Entre irmãs
Capítulo 4
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Luzia
Em plena caatinga, no interior de Pernambuco
Maio-setembro de 1928
1
N o início, ela era apenas uma entre as tantas coisas obtidas nos ataques do bando. Era como a sanfona vermelha de oito baixos; como os anéis de ouro arrancados dos dedos de coronéis desobedientes; como os crucifixos e os relógios de bolso com mostrador de madrepérola retirados das caixas de joias. O Carcará levava um conjunto de barbear dourado, uma garrafinha prateada e um binóculo de latão em um estojo forrado de veludo. Ele e os seus homens gravavam as próprias iniciais em cada objeto de que se apoderavam, enfeitando-os com rebites de metal e tiras de couro, e levavam-nos consigo nas suas andanças pelos trechos mais cerrados daquela vegetação ressecada. Quando penetravam enfim numa cidade, padres e crianças, fazendeiros e coronéis, todos ficavam embasbacados diante da espantosa riqueza dos cangaceiros, e isso bastava para que o peso terrível de carregar todos aqueles tesouros valesse a pena. Nas primeiras semanas intermináveis que passou com o bando, Luzia sentia-se como um daqueles pertences – um tesouro inútil, um fardo extra adquirido num momento de fraqueza e fascinação. E, como acontecia com aqueles binóculos, cigarreiras e inúmeros crucifixos de ouro, que acabavam manchados pelo próprio suor dos homens, enferrujados pelas chuvas de inverno, arranhados e com marcas de balas depois de um ataque qualquer, a moça temia que também ela pudesse se transformar para sempre.
Quando falou com ela no quintal da casa da tia Sofia, o Carcará não gritou. Não ameaçou. Não lhe prometeu qualquer conforto ou garantia. Tudo o que fez foi lhe entregar o uniforme extra que ela própria havia feito para o Baiano, dizendo: “Nunca vi uma mulher como você.” E, naqueles olhos, não havia piedade ou fascínio. Sequer olhou o seu braço aleijado. “Vamos ver o que você decide”, disse ele.
Aquilo era um desafio, não uma proposta. Vamos ver. Luzia pegou o uniforme e entrou em casa, indo direto para o quartinho dos santos. Queria lhes pedir conselho, alguma indicação. O que a fez se decidir não foram os santos, mas o chão. Aquelas marcas côncavas deixadas ali por seus joelhos, por anos e anos de orações e reflexão. Passou os dedos por aquelas marcas como se traçasse o mapa da própria vida. Elas iam ficar cada vez mais profundas com as preces diárias. Haveria seca e chuva. Casamentos e funerais. Todo mês de julho, arrancaria da terra os pés de feijão para empilhá-los na sala. Em agosto, poria tudo no quintal para secar. Em janeiro, viriam os cajus; em abril, os cajás. Emília acabaria indo embora. Tia Sofia morreria, com uma vela nas mãos enrijecidas para iluminar o seu caminho até o céu. E ela continuaria ali, ajoelhando-se no quartinho dos santos para rezar pela alma da tia e pela felicidade da irmã. Esperando. Só não sabia o quê. Não a morte – pois esta já tinha chegado, matando-a pouco a pouco, de forma lenta e furtiva, a cada dia de sua existência solitária –, mas alguma espécie de salvação. Um tantinho de graça que o chão escavado e os santos caprichosos jamais poderiam lhe dar, já que, por mais que rezasse ou acendesse velas, continuaria sendo a Vitrola – a Vitrola aleijada, taciturna – e nada além disso.
Tirou então a mão daquelas marcas no chão e segurou o braço enrijecido. Sentiu alguma coisa amarga brotar dentro de si, como se tivesse comido farinha de mandioca azeda. Passou a mão pelo chão e achou o uniforme de cangaceiro. Com todo o cuidado, vestiu as calças. Era estranho sentir as pernas separadas uma da outra. Andou para lá e para cá na cozinha às escuras. De calças, podia dar passos maiores. Não tinha de se preocupar com saias esvoaçantes ou bainhas arrastando no chão. Sentia-se envolta pelas calças, protegida e, apesar de tudo, livre. Será que era assim que os homens se sentiam?
Esteve a ponto de contar para Emília como era essa sensação, essa liberdade. Desde que vira uma foto numa das suas revistas, ela vinha querendo fazer calças femininas para si mesma. Naquela noite, porém, os seus olhos estavam vidrados e distraídos, os seus gestos eram frenéticos. Tinham mandado que juntasse as coisas da irmã.
Fazer a mala! Ele sequer esperou uma resposta! Luzia sentiu uma onda de raiva e, depois, de medo. Mas já era tarde demais. Estava vestida, a mala, pronta, e o mulato alto a levou até a porta segurando firme o seu braço. Como tia Sofia sempre dizia, não dava para consertar as coisas. O tecido já havia sido cortado.
2
Os homens não tocaram nela. Sequer a fitavam ou lhe dirigiam a palavra. Não contavam piadas nem cantavam como faziam quando estavam na casa do coronel. Simplesmente andavam. Diariamente, avançavam em fila, calados, pelo meio da caatinga, agachando-se e se levantando, curvando-se e se inclinando para evitar plantas espinhosas e galhos emaranhados. Iam a passo cadenciado, cada um deles pondo o pé nas pegadas deixadas pelo que estava à sua frente, dando a impressão de que apenas um homem, e não vinte deles, houvesse cruzado aquelas terras. Um homem e uma mulher, porque Luzia não conseguia acompanhar o ritmo do bando.
