Entre irmãs
Prólogo
Recife, Brasil
14 de janeiro de 1935
E mília acordou sozinha. Estava deitada na cama de madeira maciça que, um dia, havia sido o leito nupcial de sua sogra e, agora, era o seu. O móvel, cor de açúcar queimado, tinha umas pencas de cajus entalhados na cabeceira e nos pés gigantescos. Os frutos carnudos em forma de sino, emergindo do jacarandá, pareciam tão macios e tão reais que, nas suas primeiras manhãs naquela cama, Emília chegou a imaginar que eles amadureciam durante a noite, com a casca se tornando rosa e amarela, e a polpa rija ficando macia e cheirosa pela manhã. Ao final de seu primeiro ano na casa dos Coelhos, já tinha abandonado essas ideias infantis.
Estava escuro lá fora. A rua, absolutamente silenciosa. A casa branca da família Coelho era a maior de todas aquelas propriedades recém-construídas na rua Real da Torre, uma rua que acabava de ser pavimentada, saindo da velha ponte Capunga e seguindo em direção à zona pantanosa. Emília sempre acordava antes do amanhecer, antes que os ambulantes invadissem as ruas do Recife com suas carroças rangendo e aquelas vozes que chegavam até a sua janela como gritos de pássaros estranhos. Na sua antiga casa no interior, acostumou-se a acordar com os galos, com as orações murmuradas de tia Sofia e, acima de tudo, sentindo no ombro a respiração quente e regular de sua irmã Luzia. Quando criança, Emília não gostava de dormir na mesma cama que a irmã. Luzia era grande demais e acabava abrindo o mosquiteiro com suas pernas compridas. Roubava as cobertas para si. Tia Sofia não tinha condições de comprar duas camas e sempre dizia que era bom ter companhia para dormir – aquilo ensinaria as meninas a ocupar pouco espaço, a se mexer de mansinho, a dormir sem fazer barulho, preparando-as para serem boas esposas.
Nos primeiros dias de casada, Emília ficava no seu lado da cama, com medo de se mexer. Degas reclamava que sua pele era quente demais, sua respiração era alta demais, seus pés eram frios demais. Ao cabo de uma semana, lá se foi ele pelo corredor, de volta aos lençóis aconchegantes e ao colchão estreito da cama de sua infância. Emília logo aprendeu a dormir sozinha, a se espalhar, a ocupar mais espaço. Só um homem dormia com ela naquele quarto, mas num canto, num berço que, a cada dia, ficava menor, quase não podendo mais conter aquele corpinho que crescia. Aos 3 anos de idade, as mãos e os pés de Expedito já roçavam as barras de madeira do berço. Emília tinha esperanças de que ele teria uma cama de verdade no seu próprio quarto, mas não ali. Não enquanto morassem na casa dos Coelhos.
O sol nasceu e o céu clareou. Emília ouviu a gritaria pela rua. Seis anos antes, na primeira manhã que passou naquela casa, ficou tremendo, com o lençol agarrado junto ao peito, até entender que as vozes do lado de fora do portão não eram de gente tentando entrar. Não era o seu nome que gritavam, mas os de frutas e legumes, cestos e vassouras. No Carnaval, as vozes dos vendedores eram substituídas pelo ritmo estrondoso dos tambores do maracatu e os gritos embriagados dos foliões. Cinco anos antes, na primeira semana de outubro, os ambulantes desapareceram. Por todo o Brasil, ouviam-se tiros e vozes clamando por um novo presidente. No ano seguinte, as coisas já tinham se acalmado. O governo havia mudado. Os vendedores voltaram às ruas.
Agora, Emília achava aquelas vozes reconfortantes. Homens e mulheres apregoando seus produtos: “Laranjas! Vassouras! Alpercatas! Cintos! Escovas! Agulhas!” As vozes dos vendedores eram sonoras, animadas, um alívio para todos os sussurros que ela suportara durante a semana. Uma fita preta bem comprida pendia do sino no portão de ferro dos Coelhos. Um aviso aos vizinhos, ao leiteiro, à carrocinha de gelo e a todos os entregadores que chegavam, trazendo flores e cartões de condolências com a borda preta, que aquela casa estava de luto. A família ali dentro tratava da sua dor e não deveria ser perturbada por barulho ou por visitas desnecessárias. Quem tocava o sino o fazia com alguma hesitação. Alguns batiam palmas para anunciar a sua presença, com medo de encostar na fita preta. Os vendedores a ignoravam. Gritavam por sobre a cerca e sua voz passava pelo portão de ferro maciço, atravessava as cortinas fechadas da casa dos Coelhos e penetrava por seus corredores escuros. “Sabão! Corda! Farinha! Linha de costura!” Os ambulantes não se preocupavam com a morte; mesmo quem estava sofrendo precisava do que eles vendiam para as pequenas necessidades do dia a dia.
