessava e a menina descobria uma forma de apoiar o braço ou mexer o corpo para dar conta do que tinha de fazer. O seu rosto se transformava quando isso acontecia. Abrandava-se, revelando uma feminilidade, uma trégua no seu orgulho feroz. Certa vez, Emília a surpreendeu dançando sozinha no quarto. Luzia tinha posto o braço de vitrola, permanentemente dobrado, nos ombros do par imaginário, enquanto o outro segurava a sua mão. Lá pelas tantas, o braço bom pendeu, lânguido, e ela fez um movimento tão estranho com os quadris que Emília não conseguiu conter o riso. A irmã parou de imediato e saiu desabalada porta afora. Emília não tinha rido por maldade, mas de alegria. Sempre desejou ter uma irmã normal, que gostasse de vestidos elegantes, de revistas, de maquiagem e de dançar. Que quisesse ir embora de Taquaritinga tanto quanto ela. Ver Luzia dançando assim desajeitada, diante do espelho, só confirmava a esperança que sempre teve – de que, por baixo do braço aleijado e da cara séria, sua irmã era, afinal, uma moça como outra qualquer.
Emília parou de pressionar o pedal e tirou um pano dobrado de dentro da bolsa de costura. O cartãozinho perfumado estava cuidadosamente escondido ali dentro. O professor Célio se inclinou sobre seus ombros para ajeitar aquele tecido novo na máquina. Agora, estavam aprendendo a fazer festonê e era o posicionamento correto do tecido que determinava o resultado do trabalho. A moça recomeçou a pedalar. O professor Célio a ajudou a ir passando a borda para a frente e para trás sob a agulha. Por um breve instante, suas mãos se tocaram. Emília segurou aqueles dedos frios e, disfarçadamente, lhe entregou o cartão. O professor se afastou então da máquina, tossiu e enfiou o bilhete no bolso do paletó.
O coração de Emília batia loucamente. Teve de reduzir o ritmo do pedal e levar as mãos às faces, na tentativa de esfriá-las. Quando ergueu os olhos, viu que a irmã a fitava, com os olhos faiscando. Os seus lábios eram apenas uma linha branca. Emília sustentou aquele olhar. Não desviaria os olhos. Não se deixaria intimidar. Sempre que obtinha algum sucesso, quando conseguia apanhar um pedaço de renda como um tesouro do armário de costura de dona Conceição, comprar um frasco de perfume, usar os sapatos de salto alto ou escrever os seus cartões, deparava com aquele olhar. Desde criança, depois que caiu daquela árvore e ficou com o braço aleijado, Luzia se achava no direito de julgar Emília, de arruinar a felicidade da irmã antes mesmo que ela tivesse começado.
6
Foi num domingo. Depois da missa.
Quando as duas eram crianças, todo domingo, tia Sofia vinha acordá-las antes do nascer do sol e arrumá-las para ir à igreja. Os vestidos de missa eram feitos de algodão grosseiro, bem-engomados, o que os deixava duros, como uma forma de lona. Luzia tinha apenas 10 anos, mas já era mais alta que Emília, e o vestido deixava à mostra os seus joelhos ossudos.
Durante a missa, o padre Otto segurava firme nas bordas do púlpito, com os dedos curtos e roliços, e fazia o seu sermão. Suas orações se erguiam por sobre os sons abafados e os espirros dos paroquianos. Ele pronunciava os erres bem duros, como se tivesse uma moeda no céu da boca e tentasse mantê-la ali com a língua. No teto da igreja, havia uma pintura de santo Amaro. Era enorme e estava escurecida pela fumaça das velas, mas Emília gostava de ficar olhando para aquele santo careca; a vela que segurava brilhava tanto que atraía os anjos. Quando ela recebia a hóstia do Padre Otto, o pároco sorria e seus olhos azuis se enrugavam. Ao ficar mais velha, Emília não gostava de beber o vinho do cálice, não gostava da ideia de tocar com seus lábios o que todo mundo também tocara. Acreditava que cada um devia ter sua própria taça. Mas quando criança ela fechava os olhos e esperava ansiosamente que padre Otto tocasse seus lábios com a taça prateada. Sua borda era fria e lisa, e conforme Emília inclinava a cabeça para trás experimentava um zumbido nos ouvidos, um formigamento nas pontas dos dedos, um calor que subia pelo peito e envolvia o seu coração. Acreditava ser a única a se sentir assim, que era especial de alguma forma. Escolhida. O vinho era amargo. Secava a sua língua e fazia a hóstia colar no céu da boca. No entanto, gostava do ritual – o pão demorava a se dissolver e ela apertava a língua contra ele enquanto saíam da igreja e subiam o morro em direção à casa da comadre Zefinha.
