Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 8 de 20 · parte 1/3

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Entre irmãs

Capítulo 6

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Luzia

 

Em plena caatinga, no interior de Pernambuco

Vale do São Francisco, Bahia

Dezembro de 1928-novembro de 1929

 

1

 

S ob a agulha da Singer iam surgindo as pontas rosadas das macambiras. De um lado a outro da frente dos bornais e da aba dobrada dos chapéus dos homens do bando, Luzia aplicava grandes círculos que lembravam os cactos coroas-de-frade. Bordava ainda espirais alaranjadas como a casca escamosa da imburana. Nem pensava mais naquelas rosas e borboletas idiotas das toalhas de mesa ou de banho de dona Conceição. Agora, a caatinga era a sua fonte de inspiração.

Naquele emaranhado de vegetação acinzentada, qualquer ponto colorido surpreendia. Luzia apanhava as carapaças de besouros mortos que pendiam, douradas e translúcidas, dos galhos das árvores. Admirava os bagos amarelos do juá antes de transformá-los numa polpa espumosa que usava para lavar o cabelo. E, quando ouvia os trinados agudos do periquito-da-caatinga, que rompiam o silêncio abafado das tardes como vidro se quebrando em pleno ar, ficava olhando para cima até conseguir avistar as suas asas verdes. Não conseguia ver os pássaros, só os contornos esfumaçados que pareciam até uma mancha de cor no céu. Forçava a vista para vislumbrar árvores ou morros a distância. Estreitava os olhos para que as coisas ficassem claras, e não nebulosas e indistintas. Aos poucos, começou a ignorar tudo o que estivesse ao longe. Tinha a vista boa o bastante para ler os jornais que o Carcará lhe dava e distinguir os pontos das costuras. Não precisava enxergar o que ficava distante, apenas o que estava à sua frente.

Os cangaceiros apreciavam o seu trabalho. Quando o bando invadia uma cidade, todos saíam à cata de pano e linha. Remexiam nos depósitos empoeirados, atacavam os quartinhos de costura das mulheres. Depois, vinham dar de presente a Luzia o que tinham conseguido. A única coisa que ela não aceitava eram fitas métricas. Só usava a sua própria, aquela que Emília tinha posto na sua mala, porque ela mesma a tinha feito e tinha certeza de que as medidas eram exatas. “Nunca confie em uma fita estranha”, dizia aos homens, reproduzindo as recomendações de tia Sofia.

Só gente de posses – coronéis, comerciantes, políticos – possuía tesouros ricamente bordados ou com aplicações. Agora os cangaceiros também tinham. E, como acontecia com tudo a que davam valor, queriam mais. Pediam a Luzia que enfeitasse as suas cartucheiras, fizesse capas para as cabaças e os cantis, bordasse as suas iniciais nas luvas de vaqueiro de couro. Até Orelhinha e Meia-Lua acabaram se chegando para que a moça enfeitasse os seus pertences. Com isso, o bando, a princípio desconfiado de sua presença entre eles, se convenceu de que a predição do Carcará tinha se confirmado em parte: Luzia ainda não tinha lhes trazido sorte ou azar, mas já demonstrara que tinha serventia ali.

De tardinha, lá estava ela passando um bornal desbotado pela agulha da máquina. Era Ponta Fina que girava a manivela, todo prosa. O resto do bando ficava só olhando. Os pontos mais delicados ela fazia à mão, mas usava a máquina para as aplicações de tecido – todas meticulosamente recortadas em forma de minúsculos triângulos, losangos, meias-luas e círculos – nas bolsas e nas capas dos cantis. A máquina tinha transformado a costura numa habilidade aceitável, numa atividade útil. Os homens não mexiam com rendas ou bastidores, mas eram capazes de fazer uma máquina funcionar. Em meio ao ruído da Singer, os cangaceiros a crivavam de perguntas e ficavam admirando o seu trabalho. Alguns até experimentaram usar a máquina, só que não tinham a mínima paciência. Luzia lhes dava um pano para treinar, mas eles o passavam depressa demais pela agulha ou deixavam a linha embolar e formar nós. Queriam que o jeito para a coisa surgisse assim, de uma hora para outra. A moça ficava balançando a cabeça.

– Vocês têm que prestar atenção em cada ponto – dizia ela, pegando os seus bastidores de bordado e fazendo os homens costurarem à mão.

Cada ponto por si só é um desenho. Cada um deles é o seu próprio ponto de partida, o seu próprio fim, a sua própria extensão, a sua própria tensão. Um bom alfaiate – afinal, não ousaria chamá-los de “costureiros” – é capaz de ler os pontos como se fossem as letras de um alfabeto. Luzia disse isso aos cangaceiros, mas, ao reparar em seus olhares perdidos, resolveu refrasear. “Um bom alfaiate é como um bom vaqueiro: sabe identificar os pontos como identifica cada cabeça de gado num rebanho.”

O processo exigia memorização, e os homens tinham péssima memória. Rebatizaram os pontos para conseguir decorar seus nomes. O ponto atrás virou Baiano porque era consistente, sem rodeios e usado sempre que se queria uma costura limpa. O nozinho francês passou a ser chamado de Vaidoso porque, quando se enrola a linha na agulha, o ponto parece elegante e complicado, mas o resultado fica sempre aquém das expectativas: só uns calombinhos meio desiguais no tecido. Inteligente e Canjica foram os nomes dados ao ponto cheio e ao seu contorno. Afinal, esse ponto é usado para tapar buracos e pode sair embolado e torto sem os contornos para servir de guia e de limite. Orelhinha, para a grande satisfação de Ponta Fina, era o ponto espinho: um simples fio de linha preso por pares de pontos que se cruzam em parte. Cada técnica nova que Luzia lhes ensinava era identificada com um dos homens.

– E o capitão? – perguntou Ponta. – O que ele seria?

– Sei lá – respondeu Luzia, concentrando-se na Singer. – Deve ser algum ponto que não conheço.