Os seus pés estavam cheios de bolhas, nos dedos, no calcanhar, junto das tiras das alpercatas e nas partes mais carnudas das solas. Quando essas bolhas estouravam, as suas sandálias ficavam pegajosas com aquela água e, depois, com sangue. O chão era cheio de cactos cabeças-de-macaco, com aquelas extremidades bulbosas surgindo do solo como homens enterrados até o pescoço. Os espinhos dessas plantas espetavam os tornozelos de Luzia, e as pontas que se quebravam alojavam-se na sua pele. Os seus tornozelos incharam. Os seus pés foram ficando pesados e entorpecidos. Ponta Fina levava um estojo de primeiros socorros com mercuriocromo e gaze. Por ordem do Carcará, pararam para que Ponta tirasse as sandálias da moça e despejasse o líquido vermelho nos seus pés. Quando começou a arder, Luzia cerrou os dentes e fechou os olhos. Tentou mergulhar bem no fundo de si mesma, naquele ponto silencioso de sua mente no qual já se refugiara tantas vezes: quando a encanadeira pôs o braço quebrado no lugar ou quando padre Otto lhe mandava ajoelhar no piso de pedra da igreja e rezar cem pais-nossos, pedindo perdão por alguma coisa que tivesse feito. Só que não conseguia mais atingir esse lugar.
O grupo inteiro tinha parado e vários homens – o sujeito orelhudo em particular – a fitavam, irritados.
– Os meus também ficaram machucados no começo – disse Ponta Fina baixinho, enfaixando os pés da moça com gaze. Uns tufinhos de pelos começavam a brotar do queixo cheio de espinhas do garoto. – Você vai acabar se acostumando – acrescentou.
Luzia assentiu. Fez um esforço para seguir adiante, dando um passo e depois outro. Enquanto caminhavam, os homens prestavam atenção ao rumo que seguiam, e não a ela. O movimento a mantinha a salvo, mas não a tornava invisível. Eles a olhavam, observando-a quando achavam que ela não estava percebendo. Luzia segurou o braço aleijado. A liberdade que sentiu quando vestiu pela primeira vez aquelas calças já não existia. Lá no quartinho dos santos, era só entusiasmo diante da ideia de ir embora. Não pensou no que aconteceria depois. Em Taquaritinga, era imune às preocupações de tia Sofia quanto aos perigos que espreitavam as moças. Nunca achou que corria o risco de perder a sua virtude. Mas essa segurança vinha do fato de ela ser a Vitrola, o que já não era mais verdade. Ali, naquele mato desconhecido, era uma mulher – a única mulher no meio de um bando de homens. E continuou andando.
De noitinha, quando escurecia e ficava mais difícil atravessar a caatinga, o bando parava para acampar. Procuravam juremas, cujas raízes venenosas impedem que outras plantas cresçam ao seu redor. O chão era arenoso, mas nada macio. Estendiam cobertores ali mesmo, pois o Carcará não permitia que usassem redes. Dizia sempre que, numa rede, os homens dormem um sono profundo demais. Aquele solo era pedregoso e desconfortável, o que fazia com que todos dormissem com um olho aberto. Luzia usava a própria manta. Nas primeiras noites, não conseguiu descansar. Mantinha o canivete junto ao peito, pronta para enfiá-lo em qualquer homem que se aproximasse. Nenhum deles se aproximou. Nos dias que se seguiram, quando os seus pés foram ficando cada vez mais cheios de bolhas e em carne viva, a moça mal podia esperar que anoitecesse para poder descansar. No entanto, quando a noite enfim chegava, ela continuava sem conseguir pegar no sono. Sentia um desespero profundo se apoderar do seu corpo, começando na boca do estômago e invadindo o peito todo. Enfiava na boca uma ponta úmida da manta. O tecido secava a sua língua e ela sentia nos dentes o atrito da areia entranhada naquelas fibras. Mas, graças à manta, conseguia abafar os soluços. A sua vida e a sua virtude dependiam da clemência daqueles homens e esta era uma ideia que a moça não podia tolerar. Afinal de contas, a clemência era divina. Aqueles homens, não. Eram grosseiros e sujos. Levavam uma vida baseada apenas em instinto e desejo. A clemência estava além de tais impulsos; exigia moderação, deliberação. Até aquele momento, ninguém ali a tinha tocado, mas nada lhe garantia que as coisas fossem continuar assim. Luzia cerrava os dentes, mordendo o cobertor. Podia sentir os homens à escuta ali no escuro, alertas, deitados nas suas camas de areia. Pela manhã, depois de uma noite de sono irregular, alguns cangaceiros lhe davam um sorriso afetado. A maioria, porém, a ignorava. Ninguém comentava o seu choro.
No começo, não caiu uma gota de chuva na caatinga. As árvores estavam mirradas e cinzentas, como se houvessem pegado fogo. Lagartos de dorso alaranjado eram os únicos animais que apareciam por ali, correndo de uma árvore a outra, fazendo as plantinhas rasteiras estalarem sob as suas patas. Mas ia chover. O cotovelo aleijado de Luzia doía constantemente. Nuvens escuras se acumulavam no horizonte, como uma tampa cinza que pudesse se fechar sobre a terra, deixando-os estorricando naquele ar quente e úmido.
Quando a chuva chegou, caiu em pancadas rápidas e torrenciais. Levou a areia embora, deixou as raízes retorcidas das árvores expostas, transformou o menor dos córregos num verdadeiro rio. Em resposta, a vida despontou por toda a caatinga. Pedúnculos altos e retos como espadas surgiram nos tufos pontiagudos dos agaves. Surgiram folhas por entre os espinhos escuros das juremas. Trepadeiras brotaram da terra. Algumas emaranhadas e pegajosas, outras lustrosas e cheias de espinhos. Iam serpenteando pelo chão, enroscando-se nos arbustos e nos troncos das árvores. Formavam guirlandas nos inúmeros braços do facheiro. Saíam se espalhando pela caatinga, tornando verde aquela mata antes cinzenta.