Josefa da Silva apreciava uma galinha de cabidela e, no último domingo de cada mês, deixava de ir à igreja para cortar o pescoço do seu galo mais gordo e misturar o sangue fresco da ave com vinagre e cebolas. Zefinha era amiga de infância de tia Sofia. As duas cresceram em Taquaritinga, fizeram a primeira comunhão juntas e permaneceram amigas apesar de, depois de casadas, Sofia ter ficado morando próximo à cidade, ao passo que a outra se mudou para mais longe, numa fazenda no alto do morro. Zefinha era gorducha, bondosa e, todo domingo, depois da missa, fritava queijo com fubá e deixava Luzia e Emília comerem direto da frigideira, raspando o restinho com o garfo.
Depois do almoço, sentavam-se na varanda da casa. Para espantar os mosquitos que voavam debaixo das suas saias e ao redor do seu rosto, esfregavam as pernas, os braços e o rosto com uma mistura de capim-limão e banha que as deixava reluzentes como bonecas de porcelana. As duas mulheres sentavam-se em cadeiras de madeira. Emília se escarrapachava na rede com a irmã. Impaciente, Luzia ficava balançando a rede para a frente e para trás, com a ponta dos pés. Emília encostava o queixo na borda do tecido e ficava olhando o filho caçula de Zefinha consertar o barracão ali perto da casa. Ele estava enrolando um pedaço de corda, formando círculos perfeitos. Os músculos dos seus braços queimados de sol subiam a cada volta que fazia.
– Podemos brincar? – propôs Luzia.
Emília se sentou.
– Deixe elas irem – disse Zefinha.
Um mosquito bem grande, com as longas patas negras encolhidas como se fossem pelos, esvoaçava em torno do seu cabelo grisalho.
Tia Sofia refletiu por uns minutos.
– Fiquem perto da casa. Não vão sujar os vestidos. Emília, tome conta de sua irmã.
A menina assentiu e saiu correndo atrás de Luzia em direção às bananeiras que ficavam nos fundos da casa. Suas sandálias iam pisando e afundando na folhagem seca espalhada pelo chão. As bananeiras oscilavam com a aragem que, com o tempo, rasgava as suas folhas verdes, que ficavam parecendo um amarrado de fitas. Emília ouviu um burro zurrar.
– Olhe só! – disse Luzia.
Mais ao longe, havia uma mangueira carregadinha de frutas. Uma cerca de arame meio troncha separava a propriedade de Zefinha e a de seu vizinho. Luzia rastejou por debaixo da cerca e depois ergueu o arame enferrujado para a irmã passar. As terras do vizinho eram cobertas de pés de café esguios, quase desfolhados, e Luzia foi arrancando folhas dos seus galhos enquanto corria em direção à mangueira.
Emília seguiu o exemplo da irmã. Agarrando-se em um dos galhos mais baixos, trepou na árvore. Suas sandálias escorregavam pelo tronco. Segurou firme um galho mais próximo e continuou subindo. A casca arranhava as suas mãos. Do outro lado, Luzia se balançava num galho mais alto. Esticou-se toda e puxou uns ramos que estavam ainda mais acima para apanhar duas mangas maduras. Aninhando as frutas na saia de seu vestido, sentou-se com cuidado. Tirou do bolso um canivete. Tinha sido presente de seu pai durante uma de suas estranhas visitas, quando aparecia na casa de Sofia com os olhos injetados e cheirando a cachaça. Emília não lhe deu muita atenção. Ele procurou nos bolsos algo para dar às filhas, e encontrou o tal canivete. Na época em que trabalhava com as colmeias, a faca servia para cortar os favos e raspar a própolis, portanto, tinha uma lâmina curta e afiada. No cabo, havia entalhado uma abelha. Luzia guardou o canivete. Escondia-o da tia e o levava sempre consigo, no bolso do vestido ou na pasta da escola.
Luzia fez uns furos na parte superior das frutas. Estendeu uma para Emília. As duas chuparam a polpa, amassando os bocados macios entre os dedos como se fosse massa de pão. Quando acabaram, Luzia jogou fora o bagaço já murcho. Levantou a saia. Bem devagar, desatou os laços das calcinhas, que lhe batiam nos joelhos, e começou a baixá-las até os tornozelos. Depois, segurou firme no galho que estava mais acima. Inclinou-se, então, para trás. Emília viu o fio do líquido que escorria por entre as pernas da irmã e ia cair no chão, borbulhando ao penetrar na terra alaranjada.