Emília se levantou.
Enfiou o vestido pela cabeça, mas não fechou o zíper; o ruído poderia acordar Expedito. O menino estava deitado atravessado no berço, protegido pelo cortinado. Tinha a testa reluzente de suor. A boca formava um traço fino. Mesmo dormindo, era uma criança séria. Já era assim em bebê, quando Emília o encontrou. Ele estava magrinho e coberto de poeira. “O enjeitado”, como diziam as empregadas. “Um filho do sertão.” Nasceu durante a terrível seca de 1932. Era impossível que se lembrasse da mãe de verdade, ou daqueles primeiros meses tão difíceis da sua vida, mas, às vezes, quando fitava Emília com seus olhos negros e profundos, Expedito tinha o ar sério e vivido de um velho. Desde o enterro vinha olhando para ela desse jeito, como se tentasse lembrar-lhe que não deviam permanecer na casa dos Coelhos. Deviam voltar para o interior, pelo bem dele e pelo dela mesma. Deviam transmitir um aviso. Deviam cumprir a promessa feita.
Emília sentiu uma pontada no peito. Passou a semana inteira com a sensação de ter uma corda dentro de si, que ia dos pés à cabeça e estava amarrada ao coração. Quanto mais tempo ficasse naquela casa, mais o nó se apertaria.
Saiu do quarto e fechou o zíper do vestido. O tecido soltou um cheirinho acre, metálico. Tinha sido mergulhado numa tina de tinta preta e depois em vinagre, para fixar a nova cor. Antes, era um vestido azul-claro, de feitio moderno, com mangas soltas e vaporosas e uma saia sem roda. Emília gostava de lançar moda. Agora, todos os seus vestidos coloridos haviam sido tingidos de preto e os estampados ficariam bem guardados até que o ano de luto se encerrasse oficialmente. Tinha escondido três vestidos e três boleros em uma mala debaixo da cama. Os boleros estavam pesados; cada um tinha um gordo maço de notas costurado ao cetim do forro. Emília também tinha preparado uma valise com roupas, sapatos e brinquedos de Expedito. Quando fugissem da casa dos Coelhos, teria de carregar as malas sozinha. Sabendo disso, tinha guardado ali apenas o estritamente necessário. Antes de se casar, prezara muito alguns luxos. Acreditara que aquelas coisas bonitas tinham o poder de transformar; que possuir um vestido da moda, um fogão a gás, uma cozinha ladrilhada ou um automóvel apagaria os vestígios da sua origem. Tudo aquilo, ela pensara, impediria que as pessoas reparassem nos calos das suas mãos ou nos seus modos rudes de gente do interior, e faria com que a vissem como uma dama. Depois do casamento e da mudança para o Recife, acabou descobrindo que nada disso era verdade.
Do meio da escada, sentiu o cheiro das coroas fúnebres. Os arranjos florais redondos se apinhavam no saguão e no corredor da frente. Alguns eram pequenos como um prato, outros tão grandes que ficavam apoiados em cavaletes de madeira. Todos eram feitos de flores brancas e roxas, bem juntinhas – gardênias, violetas, lírios, rosas –, com fitas pretas pendendo no miolo oco. Nessas fitas, em tinta dourada, havia o nome de quem os enviara e frases de consolo: “Nossos mais sinceros pêsames”, “Estamos rezando por vocês”. Nos mais antigos, que já tinham perdido o viço, as gardênias estavam amareladas e os lírios, murchos. O ar recendia ao cheiro azedo, pútrido que saía deles.
Emília segurou o corrimão. Quatro semanas antes, Degas, seu marido, tinha se sentado com ela naqueles degraus de mármore. Tinha tentado alertá-la, mas ela não lhe dera ouvido; Degas já a tinha enganado tantas vezes... Desde a morte dele, Emília só fazia pensar, dia e noite, que aquele alerta talvez não tivesse sido uma das suas mentiras, mas uma última tentativa de redenção.
Dirigiu-se ao saguão de entrada. Tinha chegado uma nova coroa, com lírios rijos e fortes, com os estames carregados de pólen alaranjado. Emília ficou com pena daqueles lírios. Não tinham raízes, nem solo ou qualquer outra forma de se sustentar, mas, mesmo assim, floresciam. Agiam como se ainda fossem fecundos e fortes quando, na verdade, já estavam mortos – simplesmente não o sabiam. Sentiu aquele nó no peito se apertar. Os seus instintos lhe diziam que Degas estava certo, que aquele havia sido um alerta efetivo. E ela se sentia como aquelas coroas fúnebres, dando-lhe um reconhecimento que ele desejou tão desesperadamente em vida, mas só recebeu na morte.
