Entre irmãs
Capítulo 2
Luzia
Taquaritinga do Norte, Pernambuco
Maio de 1928
1
A inda não havia clareado. Os pássaros estavam acomodados nas vigas de madeira. Luzia acendeu uma vela e entrou no cubículo que ficava junto da despensa. Ali, acendeu diversas velas usando a que já trazia na mão. O lugarzinho brilhou com aquela luz alaranjada. Os olhos pintados dos santos a fitavam lá do altar. Dos paninhos de renda que cobriam as prateleiras pingava cera endurecida, parecendo lágrimas petrificadas. A fumaça das chamas ia subindo e saía por dois buraquinhos entre as telhas, ambos escurecidos pela fuligem.
Luzia se ajoelhou. Seus joelhos se encaixavam confortavelmente nos sulcos do chão de terra batida, deixados ali por anos e anos de orações. Desde os 11 anos, vinha diariamente ao quartinho dos santos. Tia Sofia acreditava que os santos tinham unido forças para trazê-la de volta à vida depois daquele tombo da mangueira. A menina não tinha lhes pedido ajuda, mas era instada a lhes demonstrar a sua gratidão. Principalmente a santo Expedito – tia Sofia e padre Otto concordavam a este respeito –, que havia justificado a sua fama de padroeiro das causas justas e urgentes. Para retribuir ao fato de ter sido trazida de volta das portas da morte, Luzia deveria lhe oferecer algo quando completasse 18 anos. Quando um santo pede de uma mulher uma prova de sua gratidão, ela não pode lhe dar comida, dinheiro ou qualquer outro objeto material. Precisa lhe dar algo de muito valor pessoal; para a maioria das mulheres, isso significava abrir mão dos seus cabelos. Luzia não cortava o cabelo desde aquele tombo. Tinha agora uma basta cabeleira castanha que lhe batia quase na cintura. Quando fizesse 18 anos, cortaria a trança e a levaria até a igreja, para depositá-la no altar de santo Expedito. Depois disso, talvez pudesse manter um corte mais ousado, como o da irmã. Luzia desfiava as contas do terço que tinha nas mãos. Balançou a cabeça; ficaria ridícula. Mesmo assim, a oferenda tinha de ser feita.
Não sabia ao certo se acreditava nos poderes dos santos, e não raro os achava vaidosos por exigirem tanta atenção. Mas gostava do fato de eles terem sido gente, gente que acreditou, sofreu e foi recompensada. Só não tinha muita certeza se eles foram ou não recompensados por seus sofrimentos ou por sua fé. Uma vez, ainda criança, perguntou isso ao padre Otto. À guisa de resposta, ele lhe deu para ler um livro encadernado em couro sobre a vida e a morte dos santos. Como algumas outras pessoas na cidade, ele não tardou a se convencer de que, se o braço aleijado era um empecilho para um casamento, bem poderia fazer da moça candidata para a vocação religiosa; havia ótimos conventos em Garanhuns e no Recife. Luzia não queria ser freira, mas gostou de ficar lendo o velho livro do seu professor enquanto seus colegas brincavam no recreio. Página por página, lá ia ela percorrendo a vida daqueles santos e descobrindo que não se tratava de imagens pintadas docilmente instaladas no seu altar coberto de espermacete, mas sim de gente de verdade. Santa Inês não passava de uma menina quando foi vendida a um bordel e queimada na fogueira. Santa Rita de Cássia foi esquartejada, tendo o corpo retalhado aos poucos – primeiro os dedos, depois as mãos e os braços. Santa Doroteia, a Bela, teve o seu corpo nu marcado a ferro quente. Os olhos de santa Luzia foram arrancados pela lâmina de uma faca pagã. Ao enfrentarem todo esse sofrimento, segundo o livro, esses santos rezaram por suas almas e não por seus pobres corpos. Luzia admirava a sua determinação, mas não acreditava naquilo.
Lembrava-se do seu próprio acidente – não da queda em si, mas do sentimento assustador de cair para trás, de perder o equilíbrio e se dar conta de que não havia nenhuma mão invisível, nenhum anjo da guarda para segurá-la. Tudo o que havia ali eram os galhos da árvore e, depois, a escuridão. Quando voltou a si, viu o rosto de tia Sofia e sentiu uma dor tão grande que achou que estivesse flutuando para longe. E a dor só piorou quando a encanadeira chegou e, com um puxão, virou o seu braço retorcido para deixá-lo do jeito certo. Nesse momento, ouviu um terrível retinir nos ouvidos. Então, desmaiou. À força, encaixaram o seu braço entre duas paletas: duas tábuas bem compridas, uma de cada lado, amarradas com um pano e mantidas no devido lugar graças a uma tipoia presa a seu pescoço. A articulação quebrada doía, ardia, repuxava; ondas de calor e pontadas lhe subiam por todo o braço. A menina suava. Tinha calafrios. Passou muitas noites sem poder dormir. Ajoelhava-se no quartinho dos santos e lhes fazia súplicas longas e fervorosas; fazia-lhes promessas bobas e inúmeras oferendas, tudo pelo braço. Mas, no meio daquelas talas, a articulação ia aos poucos se consolidando. Quando retiraram as tábuas, seu cotovelo estava dobrado, com o osso petrificado no lugar.
A encanadeira disse que ainda havia esperanças. Usando uma fita especial, mediu cada centímetro do corpo de Luzia, como se fosse fazer a sua mortalha. Depois de tomar essas medidas, a mulher se ajoelhou e rezou, pedindo a Jesus que endireitasse aquele braço. Deu-lhe um preparado com ervas e manteiga, mandando que Luzia o esfregasse no cotovelo três vezes por dia para untar os ossos, como se fosse a engrenagem de uma máquina. Àquela altura, a dor tinha se tornado uma presença constante, um formigamento, como se agulhas estivessem enfiadas por baixo da pele. Portanto, quando aquele livro do padre Otto, encadernado em couro, disse que os santos esqueciam a própria dor e nem pensavam no próprio corpo, Luzia resolveu fechá-lo. Não queria mais ficar lendo durante o recreio. Não queria mais ir à escola paroquial, onde os colegas a tinham apelidado de Vitrola. Sentia algo duro e amargo, como um caroço de pitomba, entalado no peito. Vira e mexe, esse caroço se abria, soltando um calor terrível que borbulhava, ia crescendo e acabava entornando como o leite que ferve numa panela. Luzia saía pisando nos pés de feijão. Dava chutes nas canelas dos colegas de colégio. Arrancava as dálias de tia Sofia. Beliscava os lindos braços morenos de Emília até eles ficarem pontilhados de manchas roxas. Não era raiva que sentia, era desespero, e queria que o mundo inteiro sentisse aquilo também. Logo, logo, padre Otto parou de lhe emprestar livros. Parou de descrever os lindos jardins dos conventos, gramados e cheios de rosas. Ao que parecia, Vitrola não estava destinada à vida religiosa.
Com o tempo, aquele destempero foi se reduzindo, mas sua fama permaneceu. O braço não endireitou, mas o seu corpo cresceu empertigado. Vendo a sobrinha ficar cada vez mais alta, tia Sofia só fazia repetir que a encanadeira tinha calculado mal, que as suas orações haviam espichado os ossos das pernas da menina, e não os dos seus braços. As mulheres da cidade murmuravam, dizendo que era uma pena que as duas não tivessem um irmão que olhasse por elas. Uma casa só de mulheres era lamentável. As meninas foram crescendo e a tia foi ficando mais rigorosa com Emília, mantendo-a dentro de casa, longe de eventuais problemas. O valor de uma moça está na sua capacidade de se manter intocada. Quanto a Luzia, não havia o que temer: ela já estava estragada. Quem estaria tão desesperado a ponto de tocar a Vitrola? Era o que as fofoqueiras se perguntavam aos risos. Portanto, Luzia podia ir aonde bem entendesse. De manhã, depois de rezar no quartinho dos santos, dava longos passeios. Já antes do nascer do sol, lá estava ela, vagando pela cidade ainda escura e pelas fazendas das encostas dos morros. Gostava da calma e do ar fresco da manhã. Gostava da sensação de ser a única pessoa viva no mundo.
Luzia desfiava as contas do terço. O calor das velas lhe aquecia o rosto. Fitava as imagens à sua frente. Havia ali são Francisco, com dois pássaros nas mãos estendidas. Havia são Bento, usando um manto roxo; são Brás, com uma fita vermelha amarrada no pescoço; e são Benedito, com o rosto tão negro que os seus olhos pareciam redondos e arregalados. Havia santo Expedito, erguendo o escudo, com a armadura de soldado toscamente pintada no corpo, os lábios vermelhos e carnudos. Os rostos daqueles santos lhe pareciam excessivamente femininos, infantis e delicados demais. Sabia que Emília os achava bonitos, com aqueles traços delicados, como o professor Célio.
Luzia não gostava do professor de costura. E não era por causa de sua barba aparada e de suas camisas alvejadas. Respeitava o seu asseio; sabia que não era nada fácil. Era impossível achar um barbeiro por ali e dificílimo tirar aquela poeira teimosa, que se infiltrava em cada fibra dos tecidos, fazendo com que até a mais branca das camisas parecesse encardida e amarelada. Era uma verdadeira façanha, naquele mundo de agricultores e vaqueiros, um homem comum se vestir como um coronel. O que não gostava era o jeito como o professor tirava os fios de linha da sua mesa, como se tivesse nojo deles. E tinha também aquela mania terrível de ficar suspirando e batendo com o pé no chão quando uma das alunas não estava conseguindo repor o carretel metálico da máquina. Como não queria manchar as calças, sempre que uma máquina começava a ranger, ele jogava ali bem rápido um jato de óleo e recuava, deixando que a aluna limpasse a sujeira que a operação pudesse provocar. Achava-se muito superior aos reles pontos de costura – era um técnico, não um alfaiate, como tanto gostava de frisar; por isso, abria o manual da Singer, mostrava as imagens do ponto à jour ou do festonê, e logo voltava à sua mesa, deixando que as alunas descobrissem sozinhas o que deveriam fazer. Mas, quando se tratava das máquinas, ele se tornava falante e cuidadoso, abrindo e fechando as portinholas dos compartimentos, enchendo e esvaziando os carretéis de linha, mandando as alunas se afastarem enquanto ele trabalhava, como se a máquina fosse um mistério ameaçador e não apenas madeira e metal.
No primeiro dia de aula, ele tinha olhado para o braço de Luzia e, com voz galante e aos brados, perguntou-lhe se precisaria de alguma ajuda. A moça recusou e, voltando-se para a irmã, disse também alto, fazendo a outra enrubescer:
– Ele deve ser um péssimo professor, senão teria sido mandado para uma cidade de verdade, e não para cá.
Depois disso, o professor passou a ignorá-la. Era exatamente isso que Luzia queria.
Talvez devesse ter deixado que ele a ajudasse. Talvez devesse ter se mostrado atrapalhada e perdida, assim teria tomado o seu tempo e ele não repararia em Emília. Mas sabia que a irmã teria conseguido chamar a atenção do professor, nem que, para isso, tivesse de se postar à força em seu campo de visão.