– Vai, Mília – disse Luzia. – Duvido que faça a mesma coisa.
Emília jamais conseguiria. Não podia tirar as calcinhas na frente da irmã mais moça, encabulada por causa dos pelinhos encaracolados que começavam a crescer naquela parte do seu corpo. Ouviu um farfalhar no cafezal – viu folhas que caíam em ondas.
– Vem vindo alguém! – sussurrou ela.
Mais que depressa, Luzia tratou de puxar as calcinhas. Para isso, soltou o galho em que se segurava. Num segundo, Emília viu a expressão do rosto da irmã se transformar, passando da surpresa ao pavor, com as sobrancelhas franzidas e os dentes cerrados, como que à espera do impacto. E ela caiu para trás.
– Luzia! – gritou Emília, tentando segurá-la.
Seus dedos chegaram a se tocar, úmidos e pegajosos por causa da manga, mas depois se afastaram.
A cabeça da menina bateu em dois galhos bem grossos. Ela caiu no chão e soltou um ligeiro suspiro antes de fechar os olhos. Seu braço esquerdo ficou retorcido num ângulo horrível debaixo do corpo. Parecia uma de suas bonecas de pano, com os membros esparramados e frouxos. Emília abraçou o tronco da árvore e foi descendo, arranhando os joelhos e as palmas das mãos. O vizinho de Zefinha surgiu, saindo do meio do cafezal, pronto para gritar com aquelas garotas que tinham vindo roubar as suas mangas. Mas toda a sua zanga desapareceu quando ele viu Luzia.
Emília se ajoelhou e subiu rapidamente as calcinhas da irmã.
– Levante ela daí! – ordenou, dirigindo-se ao velho fazendeiro, e a sua própria voz lhe soou estranha, esganiçada e determinada.
Tia Sofia tapou a boca com a mão quando os viu aparecer em meio às árvores: Emília dando ordens, aos berros, o vizinho de Zefinha, de olhos arregalados e nervosíssimo, Luzia desmaiada em seus braços. Eles a deitaram na mesa da cozinha. O sangue escorria de um machucado na parte posterior da cabeça.
– Eu a encontrei assim – declarou o vizinho, juntando as mãos escuras e calosas como se fosse rezar. – Elas estavam na minha árvore.
– Vamos mergulhar as mãos dela na água fria – disse Zefinha, correndo para encher duas vasilhas de barro.
As mãos da menina penderam frouxas ali dentro. O braço esquerdo estava virado ao contrário, na altura do cotovelo, como se tivesse sido costurado às avessas. Tia Sofia afastou o cabelo que caía na testa da sobrinha. Ela não voltou a si. Jogaram água no seu rosto, puseram um frasco de vinagre bem ácido diante do seu nariz, beliscaram-lhe as faces e puxaram-lhe o cabelo, mas Luzia nem se mexeu.
– A respiração dela está tão fraquinha – sussurrou a tia, fitando atentamente o peito da menina. – Mal posso vê-lo se mover.
Zefinha ergueu a cabeça de Luzia com cuidado e pôs ali uma toalha para estancar o sangue. Virou-se então para o filho.
– Vá até a cidade – disse. – E traga a parteira até aqui.
Dona Augusta, a parteira da região, era o mais próximo de um médico formado que Taquaritinga conhecia. Tia Sofia caiu de joelhos. Todos os demais a acompanharam. Emília sentiu o contato do chão de terra frio. O vizinho se remexeu ao seu lado, dobrando a aba do chapéu que tinha nas mãos. Ele cheirava a terra e a cebola. Emília sentiu uma tonteira. Afastou-se do velho e juntou as mãos.
Tia Sofia rezou uma série de orações a Nossa Senhora. Eles abriam os olhos após cada prece, na esperança de ver Luzia se mover. Como isso não acontecia, voltavam a baixar a cabeça.
– Meu santo Expedito – exclamou tia Sofia, sua voz trêmula e grave –, protetor de todas as causas justas e graves, ajudai-nos neste momento de aflição e desespero. Vós, o santo guerreiro. Vós, o santo de todos os aflitos. Vós, o santo de todas as causas impossíveis. Protegei minha sobrinha. Vinde em seu auxílio; dai-lhe forças. Não permitais que ela parta para o mundo das trevas. Meu santo Expedito, ela vos será eternamente grata e honrará o vosso nome pelo resto da vida.