As coroas eram um costume exclusivo da capital. O interior era geralmente seco demais para se cultivarem flores. As pessoas que morriam durante os meses de chuva eram, a um só tempo, abençoadas e amaldiçoadas: os corpos entravam em decomposição mais depressa e os presentes tinham de tapar o nariz durante o velório, mas punham-se buquês de dálias, cristas-de-galo e beneditas dentro da rede em que o morto seria enterrado, antes de transportá-lo para a cidade. Emília tinha participado de vários enterros, entre eles o de sua mãe, de quem mal conseguia se lembrar. O de seu pai aconteceu mais tarde, quando ela tinha 14 anos e Luzia, 12. Depois disso foram morar com tia Sofia, e, embora gostasse muito dela, Emília sonhava em fugir dali e ir viver na capital. Em criança, sempre acreditou que deixaria Sofia e Luzia. Na verdade, foram elas que a deixaram.
Pegou o cartão de borda preta que acompanhava a coroa recém-chegada. Era dirigido ao seu sogro, o Dr. Duarte Coelho.
“Que sofrimento imensurável”, dizia o cartão. “Assim como a estima que temos pelo senhor. Volte logo ao trabalho! Seus colegas do Instituto de Criminologia.” Aquelas coroas e aqueles cartões não se referiam a Degas. Os presentes que chegavam à casa dos Coelhos eram enviados para bajular os vivos. A maioria das flores vinha de políticos, de correligionários da Aliança Liberal ou de funcionários subordinados ao Dr. Duarte no Instituto de Criminologia. Umas poucas coroas eram de senhoras da sociedade, na esperança de cair nas boas graças de Emília. Mulheres que eram clientes da sua loja de roupas. Todas esperavam que o luto não a impedisse de prosseguir com o seu hobby na moda. Mulheres respeitáveis não tinham uma profissão, portanto a loja de Emília, que fazia tanto sucesso, era considerada um passatempo, como fazer crochê ou se dedicar a obras de caridade. Emília e a irmã eram costureiras. No interior, essa era uma profissão tida em alta conta, mas, no Recife, essa respeitabilidade não existia – as costureiras eram como empregadas ou lavadeiras. E, para desgosto dos Coelhos, o seu filho foi se casar justo com uma delas. No entanto, Emília tinha duas virtudes que a redimiam: era bonita e não tinha família. Assim, não haveria pais ou irmãos batendo à sua porta para pedir esmolas. O Dr. Duarte e sua esposa, dona Dulce, sabiam que a moça tinha uma irmã, mas achavam que ela havia morrido, como seus pais e a tia Sofia. Emília não desmentiu tal convicção. Sendo costureiras, tanto ela quanto Luzia sabiam cortar, emendar e esconder.
“Uma boa costureira tem de ser corajosa”, era o que tia Sofia costumava dizer. Por muito tempo, Emília discordou. Achava que coragem envolvia risco. Na costura, tudo era medido, riscado, experimentado, refeito. O único risco era errar.
Uma boa costureira media tudo com precisão e, então, usando um lápis bem apontado, transferia aquelas medidas para o papel. Copiava o molde em morim, recortava os pedaços e costurava tudo, fazendo uma roupa-modelo que a cliente experimentava e que ela própria, a costureira, ia acertando com alfinetes para corrigir qualquer falha do seu molde. O morim sempre parecia feio e sem graça. A essa altura, a costureira tinha de ser entusiástica, visualizando a roupa num tecido lindo e convencendo a cliente daquela visão. A partir dos alfinetes e das marcações feitas no morim, corrigia o molde de papel e o transferia para um tecido bom: seda, linho ou algodão de qualidade. Depois, cortava. Finalmente, cosia todos aqueles pedaços, sempre passando a ferro, para que as dobras ficassem bem certinhas e as costuras, retas. Não havia nenhuma coragem nisso. Só paciência e um trabalho meticuloso.
Luzia nunca fazia moldes ou provas em morim. A partir das medidas que tirava, riscava direto no tecido e cortava. Aos olhos de Emília, isso também não era coragem – era habilidade. Luzia era ótima para tirar as medidas das pessoas. Sabia exatamente em que ponto passar a fita em torno de braços ou cinturas para conseguir as dimensões mais acuradas. Mas a sua habilidade não dependia de exatidão; Luzia era capaz de ver para além dos números. Sabia que estes podem mentir. Tia Sofia tinha lhes ensinado que o corpo humano não tem linhas retas. A fita métrica podia errar no traçado de costas encurvadas, no arco de um ombro, na curva de uma cintura, na dobra de um cotovelo. Luzia e Emília aprenderam a desconfiar da fita métrica. “Nunca confie numa fita de um estranho!”, exclamava tia Sofia. “Confiem nos seus próprios olhos!” Foi assim que as duas aprenderam a ver onde era preciso ajustar ou afrouxar, aumentar ou diminuir antes mesmo de esticar a fita métrica. A costura era uma linguagem, dizia a tia. A linguagem das formas. Uma boa costureira era capaz de visualizar uma roupa vestindo um corpo e ver essa mesma roupa estirada na mesa de cortar, separada em vários pedaços soltos. Era raro uma se parecer com a outra. Esticados ali, os pedaços de uma roupa eram formas aleatórias separadas em duas metades. Cada uma tinha o seu oposto, a sua imagem espelhada.
