Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 12 de 20

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Entre irmãs

Capítulo 10

 

 

Luzia

 

Em plena caatinga, no interior de Pernambuco

Setembro de 1932-março de 1933

 

1

 

O bebê era obediente, mas também teimoso. Obediente porque, durante o longo trajeto até a casa do Dr. Eronildes, Luzia lhe pediu que ficasse na sua barriga e ele ficou. Esperou. Teimoso porque, mesmo depois que chegaram à fazenda e ela se instalou no quarto de hóspedes, não havia meios de ele sair. A barriga de Luzia estava tão pesada que todos os órgãos pressionavam o estômago, empurrando-o para cima, na direção do peito. As costas lhe doíam. Tinha de urinar o tempo todo e não conseguia dormir. Não se sentia confortável nem deitada, nem de pé. A velha empregada do médico tentou de tudo para fazer o bebê nascer: amarrou uma camisa suada no pescoço de Luzia, mandou que ela comesse pimenta-malagueta crua, ficou sacudindo um pano empoeirado bem diante do seu nariz para ela espirrar. Nada disso funcionou.

Assim que chegou à casa de Eronildes, Luzia pegou a mão macia do médico e a mão deformada pela artrite da velha empregada e os fez jurar sobre a Bíblia. Fez com que jurassem pela Virgem Maria, a mãe de todas as mães, que não a deixariam tocar na criança, ou sequer vê-la. Se fizesse isso, ia querer ficar com o filho e ele estaria condenado.

O médico não assistiu o parto, pois isso era trabalho para mulheres. Juntamente com os cangaceiros, teve de se manter longe daquele quarto. Ficaram todos esperando do lado de fora, nervosos como um bando de pais. Só Neném, a mulher de Ponta Fina, permaneceu lá dentro, com Luzia e a criada.

– Ele vai vir no seu tempo – disse a velha. – Quanto mais quiser que a criança saia, mais vai ter de esperar. É como ferver leite: basta lhe dar as costas que ele derrama.

A mulher estava certa. Uma tarde, o corpo de Luzia começou a se remexer sem comando ou controle. Empinava e se retesava. As suas entranhas se contraíram, como se um chicote as estivesse envolvendo por conta própria. Uma mão invisível puxava e agitava os seus quadris e, depois, os largava. Neném pôs um pano morno na cabeça de Luzia. A velha criada deixou de lado o cachimbo e abriu as coxas da moça, segurando-as com força. Abriu um dente de alho e o esfregou diante do seu nariz, repetindo a oração das parteiras.

– Que Deus nos proteja. Que Deus proteja esta casa santa! Onde Deus fez a sua morada?

– Aqui! – respondeu Luzia, segurando a barriga com ambas as mãos.

– E onde mora o cálice bento?

– Aqui!

– Onde mora a hóstia consagrada?

– Aqui! Aqui!

A criada ferveu uma infusão de pimenta e cominho, e pôs aquela mistura de cheiro forte ao lado da cama. Depois, pegou uma cebola branca, cortou-a ao meio e a esfregou nas coxas de Luzia. A moça tentou afastá-la, já enjoada com o cheiro do alho e do próprio suor. Com uma força espantosa, a velha imobilizou as suas pernas.

– Nossa Senhora do Bom Parto! – exclamou ela. – Ajude-nos!

A cada empurrão, o chicote apertava mais. Chegava a arder. Luzia ficou olhando para o teto. Sentia-se aprisionada num sonho, com o corpo tão concentrado na sua tarefa que a mente vagava, como se ela estivesse observando a si própria de longe. Naquela hora, a sua mente não tinha qualquer serventia. Quando enfim ele saiu, aquela onda enorme de desafogo deveria ter sido um alívio; Luzia, porém, sentia que, junto com o filho, ela tinha expulsado de si qualquer resto de sentimento. Toda a bondade, todo o amor que já sentira ou viria a sentir, estava agora naquele menino.

Não podia olhar para ele. O quarto estava na penumbra, com as cortinas baixadas para que o bebê não sofresse um choque e fosse ofuscado ao nascer. Mais que depressa, a velha criada cortou o cordão, laqueou-o e levou a criança embora.

Luzia se lembrou do juramento que havia obrigado a mulher e o médico a fazerem.

– Não quero que o meu filho ponha a mão no cabo de um punhal – disse ela, assim que chegou à fazenda. – Quero que se chame Expedito.

Mostrou a Eronildes a coleção de recortes de jornal com fotos de Emília. Deixou claro que o seu desejo era que o menino fosse entregue à sua irmã, no litoral, mas não queria saber como nem quando o doutor faria isso.

Tudo isso acontecera antes do parto. Antes de ela ouvir o choro do bebê. Era um choro estridente, como os gritos das maritacas que voavam pela caatinga. Agora, todos os seus votos e promessas pareciam bobos, e ela os renegou. Queria o menino. Gritou e passou os olhos pelo quarto escuro, mas mal podia se sentar. A velha voltou, de mãos abanando. Luzia tentou sair da cama. A mulher a conteve, virando-a de lado e sentando sobre os seus quadris.

– Minha santa Margarida – exclamou a criada, sacudindo-se ligeiramente sobre a outra. – Tirai essas carnes podres da barriga dela.

Luzia cuspiu. Rogou pragas. Tramou todo tipo de vingança contra aquela mulher. Onde estaria a tesoura usada para cortar o cordão? Será que conseguiria alcançá-la? Segundos mais tarde, sentiu que expelia a placenta, quente e úmida. O travesseiro sob o seu rosto estava molhado de suor. As suas pálpebras pesavam. Luzia as fechou.

Quando acordou, o quarto estava claro. As janelas, abertas. E a criada a fitava.

– O seu bebê está vivo – disse ela. – O doutor foi embora com ele ontem à noite. Agora, Deus vai protegê-lo.

Em geral, depois de um parto, a casa da mãe fica cheia de parentes que vêm ver o bebê. O pai orgulhoso serve cachaça. Os familiares enterram o cordão umbilical diante da porta da casa para que aquela criança nunca se afaste demais dali. Mas Luzia não tinha casa e, agora, nem tinha filho. Com uns poucos dias de nascido, Expedito já vagava por aquelas terras. A moça sentiu a língua seca e inchada na boca. Os seus dedos latejavam, como se estivessem com excesso de sangue. Os seus ouvidos zumbiam. Pela janela do quarto, ouviu Sabiá cantando uma das suas baladas. As palavras lhe chegavam distorcidas e indistintas, mas a voz do cangaceiro parecia um lamento. A música falava de morte. Luzia estremeceu. Todas as cantigas de Sabiá eram sobre esse tema – antigamente, Antônio e ela riam disso –, mas essa agora era diferente. A voz do cangaceiro foi ficando mais branda e se aproximando, até que virou um sussurro nos seus ouvidos. Quando Luzia abriu os olhos, não havia ninguém ali. Tentou se sentar na cama, mas não conseguiu. O seu corpo estava pesado demais para se mover. Mais tarde, ouviu Ponta Fina, Baiano e a criada conversando em voz baixa. “Febre”, disseram. “Sangue.”

– Sangue de quem? – perguntou Luzia. – Do meu menino?

Os três continuaram a conversar como se não a tivessem ouvido. Luzia levou a mão aos lábios: teria mesmo falado? Quando fechou os olhos, viu o filho nos braços de Emília.