Tia Sofia se levantou e encostou a cabeça ao peito de Luzia.
– Mal posso ouvir o coração batendo – observou.
– Devíamos acender uma vela – sugeriu o vizinho.
Tia Sofia segurou o terço com mais força. Os profundos vincos em forma de V que lhe marcavam a testa se retorceram.
– Não – retrucou. – Ela ainda está viva.
Zefinha pôs a mão no braço da amiga.
– Sofia... – sussurrou – A respiração da menina está tão fraca. E se ela não voltar a si? Vai precisar dessa luz.
Emília apertou as mãos com mais força. Estava sentindo um gosto metálico na boca. A saliva parecia espessa e viscosa. Lembrou-se da ocasião em que Cosme Ferreira, um lavrador da região, foi derrubado por seu burro em um sábado, durante a feira. Tia Sofia havia tentado tapar os seus olhos, mas a menina conseguiu se esquivar e viu tudo. O rosto do sujeito estava todo esmigalhado e ele ficou caído ali, todo torto e ensanguentado, junto ao cercado do animal. Um dos vendedores ateou fogo a uma folha de bananeira, perto das mãos inertes do acidentado, para que a luz guiasse a sua alma rumo ao céu e a protegesse da escuridão que cerca a morte.
– Vamos pegar uma vela – choramingou Sofia. – Só por garantia.
Emília apertou as mãos com tanta força que seus dedos chegaram a ficar dormentes. Rezou para todos os santos de que conseguiu se lembrar; rezou para Jesus, para o Espírito Santo e para a alma de sua mãe. Rezava e rezava, sem parar, até que as palavras daquelas orações passaram a soar estranhas e sem sentido, como as cantigas disparatadas que Luzia e ela cantavam quando eram bem pequenas.
Zefinha arranjou uma vela branca e grossa. Acendeu-a com uma acha de lenha do fogão. Sofia pôs a mão direita de Luzia sobre o peito da menina e envolveu a vela com os seus dedos miúdos. Então, ajeitou o braço esquerdo todo retorcido. As pálpebras de Luzia se entreabriram. Ela passou os olhos pela sala, como se estivesse desnorteada, depois, olhou para o próprio braço. Sua boca se contorceu num ricto de dor.
– Ave Maria! – exclamou tia Sofia. – Graças a Deus!
Luzia se sentou. A vela caiu no chão. Zefinha rapidamente a apagou com o pé.
– Está doendo – gemeu a menina, com voz rouca e o cabelo empapado de sangue. Desceu da mesa. – Está doendo – repetiu, desta vez mais alto, olhando para a irmã.
Emília se sentiu acuada por aquele olhar. Havia ali dor, confusão e uma raiva feroz. Emília percebeu também que havia acusação. Ficou olhando para as suas mãos postas, fingindo rezar. Luzia começou a chorar. Saiu correndo pela cozinha e acabou mergulhando o braço quebrado numa vasilha de água que ficava ao lado do fogão.
O filho de Zefinha voltou minutos depois. As narinas aveludadas do seu cavalo, grandes e redondas, se abriam e se fechavam com as respirações profundas do animal. Como não conseguiu encontrar a parteira, trouxe o padre Otto. O padre vinha sentado precariamente na garupa do rapaz, com a careca reluzente de suor, as calças pretas arregaçadas, deixando à mostra os seus tornozelos brancos. Benzeu-se quando viu Luzia parada ali, com o braço mergulhado na água. O rosto da menina estava assustadoramente pálido. O filho de Zefinha voltou a toda para a cidade, à cata da encanadeira.
– O que aconteceu? – perguntou o sacerdote.
– Ela quase se foi – respondeu tia Sofia num sussurro. – É um milagre, não é, padre? Ela voltou para nós. Um milagre.
Contou então o que tinha acontecido e o religioso só fazia assentir, com ar solene. Não tirava os olhos de Luzia. Quando Sofia terminou seu relato, o aposento ficou em silêncio. Padre Otto segurou o queixo da menina entre o polegar e o indicador gorduchos.
– Milagre é coisa rara, mocinha – disse ele. – São verdadeiras dádivas. Nada de cair de árvores novamente.
Emília se ajoelhou, esquecida num canto daquela cozinha caiada, como uma estranha que tivesse de presenciar um episódio particular de uma família qualquer. Uma fria certeza a invadiu, tão rija e afiada quanto as agulhas de costura de tia Sofia: a sua vida seria aquilo, conviver com uma irmã que havia voltado das portas da morte.