Mentira. Ele era o primeiro ponto que lhe ocorreu quando os homens do bando começaram com aquela brincadeira: o ponto sombra. Algo que não parece um ponto, mas um bloco de cor que surge por baixo da trama de um tecido. É feito no avesso de um pano praticamente transparente, um linho bem fino ou um crepe leve. Pelo direito, é impossível saber como o efeito foi criado ou que ponto foi usado. Quem olha sabe que há algo por trás do tecido, mas não sabe o quê. O efeito é lindo e desconcertante. O ponto sombra engana: tanto pode ser a marca de uma grande bordadeira como um jeito que as bordadeiras medíocres encontram para disfarçar os seus erros. Sempre que via esse ponto, Luzia detestava virar o pano pelo avesso. Ali, do outro lado, os pontos podiam estar bem firmes e certinhos ou serem apenas um amontoado de nós desajeitados.

Mas não podia revelar isso ao bando, embora todos ficassem insistindo, caçoando dela quando se mostrou irritada e impaciente. Não era por mal que faziam aquilo; os cangaceiros viviam implicando uns com os outros e o fato de a incluírem nas brincadeiras reforçava o lugar da moça como membro do bando. Alguns deles – Orelhinha, Meia-Lua e Caju – ainda tinham uma certa desconfiança com relação a ela, mas os demais se tornaram brincalhões e descontraídos. Agiam como se ela fosse uma prima meio moleca que conhecessem desde criança – como se tivessem botado sapos na sua cama, a ensinado a jogar dominó e tentado, em vão, chocá-la com as suas conversas. Depois de semanas no meio do mato, sem entrar em nenhuma aldeia ou cidade, os homens ficavam obscenos e inquietos. Começavam a falar das suas conquistas passadas e a pensar em novas.

Luzia continuava costurando em silêncio, fingindo não ouvir nada. Os cangaceiros falavam do gosto salgado e cheiroso do suor das mulheres. Do quanto gostavam de sentir o hálito quente das garotas no pescoço quando estavam dançando forró. Diziam que, ao ser beijada, uma moça nervosa ficava com a boca seca, mas, pouco depois, sua boca já estava novamente úmida e quente. Luzia ouvia, fascinada com todo aquele conhecimento dos cangaceiros. Eles falavam de cheiros, corpos, cabelos e maciez. Revelavam a mesma competência técnica e intensa que demonstravam ao falar das armas, porém, com mais admiração na voz. Mais reverência.

Luzia costumava olhar para o Carcará nessas horas. Ele nunca participava dessas conversas; em geral, nem prestava atenção ao que os homens estavam dizendo, preferindo traçar os planos para o dia seguinte junto com Baiano. Em certas ocasiões, porém, ele se recostava ali perto e ficava ouvindo, sorrindo das observações dos seus homens como se concordasse com elas. A moça então costurava mais depressa, enfiando a agulha com força no tecido encorpado. Ela também era mulher, disso tinha certeza. Mas será que algum homem um dia falaria do seu cabelo, do seu hálito, do seu beijo? Não tinha qualquer semelhança com aquelas criaturas cheirosas e solícitas que os cangaceiros cortejavam nas cidades – garotas trêmulas de medo e de curiosidade, algumas lhes oferecendo bolo de macaxeira ainda quente em bandejas, outras dançando e virando o rosto todas coquetes quando eles tentavam beijá-las durante uma música. No início, os homens dançavam bem empertigados, mas, lá pelo meio da festa, os casais iam se aproximando, os seus quadris se remexiam colados, os seus pés deslizavam tão depressa no chão de terra que Ponta Fina tinha de ficar jogando água para que a poeira não subisse e lhes entrasse nos olhos. No fim da noite, era comum os pares desaparecerem juntos. Luzia voltava para o acampamento com Ponta Fina e alguns outros cangaceiros que já tinham tido sua cota de diversão. O Carcará nunca dançava, mas, numas raras ocasiões, também desaparecia. Eram noites desconfortáveis para Luzia, sem conseguir pegar no sono em sua manta. O fato de ele arranjar uma mulher por uma noite a deixava com raiva, mas, estranhamente, também a tranquilizava. O Carcará não era celibatário nem santo, e sim um homem com as suas fraquezas e as suas necessidades, como os outros membros do bando.

Luzia tinha aprendido a controlar sua falta de jeito e a falar mais devagar quando se dirigia ao Carcará. Se ele chegava perto demais, continuava sentindo um calor terrível que lhe subia pelo peito e corava sua face. Tentou eliminá-lo, contê-lo. Tentou ser um membro invisível do bando e não pensar no futuro ou no passado. Não havia tempo para devaneios. O Carcará tinha enfeitiçado aqueles homens, mas a moça decidiu que não se deixaria enfeitiçar. Ele era temperamental, impaciente, quase sempre vaidoso. Mesmo assim, não era fácil ficar imune àquela confiança. Na caatinga, nada era garantido – nem a chuva, nem a comida, nem a própria vida. Mas o Carcará nunca hesitava, nunca recuava, nunca perdia a fé. Era muito hábil com as facas e várias vezes ajudava Ponta Fina a esfolar o que iam jantar. Era um professor paciente. Um excelente atirador. Parecia não existir nada que ele não fosse capaz de fazer. Portanto, quando chamava alguém para pedir ajuda ou conselhos, fazia essa pessoa se sentir especial e necessária. Fazia isso com Luzia. A moça tentou ignorá-lo, mas ter toda a sua atenção, aqueles olhos pregados nela como se fosse a única pessoa ali no meio do mato, era emocionante.

– Leia para mim – pedia-lhe o Carcará diversas vezes, entregando-lhe um exemplar surrado de jornal que tinha conseguido comprar de um comerciante ou ganhar de um repentista itinerante.

Jornais eram coisa rara. Fora da capital ou das cidades grandes do interior, pouca gente sabia ler. O Carcará sempre dizia que os seus olhos doíam quando ele tentava ler aquela letrinha miúda dos artigos. Luzia se perguntava se era verdade ou se ele não sabia ler direito. O cangaceiro lia diariamente, em voz alta, a sua série de orações, mas talvez fosse como tia Sofia, esperto o bastante para fingir que estava lendo quando tinha decorado tudo de tanto repetir.

O Semanário de Caruaru, um tabloide minguado impresso no interior, trouxe artigos e mais artigos sobre o ataque a Fidalga e a reação do coronel Machado. Ao voltar à cidade e encontrar os seus capangas mortos e o filho humilhado, o coronel viajou para a capital. Usou de toda a sua influência para pedir tropas ao governador. As eleições estavam marcadas para janeiro de 1930, mas a campanha já tinha começado. A Brigada 1761, comandada pelo jovem capitão Higino Ribeiro, chegou a Caruaru de trem e foi recebida com estardalhaço. Usavam um novo uniforme, verde com uma faixa amarela nas laterais. O coronel local distribuiu flores que a população deveria lançar sobre os soldados quando desembarcassem. Dali, partiriam para percorrer a caatinga durante semanas e tentar descobrir o paradeiro do Carcará.