A chuva trouxe alívio para os seus pés, mas encharcou as perneiras de couro, deixando-as pesadas e negras de mofo. O traje de lonita nunca secava. Ali debaixo, Luzia sentia a própria pele ficando mole e enrugada. Imaginou aquela pele se soltando aos poucos, como a casca de uma fruta já passada. E tinha a impressão de que a chuva havia penetrado também na sua mente, infiltrando-se por ela, como acontecia com a porta da cozinha da casa de tia Sofia, que se encharcava, se deformava e se tornava incapaz de separar o mundo à sua volta. Ouvia o zunido dos mosquitos. Ouvia o chocalhar das cartucheiras dos homens, o tilintar das canecas metálicas batendo no cano das espingardas. O som oco dos cantis esbarrando no punho prateado das facas. Muitas vezes, os vários sons se misturavam, transformando-se num zumbido longo e profundo em seus ouvidos. Tropeçou. O Carcará tentou lhe enfiar um naco de rapadura na boca. Luzia balançou a cabeça, com rispidez. Tinha a saliva espessa como uma pasta. Tentou falar, mas não saiu som algum.
Toda noite, os homens cortavam o xiquexique em rodelas, tiravam os espinhos e, com a lâmina da faca, espremiam as fatias do cacto. Dali saía um suco amarelo. Enchiam a cabaça de Luzia com esse suco, e só com isso. Era um velho truque dos sertanejos – um truque nascido do desespero – que mantinha bichos e gente hidratados mesmo durante as piores secas. O sumo do xiquexique salvava vidas, mas queimava a garganta. Luzia se lembrou das histórias que ouvia em criança: famílias inteiras sobrevivendo apenas graças a essa planta, fazendeiros fazendo bois e cabras engolirem aquilo à força e os animais, ao cabo de uma semana tomando o líquido amargo, abrindo a boca e soltando um bramido rouco e quase sem som. Todos os novos membros do bando do Carcará tinham de tomar o sumo do xiquexique.
– Ele nos ensina a calar – disse o Carcará quando, pela primeira vez, despejou aquele líquido amarelo e espumante no cantil de Luzia. – Um homem calado ouve. Aqui, por essas bandas, quem não ouve não é um homem. É um cadáver.
Talvez o xiquexique funcionasse mesmo; aqueles sujeitos tinham um ouvido aguçadíssimo. Eram capazes de distinguir entre o balido de uma cabra perdida e o de uma ferida. Ficavam desconfiados se ouvissem um galo cocoricar na hora errada ou se sentissem um cheiro de suor que não fosse o deles mesmos. Passavam tanto tempo naqueles ermos que, como as raposas-do-campo, os caititus ou até mesmo as célebres onças-pintadas, percebiam a presença de qualquer elemento estranho.
Luzia descobriu isso na ocasião em que tentou fugir. Nos primeiros dias de viagem, quando ainda se podia ver ao longe a serra de Taquaritinga, ela disse que estava apertada. O bando parou. A moça se embrenhou pela caatinga, sentindo que os cangaceiros a vigiavam. Tinha a mente turva pela falta de comida. O pensamento estava lento e as ideias que lhe ocorriam eram bem triviais, até que, erguendo os olhos, deu com o morro da sua terra. Ele era de um cinza-azulado, como uma sombra, e parecia tão perto... Só quando começou a correr naquela direção se deu conta de que os homens estavam à sua espera, que podiam castigá-la por isso ou até mesmo matá-la por tentar enganá-los. O seu coração batia descompassado. Os pés cheios de bolhas ardiam. Correu ainda mais depressa. O mato rasteiro estalava alto sob os seus pés. Galhos secos lhe arranhavam os braços e o rosto; quanto mais corria, mais altas ficavam as árvores da caatinga. Em pouco tempo, tinham tapado a visão do morro. Luzia ficou desnorteada. Virou-se e saiu cambaleando em meio às árvores e aos arbustos. Não tardou a ouvir passos e os homens a cercaram.
Choveu naquela noite e os cangaceiros armaram as suas toldas, estendendo uns oleados e cavando uns regos ao seu redor com a ponta do facão. Enquanto faziam isso, Ponta Fina ficou tomando conta da moça. Junto dela, os homens ficavam calados e alertas, como se Luzia fosse alguma coisa selvagem que o Carcará houvesse atraído para o seu acampamento e não quisesse afugentar dali.
A cada dia que passava, a moça sentia que aquela vida a estava impregnando. Pela manhã, o Carcará lhe dava uma fatia de carne-seca. Uma penugem de mofo envolvia a carne e, de início, Luzia procurava comer só as partes que não estavam mofadas. Mais tarde, porém, apanhava a fatia das mãos do Carcará e comia tudo. Nas raras ocasiões em que os homens pegavam uma cabra desgarrada e preparavam o animal para comê-lo, Luzia ficava chupando os ossos por um bom tempo, depois de ter devorado a sua parca ração de carne. Quase toda noite, os homens matavam rolinhas com o estilingue ou apanhavam e estripavam uns teiús bem grandes. Depois disso, por dias a fio, Luzia ficava morrendo de vontade de comer a carne rija e branca daqueles lagartos e a sua cauda que estalava. Passava o tempo todo olhando para o chão, louca para capturar um deles com as próprias mãos trêmulas. Às vezes, antes de uma daquelas tonteiras que sentia, julgava ouvir a voz de tia Sofia e aquela voz abafava o canto das últimas cigarras do verão, o coaxar tristonho e contínuo dos sapos-cururus.