Emília sabia usar o rosto, manipular as expressões faciais para conseguir o que queria. Luzia já a tinha visto treinando naquele espelhinho, abrindo e estreitando os grandes olhos castanhos. Sempre que o professor Célio lhe entregava um bilhete, ela o apanhava sem tirar os olhos do trabalho, parecendo séria e concentrada, e tudo o que fazia era dar um ligeiro sorriso acanhado. No mercado, fazia biquinho e franzia as sobrancelhas até os vendedores de roupas lhe darem um bom preço pelo que ela queria. Com dona Conceição, mostrava-se reverente e deslumbrada. Com os antigos pretendentes – aqueles jovens agricultores apavorados que se sentavam nervosamente na cozinha de tia Sofia –, retorcia o lábio superior, com escárnio. Só mesmo antes de dormir, quando as duas irmãs ficavam cochichando, contando histórias e segredos, as expressões de Emília não eram estudadas. À luz da vela, a moça parecia o retrato da mãe, mas sem aquele olhar assustado ou inseguro. Era penetrante. Teimoso. “Que Deus proteja o homem que se casar com você”, dizia a tia, brincando, quando Emília fazia uma das suas. “Vai achar que está comprando açúcar quando, na verdade, está levando rapadura!” Uma vez por mês, compravam aqueles tijolos marrons e raspavam lasquinhas para adoçar o café ou o fubá. A rapadura tinha cheiro de garapa, o que atraía as abelhas. Apesar de toda aquela doçura, porém, o tijolo era duro como pedra, conhecido por quebrar dentes e deixar facas rombudas. A vontade de Emília era exatamente assim. Um dia ia se mudar para o Recife ou até mesmo para São Paulo.
Luzia sentiu uma pontada de inveja. Apertou ainda mais o terço entre os dedos. As contas chegaram a machucar as palmas de suas mãos.
Não queria a beleza da irmã. Seria cansativo ter de arrumar o cabelo e se preocupar com roupas. Mas invejava as oportunidades que a beleza proporcionava. Emília dizia que ia ser datilógrafa ou trabalhar numa loja na cidade grande. Luzia adoraria ter um emprego desses, mas suas chances de conseguir trabalhar fora eram bem pequenas. Às vezes, quando estavam ali, cochichando na cama, e Emília lhe falava dos seus planos, Luzia tinha vontade de dizer: “Me leve junto.” Mas nunca disse. Na verdade, não queria morar numa cidade. Adorava a casa da tia Sofia. Adorava dar comida às galinhas-d’angola tão irritadiças; adorava cuidar das dálias e dar aqueles longos passeios antes do nascer do sol. Mesmo assim, ficava empolgadíssima com a ideia de ir embora, de ser alguém que não fosse a Vitrola.
A fumaça no quartinho dos santos fazia os seus olhos arderem. Uma gota de cera caiu no seu braço. Luzia recuou bruscamente, esfregando a rodelinha vermelha que se formou na sua pele. Fechou os olhos. Rezou pela saúde da tia. Rezou pela felicidade de Emília, mas não com o professor de costura. Quando chegou a hora de rezar por si mesma, não sabia muito bem o que pedir. A vida lhe parecia enevoada e vazia, como uma infância da qual nunca sairia.
Fitou o meio do altar. Havia ali uma imagem da Virgem Maria, de braços abertos e o rosto inteiramente limpo da fuligem. Ela tinha a cabeça inclinada e os olhos erguidos, não com um ar de modéstia, mas numa atitude deliberada, como se dissesse “o meu amor é grande, mas não ponha a minha paciência à prova”.
Luzia se apressou em terminar as orações. Soprou as velas dos santos e saiu do quartinho. Na despensa, foi tateando pelas prateleiras até encontrar um pedaço de carne de sol. Cortou uma fatia pequena e a enfiou no bolso do vestido. Abriu então a porta da cozinha e saiu para o quintal.
2
Tia Sofia chamava as horas que antecediam a madrugada de “boca da noite”. As pessoas de bem iam para a cama depois do pôr do sol; mais tarde, só os bêbados e os cachorros vagavam pelas ruas. Qualquer outra pessoa que fosse tola o bastante para fazer isso arriscava-se a ser tragada; Luzia nunca soube ao certo pelo quê. Talvez por espíritos, pela bebida ou pelos ladrões. Ou então pela própria noite. Antes da meia-noite ouvia-se todo um coro de sons: o barulho dos grilos, o brando coaxar dos sapos, os uivos dos vira-latas. Vinha então o primeiro lamento das corujas; em seguida, mais um. E, depois, o silêncio.
Luzia dava os seus passeios na calma das primeiras horas do dia. Os sapos voltavam para as suas tocas. Os cachorros, depois de tantas aventuras, iam dormir nos alpendres. Só se ouviam o leve farfalhar das bananeiras e o som dos seus próprios passos. As casas caiadas, como a sua, brilhavam azuladas assim de manhãzinha. As de barro eram de um cinza-escuro. As janelas estavam todas fechadas. As portas, trancadas. Gaiolas de pássaros ficavam penduradas nos telheiros, fora do alcance dos ratos. Algumas delas ficavam cobertas com um pano, para proteger os passarinhos da friagem da noite. Outros donos, menos cuidadosos, deixavam as gaiolas descobertas, e as aves estufavam as penas e enfiavam a cabeça sob as asas. Havia grandes sabiás marrons, espremidos nas gaiolas, e alimentados com pimenta-malagueta porque, assim, cantavam melhor. Havia pintassilgos selvagens, com as pontas das asas vermelhas. E também canários de briga, treinados para arrancar os olhos uns dos outros.
Ultimamente, vinham sumindo pássaros das gaiolas. Havia um ladrão por ali. Uns achavam que era coisa de assombração, do caipora de pele acobreada que tinha os pés virados para trás porque, assim, ninguém conseguia seguir a sua pista. Outros punham a culpa nos meninos que normalmente apanhavam passarinhos para vender e que estariam então soltando esses mesmos pássaros para voltar a vendê-los no mercado. Tinha havido até uma briga recentemente, quando um lavrador viu o seu sabiá à venda. Alguns donos resolveram pôr as gaiolas para dentro, mas os bichos faziam muito barulho, pulando de um lado para outro e bicando as paredes de barro da casa. Outros passaram a amarrar o cachorro debaixo das gaiolas e a fechar bem as portinholas, prendendo-as com um arame.
Havia quem desconfiasse de Luzia. Mas, assim como ela tinha sido desqualificada para o casamento e para qualquer tipo de vida produtiva, foi logo descartada como suspeita. O roubo – exatamente como a função de esposa e mãe – era uma atividade que exigia uma boa dose de coragem e habilidade. Como poderia fazer os cachorros se calarem e retirar o arame das portas das gaiolas? Além do mais, Vitrola criava pássaros em casa. Ou melhor, Emília fazia isso. Seu pai tinha lhe dado três azulões cujas penas passavam, uma vez por ano, do negro a um tom de azul iridescente. Como todos os outros pássaros do lugarejo, aqueles três tinham vivido soltos pelo mato até serem capturados e enfurnados numa gaiola pequena demais. Mesmo assim, Emília os adorava. Todo dia, ia lhes dar casca de ovo e fubá. Toda noite, punha a gaiola perto do retrato dos pais e lançava um olhar severo à irmã. Ao contrário dos outros moradores de Taquaritinga, ela não subestimava as capacidades da Vitrola.
Uma névoa baixa cobria o topo dos morros. O ar estava úmido. A estradinha, escorregadia. Luzia foi subindo mais depressa. Os músculos das pernas chegaram a ficar ardendo. Quando se exercitava, era tomada por uma calma profunda. Não sentia nem sinal daquela amargura da infância. No mês de setembro, época da colheita da mandioca, quando todos os moradores da cidade se reuniam no moinho para fazer farinha, era ela quem ficava mais tempo trabalhando. Raspava e descascava mandioca até o braço bom ficar queimando. Em tempos normais, lavava roupa, costurava e ia diversas vezes à fonte para encher jarras e mais jarras de água. Era comum que assumisse, feliz da vida, as tarefas de Emília. O trabalho a acalmava. Adorava o barulho da roupa molhada batendo nas pedras. Adorava torcer as roupas com tanta força que elas se remexiam e estremeciam em suas mãos, como se estivessem vivas. Adorava apertar nos braços o barro frio das jarras de água. Adorava o cheiro de metal que ficava nas suas mãos de tanto fazer girar a roda enferrujada da velha máquina da tia.
Quando estava costurando, ninguém vinha interromper o seu trabalho. Ninguém a corrigia. Até mesmo tia Sofia a observava em silêncio, assentindo, em sinal de aprovação, ao ver a sobrinha prender a renda nas saias dos vestidos de primeira comunhão, fazer as lapelas pontudas dos ternos de defuntos ou bordar fileiras de flores pretas e roxas nos paramentos do padre Otto. Quando Emília virava o traje pelo avesso e via que os pontos eram minúsculos e regulares, os nós tão bem-disfarçados que ficava até difícil distinguir o avesso do direito, dava um beijo no rosto da irmã e lhe pedia para ajudá-la nas tarefas que tinha pela frente. Ela também era uma costureira habilidosa, mas preferia mil vezes desenhar modelos de roupas inspirados na revista Fon Fon do que bordar panos de prato ou fazer ternos para enterros. Emília costurava sempre o mais depressa possível, louca para ver o resultado final. Era disso que gostava. Já Luzia gostava do trabalho em si. Gostava da precisão necessária ao se tirarem as medidas, do desafio de transpor essas medidas para o tecido, do cuidado meticuloso para cortar o tal tecido em várias partes e da satisfação de juntar umas às outras para formar um todo.
Nos seus passeios matinais, Luzia se embrenhava pelas estradinhas mais íngremes que levavam ao alto do morro e, dali, antes do nascer do sol, podia ver o mato ralo lá embaixo. Na semana anterior, todo aquele cinza tinha virado marrom, sinal de que as chuvas recentes haviam escorrido das montanhas. A seca de verão tinha se prolongado até o mês de março e, depois, abril. Os córregos desapareceram. Os açudes ficaram vazios. A fonte onde Emília e ela iam buscar água ficou tão seca que as duas tinham de se deitar nas suas bordas e escavar o fundo com canecas de metal. A gente do lugar estava sendo obrigada a vender as suas melhores cabras e os seus melhores novilhos porque não conseguia sustentá-los. E Taquaritinga ainda tinha água, o que era um privilégio em relação à maioria das localidades. No trajeto para as aulas de costura, as duas irmãs passavam por carcaças de animais estiradas na beira da estrada. Os sítios que ficavam no sopé dos morros, onde era comum se verem as roupas penduradas no varal estendido entre os pés de juazeiro e crianças brincando no quintal poeirento, estavam sendo pouco a pouco abandonados. Em pequenos grupos, as pessoas iam subindo para Taquaritinga, onde ainda podiam encontrar água. Armavam barracas na trilha das mulas. Certa feita, tocaram fogo nesses acampamentos durante a noite. Puseram a culpa nos bêbados, mas Luzia ouviu dizer que teriam sido moradores do local, na esperança de proteger a água que tinham. Todo mundo estava com sede, inclusive o Carcará. O seu bando havia sido visto lá pelos morros. Tinham atacado Triunfo, que ficava a doze dias de viagem de Taquaritinga. Corriam boatos de que a polícia militar teria sido mandada para a região. Na cidade, todos andavam nervosos, escondendo os objetos de valor da polícia e dos cangaceiros. O professor de costura, apavorado, chegou a falar em cancelar as aulas. Agitadíssimo, não saía de sua mesa e não entregou mais nenhum bilhete a Emília. A moça achou que o motivo de tal desinteresse era o seu cabelo curto, mas Luzia não tinha dúvidas a este respeito. Era a falta de chuva. Todos temiam a perspectiva de uma seca, especialmente os forasteiros. Quem podia ia embora. O coronel mandou a esposa, dona Conceição, para Campina Grande. Ela não encomendou nenhum vestido. Luzia, Emília e tia Sofia ficaram fazendo panos de prato, lenços e, uma vez ou outra, uma camisa para o coronel. Aquilo, porém, mal dava para o sustento das três.