– E o jornal de verdade? – perguntou ele depois que Luzia terminou de ler o Semanário. O Diário de Pernambuco era o jornal grosso impresso na capital.

Ali, havia apenas uma notinha sobre o deslocamento das tropas, na página onze, comprimida entre o obituário e um anúncio de tônico capilar. As primeiras páginas estavam repletas de notícias relativas à próxima eleição presidencial. Um sujeito baixinho, de nariz adunco, vindo lá do Sul dominava todas as páginas iniciais.

– Vargas? – grunhiu o Carcará. – Quem é esse tal de Getúlio Vargas? O que foi que ele fez para sair todo santo dia na primeira página?

Luzia começou a ler os artigos em voz alta, bem devagar, enfatizando cada palavra. Vargas concorreria à presidência pelo novo partido, a Aliança Liberal. Para surpresa geral, o seu companheiro de chapa era um homem do Norte, chamado João Pessoa. Mas, antes de ela terminar, o cangaceiro já tinha acendido um cigarro e se afastado.

Luzia continuou lendo. Gostava daquelas imagens de mau gosto dos anúncios de cinema, com mulheres de cabelo curto nos braços de indivíduos galantes. Gostava dos relatos de bondes extraviados e cavalos desaparecidos. Tudo isso lembrava Emília e o amor de sua irmã por essas coisas. Pensava nela com frequência. Tentava lembrar do cheiro daquele sabonete de lavanda, do toque das suas mãos fortes. Perguntava-se se ela teria fugido com o professor Célio. Caso tivesse, rezava para que ele não maltratasse a sua irmã. Ficava sempre preocupada pensando no que Emília teria de aguentar para realizar os seus sonhos de ter uma casa bonita e uma cozinha ladrilhada.

Certa tarde, as suas preocupações aumentaram. O último jornal que os homens tinham trazido, um exemplar do Diário de Pernambuco comprado de um tropeiro de mulas, era de alguns meses atrás e fedia a estrume. Na coluna social, havia o anúncio de um casamento. Srta. Emília dos Santos, era o que se lia naquelas letrinhas miúdas. Srta. Emília dos Santos. Luzia leu e releu o tal anúncio. Dos Santos era um sobrenome comum. Emília também não era raro. E Toritama não era Taquaritinga. Mesmo assim, a moça recortou a nota e a enfiou no bornal.

O bando rumava mais para o interior. O Carcará insistia em afirmar que não era para fugir das tropas, mas para seguir as chuvas. O estado de Pernambuco é comprido e estreito. A estação chuvosa começa no litoral, por volta do mês de maio, e vai se movendo devagar rumo ao oeste, atingindo a extremidade do estado em janeiro. Naquele ano, as chuvas foram diminuindo de intensidade à medida que avançavam para o interior, como se as nuvens tivessem ficado exaustas de tanto viajar. As folhas miúdas e lustrosas que brotavam nas árvores da caatinga não tinham nem tempo de se desenvolver. Os córregos se transformaram em simples filetes de água. As trepadeiras mirraram e Luzia achou que estivessem todas mortas. Mas estava enganada. A caatinga, segundo lhe disse o Carcará, gostava de pregar peças às pessoas que a olhavam. Por fora, as plantas ficavam cinzentas e sem vida. Mas quando ele arrancou um raminho de um angico, a moça viu que a árvore permanecia verde por baixo da casca cinza. Viva. Encoberta por um véu de espinhos e por uma pele espessa e impenetrável.

Luzia invejou aquelas intrépidas plantas da caatinga. Quando caminhava, mesmo de manhã bem cedo, sentia-se como se estivesse dentro de um forno. O suor evaporava do seu corpo antes de começar a escorrer. As perneiras de couro, o chapéu e a alça da cabaça endureciam e se rachavam ao sol. Todo dia, na hora do sol a pino, os homens paravam e procuravam uma sombra. O calor deixava todos mais lentos e calados. Mais para o fim da tarde, depois que o sol já tinha se abrandado, quando saíam do local sombreado onde haviam parado, Ponta Fina improvisava uma vassoura com galhos dos arbustos e ia apagando as pegadas do bando. Se topavam com o muro de pedras de uma fazenda, equilibravam-se ali em cima e andavam em fila indiana para não deixar qualquer vestígio da sua passagem. Como o tempo refrescava ao entardecer, o bando andava noite adentro e Luzia não podia costurar. Não havia luz, não tinham tempo e o Carcará dizia que a máquina era muito barulhenta. No entanto, apesar de todas as suas precauções, era possível avistar os homens a quilômetros de distância. No meio da vegetação acinzentada, os seus trajes bordados e enfeitados, em tons de vermelho e de verde, de rosa e de amarelo, faziam com que se destacassem como pássaros de plumagem brilhante. Luzia propôs que todos desmanchassem os bordados, mas o Carcará não permitiu.

– Se esses soldados forem sortudos o bastante para nos encontrar – disse ele –, vão ver que não somos vagabundos.

Luzia se lembrou do retrato do capitão Higino e ficou meio aflita. A foto estampada no jornal era desfocada e pouco nítida, mas o rapaz se distinguia. O seu uniforme era simples, as botas bem engraxadas. Era um sujeito baixo, mas não sumia ao lado do trem ou junto à multidão que se aglomerava ao seu redor. As mãos pendiam confortavelmente ao lado do corpo em vez de se apoiarem rígidas no cinturão, como era o caso dos oficiais mais velhos que apareciam ao seu lado. O capitão parecia à vontade. Estava até sorridente, como se fosse viver uma grande aventura. Luzia amainava os seus temores com as histórias de Ponta Fina. Talvez esse tal de capitão Higino fosse como todos os demais: louco por uma encenação, mas não por uma briga de verdade. E como um batalhão de garotos da cidade com equipamento precário poderia enfrentar a caatinga?