“Peguei a sua mãe comendo terra quando estava com você na barriga.”
A tia lhe contara isso havia muito tempo, quando ela ainda era pequena. Na época, Luzia não conseguia imaginar a mãe – aquela mulher bonita do retrato de casamento – comendo terra. No entanto, depois de passar algumas semanas com os cangaceiros, entendeu tudo. À noite, acocorada na borda do cobertor úmido, cavava o chão molhado até encontrar a camada de barro. E comia aquilo aos bocados. Não gostava do sabor metálico do barro, nem dos resíduos espessos e pastosos que ficavam na sua boca. Mas algo sombrio e insistente tinha crescido dentro dela, algo que não podia controlar.
Talvez o Carcará a tenha ouvido cavar o chão. Talvez tenha reparado nos seus dedos alaranjados ou percebido com que dificuldade ela engolia o líquido contido na sua cabaça. O fato é que ele começou a assar rolinhas inteiras para Luzia. Dava-lhe uns bons goles de água do próprio cantil. Luzia sentiu-se tomada por uma onda de gratidão e, depois, de nojo. Trincou os dentes, recusando aqueles presentes. Com toda a calma, o Carcará abria a sua boca com os dedos grossos. Segurava o seu queixo e a obrigava a mastigar. Toda noite, depois de rezarem, mandava Ponta Fina segurar os braços de Luzia e tirava as sandálias da moça. Mergulhava os seus pés numa tigela de chá de quixabeira quente e retirava as ataduras molhadas. Com os polegares, ia pressionando, em círculos, o calcanhar, o arco do pé, o tornozelo. Luzia sentia um formigamento nos pés entorpecidos. O Carcará apertava com mais força. Vinha então uma dor terrível, como se fossem ferroadas de centenas de marimbondos vermelhos. Luzia se contorcia no chão, tentando escapar àquelas mãos. Ponta Fina segurava os seus braços e o Carcará agarrava firme os seus pés.
– Shh – murmurava ele. – Shhhh.
A moça soltava uma exalação longa e entrecortada. Queria livrar o pé, mas o seu corpo se rebelava. Os músculos das suas pernas estavam embotados e enfraquecidos. E o Carcará ficava repetindo aquele murmúrio comprido. Shhh. Shhh. Parecia até um silvo de alerta. Luzia acabava fechando os olhos.
Em criança, tinha ido visitar o sítio do coronel Pereira. Viu um empregado domando as mulas. O sujeito amarrava uma corda no arreio e segurava com toda a força enquanto os animais corcoveavam e escoiceavam, com as costelas saltando por baixo do pelo, a boca espumando. Com a maior calma, o homem persistia e continuava segurando a corda até as mulas caírem no chão, exaustas e famintas. Então, falava com elas em voz branda, acariciando-lhes o focinho e dando-lhes de comer com as próprias mãos. Lá pelas tantas, as mulas se punham de pé e iam atrás dele. As duas irmãs foram embora do sítio impressionadas e furiosas. Emília ficou com ódio daquele homem, e Luzia, das mulas, não por elas acabarem cedendo, mas por terem uma memória tão curta.
Quando surgiu a lua cheia, redonda e branca como as hóstias da comunhão na igreja do padre Otto, Luzia também já tinha esquecido. Não conseguia se lembrar do cheiro de tia Sofia nem das mãos habilidosas de Emília. A sua mente tinha se tornado tão nebulosa e espessa quanto o sumo do cacto que enchia a sua cabaça. Já não havia horas nem minutos. Nem hoje, nem amanhã. Só existiam os passos cuidadosos e os pés pesados, tão vermelhos e esfolados quanto nacos de carne. Só existiam o estômago vazio, a garganta ardendo, a urina dolorosa e de um amarelo-âmbar. Ela não tinha medo nem arrependimentos.
3
Jarra vazia se enche com facilidade, como dizia tia Sofia. Era por isso que mantinha todas as jarras de barro bem cheias, pois se uma delas ficasse vazia, logo viraria abrigo de aranhas, lagartos ou de baratas cascudas que vinham lá das bananeiras. Revendo as primeiras semanas que passou com os cangaceiros, Luzia tinha a impressão de que a sua mente havia sido virada e esvaziada, como uma das jarras de barro da tia. Pouco a pouco, porém, as tonteiras cessaram. A pele dos seus pés tornou-se grossa e amarelada. As suas mãos escureceram ao sol, assumindo a cor do açúcar queimado. A pele do seu rosto e do seu pescoço queimou e descascou tantas vezes que, agora, parecia retesada e áspera quando passava a mão ali. À medida que seu corpo ia sarando, sua mente ia ficando mais aguçada.
Começou a notar a diferença entre os troncos nodosos das canelas-de-velha (que lembravam os dedos de tia Sofia, deformados pela artrite) e a casca macia e amarelada da inajá. Aprendeu a se desviar do cacto cabeça-de-macaco, com aqueles bulbos que mais pareciam almofadas de alfinetes espalhadas por todo o caminho. Aprendeu a distinguir o grito áspero do cancão e o trinado melodioso do gibão-de-couro. Começou também a estudar os homens. Como aconteceu com as plantas e os pássaros, logo cada um daqueles cangaceiros se tornou um indivíduo distinto e conhecido. Enquanto andavam, podia identificá-los pela altura e pelo cabelo que saía por baixo do chapéu. Uns poucos, como o Carcará, tinham o cabelo fino e revolto, com as pontas cor de mel por causa do sol. Os outros, como Ponta Fina, Fala Mansa, Baiano e Orelhinha, tinham-no crespo, variando dos cachos miúdos aos tufos encarapinhados. Quando não estavam andando, todos se ocupavam montando o acampamento, acendendo fogueiras e indo buscar comida. Era apenas durante as orações que ficavam parados tempo suficiente para Luzia poder observá-los.