7
Emília apertou ainda mais o lenço que usava na cabeça. Aquelas terras áridas ao pé do morro eram quentes e poeirentas. Cruzaram com uma caravana de jumentos. Os animais iam levando latões de querosene, caixotes de sabão, tônico capilar e outros produtos que vinham de Limoeiro. Crianças descalças corriam atrás da tropa e levantavam poeira do chão. Emília fechou os olhos.
O professor Célio não havia respondido ao seu cartão. Antes, tinha escrito respostas num pedaço de página tirado do manual da Singer, impresso em papel-jornal. Quando a aula terminou, Emília ainda ficou diante da sua máquina, ajeitando a cadeira e retirando fios de linha daqui e dali, enquanto Luzia a esperava, impaciente, à porta. O professor Célio permaneceu na sua mesa, respondendo a perguntas de outras alunas. Era o lenço, concluiu Emília. Antes de imitar as modelos da Fon Fon, usava o cabelo preto e cacheado amarrado com uma fita. Agora, parecia a mulher de um lavrador. Na próxima vez, desobedeceria à tia. Ajeitaria os cachos com água de goma, para que não ficassem achatados, e tiraria o lenço assim que entrassem no prédio da Singer.
– Olhe! – exclamou Luzia.
Emília manteve os olhos fechados. Na volta para casa, Luzia ficava sempre lhe mostrando as mesmas formações rochosas: umas pedras que, com a ação da chuva e do tempo, acabavam parecendo macias e quase porosas. Recentemente, tinham pintado ali uns slogans políticos com cal: Vote 25, Getúlio Vargas! Luzia odiava aqueles dizeres. Emília não sabia quem era o homem – os políticos eram figuras estranhas, fantasmagóricas, cujas vozes entrecortadas de chiados eram ouvidas de vez em quando nos programas de rádio, ou cujos nomes eram pintados em rochedos ou cercas, e que tinham o apoio dos coronéis locais. Só homens que soubessem ler e escrever podiam votar. Em Taquaritinga, os poucos que se enquadravam nesse perfil raramente viam uma cédula eleitoral: o coronel Pereira se encarregava de preenchê-las como melhor lhe conviesse. Luzia jurava que, se fosse homem, jamais votaria num candidato que estragasse as pedras com sua propaganda. Emília a ignorava; gostava das rochas pintadas. Era um detalhe que acrescentava algum frescor à aridez daquele lugar. Para ela, as pinturas eram um sinal de civilização em meio às casas de taipa rachadas e aos amontoados de cercadinhos para cabras, cuja repetição constante a fazia agarrar o lenço e, depois, o estômago, quando sentia uma agitação, um aperto terrível bem lá dentro, coisa que só podia identificar como repulsa.
– Olhe! – insistiu Luzia, cutucando as suas costelas.
Emília abriu os olhos. Já tinham passado pelos rochedos pintados. Quatro sujeitos bloqueavam a estrada.
– Ôoo! – gritou o velho capataz. Puxou as rédeas das mulas com uma das mãos e levou a outra à cintura, revelando a bainha já bem rota de uma faca.
Havia ladrões pelas estradas: grupos de cangaceiros ou até mesmo bandidos isolados que, às vezes, roubavam mercadorias e dinheiro. Alguns moradores da cidade viviam com medo dos cangaceiros, embora Taquaritinga nunca tivesse sido atacada durante a vida ainda curta de Emília. Dona Ester, a mulher do barbeiro, dizia que cangaceiros não eram heróis, como alegavam certas pessoas, mas sim malfeitores e assassinos da pior espécie. Os repentistas que passavam pela região, usando ternos surrados e carregando violas envernizadas, cantavam a crueldade desses bandos: como queimavam cidades, matavam famílias inteiras, massacravam o gado. Pouco depois, porém, os mesmos homens cantavam a bondade e a generosidade dos cangaceiros: como atiravam moedas de ouro e deixavam baús com tesouros para aqueles que os acolhiam em suas casas.
Dona Teresa, uma senhora idosa que vendia galinhas e bastões de canela na feira dos sábados, acreditava que os cangaceiros eram simplesmente lavradores pobres que se encheram das brigas com os coronéis por conta de terras. Seu sobrinho – um amor de rapaz, como ela fazia questão de dizer – tinha se tornado cangaceiro para vingar a morte da namorada nas mãos de um coronel inimigo. Histórias como essa eram comuns. Havia três tipos de cangaceiros: os que entravam por vingança; os que entravam para escapar a alguma vingança e os que eram simplesmente ladrões. Emília achava que os dois primeiros tipos acabavam necessariamente se transformando no terceiro; ninguém poderia viver do que conseguisse catar no mato, feito bicho. Mas, no sertão, a vingança era coisa sagrada. Era um dever, uma honra. Até aqueles que temiam os cangaceiros como ladrões os respeitavam como homens. “Eles não baixam a cabeça para os coronéis”, vivia dizendo Zé Moela, um comerciante local, mas sempre em voz baixa, e quando tinha certeza de que o coronel Pereira estava bem longe da sua loja. “Enfrentam as coisas. Não cruzam as pernas, feito mulheres.”
