Entre irmãs
Capítulo 7
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Emília
Recife
Setembro de 1929-dezembro de 1930
1
O concurso Anual de Sombrinhas da Sociedade Auxiliadora Feminina do Recife era realizado na última semana de setembro. Tarde o bastante para não ser ofuscado pelas turbulentas paradas da Independência, mas cedo o suficiente para evitar o calor abafado de outubro. Naquele ano, a competição aconteceu na praia de Boa Viagem.
Degas foi dirigindo o carro. Emília ia no banco de trás do Chrysler Imperial, ao lado de dona Dulce, que segurava firme o braço de couro que as separava. Degas preferia a velocidade à cautela. Ia desviando das carroças de burro e esbarrando no meio-fio. No banco do carona, o Dr. Duarte se remexia, agoniado. “Para que tanta imprudência?”, murmurava. A cada guinada ou solavanco, o seu rosto enrubescia e ele se agarrava mais às bordas do assento. Ameaçou várias vezes contratar um motorista. Degas só fazia sorrir. Os automóveis ainda eram novidade no Recife e saber dirigir era uma habilidade de luxo, como ler e pintar. Havia poucos motoristas competentes na cidade e Degas se considerava um deles. O Dr. Duarte resmungava. Emília era a única que gostava do jeito de dirigir do marido. Estava louca para ver o mar.
Anos atrás, a prefeitura construíra uma ponte atravessando o terreno pantanoso da ilha de Pina, permitindo o acesso à praia de Boa Viagem de carro ou de charrete. Pouco tempo depois, instalaram a linha do bonde e, mais tarde, a avenida principal foi pavimentada. Na época em que Emília já começava a se acostumar ao Recife, Boa Viagem era um local de veraneio popular bem conhecido. As cabanas de pescadores construídas na beira da praia, com os seus tetos de sapê, haviam sido substituídas por mansões de tijolos e alvenaria.
A baronesa tinha convidado Emília para participar do concurso de sombrinhas. Tinha dito que era uma competição boba – cada concorrente recebia uma sombrinha lisa e tinha três semanas para enfeitá-la –, mas que os resultados compensavam o trabalho aborrecido. O prêmio para a vencedora era se tornar membro da Sociedade Auxiliadora. Emília passou um dia inteiro ornamentando a sua sombrinha, inspirando-se no quintal de tia Sofia para cobri-la de desenhos: espigas de milho de seda amarela, dálias de crepe vermelho, gotas de chuva de continhas azuis. Fez questão de que os seus bordados fossem coloridos, mas simples, pois não queria parecer ávida demais. Desconfiava que as juradas já teriam decidido qual seria o resultado bem antes do próprio concurso. No ano anterior, haviam admitido Lindalva, embora a moça tivesse se limitado a prender com alfinetes uns trechos de poemas à sua sombrinha, e isto a caminho da competição. Afinal, a mãe dela era a baronesa. Alguém que não tivesse um membro da família na Auxiliadora precisava ser aceito ali pelos próprios méritos. Precisava pertencer a uma das famílias novas. Precisava demonstrar alguma prenda, como a costura, a pintura, a música ou, no caso de Lindalva, a oratória. E, acima de tudo, precisava ser uma pessoa interessante, já que as mulheres da instituição detestavam reuniões aborrecidas. “Mas você não deve ser interessante demais”, alertou-a a baronesa. “Porque senão acaba sendo vulgar.”
Nos nove meses que se seguiram ao episódio tão desconcertante do seu primeiro Carnaval no Recife, Emília fora apresentada a todos os membros da Auxiliadora. Uma a uma, as mulheres apareciam na casa da baronesa exatamente nos dias em que ela ia visitar Lindalva. Tomavam café juntas na varanda e, nessas ocasiões, as senhoras podiam inspecionar Emília com toda a calma.
– Ah! – diziam elas, passando o lenço bordado na testa para enxugar alguma gota de suor invisível. – Isso aqui deve ser muito diferente do sertão...
Era raro dizerem campo ou interior. Preferiam a palavra sertão, termo que fazia Emília se lembrar dos cantinhos empoeirados de uma gaveta ou gabinete bem inacessível. Um espaço escuro cheio de coisas esquecidas, que as pessoas só abriam nos momentos de necessidade ou de nostalgia, para logo voltarem a fechar.
Com o tempo, as senhoras que participavam da Sociedade Auxiliadora passaram a estender a Emília os convites para chás, almoços e jantares dançantes no Clube Internacional. Em cada um desses encontros, todas a fitavam com fascínio e um toque de desconfiança e pena, como um animal selvagem que alguém resolve manter em cativeiro, como bichinho de estimação, mas no qual jamais confia inteiramente. A moça compreendeu que a sua amizade com a baronesa tinha feito dela uma personagem socialmente influente; a possibilidade, porém, de haver algo de suspeito nas suas origens a tornava atraente aos olhos daquelas mulheres. Com isso, foi declarada interessante.
Como costureira do coronel e de dona Conceição, Emília tinha aprendido a ser uma boa empregada: era preciso observar atentamente a patroa, entender as suas mudanças de humor, decifrar os seus desejos e saber como se tornar imediatamente, e a um só tempo, disponível e invisível, dependendo da situação. Agora, usava essas habilidades com as mulheres do Recife. Ria nos momentos adequados. Era decidida, mas sem demonstrar sofreguidão. Aprendeu quando devia ser uma ouvinte acolhedora e quando virar a cabeça, fingindo dar alguma privacidade àquelas mulheres. Mas não podia ser obsequiosa demais. As senhoras do Recife tinham passado a vida toda mandando nos seus empregados. Se assumisse a atitude de uma criada, seria tratada como tal. Precisava, então, temperar a sua natureza cordata com opiniões firmes.