A velha criada veio trocar os lençóis sujos. Atirou sementes de lavanda ao fogo para perfumar o quarto. Praticamente à força, enfiou colheradas de sopa engrossada com farinha de mandioca pela boca de Luzia. Quando a febre baixou, ela lhe preparou um chá amargo para que o seu leite secasse. Os seios da moça estavam inchados e doloridos, como bolhas prestes a estourar. Estavam recobertos de veias azuladas, com os mamilos duros e intumescidos. A mulher envolveu o seu peito com uma lona bem apertada, prendendo-a para que não escorregasse. Por baixo daquelas bandagens, Luzia sentia o leite brotar. Foi um alívio. Quando isso aconteceu, soube que o seu filho estava com fome. Em algum lugar, com o Dr. Eronildes, ele chorava, querendo mamar, e tomava leite de cabra em lugar do seu. Sabia disso porque o seu corpo lhe disse. Como se houvesse um fio invisível que os ligava um ao outro. Esse fio podia se retesar ou se afrouxar, mas nunca se desataria, nunca atingiria o fim do novelo, porque não havia fim: os dois estavam unidos para sempre.

 

2

 

As novas mães tinham de ficar de resguardo por três semanas. Não deviam tomar banho, nem sair da cama. Em criança, Luzia e Emília acompanhavam tia Sofia em visitas a essas mães. Os seus quartos eram escuros e abafados, parecendo a toca de um bicho. Punham-se tigelas com óleo de lavanda debaixo da cama, mas o perfume não disfarçava o cheiro que tomava conta do local. Elas cheiravam a leite azedo, a suor, a sangue seco. Luzia sabia que estava fedendo tanto quanto aquelas mulheres da sua infância porque Ponta Fina torcia o nariz sempre que entrava ali no quarto.

Sentava-se ao seu lado, na cama, e lhe contava tudo o que estava acontecendo lá fora. A velha criada tinha ido embora. Foi se encontrar com o doutor porque um homem não tinha condições de cuidar de um recém-nascido. Luzia não sabia onde eles estavam, nem que planos o médico tinha para entregar o bebê à sua irmã. O destino de Eronildes havia sido mantido em segredo, como combinado antes do parto, para evitar que Luzia acabasse indo atrás deles. Ela podia querer o filho de volta, mas não saberia onde procurá-lo.

– Temos pouca comida – disse Ponta, com os olhos pregados no crucifixo que ficava acima da cama. – O feijão que o doutor deixou está praticamente acabando. O Velho Chico está raso. A cinco metros da margem a água nos bate ainda nos tornozelos. Ouvimos dizer que há uns trens vindo da capital. Vargas está mandando mantimentos. Está construindo uns campos para os retirantes da seca. Alguns dos homens, como Quinta-Feira, Sabiá e Canjica, andam falando em ir embora. Querem atacar esses trens. Conseguir comida. Baiano e eu dissemos para eles esperarem.

Luzia assentiu. Já fazia quatro dias que estava na cama. Se continuasse ali por muito tempo, os cangaceiros a veriam como uma mulher comum e não como o capitão imbatível ou como a mãe forte. Como o marido, tinha feito um trato com os homens. Cortou o cabelo e se autodenominou capitão. Assustou-os fazendo com que acreditassem nela, tornando-os dependentes da sua liderança, exatamente como eram dependentes de Antônio. Com isso, prometeu abrir mão do seu bem-estar pessoal em nome do bando. Prometeu comandá-los. Eles, por sua vez, prometeram-lhe obediência.

Ponta Fina a fitava atentamente, como um fazendeiro deve fazer quando uma de suas vacas está doente: preocupado com o bem-estar do animal, porque tem um afeto genuíno por ele, mas também porque a saúde desse animal determina a sua própria sobrevivência.

– Espere lá fora – disse Luzia.

Assim que o rapaz saiu do quarto, a moça afastou os lençóis. Levantou-se da cama e, bem devagar, vestiu as suas velhas calças. Cada movimento que fazia parecia que ia rasgar o ferimento que os dias de repouso haviam sarado. Sentia as pernas bambas, a barriga frouxa, os quadris estranhamente soltos, como cordas que, de tão esticadas que foram, jamais conseguem recuperar a firmeza original. Enfaixou os seios. Abotoou o gibão e enfiou o coldre de ombro. Finalmente, pôs na cabeça o chapéu de Antônio. Aqueles poucos gestos a deixaram cansada e ela ficou tentada a voltar a se sentar na cama. Mas Ponta Fina a impediu de fazer isso, pois ficou andando de um lado para outro diante da porta do quarto.

– Ponta! – gritou Luzia.

O rapaz entrou e ficou parado ali, prestando atenção.

– Reúna os homens – disse ela. – Estamos de partida.

– Mas e o seu resguardo?

– Tive um menino, não uma vaca. Quatro dias está mais que bom.

Assim que Ponta Fina saiu da casa, Luzia foi até a cozinha, embolou o vestido de grávida e o atirou ao fogo.

Lá fora, os homens se aglomeraram na varanda de Eronildes. Segurando o cristal de Antônio, Luzia puxou a roda de orações. Enquanto fechava o corpo de todos e o seu próprio com a reza para esse fim, ficou observando os cangaceiros ajoelhados. Ninguém perguntou nada a respeito da criança. Ninguém fez perguntas sobre a sua saúde. Ela compreendeu então como Antônio devia se sentir, vivendo cercado de pessoas e, no entanto, estando absolutamente distante. Distante até mesmo dela, sua mulher, que também o via como o guia, aquele que tomava todas as decisões. Agora, ela era o capitão.

Olhou para a caatinga cinzenta. A seca fazia com que as decisões mais corriqueiras se tornassem importantes: por onde o bando andaria e até onde; a que horas deveriam acordar, a que horas parariam para dormir – se é que dormiriam, porque a noite era o período mais fresco para se caminhar pela região. Pegar o caminho errado ou fazer a escolha errada significaria desidratação e morte. As suas decisões determinariam a sobrevivência daquela gente. Ponta Fina e Baiano poderiam lhe dar conselhos, mas, por mais que os membros do bando pudessem dar sua opinião, os cangaceiros esperavam que o ônus da escolha coubesse ao seu capitão. O preço da liderança era a solidão.

Luzia desceu os degraus da varanda. Os homens a seguiram. Antes de penetrarem na caatinga, ela se virou para fitá-los.

– Não vamos morrer de fome – declarou ela, imitando a confiança de Antônio. – Se Deus quisesse nos matar, já teria feito isso há muito tempo.

 

3

 

Ao longo da velha trilha de gado, havia dezenas de covas rasas abertas para enterrar os retirantes que morriam de fome. Alguns corpos não haviam sido enterrados e, no tempo seco, não entravam em decomposição: ficavam ali às margens da trilha, de boca aberta, com a pele dura feito couro, o cabelo reluzindo. Só as partes antes macias e úmidas daqueles cadáveres, como os olhos, a língua e o estômago, tinham desaparecido, devoradas por animais desesperados.

Luzia estava com dor de cabeça. A poeira cobria o seu rosto como uma máscara marrom. A terra penetrava pelo nariz e pelas orelhas, a tal ponto que todos os sentidos pareciam entorpecidos. Quando escurecia, a vista enfraquecia e ela mal conseguia enxergar. Os outros cangaceiros também se queixavam dessa cegueira noturna. Durante algumas semanas, depois que deixaram a fazenda de Eronildes, o bando só pôde caminhar de dia.