Algumas das suas colegas de escola achavam os cangaceiros românticos, e até mesmo bonitos. Emília não concordava com isso. Fosse qual fosse a sua motivação, eles eram aqueles mesmos rapazes do campo que ela tanto detestava, e, o que era ainda pior, viviam cheios de si por causa das armas e do prestígio. Na opinião de Emília, aquela gente era como o bando de cachorros selvagens que, toda noite, vinha rondar Taquaritinga. Mesmo que um dia tivessem sido mansos, tornaram-se ferozes e bravos, roubando galinhas, partindo o pescoço dos cabritinhos, soltando seus rosnados soturnos ao circular pela cidade com o pelo ensanguentado e aquele fedor terrível. Eram uns vira-latas imprevisíveis e ingratos, que se voltavam uns contra os outros na primeira oportunidade. Alguns vizinhos ficavam com pena e davam de comer a esses animais. Emília preferia se manter a distância.
As mulas reduziram o passo e os homens foram chegando mais perto. Usavam chapéu de couro de aba curta e uniforme verde. Tudo em volta era tão marrom que aqueles uniformes pareciam algo vivo, vibrante. O velho capataz tirou a mão da bainha da faca.
– Posto de controle – murmurou ele. – São macacos.
Emília já tinha visto soldados antes, quando foi a Caruaru. Na ocasião, as duas irmãs ficaram olhando para um grupo que estava tomando cerveja e mexendo com as mulheres que passavam. Caruaru era a maior cidade do interior do estado, mas mesmo ali policiais de verdade eram coisa rara de se ver. O coronel Pereira reclamava do atual governador, dizendo que ele tinha aliciado rapazes pobres da cidade e, depois de lhes dar umas armas ultrapassadas e declará-los soldados, mandado que fossem assumir postos no interior. Nesses locais, os tais soldados mais arranjavam confusão do que faziam algo de bom. Ou eram brigões, ou depravados, tão arruaceiros e cruéis quanto um bando de cangaceiros. O povo do sertão tinha lhes dado o apelido de macacos.
As mulas foram parando. Luzia se empertigou toda. Emília ajeitou o lenço. Um dos soldados trazia um rifle de cano grosso diante do peito, pronto para mirar o alvo. A arma estava arranhada, com a coronha rachada. Os outros não tinham armas, mas ficaram parados ali na frente, com as pernas afastadas, impedindo a passagem dos animais. O que tinha o rifle olhou as moças dos pés à cabeça.
– O que estão fazendo aqui? – perguntou ele.
– Voltando da aula de costura – respondeu Luzia.
O sujeito assentiu.
– Não têm acompanhante? – acrescentou.
– Eu tomo conta delas – disse o velho, tirando o chapéu. – Trabalho para o coronel Carlos Pereira.
O soldado balançou a cabeça.
– De onde ele é? Tem tantos coronéis por aqui que não consigo saber quem é quem – prosseguiu ele.
E seus companheiros riram. O velho capataz ficou espantadíssimo.
– É o dono destas terras todas, desde aqueles morros – respondeu, apontando para a frente, em direção às sombras azuladas a distância –, até lá bem longe. Taquaritinga e Frei Miguelinho. Manda nisso tudo.
– O coronel pode ser o dono das terras – retrucou o soldado, subitamente sério. – Mas quem manda aqui é a lei. Quem manda aqui é o estado de Pernambuco.
O velho baixou os olhos e fez que sim com a cabeça. Emília sentiu crescer sua irritação. Se estivessem no Ford do coronel, estariam sendo abordadas desse jeito? Se o professor Célio estivesse ao seu lado, em vez daquele velho camponês, seriam incomodadas por aqueles sujeitos?
– Tudo bem – disse o soldado, apontando para a estrada com o rifle. – Podem ir. Mas tomem cuidado. O bando do Carcará está na região.
Por um instante, o peão pareceu assustado, apertando o chapéu nas mãos. Depois, agradeceu aos guardas, pegou as rédeas das mulas e gritou para que elas recomeçassem a andar. Emília sentiu um calafrio. Agarrou-se bem ao pito da sela.