Passou a pegar livros das prateleiras da biblioteca dos Coelhos e se forçar a lê-los. No começo, os romances, os poemas e os livros de geografia eram difíceis de entender, mas a leitura avançava, mesmo que a duras penas. Ia procurar as palavras mais complicadas no velho dicionário de Degas. Leu inúmeros jornais e estudou as novas revistas estrangeiras do Dr. Duarte, bem como os manifestos dos boletins feministas de Lindalva. Foi lendo que Emília aprendeu que a distinção entre o que era vulgar e o que era aceitável variava quase tanto quanto a bainha dos vestidos das mulheres. Algo considerado inadequado num mês tornava-se vanguarda no seguinte e, em pouco tempo, passava a ser a última moda.
O Recife, como as outras capitais brasileiras, estava se modernizando. As senhoras começavam a pôr os pés fora de suas casas cercadas de grades para ir ver filmes mudos nos cinemas escuros. Estavam trocando os impecáveis jardins da praça do Derby pela rua Nova, fazendo agora a sua “excursão” num local onde havia casas de chá e orquestras de jazz. No Rio, fotos das praias mostravam mulheres usando maiôs sem mangas, com decotes perigosamente cavados. E, graças à campanha presidencial e às eleições que se aproximavam, até o voto tinha se tornado coisa aceitável. Lindalva convenceu a Sociedade Auxiliadora a empreender uma campanha pelo direito ao voto para as mulheres alfabetizadas. Votar, argumentava ela, era um dever moral como outro qualquer: criar os filhos, cuidar da casa e preparar os jovens líderes do futuro. As sufragistas não incluíam entre as suas reivindicações o direito ao divórcio ou à posse de bens próprios, mantendo tais liberdades afastadas da sua campanha com o mesmo rigor com que dona Dulce separava a comida na despensa – pondo o feijão preto e o pernil de porco na parte reservada à criadagem, embora certa vez tenha admitido para a nora que, nas noites frias e chuvosas, ficava louca para comer essas coisas gordurosas. Como a maioria das patroas, jamais cedia a esses desejos. Eles eram inconvenientes, dizia dona Dulce, e seria de mais para qualquer marido aceitar a ideia de ver a sua esposa ingerindo tais comidas.
Dona Dulce não era sufragista. Olhava as notícias dos jornais com repulsa e um tremor de medo. Não eram só as datilógrafas, as professoras primárias ou as telefonistas que estavam caindo no que ela chamava “turbilhão da vida moderna”; as mocinhas de boa família se encontravam na mesma situação. Acreditava que Emília também era vítima desse movimento. A moça fingia desconsiderar a sogra, mas, no fundo, usava-a como um sinal de alerta para não ir longe demais com suas opiniões e ambições. Como as mulheres da Sociedade Auxiliadora, Emília tinha de manter o delicado equilíbrio entre ser moderna e respeitável.
Em Boa Viagem, as associadas da Auxiliadora circulavam por todo lado, cumprimentando as concorrentes que exibiam as suas sombrinhas. Cravadas na areia firme perto da beira da estrada, havia várias fileiras de cadeiras de madeira reservadas para os jurados e os convidados. Emília ficou um tanto à margem da multidão, junto a um coqueiro. Não queria se misturar. Sua sombrinha continuava fechada, esquecida em suas mãos.
À sua frente estava o mar, imenso e escuro, da cor de um hematoma. Ele não era verde, como tinha imaginado. Como tudo o mais no Recife, o mar não correspondia à imagem que fazia dele. Toda aquela água a deixou assustada. Na orla da praia, ondas enormes e espumantes avançavam e recuavam. Emília fechou os olhos. O ruído da arrebentação parecia roupa sendo rasgada.
– Emília! – gritou uma voz feminina, esbaforida e apressada.
Ao abrir os olhos, viu Lindalva, que caminhava a passos rápidos na sua direção.
O jeito de se vestir da amiga, antes displicente, meio boêmio, havia sido substituído por uma saia verde pregueada combinando com um cardigã. Quando viu o traje pela primeira vez, no corpo de uma tenista britânica famosa em uma das revistas de Dr. Duarte, Emília o chamara de “conjuntinho”. Admirava a saia alinhada e a blusa prática do uniforme de tênis. Inspirada nessas fotos, enfurnou-se no quarto, sentou-se diante da Singer novinha em folha e fez um conjuntinho para si mesma. Quando Lindalva viu o modelo, cismou que queria um também. Emília deu instruções à costureira da baronesa com relação ao feitio, ensinando-lhe como fazer as pregas. Várias senhoras da Sociedade Auxiliadora vieram abordá-la para saber se também poderiam ter aquele molde para passá-lo às suas modistas. Em pouco tempo, toda mulher de alguma influência no Recife tinha um daqueles trajes. Nos eventos sociais, elas pararam de se referir às origens de Emília ou de lhe fazer perguntas sobre o sertão. Agora, só queriam saber de moda. Nessas conversas, o comportamento das mulheres mudou – ficavam assentindo, sorrindo, tratavam-na até com deferência. Emília percebeu que a admiração não era provocada apenas pela condição social ou pelos modos educados, mas também pelas ideias. O seu talento era capaz de apagar o seu passado.