Era a água que ativava os cheiros e os sons da caatinga. Sem ela, o lugar era silencioso. Só se ouvia o zumbido das moscas, aparentemente milhões delas, cobrindo a carcaça de bichos e de gente. Luzia ouvia o barulho desses insetos a quilômetros de distância. No começo, todos sentiam o cheiro podre e adocicado de vacas, cabras e sapos mortos. Pouco depois, até isso havia desaparecido. As coisas mortas nem tinham tempo de se decompor; logo, logo aparecia quem as comesse.

Luzia e seus homens encontravam água nas dobras das bromélias e no interior dos cactos. Arrancavam talos novos do caroá e sugavam as suas extremidades carnudas para enganar a sede. Como não tinham café, Luzia se lembrou dos ensinamentos de Antônio e saiu à cata de losna-da-serra, cujas folhas peludas equivalem a uns sete bules de café. Encontrou pés de macambira, cortou a sua folhagem comprida e espinhosa até atingir a medula da planta e a pôs no fogo para cozinhar por horas a fio. Depois de ficar secando ao sol, aquela pelota amarelada era triturada para se transformar numa farinha grosseira. O caule lenhoso da mucunã, que se enroscava nos troncos das árvores da caatinga, também era uma fonte de água secreta. Quando Luzia o cortava do jeito certo – um talho na parte de cima e outro na de baixo – brotava um suco. Ela e os cangaceiros tinham de levar à boca essas pontas cortadas o mais depressa possível, caso contrário desperdiçavam todo o líquido.

A fome amortecia a emoção. A ligação entre Luzia e o filho foi virando algo vago, foi perdendo a força. Todos ali só pensavam mesmo em comida, mas, como não tinha chovido na época do plantio, não havia colheitas que pudessem atacar, nem provisões que pudessem comprar ou roubar, e poucos eram os animais para caçar. Os pensamentos do bando voltaram-se então para os trens enviados pelo governo Vargas. Toda noite, ficavam imaginando o que haveria dentro dos vagões de carga da Great Western: sacas de feijão viravam uma feijoada completa fumegante, com linguiça e pés de porco; o fubá virava um cuscuz quentinho, regado com leite quente; lombo de boi era cortado em lasquinhas e servido com macaxeira na manteiga. Esses sonhos animavam os homens a aguentar o calor, a fome e a sede, e a seguir Luzia até a estação mais próxima.

Quanto mais se afastavam do São Francisco, maior era o número de casas abandonadas que encontravam. Às vezes, viam cidades inteiras vazias. Luzia e os cangaceiros reviravam casas e lojas à procura de comida. Certa tarde, numa casa que julgava abandonada, Luzia topou com uma mulher.

A barra do seu vestido estava em frangalhos. Os seus braços eram tão finos quanto gravetos, com os ossos dos cotovelos formando uns caroços exagerados. As suas faces eram flácidas, mas o nariz era largo e nobre. A princípio, não viu os cangaceiros parados diante da porta. Toda a sua atenção estava voltada para o chão.

– Levante-se! – gritava ela. – Levante-se, peste!

De onde estava, Luzia não conseguia ver o objeto daquela fúria, pois uma parede bloqueava a sua visão. Pensou que fosse um bicho, um cachorro talvez. A mulher respirou fundo, como se tentasse recuperar as forças. Ajoelhou-se e começou a sacudir o que quer que estivesse ali no chão, à sua frente. A poeira se ergueu. Luzia se aproximou, espichando o pescoço. Viu um pezinho calçado de sandálias aparecendo por trás da parede. Entrou então na casa. Os homens a seguiram.

A criança – não dava para saber se era menino ou menina – usava apenas um short manchado. A cabeça era grande demais para o corpo. Tinha a boca aberta e as costelas saltadas, fazendo-a parecer um passarinho desemplumado. Os seus olhos estavam fechados, como se ela dormisse tranquilamente apesar dos gritos da mulher. Esta não se mostrou assustada nem surpreendida ao ver os cangaceiros. Simplesmente ficou olhando para os homens e balançou o corpo, como se fosse cair. Quando Luzia abriu um cantil, a expressão da mulher mudou imediatamente. Agora, o seu olhar não era mais vago, e sim alerta.

“Ela me mataria por essa água marrom”, pensou Luzia, segurando firme o seu cantil.

– Chegue para lá – ordenou.

A mulher passou a língua seca pelos lábios.

– Minha filha – disse com a voz rouca. – Minha filha.

Luzia se ajoelhou. Passou o braço aleijado por baixo do pescoço da menina. A cabecinha estava frouxa e pesava muito, mas coube perfeitamente no seu cotovelo enrijecido. Parecia até que aquele braço tinha sido feito para isso, que essa era a função que ele devia desempenhar: aninhar, e não atirar ou costurar. Naquele instante, sentiu algo se revirar dentro dela; aquele fio, aquela inexplicável conexão tinha se diluído, mas não desaparecido por completo. Olhou para aquela criança inerte. Prendendo o cantil entre os joelhos, abriu bem a boca da menina com dois dedos. Os seus lábios estavam escamando, a língua, acinzentada. Luzia levou o cantil àquela boca aberta. A água ali dentro era marrom e cheia de terra. Dias antes, Ponta Fina havia encontrado um velho poço e, depois de muito cavarem, a mais de um metro do fundo arenoso começou a brotar aquele líquido viscoso.

A criança não engolia. A água enchia a boca miúda e escorria, descendo pelo pescoço e pelo peito nu. Luzia massageou a sua garganta. Ergueu a criança um pouco mais e tentou lhe dar mais água.

– Beba! – murmurou ela.

Baiano parou ao seu lado. Tirou o chapéu e pôs dois dedos escuros no pescoço da menina. Balançou a cabeça. Luzia o ignorou. Continuou dando água à criança. Baiano então pôs a mão no seu ombro. O branco dos seus olhos estava amarelado, como se a íris escura estivesse desbotando.

– Não desperdice a água, Mãe – disse ele. – A mulher está viva. É ela que precisa beber agora.

Os olhos da mulher iam desesperados do cantil à menina, como se ela só tivesse forças para alcançar um dos dois, e não soubesse qual deles escolher. A sua boca se contorceu. Baiano se postou às suas costas e segurou firme aqueles braços magros.

– Pronto, Mãe – disse ele.

Luzia se levantou. Se lhe dessem o cantil, a mulher tomaria a água toda. Era preciso fazê-la beber aos pouquinhos. A mulher tomou a água a longos goles ruidosos. Quando tentou mexer os braços para segurar o cantil, Baiano a conteve. Por baixo do pano gasto e quase transparente da sua roupa, Luzia viu seios compridos e murchos, seios de mãe, caídos de tanto amamentar filhos.

– Eu lhe dei toda a comida que tinha – disse a mulher quando terminou de beber.

Estava se dirigindo a Luzia, mas foi Baiano quem assentiu em resposta àquelas palavras, como se eles dois estivessem tendo uma conversa em particular.

– Nós, os adultos, podemos nos dizer que não estamos com fome. Ouvimos a voz lá dentro, mas não lhe damos trela – prosseguiu a mulher. – Podemos calá-la. Mas as crianças, não. Não é possível enganá-las.

Luzia assentiu. Os olhos da mulher estavam vidrados, fitando o vazio.