O coronel mandava leite de cabra para compensar a falta de encomendas de costura. Tinham os pés de feijão plantados no terreninho dos fundos da casa e dava para conseguir farinha de mandioca. Mas comeram todas as galinhas-d’angola nos meses sem chuva e, agora, a carne fresca tinha se tornado um luxo. Só podiam comprar tiras de carne-seca, e Luzia já não aguentava mais aquilo; já não aguentava mais fubá no café da manhã e feijão, farinha e aquela carne de sol dura toda tarde. Estava louca por um pedaço de abóbora cozida no vapor ou um lombo de cabrito, com a carne tão macia que chegava a soltar do osso.
E, então, choveu. Certa tarde, surgiram nuvens escuras e pesadas lá no alto dos morros. Luzia as ignorou. Já tinha visto muitas nuvens nos meses de seca, nuvens que deixavam o céu negro e traziam a esperança de chuva, só para irem embora e desapontá-la. Mas o cotovelo aleijado começou a doer e, depois, os sapos saíram das suas tocas e se puseram a coaxar, uns respondendo aos outros. Quando começou a chover, o chão chegou a chiar. A poeira subiu e, com ela, aquele cheiro. Luzia adorava o cheiro das chuvas de inverno. Era como se todas as plantas já murchas, os cafeeiros franzinos, as folhas de bananeira marrons, os tufos de mandioca e os pés de milho mirrados soltassem um perfume para comemorar o acontecimento. As duas irmãs largaram as costuras e foram para o quintal. Uma a uma, arrastaram as vasilhas de barro vazias para enchê-las com a água da chuva. Riam e erguiam a cabeça, virando a boca para o céu. Emília passou a mão no seu sabonete especial e, com os vestidos ensopados e colados ao corpo, foram ambas se postar debaixo da calha de alumínio para lavar a cabeça como faziam quando eram crianças. Até tia Sofia ficou rindo e batendo palmas, parada na soleira da porta, agradecendo a Jesus e a são Pedro. Foi uma tarde maravilhosa.
Luzia estremeceu. Tinha a respiração acelerada. Tocou a carne-seca dentro do bolso. À sua frente, havia uma casa de barro. Umas mudinhas de plantas cresciam no terreno lamacento que a cercava. As telhas estavam recobertas de musgo. Junto à janela da frente, pendia uma gaiola coberta e o pano branco esvoaçava como um fantasma. Não ouviu qualquer rosnado, não viu nenhuma corrente ou mourão onde se pudesse prender um cachorro. Aproximou-se e ergueu o braço bom. Não precisou de muito esforço para alcançar a gaiola. Debaixo do pano viu uma trama de junco bem cerrada, com o desenho só interrompido por duas dobradiças e um trinco. Com os dedos, tentou abrir aquele fecho. Lá dentro, o passarinho se agitou. O arame machucou seus dedos, mas ela continuou a torcê-lo com mais força. O pano que cobria a gaiola escorregou e caiu. Desprotegido, o passarinho piou. Com um puxão, Luzia abriu a portinhola e saiu correndo.
A estradinha estava escorregadia por causa da chuva. As solas macias de suas alpercatas deslizaram, fazendo-a perder o equilíbrio. Luzia caiu. Ficou com as mãos cheias de lama. No inverno anterior, naquele mesmo lugar, tinha visto uma argileira. Vários homens da cidade estavam agachados perto do buraco, enchendo os moldes com barro e pondo-os para secar. As chuvas tinham deixado o chão mole. Os homens que trabalhavam ali haviam escavado a camada pedregosa para retirar o barro. E erguiam umas pás enormes, cheias daquela terra alaranjada. O cabelo deles tinha sumido debaixo de uma espessa camada de barro. Estavam todos sem camisa; tinham os braços e o peito também cobertos por aquela terra. As suas calças, molhadas e pesadas, estavam coladas às pernas. Os seus pés desapareciam no fundo macio do buraco. Aqueles sujeitos que cavavam não tinham feições, nem cabelo, nem cicatrizes, nem sobrancelhas ou pestanas. O barro os cobria por inteiro, apagando tudo, exceto as linhas esguias dos seus corpos. Só se viam os seus olhos, brilhantes e escuros, sobressaindo naquela pele alaranjada. Luzia jamais havia imaginado que aqueles agricultores comuns, meninos que conheceu na escola e homens que geralmente ignorava, pudessem ser tão lindos.
Corou só de lembrar isso. Sentiu um calor que lhe subia da boca do estômago. Limpou as mãos na saia e seguiu adiante. O céu estava mudando; logo, logo, o sol surgiria no horizonte. Luzia apressou o passo. Ainda tinha uma casa para visitar.
Afastada da estradinha, já perto do cume, morava um viúvo que adorava apanhar sofrês. Eram uns pássaros da caatinga, capturados no sopé do morro e trazidos para viver em Taquaritinga. Eles eram lindíssimos, com uma crista vermelha e as asas pretas. Mas não são ousados como os sabiás ou agressivos como os canários. São chamados assim porque sofrem ao viver engaiolados e sempre acabam morrendo quando são capturados. Apesar disso, o viúvo lá do morro continuava a armar arapucas para esses pássaros, na esperança de provar que tudo não passava de uma lenda. Sempre que Luzia o via no mercado, tinha ganas de lhe torcer o pescoço.
A casa do sujeito era parecida com a outra: simples, de taipa, com as janelas fechadas e cercada de bananeiras e pés de café. Mas ele tinha um cachorro. Era um vira-lata acinzentado e magricela, que ficava amarrado junto à porta da frente, bem debaixo da gaiola dos passarinhos. Quando Luzia se aproximou, o animal ficou logo de orelhas em pé. A moça cortou uma lasquinha da carne-seca com o canivete e a jogou para o cachorro. Ele cheirou a carne e, depois, farejou o ar ao seu redor, como se não soubesse qual dos dois merecia a sua atenção. Luzia também farejou. Tentou definir que cheiro era aquele que cercava a casa, mas não conseguiu. Era um cheiro rançoso, como o de penas de galinha molhadas, mas com um toque adocicado, como melão podre. E havia algo mais, algo persistente e inebriante, como nos bodes da feira.
O cachorro abocanhou a carne-seca e começou a mastigá-la lentamente com seus velhos dentes estragados. Luzia cortou mais uma lasca de carne e avançou em direção à casa. O sofrê estava pendurado no telheiro lateral. A gaiola não tinha coberta e o bichinho parecia abatido, com a crista rala e descolorida. A moça se aproximou ainda mais. O cão farejou o ar e começou a girar em círculos, parecendo nervoso. Ela lhe jogou a outra lasca de carne. O animal a apanhou, mas, depois, baixou as orelhas e largou a comida. O cheiro ficou ainda mais forte. O cão soltou um latido baixinho. Luzia se virou.
Do meio das bananeiras, surgiram três homens. O do meio usava um chapelão de abas largas, como um fazendeiro, mas, em torno da copa, tinha um cordão de ouro e não uma fita. O cabelo lhe batia nos ombros. Nas mãos, trazia uma pistola de cano grosso. Os sujeitos que o flanqueavam, um alto e o outro baixo, usavam chapéus de couro com a aba rebatida, em forma de meia-lua. Só cangaceiros usavam esse tipo de chapéu. Nas mãos, seguravam firme os rifles. O sol nascia por trás deles e Luzia não podia ver os seus rostos. Mas podia sentir o seu cheiro, de uma intensidade animal espantosa. A moça ergueu a mão para tapar o nariz.
– Então o ladrão de passarinhos é você? – perguntou o sujeito do meio.
Luzia estremeceu ao som daquela voz. Era grossa e profunda, como se a sua garganta fosse recoberta de calcário. O homem veio se aproximando. Usava anéis de ouro em todos os dedos morenos. Luzia ficou imaginando como era possível segurar um rifle com tantas joias nas mãos. As roupas dos três eram esmolambadas e sujas, mas todos tinham no peito grossas cartucheiras de couro repletas de balas com as pontas douradas, que reluziam ao sol da manhã. Entre os cinturões e o cós das calças, destacavam-se as facas prateadas. Eram armas com cabos arredondados que se afunilavam para que a mão de um homem pudesse segurá-las. O sujeito mais alto era um mulato escuro com traços finamente talhados. O mais baixo tinha cabelo encarapinhado. E, ao contrário da maioria dos homens, que usava barba, aqueles ali tinham a cara raspada, como os padres.
– Você é muda? – perguntou o cangaceiro de voz grossa.
Seu amigo de cabelo encarapinhado deu uma risadinha e Luzia percebeu que não se tratava de um homem baixinho, mas de um menino.
– Não – respondeu ela. E teve de pigarrear, pois a voz lhe saiu trêmula. – Eu não roubo passarinhos. Só abro a porta das gaiolas. A escolha é deles se querem ficar ou ir embora.
O homem do meio riu, inclinando a cabeça para trás. A sombra da aba do chapéu desapareceu, revelando o seu rosto. Luzia respirou fundo. Na face direita, ele tinha uma cicatriz de uns dois dedos de largura, que começava no canto dos lábios grossos e ia desaparecer atrás da orelha. Naquele ponto a pele era mais clara, parecendo uma rachadura na parte superior de um bolo, quando a massa sobe e abre uma fenda na crosta escura. O lado esquerdo de sua boca se abriu num sorriso, mas o outro, onde havia a cicatriz, permaneceu sério, paralisado. O sujeito empurrou o chapéu mais para trás. Tinha os dedos curtos e grossos, como uma penca de bananas.
– Esse fazendeiro – disse, então, apontando para a casa – é amigo nosso. Deixa que a gente acampe por aqui. Nos dá água. E eu faço favores para os meus amigos. Ele está tendo problemas com os pássaros. E prometi ajudá-lo. Disse-lhe que mataria o ladrão e sou homem de palavra.
Luzia sentiu as mãos geladas. As axilas úmidas. Desde criança, desde que os seus colegas de escola cutucavam e puxavam o seu braço aleijado no pátio, Luzia sabia o que fazer quando sentia que ia chorar. Apertava bem os lábios, até eles ficarem brancos, sem uma gota de sangue. Depois, voltava a afrouxá-los e o sangue recomeçava a circular, quente, pulsante. Repetiu isso inúmeras vezes, concentrando-se na dor e no alívio, e não na garganta seca e nos olhos que ardiam.
– Ao que parece, você tem sorte – prosseguiu o sujeito da cicatriz. – Respeito muito as damas. Nelas não atiro. Mas nem todas as mulheres são damas. O que você é, afinal?
O coração de Luzia pulava dentro do peito. Ela não era uma dona ou uma senhora. Mas com certeza também não era daquele outro tipo de mulher, contra a qual tia Sofia tanto a alertava. Era a Vitrola. Uma inútil. Alguém sem qualquer serventia. Nunca tinha chamado a si mesma por aquele apelido; nunca tinha pronunciado a palavra em voz alta. Esticou então o pescoço, aprumou os ombros e deu um passo à frente, na direção do sol.
– Sou costureira – disse ela.
E o homem baixou a arma.
3
Mal começou a descer o morro, caiu a chuva. A princípio, branda, mas depois os pingos foram aumentando, ficando mais fortes. Luzia não correu. Manteve o ritmo firme e só se permitiu olhar para trás duas vezes. Parecia até que o seu coração ia saltar do peito, atravessando a pele.
Nas duas vezes que olhou para trás, a trilha estava deserta. Não achava que fosse ver ali o homem da cicatriz. Mesmo assim, tinha a impressão de que ele estava por toda parte. Escondido. Invisível. Espiando-a ir para casa. Ainda sentia o cheiro dele. Queria correr, deslizar pela estradinha escorregadia e se trancar no quartinho dos santos. Mas não ia lhe dar essa satisfação. Ele a tinha deixado ir embora e ela agradeceu, mas não ia correr. Pelo menos, não por causa dele.
Os anéis, as armas e os chapéus com aba em meia-lua logo os denunciaram como cangaceiros. Havia boatos de que os homens do Carcará andavam pela região; Luzia já tinha ouvido mil histórias sobre o chefe do bando. Ao que se dizia, ele era alto, musculoso, bonitão. O sujeito com a cicatriz não era nada disso.