Lindalva a beijou no rosto. Com um gesto rápido, tirou a sombrinha das mãos da moça e a abriu. Examinou o trabalho com cuidado.
– Um tema campestre! Ah! Os jurados vão adorar! – disse ela. – Assim que toda essa bobagem terminar, você vai ser membro da Auxiliadora e poderemos nos dedicar a assuntos mais importantes. Encontrei uma moça. É muito despachada. Diz que sabe costurar. É claro que você vai ter que avaliar se ela costura bem. E depois vamos precisar de um local. Não pode ser na casa da minha mãe, pois todos vão nos ver entrando e saindo com roupas e costureiras. Temos de arranjar instalações próprias...
– Está certo – atalhou Emília, segurando a mão de Lindalva. Já tinha se acostumado a conter a constante tagarelice da amiga. – Quero que as costureiras tenham um bom local de trabalho: um aposento com janelas e ar fresco. E não podemos mantê-las diante das máquinas o dia inteiro. Quero ver se algumas das senhoras da Sociedade Auxiliadora se apresentam como voluntárias para lhes dar aulas. Para ensiná-las a ler.
– Que ideia brilhante! – exclamou Lindalva, abrindo um largo sorriso que revelava os dentes separados. – Com isso, teremos mais eleitoras!
Apertou a mão de Emília e foi levando a moça até onde estava a multidão. Nos meses do inverno, quando as chuvas torrenciais faziam os cabos dos bondes estalarem nos fios elétricos, Emília e Lindalva se sentavam à varanda da baronesa e liam revistas que apoiavam o voto feminino. Quando Lindalva lhe mostrou como dançar o tango, uma dança que os jornais chamavam de “lasciva”, as duas não conseguiram parar de rir. De rosto colado e braços esticados, ficavam indo para um lado e para o outro na sala de estar da baronesa. E, depois que Emília criou os célebres conjuntinhos, as duas planejavam abrir o seu próprio ateliê. Copiariam os modelos mais recentes e mais ousados da Europa, trazendo-os para o Recife e criando roupas que seriam cobiçadas até pelas mulheres do Rio de Janeiro e de São Paulo. Emília seria a força criativa, ao passo que Lindalva ficaria responsável pelas finanças. Sendo uma mulher casada, Emília era legalmente tutelada pelo marido, como uma criança ou um membro demente da família. Qualquer empresa que criassem ficaria em nome de Lindalva. Assim, não precisariam da autorização de Degas e não teriam de lhe dar parte dos lucros caso tivessem sucesso. Mas, se fracassassem, Lindalva arcaria com o grosso do prejuízo.
Emília ficou encantada com a generosidade da amiga. Mesmo assim, desconfiava. Lembrava sempre o que lhe dissera dona Dulce: as mulheres do Recife fazem alianças, não amizade. Na presença de Lindalva, Emília tinha medo de falar demais, de retomar velhos hábitos ou até o seu sotaque do interior. Nunca mencionou Luzia. Não gostava de falar do passado, embora a outra lhe implorasse para contar como era “a vida de uma mulher que trabalhava”. Emília invejava a sorte de Lindalva. A amiga jamais precisava tomar cuidado para não cometer deslizes sociais. Não era casada e não precisava ser. Podia comprar as próprias roupas, organizar manifestações em prol do voto, debochar da sociedade do Recife e continuar sendo aceita por ela. E o pior era que Lindalva acreditava que qualquer mulher podia ter tal liberdade, desde que quisesse mesmo consegui-la.
No concurso de sombrinhas, Lindalva orientou Emília para se exibir diante dos jurados, que admiraram o seu trabalho. Ali perto, o Dr. Duarte conversava com os maridos das senhoras da Sociedade Auxiliadora. Degas fumava e olhava o relógio de bolso. Dona Dulce supervisionava a multidão. Estava de vestido e chapéu havana. Naquela época de campanha eleitoral, guardou as roupas azuis e verdes, preferindo adotar cores neutras. Segundo dizia, a política era coisa vulgar e queria se manter afastada de tudo aquilo. A cidade estava dividida em duas facções: verde e azul. Diariamente, apareciam fotos do candidato da oposição, Getúlio Vargas – com o uniforme militar amarfanhado, as botas de cano alto ocupando boa parte de sua figura atarracada –, de braços dados com seu companheiro de chapa, João Pessoa.
As famílias antigas não eram partidárias de Vargas. Temiam aquele candidato que julgavam populista, com essa história de pregar o salário mínimo, o direito ao voto para as mulheres e a votação secreta. A maioria dos chefes das famílias novas, entre os quais se incluía o Dr. Duarte, acreditava que Vargas e o seu partido verde modernizariam o Brasil. As mulheres do Recife, de ambas as linhagens, não se metiam em política, mas eram ferrenhas defensoras das opções dos maridos. Nos passeios pela praça do Derby, Emília reparou que as matriarcas das famílias velhas ostentavam joias com águas-marinhas e safiras. Usavam vestidos azuis e mandavam as modistas prenderem plumas iridescentes da mesma tonalidade nos seus chapéus. Na praia de Boa Viagem, porém, a predominância era da cor verde. As senhoras da Sociedade Auxiliadora preferiam as esmeraldas. Os seus maridos, inclusive o Dr. Duarte, usavam gravatas cor de menta, musgo e sálvia.