À diferença da irmã, Emília preferia fazer moldes de papel. Não confiava tanto assim nas suas medidas e ficava nervosa sempre que tinha de pegar a tesoura e cortar o tecido definitivo. O corte era impiedoso. Se fossem mal cortados, os pedaços de uma roupa representavam horas de trabalho diante da máquina. E, muitas vezes, esse trabalho era inútil – há erros que a costura não consegue consertar.
Emília voltou a pôr o cartão de pêsames no lugar. Passou pelas coroas de flores. No fundo do saguão, havia um cavalete sem nenhuma coroa pendurada. O que havia ali era um retrato. Os Coelhos encomendaram uma pintura a óleo para o velório do filho. O Capibaribe era fundo e a correnteza, forte, mas a polícia conseguiu encontrar o corpo de Degas. Como ele estava inchado demais para deixarem o caixão aberto, o Dr. Duarte mandou fazer aquele quadro. No retrato, o marido de Emília estava sorridente, magro e confiante – tudo o que ele jamais fora em vida. O único traço que o pintor tinha captado com exatidão haviam sido as suas mãos. Aquelas mãos com dedos afilados e unhas imaculadas e polidas. Degas tinha sido corpulento, com um pescoço grosso e braços gorduchos, mas as suas mãos eram esguias, quase femininas. Emília adoraria ter reparado isso no momento em que o conheceu.
A polícia considerou a morte de Degas um acidente. Os policiais eram leais ao Dr. Duarte, fundador do primeiro Instituto de Criminologia do estado. Recife, porém, era uma cidade que prezava um escândalo. Acidentes não tinham graça nenhuma, não despertavam interesse. Durante o velório, Emília ouviu gente sussurrando. Tentavam desencavar culpados: o carro, o temporal, a ponte escorregadia, as águas turbulentas do rio ou o próprio Degas, sozinho ao volante do seu Chrysler Imperial. Dona Dulce – a sogra de Emília – insistia na versão da polícia. Sabia que o filho tinha mentido ao dizer que ia ao escritório pegar uns papéis importantes para uma viagem que faria a trabalho, coisa que jamais havia feito antes. Ele não foi ao escritório. Na verdade, ficou apenas rodando pela cidade. Dona Dulce não culpava a nora pela morte de Degas, mas por aquilo que a tinha causado: a falta de um objetivo na vida. A esposa certa – uma moça de boa família, da cidade – teria curado a fraqueza de Degas e lhe dado um filho. O Dr. Duarte via Emília com mais simpatia. Foi ele quem arranjou a tal viagem de trabalho para Degas. Sem que dona Dulce ficasse sabendo, tinha conseguido uma vaga para o filho no Pinel, um respeitado sanatório de São Paulo. Acreditava que o tratamento de choques elétricos conseguiria aquilo que o casamento e a autodisciplina não conseguiram.
Emília chegou mais perto do retrato, como se a proximidade pudesse tornar aquele rosto mais familiar. Tinha 25 anos e já era viúva, de luto por um marido que nunca compreendeu. Por vezes, chegou a odiá-lo. Em outras ocasiões, sentia uma inesperada afinidade com Degas. Sabia o que significava amar o que era proibido e negar esse amor, traí-lo. Uma emoção como essa era um fardo – algo tão pesado que podia arrastar alguém para o fundo do Capibaribe e mantê-lo lá.
Emília fora negligente com a própria vida. Vivia tão ansiosa para deixar o interior que escolheu Degas sem analisá-lo, sem avaliá-lo. Nos anos que se seguiram à sua fuga, tentou consertar os erros inerentes àquele começo apressado. Certas coisas, porém, nem valia a pena consertar. Quando percebeu isso, finalmente compreendeu o que tia Sofia queria dizer com coragem. Toda costureira tem de ser meticulosa. Tanto as novatas quanto as mais experientes podem tomar o maior cuidado do mundo com as medidas e o traçado dos moldes, mas precisão não é garantia de sucesso. Uma costureira sem muita habilidade entregava roupas malfeitas sem tentar esconder seus erros. Já as boas costureiras ficavam apegadíssimas aos seus projetos e passavam dias a fio tentando acertá-los. Mas as excelentes não faziam nada disso. Eram corajosas o bastante para recomeçar. Para admitir que erraram, jogar fora o que não tinha dado certo e começar tudo outra vez.