Diariamente, antes do amanhecer, o bando rezava. Todos se levantavam das mantas e tiravam os bornais de alças largas que traziam a tiracolo. Livravam-se também dos cantis, das cabaças ocas e das pesadas cartucheiras que carregavam até mesmo para dormir. Ajoelhavam-se diante do Carcará e desabotoavam o gibão. Presos à camisa, traziam pedaços do passado: a foto desbotada de uma irmã, uma mecha de cabelo, uma fita vermelha enrolada, um papelzinho úmido. Punham as mãos sobre tais objetos e baixavam a cabeça.
Rezavam, não por suas almas, mas por seus corpos, repetindo a oração do corpo fechado que devia livrá-los das doenças, dos ferimentos e da morte. No fim, cada homem tirava algo do bornal e botava no chão à sua frente. Baiano pegou um relógio de bolso amassado. Ponta Fina, o seu jogo de facas. Sabiá, o melhor cantor do bando, depositou ali a sanfona vermelha. Chico Caixão, que estava ficando careca, tirou do bornal uma cigarreira com as iniciais gravadas. Caju, o de nariz adunco, um saquinho com dentes de ouro. Fala Mansa pôs à sua frente um chicotinho com incrustações de prata no cabo. Orelhinha fez o mesmo com um livro, embora não soubesse ler. Um a um, todos eles, à exceção do Carcará, iam depositando objetos ali no chão. Luzia também inclinava a cabeça, mas não rezava. Aproveitava aquele momento para observar os homens.
Reparou que Ponta Fina roía as unhas. Baiano, o mulato alto, era o segundo homem no comando do grupo. Usava sempre um colar de sementinhas vermelhas preso ao pulso para afastar as cobras. Caju ficava furioso se alguém fazia piadas sobre o seu narigão. Jacaré passava o tempo todo mascando raspa de juá para os dentes ficarem brancos. Chico Caixão tinha mania de dar uns tapinhas no lugar em que estava ficando careca, como se quisesse ter certeza de que a calvície não estava aumentando. Um dia, pela manhã, Luzia ouviu alguns dos homens conversando e ficou sabendo que Meia-Lua tinha ficado cego quando era criança, durante uma brincadeira de cangaceiros versus coronéis. Um espinho de cacto penetrou num dos seus olhos, deixando-o da cor esbranquiçada de um ovo cozido. Fala Mansa, que tinha a pele negra como carvão, ganhou esse apelido por causa da fileira de marquinhas que tinha na bainha da faca, uma para cada mulher casada que havia seduzido. “Raparigas não contam”, dizia ele. Branco, o sardento, era gago. Alfinete de Fralda tinha, bem-escondida por baixo do gibão, uma vasta coleção de santinhos de papel presos com alfinetes na camisa. Jurema tinha uns braços compridos e magros que sacolejavam freneticamente quando ele tocava a sanfona de Sabiá. Coral morria de medo de engasgar, o que o fazia mastigar a comida mil vezes antes de engoli-la. Tatu tinha uma barriga enorme. Furão tinha dedos longos e habilidosos. Surubim era o único do bando que sabia nadar. Todo dia, Inteligente ficava atrapalhado com as alças do bornal e Canjica, o velho cozinheiro do grupo, ia ajudá-lo com a maior paciência. Vaidoso tinha uns olhinhos miúdos, como os de um porco, e vários dentes faltando, mas, à noite, limpava meticulosamente o uniforme, esfregava bem as moedas costuradas na aba do chapéu e lustrava as alpercatas. E Orelhinha se calava, numa atitude petulante, sempre que o chefe pedia um conselho ao Baiano e não a ele.
O Carcará se ajoelhava no centro do círculo de oração. Não tirava os olhos do chão e dizia as preces lentamente, pronunciando as palavras mais longas sílaba por sílaba, como se as houvesse decorado, mas não soubesse exatamente o que significavam.
– Amado Senhor – principiava ele, com aquela voz profunda e firme. – Que foi enviado do seio de Deus para absolver os nossos pecados, concedei-nos a vossa graça e o vosso perdão. Afastai a fúria dos nossos inimigos e acolhei a nós, vossos filhos, em vossos braços misericordiosos.
Mantinha as mãos postas, bem apertadas. As unhas, curtas, tinham uma bordinha branca. Diariamente, pela manhã, ele as esfregava com uma escovinha de cerdas duras. À noite, geralmente se sentava sozinho, afastado da fogueira, e ficava olhando fixo para a escuridão da caatinga. Erguia o nariz e respirava fundo, com um ar concentrado, como se farejando um cheiro qualquer. Certas noites, conversava com Baiano. Luzia não conseguia ouvir o que diziam. Só via um cigarro de palha meticulosamente enrolado balançando entre os seus lábios grossos e retorcidos. Quando acabava de fumar, esfregava o rosto vigorosamente, parecendo até que tentava trazer de volta à vida o lado deformado.
