Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 7 de 20 · parte 1/3

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Entre irmãs

Capítulo 5

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Emília

 

Recife

Dezembro de 1928-março de 1929

 

1

 

O s trens da estrada de ferro Great Western equipavam sua primeira classe dos trens com lâmpadas elétricas e ventiladores de teto. Ocultas pelas cúpulas opacas, as lâmpadas emitiam a mesma luz pálida que as velas ou os lampiões a gás. Emília ficou desapontada. Com os ventiladores, porém, foi diferente. As pás giravam como se fossem empurradas por uma mão invisível. A moça não conseguia tirar os olhos delas. Percebendo o seu fascínio, Degas se estendeu longamente numa aula sobre eletricidade. Emília só fazia assentir com a cabeça. Tentou prestar atenção, mas as palavras do marido eram encobertas pelo zumbido do ventilador ali no teto, pelo barulhinho das peças de dominó postas na mesinha de jogo do trem por dois cavalheiros idosos que estavam na primeira fila, pela respiração sibilante dos passageiros que dormiam e pelo ruído do próprio trem. Era o mesmo tinido ritmado da Singer a pedal, mas quem pedalava o trem nunca se cansava. A máquina seguia em frente, resoluta e incansável, atravessando a caatinga.

– Você deve estar cansada – murmurou Degas.

O dever de Emília era dar uns tapinhas na mão do marido, dizer-lhe que continuasse, garantir-lhe que aquela conversa sobre eletricidade estava interessantíssima, mas ela teria a vida inteira para ouvir o que ele lhe dizia e só aquela noite no trem.

– Estou mesmo – disse ela. – Acho que vou dormir.

Degas assentiu com um gesto, virou-se para a frente e fechou os olhos.

Um pouco antes, os garçons tinham servido suco de frutas e empadinhas com recheio de frango e azeitonas. Degas olhou para a comida com um ar hesitante e pediu um café. Emília, porém, pegou uma empadinha atrás da outra da bandeja que o garçom lhe estendia. Afinal, era a sua noite de núpcias. Não tinha tido recepção, nem bolo coberto com glacê. Não daria tempo, pois as aulas de Degas já tinham começado. Depois da cerimônia, os dois viajaram para Caruaru e pegaram o trem noturno para Recife. Dona Conceição foi contra aquela partida tão rápida. A noite de núpcias era sagrada. Passá-la num trem, e não num quarto, só faria confirmar as suspeitas de todos de que o rapaz já tinha experimentado a noiva. O coronel ofereceu o quarto de hóspedes para os recém-casados, mas Degas recusou. Emília não se importou nem um pouco com isso – não queria dona Conceição e suas criadas curiosas inspecionando os lençóis na manhã seguinte. Entre os dois, namoro e casamento tinham sido bem incomuns. A noite de núpcias não seria diferente.

Degas lhe prometera fazer uma recepção no Recife, onde as pessoas apreciariam o bolo de vários andares e a comida requintada. Tudo isso teria sido um desperdício em Taquaritinga, disse ele, e Emília acabou concordando meio a contragosto. Adoraria ter feito uma grande festa, para exibir àqueles fofoqueiros e pés-rapados que já não era mais Emília dos Santos, a costureira desonrada, e sim dona Emília Coelho.

Puxou a alavanca da janela. O ar fresco passou assobiando pela fresta. A lua tinha surgido. A sua luz batia na caatinga, dando às árvores desfolhadas um brilho branco. Emília abriu a sua nova bolsa de viagem e pegou o retrato que ela e a irmã tiraram no dia da primeira comunhão. Durante a cerimônia do casamento, pôs o retrato no primeiro banco, escondido sob uma toalha bordada. Mais tarde, durante o percurso a cavalo descendo o morro e o trajeto de charrete até Caruaru, manteve o retrato bem perto de si. Degas não perguntou o que havia sob a toalha bordada. Achou que era alguma espécie de amuleto, algo que a reconfortasse, mas nada que fosse da sua conta. A discrição ou o desinteresse dele era um verdadeiro alívio.

Lá fora, sob a ramagem da mata desfolhada, era só escuridão. Os troncos das árvores desapareciam nas sombras. Não se via o chão. Era como se um imenso pano preto houvesse sido estendido à sua frente e elas estivessem flutuando ali em cima. A cada solavanco do trem, Emília se sentia atordoada e temerosa. Era a mesma sensação que experimentara anos atrás, quando Luzia e ela correram para aquela mangueira usando os seus vestidos de domingo.

– Recife – sussurrou a moça.

Separado em sílabas, o nome da cidade parecia ainda mais bonito. Reeee, como se estivéssemos exalando longamente. Ciiii, como o sibilar da água e das ondas. E fe, a última sílaba, tão branda, que, assim sozinha, é quase igual a fé.

 

2

 

Quando desembarcaram, o sol brilhava. Os olhos de Emília chegaram a lacrimejar. Gotinhas de suor se formavam acima do seu lábio superior. O seu cabelo ficou mais encaracolado que nunca. Quanto mais se aproximavam do litoral, mais ele ia se enrolando. Ao chegar à Estação Central do Recife, tufos emaranhados saíam por baixo do chapeuzinho clochê que Degas tinha lhe dado. Lá no alto, encarapitados no teto abobadado, havia quatro falcões de bronze com as asas abertas, reluzindo ao sol da tarde. Emília sentiu um puxão na saia do seu costume novo de viagem. Olhou para baixo e viu um garoto. Um dos olhos dele estava cheio de pus.

– Tem uma moeda, tia? – pediu o menino, choramingando.

– Dê o fora! – exclamou Degas, e o pequeno mendigo saiu correndo.

Degas pegou então o braço de Emília e levou-a embora dali. Tinha uma certa tendência a fazer isso: apertar muito a sua mão, puxar o seu pulso com muita força. Ainda em Caruaru, antes de se sentarem nos seus lugares, Degas tinha tentado tirar o casaco do seu costume sem dar atenção ao fecho, que acabou prendendo na blusa e quase rasgando um dos punhos. Emília achava que era falta de jeito, uma impaciência meio infantil que, com o tempo, ela poderia modificar. Segurou com firmeza a bolsa de viagem e deixou que ele a levasse até a charrete.