– Quanto mais a gente dá, mais elas querem – acrescentou ela. – Eu lhe dei a nossa última lasquinha de rapadura. Disse que ela tinha de guardar aquilo na barriga, e lembrar que estava ali, como um presente. Um presente que a mamãe tinha lhe dado. Três minutos depois, ela recomeçou a chorar, dizendo que estava com fome. Que Deus me perdoe, mas quis bater nela.

A mulher tossiu e baixou a cabeça.

– Dê alguma coisa para ela comer – ordenou Luzia.

Baiano obedeceu. Abriu o bornal e pegou uma fatia de carne-seca. A carne estava esverdeada, mas a mulher a aceitou prontamente. Ficou mastigando depressa, com os olhos fechados. De repente, Luzia teve vergonha de olhar para ela; a dor que havia no rosto daquela flagelada a deixou aliviada. Não teria de ver Expedito emagrecendo ou aguentar os seus gritos pedindo comida. O seu filho tinha escapado da seca.

– Qual é a sua graça? – perguntou ela.

– Maria – respondeu a mulher. – Maria das Dores.

A comida a tinha deixado mais desperta. Ela arregalou os olhos ao ver os cangaceiros à sua volta. Lentamente, foi se afastando de Baiano e Luzia.

– Não me marquem com ferro – disse ela, de mãos postas. – Tenham piedade.

– Marcá-la? – indagou Luzia.

A mulher assentiu.

– Sei que é isso que vocês fazem. Conheci uma garota que tinha uma marca no rosto. A pele foi queimada até o fundo. Ela disse que foi um cangaceiro que lhe fez isso, um de orelhas grandes – prosseguiu a mulher, passando os olhos por todo o bando à procura do tal homem.

– De orelhas grandes? – repetiu Luzia. – E como ele se chama?

– O Carcará. Dizem que ele tem um braço enfaixado. É um bando pequeno, que anda por aí marcando mulheres. Só mulheres. Principalmente as que usam cabelo curto. Ele as queima no rosto, na barriga ou no peito. Como se elas fossem gado.

– Você o viu? – perguntou Luzia.

A mulher balançou a cabeça.

– Só vi a tal garota, a que tinha a marca. O rosto dela estava tão inchado que nem dava para ver o olho.

– E você leu a marca?

– Eu não sei ler. Mas lembro que era assim – respondeu a mulher, ajoelhando-se e estendendo o braço para traçar no chão de terra um “O” trêmulo.

Luzia sentiu um jorro quente de bile lhe subir à garganta, queimando como o suco do xiquexique. Orelhinha estava vivo, e se fazendo passar pelo Carcará.

– Nós não marcamos ninguém – disse ela. – Esse aí é um falso cangaceiro.

– Um traidor – emendou Ponta Fina.

Ao seu lado, Neném fez que sim com a cabeça.

Os cangaceiros enterraram o corpo da menina numa cova bem funda para que os urubus não viessem atacá-lo. Ponta Fina fez uma cruz com dois pauzinhos e os amarrou com o seu lenço de subcapitão. Na estrada, já tinham passado por dezenas de túmulos iguais àquele. Em cada um deles, paravam e faziam o sinal da cruz. Luzia fazia isso por uma questão de hábito, mas também por superstição, pois não queria que os mortos ficassem bravos, mas nunca se permitiu imaginar quem estaria enterrado ali. Depois do sepultamento da menininha, foi obrigada a pensar em todos os mortos pelos quais haviam passado. Quem os teria enterrado? Como se chamavam, o que faziam? E, se a seca piorasse ainda mais, haveria túmulos como aqueles para os seus homens, para ela mesma? Eles seriam esquecidos com a mesma facilidade?

Quando saíram dali, Maria das Dores os acompanhou. Os homens começaram a chamá-la de Maria Magra e riam desse apelido, já que todos eles estavam praticamente esquálidos. Até Inteligente tinha perdido as suas proporções avantajadas.

– Fique com isso aqui – disse Luzia, estendendo o seu cantil à mulher.

– Ela pode dividir o meu – retrucou Baiano.

Naquela noite, no acampamento, Luzia fez ao cangaceiro e a Maria Magra a mesma preleção que fizera a Ponta Fina e Neném. Depois das orações, mandou que os dois casais se ajoelhassem à sua frente. Antônio tinha lhe ensinado que a cerimônia era uma coisa importante, pois fazia as coisas insubstanciais parecerem reais. Luzia tirou então o xale e envolveu com ele as mãos dos casais, unindo-as. Fez os homens e as mulheres trocarem de sapatos. Quando desfizeram a troca, ela os declarou casados. Com isso, Maria Magra se tornou a terceira mulher a ser admitida no bando. E Luzia pressentia que não seria a última.

 

4

 

Os vagões de carga da Great Western vinham trazendo pilhas de sacos de aniagem, todos com a inscrição Estado de Pernambuco em letras vermelhas. Quando os cangaceiros rasgaram as sacas, o que lhes escorreu pelas mãos foi apenas farinha de mandioca. Em outro carro, havia tijolos de rapadura e lascas de carne-seca, tão fininhas e duras quanto couro curtido. Vargas havia mandado comida que pudesse ser consumida de imediato, sem precisar de água ou de fogo. Luzia e o seu bando compreendiam essa lógica, mas o bom senso do presidente fez com que os seus sonhos de pratos mais elaborados ficassem parecendo uma tolice, e odiaram-no por isso. Quando Baiano e Inteligente encontraram pilhas de folhetos com o retrato de Vargas e a legenda “Pai dos pobres”, todos resolveram se revezar, mijando na figura do governante.

Era difícil parar um trem, mas não impossível. O primeiro que os cangaceiros saquearam parou por conta própria, para trocar o maquinista e deixar passageiros num ponto intermediário entre Caruaru e Rio Branco. A localidade se chamava Belo Jardim e, quando o trem chegou ali, pouca gente desembarcou; a seca obrigava as pessoas a abandonarem a caatinga, não a vir procurá-la. Luzia e o seu bando estavam vigiando a estação. Só havia cinco soldados protegendo o carregamento do governo; todos, porém, bem-armados. Os homens saltaram do trem para fumar e fazer as suas necessidades. Encaminharam-se para um lado da estação, para esticar as pernas, e desabotoaram as calças. Nesse momento, Luzia assobiou. Os seus cangaceiros abriram fogo. Distraídos, os macacos foram alvos fáceis. Alguns sequer tiveram tempo de se virar e caíram de encontro à parede molhada. Enquanto Ponta Fina e Inteligente foram pegar as armas dos soldados, Luzia e os demais entraram no trem.

Não se deram o trabalho de arrombar o cofre ou roubar os passageiros, pois não dá para comer mil-réis ou beber joias de ouro. O verdadeiro tesouro era comida, por mais simples que fosse. Os cangaceiros retiraram os suprimentos do trem. A notícia do assalto se espalhou por Belo Jardim e logo uma multidão se aglomerava na estação.

Os moradores locais confirmaram que Orelhinha havia sobrevivido. Contaram a Luzia que ele estivera ali poucas semanas atrás, recrutando homens e dizendo que era o Carcará. O seu bando era muito mais brutal do que Antônio ou Luzia um dia teriam admitido. Como castigo por usarem vestidos indecentes ou cabelo curto, o cangaceiro marcava jovens com o ferro em brasa. Matava homens sem qualquer motivo. Luzia sabia que tudo isso afetaria o seu grupo: a violência gratuita tornava os cangaceiros malvistos, justo no momento em que precisavam de apoio popular. As atitudes de Orelhinha lançariam o povo nos braços de Vargas, que já vinha se autodenominando “pai dos pobres”.