Durante o dia, Luzia e os homens iam atrás dele, seguindo os seus passos lépidos. Ele mantinha os olhos no chão, à procura de cobras. Guiava o bando por entre o emaranhado de espinhos e árvores, parecendo reconhecer cada formação rochosa, cada tronco escuro de pau-preto, cada morro, cada açude. No meio do mato, as coisas mais banais – encontrar uma fonte de água fresca escondida entre duas pedras ou um umbuzeiro dando sombra e com aquelas raízes grossas que se podem arrancar e chupar para enganar a sede – tornam-se verdadeiros milagres. O Carcará sempre achava essas preciosidades. Essa regularidade fazia com que as suas descobertas parecessem mais que mera sorte. Era algo maior, mais significativo, como dádivas vindas de uma mão protetora.
Havia noites em que ele não deixava ninguém acender o fogo ou fumar um cigarro. Outras noites, acordava todos eles e mandava que levantassem acampamento. Fossem quais fossem os seus caprichos, os homens simplesmente obedeciam. Para eles, o Carcará era o instrutor sempre calado, que apanhava folhas e tirava lascas da casca de árvores para lhes ensinar onde estava o veneno e onde estava a cura. Mostrava-lhes como fazer chás, pastas e cataplasmas para tratar uma dor de dentes, uma úlcera, uma dor de cabeça ou um ferimento. Era o pai severo, que não admitia descuidos. Do mesmo jeito que sabia onde estava o caminho ali no meio do mato, sabia como agradar cada um dos seus homens ou como humilhá-los. Uma vez, cortou o lenço de seda de Ponta Fina porque o garoto não enterrou direito os restos de comida e, quando olharam para trás, viram urubus voando em círculo sobre o local onde haviam acampado, denunciando a sua presença por ali. O Carcará era um irmão, afagando o cabelo de Ponta Fina, dando tapinhas no ombro de Inteligente ou batendo palmas, animado, quando Sabiá cantava uma das suas baladas tristonhas. E, acima de tudo, ele era seu padre sempre disponível, o conselheiro que os tratava, não como escravos ou malfeitores, mas como homens.
Luzia não gostava nada daqueles seus estranhos caprichos. Não havia qualquer lógica quando mandava que todos se calassem. Simplesmente inclinava a cabeça na direção de algum som imperceptível e fazia um gesto com as mãos. “Não respirem”, dizia baixinho, num sussurro severo. “Não andem tão pesado assim”, ralhava, fazendo a moça se sentir uma criança travessa. “Não arrastem os pés.”
Quando o Carcará se dirigia a ela, Luzia sentia um calor intenso, como se tivesse engolido um punhado de pimentas-malagueta. Aquela sensação a dominava cada vez que ele a observava costurar. A moça se atrapalhava toda com os pontos e, se tentava falar, gaguejava e se confundia. E ela o odiava por isso. Sempre que o Carcará falava ou recitava as orações, Luzia se obrigava a prestar atenção em partes dele e não no conjunto, para evitar aquele nervosismo. Fitava os seus pulsos, tão estreitos e afilados em comparação com aquelas mãos maciças. Dali saía uma veia azulada, por baixo da pele, que ia desaparecer na manga do gibão. Fitava as suas orelhas, morenas e abauladas, como sementes de tamboril. Fitava cada uma das suas unhas quadradas e com uma borda branca.
– Se os nossos inimigos nos encontrarem – dizia o Carcará, prosseguindo com as orações –, terão olhos, mas não conseguirão nos ver. Terão orelhas, mas não conseguirão nos ouvir. Terão bocas, mas não conseguirão falar conosco. Redentor amado, armai-nos com as armas de são Jorge. Protegei-nos com a espada de Abraão. Alimentai-nos com o leite da Virgem Nossa Mãe. Escondei-nos na arca de Noé. Fechai o nosso corpo com as chaves de são Pedro, para que ninguém seja capaz de nos ferir, de nos matar ou de tirar o sangue das nossas veias. Amém.
Luzia passara a vida inteira indo à missa e jamais ouvira o padre Otto dizer orações como essas. Mas o padre nunca tinha se ajoelhado diante deles daquele jeito. Nunca tinha usado aquele tom de voz profundo e tristonho, rezando com tamanho fervor que chegasse a deixar sua voz embargada. Quando isso acontecia, o Carcará parecia frágil, confuso. O que provava que ele era um homem como outro qualquer, e isso era um consolo.
– Amém – murmuravam os cangaceiros.
Desfaziam a postura de oração e erguiam a cabeça. Um a um, iam se inclinando e cuspiam nos objetos dispostos à sua frente.
Luzia sempre se chocava ao vê-los pigarrear. Eles contraíam os lábios e davam uma cusparada rápida e certeira. Fitavam-na, constrangidos. Talvez o seu rosto revelasse a desaprovação. Os objetos diante deles eram coisas inertes e inocentes aos olhos da moça, o que dava àquela cusparada uma violência calculada e desnecessária. Depois, cada qual limpava o que tinha posto ali no chão e voltava a enfurná-lo no bornal, sem encará-la.
Luzia também levava dois bornais de lona. Poucos dias depois de terem deixado Taquaritinga, os homens esvaziaram a sua velha maleta. Puseram dentro dela o lixo que sobrara do acampamento – pó de café já usado, talos de maxixe, uma latinha de brilhantina vazia – e a enterraram. Depois, inspecionaram o que Emília tinha separado para a irmã, balançando a cabeça diante do vestido velho, da meada de linhas de bordado, da almofada de alfinetes, das calcinhas rasgadas. Riram ao ver o canivete, mas o Carcará mandou que o devolvessem à moça. De início, ela ficou espantada, mas, quando ele lhe entregou de volta o canivete, aquela coisinha lhe pareceu miúda e patética, e ela teve certeza de que aquele gesto não fora pura delicadeza. O Carcará quis lhe mostrar, e também aos seus homens, como ela era impotente. Mesmo armada, não representava nenhuma ameaça. Alguns dos cangaceiros, porém, não concordavam com isso. Viam Luzia não como um perigo físico, mas como algo muito mais profundo.