Tinha recortado inúmeras fotografias do Recife – imagens de jardins muito bem-tratados, pontes de ferro fundido e ruas pavimentadas com os trilhos de bonde, que se estendiam, compridos e sinuosos, como fitas de metal estiradas no chão. Nunca pensou no que poderia ficar à margem dessas fotos, para além dos limites das suas bordas. As sarjetas estavam cheias de legumes podres e cacos de vidro verde. Mulheres descalças equilibravam na cabeça cestos com cajus vermelhos. Bondes guinchavam nos trilhos metálicos. Havia os pregões dos ambulantes, os latidos dos vira-latas, o ruído dos pássaros. Ao lado deles, o rio Capibaribe se estendia, largo e marrom. Emília nunca tinha visto tanta água. Nas suas margens, barracos de madeira se equilibravam precariamente. A moça teve medo de que caíssem a qualquer momento. A umidade das chuvas do inverno ainda pairava no ar. O sol batia em cheio nas pilhas de bosta de cavalo espalhadas pelas ruas. Emília enxugou a testa. Quando fechou os olhos, sentiu como se estivesse dentro de uma boca enorme e fedorenta. Mais que depressa, voltou a abri-los.

Meses depois, quando foi com a sogra, dona Dulce, dar seus primeiros passeios pela praça do Derby, encontrou finalmente os jardins e as mulheres bem-vestidas que tinha visto nas fotografias. Dona Dulce lhe mostrava cada uma daquelas mulheres, sussurrando o seu nome de casada, o de solteira e dizendo se pertencia a uma família tradicional ou a uma das novas. Às vezes, cruzavam com uma delas e eram obrigadas a parar para conversar. Emília ainda não dominava a arte da conversação. Não conseguia lembrar todas as palavras cujo uso dona Dulce tinha proibido. Não podia falar da sua família de origem. Não podia fazer qualquer referência à costura. Não podia gesticular como gente do interior, nem mexer no cabelo ou puxar os dedos das luvas. Era no silêncio que se sentia segura. Aquilo a tornava agradável, encantadora, imperceptível. Por uma questão de educação, as mulheres lhe dirigiam a palavra e, invariavelmente, perguntavam quais eram suas primeiras impressões de Recife. Emília não podia lhes dizer que estava decepcionada. Não podia descrever o pânico e a náusea que a cidade lhe provocava. “A cortesia exige que a pessoa nunca seja desagradável”, dizia-lhe dona Dulce durante as suas intermináveis aulas de etiqueta. Portanto, quando as mulheres lhe faziam essas perguntas, a moça pulava a parte da chegada à capital e começava pela casa dos Coelhos.

Tinha chorado de alívio ao vê-la. A casa de dois andares era pintada de branco, com frisos de cerâmica trabalhada nas quinas e em torno das janelas. As venezianas e as portas em arco eram de um amarelo-manteiga e, no topo de cada ponta do telhado, havia uma pinha de louça, cuja superfície escamosa brilhava ao sol da tarde.

– Parece um bolo de noiva! – exclamou ela.

Degas riu. Entregou-a a uma criada que a acompanhou pelos grandes corredores ladrilhados. A moça – que devia ter a sua idade, ou até menos – andava depressa. Emília não conseguia espiar pelas inúmeras portas que havia naquela casa. Não podia passar a mão pelo corrimão metálico da escadaria principal. Seguindo a criada, atravessou o pátio central. Havia ali um chafariz cercado de samambaias onde um pequeno cavalo com rabo de peixe cuspia água pela boca. Emília adoraria tocar aquelas escamas verdes.

Do outro lado do pátio, a moça abriu uma série de portas envidraçadas. Com um gesto, convidou Emília a entrar.

– O seu chapéu – disse a criada, estendendo a mão.

Era magrinha, de maxilar quadrado. Usava uma touquinha branca com uma barra de renda na testa, o que lhe dava um ar elegante, quase nobre, como uma atriz que Emília tinha visto num exemplar da Fon Fon.

– Não – respondeu Emília, segurando o chapéu na cabeça.

Não podia tirá-lo e deixar à mostra aquele cabelo todo arrepiado.

A criada deu de ombros e tentou pegar a sua bolsa. Emília não permitiu.

– Pode deixar.

– Então, espere aqui – disse a moça. – Dona Dulce já está vindo.

Depois que a criada saiu, Emília ficou observando o aposento. Nos cantos do teto, havia quatro querubins de gesso, com bochechas rechonchudas e os braços gorduchos abertos. Em nichos pelas paredes, dezenas de Nossas Senhoras de madeira fitavam com um olhar triste os sofás de encosto de palhinha e as cadeiras de mogno da sala. Na outra extremidade, um ventilador portátil estava ligado. Era grande e prateado, com uma grade metálica cobrindo as pás. Por trás dessa grade, havia um bloco de gelo. Emília parou na frente do aparelho. O ar fresco lhe bateu no rosto. Já tinha ouvido falar de gelo, mas nunca tinha visto como era. Uma coisa translúcida e reluzente, como uma pedra preciosa.

– Detesto essa engenhoca – disse uma voz de mulher, alçando-se acima do barulho do ventilador. – Mas meu marido insiste em tê-la aqui.

Ela era da cor do pão cru. O cabelo, que parecia até palha de milho, estava todo puxado para trás e preso num coque grande e apertado. Havia nela uma semelhança com as Nossas Senhoras de porcelana espalhadas pelas paredes: o rosto longo e impecável. A única diferença eram os olhos, estreitos e cor de âmbar, como se fossem dois olhos de gato esculpidos em bolas de gude e incrustados naquele rosto pálido. Mas não havia ali nem sombra da compaixão que se via nos olhos da Virgem. Emília se afastou do ventilador.

– Fica pingando água no meu chão – disse a mulher, apontando para uma tigela prateada posta debaixo do gelo. – Não sou uma entusiasta da eletricidade – acrescentou –, mas, já que todas as famílias novas têm um desses, também devemos ter.

Estava usando um vestido comprido e escuro, com botões de pérolas. Sempre que meneava a cabeça, a gola de crepe fazia um barulhinho rascante, roçando no seu pescoço. A mulher a fitava, como se esperasse uma resposta.

– Na casa de dona Conceição não tinha eletricidade – disse Emília, sem mais nem menos.

A mulher pareceu gostar.

– Você era a costureira dela?