Não saberia dizer quantas semanas fazia que já estavam andando quando, de repente, Ponta Fina soltou um grito estridente. Ao subirem até onde o menino estava, no alto de um morro, Luzia e o bando viram uma grande mancha verde a distância e, perto dela, uma vasta superfície de água. As miragens que avistara ali na caatinga reluziam como placas metálicas. Aquele rio, porém, não brilhava, não cintilava. Era cor de café com leite. Era o São Francisco. O Velho Chico, como tia Sofia costumava chamá-lo. O rio percorria as colinas do sertão, tornando-as verdes e luzidias, separando Pernambuco e Bahia com as suas fartas águas marrons.

– Chegamos – disse o Carcará, respirando fundo.

Luzia o imitou. Dava para sentir o cheiro do rio. Um cheiro de musgo, de terra molhada. O ar que lhe entrou pelas narinas era brando. Ao longe, ouviu pássaros. Casas se apinhavam junto às suas margens. De umas pilhas escuras, erguidas diante de um prédio maciço e caiado, saíam dois rolos de fumaça negra. Ninguém mais pensou no capitão Higino e na sua tropa.

 

2

 

A cidade ribeirinha de São Tomé não tinha casebres de pau a pique. Todas as construções eram de tijolos recobertos por uma espessa camada de cimento caiado. Havia ali um posto dos telégrafos, uma escola e, perto das tais pilhas fumegantes de sementes de algodão, ficava a segunda maior descaroçadora de Pernambuco. Tudo aquilo pertencia ao coronel Clóvis Lucena.

O velho coronel passava os dias na fazenda, de pijama azul. No cós das calças, amarrado por um cordão, ficava enfiada uma peixeira com a lâmina recoberta por um estojo de couro. Dizia-se que, anos atrás, um capanga havia tentado estrangulá-lo com a própria gravata. Desde então, o coronel se recusava a usar terno. Luzia tinha ouvido essa história lá em Taquaritinga, mas nunca soube se era verdade ou não.

Quando o cumprimentaram, o coronel Clóvis sorriu. Como um bode, só tinha os dentes de cima. Na parte de baixo só havia a gengiva. Seu único filho, Marcos Lucena, estava ao seu lado. Era um homem de meia-idade que parecia um sapo-cururu: de pernas curtas e bem separadas, olhos de pálpebras meio caídas, com um ar sonolento, mas atentos a tudo.

Como bom anfitrião, o coronel Clóvis se esmerou para deixar os hóspedes felizes. Assim que chegaram, mandou matarem uma das suas melhores vacas. Tinha vários cabritos já esfolados e assados. Apesar dos protestos da cozinheira, entregou a cozinha nas mãos de Canjica. A casa tinha uma ampla varanda sombreada por uma aleia de ipês em flor. Pétalas amarelas cobriam o telhado e o chão como um tapete dourado. Ali perto ficava o maior curral que Luzia já vira na vida. Num dos vários cercados, filhotes baliam e pulavam furiosamente, dando cabeçadas uns nos outros e cutucando-se mutuamente com as patas fininhas.

– Você continua sendo um filho da puta feio – exclamou o coronel, sorrindo para o Carcará. – Arranjou uma esposa? – acrescentou, indicando Luzia com o queixo.

– É um amuleto – respondeu o cangaceiro. – Para dar sorte.

Rindo, o velho se voltou para Luzia.

– A minha esposa, que Deus a tenha, era uma mulher grande. A mais forte que já existiu. O meu Marcos está querendo se casar com uma frangota lá de Salvador – disse ele, chutando o pé do filho com força. – Ela não vai sobreviver aqui.

– Quando nos casarmos – retrucou Marcos, quase num murmúrio –, ela não vem morar aqui. Veio receber? – indagou, pousando os olhos sonolentos no Carcará.

Este sorriu. Seu olho bom brilhou.

– Que nada! – atalhou o coronel. – Sei muito bem por que vieram. Ouvi falar da confusão que aprontaram em Fidalga! Já era hora de você começar a enfrentar Floriano Machado. Aquele saco de merda manda todo o seu algodão para Campina Grande em vez de vendê-lo para mim. Sempre teve inveja da minha descaroçadora... Da nossa descaroçadora – emendou ele, dando um tapinha em Luzia.

– Esse tal de Machado é um cabra de peia. Sabe o que significa isso, menina? Que ele é um bode velho sem nenhum caráter. Não tem palavra. Não respeita os velhos costumes... Grita para o governador mandar tropas em vez de resolver as coisas sozinho.

– Pelo que diz o Semanário, eles estão querendo arrastar você e seus homens para o Recife. – observou Marcos – O governador está precisando aparecer na imprensa.

– Aquele bastardinho do Higino não vai pôr os pés nas minhas terras! – bufou o coronel. – Quero ver o governador me obrigar a isso. Na última eleição, arranjei mais votos para ele que qualquer outro coronel. Até os mortos votaram! Ele anda tendo problemas com o novo partido. Não pode se dar ao luxo de me enfurecer.

– Novo partido? – perguntou o Carcará, franzindo a testa como quem não está entendendo.

– Há quanto tempo está andando pelo mato, rapaz? – exclamou o velho. – Lá no Sul, Getúlio Vargas é candidato à presidência e arranjou um moço da Paraíba para compor a chapa e firmar alianças no Norte. Estão prometendo construir uma rodovia nacional e dar às mulheres o direito de votar. Não gosto nada disso. Mas, enquanto não se meterem nos meus negócios, também não me meto nos deles. É claro que o partido desses dois anda me rondando. Prometendo isso e aquilo se mudarmos de lado. Ainda não tomei minha decisão.

– Não dá para confiar em gaúcho – disse o Carcará.

O coronel Clóvis assentiu, com ar pensativo. Passou a mão pelos poucos fios de cabelo que ficavam acima das orelhas. As manchinhas que tinha na careca eram marrons e altas, parecendo carrapatos.

– Há quem diga que, se o Vargas se eleger, todos nós vamos cagar ouro. Outros dizem que vai ser o fim do mundo, a morte dos coronéis – acrescentou, suspirando. E, voltando-se para Luzia: – O poder de um coronel é como capim, menina. Quanto mais se corta, mais cresce. Exatamente como um cangaceiro.