Um dia, quando estavam armando o acampamento, ela ouviu Meia-Lua murmurar:
– Mulheres são azar na certa!
E muitos dos homens concordaram, até que Baiano os mandou calar.
Todos toleravam a presença de Luzia, mas não gostavam nada daquilo. Ela também usava uniforme, carregava bornais e bebia o suco amargo do xiquexique, como qualquer outro durante o período de iniciação, mas não era um deles. Muitas vezes, a moça deu com os olhos de um cangaceiro pregados nela, estudando-a exatamente como ela fazia com eles durante as orações. Mas naqueles rostos não havia curiosidade ou simpatia. Só preocupação e expectativa, como se todos estivessem esperando que ela enfim revelasse o seu verdadeiro propósito. A moça não entendia esses olhares, até que o menino cangaceiro lhe explicou o que estava acontecendo.
Além do Carcará, Ponta Fina era o único que falava com ela. E já que a garganta em fogo lhe impedia de fazer qualquer pergunta ou de discordar dele, só lhe restava ouvir e assentir. Por causa da sua idade, os homens estavam sempre implicando com Ponta Fina ou lhe dando ordens, aos gritos. Era raro terem paciência para conversar com ele. Em Luzia, o menino encontrou uma ouvinte e uma aprendiz atenta. Ensinou-lhe a tirar a pele dos mocós de carinha simpática e a raspar as escamas dos teiús. Às vezes, falava dos outros cangaceiros, dando vazão às suas frustrações. Um dia, ficou especulando sobre a presença da moça ali no bando.
– O capitão viu você nas suas orações – sussurrou o menino. – Disse que tínhamos de trazê-la conosco. Para dar sorte. Para alguma coisa você deve servir. Todo mundo por aqui fica se perguntando em que você vai ajudar. Já fizeram até apostas, sabe? – acrescentou ele, sorrindo e mostrando os dentes escurecidos. – Tem uns que dizem que você não vai ajudar em nada, mas não diriam isso ao capitão. Eu acho que tem alguma coisa a ver com o seu nome, como o da santa. O Baiano disse que você talvez melhore a nossa visão. Nos mostre um novo caminho.
Luzia assentiu. Naquela noite, ficou menstruada e descobriu nova serventia para o vestido velho que Emília pusera em sua mala. Com o canivete, cortou o tecido em pedacinhos. Guardou as penas da rolinha que os homens tinham capturado e, quando escureceu, costurou punhados delas entre os retalhos do vestido. Depois, pegou as suas criações e se afastou do acampamento, embrenhando-se no mato. Os cangaceiros não lhe fizeram perguntas nem a seguiram. Tinham visto quando ela cortou o pano e pareciam pressentir que o que ela ia fazer lá no mato era alguma coisa misteriosa, feminina, que preferiam ignorar.
Atenta à presença de cobras ou escorpiões, Luzia se agachou e, mais que depressa, pôs um daqueles rolinhos de penas entre as pernas. Mais tarde, ao sentir o rolinho encharcado de sangue, voltou para o mato e o enterrou por lá. “Bendita sois vós, entre as mulheres”, rezou ela enquanto cavava. “E bendito é o fruto do vosso ventre.” Rezou para a Virgem porque compreendeu o que significava ser motivo de dúvidas para alguns homens e representar um talismã para outros. Quando Ponta Fina lhe falou dos motivos do Carcará, Luzia ficou confusa e desapontada. Nos primeiros dias que passou com o bando, teve medo, mas também orgulho por acreditar que ele a tinha levado como um troféu, que vira nela algo de valioso. Acabou descobrindo que não passava de um amuleto, exatamente como aquelas medalhas, os papeizinhos com orações, o cristal de rocha; que o seu valor era como a sorte, algo medido em termos de capricho e de fé.
4
Um dia, pararam para acampar mais cedo que de costume. Uma cabra desgarrada estava vagando ali por perto. Chico Caixão ouviu o chocalho que o animal trazia no pescoço e se meteu mato adentro. Minutos depois, reapareceu segurando pelos chifres a cabra que balia. Os cangaceiros interromperam a marcha para comemorar aquele achado.
Enquanto os homens armavam as toldas e Canjica preparava a fogueira, Luzia foi se sentar numa pedra, com o sol lhe batendo nas costas. Tinham escolhido um ponto entre um açude e um punhado de pedregulhos bem grandes. Uma dessas pedras tinha se fendido no meio. Da abertura, brotavam urtigas. Beija-flores tinham feito ninho na folhagem das plantas, sem se incomodar com os pelos que espetam. Os passarinhos perseguiam-se uns aos outros, zumbindo por entre as falhas das rochas. Às vezes, ficavam como que parados no ar bem perto de Luzia, com as asas batendo a toda e o corpo cor de esmeralda imóvel, parecendo até uma joia suspensa ali à sua frente.
A moça endireitou os ombros. Já tinha se desvencilhado dos seus pertences, mas continuava toda encurvada, como se o peso daquilo tudo ainda estivesse nas suas costas. Pôs o bornal no colo e enfiou uma agulha com linha de bordar no tecido grosso. Ainda bem que a irmã tinha feito a sua mala daquele jeito tão esquisito. A tira do bornal tinha um palmo de largura e sete de comprimento, e Luzia já a tinha bordado inteirinha. Nas bordas, tinha dado pontos de laçada e, pela parte interna, distribuiu cruzes de são Jorge e várias flores-de-lis em ponto de cruz, como se aquela sacola esmolambada fosse uma das toalhas de mesa tão elegantes de dona Conceição. Costurar era algo que a acalmava. Os pontos eram confiáveis e familiares. Cada um tinha o seu próprio método – a posição da agulha, o percurso da linha –, que nunca mudava.