A moça assentiu com um gesto.

– Pobre mulher. O filho é um fiapo de gente. Acho que tem tuberculose. O Dr. Duarte alertou Degas dezenas de vezes, dizendo-lhe que não deveria ir visitá-lo. Também ouvi dizer que o coronel é um horror. Ao que parece, não sabe ler, nem escrever.

Ela fitou Emília, sorrindo.

– Você sabe ler, não sabe, querida?

– Sei.

– Ótimo.

Dona Dulce veio se aproximando, com passos miúdos e calculados. Os saltos dos seus sapatos mal faziam barulho nos ladrilhos do chão.

– É um Frans Post original – disse ela, apontando para o quadro que estava atrás do ventilador. – Conhece a obra dele?

A moldura dourada sufocava a tela. Havia ali uma cidadezinha e uma igreja, parecendo até Taquaritinga. Silhuetas negras circulavam pela rua, equilibrando cestos na cabeça. O sol se punha e pinceladas amarelas no campanário da igreja tornavam-no dourado, ofuscante. No canto, era a escuridão, uma floresta. Animais – um jacaré, um pássaro de cores vivas, um tatu – fitavam a cidade. Emília não saberia dizer se estavam para invadi-la ou recuando, mas sentiu inveja daqueles animais, escondidos no escuro, à margem da vida e não bem no meio dela.

– Não tem problema, querida – disse dona Dulce, poupando Emília de uma resposta. – Não esperava mesmo que você o conhecesse. Ele era holandês. E muito famoso.

– Gosto muito do quadro – disse a moça.

A sua cabeça estava coçando por baixo do chapéu de lã.

A criada voltou trazendo uma bandeja com um bule de prata fumegante. Ele tinha quatro pés que pareciam patas de lagarto e a alça era recoberta por centenas de escamas prateadas, formando uma cauda de dragão. O bico era a cabeça, de olhos abertos e boca larga.

– Está muito abafado – declarou dona Dulce, e, virando-se para Emília, indagou: – Não gostaria de tirar o chapéu?

– Não, obrigada – respondeu a moça. – O meu cabelo está todo esculhambado.

A criada, que servia o café, ergueu os olhos. O meio sorriso de dona Dulce se manteve inalterado, mas os seus olhos se arregalaram, as suas sobrancelhas se franziram. Pegou então a nora pelo braço.

– Venha, vou lhe mostrar o nosso quintal – disse ela.

O sol refletia nos azulejos do chafariz. Emília ficou com os olhos cheios de água. Dona Dulce a puxou para perto de si, com o braço passado no seu, bem firme.

– Nunca use essa palavra – sussurrou ela. – É feia.

– Feia?

– É algo que só gente do interior fala – prosseguiu dona Dulce, franzindo o cenho. – Sabe a que palavra estou me referindo. Não vou repeti-la. Risque-a do seu vocabulário. Em seu lugar, use a palavra desalinhado. E, quando for elogiar alguma coisa de alguém, como fez com o meu quadro, diga “É lindo”. Ninguém está interessado em saber do que você gosta ou não gosta. Isso é vulgar.

Os olhos de Emília finalmente se acostumaram à claridade do quintal. Pequenas samambaias brotavam no rejunte dos azulejos do chafariz. Tocou-as com o bico do sapato. Ao redor do pátio, havia muitas flores, mas não tinham nada a ver com as dálias de tia Sofia. As plantas da casa dos Coelhos eram espessas, vigorosas, impenetráveis. Havia tufos de estrelítzias com aqueles espigões alaranjados que iam se afilando até formar uma ponta. Camarões amarelos e alaranjados cresciam em cones bicolores perto das portas envidraçadas. Dali se viam a sala de jantar, o escritório, os quartos no andar superior, a copa. Os cômodos davam todos uns para os outros. Vista por dentro, a casa não parecia absolutamente um bolo de noiva, e sim uma série de jarras de vidro.

– Cabeça erguida! – exclamou dona Dulce, assustada, Emília obedeceu.

– Você precisa criar calo – prosseguiu ela. – Vai ter de aguentar críticas mais severas que as minhas. Disse a Degas para pensar bem. Para considerar o que a decisão que tomou significaria para você e para todos nós.

– E o que significa? – indagou a moça.

Dona Dulce a fitou. Analisou o rosto de Emília com a mesma expressão de intensidade que demonstrou ao observar o quadro de Frans Post. Só que, agora, não havia ali admiração. Sua expressão era a de quem encontra um inseto e avalia as suas opções. Decidia se aquela criatura à sua frente representava um aborrecimento inofensivo ou um perigo real. Antes de falar, dona Dulce passou os olhos pelo quintal.

– Significa que você agora é uma Coelho – disse enfim. – Não faço ideia de quais são as suas intenções. Não sou clarividente. É inútil e indelicado eu ficar tentando imaginar o que a preocupa. Sei que isso representa uma melhora considerável com relação à vida que levava antes. Também tenho certeza de que sabia disso ao se casar com o meu filho. O que você talvez ignore é a responsabilidade que vem junto com a sua boa sorte. Vai ter de viver à altura do seu novo nome. E Degas, o pai dele e eu temos de zelar para que seja assim. Agora, a responsabilidade é nossa. Porque qualquer coisa que você diga ou faça a partir de hoje vai se refletir sobre todos nós. Entendeu?

Emília assentiu. Tirou o chapéu e tentou ajeitar o cabelo. Um objeto escuro se movia perto dos seus pés. A moça se assustou.

– Ah, são os jabutis do meu marido – disse dona Dulce em voz alta, lançando um olhar à criada que tinha entrado no pátio. Sorriu, pegou o braço da nora, afastando-a dos animais. – Não toque neles, querida. São bem capazes de arrancar o seu dedo fora.