Emília também estava de verde. O seu chapéu clochê novo tinha uma única pluma verde-oliva presa à tira. Fora um presente de Degas. Ele tinha lhe dado inúmeros presentes nos meses que se seguiram ao Carnaval: cortes de fazenda para os seus novos modelos, xales bordados com contas, um par de sapatos de couro de crocodilo tão macios que pareciam até tecido ao toque das mãos. Também lhe deu um porta-joias bem grande, forrado de veludo, prometendo enchê-lo com os produtos vendidos pelo Sr. Sato, o joalheiro japonês que vinha à casa dos Coelhos uma vez por mês e espalhava, com todo o cuidado, a sua coleção de broches, anéis e pingentes na mesa de dona Dulce. Degas sempre lhe dava os presentes antes das refeições, diante de todos. Nessas estranhas ocasiões, o Dr. Duarte se postava ao lado do filho, radiante, e dona Dulce ostentava a sua máscara rígida e sorridente. Emília sabia o que se esperava dela.
Queriam um bebê. Diariamente, todos – Degas, o Dr. Duarte e dona Dulce – lhe perguntavam como estava passando e a vigiavam para ver se estava tomando o seu café da manhã. Todo mês, quando a moça pedia para ir à farmácia comprar produtos de higiene feminina, via a sogra se empertigar e contrair aqueles lábios descorados. O Dr. Duarte atribuía a infertilidade de Emília a algum transtorno uterino. Começou a lhe dar colheradas de óleo de fígado de bacalhau a cada refeição.
– Isso vai fortalecer os seus órgãos frágeis! – declarava, quando Emília tapava o nariz e engolia aquele óleo amarelado e de gosto horroroso.
Chegaram até a chamar um médico, um dos colegas do Dr. Duarte, para examiná-la. O sujeito apertou a barriga da moça, que ficou deitada na cama, imóvel, e declarou que ela era saudável, mas que talvez o clima úmido do Recife não lhe fosse favorável. Prescreveu umas pílulas de vitaminas que Emília botava diariamente debaixo da língua para depois cuspir. A moça resolveu então surrupiar umas notas de mil-réis do bolso das calças de Degas e entregou o dinheiro a Raimunda, pedindo-lhe que fosse ao mercado comprar casca de caju roxo. Com as cascas, Emília fez um chá que passou a tomar diariamente. Era uma velha receita de tia Sofia para algumas de suas clientes casadas e desesperadas porque não queriam voltar a engravidar. Emília vira moças da roça – suas ex-colegas de escola – ficarem pálidas e enfraquecidas de tanto engravidarem. Vira os seus peitos se tornarem murchos e deformados, como mamões passados. E pensava na própria mãe, que havia morrido porque as mãos grandes e hábeis da parteira só eram treinadas para salvar os bebês. Até mulheres do Recife, com as suas dietas rigorosas e os seus médicos atenciosos, morriam de parto, e numa quantidade que a deixava assustada e aborrecida. Não era apenas a possibilidade de morrer que a aterrorizava; correria esse risco de bom grado se quisesse realmente ter um filho. Mas não queria. Lá em Taquaritinga, sempre se imaginou como uma senhora fina, nunca como mãe. Acreditava que o desejo de ter um filho acabaria aparecendo, como a súbita vontade de comer alguma coisa diferente. No entanto, depois de um ano passado no Recife, compreendeu que uma criança a prenderia à casa dos Coelhos, justo no momento em que estava descobrindo um jeito de escapar dali.
Degas continuava a passar as manhãs na faculdade de direito, as tardes estudando com Felipe e as noites enfurnado no seu quarto de solteiro, ouvindo aqueles discos de inglês. Uma vez por semana, ia ao quarto da mulher. Ela botava a camisola com a fenda na frente e, quando Degas terminava, voltava para o quarto do outro lado do corredor. Já não lhe prometia festas de casamento ou viagens de lua de mel, o que a deixava bem feliz. Em público, os dois eram corretos e corteses um com o outro. Todo domingo, iam aos jantares dançantes do Clube Internacional e, durante as pausas da orquestra, quando os casais iam à sua mesa para elogiar os vestidos de Emília, com drapeados nas costas e echarpes de pontas irregulares, Degas se aproximava dela. Irritada, a moça afastava a sua cadeira. Havia horas em que tinha ímpetos de raiva e repulsa com relação ao marido. Em outras ocasiões, porém, sentia pena dele. Se Degas notava o seu sentimento, achava um jeito de repreendê-la, sempre com um tom de deboche.
– Não ponha tanto perfume. Assim você fica cheirando a pensão barata.
– Como sabe? – retrucava ela, entre dentes, entristecida pela forma como os dois se relacionavam.
Eram como dois galos obrigados a dividir o mesmo quintal: ambos orgulhosos, ambos condenados a bicar o outro para manter a dignidade.
A vida toda, tia Sofia a tinha alertado, dizendo que os homens eram uns brutamontes. Uma esposa devia suportar os desejos do marido até acabar se acostumando, até eles se tornarem algo tão natural quanto lavar uma blusa ou limpar uma galinha. Aquilo lhe parecia plausível, ou mesmo tolerável. Se uma pessoa tem prazer e a outra um nobre espírito de sacrifício, ambos saem ganhando. Mas, se não houver desejo, não poderá haver sacrifício, nem entrega virtuosa. Quando tanto o marido quanto a mulher encaram o desejo como um dever, tudo o que existe é temor. Tudo o que existe é uma estranheza forçada e desajeitada, e, depois, repugnância. Uma repugnância que se instala nas entranhas de ambos, como lodo. E vai se acumulando até começar a pesar a ponto de um não aguentar ver o outro pela frente. No cinema, a tela escurecia depois que os casais se beijavam. Degas dizia que nunca se mostrava nada além disso por uma questão de decoro. Emília, porém, estava convencida de que aquilo era feito de propósito. Aquela gente tinha entendido tudo: após aquele primeiro beijo assustador, não havia nada que valesse a pena mostrar.