Quando chegou em casa, esgueirou-se pela porta da frente. Ouviu tia Sofia arrastando os pés na cozinha. Depois, foi o som de uma panela, o chiar da manteiga, o barulhinho da farinha de mandioca sendo despejada na frigideira quente. Do alto, vinha um tilintar penetrante, como se milhares de agulhas estivessem caindo no telhado. Luzia estremeceu. Seu vestido estava encharcado. O cabelo molhado e pesado lhe descia pelas costas.
No corredor estreito, encontrou Emília, que vinha saindo do quarto. O seu cabelo estava cuidadosamente cacheado. Seu vestido, bem-passado. Viu a irmã. Luzia pôs o dedo diante da boca. Não queria ter de responder aos milhares de perguntas que a tia ia lhe fazer. Emília se aproximou quase correndo.
– Está atrasada para o café – sussurrou ela. – Titia já estava preocupada. Andou aprontando alguma coisa? – perguntou, olhando para os seus azulões que saltitavam pelas varetas da gaiola. Suspirou e voltou a fitar a irmã. O tom de sua voz se abrandou. – Sua saia está toda enlameada.
– Eu caí – disse Luzia, meio engasgada.
Emília chegou ainda mais perto. Seus braços estavam quentes, seu cabelo, perfumado. Luzia sentiu a umidade do próprio vestido molhando a roupa limpinha da irmã. Tentou se desvencilhar daquele abraço, mas a outra a impediu.
– Venha – disse ela, sempre sussurrando. – Você precisa se trocar antes que titia tenha um ataque.
Na cozinha, Sofia circulava ao redor do fogão. Os seus pés eram tão chatos e largos quanto a enxada que usavam para trabalhar no jardim. Com todo cuidado, ia retirando as tapiocas da frigideira para, em seguida, dobrá-las em forma de meia-lua e passar manteiga. Luzia as sentiu quentes e secas na boca. Deixou quase tudo no prato; precisava fazer um esforço imenso para mastigar. Lá fora, a chuva tinha diminuído. As dálias curvavam a cabeça ao peso das próprias pétalas.
As três passaram o dia fazendo uma faxina geral na casa. Tia Sofia varreu debaixo das camas. Emília e Luzia sacudiram os colchões de palha e os puseram para arejar. Sacudiram as esteiras, que ficavam por baixo dos colchões para evitar que a madeira tosca os rasgasse. Varreram o chão de tijolos, esfregaram a mesa da cozinha e a bancada de pedra com uma mistura de laranja e vinagre; puseram também as roupas de cama para arejar e, protegendo o nariz com um lenço, jogaram soda cáustica na latrina do quintal. Luzia estava lerdíssima. Emília tentava animá-la, brincava e cantava. A outra sorria vendo o esforço da irmã, mas não conseguia tirar aquilo da cabeça. Os homens lá no alto do morro eram cangaceiros. Devia ter avisado ao coronel? Falado com o padre Otto? Queria chamar Emília para um canto e lhe contar tudo. Mas o que ia dizer? Mentalmente, ensaiou um discurso: “Hoje encontrei um homem que só tem a metade do rosto. Ele usava uns dez anéis. Tinha uma faca de cabo arredondado enfiada na cinta. Estava acompanhado por um menino, de um lado, e um homem, do outro. Me ameaçou e, depois, me deixou vir embora.”
Parecia até um sonho. Uma mentira. Tinha ficado aliviada quando ele a mandou embora. “Pode ir”, foi o que disse, abanando a mão, como se estivesse enxotando um inseto ou um mau pensamento. Mas naquele alívio também havia desapontamento. Quando ela surgiu vindo da varanda, aqueles homens baixaram as armas, arregalaram os olhos e ergueram a cabeça para fitá-la. Não foi a Vitrola que eles viram, mas outra pessoa. Por um instante, Luzia sentiu um poder que não conseguia definir. Depois, com aquele gesto da mão dele, tudo tinha desaparecido.
Só lá pelo fim da tarde as duas começaram a limpar a cozinha. Luzia pôs a rapadura perto demais do fogão e ela acabou derretendo, deixando tudo melado ao seu redor. Tropeçou num banquinho. Derrubou um prato no chão.
– Você está doente – decretou tia Sofia, pondo a mão espalmada na testa da sobrinha. – Chega desses passeios matinais. Chega dessa história de ficar circulando por aí. Está pensando que não sei o que costuma fazer? Pois sei muito bem.
Luzia estava prestes a contestar quando ouviram bater à porta.
– Quem é? – indagou a tia.
– Sofia! – gritou uma voz estridente. – Deixe-me entrar! Antes que esses bandidos me peguem!
Era dona Maria. Tia Sofia não gostava dessa vizinha que usava salto alto. “Quem ela pensa que é?”, resmungava sempre que via dona Maria Chaves estendendo roupa ou dando de comer às galinhas com aquelas sandálias. Ao que dizia, sapatos de salto eram reservados para ir à igreja e, mesmo assim, só um saltinho discreto. Vivia repetindo que andar o tempo todo de salto alto era coisa para dona Conceição e não para mulheres como dona Maria, a esposa de um seleiro. Luzia abriu o ferrolho e tirou a tranca de madeira da porta.
Dona Maria se precipitou para dentro da casa. Abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. O papo flácido que tinha debaixo do queixo tremia e balançava a cada respiração mais profunda. Afinal, abanando a mão diante do peito, ela balbuciou:
– Cangaceiros!
Emília a levou até a mesa. Luzia passou a mão numa caneca de metal e foi enchê-la numa das jarras de água. Levou a caneca aos lábios da vizinha. Dona Maria bebeu tudo tão depressa que um fiozinho lhe escorreu pelos cantos da boca enrugada, descendo pelo queixo.
– Eles mataram os dois capangas do coronel! – exclamou ela, depois de devolver a caneca a Luzia. – Pegaram um deles na estrada. Um rapaz tão jovem! Estripado... – Parou para tomar fôlego mais uma vez. – Cortaram daqui até aqui – acrescentou, apontando o dedo enrugado para o próprio pescoço e descendo com ele pelo peito até a boca do estômago. Depois, balançou a cabeça. – E arrancaram os seus olhos!
Luzia quase deixou a caneca cair, fazendo-a balançar e derramando água no próprio pulso. Respirou fundo e pôs a caneca na mesa.
– A senhora o viu? – perguntou.
– Deus me livre e guarde! – exclamou dona Maria, erguendo os olhos, assustadíssima.
– Então como sabe que é verdade? – acrescentou.
Mas Emília fez sinal para que se calasse.
– Eles raptaram o seu Chaves, Vitrola – respondeu a vizinha, com voz trêmula.
– Sinto muito – disse Luzia, sentando-se ao lado dela.
No lábio superior, dona Maria tinha uma verruga escura que parecia um caroço de feijão. Quando falava, a tal verruga subia e descia, e Luzia sentia uma vontade louca de pegar um guardanapo e tirá-la dali, como se a mulher fosse uma criancinha que se lambuzasse toda ao comer.
– Eles o encontraram escondido na barraca – prosseguiu a vizinha. – E o sequestraram para consertar os chapéus e as sandálias do bando!
O seu Chaves ficava praticamente o tempo todo curtindo couro para fazer as selas encomendadas pelo coronel. Passava semanas a fio gravando desenhos a fogo no couro, pondo rebites e fivelas decorativas, caprichando no acolchoado do assento e fazendo tiras trançadas para os freios e as rédeas. Só mesmo o coronel podia se permitir esses luxos. No dia a dia, o seu Chaves ficava na sua barraca da feira da cidade, consertando sandálias dos moradores: pregava tiras novas e botava espessas camadas de borracha nas solas.
– Disseram que ele estava tremendo quando o levaram embora! – balbuciou dona Maria, levando o lenço aos olhos embora não estivesse chorando. Tia Sofia ficou parada ao seu lado. – A minha cozinha está uma bagunça danada – lamentou-se a mulher. – Escondi todas as galinhas lá dentro.
Tia Sofia lhe deu uns tapinhas nas costas.
– Levaram mais alguém? – perguntou Emília.
A vizinha fez que sim com a cabeça e se agarrou à borda da mesa, gesto que Luzia já conhecia das suas visitas semanais. Ela sempre fazia essa pausa dramática antes de contar alguma fofoca: o romance do açougueiro que terminou; como a magnífica abóbora de dona Ester foi roubada lá mesmo no pé; como Severino Santos roubava esterco do vizinho cavando por baixo da cerca que separava as suas propriedades; e como o vizinho revidou matando o cachorro de Severino com uma bola de carne de bode contendo veneno. Dona Maria lhes disse então que, naquela tarde, tinha ido se esgueirando de casa em casa; tinha sido assim que ficara sabendo do rapto do marido.
– Havia dois soldados vindos de fora. Ambos foram mortos, enforcados lá na praça – disse ela. – Ele não vai deixar que toquem nos corpos. Vai matar quem quer que tente enterrá-los.
– Ele, quem? – indagou Emília.
– O Carcará! – respondeu dona Maria num sussurro, como se o temido cangaceiro estivesse no quarto ao lado.
Tia Sofia fez o sinal da cruz. Os tais soldados, acrescentou a vizinha, faziam parte de uma volante mandada de Caruaru para patrulhar as cidadezinhas da região. Dizia-se que deveriam se juntar ao seu batalhão no dia seguinte.
– O que vai acontecer quando eles não aparecerem? – prosseguiu. – Ora, eu lhes digo o que vai acontecer: os macacos virão caçá-los aqui. Vão invadir a cidade.
Luzia sentiu a boca seca. Não conseguia olhar para a irmã nem para a tia. Em toda a sua vida, jamais tinha visto a cidade ser invadida por policiais ou cangaceiros. Não era ao atual coronel Pereira que deviam essa segurança, pois ele era mais um homem de negócios que um guerreiro. Essa longa trégua só acontecia porque Taquaritinga ficava no alto do morro, o que dificultava o acesso até lá. Os ladrões queriam mercadorias ou dinheiro; os soldados, divertimento; e os cangaceiros queriam tudo isso. Ali não havia nenhuma fazenda lucrativa, grandes lojas ou salões de dança. Para muita gente, uma longa viagem por aquela estradinha precária das montanhas não valia a pena. A menos que quisessem água. Nos meses de estiagem, água e comida eram os bens mais preciosos do lugarejo; mas essas coisas podiam ser facilmente obtidas nos sítios que ficavam pelas encostas. Era comum viajantes subirem o morro despercebidos. Com isso, a cidade acabava esquecendo qualquer ameaça externa e se concentrava nas próprias rixas entre moradores, nas brigas de família, nos pequenos escândalos locais. Só os dois capangas do coronel andavam armados; todos os demais se contentavam com as peixeiras afiadas e umas poucas espingardas de caça enferrujadas que usavam pelotas de chumbo como munição. Ninguém ali tinha condições de enfrentar um bando de cangaceiros.
A vergonha se instalou, pesada e amarga, no peito de Luzia. Foi enrijecendo os tendões do seu pescoço. Suas orelhas chegavam a arder. Se tivesse falado mais cedo, o padre Otto poderia ter tocado os sinos da igreja, dando o alarme. Os moradores da cidade poderiam ter se preparado. Ela não tinha pensado nas consequências do seu silêncio. Só quis guardar para si o encontro com os cangaceiros. Mantê-lo escondido e, depois, poder passá-lo e repassá-lo na memória, exatamente como Emília fazia com as revistas Fon Fon que ficavam empilhadas debaixo da cama e que ela lia à noite, à luz da lamparina. Luzia a vira fazer aquilo diversas vezes; Emília ficava olhando aquelas modelos pálidas, aqueles cenários perfeitos das cidades, aqueles anúncios de pó de arroz e de cremes para cabelo à base de ovos. Virava as páginas com todo o cuidado. Suas sobrancelhas espessas se franziam, seus olhos brilhavam. Luzia jamais havia sentido um desejo assim tão concentrado, quase uma avareza. “Não consigo resistir”, disse Emília certa feita, quando tia Sofia a repreendeu. Naquela ocasião, não entendeu a irmã. A gente podia resistir a qualquer coisa; podia tirar qualquer coisa da cabeça, desde que se esforçasse o bastante. Agora, porém, compreendia que não era bem assim.