 

3

 

À primeira vista, Emília achou que a casa dos Coelhos, com a escadaria de pedra e o corredor todo atapetado, tivesse sido a casa-grande de um glorioso engenho do passado. Tinha visto inúmeras aquarelas representando aquelas propriedades nos livros de história do padre Otto, com os seus casarões imponentes cercados pelos canaviais. Durante o jantar, o Dr. Duarte Coelho se encarregou de desfazer aquela impressão. A casa tinha apenas uma década. Era uma maravilha do mundo moderno envolta numa concha antiquada. O Dr. Duarte tinha pensado em tudo. A água vinha de um cano no quintal dos fundos, onde ele mandou instalar um cata-vento para impulsioná-la pelos canos. Na cozinha, havia uma série de cilindros de gás que aqueciam a água antes que ela saísse percorrendo aqueles caminhos misteriosos que a levavam até o banheiro no andar de cima. E havia ainda os ventiladores e as lâmpadas elétricas, um fonógrafo, um elevador para transportar as travessas de comida, um rádio e um refrigerador. Tudo funcionando graças a fios que vinham dos postes de madeira lá da rua.

– Paguei um bom dinheiro para mandar instalar esses postes – disse o Dr. Duarte.

Dona Dulce pigarreou.

– Eles são propriedade minha – prosseguiu o sogro de Emília, pressionando a toalha da mesa com o dedo grosso. – Fui eu que comprei a madeira e contratei os homens. Fui à companhia dos bondes e lhes dei um incentivo para estenderem as linhas elétricas até aqui. Resultado: várias famílias estão vindo morar em Madalena. Famílias novas. Nada de ralé.

Ele era um homem atarracado, com bolsas sob os olhos e uma papada flácida sob o queixo quadrado. Lembrava um velho touro, calmo, mas ainda ameaçador.

O Dr. Duarte declarou que os Coelhos eram uma das primeiras famílias com visão suficiente para se mudar para o novo bairro de Madalena. Recife estava crescendo para além dos seus limites originais. Só as famílias antigas insistiam em continuar vivendo na minúscula Ilha do Leite ou nos bairros de São José e Boa Vista. As mais novas estavam construindo casas modernas em terra firme, do outro lado da ponte Capunga, longe do tumulto das ilhas, do comércio do porto e de todas as lamentáveis consequências que ele atrai: os cabarés, as casas de má fama, os artistas e os vagabundos que frequentavam o Cassino Imperial. Ao dizer isso, olhou para Degas. O marido de Emília não encarou o pai, preferindo concentrar a atenção no seu prato já meio vazio.

Degas parecia uma versão diluída do pai. No Dr. Duarte Coelho, tudo – o peito maciço, o nariz adunco, os olhos escuros e as sobrancelhas espessas e brancas – parecia mais condensado, mais intenso. Mas o Dr. Duarte jamais erguia a voz ou segurava os talheres com tanta força quanto o filho. Emília se perguntava se o tempo o havia domesticado.

– Temos de admitir que o mundo está mudando – disse o sogro, interrompendo os pensamentos de Emília. – E precisamos mudar junto com ele – acrescentou, batendo no prato com o garfo.

– Claro – observou dona Dulce, fitando a nora. – Todos temos de aguentar as mudanças.

Antes de entrarem na sala de jantar, dona Dulce tinha avisado à moça que o marido gostava de manifestar as suas opiniões. E acrescentou que ela não precisava participar daquelas conversas, pois uma dama nunca diz nada acerca de assuntos mais sérios durante uma refeição. Embora aquilo a assustasse, Emília ficou aliviada com toda aquela falação do sogro. Assim, podia prestar atenção a qualquer outra coisa que não fossem aquela comida estranha no seu prato, a quantidade de talheres absolutamente misteriosos enfileirados ao seu lado e o olhar de dona Dulce, cravado nela.

 

4

 

Em Taquaritinga, as pessoas de algumas posses tinham latrinas no quintal. Os Coelhos tinham um banheiro. No andar de cima, perto dos quartos, havia um aposento inteiramente ladrilhado de rosa. Bem no meio, uma banheira maciça com pés que lembravam as patas grossas de uma pantera. Da superfície daquela banheira saía vapor. Num canto, presa ao chão, havia uma cuba de porcelana com uma caixa-d’água e um cordãozinho. Emília puxou o tal cordão. A máquina gorgolejou e fez um barulhão de água. A moça recuou. Quase tropeçou na sua maleta de viagem. Tinha mantido a bolsa – e o retrato de primeira comunhão ali dentro – junto aos seus pés durante todo o jantar. E, agora, a levou consigo para o andar de cima, quando dona Dulce insistiu para que ela tomasse um banho. Esperou a água parar de se mexer naquela cuba. E puxou o cordão novamente.

– Emília? – disse uma voz de mulher.

A moça abriu a porta. Era Raimunda, uma criada mais velha, de testa vincada e bochechas caídas. Era magra, parecendo um passarinho, mas não tinha a graça desses animais. Lembrava mais as galinhas de dona Maria Chaves, mais interessadas em sobreviver que em voar. Uma mechinha de cabelo crespo e castanho lhe saía da touquinha branca de renda. Olhou para a banheira e franziu o cenho.

– Se você não entrar logo, a água vai esfriar – disse.

– Eu sei – retrucou Emília.

Como a outra criada, Raimunda não a chamava de senhora, mas de você. Era como se logo tivessem avaliado a sua condição e determinado que ela não merecia esse esforço.

– Estava admirando o aposento – acrescentou a moça.

– Você já devia estar acostumada – disse Raimunda, enfiando a ponta dos dedos na água.

– É a primeira vez que entro aqui. Quando cheguei, usei o pequeno, lá de baixo.

A outra tirou a mão da água.

– Você não deve usar aquele banheiro – disse ela. – É para a criadagem.

Emília sentiu uma onda de calor lhe invadir o peito. Antes do jantar, a empregada mais jovem a levara até o banheiro que ficava perto da cozinha. Lá dentro, havia dois urinóis de argila que lhe batiam nos joelhos. Moscas voavam em círculo sobre os potes.

– Bem, vamos lá – disse Raimunda, virando de costas. – Não vou olhar.

Emília pôs a bolsa no chão. Desabotoou a blusa. Ela própria a tinha feito com um corte de linho bege que comprou com as suas economias. Degas se dispôs a lhe dar umas roupas antes do casamento, mas a moça aceitou apenas o chapéu e a bolsa de viagem. Só as mulheres da vida ganham roupas de um homem que não é seu marido. Tirou a saia, que estava bem amassada e com a bainha toda manchada de poeira. Dona Conceição tinha lhe dito para usar um vestido mais velho na viagem e guardar a veste nova e a blusa limpa para a chegada ao Recife. Emília, porém, não lhe dera ouvidos. Queria ir embora da cidade com uma aparência gloriosa.