“Então, eu serei a mãe”, pensou Luzia.

– Peguem apenas o necessário – ordenou ela, dirigindo-se a Ponta Fina, que estava descarregando o trem. – Vamos distribuir o resto.

Depois de receber a comida, os moradores de Belo Jardim beijaram as mãos dos cangaceiros. Aclamaram a Costureira. Ofereceram ao bando abrigo e proteção. Luzia ergueu as mãos para pedir silêncio.

– Lembrem-se – gritou ela – que foram o Carcará e a Costureira que fizeram isso. Sempre que nos encontrarem, estarão protegidos. O outro bando é falso. Eles saem por aí se dizendo cangaceiros, mas, na verdade, são vagabundos.

Semanas mais tarde, vieram mais trens e mais gente agradecida. Luzia e seus homens empilhavam troncos de cactos, galhos e tufos de capim na linha férrea. Quando via a fumaça escura de um trem a distância, ela ateava fogo à pilha. Os maquinistas paravam e saltavam para examinar a obstrução. Era então que os cangaceiros subiam nos vagões.

Juntamente com a comida, havia jornais. Os soldados e aqueles que trabalhavam nos campos de retirantes do governo queriam saber o que estava acontecendo no litoral. Vargas tinha aprovado a nova legislação eleitoral do país. Foram criados o voto secreto e um órgão federal denominado Justiça Eleitoral, encarregado de supervisionar as eleições. A nova lei também dava o direito de voto às mulheres alfabetizadas. Havia uns poucos editoriais e artigos a esse respeito. De um modo geral, porém, o voto feminino foi ofuscado pela seca. Apesar dos acampamentos criados por Vargas, os retirantes continuavam a afluir em massa à capital. Luzia leu artigos que pregavam a remoção maciça dos habitantes do sertão. “A terra é excessivamente pobre”, declarava um desses textos, “e a vida cotidiana é demasiado precária para permitir que cidadãos brasileiros vivam em lugar semelhante”.

Havia quem clamasse pela emigração dos habitantes da caatinga para o sul, para trabalhar nas fábricas de São Paulo. Vargas concordava com o fluxo de trabalhadores, mas não admitia justificativas para o abandono da caatinga. Antônio tinha razão: o presidente invadiria a região e tentaria se apossar dela.

“O Brasil”, dizia Vargas, “é um grande corpo composto de várias partes. Todas são vitais. Nenhuma pode ser abandonada, nem se pode permitir que ela se torne refúgio de criminosos e anarquistas!”.

Luzia tentou se concentrar nos artigos sobre a estrada de rodagem e os planos do presidente para o Brasil, mas a sua atenção era constantemente atraída para a coluna social. O Diário fez uma ampla cobertura da viagem de caridade ao campo de retirantes de Rio Branco, organizada pela Sra. Degas Coelho. A última foto da viagem mostrava a delegação imediatamente antes do retorno triunfal ao Recife. Todos posaram na plataforma da estação. A Sra. Degas Coelho, musa da missão de caridade, estava bem no centro do grupo, cercada por alguns homens e uma mulher mais velha. Nos braços, segurava um bebê.

“Se todos pudermos salvar uma pobre alma”, escreveu o jornalista, “dando a oportunidade de educação e civilização a uma criança que, sem isso, estaria condenada à ignorância, resolveríamos os nossos problemas sociais”.

Nas semanas subsequentes, a coluna social noticiava que a Sra. Degas Coelho havia lançado uma nova moda que, desta vez, nada tinha a ver com roupas. Outras mulheres ricas do Recife também queriam salvar um bebê vítima da seca. Havia histórias revoltantes sobre flageladas que recebiam dinheiro pelos filhos e outras que tinham os bebês sequestrados por criados que queriam agradar às suas patroas.

Luzia não conseguiu terminar de ler esses artigos. Lembrou daquelas mulheres ligadas ao partido azul que o bando havia assaltado anos atrás, quando Antônio ainda estava vivo. Pensou naqueles rostos estranhamente brancos, por causa do pó de arroz. Pensou nas vozes estridentes. Naquela ocasião, elas ficaram à sua mercê, na trilha de gado, e ela foi cruel com todas. Agora, o seu menino estava no meio daquelas mulheres, inteiramente à mercê delas. Mas ele tinha Emília, e Luzia se consolou pensando que a irmã, o seu sangue, não trataria Expedito como um “enjeitado”, mas como filho. Mesmo essa ideia fez o seu peito doer e ela cerrou os punhos com força: queria que o seu menino fosse muito amado, mas não queria que ele amasse Emília com o mesmo ardor, do jeito que se amam as mães.

Rasgou e guardou a foto da delegação. Nas noites que se seguiam aos assaltos aos trens, depois que as suas mãos e os seus pés eram beijados por centenas de homens e mulheres famintos gratos pela sua generosidade, Luzia ficava olhando para aquele retrato. A expressão de Emília era de triunfo, chegando até a parecer vaidosa. A criança tinha o rosto coberto por uma manta, portanto só se viam as suas mãos. Luzia ficava fitando aqueles dedinhos brancos que se erguiam para Emília. Ela era a sua salvadora. E Luzia não era nada, nem mesmo uma lembrança.

 

5

 

Atacar um campo de retirantes era uma empreitada considerável: os locais eram bem-protegidos por tropas e cercados com arame farpado. No entanto, as rações do governo não iam apenas para esses acampamentos. Antes da morte da filha, Maria Magra tinha ido procurar um campo particular, mantido por uma viúva.

– A viúva Carvalho – disse a mulher, contando o episódio para Luzia e Baiano. – Ela vendeu as suas terras para a rodovia. Está se mudando para o Recife. Dizem que ainda tem água no poço. E consegue comida, pois Vargas lhe envia rações. Dizem também que a viúva vende tudo para juntar dinheiro para a viagem. Se eu tivesse chegado a tempo, poderia ter comprado alguma coisa. E a minha filha teria o que comer.

Maria Magra não sabia exatamente onde ficava esse lugar, mas Luzia e Baiano sabiam. Sendo viúva do falecido coronel Carvalho, ela tinha herdado uma fazenda que se estendia praticamente por toda a trilha de gado. Luzia, Antônio e os cangaceiros atravessaram inúmeras vezes as suas terras, mas nunca chegaram perto da casa, pois a viúva tinha péssima reputação. O marido tinha lhe deixado apenas a terra, sem nenhum dinheiro, portanto ela era obrigada a levar uma vida frugal. Tinha fama de ser uma patroa pão-dura e de maus bofes. Dizia-se que tinha dado um tiro no marido durante uma briga, mas pouca gente acreditava nessa história. Qualquer homem, especialmente um coronel, teria matado a mulher que tivesse essa atitude, e a viúva Carvalho ainda estava viva.

A casa era uma construção sólida, caiada de branco, um clarão ofuscante em meio ao cinza da caatinga. Diante da varanda, havia uma longa fila. Alguns tinham sacos de aniagem, outros, vasilhas metálicas amassadas. Os homens usavam calças amarradas com cordas, por causa dos quilos que haviam perdido. As mulheres traziam bebês no colo e levavam pela mão umas crianças esquálidas. Ali na fila, os homens mantinham os olhos baixos, como se tivessem vergonha de encarar quem estava ao seu redor. Mas esse não era o caso das mulheres, que olhavam direto para a varanda da casa onde a viúva Carvalho recebia moedas em troca de farinha de mandioca, carne-seca e feijão cozido.