Emília se afastou do retrato de Degas. Descalça, foi saindo pé ante pé do saguão de entrada, dirigindo-se ao quintal da casa dos Coelhos. No meio do pátio cercado de samambaias ficava uma fonte. Uma criatura mítica, meio cavalo, meio peixe, cuspia água pela boca de cobre. Do outro lado, abriam-se as portas envidraçadas da sala de jantar. As cortinas estavam fechadas e balançavam ao vento. Por trás delas, Emília ouviu a voz de dona Dulce. A sogra falava rispidamente com uma empregada, dizendo-lhe para pôr a mesa de forma correta. O Dr. Duarte reclamava que o jornal estava atrasado. Como a nora, ele sempre esperava ansioso pelo jornal.
Na extrema direita do quintal, ficavam as portas do escritório do Dr. Duarte. Emília foi andando naquela direção, a passos rápidos, tomando cuidado para não pisar nos jabutis que estavam sempre circulando por ali. Os bichos eram herança de família, comprados pelo avô de seu marido e já com 50 anos de idade. Eram os únicos animais permitidos naquela casa e viviam satisfeitos a esbarrar nas paredes azulejadas do pátio, escondendo-se em meio às samambaias e comendo restos de frutas que as empregadas lhes traziam. Emília e Expedito gostavam de pegá-los no colo quando não havia ninguém ali para ver. Os jabutis eram tão pesados que eles precisavam usar as duas mãos. Suas patas enrugadas se debatiam freneticamente sempre que Emília pegava um deles, e quando tentava lhes acariciar a cabeça ela desaparecia entre os seus dedos. A única parte que conseguia tocar era o casco, grosso e insensível como os próprios jabutis.
Lá no interior, Emília vivia rodeada de animais. Eram lagartos durante os meses secos do verão e sapos no inverno. Havia beija-flores, centopeias e gatos de rua que vinham pedir leite na porta dos fundos. Tia Sofia criava galinhas e cabras, mas, como estas eram destinadas à mesa, Emília nunca fez amizade com elas. No entanto, tinha três pássaros que cantavam e viviam em gaiolas de madeira. De manhã, depois que lhes dava de comer, a moça enfiava o dedo pelas barras da gaiola e deixava que os pássaros bicassem debaixo de suas unhas. “Esses passarinhos foram enganados”, dizia Luzia sempre que via a irmã lhes dar comida. “Você devia soltá-los.” Não gostava nada do jeito como tinham sido apanhados. Os meninos das redondezas botavam um pedacinho de melancia ou de abóbora numa gaiola, ficavam esperando e fechavam a portinhola assim que um deles entrava. Depois iam vender esses bicos-de-lacre ou canários minúsculos na feira semanal. Quando os pássaros silvestres aprendiam o truque e evitavam entrar nas gaiolas para pegar a comida, os meninos adotavam outra estratégia, esta infalível. Amarravam ali dentro um passarinho domesticado para que os outros achassem que o local era seguro. Sem saber, um pássaro servia de isca para outro.
No escritório, o sogro de Emília tinha um corrupião de asa laranja treinado para cantar a primeira estrofe do hino nacional. Na cozinha dos Coelhos o movimento era constante, com sua sogra comandando uma legião de empregadas para fazer geleias, queijos e doces. Às vezes, porém, apesar de todo aquele barulho, Emília podia ouvir o corrupião cantando as sombrias notas do hino, como um fantasma cuja voz saísse de dentro das paredes.
O passarinho piou quando Emília empurrou a porta do escritório. Ele ficava ali, bem no meio do cômodo, numa gaiola de latão, entre os mapas frenológicos do Dr. Duarte, sua coleção de órgãos descorados, boiando em potes de vidro, e a fileira de crânios de porcelana com as partes do cérebro devidamente classificadas e numeradas. Emília suava debaixo dos braços. Sentiu um cheiro meio azedo e não saberia dizer se ele vinha do seu vestido tingido ou do próprio suor. O seu sogro não deixava ninguém entrar naquele escritório sem ser convidado, nem mesmo as empregadas. Se fosse apanhada ali, diria que tinha ido ver como estava o corrupião. Ignorou o pássaro e se dirigiu à escrivaninha. Em cima do móvel, havia pilhas de cartões de pêsames ainda não respondidos. Papéis com listas das medidas cranianas de todos os presos da casa de detenção. O rascunho manuscrito de um discurso que o Dr. Duarte faria no fim do mês. No texto, palavras haviam sido riscadas. O discurso estava inacabado; seu sogro ainda não havia conseguido o tão precioso espécime: uma criminosa cujas medidas cranianas confirmariam as suas teorias e concluiriam a sua explanação. Emília remexeu aquelas pilhas de papéis. Nada ali se parecia com uma fatura. Não havia formulários da alfândega, nem registros de transporte ferroviário ou qualquer documento datado que se referisse a uma remessa pouco comum para o Brasil. Procurou palavras escritas em língua estrangeira, sabendo que reconheceria uma delas em particular: Bergmann. O nome era o mesmo em alemão e em português.