Entrou na banheira. A água chegou a fazer sua pele arder. Raimunda se virou e parou ao seu lado. Com a mão espalmada, empurrou sua cabeça.

– Afunde – disse ela. – Pode afundar. Não vai morrer afogada, não.

Emília fechou os olhos e afundou. Ficou imaginando as frutas das geleias de tia Sofia, mergulhadas na água fervente com açúcar até a casca se soltar e só restar ali a polpa. Quando voltou à tona, Raimunda lhe esfregou as costas e os braços com uma bucha. E esfregou com força. Emília escorregava para trás e para a frente dentro da banheira. Segurou-se então nas bordas para não afundar.

– Maria não devia ter levado você para aquele banheirinho – disse Raimunda. – Aliás, ela não devia receber as pessoas que chegam. É jovem demais para isso. Dona Dulce manda ela fazer esse serviço porque é bonitinha, e não porque trabalha direito. Dona Dulce é muito preocupada com as aparências.

Pôs um pouco de xampu na mão e começou a esfregar o cabelo de Emília. A moça fechou bem os olhos. Queria saber mais sobre a sogra, mas não tinha coragem de perguntar.

– A sua sorte é ser bonita – prosseguiu a criada. – Tem uns dentes lindos. Isso facilita muito as coisas.

– Que coisas? – indagou Emília.

– Morar aqui – respondeu Raimunda, esfregando com mais força ainda.

– Por quê?

– Mergulhe – exclamou a outra, empurrando sua cabeça antes mesmo que ela pudesse falar.

A água agora estava morna e turva. Emília logo emergiu, esfregando os olhos.

– Não acho que vá ser difícil viver aqui – disse ela. – É uma casa tão bonita... Tão grande... Tão moderna...

– Isso é coisa do Dr. Duarte – retrucou Raimunda. – Se fosse pela patroa, estaríamos morando perto das famílias antigas.

– O que é isso, afinal? Todo mundo fica falando de famílias novas e antigas. Não estou entendendo nada.

– Logo você vai entender. Não é muito diferente das brigas entre famílias lá no interior. Você é do interior, não é?

– Sou.

– O seu pai é coronel?

– Não.

– Fazendeiro?

– Não.

Raimunda se calou. Depois, apontando para a água já suja, disse:

– Lave aí embaixo.

E virou de costas. Um tanto desajeitada, Emília pegou o sabonete.

– E você, é do interior? – indagou, segurando-se bem nas bordas ao sair da banheira.

– Sou – respondeu Raimunda, ajoelhando-se para enxugar os pés da moça.

– Por que veio para o Recife?

Raimunda começou a esfregar a toalha no tronco de Emília.

– Você não devia ficar me fazendo perguntas – disse.

– Por quê?

– Porque não.

– Mas você fez.

– E se você tivesse um pingo de juízo, não teria respondido.

– Não estou entendendo – disse Emília. Estava com frio. Queria pegar a toalha e se enxugar sozinha. – Achei que você estava sendo gentil.

– Não estou em posição de ser sua amiga. E você não está em posição de permitir que eu seja – respondeu a criada.

Passou a toalha com força no cabelo de Emília e então parou. As duas ficaram frente a frente. Raimunda parecia a um só tempo compreensiva e irritada. Parecia até tia Sofia olhando para a despensa praticamente vazia, onde só havia farinha de mandioca azeda e verduras murchas, e tendo de imaginar um jeito de aproveitar aquilo. Raimunda abriu uma latinha de um talco perfumado.

– Não estou em posição de lhe dar conselhos – disse. – Não sou sua mãe – acrescentou, despejando um pouco daquele pó no peito de Emília e debaixo dos seus braços. – Mas, quando a gente está cercada de sapos, o melhor a fazer é aprender a pular.

 

5

 

A cama de casal era sólida e robusta. Segundo dona Dulce, o móvel pertencia à família desde que o primeiro contingente do Exército holandês tomou Recife dos portugueses, três séculos atrás. Um dos seus ancestrais holandeses, um Van der Ley, tinha ficado tão encantado com o caju nativo que mandou entalhar essas frutas na cabeceira. A partir de então, toda recém-casada da família Van der Ley passava a noite de núpcias naquela cama. E, embora ela agora fosse uma Coelho, com Emília não deveria ser diferente.

A estrutura maciça do móvel nem de longe se parecia com os quatro paus tortos que sustentavam o seu colchão de palha em Taquaritinga. E os lençóis! Luzia teria levado meses para fazer aquelas fileiras de florezinhas azuis e brancas que se entrecruzavam por toda a colcha e faziam o acabamento das bordas das fronhas. Parecia um pecado amassá-los, deitar a cabeça naqueles travesseiros de formato tão perfeito... Emília ficou parada ali ao lado. A noite estava úmida e nublada. O talco perfumado debaixo dos seus braços já estava gosmento por causa do suor.

Pelo corredor, ouvia-se uma voz chiada de mulher vinda do fonógrafo dos Coelhos.

– Estou com pressa – disse ela, primeiro em português e, depois, numa língua estranha e entrecortada.

– I am in a hurry – repetiu Degas, e a sua voz percorreu o corredor e penetrou no quarto.

Depois do jantar, o rapaz pegou os discos do seu curso de inglês e se trancou no quarto em que dormia quando solteiro.

– Tenho de voltar para os meus estudos – disse ele, dando-lhe um beijinho rápido na testa.

– Bom dia, senhora. Good morning, ma’am – cantarolou a voz.

– Good mor-ning, maaaam – repetiu Degas.

Emília examinou a camisola. Ela própria a tinha feito, pregando renda nas mangas japonesas, abrindo uma fenda vertical bem certinha, com a bainha perfeita, que começava logo abaixo da barriga. Aquela camisola, juntamente com umas outras dez, tinha sido feita para as sobrinhas de dona Conceição e guardadas no baú do seu enxoval. No dia do casamento de Emília, a mulher do coronel lhe entregara um embrulhinho macio, sussurrando: “Para a sua noite de núpcias.” Emília não abrira o presente para admirá-lo. Já sabia o que era. Luzia e ela tinham bordado todas aquelas camisolas com minúsculas cruzes vermelhas no ponto em que se abriam as fendas. Enquanto bordavam, riam sem parar. Tia Sofia mandara que se calassem. “Quando chegar a hora, essas cruzes vão ser um consolo para as moças”, esbravejou ela. “Ao se deitar, vão se lembrar de Deus.”