Luzia sentiu um bolo no estômago. Escondidos no meio do mato, os cangaceiros se remexiam e murmuravam, impacientes. Foi o cheiro daquele feijão que os levou até a casa da viúva. Já vinham farejando a comida a quilômetros de distância, mas não conseguiam acreditar: feijão cozido! A princípio, acharam que o seu nariz estava lhes pregando uma peça, que aqueles sonhos tinham acabado por fazê-los perder o juízo. Mas não era ilusão. Ali, na varanda da viúva, junto com os sacos de farinha e carne, havia um panelão fumegante de feijão. “Quanto descaso”, pensou Luzia, “gastar as últimas canecas de água do poço para cozinhar”.

Lá do seu esconderijo, ficou espiando a mulher. A viúva Carvalho estava usando um vestido preto de mangas compridas, de um tecido que tinha um brilho estranho, parecendo a carapaça de um besouro. Na cintura, trazia um cinto de couro marrom com uma bolsinha. Era ali que ia botando as moedas. Depois de fazerem o pagamento, os clientes eram levados até a varanda, onde um trio de mulheres encurvadas e suarentas despejava comida nos seus pratos. Acima da varanda, via-se um cartaz enorme do presidente Getúlio Vargas em seu uniforme militar. Tinha o peito estufado e um sorriso complacente. Abaixo da foto, vinha a legenda “Pai dos pobres”.

A casa não tinha a cerca de arame farpado dos campos de retirantes oficiais, mas havia soldados ali. Quatro homens armados acompanhavam a multidão, obrigando todos a respeitarem a fila. Luzia se deu conta de que os macacos não estavam no local para protegê-lo dos ataques de cangaceiros, mas para evitar tumultos entre os clientes.

– Existem duas filas – sussurrou Ponta Fina. – A dos que podem pagar e a dos que não podem.

Luzia ajeitou os óculos. Os que não entregavam dinheiro ou alguma joia não recebiam comida e eram levados para um lugar à parte. Ali, um soldado gritava com uma voz meio rouca: “Trabalhar na rodovia! Trabalhar na rodovia!”, e mandava o retirante para uma mesa próxima. Atrás dela, havia dois homens de terno e usando fedoras de um branco reluzente.

– Funcionários de Vargas – sussurrou Luzia.

Ao seu lado, Baiano assentiu.

Um daqueles funcionários mandava os flagelados mergulhar os polegares em tinta e fazer pressão com eles numa folha de papel bem grande. Depois que os homens assinavam, o outro funcionário derramava remédio para piolhos na sua cabeça, entregava-lhes uma trouxa e os mandava de volta para a fila da comida, onde eram prontamente servidos. Se esses operários recém-contratados tivessem mulher e filhos, estes também recebiam uma ração de comida. As mulheres sem dinheiro, sem marido ou sem pai ficavam com fome. De quando em quando, a viúva Carvalho saía da varanda para falar com esse grupo de desesperadas.

A sua cabeça, branca e vulnerável, emergia do vestido preto que recobria o seu corpo como uma armadura. Escolhia uma garota entre essas desvalidas e a conduzia para um lugar à parte na varanda. Ali, já se aglomerava um punhado de outras mocinhas. Luzia não conseguia ver o seu rosto com clareza suficiente para avaliar que idade teriam, mas um detalhe as distinguia do resto das retirantes: os lábios pintados de vermelho. Em comparação com aquela gama de marrons e cinzentos que dominava a caatinga, a boca daquelas mulheres adquiria um brilho obsceno, como uma ferida aberta.

– Que diabo é isso? – perguntou ela.

Ponta Fina grunhiu.

Obedecendo a uma ordem de Luzia, Neném e Maria Magra tiraram o seu equipamento e, de braços dados, dirigiram-se ao quintal da viúva. As duas cangaceiras iam se fazer passar por retirantes e entrar na fila para observar as pessoas que trabalhavam naquele arremedo de campo. Deviam verificar se não havia nenhum soldado escondido e se os funcionários da rodovia estavam armados. Nesse meio-tempo, na caatinga, Luzia atribuiu um alvo a cada um dos seus homens. Nos ataques, Antônio distribuía as tarefas, designando uma vítima para cada cangaceiro. A capitã ficou com a viúva Carvalho.

Lá no quintal, Maria Magra e Neném se persignaram. Era o sinal de que o bando poderia atacar. Luzia assobiou e Baiano foi comandando um pequeno grupo pelo portão da frente.

– Macacos imundos! – gritaram eles. – Viva o Carcará! Viva a Costureira!

Baiano disparou, acertando o cartaz de Vargas. Os macacos agiram exatamente como Luzia esperava: ao ver Baiano e seu grupo, deixaram os seus postos e se voltaram todos para o portão principal. Eram bem-treinados, mas excessivamente ansiosos. Mais que depressa, Luzia e o resto do bando cercaram o quintal, na intenção de realizar um dos velhos golpes de Antônio: a tal “retroguarda”. Assim que os macacos apontaram as armas, os homens sob o comando de Luzia e Ponta Fina vieram cercá-los pelas laterais. Bastaram uns poucos tiros certeiros e os quatro já estavam fora de combate.

Os dois funcionários também tiveram a atitude que Luzia previra. Tão logo foram disparados os primeiros tiros, os sujeitos se agacharam e levaram as mãos à cabeça, amassando os chapéus fedora. No entanto, os retirantes contrariaram todas as suas expectativas. Nos ataques anteriores, homens e mulheres saíam do caminho dos cangaceiros. Escondiam-se dentro das casas ou se agachavam imóveis pelas ruas, à espera do fim do confronto. Mas as pessoas no quintal não largaram seus pratos de lata nem fugiram. Mesmo depois que o tiroteio começou, continuaram todas na fila. Em poucos segundos, já estavam se empurrando umas às outras. De início, moviam-se lentamente, como se quisessem testar a própria força. Antes, porém, que os cangaceiros pudessem detê-las, avançaram para a varanda. A viúva Carvalho tentou rechaçá-las com uma colher de pau bem grande. Mas todas a ignoraram e começaram a enfiar as latas na panela do feijão. Levavam a comida à boca com as mãos, deixando o caldo marrom lhes escorrer pelo rosto. Outras rasgaram as sacas, fazendo com que a farinha se espalhasse pela varanda. E as mulheres, rastejando pelo chão, enchiam as saias com aquele pó branco. As auxiliares da viúva, três mulheres encurvadas que estavam distribuindo a comida, não se afastaram do caos e trataram de se apoderar dos suprimentos da dona da casa.

– Cheguei primeiro! Cheguei primeiro! – gritou um velho, se agarrando para subir à varanda.

No meio daquele tumulto, uma criança começou a chorar.

Luzia apontou a parabélum. Não podia simplesmente atirar para o ar; se a barulheira dos rifles dos cangaceiros não havia assustado aquela gente, não seria uma pistola que ia fazê-lo. Lembrou-se das aulas de tiro que teve com Antônio, ouviu a voz dele nos seus ouvidos: “Se der um tiro, tem de acertar o alvo. Cada bala é preciosa.” Viu um homem forte, parado diante do panelão, enfiando o resto do feijão na boca. Mirou nele. Tentou atingi-lo no braço, mas, por causa da multidão que se aglomerava ao seu redor, acabou acertando o seu peito. O sujeito caiu para a frente. Todos à sua volta ficaram estáticos.