Depois de passar semanas enfrentando a cobrança silenciosa dos Coelhos por um bebê, Emília decidiu revidar. Odiava ir à modista com dona Dulce. Tinha vergonha das roupas sem graça que usava. Queria fazer os próprios vestidos. Dona Dulce tinha lhe ensinado a arte de pedir com discrição, e a moça pôs em prática as lições da sogra. Disse a Degas e ao Dr. Duarte que sentia muita saudade de casa. Que sentia falta do barulho da velha máquina de costura, da sensação do tecido deslizando pelas pontas dos dedos. Contou-lhes que ela e a irmã adoravam fazer roupinhas de bebê e camisolas de batismo. Finalmente, Degas entendeu. Comprou uma Singer a pedal e mandou entregá-la na casa dos Coelhos. Dona Dulce não aprovava as criações da nora, com aquelas pregas. Dizia que eram esportivas demais. Mas o Dr. Duarte as declarou modernas e encantadoras, e Degas gostou da atenção que elas despertaram. Não tardaria muito, ambos estariam aparecendo na coluna social, disse ele, animado.
E tinha razão. No concurso de sombrinhas, antes de os jurados revelarem o nome da vencedora, um fotógrafo do Diário de Pernambuco levou as concorrentes até a praia. Mandou que formassem uma fila, com as sombrinhas abertas, diante da nova estátua de Nossa Senhora da Boa Viagem. Os pés de Emília afundavam na areia. Aquele solo parecia vivo, como se ficasse se movendo debaixo dos seus pés. Entrou areia nos seus sapatos e ela não gostou nada do atrito dos dedos nas meias de seda.
Havia alguns anos, os pescadores tinham posto ali uma estátua bem simples para que Nossa Senhora abençoasse as suas viagens. A velha imagem ficava perto de uma cabana de sapê, a vários passos de distância da nova. Esta era de gesso, instalada sobre uma pedra. Havia estrelas-do-mar esculpidas aos seus pés e o seu manto parecia água, formando espuma na altura da bainha. Tinha olhos azuis e a cabeça ligeiramente inclinada para um lado, como se algo no mar a houvesse intrigado. O seu rosto não parecia compassivo, nem misericordioso, mas apático. Inteiramente inexpressivo. Emília gostaria de ir ver a velha imagem que devia por certo parecer mais sensata; no entanto, as outras competidoras a cercavam, impedindo-a de sair dali e esbarrando na sua sombrinha.
A moça virou a cabeça. Na beira da água, tinha se formado um grupo de mulheres de pescadores. As ondas lambiam os seus pés grandes e descalços, às vezes subindo mais e molhando a barra das saias desbotadas que usavam. Estavam bem próximas umas das outras, com os braços morenos cruzados diante do peito, olhando para ela e as demais participantes do concurso. Tinham o rosto crestado, com um ar de permanente preocupação. Emília lhes sorriu. As mulheres a fitaram, sérias, desconfiadas diante do estranho bando que tinha invadido a sua praia.
– Olhem para a frente, senhoras – disse o fotógrafo. – Olhem para a frente.
As competidoras à sua volta sorriam, empolgadíssimas. Não ficaram olhando os próprios sapatos cobertos de areia. Não ficaram mexendo nas luvas. Viviam sem carregar as marcas da vida: nenhuma mancha de suor, ou cabelo em desalinho, ou unhas roídas. Emília teve vontade de dizer isso em voz alta. Queria que alguém a ouvisse. Dona Dulce a repreenderia por fazer semelhante comentário. Lindalva acharia aquilo uma gracinha. Só Luzia seria capaz de entender.
Durante todo o inverno, os jornais tinham trazido notícias sobre as tropas enviadas para capturar o Carcará. Não era fácil ler o jornal na casa dos Coelhos – o Dr. Duarte tinha prioridade e, em geral, recortava os artigos relativos aos criminosos, para fundamentar as suas teorias criminológicas, e os políticos, para levá-los às reuniões do British Club. Quando deixava de lado o jornal, ele tinha mais furos que os paninhos de crochê de dona Dulce. A sua sogra era o segundo empecilho: “Uma dama não lê o jornal assim abertamente”, repetia ela, “para qualquer um ver”. As mulheres finas não deviam se mostrar interessadas em vulgaridades. Dona Dulce era sempre a segunda pessoa a ler o jornal, trancada na sala de estar para que ninguém visse que percorria as colunas sociais de ponta a ponta. Degas se punha a par das notícias na faculdade. Emília era, portanto, a terceira da fila, mas só conseguia pegar o jornal bem mais tarde e a maioria das notícias que poderiam interessá-la já não estava mais lá. Não podia pedir ao sogro para ver o que ele havia recortado; uma dama não se interessa por cangaceiros e seus crimes grotescos. Era por isso que, sempre que ia à casa da baronesa, percorria os jornais da semana. Lindalva guardava os exemplares do Diário para a amiga, achando que o seu interesse era a política. Mas ela não dava a mínima para Vargas e o seu “Brasil Novo”. O que procurava era Luzia.