– Com licença, senhor – disse o disco.

– Excuse-me, sir – repetiu Degas.

Emília se ajoelhou no assoalho de madeira. De mãos postas, como tia Sofia lhe ensinara, rezou para Nossa Senhora, pedindo graças e auxílio. A Virgem, porém, pensou a moça, tinha tido a sua primeira relação com Deus. Não teve de esperar, nervosa, suando, que o marido terminasse aquelas aulas de inglês e viesse se deitar ao seu lado. Nossa Senhora não teve de usar uma camisola aberta na frente. E, mais tarde, quando se deitava com José, já sabia o que fazer. Já tinha tido relações com Deus, portanto com um homem deveria ser bem mais simples. Emília se levantou. Não estava conseguindo se concentrar nas orações.

– É urgente.

– It’s urgent.

Abriu então o imenso guarda-roupa que ficava ao lado da cama. Estava vazio, a não ser pelos dois vestidos que trouxera de Taquaritinga, a bolsa de viagem vazia e umas poucas peças de roupas de baixo. Com todo o cuidado, tirou o retrato de primeira comunhão do seu esconderijo sob as calcinhas. Desfez o embrulho e ficou olhando para a irmã caçula. Os seus olhos estavam arregalados. O braço aleijado, à mostra. A renda que deveria cobri-lo tinha escorregado; a câmera capturou o paninho em plena queda, pairando pouco acima do chão, branco e esvoaçante como um pássaro. Voltou novamente os olhos para o leito nupcial. O que Luzia faria se estivesse no seu lugar? Esperaria? Rezaria? Nem uma coisa nem outra, disse consigo mesma. Luzia não teria se casado com Degas.

Do outro lado do corredor, veio o ruído do fonógrafo sendo desligado. Emília sentiu uma palpitação no peito. Escondeu o retrato com cuidado e correu para a cama. O colchão era duro. Os lençóis, duros de goma. A moça ajeitou bem o cabelo, espalhando-o pelo travesseiro, e ficou deitada ali, imóvel. Degas não acendeu a luz quando entrou no quarto. Tirou o roupão um tanto às pressas e se deitou ao seu lado. Emília fechou os olhos. Pensou em todas aquelas mulheres Van der Ley, pálidas e destemidas, como dona Dulce. Pensou nas velhas fofoqueiras de Taquaritinga. Todo mundo a chamara de ambiciosa, perdida e até mesmo louca. Mas ninguém jamais a chamara de medrosa. Por baixo do lençol, estendeu a mão e segurou os dedos de Degas.

– Emília! – exclamou ele, espantado.

– Sim? – retrucou ela.

– Tivemos um dia longo – disse o rapaz, desvencilhando-se da mão dela. – É melhor dormirmos.

Emília sentiu a ansiedade ir desaparecendo, substituída pelo aborrecimento. Tinha se preparado para aquela noite, para cumprir com o seu dever, e tudo para quê? Para ver Degas se esquivar ao seu? É claro que ele estava cansado, depois de ficar acordado até tão tarde ouvindo aqueles discos.

– Por que está estudando inglês? – perguntou. – Você já não sabe?

– Não tenho com quem praticar aqui – respondeu ele, ajeitando-se na cama. – Quero manter a fluência e a pronúncia correta. Se eu voltar para a Inglaterra, não quero estar enferrujado.

– Voltar? – indagou ela, virando-se para o marido.

Degas tinha dito eu e não nós.

– Só de viagem – disse ele, com um suspiro, como se houvesse percebido alguma irritação na voz da mulher. – Sei que você deve estar se sentindo sufocada, Emília. Vai precisar de algum tempo para se adaptar. Eu mesmo levei anos, quando voltei da Inglaterra. Imagine só, voltar para esse calor terrível? E com essa eletricidade precária? A minha mãe ainda usando penicos; o meu pai esbravejando sobre medidas cranianas, e essas malditas Nossas Senhoras por todo lado.

– Não me importo com as imagens.

– É – disse ele. – Talvez você goste daqui.

– Você não gosta? – perguntou ela.

Degas ficou olhando para o teto. Falou bem devagar, como se estivesse rezando:

– Toda vez que volto para cá, tenho que aprender as regras do jogo novamente. Ninguém gosta disso.

– E que regras são essas? – indagou a moça, preocupada.

Na casa de tia Sofia, era obrigada a seguir tantas regras bobas... Tinha esperanças de que, na cidade, as coisas fossem menos rígidas.

– Aquele tipo de regras que ninguém menciona – respondeu Degas. – É difícil de explicar.

– Mas, então, como é que a gente pode seguir o que não sabe?

– Acho que não precisa se preocupar com isso agora.

Aquele “agora” ficou pairando no ar entre os dois como um mosquito, zumbindo nos ouvidos de Emília. Não precisava se preocupar com as regras tácitas agora, mas depois precisaria? Lembrou-se do discurso de dona Dulce no quintal.

– A sua mãe não gosta de mim – sussurrou.

– É da situação que ela não gosta – retrucou Degas, suspirando. – Tente entender: mamãe é muito ligada à tradição. Queria um casamento suntuoso para mim. Ela vai precisar de tempo para aceitar tudo isso. E, mesmo que não gostasse de você, jamais iria demonstrá-lo. Ela nunca vai tratar você mal, Emília. A minha mãe se orgulha de sua compostura. Mas ter outra mulher aqui é uma mudança e tanto. Ela sempre foi a dona desta casa. Isso é bom, não é? Você não ia querer ter a responsabilidade de tomar conta de uma casa, ia? Deixe que ela continue sendo a dona. E você fica sendo a minha esposa. Aí ela vai entender que a minha escolha foi acertada.

Ele se aproximou. Emília se enrijeceu. O seu coração começou a bater mais forte. Era sua esposa e teria de cumprir o maior dos deveres que vem junto com esse título. Fechou os olhos, pronta para fazê-lo.

Degas apertou os dedos dela.

– Boa noite, Emília – disse ele, e virou para o outro lado.