A poucos metros dali, a cabra continuava berrando. Inteligente – o sujeito mais forte de todo o bando – lhe deu uma cacetada na cabeça com a coronha da espingarda. Atordoado, o bicho se calou. Orelhinha montou nele. Segurou a cabeça do animal e, com um golpe certeiro, lhe furou o pescoço. Uma poça escura se formou aos pés do cangaceiro. Luzia desviou os olhos. Concentrou-se no bordado até que Ponta Fina veio chamá-la.
– Venha – disse o menino brincando com a bainha da faca. – Temos de limpar a cabra.
Ele falava sem encará-la, mantendo os olhos baixos ou fixos em algum ponto a distância. Luzia largou o bordado e acompanhou Ponta Fina até o açude. Inteligente tinha pendurado a cabra de cabeça para baixo num umbuzeiro de galhos grossos. As tetas secas do animal pendiam frouxas em sua barriga. O pelo branco da cabeça e do pescoço estava rosado. Ponta pegou uma de suas facas e começou a cortar uns círculos ao redor dos tornozelos da cabra. Bem devagar, foi dando uns talhos pelos flancos do animal. Depois, enfiou a ponta da faca naqueles cortes, movendo-a entre a carne e a pele, como se estivesse descascando uma fruta. Quando acabou, o que pendia da árvore era um corpo rosa, cheio de músculos.
– Entendeu por que me chamam Ponta Fina? – perguntou ele, sorrindo e exibindo a faca.
Luzia deu de ombros. A cabra tinha os dentes trincados, como se estivesse com frio sem a pele. Pôs então uma das maiores vasilhas de Canjica debaixo do animal.
– O meu pai era açougueiro – prosseguiu Ponta. – O melhor açougueiro deste lado do São Francisco – acrescentou, fitando a lâmina da faca e passando o dedo na borda recurvada. – Isso aqui é uma lambedeira. É para tirar a pele e fatiar.
Luzia assentiu. Ponta enfiou a faca com ambas as mãos na barriga da cabra. Jogou todo o peso do corpo nas costelas do animal e afastou-as com cuidado para que as extremidades não o cortassem. Dali de dentro, veio uma lufada de calor, parecendo até o bafo de alguém com mau hálito. O menino recuou. Os intestinos escorregaram, enroscados como cobras desbotadas, e foram cair na tigela.
Ponta limpou as mãos. Foi pegando então as outras facas, uma por uma. Mostrou-lhe o facão, com a lâmina larga e chata, usado para cortar mato e abrir trilhas. Mostrou-lhe também uma faca de lâmina curta e afiada que servia para escamar peixes e sangrar animais. Havia ainda a pajeuzeira, uma faca comprida e reta, de ponta arredondada, que parecia absolutamente inofensiva comparada às demais. Segundo o menino, aquela era uma faca de curandeiro, usada para cortar cascas e raízes. A última delas tinha a lâmina comprida e reluzente, e todos os cangaceiros a ostentavam bem na frente do cinturão. Não era uma faca, mas um punhal, um espeto metálico pontiagudo.
– O meu só tem 50 centímetros – disse Ponta, suspirando. – O do capitão tem 70! Quer segurá-lo? – indagou, equilibrando a arma nas palmas das mãos.
Luzia assentiu. Ponta segurou a arma pelo cabo e pôs a lâmina nas mãos espalmadas da moça. Era pesada e fria.
– Ela entra fácil, fácil – sussurrou o garoto, como se estivesse lhe revelando um segredo. – É mais uma bala que uma faca.
Meia-Lua apareceu. À luz mortiça do crepúsculo, o seu olho vazado adquiria um tom azulado. Ponta Fina apressou-se em guardar o punhal.
– Depressa! Vá limpar a cabra! – exclamou o outro. – Estamos com fome!
Iam fazer uma buchada: fervem-se os intestinos e as vísceras, pica-se tudo em pedacinhos bem temperados para rechear o estômago do animal e, depois, volta-se a cozinhar. Ponta desamarrou a cabra e a levou até uma pedra mais chata para cortá-la. Luzia levou a tigela cheia até o açude que, com as chuvas de inverno, estava largo e profundo. Ramos de árvores passavam boiando naquelas águas barrentas. Ela se agachou na borda, lavou as entranhas do animal uma por uma, virando os intestinos pelo avesso com um pauzinho, como se estivesse costurando com uma agulha enorme. Esfregou bem o estômago, que parecia até uma colmeia, e a goela branca de textura borrachenta.
O Carcará apareceu um pouco mais abaixo, acompanhado por metade do bando. A alguns metros de distância uns dos outros, todos se ajoelharam na beira do açude. Tiraram o chapéu e o gibão. Depois, tiraram a camisa pela cabeça. O Carcará esfregou bem as mãos e jogou água no rosto. O seu torso era largo e esbelto. Jogou um bom punhado de água na cabeça. A cada movimento que fazia, Luzia podia ver os seus músculos se movendo debaixo da pele morena. Era como se o calor inclemente da caatinga eliminasse qualquer excesso daquele corpo. O Carcará ergueu os olhos. Mais que depressa, a moça tratou de enfiar as entranhas do animal na vasilha e se afastou do açude.