– São vinte cangaceiros – contou dona Maria Chaves. – Ele botou o bando todo entrincheirado no caminho que leva até Vertentes. Ninguém pode sair daqui. – E continuou relatando as notícias do resto da tarde: o Carcará tinha saqueado as duas lojas da cidade. Xavier trancou as portas da sua e os cangaceiros a arrombaram. Derrubaram os barris de farinha de mandioca e de feijão; com as facas, rasgaram as grandes sacas de juta que continham café e, erguendo-as nos ombros como se fossem corpos, derramaram todo o seu conteúdo pelo chão. Pisotearam o estoque de carnes salgadas e de bacalhau de Xavier com aquelas sandálias sujas. Mas Zé Moela deixou as portas da loja abertas e os bandidos entraram ali como se fossem fregueses. Zé Moela ficou atrás do balcão, embalando cuidadosamente todas as mercadorias que os sujeitos iam escolhendo: cinco quilos de café, três de rapadura para adoçá-lo, cinco de carne salgada, farinha de mandioca, feijão e dez potes de brilhantina. O Carcará depositou três moedas de ouro maciço em cima do balcão. – Uma delas era de 1786! – exclamou dona Maria, dando um tapa na mesa.
Levou também toda a munição que Xavier guardava no quartinho dos fundos. Foi procurar então o padre Otto, que deu a sagrada comunhão ao bando inteiro e, depois, pediu ao Carcará que tivesse piedade daquela cidade e dos seus habitantes.
– Ele se apoderou da casa do coronel – disse dona Maria, e pediu mais água.
Ignorando a sede da vizinha, tia Sofia foi direto fechar as janelas. Passou os ferrolhos na porta da cozinha e pôs uma tranca de madeira atravessada na parte superior da porta, em diagonal. O aposento ficou escuro.
Elas ficaram ali, bem juntinhas, pelo resto da tarde. Tia Sofia só fazia rezar, alternando as promessas a são Dimas, que protege dos ladrões, e a Nossa Senhora. Acabou cochilando. Luzia ouviu as orações da tia ficarem cada vez mais baixinhas, viu sua cabeça pender e, aos poucos, o seu queixo ir se aproximando do peito. Sempre que se ouviam tiros, ela acordava sobressaltada. As quatro se levantavam da cadeira ao som dos disparos – estampidos bem fortes vindo lá da praça e seguidos por uma série de vaias e assobios – e tentavam espiar por entre as frestas das janelas fechadas. Mas não conseguiam ver nada.
Emília acendeu uma vela e cortou três laranjas para o jantar. Apagaram o fogo, molhando a lenha para evitar que saísse fumaça pelo telhado.
– A senhora não deveria dormir sozinha hoje – disse tia Sofia, dando uns tapinhas na mão de dona Maria. – É perigoso.
– Não vou incomodar – retrucou a outra. – Pode ficar tranquila.
As costas de dona Maria não permitiam que ela dormisse numa rede e a cama das moças era macia demais para os seus ossos. Depois de muita lenga-lenga, a vizinha acabou aceitando dormir na cama de Sofia. Luzia estendeu a velha rede na sala da frente. Emília lhe trouxe um cobertor e ficou parada ali, brincando com a franja que pendia das laterais da rede. Em criança, as duas faziam trancinhas com as pontas da linha branca; quando os fios arrebentavam, passavam para outro ponto, até que a franja acabou ficando desigual e cheia de falhas.
– Não quero dormir com a tia – resmungou Emília. – Ela fica chutando a gente...
– Então, vá dormir com a dona Maria – retrucou Luzia, num sussurro.
– Eu não! Ela fede a galinha!
Caíram ambas na gargalhada. Emília quase derrubou a vela no chão. Luzia tapou a boca com a mão.
– Meninas! – gritou a tia lá do quarto.
– Boa noite – disse Emília.
Deu um beijo no rosto da irmã e foi embora, levando consigo a luz da vela.
Quando era pequena, Luzia dormia muito bem naquela rede, fingindo ser um grão dentro de uma ervilha. Agora, porém, tinha crescido. Seus pés ficavam saindo por uma das extremidades e, se tentava ajeitá-los, era a cabeça que sobrava do outro lado. Acabou não conseguindo dormir. De olhos fechados, lembrou-se dos homens que havia encontrado de manhã. O menino não tinha mais que uns 13 anos. O mulato era mais velho, devia ter uns 20. Já o sujeito da cicatriz parecia velho e jovem ao mesmo tempo. Será que era o Carcará? Será que tinha feito aquelas coisas que dona Maria contou?
A gente identifica um bordado bem-feito olhando o seu avesso. Foi o que tia Sofia lhe ensinou. Luzia sempre virava qualquer camisola, vestido de noiva ou lenço que via para avaliar os pontos do bordado. Com isso, podia saber quantas vezes a linha tinha sido emendada e se os nós eram realmente bem pequenos. Se a costureira era desleixada, havia poucos nós e todos eram grandes. Se era preguiçosa, havia partes onde a linha atravessava o desenho na diagonal, pois ela não tinha se dado o trabalho de cortar, arrematar e, depois, voltar a enfiar a linha na agulha para recomeçar o bordado. O avesso lhe dizia tudo. Mas as pessoas não eram tão fáceis assim de decifrar.
A noite foi tranquila. Não houve mais tiros, vaias ou gritos. Os mosquitos zumbiam nos ouvidos de Luzia e picavam os seus pés. Ela esfregava um pé no outro. Não saberia dizer há quanto tempo estava deitada ali, adormecendo e acordando, quando começou a ouvir uma música ao longe: eram notas longas e tristonhas, tiradas de um acordeão. Virou-se e já ia sussurrar “Ouviu isso?”, mas se deu conta de que Emília não estava ao seu lado. Tinha certeza, porém, de que a irmã também estava acordada. Teve vontade de chamá-la, de ir pé ante pé até o seu quarto e se enfiar naquela cama, escondendo o rosto nas costas de Emília, como fazia quando eram pequenas, aninhando-se no calor do seu corpo.
Passou o tempo todo assim ali na rede, dormindo e acordando, tentando espantar os mosquitos e sofrendo com o frio da madrugada. Quando afinal pegou no sono, perdeu a hora das orações matinais. Despertou com umas batidas fortes na porta. Por um momento, pensou que fossem os santos no quartinho, bravos porque ela tinha se esquecido deles. Quase caiu da rede.
– Minha Nossa Senhora, mãe de Deus! – exclamou dona Maria lá do outro quarto.
Voltaram a bater à porta e, desta vez, as batidas foram mais fortes.
– Saiam daí! – gritou uma voz de homem.
Tia Sofia apareceu na sala, usando um xale por cima da camisola. Dona Maria a agarrou pelo braço.
– Encontraram as minhas galinhas! – sussurrou ela.
Tia Sofia mandou Luzia sair de perto da porta e abriu os ferrolhos. Emília e dona Maria correram para a janela, disputando um lugar para tentar ver quem estava ali fora. Luzia foi espiar por cima da cabeça de ambas. Era o garoto que tinha visto lá no alto do morro. Agora, ele estava com o cabelo lavado e bem esticado para trás. O seu paletó, embora esmolambado, estava limpo. Quatro facas em bainhas de couro pendiam do seu cinturão, duas de cada lado, ao alcance de sua mão. Eram todas de tamanhos diferentes: uma delas era comprida e fina; a outra tinha um palmo de comprimento; a terceira era bem grossa; e a última, ligeiramente recurvada. O garoto estava acompanhado por um cangaceiro mais velho que a moça não reconheceu. O sujeito tinha as orelhas tão grandes e redondas que chegavam a ficar dobradas sob a aba do chapéu de couro. A boca era contraída, como os cordões da sua bolsa de costura. Trazia uma espingarda pendurada no ombro.
– A senhora trabalha para o coronel? – perguntou ele, dirigindo-se a tia Sofia.
A mulher hesitou. Seus lábios se moveram e Luzia teve certeza de que ela estava rezando bem baixinho. O menino veio se aproximando da casa. Olhou para a janela e as viu ali. Dona Maria soltou uma exclamação abafada. Mais que depressa, Emília fechou as venezianas.
– Trabalho – respondeu tia Sofia. – Trabalho, sim. Costuro para ele.
O garoto cochichou alguma coisa para o sujeito orelhudo e apontou para a casa.
– Só a senhora costura? – indagou o cangaceiro.
– Não – respondeu Sofia, hesitante, dando uma olhada para a janela. – As minhas sobrinhas me ajudam. Mas não passam de meninas. Ainda não sabem costurar direito.
– Não faz mal – disse ele. – Vá se vestir e venha cá para fora. A senhora e seja lá quem for que a ajude.
– Para fazer o quê? – perguntou Sofia.
– Para trabalhar – retrucou o orelhudo. – O capitão está querendo uma costureira.
4
Estranho cortejo aquele... Um menino cangaceiro carregando nos ombros a velha máquina de costura de tia Sofia; três mulheres, de mãos dadas, cabeça baixa, movendo os lábios em oração; e, atrás delas, o sujeito orelhudo, com a mão na arma, olhando atentamente em todas as direções. As ruas da cidade estavam vazias, mas Luzia avistou rostos espiando por trás dos postigos ou pelas frestas das portas.
Na praça, Luzia ouviu um zumbido, como se um enxame de abelhas estivesse circulando por ali. Presos aos troncos retorcidos dos flamboyants, dois soldados uniformizados e os capangas do coronel, despidos das botas pretas e dos chapéus de couro. Sem as botas, os seus pés pareciam brancos e macios, como os de uma criança pequena. Estavam amarrados de costas um para o outro, de encontro às árvores, com a cabeça pendendo para o lado, como se cochichassem. Tinham a boca aberta cheia de moscas, assim como os olhos e a barriga. Os insetos, movendo-se numa massa compacta e iridescente, faziam aqueles corpos parecerem se remexer como se estivessem vivos. Poças escuras se formavam ao seu redor, junto daqueles pés descorados.
– Não olhem – mandou tia Sofia.
Emília obedeceu, tapando os olhos com as mãos. Luzia, não.
Já tinha visto sangue antes, quando matava perus e galinhas. Desde criança, presenciara os abates que aconteciam nas manhãs de sábado, nos arredores da feira. O animal ficava amarrado a duas estacas de madeira, com as ancas viradas para cima, o pescoço encurvado sob o peso do próprio corpo. Os filhos do açougueiro retiravam então a sua pele, do rabo à cabeça, cortando o couro com a faca. Os vira-latas, sentindo aquele cheiro, vinham lamber o sangue que escorria da boca aberta do animal e se misturava com a terra do chão. Também já tinha visto o corpo enrijecido de um bandido ali mesmo na praça, com o rosto e o peito brancos da cal que o coronel mandou jogarem nele para retardar a decomposição. Mas Luzia nunca tinha visto o sangue de um homem escorrendo do seu corpo. Por um momento, sentiu uma vontade louca de tocar no sangue do soldado, para ver se ainda estava quente. Mas ficou enjoadíssima. Tapou a boca e segurou a mão da irmã.