– Recuem – gritou Luzia, com a voz tranquila e grave, do jeito que Antônio fazia. – Calma! Vou lhes dar comida e deixar que fiquem com o seu dinheiro. E com a sua dignidade.

As pessoas a fitaram e, depois, se entreolharam. Todas tinham a cara suja de feijão e os dedos, de farinha. Luzia manteve a arma apontada. Aos poucos, a multidão foi se dispersando. Canjica e Inteligente tiraram dali o corpo do flagelado morto. Ponta Fina e Baiano amarraram os pés e as mãos dos funcionários da rodovia. Luzia mandou que os outros cangaceiros limpassem aquela bagunça e organizassem a distribuição da comida que havia sobrado. Quando a viúva Carvalho tentou entrar na casa, a cangaceira a agarrou pelo braço.

A boca grande da viúva se contraiu num muxoxo. Uns pelinhos finos sombreavam o seu lábio superior. A trança da mulher tinha se desmanchado na confusão. Com o braço livre, ela afastou o cabelo do rosto.

– Onde está o Carcará? – perguntou.

– Por quê? – retrucou Luzia, apertando o braço dela com mais força.

– Quero falar com ele.

– Está ocupado. Quem manda aqui sou eu.

– Então atire em mim – disse a outra, num tom desafiador. – Ande! Vamos lá!

Luzia balançou a cabeça. Mesmo com uma pistola apontada para o peito, aquela mulher só sabia dar ordens.

– Não sou uma das empregadas que trabalha na sua cozinha – respondeu a cangaceira. – Vou atirar quando eu quiser.

– Ótimo – replicou a viúva. – Não faço negócios com mulheres.

Luzia riu, surpreendida com a própria alegria. Estava exausta, faminta e teve medo de que, tendo começado a rir, não conseguisse mais parar. Enxugou a boca na manga do gibão, como se tivesse a esperança de limpar o riso com esse gesto.

– Nem pense em fazer qualquer negócio comigo – disse ela. E, não conseguindo resistir à tentação, acrescentou: – Não confia no seu próprio tipo?

– As mulheres são cruéis – respondeu a viúva, suspirando. – Especialmente umas com as outras. Sei disso porque sou assim. E você também sabe.

Por trás da viúva Carvalho, as meninas de boca vermelha se aglomeravam. Fitavam os cangaceiros com cautela. A mais nova, aquela que a mulher tinha escolhido pouco antes do ataque, não estava de batom. Tinha a boca seca e rachada. Duas fitas desbotadas prendiam as pontas das suas tranças, numa demonstração de que, embora o seu cabelo estivesse despenteado e empoeirado, a menina ainda se cuidava até certo ponto. Ou a mãe cuidava dela. Os seus olhos eram castanho-escuros, com uns cílios compridos. Pareciam os olhos de Emília, e Luzia bem sabia que, se as coisas houvessem acontecido de outro jeito, se ela e a irmã tivessem permanecido em Taquaritinga, podiam ter se tornado vítimas da seca. Emília poderia perfeitamente ser aquela menina de tranças que a fitava com medo e raiva, como uma criança que acabou de apanhar.

– E essas aí? – perguntou Luzia.

– Aqui perto vai haver um canteiro de obras – respondeu a viúva, dando de ombros. – É para lá que elas vão.

– Para fazer o quê?

– Trabalhar.

– Que tipo de trabalho? – insistiu Luzia.

– Cavar a estrada é que não vai ser – respondeu a mulher, estreitando os olhos.

– Qual é a sua graça? – perguntou a cangaceira, dirigindo-se à menina de tranças.

– Doralinda – murmurou ela. – Mas todos me chamam de Dadá.

– Você ainda é moça?

A garota enrubesceu. A viúva Carvalho riu.

– Ela é tão pura quanto a água que a gente bebe – disse ela. – Já não se encontra nada fresco por aqui.

Lançou os olhos aos cangaceiros no quintal e na varanda, lambeu os lábios e, aproximando-se mais de Luzia, acrescentou, num sussurro:

– Cada um dos seus homens pode passar um tempinho com elas. Não vou cobrar muito. Mas vai ter de ser do lado de fora. A minha casa não é um bordel.

Luzia soltou o braço da mulher. Arrancou a bolsinha com o dinheiro que ela trazia à cinta. Algumas moedas caíram na varanda, tilintando no chão de pedra. Quando a viúva fez menção de apanhá-las, a cangaceira agarrou o seu braço de novo.

– O meu marido não me deixou nada – exclamou ela, quase gritando. – Preciso comprar a passagem de trem para o Recife.

– Você vendeu as suas terras para a rodovia. Vargas não lhe pagou?

– Ele me deu uma nota promissória. O meu dinheiro está num banco na capital. Mas tenho que dar um jeito de chegar até lá. Ele mandou soldados e comida, mas não posso ir para a cidade a pé.

– Então você resolveu vender essas moças? – indagou Luzia, indicando o grupo de meninas com um gesto de cabeça.

– Fizemos um trato. Eu lhes dou comida e elas me dão o que os homens da rodovia lhes pagarem para ir para os acampamentos.

– Só porque você é viúva de um coronel – retrucou a cangaceira –, não significa que elas sejam sua propriedade!

– Sei disso. Essas meninas vão porque querem. Não estou apontando nenhuma arma para elas.

A viúva soltou uma risadinha. Luzia encostou a parabélum no seu pescoço, fazendo-a se encolher.

– Elas também não pertencem a você – prosseguiu a mulher, entre dentes, e dava para sentir o seu hálito quente e azedo. – Você e eu não somos diferentes. Você vai distribuir essa comida toda e vai querer algo em troca do seu belo gesto. Eu quero o dinheiro dessa gente. Você quer a sua lealdade. Qual de nós duas está cobrando mais caro?

– Não somos iguais – retrucou Luzia, chegando tão perto do rosto da viúva que parecia querer beijá-la. – Você é uma traidora, vendendo terras para a rodovia.

– Tenho todo o direito de vender! A terra é minha – replicou a mulher, balançando a cabeça. – Faço com ela o que bem entender – acrescentou, movendo o pescoço para tentar encarar a cangaceira. – Por que tem tanto ódio de Vargas? Não foi ele que provocou a seca. Está mandando alimentos. Está fazendo muito mais do que os azuis já fizeram pela sua gente.

– Minha gente? – exclamou Luzia, apontando para as meninas de boca vermelha. – A minha gente está sendo obrigada a se vender por causa dessa estrada. E tem também aqueles homens aceitando trabalhar nas obras sem salário. Isso não é justo. Vargas vai nos escravizar a todos. Ele não está nos ajudando com comida. Está nos comprando. Quem vai ajudar o meu povo sou eu, não ele.

Os olhos da viúva brilharam.

– Está querendo ser uma heroína? – indagou ela, baixinho, como se contasse um segredo. – E Vargas está lhe passando a perna, é isso, não é?

A mulher abriu um ligeiro sorriso. Ela não estava com medo e Luzia queria que estivesse. “Medo é bom”, como disse Antônio certa vez. “Significa respeito.” A cangaceira sentiu uma queimação que lhe subia por dentro, e imaginou-a espessa e escura, como feijão queimado. Aquilo se agitava no seu corpo, queimando as suas lágrimas contidas e transformando-as em uma coisa diferente, em algo perigoso, porém útil.