Tudo o que encontrou foram recortes de jornal. Ela própria tinha uma coleção semelhante, trancada no porta-joias para que as empregadas dos Coelhos não pudessem encontrá-la. Alguns artigos estavam amarelados pelo tempo de exposição à umidade do Recife. Alguns ainda cheiravam a tinta. Todos se referiam ao brutal cangaceiro Antônio Teixeira – apelidado de Carcará porque gostava de arrancar os olhos de suas vítimas – e à sua mulher, chamada a Costureira. Não eram fugitivos, pois nunca haviam sido capturados. Não eram fora da lei, pois no interior não existiam leis, ao menos até recentemente, quando o presidente Vargas tentara implementar a sua própria legislação. A definição de cangaceiro dependia de quem respondesse à pergunta. Para os agricultores que arrendavam terras alheias, esses indivíduos eram heróis e protetores. Para os vaqueiros e os comerciantes, eram ladrões. Para as moças das fazendas, eram ótimos bailarinos e heróis românticos. Para as mães dessas moças, eram uns demônios estupradores. Os alunos das escolas, que quase sempre brincavam de polícia e cangaceiro, brigavam para ser esses últimos, apesar de as professoras os repreenderem por isso. Finalmente, para os coronéis – os grandes latifundiários do interior –, os cangaceiros eram um aborrecimento inevitável, como as secas que matavam a safra de algodão ou a brucelose mortífera que atacava o gado. Eram uma praga que os coronéis tinham de enfrentar, assim como seus pais, avós e bisavós haviam feito antes. Os cangaceiros viviam como nômades pela aridez espinhosa do sertão, roubando vacas e cabras, atacando cidades, vingando-se dos inimigos. Eram homens que ninguém podia obrigar à obediência pelo medo ou reduzir à submissão pelo chicote.
O Carcará e a Costureira eram uma nova espécie de cangaceiros. Sabiam ler e escrever. Mandavam telegramas para a redação do Diário de Pernambuco e chegavam até a enviar mensagens pessoais ao governador e ao presidente, documentos que os jornais fotografavam e divulgavam em suas páginas. Tais mensagens eram escritas em papel de qualidade, com o timbre do bandido – um grande C – impresso no alto da folha. Nelas, o Carcará condenava o projeto viário do governo, a rodovia Transnordestina, e prometia atacar todos os canteiros de obras da região. E insistia em afirmar que não era um simples ladrão de cabras, mas sim um líder. Propunha que se dividisse o estado de Pernambuco, deixando o litoral para a República e o interior para os cangaceiros. Emília observava com cuidado a caligrafia do Carcará. Havia algo feminino naquele traçado sinuoso, algo que lembrava muito as letras que o padre Otto, o imigrante alemão, professor da sua velha escola primária, havia ensinado a ela própria e a Luzia quando eram crianças.
Os repórteres diziam que o bando do Carcará contava entre vinte e cinquenta homens e mulheres bem armados. A líder do bando, a Costureira, era célebre por sua brutalidade, sua perícia com as armas de fogo e sua aparência. Não era bonita, mas era bem mais alta que a maioria dos homens. E tinha um braço defeituoso, permanentemente dobrado no cotovelo. Ninguém sabia dizer de onde vinha aquele apelido. Segundo alguns, ela era chamada assim pela precisão de sua pontaria: a Costureira podia furar um homem inteirinho, exatamente como a máquina de costura enfia a agulha nos tecidos. Outros diziam que ela sabia mesmo costurar e era responsável pelos elaborados uniformes dos cangaceiros. O Diário tinha publicado a única foto do bando, e Emília a guardava no seu porta-joias. Todos usavam calças e gibões bem-cortados. Seus chapéus tinham as abas dobradas e viradas para cima, parecendo uma meia-lua. Os apetrechos que carregavam, desde os bornais de alças largas até as cartucheiras que levavam na cintura, eram todos enfeitados com estrelas, círculos e outros símbolos indecifráveis. As suas roupas eram inteiramente bordadas. As alças de couro dos fuzis eram lavradas e tacheadas. Aos olhos de Emília, os cangaceiros pareciam a um só tempo magníficos e ridículos.