As notícias sobre o envio de tropas foram diminuindo à medida que a campanha presidencial se tornou mais hostil. Emília já estava achando que o capitão Higino e os seus soldados tinham se perdido na caatinga; até que, um dia, na segunda página do jornal, viu o texto intitulado “O Urubu”, pois haviam trocado o apelido do cangaceiro que raptara sua irmã. Diziam que ele havia armado uma emboscada para as tropas do governo, na fazenda do coronel Clóvis Lucena, e, depois, fugido para a Bahia. A moça recortou o artigo para guardá-lo no fundo da caixa de joias, junto com o retrato da primeira comunhão. Sozinha no quarto, leu e releu o texto milhares de vezes. O repórter afirmava que, entre os cangaceiros que haviam fugido, estava uma mulher: companheira daquela gente. Aquilo lhe pareceu muito estranho. Seria Luzia? Será que ela estava sendo mantida ali contra a sua vontade? A ideia a deixou assustada, mas Emília não conseguia acreditar nela. A sua irmã sabia muito bem o que queria, muito mais do que qualquer outra pessoa que conhecesse. Se não tivesse morrido ou fugido, era porque tinha ficado ali por vontade própria. Essa possibilidade a deixou mais assustada ainda.
Para afastar tais ideias da cabeça, fechou os olhos. Não voltou a abri-los nem mesmo quando ouviu o espocar do flash do fotógrafo. Sentia os pés afundando na areia.
Adoraria ter a irmã ao seu lado. Queria que estivessem as duas paradas ali na areia, de braços dados. Emília passara a vida toda se comparando a Luzia e definindo-se a partir dessa comparação. Lá em Taquaritinga, a estranheza do comportamento de Luzia fez surgir a sua própria pose. O temperamento agitado da irmã deu origem à sua brandura; a língua afiada, ao seu jeitão calado. Luzia não estava presente no Recife, mas Emília pensava nela diariamente, ressuscitando aquela irmã forte e esperta. Embora não se sentisse nem uma coisa, nem outra, era reconfortante pensar que Luzia o era. Tinham o mesmo sangue; talvez houvesse dentro dela alguma coisa da fortaleza de Luzia, portanto fazia questão de cultivá-la. Mas, depois de ler o tal artigo sobre os cangaceiros e sua “companheira”, começou a sentir a presença da irmã se desvanecer. As lembranças que tinha dela foram perdendo a nitidez. Quem era Luzia agora? E quem era ela própria, ao lado de uma mulher como aquela?
Decidiu se aliar a uma outra imagem. Nas revistas feministas de Lindalva, as mulheres eram instruídas e modernas. O que encantava a filha da baronesa era a própria noção de modernidade; Emília, porém, gostava era da aparência daquelas mulheres, do seu esplendor. Admirava os chapéus elegantes, os vestidos atrevidos, a imagem triunfante de se ver dirigindo um automóvel ou entrando numa seção eleitoral segurando uma cédula bem dobradinha. Na maioria das vezes, Emília se imaginava num ateliê com várias janelas, onde dezenas de Singers a pedal funcionavam sob seu comando.
Se assumisse o esplendor da modernidade, se usasse os vestidos certos, expressasse as opiniões certas, agisse de forma engenhosa e criativa, conseguiria angariar a admiração do Recife. Tinha abandonado os seus velhos sonhos de menina de se tornar dona de casa em sua própria casa. Já havia aceitado a ideia de que Degas jamais seria um professor delicado ou um marido amoroso. E, se não podia ser amada, decidiu que seria admirada.
– A vencedora é... a Sra. Degas Coelho! – exclamou uma mulher. Houve uma salva de palmas cortês, seguida de risos. – A Sra. Degas Coelho – repetiu a voz.
Emília abriu os olhos.
2
Um mês depois do concurso, veio a crise econômica. Os planos de Emília de abrir o próprio negócio tiveram de esperar. Era quinta-feira, dia que dona Dulce reservava para lavar as roupas de cama e arejar os colchões. As criadas dos Coelhos estavam numa atividade frenética, tirando os lençóis das camas e carregando aquelas trouxas brancas lá para baixo, pegando os colchões e arrastando-os até a lavanderia coberta para sacudi-los e borrifá-los com água de lavanda. Do seu quarto, Emília ouvia o ruído das imensas varas de ratã batendo no estofado dos colchões. Ouvia os gritos da lavadeira. Aproveitando-se daquele alvoroço, esgueirou-se até a cozinha, onde preparou o seu chá especial, e tomou uma quantidade tão grande que chegou a sentir o líquido se agitando na barriga. Quando estava bebendo o último gole, dona Dulce entrou na cozinha. Fitou a nora com frieza. Dirigiu-se então à lavanderia e mandou as criadas pararem com aquele trabalho.
– Fiquem quietas – disse ela. – O Dr. Duarte está muito nervoso.
O almoço foi rápido e em silêncio. Dona Dulce permitiu que o marido engolisse a comida e fosse ouvir rádio na sala de visitas. Degas acompanhou o pai, deixando Emília sozinha com a sogra e a sobremesa, um pudim de papaia com creme de cassis. Agitada, dona Dulce também saiu da mesa e foi para perto do som chiado do rádio. As fatias de pudim deixadas nos pratos começaram a derreter. A moça compreendeu que estava acontecendo algo importante e terrível.
No rádio, vozes longínquas e chiadas anunciavam que a Bolsa de Valores dos Estados Unidos tinha despencado. Degas e o pai passaram a tarde toda e entraram pela noite sentados ali ao lado. Emília não entendia nada dessas coisas de mercado financeiro. Como mercadorias tão úteis quanto açúcar, café e borracha podiam valer muito num dia e nada no outro?