 

6

 

Uma semana depois que Emília chegou àquela casa, o cata-vento parou o seu lento girar. Os dias quentes e sem vento obrigaram o Dr. Duarte a desligar as fontes. O barulhinho do chafariz foi substituído pelo zumbido do motor a diesel bombeando água pelos canos de ferro da casa. A figura meio cavalo, meio peixe que ficava no centro do pátio perdeu o seu brilho luzidio. Os tapetes do corredor cheiravam mal, como se todos os resíduos que porventura houvessem se depositado nas fibras da sua lã – sapatos sujos, respingos de bebidas, bandejas de café da manhã derramadas – começassem a evaporar ao mesmo tempo no calor do verão. As samambaias murcharam. Só aquelas flores de pétalas espessas e cerosas continuaram viçosas. As diversas pitangueiras bem-podadas, que escondiam as dependências dos empregados com aparência de coisa velha, ficaram brancas de tão floridas. Milhares de abelhas circulavam ao seu redor. Degas tirou o Chrysler Imperial do seu lugar habitual, na frente da casa e à vista de todos, para deixá-lo à sombra, no quintal lateral. Até os jabutis do Dr. Duarte evitavam o calor, indo mastigar as suas folhas de alface nos poucos locais sombreados do pátio.

Só pela manhã, antes que o sol se tornasse insuportável, a casa dos Coelhos parecia realmente viva. Bem cedinho, a carrocinha do gelo entrava pelo portão da frente. Da janela do quarto, Emília via aqueles homens enluvados botarem os grandes blocos fumegantes num carrinho de mão e levá-los para a cozinha. Via também a carrocinha do leite e as empregadas carregando para dentro os baldes metálicos cheios do líquido espumante.

No quintal lateral, o Dr. Duarte fazia o seu ritual matinal de tocar as pontas dos pés, erguer as pernas, revirar o corpo. Na primeira vez em que a moça viu essa cena, achou que o sogro tinha enlouquecido.

– É a minha calistenia – bradou ele, entusiasmado, quando viu que a nora o estava observando. – Os exercícios diários oxigenam o cérebro!

Depois de se exercitar, o Dr. Duarte saía pelo portão e ia inspecionar o muro de concreto que cercava a casa, à cata de rabiscos. Se encontrava algum, anotava onde estava o desenho e de que tamanho era. Um dia, durante o café da manhã, começou a contar, entusiasmado, o que aconteceu quando pegou um menino urinando no muro. Em vez de castigá-lo, o Dr. Duarte o chamou e mediu o seu crânio.

– Adivinhem o que foi que descobri? – indagou ele. E, depois de tomar um gole da viscosa mistura de água com limão, ovos crus e pimentas-malagueta, declarou: – Orelhas assimétricas!

Era raro o seu sogro falar dos seus negócios ou dos seus empréstimos. Considerava-se um homem de ciência. À tarde, ia visitar os seus armazéns, encontrar os partidários políticos no British Club e, em seguida, trancava-se no escritório, às voltas com as publicações científicas. Quase toda semana, recebia pacotes vindos da Itália e dos Estados Unidos. Uma vez, a empregada abriu um deles e Emília pôde ver o que havia ali dentro. Na capa de uma das revistas, havia um desenho de um crânio humano dividido em diversas partes.

A moça não entendia muito bem as ideias do sogro, mas assentia sempre e era comum que deixasse o seu café esfriar para dar toda atenção ao Dr. Duarte. Ele não falava mais devagar, nem usava palavras mais corriqueiras ao conversar com ela, como fazia dona Dulce. E, desde que tinha voltado para a Universidade Federal, Degas mal lhe dirigia a palavra. Andava agora apressado e distraído, saindo logo depois do café da manhã e só voltando tarde para jantar. Disse-lhe que passava as tardes na biblioteca jurídica e as noites discutindo casos com Felipe e outros colegas em São José. O Dr. Duarte tolerava os atrasos do filho, já que se deviam a motivos intelectuais.

– Lembre-se – repetia com frequência, antes mesmo que Degas pedisse licença para levantar da mesa –, a embriaguez inflama as paixões. Turva as faculdades mentais e morais.

Dona Dulce passava o dia comandando os empregados da casa. Além de Raimunda e da mocinha que a recebera no primeiro dia, havia uma mulher corpulenta, que era a lavadeira, e uma cozinheira já mais idosa, com tornozelos grossos e inchados. Uma mulher de pele escura e flácida como uma ameixa era encarregada de passar a roupa. Seu Tomás cuidava do jardim e conduzia a charrete. E tinha ainda um moleque que ia à rua quando necessário, rachava lenha e levava diariamente os urinóis para despejá-los no local misterioso destinado a esse fim.

Naqueles longos dias abafados do verão, o único som que se ouvia na casa vinha da cozinha. O corredor que dava para os fundos era escuro e quentíssimo. Tinha cheiro de fumaça e de alho, ou de penas molhadas de galinha e frutas maduras. Era comum Emília ficar parada ali, de olhos fechados, só para sentir aqueles cheiros que lhe lembravam a cozinha de tia Sofia. Mas esta era a única semelhança entre as duas casas. A dos Coelhos era grande, azulejada e repleta de utensílios modernos. Mas apesar da insistência de seu sogro na modernidade, a cozinha era o reino de dona Dulce. O fogão a gás só era usado para esquentar água. Diariamente, pela manhã, a cozinheira acendia o fogão a lenha, todo de tijolos, para preparar as refeições. Em vez de usar o ferro elétrico, a empregada de pele de ameixa passava as roupas usando um ferro a carvão bem pesado. Atrás da cozinha, ficava um tanque enorme onde a lavadeira, de braços morenos e musculosos, esfregava toda a roupa da casa. E, no quintal dos fundos, havia um pequeno galinheiro e um velho cepo escurecidos por anos de estripação e de limpeza.

A terra pantanosa de Madalena era propensa a mosquitos, lagartos, chuva, mofo, apodrecimento e ferrugem. Diariamente, dona Dulce lutava contra essas tendências. Circulava pela casa cheirando cortinas e lençóis, com os olhos cor de âmbar sempre à cata de aranhas, poeira, arranhões ou qualquer outro elemento indesejável. Sem erguer a voz ou franzir o cenho, ia comandando a criadagem na realização das tarefas habituais e estabelecendo novas.