Em sua longa vida, tinha sido amigo de vários cangaceiros famosos. Cabeleira, Chico Flores, Casimiro, Zé do Mato. Conheceu todos eles. Cada geração, segundo dizia, teve grandes nomes no cangaço. Já desde o tempo do seu bisavô – quando não havia políticos, cercas horrorosas ou telégrafo –, cangaceiros e coronéis tinham lá os seus aliados e os seus desafetos.

– Eles são como os saguis e o angico – observou o velho. – Um não pode viver sem o outro.

– As árvores podem viver muito bem – resmungou Marcos.

O pai o encarou. O Carcará sorriu.

– Mas agora chega de jogar conversa fora – disse o coronel, abanando a mão enrugada. – Vamos tomar um trago.

Dirigiram-se então para a varanda. Havia ali uma fileira de cadeiras de balanço com entalhes intricados, todas elas vazias. Luzia deu a volta. Queria encontrar Ponta Fina e Inteligente, que estavam com a máquina de costura. Desde que chegaram ali, os homens tinham se dispersado. Alguns foram examinar a casa e seus arredores, para verificar se estavam mesmo em segurança. Outros começaram a montar o acampamento ou foram ajudar Canjica a preparar o banquete para o jantar. Luzia ficou olhando para além do curral das cabras, tentando avistar os homens. Sentiu um pulso firme agarrar o seu braço aleijado. Era o coronel Clóvis, de pé ao seu lado.

– Não seja matuta, fugindo desse jeito – disse ele. – Venha sentar conosco.

Com uma força impressionante, o velho voltou a segurar o seu braço, puxando-a para perto de si. Luzia se inclinou na sua direção.

– Está vendo isso? – sussurrou ele, apontando para o cercado dos filhotes. – São os meus cabritos. De sangue puro. A carne mais doce que já se viu. As mães ficam soltas – acrescentou o velho, piscando para ela. – Pastando, quero dizer. Não tenho gente para pastorear. Não é necessário. Sabe qual é o segredo? Se quero impedir que a mãe fuja, tranco bem o filhote.

A moça voltou a recuar. O hálito do coronel era azedo: um misto de dentes podres e fumo de rolo. Olhou para a varanda. O Carcará vinha caminhando na direção deles. O velho segurou o seu braço com mais força.

– Qual é a sua graça? – perguntou.

– Luzia.

– Ah! – exclamou o coronel, com um suspiro, como se ela tivesse dito algo impressionante. – Amanhã é dia 13 de dezembro. O dia da sua santa.

Luzia havia perdido a noção das datas. Ia fazer 18 anos e tinha de cumprir a promessa feita a santo Expedito. O cabelo comprido era um estorvo no meio do mato. Mesmo preso em trança, agarrava nas árvores. Era raro poder lavá-lo e o penteava só com os dedos. Apesar de tudo, não conseguia se imaginar cortando-o. Por baixo das calças, das mantas, dos bornais e do chapéu de couro, ela era mulher e não um cangaceiro. Santo Expedito teria de esperar.

– Que tipo de sorte você traz? – perguntou o coronel, interrompendo os pensamentos da moça. – Da boa? Ou da má?

– Nem uma nem outra – respondeu ela, soltando-se daquela mão.

O coronel abriu um sorriso, mostrando os poucos dentes velhos.

 

3

Naquela noite, em homenagem a santa Luzia, os cangaceiros acenderam uma fogueira no quintal do coronel. Os peões e suas famílias se acocoraram junto ao fogo, mas não dançaram nem cantaram. Observaram os cangaceiros e lançaram olhares inquietos ao coronel, que se balançava numa das cadeiras da varanda. As mulheres trouxeram um latão todo manchado de fuligem. Encheram-no com castanhas-de-caju e puseram-no sobre o braseiro. As chamas lamberam o latão e penetraram nele: as castanhas se abriram, o óleo escorreu e pingou no fogo. Algumas das mulheres ficaram mexendo as castanhas com umas varetas bem compridas, virando o rosto para evitar a fumaça venenosa.

Luzia ficou afastada da fogueira; mesmo assim, os seus olhos lacrimejavam. Desviou o rosto, voltando-se para a varanda. O Carcará estava sentado lá, junto com Marcos e o coronel Clóvis. Os três se balançavam para a frente e para trás, nas cadeiras de balanço. Os pés do velho, calçados em sandálias, mal tocavam no chão. O corpo volumoso do filho sobrava da cadeira. Sentindo-se desconfortável com aquele movimento, o Carcará ficou bem na beirada do assento, com os pés plantados no chão. Na parte de trás, a base da cadeira estava bem elevada e Luzia ficou preocupada, achando que ela poderia virar. O Carcará era um hóspede cauteloso. Quando uma criada veio servir uma garrafa contendo um líquido cor de âmbar, ele tirou uma colher de prata do bornal e a enfiou no copo. A colher estava tão lustrosa que brilhou nas suas mãos. Antes, Luzia já o tinha visto fazer o mesmo nas sacas de farinha de mandioca que havia na despensa do coronel ou em qualquer outra comida de que desconfiasse. Se a colher escurecesse é porque havia algum veneno ali dentro. O uísque do coronel não representava perigo algum, mas, mesmo depois de ter enxugado a colher para guardá-la novamente no bornal, o cangaceiro esperou que o seu anfitrião tomasse o primeiro gole.

À tarde, por insistência do coronel, Luzia tinha sentado na varanda junto com os homens, mas não tinha bebido. Havia apenas ouvido. Eles falaram do preço do algodão bruto, da quantidade que a descaroçadora processava, do tempo necessário para que os fardos já processados chegassem ao Recife e de quanto os moinhos têxteis pagariam por eles. A colheita tinha ultrapassado as cotas habituais, segundo o coronel, e com certeza os moinhos pagariam menos pelo produto. O Carcará lhe deu os parabéns por sua capacidade de negociar.

– Sem dúvida alguma, a nossa descaroçadora vai dar lucro – completou.

O coronel Clóvis remexeu a mandíbula para um lado e para o outro, como se tentasse ajeitá-la na boca. Marcos começou a se balançar mais depressa. Luzia observou o Carcará, que segurava o copo com ambas as mãos, como uma criança. Ele não parecia um proprietário rural, mas, naquele momento, falava como um. “A nossa descaroçadora”, ele tinha dito. Foi então que a moça entendeu o propósito daquela visita ao coronel Clóvis. Não buscavam proteção, mas lucro.