A última teoria sobre o apelido da líder do bando era a única em que Emília acreditava. Aquela mulher alta e com o braço aleijado era chamada de Costureira porque mantinha o grupo unido. Apesar da seca de 1932; apesar dos esforços do presidente Vargas para exterminar o bando; apesar das recompensas em dinheiro que o Instituto de Criminologia oferecia pela cabeça daqueles bandidos, os cangaceiros haviam sobrevivido. Chegaram até a admitir mulheres em suas fileiras. Muitos atribuíam esse sucesso à Costureira. Havia vários boatos – não confirmados, mas persistentes – de que o Carcará tinha morrido. De que fora a Costureira que planejara todos os ataques às obras da rodovia. Que fora ela que escrevera as cartas dirigidas ao presidente. Que fora ela que enviara os telegramas assinados pelo Carcará. Quase todos os políticos, os policiais e até mesmo o próprio presidente consideravam essa versão impossível. A Costureira era alta, inflexível e perversa, mas continuava sendo uma mulher.
Emília remexeu na última pilha de papéis sobre a escrivaninha do sogro. Os recortes de jornais colavam em suas mãos suadas. Soltou-os com um sacolejo. Nunca conseguiu entender o comportamento da Costureira, mas admirava a ousadia, a força daquela cangaceira. Nos dias que se seguiram à morte de Degas, rezou para ter essas qualidades.
Soou uma campainha dentro da casa dos Coelhos. O café da manhã estava na mesa. A sogra de Emília tinha sempre uma sineta de bronze ao lado de sua cadeira na sala de jantar. Usava-a para chamar as empregadas e para anunciar a hora das refeições. A campainha tocou novamente; dona Dulce não gostava de retardatários. Emília ajeitou os papéis em cima da escrivaninha do sogro e saiu do escritório.
Sentou-se no lugar que lhe havia sido destinado, numa ponta da mesa, afastada dos demais. Seu sogro ficava na cabeceira, tomando café numa xícara de porcelana e lendo o jornal. A sogra de Emília sentava ao lado do marido, pálida e rígida em seus trajes de luto. Entre os dois, havia uma cadeira vazia com o espaldar coberto por um pano preto: era onde Degas se sentava. O seu lugar à mesa estava posto com todo o cuidado, com a louça azul e branca dos Coelhos, como se dona Dulce esperasse que o filho fosse voltar. Emília fitou o que havia à sua frente. Eram coisas de mais para se usar. Havia uma colher de tamanho médio para mexer o café; outra, um pouco maior, para o fubá; uma terceira, bem miudinha, para a geleia, e um jogo de garfos para os ovos e as bananas fritas. Anos atrás, nas primeiras semanas que passou na casa dos Coelhos, Emília não sabia o que era o quê. Mas também não ousava tentar adivinhar, pois a sogra a observava atentamente lá do outro lado da mesa. Não havia a menor necessidade de tanta complicação, tanto requinte pela manhã, e, em seus primeiros meses ali, a moça achava que a sogra só botava uma mesa tão elaborada para confundi-la.
Emília ignorou a travessa com ovos e o fubá fumegante que estavam no meio da mesa. Tomou café. Perto dela, o Dr. Duarte interrompeu a leitura do jornal e sorriu. Tinha dentes grandes e amarelos.
– Vejam! – exclamou ele, sacudindo as páginas do Diário de Pernambuco.
A manchete dançava diante dos olhos de Emília.
O ataque aos cangace iros foi um suce sso!
Acre dita-se que a Costure ira e o Carcará e ste jam mortos!
A cabe ça de ambos e stá se ndo trazida para o Re cife .
A moça se levantou e foi até a cabeceira da mesa.
Segundo o artigo, o presidente da República não toleraria a anarquia. Tropas equipadas com novas armas, as metralhadoras Bergmann, haviam sido enviadas para o sertão. As tais armas eram uma maravilha moderna, dando quinhentos tiros por minuto. Haviam sido importadas da Alemanha por Coelho & Filho, Ltda., a firma de importação e exportação de propriedade do renomado criminologista Dr. Duarte Coelho e seu filho Degas, recém-falecido. A remessa das Bergmanns tinha chegado secretamente, mais cedo do que se poderia prever.