Todos conheciam a história do Carcará. Aos 18 anos, ele tinha entrado para o cangaço depois de matar o célebre coronel Bartolomeu de Serra Negra em seu próprio escritório, conseguindo passar por todos os capangas e estripando-o com o abridor de cartas. Mais tarde, depois de um ataque à cidade de Rio Branco, os moradores locais tinham lhe dado o apelido de Carcará porque ele arrancou os olhos das suas vítimas com a ponta da faca. Naquelas terras áridas que ficavam ao pé de Taquaritinga, havia uma ave, o carcará, que descia a toda e comia os olhos e a língua de cabritos e bezerros. Tia Sofia, como tantas outras mães da cidade, usava essa ave para impedir que as sobrinhas se afastassem muito de casa.
– O carcará – cantarolava ela, com sua voz grave e meio rouca – procura crianças tolinhas. Arranca os olhos delas quando encontra uma sozinha!
Dizia-se que o Carcará trazia ao pescoço um colar de olhos ressecados de suas vítimas. Dizia-se que ele era enorme, louro e de olhos azuis, como um daqueles soldados holandeses de antigamente. Outros, porém, diziam que era baixo, atarracado e moreno como um índio. Havia quem dissesse que o Carcará era o diabo em pessoa. O padre Otto tentava desfazer essa crença em particular. O diabo, afirmava ele, não assumiria uma aparência tão óbvia. “Satã não é um fora da lei”, dizia o padre. “É um farsante, e muito ardiloso. Não usa armas, mas traz presentes, fazendo-nos confundir sombras com substância, o reino dos céus com os prazeres da terra.”
Emília se virou na sela e olhou para trás, na direção daqueles soldados. De repente, teve pena deles, com seus uniformes brilhantes e o velho fuzil. Eram presa fácil. Olhou para Luzia, toda empertigada na mula ao seu lado. A irmã ergueu o braço de vitrola. O cotovelo aleijado formou um ângulo bem estranho. Protegendo os olhos com a mão, fitava o horizonte.
8
Ao se aproximarem de Taquaritinga, o ar foi ficando mais leve e mais fresco. Ouvia-se o ruído fraco das últimas cigarras do verão. Passarinhos cantavam. No mercado, uns poucos vendedores ainda desarmavam as barracas. As pessoas olhavam o céu que escurecia, esperando ver sinal de chuva.
O velho peão parou as mulas defronte do casarão branco do coronel. Tinha tentado apressar os animais, fazendo-os trotar para encurtar o trajeto pelo morro. As mulas, porém, se arrastaram, teimosas, só apressando o passo ao som do chicote, mas logo em seguida voltando à sua lentidão. Para elas, tanto fazia que o Carcará estivesse escondido por entre as pedras ou atrás de uma moita. Mas o velho não tirou a mão da bainha da faca. Emília e Luzia olhavam para os lados ao menor movimento de um lagarto e a cada voo rasante de um pássaro qualquer. Quando enfim chegaram, Emília estava com dor de cabeça. O pito da sela tinha esfolado seu quadril. O vestido de sair estava coberto de poeira. Só mesmo um bilhete do professor Célio a deixaria animada, mas teria de esperar um mês inteiro para que ele, disfarçadamente, lhe pusesse uma resposta nas mãos.
As duas agradeceram ao velho e o deixaram, com as suas mulas, no portão do coronel. Atravessaram a praça da cidade, que estava praticamente vazia, à exceção de um ou outro casal de noivos passeando de mãos dadas. Suas acompanhantes, velhas que rezavam o terço, arrastavam-se atrás dos pares. Emília mancava ao lado da irmã, com os pés inchados nos locais apertados pelas tiras de couro dos sapatos herdados de dona Conceição. Mesmo assim, não pensaria em tirá-los.
– Eu vi – sussurrou Luzia, erguendo os olhos como se estivesse falando com o céu. – Vi quando você entregou um bilhete a ele.
– A quem?
– Arre, Mília. A minha máquina fica defronte da sua.
Emília passou a bolsa de costura de um ombro para o outro.
– Ele vai me levar embora daqui – disse. – Vamos para São Paulo.
Luzia estancou. Tinha a respiração ofegante e os olhos arregalados. Emília sentiu uma espécie de vertigem ao perceber que era capaz de desconcertar a irmã.
– Ele lhe disse isso? – perguntou a outra.