– As criadas são como crianças – disse ela. – Podem até ter boas intenções, mas isso não conta. Precisam ser disciplinadas para fazer as coisas do jeito que a patroa gosta e não de forma diferente.

À tarde, punha o avental de bordas em festonê e se dirigia para a cozinha. Tinha sido criada num engenho, filha e neta de produtores de cana, e acreditava na necessidade do açúcar. Na despensa dos Coelhos havia vários tonéis repletos, com as tampas lacradas com cera e cobertas com um paninho. Nem nos armazéns de Taquaritinga Emília tinha visto tanto açúcar assim. Com uma concha, dona Dulce ia derramando quilos e quilos nos tachos de cobre de fazer geleia. Depois, com a mesma facilidade e eficiência com que abria a correspondência com o corta-papel de prata, ia tirando a polpa das goiabas. Tirava os caroços das jacas. Cortava limões ao meio e amassava bananas. Ficava então vigiando a cozinheira que misturava a calda com as frutas, mas nunca se aproximava dos tachos ferventes porque, segundo declarava, uma dama nunca mexe em panelas.

A moça tentava demonstrar interesse por aqueles cuidados domésticos e pelo preparo das geleias. Dona Dulce acreditava que a respeitabilidade começa em casa, mas Emília queria estar lá fora. Já tinha cozinhado e limpado o bastante em Taquaritinga. No Recife, queria ver a cidade, ir a almoços, passear pelos parques. A sogra sempre lhe dizia que as jovens senhoras de respeito não ficam andando sozinhas pelas ruas, sem ter um destino certo. As mulheres respeitáveis marcavam compromissos sociais. Até ter a sua própria agenda, tudo o que lhe restava fazer era ficar quieta.

Cansada da cozinha, Emília tentou ocupar o tempo bordando na parte sombreada do pátio, mas acabou tendo de abandonar o seu bastidor. As empregadas trouxeram os tapetes empoeirados do corredor para o pátio e começaram a batê-los, fazendo-a espirrar e ficar com os olhos marejados. Quando procurou alguma tranquilidade no quarto, elas decidiram arejar o colchão e afofar os travesseiros. E se quisesse circular pelos corredores, as criadas estavam sempre atrás dela, encerando o chão e esfregando os espelhos com amônia.

A casa dos Coelhos a fascinava com aqueles corredores largos e aqueles aposentos apinhados. Havia mesas maciças cujos pés entalhados pareciam patas de aves agarrando uma bola de madeira. Havia cadeiras com espaldar de couro rachado, preso por tachas de metal descoradas. Havia cristaleiras onde se guardavam antigas tigelas de cristal e cálices arranhados. Emília ficava frustrada ao ver dona Dulce encher assim a casa de coisas velhas e quebradas quando podia perfeitamente comprar tudo novo. O que mais a desconcertava, porém, era a limpeza impecável do lugar. Deixou cair fiapos de linha no chão. Entortou a posição de uma almofada na poltrona. Deixou a marca dos dedos nas cristaleiras. Tirou da prateleira um dos livros encadernados em couro e não o pôs de volta na estante. Mas, no dia seguinte, lá estava ele no seu devido lugar. Tinham ajeitado a almofada. Varrido o chão. Limpado o vidro do móvel.

Emília dava umas voltas pelo jardim, à sombra das pitangueiras. Seu Tomás, que cuidava daquilo tudo, estava sempre circulando furtivamente por ali. Tinha ordens expressas para ficar de olho na moça, como se ela fosse uma criança desobediente à espera da primeira chance de escapulir pelo portão de entrada. Emília suportava essa e outras humilhações. À mesa, os seus guardanapos estavam sempre maldobrados. Muitas vezes, a sua colher de café tinha uma sujeirinha qualquer. As suas toalhas de banho nunca estavam bem secas. As pregas dos seus vestidos não eram bem-passadas.

Embora reparasse em cada detalhe dentro daquela casa, dona Dulce não notava o desleixo das criadas com relação a Emília. Ou fingia não notar. A sua sogra nunca repreendia as empregadas por falhas específicas, mas vivia dizendo que elas tinham de “tratar a esposa de Degas com respeito e obedecer-lhe como se fosse a patroa!”. Quanto mais dona Dulce mandava que lhe obedecessem, mais relaxadas elas se tornavam. Se a sua sogra fosse abertamente má com ela, a criadagem talvez lhe demonstrasse alguma simpatia. Poderiam até considerá-la uma aliada. No entanto, quanto mais dona Dulce a punha numa posição superior, mais as empregadas a detestavam. Por já ter trabalhado na casa do coronel, Emília conhecia muito bem as invejas mesquinhas que a patroa pode provocar em meio à criadagem e, às vezes, no seio da própria família. E desconfiava que dona Dulce também sabia disso muito bem. Sempre que Emília se aproximava das áreas de serviço da casa, as criadas se calavam. Só Raimunda lhe dirigia a palavra, perguntando se estava precisando de alguma coisa. A moça então inventava algo – um copo de água, mais linha de bordar, uma fatia de bolo. Certa vez, quando estava saindo, ouviu as empregadas rirem. “Matuta!”, disse uma delas. “Vai ver nunca comeu bolo na vida!”

Degas tinha lhe dito que todas aquelas mulheres moravam em barracos nas regiões alagadiças de Afogados e Mustardinha, mas tinham nascido na capital e o simples fato de serem recifenses as fazia se acharem superiores a Emília. No interior, ela teria sido considerada uma esposa excelente. Sabia fazer farinha de mandioca, moer o milho para fazer fubá, plantar feijão, fazer um vestido para uma senhora e uma camisa para um cavalheiro. De repente, aqueles talentos tinham se tornado defeitos ali no Recife. Ela não tinha um sobrenome. Não era filha de coronel nem parente de fazendeiro rico. Não era ninguém, e aqueles guardanapos maldobrados, as colheres sujas e as toalhas úmidas eram o jeito que as empregadas encontraram de fazê-la lembrar disso.

Em Taquaritinga, Degas tinha lhe prometido lindos vestidos, uma festa de casamento, um passeio de automóvel. A única promessa que se concretizou foi a comunicação do casamento, poucos dias depois de sua chegada ao Recife. A notícia saiu na coluna social do Diário de Pernambuco, sem uma foto sequer.

Continuar: parte 2 de 3