O jornal informava que, antes da emboscada, os cangaceiros haviam atacado e incendiado um dos canteiros de obras da rodovia. Haviam atacado também uma cidade. Testemunhas – pequenos agricultores e o sanfoneiro do lugar – disseram que os bandidos haviam comprado uma caixa de água-de-colônia Fleur d’Amour e atirado moedas para as crianças nas ruas. Disseram ainda que eles tinham assistido à missa e até mesmo se confessado. Depois disso, a Costureira e o Carcará levaram o bando para o rio São Francisco, para pernoitar na fazenda do doutor. Este, que em outros tempos fora amigo de confiança dos cangaceiros, havia se bandeado em segredo para o lado do governo e telegrafado às tropas sediadas ali perto informando-as sobre a presença do Carcará. “O pássaro está em casa”, era o que dizia a mensagem.
O bando estava acampado num açude vazio quando as tropas do governo invadiram o local. Estava escuro, o que dificultava a visão para fazer pontaria. Mas, com as novas metralhadoras Bergmann, os soldados nem precisavam mirar. Acertaram os alvos com toda a facilidade. No dia seguinte, um vaqueiro, que estava tirando o gado do curral, disse que uns poucos cangaceiros tinham escapado da batalha com as tropas. Alegava ter visto um pequeno grupo – todos usando aquele chapéu característico do cangaço, com as abas dobradas e levantadas, em forma de meia-lua – atravessando, a passo trôpego, a fronteira do estado. Mas os policiais declaravam que todos os bandidos haviam sido mortos a tiros e decapitados, inclusive a Costureira.
Emília leu a última linha do texto e não sentiu a xícara de porcelana lhe escorregar das mãos para se espatifar no chão de ardósia. Não sentiu o líquido quente respingar nos seus tornozelos; não ouviu a sogra soltar uma exclamação, dizendo que ela não tinha modos; não viu a empregada se arrastar debaixo da mesa de mármore para limpar toda aquela sujeira.
Subiu correndo as escadas e foi para o seu quarto – o último, no final do corredor atapetado e cheirando a guardado. Expedito estava lá, sentado na cama de Emília, para a babá pentear seu cabelo molhado. A moça dispensou a empregada. Tirou o menino da cama.
Quando ele se contorceu, tentando se livrar do seu abraço apertado, Emília o soltou. Puxou uma caixa de madeira lustrosa de baixo da cama. Abriu o cordão de ouro que sempre trazia ao pescoço e usou a chavinha de latão que ficava pendurada ali para abrir o fecho da tampa. Dentro da caixa, havia uma bandeja forrada de veludo, praticamente vazia, a não ser pela presença de um anel e um colar de pérolas. Degas tinha comprado o maior porta-joias que encontrou, prometendo-lhe enchê-lo completamente. Emília ergueu a bandeja. Debaixo dela, no espaço destinado a guardar pingentes, tiaras ou pulseiras bem grossas, estava a sua coleção de recortes de jornal, amarrada com uma fita azul. Mais abaixo ainda, havia uma pequena foto emoldurada. Duas meninas, uma ao lado da outra. Ambas de vestido branco. Ambas com um missal nas mãos. Uma delas tinha um largo sorriso no rosto. Seus olhos, porém, não combinavam com a felicidade rígida que a boca expressava. Pareciam ansiosos, na expectativa de algo. A outra tinha se mexido no momento em que a foto foi tirada e estava, portanto, fora de foco. A menos que se olhasse bem de perto, e que fosse alguém que a conhecesse, ficava difícil saber exatamente quem era.
Ao sair de sua terra natal, Taquaritinga, montada a cavalo, Emília trazia nos braços esse retrato de sua primeira comunhão. Ele ficou no seu colo durante toda a viagem no trem sacolejante que a trouxe até o Recife. Na casa dos Coelhos, guardou a foto no porta-joias, o único lugar em que as empregadas da família eram proibidas de mexer.
Ajoelhou-se junto do retrato. O menino a imitou, juntando as mãos diante do peito, como Emília havia lhe ensinado. E ficou olhando para ela. À luz do sol, os olhos dele não eram tão escuros quanto às vezes pareciam – naquele castanho havia uns pontinhos verdes. Emília baixou a cabeça.
Rezou para santa Luzia, padroeira dos olhos, em cuja homenagem sua irmã tinha sido batizada e que era sua protetora. Rezou para Nossa Senhora, a maior guardiã das mulheres. E, mais fervorosamente ainda, rezou para santo Expedito, o padroeiro das causas impossíveis.
Emília havia abandonado várias de suas velhas crenças tolas depois que chegara àquela casa – um lugar onde seu marido não fora seu marido, mas um estranho qualquer que nem lhe importava conhecer; onde as empregadas não eram empregadas, mas espiãs de sua sogra; onde as frutas não eram frutas, mas objetos de madeira, lustrosos e mortos. No entanto, continuava a acreditar nos santos. Acreditava nos seus poderes. Uma vez, santo Expedito trouxera sua irmã de volta da morte. Poderia fazer isso novamente.