O coronel Pereira parecia exausto. Estava parado no portão, aliviado por vê-las. Os seus capangas tinham sido substituídos por dois cangaceiros que apoiavam os pés calçados com sandálias no muro branco da casa, sujando tudo de terra. Os homens tinham acabado de se lavar, e já não fediam; o cabelo molhado encharcava as costas das batas e manchava as cartucheiras de couro que se cruzavam no seu peito. Ficaram ambos de olho em Emília, que cruzou os braços para esconder os seios. Luzia chegou mais perto dela. Um dos sujeitos enfiou os dedos morenos na boca. Soltou um assobio tão alto e tão estridente que Luzia chegou a se assustar. Mais dois cangaceiros apareceram no portão. Pegaram a máquina de costura, as bolsas que as mulheres levavam e dirigiram-se para a casa.
– Eles prometeram que vão respeitá-las, Sofia – disse o coronel, num sussurro. – Estão querendo roupas novas. Só isso.
– Minhas sobrinhas não são mulheres, coronel – retrucou a tia, assentindo e fitando-o bem nos olhos. – Ainda são moças. E não quero que estejam diferentes ao sair daqui.
– Não controlo esses homens, Sofia – observou ele, balançando a cabeça. – Mas eles me deram sua palavra.
– E o senhor confia na palavra de um cangaceiro? – indagou a mulher em tom severo. – Pois eu, não.
O coronel se empertigou.
– Confie então na minha – disse ele, pegando a mão de Sofia. – Aconteça o que acontecer dentro destes muros, lá fora as suas sobrinhas manterão a honra intacta.
Luzia pôs a mão nas costas da irmã, tentando acalmá-la. Ela estava ofegante, com o rosto pálido e inexpressivo, como uma folha de bananeira morta. Podia imaginar do que Emília tinha medo, pois temia a mesma coisa: uma moça se torna mulher na primeira noite com o marido, nunca antes disso. Ora, no seu caso, já que o casamento não era uma opção, deveria viver e morrer virgem, com a honra absolutamente intacta. Moças que se entregam a um homem sem serem casadas são consideradas perdidas. Estragadas, como um vestido manchado ou um bolo queimado. Segurou a mão de Emília e sentiu a palma molhada; não sabia, porém, se era a irmã que suava ou ela mesma. Caso os cangaceiros não mantivessem a palavra dada, o coronel só garantiria a sua reputação. De repente, Luzia teve ódio daquele homem. Ódio do seu bigode bem-aparado, do seu cabelo grisalho assentado com brilhantina. Ódio da sua calma.
– Nossa honra não está abaixo da barriga – disse, então, com voz trêmula.
Emília quase engasgou. O coronel ficou vermelho e olhou para Sofia como se esperando que a mulher ralhasse com a sobrinha. Mas ao ver que ela não dizia nada, virou-se e foi levando-as para dentro.
O quintal da casa estava repleto de homens, instalados onde quer que houvesse sombra. Três deles se balançavam na rede da varanda, deixando o pano esticadíssimo com o seu peso. Outros seis estavam escarrapachados no gramado, debaixo do abacateiro, fumando grossos cigarros de enrolar, meio atordoados sob o efeito do tabaco. Dois cangaceiros engraxavam as alpercatas nos degraus da entrada. Ao seu redor, havia ossos de galinha, limpos e lustrosos de gordura e de saliva. Todos olharam Luzia como um enxame de estranhos insetos brancos, espécies de cigarras albinas, prontinhas para alçar voo.
Tia Sofia tomou o maior susto. Da área de serviço, nos fundos da casa, surgiram dois jovens cangaceiros, nus e ensaboados, com baldes metálicos nas mãos e jogando água um no outro. Aqueles corpos eram cor de café com leite; as mãos e os rostos, porém, eram escuros como couro curtido. Parecia até que os rapazes estavam usando máscaras e luvas.
– Meu Deus! – exclamou a mulher.
Tentou tapar os olhos de Luzia, mas não conseguiu alcançá-la. Pôs então as mãos grandes e nodosas diante dos olhos de Emília.
– Desculpem – disse o coronel. – Eles se recusam a tomar banho dentro de casa. Só querem fazer isso lá perto do tanque. Mandaram as empregadas lavarem a sua roupa de baixo imunda na pia da cozinha, na banheira...
– Que gente porca! – sussurrou Sofia entre dentes.
– Não sei o que vou dizer à minha mulher quando ela voltar – prosseguiu o coronel, esfregando os olhos. – Ainda bem que Felipe não está aqui.
Seu único filho estava estudando direito na Universidade Federal, no Recife. O pai tinha consentido em deixá-lo ir com uma condição: que, uma vez formado, ele voltasse para assumir a administração da fazenda. Pelas costas do coronel, quase todos por ali duvidavam que o rapaz fosse realmente voltar. Era um moço bonito e sardento, dez anos mais velho que Luzia. Passava brilhantina no cabelo e usava uma bengala em vez da peixeira. Ao contrário dos filhos dos outros coronéis, Felipe nunca havia desgraçado uma garota do lugar. Seu pai jamais precisou pagar uma pensão mensal a alguma família para ajudar a criar um bastardo. Luzia tinha ouvido o próprio coronel se lamentar, dizendo que, quando era jovem, seu pai tinha de dar dois bodes por ano para compensar os namoricos do filho. Mas Felipe não era um desses “pais de chiqueiro”, dizia ele, suspirando, como se o rapaz tivesse aberto mão de seus direitos de nascença. Os moradores da região também ficavam ofendidos com o desinteresse que o filho do coronel demonstrava pelas suas filhas. Às escondidas, chamavam-no “olhos de porco”, por causa dos cílios alourados e dos olhos castanho-claros. Felipe era louco por cavalos e, nas raras ocasiões em que vinha a Taquaritinga, passava o tempo todo cavalgando a sua égua premiada, balançando-se na rede da varanda por horas a fio, olhando para a rua sem jamais pôr os pés ali. Bem antes de ele ir para a faculdade, Emília tentou chamar a sua atenção. Sempre que iam entregar algum trabalho de costura na casa do coronel, a moça tentava puxar conversa com ele, mas o rapaz simplesmente revirava os olhos e se voltava para o outro lado. Na opinião de Luzia, o filho do coronel era muitíssimo metido a besta. E ficou desapontada que o Olhos de Porco não estivesse presente quando os cangaceiros chegaram.
Da varanda, ouviu-se outro assobio, mais alto e mais melodioso.
– Ele está nos chamando – disse o coronel, levando-as em direção aos degraus da entrada.
O homem da cicatriz estava sentado a uma mesinha de mogno, com o rosto parcialmente coberto por sabão de barba. O cabelo comprido, escuro e molhado estava amarrado na nuca com um barbante. O mulato alto, que Luzia reconheceu lá do morro, segurava um espelho à sua frente. Em cima da mesa, havia uma bacia e um jarro de porcelana, perto de uma velha cartucheira de couro. Alinhados ao lado da cartucheira viam-se uma navalha, um cortador de unhas e uma tesoura, todos dourados. O homem raspou a navalha na borda da bacia e passou a lâmina no rosto. Agora que ele estava de cabelo preso, Luzia podia ver melhor o traçado daquela cicatriz. A marca começava na boca e seguia até atrás da orelha, onde ficava mais clara e mais fina.
– Aqui estão as costureiras – declarou o coronel, pigarreando. – Dona Sofia e suas sobrinhas, Emília e Vitrola.
O sujeito continuou a fazer a barba. Usava uma bata de algodão bem suja, para fora das calças. Estava descalço e as solas dos seus pés eram grossas, cheias de calosidades. Os dedos surgiam ali como brotos que nascem de batatas velhas, guardadas há muito tempo numa despensa. Tinha os olhos pregados no espelhinho, mas não fitava o próprio rosto, e sim as visitantes às suas costas. Lançou uma olhadela rápida a Luzia. A moça ficou aliviada, mas, no fundo, espetando como uma farpa, o que sentiu foi desapontamento. Não dava para saber se ele tinha efetivamente se esquecido dela ou se estava apenas fingindo, e Luzia não era capaz de dizer qual das duas possibilidades a deixava mais chateada. Então, ele deu umas batidinhas com a navalha na bacia, como se pretendesse chamar a atenção dos recém-chegados.
– Os meus homens estão precisando de camisas novas – informou. – E também de gibões e calças.
Prosseguiu dizendo que havia rolos de tecido e muita linha ali na casa, mas Luzia mal o ouvia. Ele continuava a fazer a barba enquanto falava e a moça o viu passar a lâmina com todo o cuidado em torno da cicatriz, como se o local ainda estivesse dolorido. “Os meus homens”, foi o que ele disse, e Luzia compreendeu que aquele rosto que saía de baixo da espuma de barbear era o do chefe do bando. Era o Carcará.
– Vamos precisar das roupas de todos – declarou tia Sofia. – Para fazer os moldes.
– Tudo bem – retrucou o Carcará. – Então os meus homens vão passar a tarde nus.
– Meu Deus do céu! – exclamou a mulher, apertando mais o terço nas mãos. – Não precisamos das roupas. Vamos tirar as medidas de todos.
– Claro – disse ele, rindo e espichando o queixo para barbear o pescoço moreno. – Foi para isso que mandei chamá-las.
5
Sem aqueles chapéus de aba de meia-lua, as cartucheiras, os rifles e as facas de punho prateado, todos eram apenas rapazes de cabelo comprido. As suas roupas eram esmolambadas. Tinham os pés descalços. O cabelo lhes batia nos ombros ou fazia tufos cacheados na altura das orelhas. Andando de um lado para outro, o Carcará percorreu aquela fila como um pai examinando os filhos, dizendo-lhes para endireitar as costas, dando-lhes tapinhas nos ombros, passando a mão pelos cabelos ainda molhados do banho. Enquanto um grupo ficou parado ali para as costureiras tirarem as suas medidas, outros puseram o chapéu e o cinturão e foram montar guarda no portão.
Se alguém estava precisando de calças, Sofia insistia em tirar as medidas ela mesma. Luzia só podia fazer isso da cintura para cima. Emília ia atrás delas, bloquinho e lápis nas mãos, anotando nervosamente os números ao lado do nome de cada um. Na verdade, eles não tinham exatamente nomes, mas uns apelidos estranhos e infantis. Para alguns, eram nomes de pássaros ou de árvores; para outros, denominações de lugares. Outros ainda eram apelidados em função da aparência física: o Jacaré tinha a boca cheia de dentes grandes e brancos; o nariz do Caju era recurvado e escuro como a castanha desse fruto; e, do bando todo, Branco era o que tinha a pele mais clara, com o rosto queimado de sol e um monte de sardas. Alguns daqueles nomes eram o contrário do que se via: o tal cangaceiro de orelhas grandes era chamado de Orelhinha; outro deles, atarracado, de olhos caídos e fala arrevesada, era o Inteligente. Mas também havia uns apelidos que não faziam o menor sentido, a não ser para os próprios cangaceiros. Um deles, o Canjica, era um sujeito de olhar penetrante e cabelo grisalho, que parecia ser o mais velho de todos. O garoto de cabelo encarapinhado era o Ponta Fina. Era o mais moço do bando. Para Luzia, os dentes dele pareciam torrões de açúcar, muito brancos e quadrados, mas com as bordas irregulares e escurecidas, como se estivessem aos poucos se dissolvendo na boca. Havia ainda um rapaz que se chamava Chico Caixão e outro, com um olho leitoso como creme talhado, tinha o apelido de Meia-Lua. E havia também o Alfinete de Fralda, o Jurema e o Sabiá. O mulato alto era o Baiano. O homem de pele escura e lustrosa como uma colmeia era o Fala Mansa. E o Carcará nunca era chamado de Carcará, mas de Capitão.
– Você aí – disse ele, dirigindo-se a Luzia, antes que a moça começasse o seu trabalho. – Venha tirar as minhas medidas.