Desde o início, sabia que os cangaceiros não eram criaturas isoladas vivendo na caatinga. Dependiam dos moradores da região – ricos e pobres – para conseguir roupas, armas, abrigo e proteção. Essa rede de conexões era frágil: baseava-se na reputação do Carcará, considerado um homem justo, e podia se romper com toda a facilidade se esse tal espírito de justiça vacilasse. Talvez outros bandidos fossem brutais sem motivo algum, mas o Carcará e seu bando não podiam se permitir esse comportamento. Os seus atos jamais eram aleatórios. Se os homens cortavam a orelha de um comerciante, era por ele ter sido grosseiro; se arrancavam a língua de alguém, era por ter falado com soldados ou difamado os cangaceiros; e se usavam o punhal, era por ofensas mais graves contra eles mesmos ou seus amigos. Acima de tudo, porém, estava o fato de a honra de uma mulher ser o maior tesouro de uma família, como sempre dizia o Carcará. Ele e seus homens respeitavam as famílias. E por isso tinham a sua confiança. “Só os pássaros cagam onde comem”, dizia o capitão. “E nós não somos pássaros. Somos cangaceiros.”

Naquele dia, ali na varanda do coronel, a moça percebeu que eles também eram homens de negócios. Essa descoberta lhe deu uma estranha sensação de segurança. Homens de negócios têm planos. Têm futuro. Cangaceiros, não. Lembrou-se da história que Ponta Fina lhe contou, sobre o seu ingresso no bando, quando o Carcará o alertou, dizendo que aquilo era um beco sem saída. Tinha ouvido os homens expressarem as suas esperanças, e estas eram sempre efêmeras: dançar, fazer uma boa refeição, amar uma mulher. Além disso, desejavam morrer num combate limpo. Mas, se o Carcará possuía algo, se era sócio na posse de uma descaroçadora de algodão, isso significava que ele tinha influência e uma renda anual. Ganhos regulares significavam que ele podia fazer planos para o futuro, guardar algumas economias, comprar um pedaço de terra para si e para os seus homens. E, com a terra, vinha a respeitabilidade. Com a terra, vinha a esperança de algo mais que a simples sobrevivência e a morte certa.

Lá na fogueira, as castanhas já estavam assadas. Com agilidade e precisão, as mulheres puseram as varetas compridas de ambos os lados do latão e o retiraram das chamas. Depois, despejaram o seu conteúdo: as castanhas escurecidas caíram na terra. Crianças cercaram a pilha fumegante e jogaram areia em cima para esfriá-la. Ali perto, Sabiá cantava sem o acompanhamento da sanfona. Era uma canção ligeira, de ritmo sincopado. Entre cada verso, o cangaceiro respirava fundo.

 

Corpos são o meu jardim

A pistola é a minha rameira

As balas são como a chuva

Eu sou um filho do sertão

 

Ao redor do fogo, os homens dançavam. Formavam duas fileiras de rifles nas mãos e tinham um ar sério no rosto. Ao ritmo da cantiga do Sabiá, davam três passos para a frente com o pé direito e, depois, avançavam apressados com o pé esquerdo. Tinham afrouxado as tiras das alpercatas e a sola do calçado arrastava no chão, fazendo um barulhinho de cha, cha, cha ao roçar na areia. Os rifles eram os seus pares e os homens os seguravam todos empertigados, exatamente como haviam feito com as mocinhas tímidas de Fidalga.

Não tinham permissão para beber, embora o coronel lhes tivesse oferecido cachaça. Mesmo assim, a quantidade interminável de carne e a água do rio deixaram-nos animadíssimos. De repente, o Carcará saiu da varanda. Luzia achou que ele fosse brigar com os seus homens por estarem dançando. Mas, na verdade, ele foi dançar também. Pôs-se à frente da primeira fileira, sapateando e arrastando os pés junto com os demais. Os seus movimentos eram mais precisos, mais controlados. Havia uma graça nessa precisão, uma estranha fluidez naquelas articulações meio enrijecidas.

 

O meu rifle é o melhor advogado

As minhas balas são a polícia

O meu punhal, o juiz mais justo

E a morte, a minha libertação.

 

Luzia o observou. Tinha esperança de que viesse para perto dela quando parasse de dançar. A moça queria lhe agradecer. Mais cedo, quando fora, junto com Ponta Fina, pegar a máquina de costura na varanda dos fundos da casa do coronel Clóvis, viu que o Carcará tinha lhe deixado um presente. Como o acampamento foi montado longe da casa, a máquina ficou ali na varanda para não torrar ao sol. Quando chegaram para buscá-la, havia um embrulhinho perto da Singer. Um pacote amarrado com barbante. E, ao abrir o papel pardo, Luzia sentiu nas mãos o toque da seda. O tecido era escorregadio, parecendo óleo. A moça soltou uma exclamação de surpresa e agarrou o presente antes que caísse no chão. Eram dois metros de seda da cor do fubá bem moído. Em Taquaritinga, teria achado um presente como esse uma bobagem inútil. Mas já fazia tanto tempo que não sentia algo assim tão macio... Havia vários meses que só tocava no couro duro, nas mantas de lã áspera, nos espinhos e nas farpas da caatinga, e na sua própria pele cheia de calos. Ponta Fina pediu para tocar naquele tecido.

– Deve ser coisa do capitão – disse o menino.

Luzia deduziu que era um presente de aniversário. Pela festa da santa que tinha o seu nome. Passou a noite inteira querendo agradecer ao Carcará, mas não conseguia encontrar as palavras certas.

A cantiga terminou. Os homens pararam de dançar.

– Já é quase meia-noite – declarou o Carcará. – Hora de fazer as nossas orações.

Peões e cangaceiros se reuniram em torno de uma pedra grande e achatada, a poucos metros da fogueira. Canjica tinha nas mãos uma latinha de sal e uma colher de pau. Entregou ambas a Luzia, levando-a até a pedra. O Carcará se ajoelhou à sua frente. Todos os demais o imitaram. Tirou um papelzinho amassado do bolso, olhou para a moça e, depois, baixou a cabeça.