Na sexta-feira, os locutores tinham um tom relutantemente otimista. Os Coelhos passaram todo o fim de semana à espera de notícias. Na segunda, os jornais e as estações de rádio anunciaram que as bolsas do mundo inteiro estavam despencando por causa dos acontecimentos de Nova York. O dia foi apelidado de “Segunda-feira Negra” e o seguinte, “Terça-feira Negra”. Os dias subsequentes não precisaram mais de rótulos, pois todos pareciam lúgubres. Recife entrou em pânico. Empresas fecharam as portas. A cozinheira reclamava, dizendo que não havia vendedores nos mercados. Começou a faltar carne. Os noticiários disseram que, nos Estados Unidos, o crash tinha provocado uma depressão que seria sentida no mundo inteiro. No Brasil, o colapso foi denominado crise e, no Recife, as famílias tradicionais foram as primeiras a sofrer as suas consequências.
Pouco a pouco, os usineiros começaram a aparecer na casa dos Coelhos. Vinham todos de luto fechado, trazendo uma papelada debaixo do braço, e eram imediatamente conduzidos ao escritório do Dr. Duarte. Alguns vinham com a esposa, como se estivessem fazendo uma visita, embora Emília jamais tivesse visto uma mulher das famílias tradicionais pôr os pés naquela casa. Dona Dulce e a nora ficavam fazendo sala para essas mulheres enlutadas. A moça reconhecia algumas delas dos passeios na praça do Derby. Em sua maioria, eram cordiais e sorridentes. Tomavam café e conversavam como se pretendessem vir em visita há tempos, mas não houvessem encontrado ocasião para fazê-lo. Apesar de toda aquela cordialidade, Emília reparou o jeito descuidado com que as mulheres tratavam o serviço de porcelana de dona Dulce. Botavam o pires na bandeja fazendo o maior barulho e batiam com a colherinha nas bordas finas da xícara, como se tivessem a esperança de quebrá-las acidentalmente.
Por baixo daquela educação, havia raiva. Emília ficou sabendo que os papéis que os seus maridos levavam para o escritório do Dr. Duarte eram escrituras: títulos de propriedade de casas na rua Rosa e Silva, na praia de Boa Viagem, e de entrepostos vazios perto do porto. Estavam entregando ao seu sogro tudo o que possuíam para não deixar de pagar os seus empréstimos e acabar perdendo as máquinas importadas e, consequentemente, as suas plantações.
Por causa desses empréstimos, o Dr. Duarte conhecia os podres de todas as famílias do Recife, como ele próprio dizia. Aos olhos de Emília, essa expressão, e não algo como “segredos”, significava que os problemas daquela gente eram como um mau cheiro que qualquer um podia sentir, mas que ninguém conseguia localizar. Só o seu sogro tinha noção exata da origem e da extensão da deterioração. Detinha o poder de se gabar, de espalhar as dificuldades daquelas famílias por toda a cidade. Mas não fazia isso. O Dr. Duarte tinha fama de ser muito discreto. Quando adquiria uma propriedade, ninguém ficava sabendo se o antigo dono a tinha perdido ou simplesmente vendido para ele. Era por esse motivo que os casais de famílias antigas que iam àquela casa temperavam a sua repulsa com um respeito frio. E os homens que pertenciam ao partido do governo admitiam que o Dr. Duarte apoiasse Vargas e o seu partido verde sem esperar qualquer retribuição política.
Vários donos de moinhos têxteis também apareceram. Estes, porém, eram sujeitos animados, suando debaixo do chapéu fedora de lã e dentro de ternos engomados com colete e tudo. Os seus moinhos não estavam funcionando a toda, mas se mantinham saudáveis. Da janela do seu quarto, Emília via os rolos de fumaça que saíam das chaminés da Companhia de Tecelagem e de Roupas Torre, e das suas concorrentes em Macaxeira e Tacaruna. Em suas idas à loja de tecidos, via migrantes que formavam filas de dar voltas nas portas da fábrica. Era gente que tinha perdido o emprego como cortador de cana e chegava à capital em grandes levas, na esperança de conseguir trabalho nos moinhos. O Dr. Duarte anunciou que usaria a sua empresa de importação e exportação para trazer máquinas para aqueles industriais e exportar tecidos.
Depois do crash, a campanha presidencial seguiu o seu curso. Em fins de novembro, os líderes do partido azul pregavam a perseverança e a manutenção das tradições. Garantiam aos cidadãos que a crise passaria. Já os membros do partido verde não faziam tais afirmações; pregavam a modernização, a criação de um “Brasil Novo”, menos dependente da agricultura e mais voltado para a indústria. O governador de Pernambuco e o prefeito do Recife, ambos do partido azul, trataram de reprimir qualquer apoio aos seus adversários. Mandaram a polícia dispersar os comícios, invadir os jornais que eram pró-Vargas e ficar de olho no British Club, onde o grupo político do Dr. Duarte se reunia. Apesar de toda essa intimidação, um número cada vez maior de pessoas pregava cartazes com a foto de Getúlio Vargas nas portas, nas vitrines das lojas, nas barracas da feira, junto das imagens dos seus santos protetores.