O lado do rosto que não tinha cicatriz se mexeu demais, retorcendo-se e erguendo-se como se puxado por cordões invisíveis. Parecia jovem e cheio de vida. O lado desfigurado, porém, permaneceu plácido, sério. Tinha um ar sensato, como se reprovasse o comportamento da outra metade. Apesar da cicatriz, o lado direito de sua boca se moveu de leve, com os lábios se entreabrindo e se fechando quando ele falou. A pálpebra direita desceu devagar, de um jeito lânguido, como se ele estivesse lhe dando uma piscadela. Esse olho estava marejado. O Carcará o enxugou com um lenço e foi para o quintal, ficando bem longe da fila formada pelos seus homens.
Luzia olhou para a tia e a irmã. Sofia se benzeu e fez sinal à sobrinha para que fosse até lá. Emília parecia inteiramente confusa.
A moça parou diante do Carcará, pegou a fita métrica e esticou o braço bom o máximo que pôde. Com os dedos, apertava as pontinhas de metal daquela tira de tecido, observando-a atentamente, procurando a numeração escrita à mão, as marquinhas dos centímetros e dos metros, como se a fita fosse revelar um grande mistério ou, pelo menos, lhe mostrar que atitude assumir.
– O que vai querer? – perguntou, com os olhos fixos na fita métrica.
Quando o fitava, o seu couro cabeludo e a pele da nuca pareciam se encolher.
– O que você sabe fazer?
– Qualquer coisa – respondeu ela, sentindo as mãos lerdas e inúteis, e com raiva dele por deixá-la tão sem jeito.
– Então, tire as medidas para qualquer coisa – disse o Carcará.
Luzia suspirou. Jamais gostou de tirar as medidas de gente viva. As pessoas ficam se remexendo, fazem perguntas, olham curiosas para o seu braço enquanto ela se curva e se estica para compensar o seu alcance limitado. Quando aparecia alguma família chorosa pedindo um terno para enterrar alguém, era sempre ela quem ia tomar as medidas do morto. O do coronel já estava pronto, pendurado no armário – era um jaquetão elegantíssimo, feito do linho mais fino e macio que a moça já tinha visto na vida. Outras famílias, porém, mais modestas, precisavam encomendar ternos e vestidos para os enterros depois do fato consumado. Emília tinha horror a isso; a simples ideia de um cadáver lhe repugnava. Já Luzia preferia o silêncio, a solenidade, a importância que cercava aquele ato. Alguns corpos estavam em melhores condições que outros; tudo dependia da causa da morte. Mas, em sua maioria, estavam todos deitados numa cama ou numa mesa, e ela tinha de contorná-los, tomando cuidado para não derrubar as tigelas cheias de água com rodelas de limão ou de laranja que ficavam ali para espantar o mau cheiro. Contornava, com a fita métrica, os braços e o peito do morto. Calculava sempre aproximadamente as medidas de costas, ombros e cintura, para que a família não tivesse que mudar o corpo de posição. Depois, faziam o terno o mais depressa possível, aprontando-o para o velório e o enterro – juntas, as três eram capazes de fazer um terno ou um vestido simples em poucas horas –, e Luzia ficava satisfeitíssima quando aquelas roupas assentavam bem, comprovando que os seus cálculos estavam certos.
– Então, vou tirar as medidas para fazer uma camisa e um gibão – disse ela, obrigando-se a encará-lo.
O Carcará tinha o nariz comprido, com o osso quebrado. A bata que usava estava amarelada no colarinho e debaixo dos braços. Por trás do perfume do sabão de barba e da loção de sândalo do coronel, dava para sentir o mesmo cheiro forte, animalesco, daquela manhã lá no morro.
– Vai ter de tirar isso – observou Luzia, apontando para o lenço verde que ele trazia amarrado no pescoço.
Agiria como se tivesse tirando as medidas de um cadáver, trabalhando depressa, em silêncio, calculando aproximadamente tudo o que pudesse.
Ele obedeceu. Suas mãos eram escuras e tinham as veias saltadas. Os anéis que usava – um em cada dedo grosso – tilintavam, esbarrando uns nos outros enquanto ele desatava o nó do lenço e o embolava na mão. Também desabotoou os dois primeiros botões da bata e, por baixo do lenço e do colarinho, surgiu um emaranhado de cordões de ouro e de fitas vermelhas. Luzia ficou espantadíssima ao ver o pequeno crucifixo pendurado num daqueles cordões, e, nos demais, toda uma coleção de medalhas de santos. Quase estendeu a mão para tocar nelas, para perguntar que santos eram aqueles a quem o Carcará pedia ajuda e proteção. Limitou-se, porém, a passar a fita métrica pelo seu pescoço e segurá-la firme com os dedos. Ele era mais baixo que ela própria, devia ter a altura de Emília, e a moça precisou se inclinar um pouco para ver o que estava marcado na fita. Viu um talho no pescoço dele, decerto de fazer a barba, e uma gotinha de sangue tinha se formado na sua pele morena. Será que o corpo dele era branco como o dos rapazes que estavam tomando banho? Ou seria moreno assim por igual? Sentiu o rosto quente.
– Trinta e sete centímetros – disse ela, sem tirar a fita do lugar. Olhou para a fileira de homens, para Emília com o bloquinho e o lápis na mão, e acrescentou: – Não tenho onde anotar isso aqui.
– Pode deixar que eu decoro – retrucou o Carcará.
O seu hálito cheirava a temperos. Luzia sentiu aquela boca tão perto do próprio rosto que recuou, indo medir as costas dele.
Estendeu a fita de ombro a ombro, segurando-a bem firme nas extremidades.
– Cinquenta e um centímetros – disse.
– Quanto você mede? – indagou ele.
– Um metro e noventa.
O Carcará assobiou.
– É mais alta que o Baiano – observou.
Luzia se virou e viu o mulato forte que, momentos antes, estava segurando o espelho. Ao seu lado, tia Sofia, na ponta dos pés, tentava tirar as medidas do seu pescoço.
– É, acho que sou – disse a moça, esticando a fita métrica da base do pescoço até o ombro do Carcará.
Percebeu, então, que, bem no meio do espaço que media, onde deveria haver uma depressão, o que se via era um caroço considerável. Passou os dedos pela fita e sentiu a elevação.
– É um calo – falou o sujeito, e Luzia se assustou.
– Só estava tentando impedir que ele alterasse as medidas.
– Todos nós temos isso – prosseguiu ele. – Munição e água pesam – acrescentou, virando-se para fitá-la.
– Deve ser um alívio pôr essas coisas no chão – retrucou a moça, evitando encontrar o seu olhar.
– Somos como os bois, carregando as cangas – disse ele, rindo. – Os animais acabam tão acostumados àqueles colares de madeira que já não conseguem viver sem eles. Preciso das minhas coisas pesando nos ombros para me sentir bem. Caso contrário, pareço leve demais.
– Levante os braços – pediu Luzia, assentindo.
Tirou as medidas do ombro ao pulso. Cinquenta e oito centímetros.
– Desculpe – disse o Carcará, baixando os braços. – Como você se chama? Qual o seu nome de batismo?
– Luzia.
– E é por isso – acrescentou ele, apontando para o braço aleijado da moça – que chamam você de Vitrola?
– É – respondeu ela, encabulada e sentindo-se estranhamente atordoada. – Não nasci assim. Foi um acidente.
A essa altura, já tinha tirado todas as medidas necessárias para um paletó simples. Podia ir embora. Podia chamar tia Sofia para cuidar das medidas das calças. Continuou, porém, a esticar a fita no corpo daquele homem, como se pretendesse lhe fazer uma camisa das mais elegantes. Tentou contornar sua cintura, mas deu com a faca de cabo de prata enfiada no cinturão. Na parte superior daquele cabo arredondado, havia dois anéis de ouro.
– Por favor, tire as medidas com ela aqui – disse o Carcará, ajeitando a faca no cinturão.
Luzia passou então a fita por baixo do cabo da faca para medir a cintura dele. Setenta e oito centímetros. Ele era mais magro do que imaginava – o chapéu e as cartucheiras que estava usando quando o viu da outra vez faziam-no parecer mais gordo. A fita métrica demonstrou, porém, que o Carcará era um homem miúdo, esguio. “Sem gordura, sem gosto”, dizia tia Sofia quando ia escolher uma galinha no quintal de casa. A moça mediu a distância entre a clavícula e o início das coxas.
– Sessenta e seis centímetros – disse.
– Aquele pássaro de ontem – observou ele, interrompendo-a –, o sofrê, morreu.
– Ah, é?! – exclamou Luzia, atônita.
Então, o Carcará se lembrava dela.
– Ficou doente – prosseguiu ele, erguendo a sobrancelha do lado do rosto que não era desfigurado. – Rogou praga nele?
– Não – respondeu a moça bem baixinho. – Essa história de praga não existe. Ele já estava enfraquecido. Sofrês não são animais de estimação.
– É um passarinho idiota, não acha?
– Por quê?
– Porque ele é cabeça-dura – retrucou o Carcará, dando de ombros. – Só precisava deixar o seu dono feliz. Só precisava cantar para ele e, em troca, teria sombra e água fresca. Uma vida boa.
– Ele canta para si mesmo – murmurou Luzia. – Talvez não quisesse uma vida boa.
– O que queria, então?
– Não posso saber – respondeu a moça, encarando-o. – Não sou um passarinho.
– Não mesmo – disse ele, erguendo o lado direito da boca num sorriso. – É uma ladra.
Aquelas palavras doeram, como centenas de picadas e mordidas. Luzia sentiu um calor lhe subir do peito, escorrer pelos braços, deixar os seus dedos entorpecidos. A fita métrica caiu de suas mãos. Agachou-se para apanhá-la. O Carcará se agachou também.
– Eu estava brincando – disse ele. – Me desculpe.
– Não sou uma ladra.
– Sei disso.
Entregou-lhe a fita. O punho direito da bata estava manchado com uns respingos de um marrom-avermelhado, cor que Luzia já havia visto inúmeras vezes antes, quando cortavam o pescoço de uma galinha e deixavam o sangue escorrer na tigela com vinagre, ou em meados do mês, quando sentia aquele peso na barriga e, ao ir ao banheiro, via a calcinha suja. Pegou então a fita da mão dele. Começou a enrolá-la bem apertado, concentrando toda a sua energia em transformá-la num rolinho perfeito, firme. Não tirava os olhos daquele punho. “Pode não ser sangue de outra pessoa”, refletiu ela. “Pode ser dele mesmo.”
– Pronto. Terminei – disse.
O Carcará assentiu com um gesto e estendeu a mão.
– Não me apresentei como manda o figurino – acrescentou. – O meu nome é Antônio.
Luzia pensou que aquelas mãos já tinham feito coisas terríveis. Aquelas mãos tinham pecado. Mas não pareciam diferentes das de qualquer trabalhador – o dorso bronzeado, as juntas ressecadas, as palmas grosseiras como couro que não foi curtido. A única diferença mesmo eram os anéis. Alguns estavam amassados e deformados, com a pedra embaçada, mas se encaixavam tão bem naqueles dedos que pareciam ter sido soldados ali quando ele nasceu.
A mão do Carcará era quente, e sua pegada era forte. Os anéis beliscaram a palma de sua mão. Os olhos de Luzia voltaram a fixar o punho manchado e, quando ele percebeu o que ela estava olhando, recolheu o braço estendido e se afastou.
6
Foram trabalhar na sala de visitas do coronel. No quarto de costura não caberiam três costureiras e duas Singers, portanto os cangaceiros levaram a máquina nova, de dona Conceição, e a velha, de tia Sofia, para o maior cômodo da casa. Emília ficou com a Singer a pedal. Tia Sofia, com a sua própria, ajudada por Ponta Fina, que girava a manivela já bem dura. Luzia gostaria de conversar com a irmã quando ficassem a sós, mas a presença do jovem cangaceiro as deixava desconfiadas e tensas. Tia Sofia era a única que não trabalhava calada.