– Minha santa Luzia – disse ele, bem devagar, pronunciando cada sílaba das palavras. – Dai-me visão. Vós, que não perdestes a fé nem mesmo quando vos tiraram todo o sangue. Vós, que não perdestes a visão nem mesmo quando vos arrancaram os olhos. Defendei-me da cegueira. Conservai a luz dos meus olhos. Dai-me forças para mantê-los sempre abertos, pois, assim, poderei distinguir entre o bom e o mau, o verdadeiro e o falso. Vós, que tivestes quatro olhos em vez de dois, olhai para o céu e dizei-nos o que os próximos meses vão trazer.

Canjica pegou uma colherada de sal na lata que Luzia estava segurando e a depositou em cima da pedra.

– Janeiro! – gritaram os peões e os cangaceiros.

Canjica pôs outra colherada de sal ao lado da primeira.

– Fevereiro!

Mais uma.

– Março!

E outra colherada para abril, para maio e, finalmente, para junho.

Era uma predição. Luzia já tinha ouvido falar de vaqueiros e lavradores realizando esse ritual. O sal ficaria ali até a manhã seguinte. Cada pilha que o orvalho da noite dissolvesse significava um mês com chuva. Se todas permanecessem intactas, haveria seca. Era preciso dar algo à santa em troca da sua boa vontade em fazer previsões para o futuro. Luzia não entendia nada de predições, mas entendia de santos. Para qualquer coisa que se peça, é preciso uma prova de fé. Para cada bênção que nos concedem, sempre querem algo em troca.

O Carcará pegou uma sacolinha de couro que trazia presa ao cinto. Parou junto aos montinhos de sal, abriu a tal bolsinha e despejou o seu conteúdo na pedra. Era uma pilha de esferas do tamanho de bolas de gude. Umas eram ressecadas feito passas. Outras eram tortas como moedas amassadas. Outras ainda tinham conservado o formato redondo, mas estavam ligeiramente murchas. Estas tinham a cor leitosa do olho vazado de Meia-Lua.

Luzia tratou de se afastar do centro do círculo de oração. Lembrou-se dos buracos no rosto dos capangas de Fidalga, todos empilhados na varanda do coronel Machado. Lembrou-se da quadrinha de tia Sofia. O falcão, carcará, fica procurando as crianças desobedientes...

Ficou esperando por uma reação qualquer: uma dor de estômago, um tremor nas mãos. Não sentiu nada. Durante os últimos meses, o seu medo, o seu nojo, a pena que sentia tinham se evaporado sob o sol inclemente da caatinga. Exatamente como a pele dos seus pés e das suas mãos, que tinham criado bolhas, escurecido, tornando-se calosas e grossas. Algo dentro dela também tinha endurecido. Era comum encontrarem cadáveres de cabritinhos no meio do mato. Viam também carcaças de bois e os corpos secos e coriáceos de sapos. Todos tinham perdido os olhos, que haviam sido arrancados pelas saúvas ou devorados por pássaros famintos. Era inevitável. Na caatinga, um predador não era melhor nem pior que o outro.

Fora do círculo, a moça se ajoelhou. Fitou o céu escuro. Um punhado de estrelas pairava acima do horizonte, como sal derramado. Toda noite, rezava para aquele céu. Todo dia, ele ficava lá no alto, azul e inatingível, morada de um sol impiedoso. Olhou para os ombros largos do Carcará, para a sua cabeça baixa. Ao rezar, ele não fitava o céu, mas o chão. Luzia esticou o braço bom. Apertou o solo com a mão. Espantou-se ao senti-lo tão fresco, tão firme.

Ouviu então um ruído ao seu lado. Viu as sandálias de couro do coronel e, dentro delas, os seus dedos esbranquiçados. Ele estava apoiado numa bengala de madeira.

– Não sou nenhum santo, mas posso lhe garantir que não vai chover este ano – disse ele. – Quando meus bodes espirram é sinal de chuva. Eles ainda não espirraram.

O cabo de uma faca se destacava meio de banda no cós das calças do pijama do velho. Luzia olhou para a varanda. Marcos tinha ido embora. O coronel balançou a cabeça.

– Esse rapaz leva tudo muito ao pé da letra. – disse ele, apontando para o Carcará com a bengala – Ou ao pé das tripas. – O velho riu e, depois, baixou os olhos para fitá-la. – Vi aquela máquina lá na varanda. É você que fica enfeitando os rapazes? Eles estão ficando parecidos com os panos de prato da minha mulher. Sei que gostam de luxo, mas já estão exagerando. Era isso que fazia antes de fugir com eles? Costurava?

– Não fugi – respondeu ela, pondo-se de pé e limpando a mão nas calças.

– Foi ele que fez isso com o seu braço?

– Não.

O coronel refletiu por um instante, remexendo o maxilar.

– Talvez seja por isso que ele gosta de você. É aleijada, como ele. – E, aproximando-se um pouco mais, acrescentou: – Já ouviu falar do coronel Bartolomeu? Aquele que ele matou e que o tornou famoso?

– Já – respondeu a moça.

As notícias tinham corrido por toda parte: um garoto de 18 anos matando um coronel e conseguindo escapar.

– Era o pai dele – prosseguiu Clóvis, sorrindo. – Pelo menos é o que dizem. A mãe era uma pobre coitada. Uma frangota que foi desgraçada. E disse a todos que o coronel tinha se aproveitado dela, que ele era o pai da criança. Ninguém lhe deu ouvidos, mas a mocinha continuou insistindo. Queria dinheiro. É isso que todas as arrendatárias querem. Bartolomeu se cansou da história e mandou os seus capangas. Eles atiraram nela e fizeram esse estrago no rosto do menino – acrescentou o velho, traçando uma linha com a mão no próprio rosto branco. – Não é o que contam por aí?

– Acho que sim – retrucou Luzia.

– Ele não lhe contou?

– Nunca perguntei.

– Você deve ter feito alguma coisa muito boa para ele ter quebrado a promessa – disse o velho, balançando a bengala para a frente e para trás.

– Que promessa?

O coronel perscrutou o seu rosto. Ele tinha uma papada gorda e flácida, como se toda a massa da face tivesse afundado ali dentro. Depois, deu de ombros e desviou os olhos.

– Vai ver ele já fez tantas promessas que não consegue se lembrar de todas. Se eu fosse ele, também viveria puxando o saco dos santos.

– Que promessa? – insistiu Luzia, e o coronel sorriu.

– Finalmente consegui que você prestasse atenção, hein? Na primeira vez em que ele veio aqui para receber a sua porcentagem, disse que um dos seus santos tinha lhe mandado um sinal. Afirmou que jamais deixaria uma mulher fazer parte do bando. Que as mulheres são para casar. Ou para a gente se divertir.