Na cidade do Recife, a maioria dos partidários de Vargas era das famílias novas e da classe média. No resto do país, os seus simpatizantes formavam uma mistura estranhíssima: militares que queriam um colega presidente; católicos desiludidos que não aprovavam a separação entre Igreja e governo estabelecida pelo partido azul; reformadores sociais que desejavam pôr fim aos abusos que se verificavam nas fábricas e ao trabalho infantil; e uma mistura de sufragistas, comerciantes e intelectuais. Esses grupos aparentemente disparatados tinham uma coisa em comum: por anos a fio, vinham sendo ignorados pelas oligarquias paulistas que controlavam o partido azul. Em sua campanha, Vargas os cortejou a todos. E, embora as suas mensagens fossem por vezes contraditórias, o seu charme e o seu entusiasmo eram contagiantes. Era por isso que cada um desses setores via Vargas como “o seu homem” e estava disposto a apostar que, se ganhassem as eleições, Vargas os beneficiaria primeiro.
Em função das restrições impostas pelo governo azul no Recife, nem todos os eleitores de Vargas podiam alardear a sua preferência.
– Até os cachorros de rua estão apoiando Vargas – disse Lindalva inúmeras vezes, em voz baixa, à mesa do almoço. – Mas não podem declarar isso abertamente. Ninguém pode.
Os vira-latas, de pelo malhado e costelas aparentes, eram a casta mais baixa das ruas do Recife. Eram ignorados, enxotados, chutados. Mas, na última fase da campanha de Vargas, as pessoas começaram a respeitá-los. Um a um, aqueles animais começaram a ostentar o lenço verde do candidato amarrado no pescoço ou na ponta do rabo. Enquanto circulavam à procura de restos de comida nas portas dos mercados, brigando pelos becos ou mesmo quando estavam deitados ao sol com ar sonolento, nos parques gradeados da cidade, os vira-latas funcionavam como propaganda viva dos oposicionistas.
O primeiro que Emília viu foi em janeiro de 1930, três meses depois da crise da Bolsa de Valores, diante de uma loja de tecidos na rua da Imperatriz. Lindalva e ela estavam indo para o automóvel da baronesa. Atrás delas, um empregado da loja carregava uma peça de crepe georgette, bem embrulhada em papel-manteiga. Ali dentro, havia ainda dois fechos ecler.
– É o que há de mais moderno, substitui os botões – dissera-lhes o vendedor, abrindo e fechando o zíper com um gesto floreado.
Fascinada, Emília ficou olhando aqueles dentes se encaixarem uns nos outros, como uma fileira de pontinhos de metal bem miúdos. Não via a hora de voltar para a casa dos Coelhos e admirar aqueles fechos sozinha. A crise havia adiado o plano que compartilhava com Lindalva de criar um ateliê de costura. A baronesa e a filha, assim como os Coelhos, tinham uma estabilidade financeira, mas muitos outros não. As mulheres não queriam vestidos novos e, se resolvessem comprar um, optavam por modelos mais sóbrios, de tons escuros e feitio simples. A moda precisou se adequar ao clima soturno que imperava no mundo e Emília teve de rever as suas criações.
Ao sair da loja, andando apressada até o carro de Lindalva, Emília não viu o vira-lata deitado no chão à sua frente. Pisou no rabo do animal, que ganiu e rosnou. O empregado já se preparava para lhe dar um pontapé, mas parou imediatamente quando viu o lenço verde amarrado naquele pescoço magricela. O cachorro fugiu e os três se dirigiram ao automóvel a passos rápidos.
Depois disso, Emília começou a ver os cachorros de Vargas por toda parte. Eram vira-latas deitados no chão de terra, bem diante do portão da casa dos Coelhos, contorcendo-se nas posições mais estranhas para se livrar daquele pano verde que traziam amarrado nas patas ou no rabo. No portão dos fundos, o Dr. Duarte pôs umas vasilhas com leite e restos de comida para eles. Na rua Nova, onde ela e o marido passeavam de braços dados todo sábado, juntamente com outros casais das famílias novas, os cachorros se esgueiravam por entre os seus pés. Corriam pelas ruas da cidade, esquivando-se com destreza dos bondes que seguiam para o parque da Afonso Pena. Pediam comida nas portas douradas do Restaurante Leite, onde Emília e Lindalva tantas vezes almoçavam junto com a baronesa Margarida. E, nas raras ocasiões em que Degas a levava ao cinema, no bairro de São José, Emília via os vira-latas atravessando a ponte coberta que ia dar no Bairro Recife. Era uma região de cassinos e bordéis, um local em que as mulheres respeitáveis jamais punham os pés. Dizia-se que os homens se benziam antes de cruzar a ponte, mas os cachorros de rua não estavam preocupados com as convenções. Lá iam eles, trotando para um lado e para o outro, com aqueles panos verdes flamejantes no rabo, como bandeiras.
Ao contrário dos vira-latas, poucas eram as pessoas que alardeavam o seu apoio à candidatura de Vargas. Muitas, porém, ouviam os seus pronunciamentos. Toda noite, depois do jantar, Emília e os Coelhos iam se sentar na sala de visitas para escutar os discursos de Vargas pelo rádio. Na porta, as criadas se acotovelavam, duas a duas, revezando-se nas tarefas para poderem ouvir também.
– A República é desigual! – bradava a voz do candidato, saindo entrecortada do alto-falante do aparelho. – Os barões do café de São Paulo mandam no país, deixando apenas as sobras para os demais estados! Coronéis corruptos mandam no interior. Onde está o governo? O poder executivo precisa lutar pelo Brasil! Cidadãos, amigos e compatriotas, a viagem rumo à vitória será longa. E, durante esta jornada, vou precisar de vocês. Vou precisar de vocês tanto quanto vocês vão precisar de mim.