– É muito discreto. Homens educados nunca são tão ousados a ponto de declarar assim as suas intenções.
– E se ele tiver más intenções? – prosseguiu Luzia, com as pernas bem afastadas, as mãos nas cadeiras e o peito inflado como um galo pronto para a briga.
Desta vez, falou mais alto. Emília mandou que baixasse a voz.
– Você parece até a tia – murmurou. – O professor Célio é um cavalheiro. Ele não precisa me dizer isso. Posso sentir.
– Se é um cavalheiro, por que não vem à nossa casa? Por que não pede à tia permissão para namorar você?
– Taquaritinga fica longe – respondeu Emília. Sentia o rosto corado. Já tinha pensado nessa possibilidade, mas morria de vergonha só de imaginar o professor Célio pisando naquele chão de terra da cozinha, olhando para a tapioca de tia Sofia e tendo de aguentar o jeitão mal-humorado de Luzia. Deu de ombros. E, então, mentiu. – Ele já me propôs isso. Eu é que lhe disse que não precisava.
– Por quê? – indagou Luzia.
– Em São Paulo, eles têm prédios de dez andares, Luzia! – retrucou ela, com um riso forçado. – Têm parques, edifícios de apartamentos e bondes. O que ele ia achar disso aqui? – acrescentou, abrindo bem os braços como se quisesse abarcar com eles a cidade inteira.
– Que importância tem isso? – perguntou a irmã.
– Para uma pessoa educada, tem, sim.
– Como é que você sabe?
Emília sentiu um aperto na garganta. Seu rosto pinicava de tão quente. Luzia a fitava com um olhar de pena, como se pudesse perceber coisas que a irmã nem notava. Emília já não aguentava mais esse olhar. Aquele corpo comprido e aquele braço dobrado a punham num lugar à parte, dando-lhe uma liberdade que ela própria jamais conheceria. Vitrola não tinha nenhuma esperança de se casar. Nenhuma reputação a preservar. Vitrola era uma aberração, livre das fofocas e das críticas. Livre para fazer o que bem entendesse, dizer o que bem quisesse, sem temer as consequências. Emília não podia se dar a esse luxo. Desde criança, ouvia tia Sofia e outras pessoas alertando-a o tempo todo – “Lembre-se da sua origem”. Diziam isso de um jeito bondoso, como se estivessem lhe dando algum conselho sagrado. Diziam isso para poupá-la de constrangimentos e mágoas. “Lembre-se da sua origem”, era o que diziam, e Emília sabia muito bem o que havia por trás daquelas palavras: lembre-se das manchas alaranjadas nos seus pés, dos calos da agulha nos seus dedos, dos tecidos feios dos seus vestidos. Lembre-se de que é filha de uma colhedora de café e do bêbado da cidade. Lembre-se de que pode perfeitamente ter suas Fon Fons e acalentar sonhos e ideias, mas eles vão acabar lhe fazendo mais mal que bem. Você pode até esquecer a sua origem, mas todos os demais vão se lembrar dela.
– Odeio você – disse Emília.
Afastou-se da irmã e saiu andando mais depressa, quase trotando para ultrapassar as grandes passadas de Luzia. Seus pés latejavam. Os olhos ardiam. Azar se os sapatos estavam machucando ou se o cabelo estava esquisito. Tinha o professor Célio. E, qualquer dia desses, ele a levaria para uma cidade de verdade, com postes de iluminação, bondes e restaurantes. Nunca tinha ido a um restaurante na vida. Ele a levaria para uma cidade onde as pessoas sabiam ler e escrever, assinavam o nome com canetas-tinteiro de verdade em vez de pressionar o dedo num mata-borrão e deixar, nos documentos, a impressão digital dos analfabetos. Uma cidade onde não havia seca no verão e enchentes no inverno; onde a água corria brandamente pelos canos e ralos. Imaginava a sua casa, um lugar com piso ladrilhado e fogão a gás. Imaginava a própria desforra – como deixaria Luzia ali mesmo, no meio daqueles bodes, daquelas fofocas e daqueles homens banguelas. Até que, um dia, voltaria para encontrar Luzia velha e solitária. Levaria então a irmã embora de Taquaritinga para a sua casa de piso ladrilhado, um lugar onde ela nunca mais seria chamada de Vitrola. Finalmente, Luzia ia entender que todas as revistas e os perfumes de Emília, os seus cartões, os seus chapéus feitos em casa e os sapatos que mal lhe cabiam nos pés não eram bobagens, mas sim pequenos passos, passos necessários no seu caminho para chegar a um lugar melhor.