O vestido da viúva tinha gola dupla – uma parte era alta e justa; a outra se abria em direção aos ombros, formando duas abas largas de um tecido preto bordado. Luzia soltou o seu braço e agarrou aquela gola. Virou-a e inspecionou o seu avesso. Havia ali uns pontos grosseiros em diagonal, indo de um desenho a outro; a costureira teve preguiça de cortar e emendar a linha entre eles.

– Isso aqui é costura porca – disse ela.

A expressão da mulher se modificou: o seu ar antes divertido era agora de incompreensão. Luzia soltou a gola e voltou-se para as meninas de boca vermelha. Algumas tinham tentado limpar o batom e tinham o queixo manchado. A cangaceira ergueu então os olhos e deu com o cartaz do presidente Vargas, o “pai dos pobres”, pendurado ali em cima, com o rosto enorme, a fisionomia sorridente e magnânima. Tentou imaginar o que ela própria estaria parecendo, parada assim debaixo de um rosto tão grande e tão bonito. Uma aleijada faminta? Uma terrível cangaceira? Passou os olhos pela multidão que cercava a varanda. Alguns a fitavam com medo, outros, com ar de dúvida. A viúva tinha razão. Vargas não era inteiramente mau. Era isso que o tornava perigoso. Se viesse a ser o herói do povo, a Costureira e seus cangaceiros passariam a ser os vilões. E já estavam tentando fazer isso pelos jornais, chamando-os de criminosos inúteis. O Dr. Eronildes também estava certo: no coração do povo da caatinga, só havia lugar para um herói. Se Luzia pretendia sobreviver, teria de lutar por esse espaço.

– Vejam o que a estrada de Vargas vai fazer! – gritou então. – Vai transformar mulheres honestas em putas!

Alguns dos cangaceiros arregalaram os olhos, espantados com aquela linguagem grosseira. Alguns cuspiram no chão e rogaram pragas contra Vargas. Muitos dos retirantes balançaram a cabeça, indignados. Luzia apontou então para a viúva Carvalho.

– Ela está se aproveitando da nossa miséria – declarou. – E com a permissão de Vargas, que está lhe mandando mantimentos! Os seus soldados se instalaram aqui e deixam ela vender as nossas mulheres. Fazem de conta que não estão vendo nada.

Ouviram-se uns gritos, praguejando contra a viúva. Luzia pegou então a mulher e a apresentou à multidão enfurecida.

– Não somos iguais – sussurrou ela ao ouvido da velha. – Você fica com o dinheiro deles. Eu prefiro ter as suas boas graças.

Enfiou a mão na bolsinha que ela trazia presa ao cinto e encontrou uma latinha de batom. Abriu-a e meteu o dedo ali dentro. Depois, espalhou um bom bocado daquela pasta na boca fina da viúva Carvalho. Todos riram. Luzia ergueu a mão, pedindo silêncio. Quando as pessoas se calaram, seu coração começou a bater mais depressa.

Havia um mandacaru bem no meio do quintal. A planta tinha uma coroa com vários cilindros verdes, parecendo os dedos de uma mão em concha. O caule era marrom, grosso como o de uma árvore. Dele saíam espinhos do tamanho de agulhas de costura.

– Agora ela vai ver o que é ser forçada a fazer algo – prosseguiu Luzia, sempre aos brados. – Abraçar e beijar quem ela não quer!

Os cangaceiros e os retirantes gritaram, animados. Luzia sentiu uma estranha excitação: o seu rosto estava quente, como se a multidão fosse uma fogueira e ela estivesse se aquecendo ao seu calor. Arrastou então a viúva da varanda e a deixou diante do mandacaru.

– Abrace ele – disse a cangaceira.

– Não abraço – retrucou a viúva, mantendo os braços firmes ao lado do corpo.

Luzia viu a menina de tranças na varanda e se lembrou de Emília. Qual seria a reação da irmã diante dos seus atos? Pensou no seu filho: será que ele teria orgulho de uma mãe que infligia castigos tão cruéis? Sentiu o calor ir se esvaindo do seu corpo. Afrouxou a mão que segurava a viúva, mas a multidão tinha se aproximado.

– Abrace ele! – gritou uma mulher.

– Obrigue ela a lhe dar um abraço! – exclamou um menino.

Todos estavam impacientes. Luzia não podia sair dali desmoralizada. Se tinha de vencer Vargas, precisava satisfazer a noção de justiça daquela gente: um crime público exigia punição pública, como Antônio lhe ensinara. Logo depois da sua morte, tinha pedido que ele a assombrasse. Agora, voltava a chamar pelo marido. Deixou de lado a parabélum e sacou do velho punhal do Carcará que trazia preso à cinta. Apertou-o contra os ombros encurvados da viúva, que soltou um grito seco.

– Abrace bem forte – disse Luzia.

A mulher ficou olhando para o mandacaru e, bem devagar, começou a abrir os braços. Virou o rosto e avançou alguns passos. Abraçou o cacto com tanta cautela que os seus braços mal tocaram os espinhos. Luzia fez um sinal para Baiano. Pelo outro lado, o cangaceiro agarrou as mãos da viúva e as puxou com força. A mulher perdeu o fôlego e inclinou a cabeça para trás, como se tentasse evitar os avanços mais agressivos de um pretendente. Baiano a puxou mais uma vez. Os espinhos do mandacaru lhe atingiram o rosto. A viúva estremeceu. Pontinhos de sangue se formavam na sua face. Tentou erguer a cabeça para fugir aos espinhos, mas sempre que fazia algum movimento o seu peito afundava ainda mais na planta. Durante todo o tempo, não tirou os olhos de Luzia.

– Sua aleijada ignorante! – exclamou ela.

Luzia se lembrou das crianças implicantes e das mulheres fofoqueiras de Taquaritinga. Lembrou-se do apelido Vitrola. Lembrou-se dos seus outros filhos, que saíram dela aos pedaços. Lembrou-se daquele que sobreviveu, Expedito, só para ser levado embora. Lembrou-se do preço considerável que se pagava pela sua cabeça, das inúmeras sepulturas ao longo da velha trilha de gado. Lembrou-se de Vargas e da sua rodovia que retalharia a caatinga. Antônio tinha razão: o presidente faria aquela estrada apesar da seca. Transformaria os retirantes em operários e as mulheres em prostitutas. Olhou então para as meninas na varanda. Eram magras e tinham uma aparência de dar dó, mas o seu olhar revelava raiva, como o dela própria. Aquelas moças podiam aprender a lutar. Podiam aprender a atirar. Luzia as treinaria e, juntas, atacariam a rodovia e dariam uma lição em Vargas, nos coronéis e em quem quer que pudesse duvidar disso: os pobres e os humildes da terra podiam se tornar fortes.

Estendeu o braço bom e segurou a cabeça da viúva com a mão. O crânio da mulher estava quente. A cangaceira lhe deu um ligeiro empurrão. O pescoço da mulher se enrijeceu. Os espinhos do mandacaru desapareceram no seu rosto. Luzia empurrou com mais força. Um daqueles espinhos perfurou uma pálpebra cerrada. Um gemido, brando e infantil, escapou da boca da viúva. Luzia a empurrou até que ficasse quieta, sem oferecer qualquer resistência. Ao seu redor, a multidão comemorava.