– Mais depressa – resmungou ela, passando o paletó e as calças já cortados pela agulha da máquina.
Ponta Fina acelerou o movimento da roda.
– Não! Mais devagar, mais devagar! – exclamou a mulher, tomando todo o cuidado para não gritar com o menino.
Luzia ficou encarregada de cortar as peças. Os cangaceiros haviam roubado três rolos de um cretone bem resistente. O Carcará comprou para si mesmo um outro, de melhor qualidade, mais fino, que nem parecia lona. Luzia ia lendo as anotações de Emília e marcava no tecido as medidas de cada um dos homens com um lápis de carvão. Usava o braço aleijado para firmar o pano e, com o braço bom, empunhava a tesoura e cortava o cretone em longas tiras.
Estava começando a aprender a costurar quando sofreu o tal acidente e, de uma hora para outra, o seu braço se tornou um estorvo. Não sabia o que fazer com ele. Deixava cair ovos e pratos. Demorava horas sofridas para realizar qualquer tarefa que exigisse o uso das duas mãos: fazer a cama, tomar banho, mergulhar uma galinha na água fervente e arrancar as suas penas fumegantes sem queimar os dedos, utilizar a máquina de costura a manivela. Tia Sofia, porém, se recusava a ajudá-la.
– Não vou criar uma incompetente aqui em casa – dizia ela sempre que a menina saía porta afora e ia se enfurnar entre as bananeiras, cansada de lutar contra aquele braço paralisado.
Quando ela estava com 13 anos, dona Conceição encomendou um corte caríssimo de seda portuguesa para fazer calcinhas e combinações. Tia Sofia mandou que a sobrinha se encarregasse do trabalho. A menina ficou parada ali, diante da seda, sabendo que tinha de ser muito comedida, pois, se fizesse um corte errado, desperdiçaria boa parte do tecido e dona Conceição ficaria furiosa. A tia se postou ao seu lado. Luzia esticou a seda escorregadia em cima da mesa e ficou passando a tesoura de uma mão para a outra.
– Se não fizer isso agora, nunca vai conseguir – disse-lhe a tia.
A menina sentiu alguma coisa repuxando na ponta do nariz, como se alguém o estivesse torcendo. Seus olhos ficaram quentes e úmidos.
– Não desperdice as suas lágrimas – acrescentou Sofia, usando a frase que sempre dizia quando via as sobrinhas chorando, como se as lágrimas fossem algo precioso, como se nascêssemos com um estoque limitado e tivéssemos de guardá-lo para os momentos realmente importantes.
Luzia cresceu acreditando nisso. Emília, porém, ficava zangada quando a tia a repreendia vendo-a chorar por alguma coisa boba ou inexplicável. “Quero desperdiçá-las! Elas são minhas, e eu as desperdiço quando quiser!”, esbravejava ela. Mas a menina continuou parada ali, olhando para aquela seda caríssima e querendo chorar como a irmã; não conter as lágrimas ou ir se trancar no quartinho dos santos, mas chorar bem alto, aos prantos, para todo mundo ouvir. Tia Sofia pôs então a mão sobre a da sobrinha.
– Se quer ser costureira, não pode ter medo. Precisa cortar. Corte reto e rápido.
E, juntas, passaram a tesoura pela seda tão depressa que Luzia não teve nem tempo de errar. Foi assim que perdeu o medo.
Espalhou pela sala as peças de cretone já cortadas, separando-as por tamanho. A frente e as costas dos gibões ficaram nos sofás de encosto de palhinha de dona Conceição. As pernas soltas das calças, penduradas nas cadeiras. As mangas, em pilhas bem-arrumadas na cristaleira de portas de vidro. As únicas medidas que não tinha anotadas eram as do Carcará. “Antônio”, pensou ela, e logo se repreendeu. Sempre que aparecia um cangaceiro à porta, Emília e tia Sofia paravam de costurar. Luzia não tirava os olhos do seu trabalho; continuava concentrada no que estava fazendo, temendo cortar o pano torto. Para a surpresa das três, ninguém as aborreceu ou ameaçou. Pelo contrário, trouxeram-lhes canecas com água e, mais tarde, pratos de arroz com galinha para o almoço. Já fazia tanto tempo que Luzia não comia galinha que saboreou cada pedacinho bem devagar, soltando toda a carne daqueles ossos e tendões frágeis. Ponta Fina engoliu o seu almoço num canto da sala.
– Luzia – sussurrou Emília, com os olhos fixos no jovem cangaceiro. – Você tem de cortar mais devagar.
– Estou sendo o mais lenta possível – respondeu a outra, entre dentes.
Tinham ouvido dizer que os cangaceiros sacrificavam as pessoas que trabalhavam para eles quando o serviço ficava pronto. Assim, não haveria testemunhas capazes de identificá-los. Enquanto houvesse costura a ser feita, estariam a salvo. Passaram a manhã inteira costurando e só terminaram oito calças e sete gibões. Mas, no total, eram apenas vinte daqueles trajes e o modelo era bem simples; além do mais, aquela gente deveria esperar que costureiras experientes terminassem tudo bem depressa.
– O coronel vai nos proteger – disse tia Sofia. – Tenho certeza.
Depois do almoço, quando Luzia estava medindo e cortando o último gibão, ouviu, pelas janelas abertas, vozes que se ergueram e depois baixaram. Reconheceu a voz do coronel e, em seguida, a de Antônio, inconfundível com aquele tom grave. No entanto, as máquinas faziam tanto barulho que ela não conseguiu entender o que exatamente os dois estavam dizendo. Luzia continuou cortando, mas, quando as vozes se transformaram em gritos, olhou para a irmã, nervosa. Emília começou a pedalar mais devagar. Ouviram um barulho, uma xícara ou um prato caindo e quebrando, e, depois, um tiro que ecoou pela casa toda. O corte que Luzia estava fazendo saiu torto. As máquinas de costura pararam de funcionar.
O coronel apareceu à porta, pálido e suando. Junto à nascida dos cabelos brancos, trazia um lenço, um lenço que a própria Luzia havia feito.
– Não se preocupem, minhas senhoras – disse ele. – Foi um tiro acidental. – Percorreu a sala com os olhos, detendo-se nas cadeiras e nas mesas envoltas naqueles uniformes prontos e ainda inacabados. – Podem continuar o seu trabalho – acrescentou, assentindo com um gesto, e saiu da sala.
Minutos depois, o Carcará parou perto da mesa de cortar. Luzia não ergueu os olhos do que fazia. Ele então lhe passou todas as suas medidas, uma por uma, e a moça anotou tudo no bloquinho.
– O meu homem, o Baiano, aquele mais alto, vai ter dois ternos – disse. – Faça dois ternos para ele.
Luzia fez que sim com a cabeça.
Quando o relógio do avô do coronel bateu seis longas badaladas, restavam-lhes apenas quatro gibões por fazer. Luzia foi substituir tia Sofia, que se sentou no sofá para descansar. Puseram lampiões de querosene junto das máquinas. Os lampiões sibilavam e ferviam, aquecendo o ar ao seu redor. Luzia enxugou o suor do pescoço. Ao seu lado estava a fita métrica bem enroladinha, para o caso de ter de verificar uma ou outra peça de roupa. A cada meia hora, Emília parava para esticar as pernas. Ficava trocando de pé para acionar o pedal da máquina, mas, lá pelo fim da tarde, começou a reclamar que os seus dedos estavam dormentes. Um por um, os cangaceiros foram pegando as suas calças e os seus gibões. Alguns lhes agradeceram, outros simplesmente apanharam as roupas sem dizer uma palavra. No quintal, ardia uma fogueira, e, depois que escureceu, o fogo projetava sombras na sala de visitas. Os homens estavam queimando as roupas velhas. Urravam e cantavam vendo aqueles trapos sendo devorados pelo fogo.
Às seis e quinze, Orelhinha entrou na sala. Já estava com o uniforme novo. Sem o chapéu, o cabelo comprido disfarçava as orelhas.
– O capitão está chamando – disse ele.
– Chamando quem? – indagou tia Sofia, levantando-se do sofá.
– Vocês todas.
– Mas ainda não terminamos – retrucou Emília, num tom nervoso.
– Agora mesmo – disse Orelhinha. – Nada de ficar enrolando.
Os homens formavam um semicírculo no quintal. Junto deles, a fogueira queimava. O Carcará estava de pé no meio do semicírculo e o coronel, de joelhos à sua frente, tinha a cabeça baixa.
– De joelhos – disse o Carcará e, com um gesto, mandou que as três se aproximassem do coronel.
O fogo reluziu e se desvaneceu no lado desfigurado do seu rosto. Luzia ajudou tia Sofia a se ajoelhar. Emília tomou o seu lugar ao lado da tia. Luzia continuava segurando nas mãos a fita métrica toda enroladinha. Apertou-a com força. Queria falar, queria lhe dizer que não tinham terminado, que ainda havia costuras a fazer. Talvez ele as deixasse acabar os gibões. Talvez, se costurassem à mão em vez de usar as máquinas, conseguissem ganhar tempo para planejar um jeito de escapar.
O Carcará saiu do meio do semicírculo. Parou bem diante dela. Luzia fechou os olhos. Fez-se um longo silêncio e, depois, ouviram-se o barulho de gente se mexendo e um ruído mais surdo. Quando a moça abriu os olhos, ele estava ajoelhado à sua frente. O bando todo também tinha se ajoelhado sem desfazer a formação. Todos tinham a cabeça baixa. O Carcará estava segurando uma pedra na mão aberta, uma pedra branca, não muito diferente daquelas rochas de quartzo que se viam espalhadas pelos pastos áridos do sopé dos morros. Começou então a falar:
– Meu cristal que foi encontrado no oceano, entre o cálice e a hóstia sagrada. A terra treme, mas não nosso pai Jesus Cristo. No altar tremem também os corações dos meus inimigos quando eles me veem. Com o amor da Virgem Maria, estou coberto com o sangue do meu pai Jesus Cristo. Estou ligado a ele. Quem quer que pretenda atirar em mim não conseguirá. Se fizerem isso, escorrerá água do tambor das suas pistolas. Se tentarem me esfaquear, suas facas cairão das suas mãos. E se me prenderem, as portas se abrirão. Fui libertado, estou livre e serei livre graças à chave do tabernáculo. Eu fecho o meu corpo.
Os cangaceiros repetiram aquela oração, com as vozes se erguendo e baixando como um coro desafinado. No fim, todos se calaram. Então, repetiram, um de cada vez:
– Eu fecho o meu corpo.
– Eu fecho o meu corpo.
– Eu fecho o meu corpo.
Depois que o último homem se calou, o Carcará olhou para Luzia.
– Repita também – sussurrou ele.
O coronel mantinha a cabeça baixa. Luzia olhou para a tia e, em seguida, para Emília. As duas também a fitaram, estarrecidas. O que aconteceria se não dissesse aquilo? Será que a sua obediência as salvaria?
– Não tenha medo – disse o Carcará, desta vez em tom mais alto, fazendo com que as palavras soassem mais como um aviso do que como uma forma de consolo. – Diga.
Luzia fitou o seu rosto retorcido, olhando bem nos seus olhos escuros, vívidos. Um deles lacrimejava, o outro continuava seco. A moça não conseguia desviar o olhar. Aquele rosto a tinha capturado. Ao vê-lo, sentia curiosidade e repulsa. Com isso, esqueceu que estava segurando a fita métrica, aquela tira de tinta e números que formava um rolinho perfeito, apertadíssimo. Afrouxou a mão e a fita se desenrolou.
– Eu fecho o meu corpo – disse ela então, e o lado esquerdo do rosto do Carcará se ergueu num sorriso.