– Eu não – declarou Luzia.

– Comigo não precisa se preocupar com essas histórias de decência, menina. Entendo a opção que fez – disse o coronel, olhando para o Carcará e balançando a cabeça. – Todos nós já tivemos de trocar favores. Todos temos de fazer acordos.

Bateu com a bengala várias vezes, como se tentasse invocar algo que estivesse dentro do solo.

– Gostou da seda que deixei para você? Coisa fina, hein? – perguntou ele, encostando-se em Luzia. – Tem mais lá no meu quarto, se quiser. Mulheres gostam de presentes – acrescentou, passando a bengala na perna dela. – Mesmo quando se vestem como homens.

À sua frente, os peões e os cangaceiros formaram uma fila diante da pedra com os montinhos de sal. Um a um, punham a mão ali em cima, pedindo que a santa os abençoasse. Luzia pediu licença e foi se juntar a eles.

 

4

As predições de santa Luzia foram catastróficas. Na manhã seguinte, apenas três montinhos de sal haviam sido parcialmente dissolvidos pelo orvalho. O resto estava intacto. Por vários dias, a chuva foi o único assunto entre os cangaceiros. Luzia não estava preocupada com isso. O que a preocupava era o corte de seda amarela. Voltou a embrulhá-lo no papel pardo e o enfiou bem no fundo do bornal, mas continuava a sentir a sua presença. Lembrava-se daquele contato escorregadio nas suas mãos. Estava com vergonha de ter aceitado um presente do coronel, e mais ainda da alegria que sentiu achando que fosse coisa do Carcará. E sequer podia devolvê-lo. O coronel era um bode velho, mas era o anfitrião. Acabou então se esgueirando cozinha adentro e deixou o pacote na despensa, na esperança de que a cozinheira ou outra criada qualquer o encontrassem e o guardassem para si.

Tudo naquela casa – a despensa, as cortinas de renda, a pilha de roupa de cama lavada – cheirava a queimado. Quanto mais algodão a descaroçadora processava, maior a quantidade de fumaça que pairava sobre São Tomé. As pilhas pretas que Luzia tinha visto fumegando eram as sementes do algodão. Com o passar dos meses, a fumaça que saía dali ia fazendo as casas caiadas da cidade ficarem cinzentas como fuligem. Era também por causa dela que os cabritinhos do curral do coronel ofegavam e tinham uma tosse seca. Toda tarde, as cabras voltavam do pasto com o pelo coberto de uma poeirinha preta. Todas tinham no pescoço uma sineta de latão que badalava quando os animais corriam. Os filhotes se amontoavam junto ao portão. Baliam ferozmente enquanto as mães vinham correndo ao seu encontro, farejando os cabritos e os afastando até encontrarem o seu. Todos os bichinhos pareciam idênticos, com pintas pretas e marrons, orelhas caídas e corpo forte. Luzia ficava encantada ao ver com que facilidade as mães identificavam o próprio filhote no meio daquele bando.

Enquanto Marcos circulava pela fazenda, falando muito pouco e dando longos passeios montado na sua égua favorita, o coronel Clóvis parecia gostar da presença dos cangaceiros. Encorajava-os a ficar por ali. Quando o algodão estivesse limpo, embalado e fosse embarcado, ele e Marcos iriam a Salvador negociar o preço de venda. Garantiu ao Carcará que, na volta, ele receberia a sua porcentagem. Toda noite, depois que a última cabra voltava do pasto, os cangaceiros se revezavam para ir até a cidade, onde cantavam e tocavam músicas animadas. Traziam cortes de seda para fazer novos lenços de pescoço. Viam os trabalhadores embarcarem os fardos de algodão nas barcaças que os levariam a Salvador. E iam à casa de mulheres experientes, visitas de que se vangloriavam mais tarde no acampamento. Até o coronel Clóvis os acompanhava nessas saídas.

– Os homens têm as suas necessidades – disse ele um dia, abordando Luzia perto do curral das cabras. – Não dá para reprimir.

A moça foi ficando irritada com o comportamento espalhafatoso dos cangaceiros. Desse jeito, a tropa mais despreparada não tardaria a encontrá-los. O Carcará não parecia preocupado. Encorajava as idas dos seus homens à cidade. Quando um grupo saía, o capitão aguardava ansioso a sua volta, andando de um lado para outro, como se as suas pernas estivessem sentindo falta das caminhadas diárias pela caatinga. Quando os homens regressavam, metade dava uma volta maior para chegar ao acampamento, evitando passar pelo portão da casa do coronel. Vinham trazendo pesados cartuchos de munição, o bastante para que cada um tivesse pelo menos quinhentas balas. E, sempre que possível, traziam um jornal.

Luzia lia as notícias em voz alta. Não havia nada sobre as tropas. Só uma vez, encontrou uma breve menção a um telegrama enviado pelo capitão Higino, garantindo aos leitores que estavam na pista dos cangaceiros. Fora isso, a caçada tinha sido deixada de lado em favor das eleições. O Carcará logo se cansava desse tipo de notícia, mas Luzia percorria todas as páginas do periódico, na esperança de encontrar alguma referência a Emília. Uma notícia falava das cores do novo partido: verde para Vargas e azul para o líder atual. Leu com atenção o manifesto de Vargas, em que se postulava um salário mínimo, o direito de voto para as mulheres e a redução do poder dos barões do café de São Paulo e dos coronéis. Nos discursos do candidato, transcritos no jornal, ele pregava a modernização: novas indústrias, portos melhores e, acima de tudo, uma rodovia nacional. Uma rodovia que ligasse a nação à capital, como artérias que ligam um corpo ao seu coração, vivificando os membros esquecidos do Brasil. Aquelas palavras poéticas e vigorosas acabavam fazendo com que a moça se esquecesse das colunas sociais. Uma tarde, ela quase pulou uma notinha sobre o Carnaval. No entanto, alguma coisa atraiu os seus olhos para uma foto de um salão de baile do Clube Internacional, feericamente iluminado. Não reconheceu nenhum dos foliões fantasiados, mas, abaixo da foto, havia um resumo das festividades daquela noite. No meio do texto, havia um trecho dizendo:

Continuar: parte 2 de 3